10.
- Você não pode dizer o seu nome, não é? – Joan falou, tentando ver o rosto do seu salvador. – Eu entendo, vocês adoram máscaras e uniformes... – sorriu. – Eu sou Joan Lane. Do Planeta Diário. Queria muito conversar com você sobre suas ações de salvamentos. Talvez você seja o herói que Metropolis precisa.
Clark a olhou de alto a baixo. Joan era loira, usava franja, seu olhar era ansioso, mas ele também via sua sagacidade. Estava chocado por existir uma Lois Lane naquele mundo, mesmo que com outro nome. Não à toa, CL não sabia sobre a existência da mesma. Fazia sentido. Clark viu o flash da câmera de Jimmy e saiu voando diante dos olhares fascinados dos dois repórteres.
- Uau! Ele voa! – Jimmy exclamou.
- Um super cara... – Joan sorriu, animada. – Ele é arisco, mas não esperava outra coisa. Mas duvido que seja o tal CL, Ultraman ou o que fosse. Reparou que ele derrubou os bandidos mas não matou ninguém? Temos um novo super cara na parada e eu tenho cada vez mais certeza disso.
- É, e ainda bem que ele apareceu, né, Joan, porque se dependesse de você nós estávamos fritos! – reclamou Jimmy.
Joan revirou os olhos.
- Ai, Jimbo, menos! Conseguiu tirar uma boa foto pelo menos?
Jimmy olhou para a tela da câmera.
- Não. Ele é muito rápido. É só um borrão azul e vermelho.
- Hum... Tudo bem. Foi nossa primeira tentativa.
- Espera, você vai tentar mais uma maluquice?! Qual o próximo passo? Se jogar do alto de um prédio?
- É uma ideia. Ele voa, pode me pegar no ar. – ela disse, sapeca.
- Joan, não fala isso nem brincando. – pediu Jimmy. – Agora vamos pra casa, preciso dormir e colocar gelo nessa mão.
Joan sorriu e deu carona para Jimmy voltar pra casa.
-x-
Clark pousou na fazenda e entrou em casa. Ele ainda estava totalmente surpreso. Jonathan estava assistindo TV.
- Salvando a noite, garoto?
- Sim, quer dizer, não sei. Eu... – ele sentou no sofá e Jonathan franziu a testa sem entender. – Eu conheci a Lois daqui.
- Você disse que não existia uma Lois nessa realidade.
- Era o que eu pensava e CL também. Ela tem um nome diferente: Joan Lane. Trabalha no Planeta Diário.
- E deixa eu adivinhar: agora sim você vai trabalhar naquele jornal, não é? – Jonathan deu um sorriso astuto.
- Sim. Quer dizer... – Clark coçou a cabeça. – Eu nem sei como é a vida dessa Joan... Ela pode estar com alguém, sei lá. E eu também não posso me aproximar achando que ela será igual à Lois. Já percebi que as vidas dos sósias da Terra 1 são diferentes na Terra 2. Mas não nego que estou muito curioso.
- Amanhã você pode matar a curiosidade quando for ser entrevistado por Perry White.
- É verdade. – Clark não conseguiu evitar de sorrir. Pela primeira vez, sentia esperança.
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Dia Seguinte
Planeta Diário
Clark colocou o óculos de aro preto e ajeitou a gravata. Iria assumir a persona de um pacato repórter. Entrou no jornal e procurou Joan com os olhos, mas não a viu na redação. Entrou na sala do editor-chefe e trocou um aperto de mão com o mesmo.
- Sr. White, eu sou Clark Kent.
- Como vai, Kent. Sente-se, eu estava dando uma lida no seu currículo. Sabe que por um momento pensei que você fosse Clark Luthor?
- Não, eu não sou, mas isso explica os olhares de algumas pessoas quando entrei aqui.
- Aquele rapaz não tinha a melhor das famas. – Perry leu o papel. – Você, ao contrário, é muito bem recomendado.
Clark foi entrevistado por Perry que gostou do jeito do rapaz.
- Parabéns, Kent. Você tem o perfil que procuramos.
Nesse momento, Joan entrou toda afobada na sala e Clark mexeu no óculos, olhando para ela.
- Chefe, grandes novidades! O Space One será lançado amanhã, mas recebi denúncias que pode não estar tão pronto para ser lançado! Vou ao Centro Espacial! Uma coisa patrocinada pela LCM sempre se tem que ter o pé atrás!
- Lane, você não está vendo que estou entrevistando alguém?! – apontou para Clark. – E você não vai! O Space One foi vistoriado milimetricamente e por isso a LCM ganhou a concessão!
- Ah me poupe, Chefe, você sabe muito bem que os Luthor compram as pessoas!
- Lane, você ao menos tem provas disso?!
- O Dr. O'Conner quem os denunciou e...
- Aquele homem foi afastado do projeto por que teve um surto psicótico!
- Isso que Lex queria que todos pensassem! O Dr. O'Conner é um gênio e foi ele quem projetou o Space One! Por favor, Perry!
- Por favor, digo eu, Lois!
Clark arregalou os olhos. Joan se chamava Lois!
- Joan! – ela corrigiu. – E eu posso conseguir as provas!
- Então consiga e depois falamos sobre suas teorias da conspiração! E o Kent vai te acompanhar!
- O que? Não preciso de ninguém na minha cola! – ela protestou e Perry bufou. – E quem é esse cara?!
- Clark Kent. – o próprio se apresentou.
- Joan Lane. – ela o cumprimentou. – Olha, cara, eu sei que você está começando, mas não tenho paciência pra ser babá, muito menos professora.
- Joan, nem começa! – Perry gritou. – Clark Kent vai com você e pronto! É uma ordem! – ele mandou antes que ela protestasse de novo. – Vá atrás do O'Conner e consiga as provas! Caso contrário, nada de matéria! Esse é um dos maiores jornais do mundo, não podemos publicar suposições!
- Ok! Mas depois não diga que não sei trabalhar em equipe! – Joan saiu da sala.
Perry mediu a pressão.
- Um dia ainda enfarto nessa profissão... – estendeu a mão para Clark. – Seja bem-vindo ao Planeta Diário.
- Obrigado, Sr. White.
Clark saiu da sala do editor-chefe e viu Joan arrumando a bolsa para sair. Ao contrário da Lois da Terra 1, Joan tinha sua mesa bem organizada, mas seu nome na plaquinha estava em cima de dois livros grossos, deixando bem destacado. Clark sorriu consigo mesmo. Havia coisas que não mudavam. Se aproximou dela.
- Srta. Lane...
- Ah, você! – ela o fitou. – Escuta, garoto de fim do mundoville. Eu tive que aceitar essa ''parceria'' mas fique sabendo que quem manda aqui sou eu! Você escuta e eu falo! Você anota e eu faço as perguntas! Você fica por baixo e eu por cima! Capisce?
Clark mexeu no óculos. Talvez Joan não fosse tão diferente assim da outra Lois...
- Entendi. Você gosta de ficar por cima. – ele disse em tom de duplo sentido.
Joan estreitou os olhos e Clark segurou a vontade de rir.
- Não tente bancar o espertinho, Kent. Você está fora da sua Liga, Smallville!
Joan saiu andando para entrar no elevador e Clark a seguiu com um sorriso inevitável. Fazia muito tempo que não escutava aquele apelido.
Joan e Clark chegaram ao prédio onde Dr. O'Conner morava. Um rato passou correndo entre os pés deles e Joan fez cara de nojo.
- Hum, parece que faz tempo que não limpam as coisas por aqui... – comentou Clark.
- Você acha? – Lois bateu na porta do apartamento e ela abriu. – Dr. O'Conner? – Joan entrou no local e deu um grito. – Oh meu Deus!
- Lois! O que foi?! – Clark correu ao encontro dela, preocupado.
- É Joan! – ela o corrigiu e depois apontou para cima. – Olha...
Os dois viram o cientista pendurado por uma corda no pescoço. Estava morto. Joan segurou as lágrimas. Clark colocou a mão no ombro dela para consolá-la.
- Sinto muito...
- Melhor chamarmos a polícia...
Joan estava encostada na parede quando Clark se aproximou dela. A polícia havia isolado o local e fazia a perícia.
- Não acredito que ele tenha se matado. Ele tinha mulher e filha e falava delas com brilhos nos olhos. Ele queria voltar pra casa depois de tudo ser esclarecido. – contou.
- Sempre é chocante ver alguém sem vida. Não sabemos lidar com a morte. – filosofou Clark. Ele falou em voz mais baixa. – Antes da polícia chegar, eu peguei alguns dos papéis que estavam lá cheio de anotações. O que você acha?
Joan o olhou com interesse pela primeira vez.
- Você não é tão lerdo quanto parece, Smallville!
- Vou entender isso como um elogio... – ele ironizou levemente.
- Entenda como quiser. Estão com você? – ela indagou e ele assentiu. – Vamos sair daqui e ler tudo com cuidado. Vem. – ela o puxou pelo braço. – Gosto de café?
- Gosto sim.
Joan levou Clark até o MetroCafé. Ele olhou em redor e não viu Martha.
- Vou pedir um café e a gente vai analisar isso lá em cima. – Joan disse e pediu dois cafés e bolinhos. Foi então que Clark viu Martha saindo da área da cozinha e indo para a bancada.
- Joan, você a essa hora aqui? – perguntou Martha, que olhou para o nervoso Clark. – Quem é esse? Seu amigo?
- Não, é o meu parceiro forçado que Perry me fez engolir a seco. Apesar da cara, ele é bem vivo.
- Joan, isso é jeito de falar de um colega de trabalho? – repreendeu Martha. – Não ligue pra ela, Joan às vezes fala demais, mas não é por maldade.
- Tudo bem... – ele estendeu a mão. – Clark Kent.
- Kent? – Martha ficou surpresa e só então olhou com atenção para Clark. – Oh meu Deus... Clark? É você? Você voltou?
- Ahn... – Clark gaguejou.
Joan olhou para Clark de alto a baixo.
- Olha, agora que reparei. Você se parece com Clark Luthor, só que ele não tinha esse ar de bobo.
Clark mexeu no óculos. Joan era tão desbocada quanto Lois. Às vezes não sabia se a amava ou odiava.
- Não sou Clark Luthor. Não tenho nenhuma ligação com aquela família.
- Sorte sua, Smallville.
- Smallville? – Martha repetiu, sem compreender.
- Eu acho que ele tem cara de Smallville. – Joan piscou, sapeca e Clark apenas balançou a cabeça, já acostumado com o jeito da repórter.
- Vocês são... mãe e filha? – sondou Clark.
- Não. – Martha respondeu. – Fui casada por um breve tempo com o pai de Joan, o General Sam Lane e me afeiçoei à ela e à Lucy. Aliás, ela mandou um cartão da Bélgica, Jo.
- Hunf, imagino o que deve estar fazendo lá. – Joan ironizou.
- Clark, posso te fazer uma pergunta? – Martha indagou.
- Claro.
- Você conhece Jonathan Kent?
- Na verdade estou morando na fazenda dele.
- E por quê? Você é parente dele? – quis saber Joan.
- Não. Só temos coincidentemente o mesmo sobrenome, mas não sou daqui. Cheguei a pouco tempo em Metropolis e o Sr. Kent gentilmente me acolheu. Ele e meu pai eram muito parecidos.
- Eram? – Joan quis saber, sempre curiosa.
- Meu pai morreu há alguns anos, mas ele e o Sr. Kent tem muito em comum.
- Ah... Sinto muito.
- Sinto também. – disse Martha. – Bem, seja bem-vindo à que você e Joan façam grandes matérias juntos. Agora com licença, tenho que cuidar do Café. Foi um prazer conhecê-lo.
- Digo o mesmo.
Clark acompanhou Martha com o olhar, lembrando de sua mãe na Terra 1. Joan reparou.
- Ela é divorciada, mas não gosta de garotinhos.
- Ahn?! – Clark ficou surpreso. – Não, não é nada disso, Joan! Ela me lembra a minha mãe.
- Ah tá. – Joan coçou a nuca para disfarçar a gafe. – Vamos analisar as anotações do Dr. O'Conner?
- Claro.
Joan e Clark subiram para o segundo andar e Martha ficou pensativa. Lembrou de seus momentos de felicidade com Jonathan e tudo que foi perdido quando ela teve um aborto espontâneo. Suspirou e continuou trabalhando.
Joan e Clark analisaram cada anotação e Joan começou a andar de um lado para o outro.
- Isso só me faz ter certeza de que o Dr. O'Conner não se suicidou. Ele tinha grandes planos e sonhava com a recuperação da filha.
- Você acha que foi algo forjado... Mas por quem?
- Não posso acusar ninguém de algo tão grave... Mas posso fazer com que saibam que o Space One teve seu projeto alterado por cientistas da LCM. Vou ao Centro Espacial ver de perto.
- Você não tem medo?
- Se eu tivesse medo não seria repórter. – ela empinou o queixo. – A morte do Dr. O'Conner não pode ser em vão, Clark! E se o Space One estiver mesmo alterado, vidas estão correndo perigo, não esqueça que cinco pessoas vão embarcar no ônibus espacial, incluindo a esposa e a filha do Dr. O'Conner!
- Tem razão. Espero que nos escutem.
- Hum, sim. – ela pegou o cartão enviado por Lucy e bufou. – Lucy disse que tem novidades e em breve eu vou saber o que é. Já estou vendo o General dando um ataque de pelanca... Lucy e as suas novidades sempre causam algum terremoto.
- Talvez seja algo de bom dessa vez. – disse Clark, otimista.
- Você não conhece Lucy, Smallville. Vamos ao Centro Espacial.
-x-
Centro Espacial de Metropolis
Joan e Clark foram falar com a chefe do projeto e a mesma se derreteu para Clark, fazendo Joan rolar os olhos. Porém, a mulher não esclareceu nada e manteve o mesmo discurso da LCM, o que não convenceu Joan nem por um segundo. Tanto que ela convenceu Clark a se esconder para os dois bisbilhotarem por ali.
- Joan, não sei se é uma boa ideia.
- Ai, Clark, nem vem. Enquanto você ficava jogando seu charme barato pra doutora exibida, eu prestei atenção nas coisas e ela estava mentindo. E eu quero saber o porquê.
- Charme barato? – ele repetiu. – Eu não joguei charme nenhum!
- Verdade, você não pode usar o que não tem. – ela desdenhou.
Clark a olhou meio ofendido e Joan continuou a fuçar. Tirou uma câmera da bolsa e deu para Clark.
- Faça alguma coisa de útil e tire fotos.
- Sabia que você é muito mandona?
- Sabia que é melhor falar menos e fazer mais? – ela rebateu.
- Olha só quem fala, alguém que parece que engoliu um rádio. – ele revidou.
- Olha aqui, Smallville, eu posso não ter o seu tamanho, mas sei bater muito bem!
- Gostaria de ver você tentar. – ele deu um sorriso confiante e tirou fotos.
- Não provoque quem você não pode vencer.
- Eu digo o mesmo aos dois. – uma voz ameaçadora falou.
Os dois repórteres olharam para trás e viram a chefe do projeto e um capanga armados apontando os revolveres para eles. Joan e Clark ergueram os braços em rendição. Foram amarrados em uma coluna e a mulher roubou um beijo de Clark, diante do olhar irritado de Joan.
- Uma pena você estar contra mim, Sr. Kent. Poderíamos ter nos divertido muito.
- Abrindo e fechando pernas, certamente. – resmungou a emburrada Joan.
Clark preferiu ficar quieto. A mulher revidou à Joan.
- Pelo menos, não terei a sua carreira curta, Srta. Lane. Adeus.
A mulher ligou a contagem regressiva de uma bomba, deixando Joan desesperada.
- Ai, droga, não era assim que queria terminar minha carreira! Nem o Pullitzer ganhei!
- Calma, Lois, vamos dar um jeito de sair daqui... – Clark tentou acalmá-la.
- Joan! – ela gritou. – Ninguém me chama de Lois, só o meu pai quando quer me dar uma bronca: Lois Joanne Lane, o que você fez dessa vez?! – ela imitou o tom de voz do pai. – E eu fazia muita coisa... Fui para o baile da escola no Ensino Médio com um tanque de guerra. O General quase teve um ataque apoplético. – ela riu e Clark achou graça.
- Eu acredito. Você tem cara de quem poderia colocar fogo em uma casa.
- Hum, não cheguei a tanto, mas já fiz bastante besteiras. Inclusive escolher caras errados. Nisso, eu sou expert.
- Bem-vinda ao clube.
- Quer dizer que o escoteiro não está sempre certo? – ela brincou.
- Bem longe disso. Vim parar aqui por causa das minhas escolhas. Eu quis compensar um erro... Eu vacilei bastante.
- Ah, isso é normal, Clark. Todos nós já pisamos fora da linha uma vez na vida. – ela disse, compreensiva. Olhou para a bomba. – Clark, está acabando a contagem! Olha, desculpa por ter sido chata com você. Eu sou pentelha assim mesmo. E também é trauma, eu fui muito podada quando morei na Alemanha e trabalhei no jornal de lá. Os dois homens que foram meus parceiros, queriam os créditos para si. Achei que você poderia ser como eles.
- Eu nunca faria isso, Joan. Eu sei respeitar o trabalho alheio. – ele disse, sincero.
- É, tudo bem. Pena que acaba por aqui. Nem poderemos ser amigos.
- Poderemos sim, Joan.
A contagem terminou e Joan fechou os olhos. Ouviu a explosão e achou que tinha morrido. Mas logo se viu do lado do galpão onde foram colocados e no colo de Clark, que pousou no chão. Os olhos verdes dela só faltavam saltar das órbitas.
- O que? Como pode? Quem é você?
Clark apenas sorriu timidamente.
