Capítulo Onze.
Seus dedos estavam cruzados e seu corpo se balançava de um lado para o outro. Uma empolgação não contida. O clique da máquina fez com que suas pernas parassem e ele cautelosamente avançou, retirando dela o pacote de salgadinho.
"O que você espera achar dentro desses salgadinhos, Parks? Dinheiro?"
Parker se virou assustado ao ouvir a voz do seu melhor amigo e o encontrou com um olhar genuinamente curioso no rosto.
"Um anel."
"Um anel?" – Thomas franziu o cenho e se aproximou. – "Aposto como sua mãe não sabe que nos últimos dias você está gastando toda sua mesada nesses salgadinhos."
"Mamãe não precisa saber." – Parker se sentou na mesa mais próxima do refeitório com seu amigo logo atrás. Com uma de suas mãos dentro do saco, ele começou a procurar pelo brinde.
"Para que você quer um anel, afinal?"
"Eu vou pedir a parceira do meu pai em namoro."
"A tal da Bones?"
Os seus
pequenos dedos se fecharam no brinde, mas ele não o retirou. Ao
invés disso, seus olhos dispararam na direção de Thomas.
"Não a chame de Bones."
"Não é assim que você e seu pai a chamam? Eu já ouvi várias vezes. 'Bones isso, Bones aquilo, Bones é a melhor do mundo'" – Ele soltou uma risada ao imitar Parker e se levantou da mesa, preparado para correr caso o outro tentasse pegá-lo.
"Exatamente, Thomas. Eu e papai a chamamos assim. Para você é Dra Brennan."
"Que seja, Parker. Ache logo esse anel. O intervalo já vai terminar." – Thomas retomou seu lugar ao lado do amigo e observou enquanto ele se concentrava em abrir o brinde. Com os olhos brilhando, Parker vagarosamente se livrou do plástico e se deparou com o objeto em suas mãos.
"Droga." – Os punhos do pequeno acertaram a mesa e ele jogou o colar para qualquer lado, frustrado.
"Dê um colar a ela."
"Claro que não! Capitão fantástico deu um anel a minha mãe quando a pediu em namoro, ou coisa do tipo. Eu quero o anel." – Suspirando pesadamente, Parker apanhou o colar e guardou na bolsa, empurrando o salgadinho na direção do amigo.
"Você não tem chance com a Bo... Dra. Brennan, Parks. Ela é uma mulher. Olhe pra você. Seu pai tem mais chances."
"Meu pai e eu não temos problemas em dividir a Bones como nossa namorada, okay? Nós já a dividimos como parceira. Eu contei a você, Tom, quando eu e ela ficamos sem o papai no museu, eu fui o parceiro dela! Ela disse que eu podia! Foi maravilhoso." – Ele pulava na cadeira ao final da frase e Thomas ria abertamente.
"Você realmente gosta dela, huh?"
"Claro que eu gosto dela."
Ao ouvirem o toque indicando a volta para as salas, os dois se levantaram calmamente dos seus lugares e caminharam para a próxima aula. Thomas continuava rindo, achando graça no comportamento do melhor amigo, enquanto Parker tentava não ficar chateado por tentar diversas vezes encontrar o anel e em nenhuma delas conseguir.
"E você não vai desistir do anel."
"Não vou desistir do anel. Bones merece e é por ela que amanhã eu vou tentar de novo."
BB
Brennan reprimiu um grito e depois outro, ao levantar sua mão e ver o anel azul de plástico que o garoto lhe dera. De repente, ele pesou no seu dedo. A proteção que ela deveria ter lhe dado sendo agora impossível de se conseguir, mostrando-a sua inabilidade de cuidar de uma criança. Ela tinha dito a Booth, que não conseguiria, que não era capaz. Nem dela mesma ela sabia cuidar. Não que ela fosse admitir. Mas se não fosse por ele, comer e dormir estariam longe do topo na sua lista de prioridades há anos.
Levando sua mão até os lábios, ela beijou o anel e fechou os olhos enquanto a primeira lágrima descia pelo seu rosto. O grito de desespero dele ecoava em seus ouvidos e lembranças de finais de semana recentes invadiam sua mente. Quadro após quadro. Momentos atrás de momentos. O dia em que ele a havia pedido em namoro. Onde tudo entre ela e Booth havia de fato começado. Tudo por causa dele.
Uma imagem dele sorrindo ao ver os dois adultos de mãos dadas caminhando em sua direção foi o que a fez levantar do chão e limpar o rosto. Brennan respirou fundo e sentiu sua ferida voltando a latejar, mas a ignorou, encontrar um meio de sair dali era seu novo objetivo. Ela cautelosamente se aproximou da parede mais próxima e analisou as fotos a sua frente. Todas elas retiradas de revistas ou jornais e as respectivas matérias penduradas ao lado. Nos papéis ao lado de algumas fotos, ela identificou uma caligrafia masculina, muito provavelmente do perseguidor, comentando sobre o que se via na imagem.
Após uma rápida observação em todas as paredes ocupadas com material sobre ela no aposento, Brennan percebeu que tudo aquilo estava sendo organizado em ordem cronológica. Fazendo a escolha mais lógica, ela encontrou o ponto de partida e quase sorriu ao ver uma foto dela e de Booth no começo da carreira. O pedaço de papel amarelo logo embaixo da foto dizia: Parceiros ou amantes? – Mais à frente, uma foto que ela lembrava ser de um baile beneficente em que ela e Booth dançaram juntos, servindo de comentário por uma semana para Angela – que fez questão de selecionar a imagem para a revista quinzenal do Instituto – e tinha como comentário: Mais do que apenas parceiros? – Brennan revirou os olhos quando a sua mais recente dedicatória apareceu em uma foto, mas seu corpo imediatamente travou ao ler o que estava escrito no papel amarelo: Seeley Booth, namorado. Torcer para o fim desse relacionamento.
"Eu não gosto do seu namorado." – O grito de desespero se transformou em um de susto ao ouvir a voz do autor daquelas palavras alguns metros atrás dela. Virando-se com suas mãos trêmulas, Brennan o encarou. – "Você era minha, Tempe. Quem esse tal de Seeley Booth pensa que é?"
"Ele é meu parceiro."
"Você não acha irônico, Tempe?" – Ele cruzou os braços e deu um passo na direção dela. Brennan deu outro para trás e bateu em uma mesa. – "Você não podia ser dele, então um avião caiu e matou você. Agora seu querido namorado está sozinho. Sem você. Sem o filho. Ninguém, Bones."
"Não me chame de Bones."
"Okay, okay, Tempe. Qualquer coisa para agradar você."
"O garoto. Me devolva o garoto."
"Ele está morto!"
Brennan sentiu o sangue correr do seu rosto e suas pernas formigarem a tal ponto em que ela precisou se segurar na mesa para não desabar.
"Seu
filho da mãe, você não podia tê-lo matado! Você..."
"Eu
não o matei, Tempe! O avião matou vocês dois!"
Em dois passos largos, o desconhecido a segurou pelos dois braços enquanto Brennan se recuperava do mal entendido. Um suspiro de alívio escapou seus lábios e ela assentiu, desvencilhando-se do aperto dele.
"Traga-o de volta. Por favor."
"Eu irei, Tempe. Só quero alguns minutos a sós com você." – Ele sorriu, tentando parecer charmoso, mas ficando apenas ainda mais assustador, e a tocou de leve em um lado da face.
"Não... você não pode tocar em fantasmas." – Brennan tentou dar um passo para o lado, mas a outra mão dele na sua cintura a impediu.
"Eu já disse que nem tudo é como estão nos livros. Tempe." – Ele a pressionou totalmente contra a mesa e desceu seu nariz para o pescoço dela. – "Você cheira tão bem." – Ele inalou profundamente e se afastou, um sorriso ainda maior no seu rosto. – "Booth teve sorte de ter tido você. Uma pena que foram por poucos meses, huh? Espero que ele se recupere dessa perda e que encontre outra antropóloga para sair com ele em breve. Talvez ela lhe dê outro filho. Outro Parker. E então ele será feliz de novo. Sem vocês."
Soltando uma gargalhada, ele alcançou a porta e a fechou com uma batida que fez a cabeça dela vibrar e sua visão ficar turva. Encostando-se na mesa, Brennan não teve o tempo necessário para se recuperar até ouvir os pequenos passos de Parker correrem em sua direção.
"Bones?"
"Ela está bem, garoto." – O perseguidor passou por eles e depositou frutas e mais água na mesa onde ela se apoiava. – "Aproveitem mais esse tempo juntos. Comam. E sim, fantasmas podem comer, Tempe. Por que não?"
"Ele é louco, Bones. Nada do que ele está dizendo sobre fantasmas está certo." – Parker usou seu tom conspiratório assim que o homem saiu e esperou uma resposta dela. Ainda sem focar-se nele, Brennan apenas assentiu com a cabeça. – "Bones? O que ele fez com você?"
Olhando diretamente para a criança, ela procurou por sinais de feridas e não encontrou nenhum. Puxando-o silenciosamente na sua direção, Brennan abraçou-o, depois conduziu os dois até o fundo do cômodo e sentou-se no chão. Parker hesitou e se ajoelhou ao lado dela, estudando-a de perto.
"Fale comigo, Bones." – Sua voz demonstrava medo e Brennan abriu um pequeno sorriso para acalmá-lo.
"Ele não fez nada, Parker. Eu estou bem."
"Você tem certeza?"
"Tenho." – Ela indicou seu colo e esperou que o garoto se posicionasse nele. – "Ele fez algo com você?"
"N-Não, Bones."
Ela delicadamente levantou o rosto dele para olhá-la.
"Você também não sabe mentir, Parker."
"Ele disse coisas sobre o papai..." – Ele desviou seus olhos dos azuis dela. – "Que agora ele está sozinho e sem nós dois. Que ele vai encontrar outra mulher e ter outro filho. Mas Bones," – Os olhos dele encheram-se de lágrimas e ele enterrou sua cabeça na volta do pescoço dela, suas mãos achando as dela e apertando-as.
"Tem uma história que eu não contei a você, Parker."
Ele franziu o cenho e seus olhos encararam os dela.
"Nós pegamos o avião errado até aqui. Eu me confundi com os portões, mas só percebi quando desembarcamos."
"Por isso você precisou passar um tempão conversando com aquela moça no aeroporto quando chegamos?"
"Isso. Você lembra que lá em D.C., antes de seu pai se despedir, nós ficamos com ele em uma fila?"
"Lembro. Ele disse que era o chek-check,"
"Check-in."
"Isso!"
"Você
sabe o que isso significa?"
"Não."
"Check-in é quando nós confirmamos nossas passagens e então, ao fim dele, nós temos nossos nomes confirmados na lista de passageiros."
Parker acenou positivamente com a cabeça.
"O avião que nós deveríamos estar, o avião certo, caiu poucos minutos depois da decolagem e explodiu. Todos os passageiros morreram. E..." – Brennan engoliu em seco. – "E ao divulgarem a lista de passageiros, nossos nomes estavam lá. Destacaram o meu por eu ser uma escritora e antropóloga conhecida e o seu por estar comigo e a quem eu dediquei o livro."
A boca do garoto abriu em surpresa e ele se sentou mais reto no colo dela, interessado. Ao juntar os pontos na sua cabeça, Brennan viu a angústia passar nos olhos dele.
"Papai...
papai achou que..."
"Sim, seu pai achou que nós tínhamos
morrido. Os squints acharam. Sua mãe achou."
Ele novamente acenou com a cabeça.
"Assim como esse maluco ainda acha. É por isso que ele tem certeza que estamos mortos, Bones?"
"É exatamente por isso."
"Papai está bem, Bones? E mamãe? Os squints?" – Ela sorriu diante da delicadeza do garoto e acariciou o seu rosto.
"Depois que eu falei com seu pai, todos ficaram sabendo que estávamos bem e ficaram felizes de novo."
Parker relaxou visivelmente sua postura e voltou a encostar sua cabeça no ombro dela onde caiu no sono segundos depois. Brennan inconscientemente cantarolou algumas músicas que lembrava da sua infância no ouvido dele e só foi interrompida quando a porta novamente se abriu e desconhecido entrou, sua forma parando ao deparar-se com a imagem a sua frente: a cientista com o rosto perto do da criança e seus braços apertados em volta dele que dormia pacificamente.
"Você realmente gosta desse garoto, não é?" – Ele sorria debochadamente e Brennan sentiu um frio na barriga.
"Você sabe que sim. Você é meu fã número um, não é mesmo?" – Ela tentou amenizar e abriu um sorriso forçado.
"Você não devia ter dito isso, Tempe. Você sabe como eu sou ciumento." – Com seus passos largos, ele alcançou os dois e se agachou. – "E possessivo." – Com um movimento rápido e brusco, ele puxou Parker dos braços dela e pegou-o nos seus, botando-o de pé quando o menino ainda acordava assustado.
"Não!
Deixe-o aqui. Você terá toda a atenção que quiser."
"Não
para o que eu quero a seguir, Tempe."
"Bones?" – Parker esfregou os olhos com as costas da mão e olhou ao redor, sua visão embaçada assim como sua mente. As mãos do homem o arrastavam para longe enquanto seus ouvidos captavam apenas os gritos dela.
"Parker!"
BB
"Agente
Booth?" – A voz da recepcionista fez com que ele chacoalhasse a
cabeça e tirasse a imagem dos dois dela. – "Encontrou algo
útil?"
"Não." – Ele respondeu saindo do banheiro,
olhando mais uma vez ao redor e encontrando tudo em ordem. – "Tudo
parece estar normal aqui."
"Eu concordo." – Eles saíram do quarto e Booth esperou a mulher trancá-lo. – "Eu ainda acho que os dois se perderam, agente Booth."
"Não, você não entende. Temperance conhece essa cidade. E se ela tivesse se perdido, já teria me ligado ou achado um jeito de voltar até aqui. Ela teria atendido minhas ligações."
"Geralmente os mesmos táxis ficam parados aqui na frente do hotel, o senhor deveria tentar encontrar o taxista que os levaram hoje mais cedo. Ele provavelmente se lembrará da sua mulher e do seu filho."
Booth concordou com a cabeça e os dois pegaram o elevador até o saguão. Retirando da carteira a foto que Brennan e Parker haviam tirado no dia da primeira visita ao museu do Jeffersonian, ele percorreu cada táxi fazendo sempre a mesma pergunta.
"O senhor se lembra de ter levado essa mulher e esse garoto como passageiros hoje de manhã?"
Da quarta vez, ele recebeu a resposta que procurava.
"Sim, senhor."
"O senhor lembra para onde os levou?"
O homem de cabelos grisalhos e olhar gentil abriu um sorriso com alguma lembrança que Booth desconhecia.
"Minha idade na maioria das vezes não permite que eu lembre o itinerário dos meus passageiros, mas a conversa deles estava bem animada e eu acabei prestando atenção em boa parte dela. Sua esposa não parou um segundo de explicar como a rua em que eles iriam era movimentada e cheia de coisas que o filho de vocês iria amar. Quando chegamos a tal rua, eu confirmei o que ela disse. Eu observei-os por um tempo se perdendo no meio das outras pessoas até eles entrarem em uma loja de roupas. Algo chamou a atenção dos dois na vitrine."
"O senhor poderia me levar até lá?"
"Claro, senhor. Sem problemas."
Booth bateu a porta do carro e pela primeira vez naquele fim de tarde, deixou-se ter esperança.
