NA: De novo, não consegui responder às reviews do capítulo extra, mas prometo responder assim que possível! Queria postar esse capítulo hoje, porque esse final de semana respirarei livros e comerei a matéria das minhas provas da semana que vem!

Summer A: Oi, querida! Fiquei hiper feliz que você gostou de Marino e Andrej! Haverá mais extras com os dois sim, e uma participação muito importante no último capítulo da história, hehehe! Eu não tinha pensado numa versão do Marino, mas adorei a ideia! Muito obrigada pelo carinho! Beijoos!

Letícia santos: Oi, minha linda! A Pansy é demais, né? Ela sempre ajuda o Draco quando ele precisa, hehe! Não tem como não querer ajudar esse loiro fofo! E o Harry... ah, ele tem seu lado galinha, mas ele se rediiime, hahaha, prometo! Espero que goste desse capítulo, eu estava louca por postá-lo! Beijão!

S. R. Malfoy: Oi, amada! Ah, sim, eu adoro o Andrej também, ele é muito fofo e amável! E já conquistou o Marino, ao menos em parte, pois o homem está mesmo balançado com ele. A situação é meio detestável mesmo, mas o Marino é boa gente, heeheh! *.* E adorei o que você falou sobre esgrima, é exatamente isso, um momento só deles, eu adorei escrever todas as cenas envolvendo isso, e sempre pensava que queria saber mais de esgrima para ficar mais real, mas né, sou uma zero esquerda com quase tudo, auhauahua! (o Mordred tem seus momentos fofos, uahauahua)! Beijos!

Joana Malfoy: Oi, fofa! Ah, o Andrej foi colocado numa situação complicada, mas ao menos foi por alguém com consideração, certo? O Marino não é má pessoa! :D

InoMx: Oi, linda! Eu ri da sua indignação, pobre Andrej, ele andava louco para dar um beijo no Draco... e o Draco levou um baita susto com o beijo! uahauahu! Aí empurrou, mas não foi com a intenção de machucar, coitado, é inexperiente com essas coisas!

Matheus: Own, fico muito feliz que tenha achado! Farei mais extras com os dois sim, estou para escrever o próximo assim que possível! O Marino é boa pessoa, ele é incisivo e vai ao limite quando quer algo, mas ele jamais machucaria gratuitamente alguém inocente... hehehe! Obrigada, beijokaaas!


Era uma Vez em Veneza

.8.

Eu empurrei levemente a porta, e vi com desgosto que Cho Chang estava no quarto, com Harry. Felizmente, ambos estavam vestidos, mas eu sabia que não seria por muito tempo, então me afastei. Ainda não era tão tarde. Fazia semanas que eu não conseguia ficar, como costumava até pouco tempo atrás, no quarto de Harry, lendo, estudando ou conversando, pois Cho Chang estava sempre por lá.

Ela parecia estar sempre por perto, agora. Eu me perguntava quando ela iria embora, quando voltaria para o Oriente e nos deixaria em paz. Harry jamais falava sobre ela quando estávamos juntos, e quando eu a desprezava com indiretas desgostosas, ele apenas deixava que eu falasse, como se não se importasse.

Minha opinião não lhe era importante.

Com um suspiro resignado e uma forte vontade de quebrar alguma coisa, afastei-me da porta e segui para o primeiro andar. Cheguei ao corredor dos quartos dos empregados, e fui para a porta de Anna. Bati suavemente e entrei. Vi-a dormindo tranquilamente na cama estreita, a janela aberta oferecendo uma boa visão da lua cheia. O Sirocco já não era tão forte; já estávamos na primavera.

Sentei na cama e cutuquei seu ombro.

"Anna..." Chamei. Ela não costumava dormir tão cedo. Geralmente ficava até tarde estudando com os livros e materiais que eu conseguia para ela. O dia devia ter sido cansativo.

Anna resmungou e abriu os olhos, piscando algumas vezes ao me ver ali.

"Draco...? O que houve? Está tudo bem?" Ela perguntou com a voz engrolada de sono, enquanto se sentava e esfregava os olhos.

"Não... Cho Chang está com Harry. Eu não aguento mais essa mulher." Torci os lábios e sentei melhor na cama. Os cabelos de Anna estavam desgrenhados e ela usava uma longa camisola de linho branco, bastante simples e sem formas. Eu sempre me sentia pomposo demais perto dela, com minhas vestes caras de seda.

"É tão estranho..." Anna bocejou. "O Sr. Potter nunca havia ficado tanto tempo com a mesma mulher. Me pergunto o que ele viu nessa Cho Chang. Quero dizer, ela é linda, mas mesmo assim, tem um jeito tão insuportável."

"Nem me lembre." Resmunguei.

Anna me encarou divertida.

"Você é tão ciumento." Ela apontou. "Sabe, acho que deve ser normal, afinal, você nunca teve realmente de dividir Harry com mais ninguém, mas às vezes me parece... que seu ciúmes vai muito além disso."

Arregalei os olhos e corei fortemente. Eu era tão óbvio assim? Se Anna havia percebido, porque não todos os outros, e até mesmo Harry? Envergonhei-me fortemente com a possibilidade.

Anna soltou uma exclamação abafada de surpresa ao perceber meu constrangimento.

"Eu estou... certa?" Ela perguntou, cuidadosa.

"Sim." Falei, e então contei tudo. Ela me escutou em um silêncio agitado, remexendo-se sobre a cama a cada segundo, aguardando cada uma de minhas palavras com ansiedade, seus olhos brilhando mais do que nunca. Quando terminei, ela se jogou em cima de mim e me abraçou.

"Ah, isso é tão legal!" Ela exclamou e segurou-me pelos ombros. "A gente precisa dar um jeito de se livrar dessa Cho Chang. Não... não... precisamos pensar em um jeito de verificar se o Harry sente algo por você. Ai, eu acho que sim, sabe? Aquele jeito que ele olha para você... que eu comentei uma vez, lembra? Seria tão adorável se vocês ficassem juntos, que nem Sirius e Remus! Sinceramente, eu acho você muito melhor do que qualquer das mulheres que vivem se jogando em cima dele, principalmente essa Cho Chang!" Anna tagarelou sem parar.

"Anna, acalme-se!" Revirei os olhos. Anna e seus delírios apaixonados. Não havia nada de mais nos olhares de Harry. "Eu não sei se devo fazer alguma coisa... Se Harry está com Cho Chang, eu não deveria interferir. É a vida pessoal dele, não devo meter o nariz no que não me diz respeito."

Eu falava isso, mas o que eu mais queria era que Cho Chang sumisse.

"Mas você o ama!" Anna voltou a exclamar, com furor.

Eu fiquei em silêncio, deitado com as mãos sobre a barriga, encarando o teto de dossel na minha cama.

"Sabe uma coisa que iria te animar?" Ana perguntou de repente.

"O quê?" Perguntei sem real interesse.

"O carnaval de Veneza." Ela abriu um sorriso enorme. "Ele não foi realizado nesses dois últimos anos, por questões que eu desconheço, e geralmente é realizado em fevereiro, mas esse ano, que todos achavam que não aconteceria novamente, porque fevereiro já terminou, eles resolveram realizar, mesmo atrasado! Ah, você vai ver, todos se fantasiam, usam máscaras, e saem pela cidade. É realmente lindo!"

"Harry provavelmente irá no carnaval acompanhado de Cho Chang. Não quero fazer parte disso." Resmunguei, sem deixar de olhar o teto. Ouvi Anna suspirar como sempre fazia quando me achava um teimoso insuportável.

"Vamos só nós dois, escondidos." Ela sussurrou. "Harry nem precisa saber que você saiu de casa. Vamos, Draco, vai ser divertido!" Ela sacudiu meu braço de maneira irritante. Soltei o ar, contrariado. Ela sempre conseguia me convencer, era algo verdadeiramente infame.

"Certo, certo." Disse, e acabei sorrindo de canto para o gritinho empolgado dela.

XxX

Harry usaria uma fantasia toda preta, com detalhes em branco e prateado. O casaco preto ajustava-se à cintura, e o colete era bordado com fios de ouro. O lenço no pescoço era da gola de chemise, bastante volumoso, também branco. A máscara era branca e quadrangular, com a ponta inferior projetando-se para frente em V, de modo que os lábios e o queixo ficavam à mostra. Havia desenhos em dourado na máscara. E, por fim, usava uma peruca por baixo de um chapéu duplamente dobrado, cujo formato mais parecia com os cascos dos navios do Arsenale.

Estava muito belo. O único detalhe que estragava a produção era Cho Chang ao seu lado, em um vestido verde-água, de saia volumosa e pregueada, e desenhos em azul-escuro. Sua máscara era metade dourada, metade branca, com arabescos elegantes; os cabelos estavam presos em um penteado exuberante e altíssimo, com enchimentos e elementos decorativos.

"Você não vai ir de novo, anjinho?" Cho Chang perguntou quando me viu parado nas escadas. Eu vestia uma túnica simples, displicentemente jogada sobre meu corpo, e meus cabelos estavam soltos e despenteados. Não sabia em qual momento ela começara a me chamar de anjinho, mas passei a odiar o apelido. Qualquer um que agora me chamasse de anjo, recebia de mim um olhar cruel.

"Não. Não estou disposto. Sinto-me febril." Falei, dramático, levando a mão à têmpora e fechando os olhos por um instante, como se prestes a desmaiar. Assim que eles saíssem, eu e Anna iríamos até o bordel de Pansy, como vínhamos fazendo já há cinco dias, e nos arrumaríamos lá.

"Febril?" Harry veio até mim e me segurou, tocando minha testa. Foi então que verdadeiramente me senti febril. Afastei-me rapidamente antes que ele percebesse minha farsa. "Talvez fosse melhor... que eu ficasse aqui com você. Não quero deixá-lo sozinho nesse estado." Ele falou preocupado.

"Não!" Exclamei rapidamente. Ruborizei e desviei o olhar. "Estou bem. É melhor que saia e se divirta. Amanhã estarei melhor, e poderei ir com vocês." Eram dez dias de carnaval. Sorri como se tudo estivesse bem no mundo. Harry não pareceu convencido, mas Cho Chang buscou-o, tocando-o delicadamente no braço.

"Querido, o menino está bem. Não vamos desperdiçar o trabalho que tivemos para colocar essas fantasias por uma simples febrezinha, não é mesmo? Draco já disse que está bem." Ela começou a praticamente arrastá-lo para fora. Ou ao menos tentou, porque Harry continuou pregado no mesmo lugar, encarando-me, sério.

"Está mesmo bem?" Perguntou.

"Sim. Vocês podem ir. Cho Chang está certa." Sorri falsamente para ela, que retribuiu, tão ou mais falsa.

Observei-os ir em silêncio. Assim que as portas do palazzo se fecharam, Anna apareceu do meu lado.

"Credo, como ela é irritante." Anna reclamou, segurando meu braço e então imitando a voz de Cho Chang num tom meloso e afetado "Vamos, Harry, ele já está bem, é só uma febrezinha, blá, blá, blá, eu sou uma vadia insuportável." Nós dois caímos na gargalhada juntos. "Vamos, não vamos perder mais tempo!" Ela murmurou excitada.

Saímos pelos fundos do palazzo. Não levei Mordred; Harry o reconheceria se o visse – mesmo que Veneza fosse enorme e lotasse durante as festividades, era melhor não arriscar. Emmelice ainda nos gritou um 'juízo, crianças!', mas não lhe demos muita atenção. Eu estava excitado com a ideia de fazer arte escondido de Harry. Acho até que ele não me impediria de sair por mim mesmo no carnaval, mas a ideia de que fazíamos algo proibido, como vingança por ele estar com Cho Chang, era mais animadora.

Quando chegamos ao bordel, que não estava aberto ainda, as moças e moços ajeitavam-se pelo salão, colocando fantasias pomposas e ousadas, com decotes avantajados, ombros de fora, braços à mostra, lábios vermelhos aparecendo por trás das máscaras coloridas. Pansy ajudava uma por uma, e todos soltavam risadinhas e pareciam divertirem-se muito.

Anna estava corada ao meu lado.

"Já é o quinto dia e ainda não consigo me acostumar." Admitiu, envergonhada.

Vi Andrej entre os que se arrumavam. Não falava com ele desde o dia em que ele se declarara. Desde então ele fugia de mim. Quando eu aparecia no bordel, ele nunca desejava ver-me. Isso me magoou bastante, mas eu entendia sua recusa.

"Volto em um instante." Falei, e corri até ele, antes que ele pudesse escapar. "Andrej" Chamei.

"Draco." Ele pareceu surpreso em me ver ali. "Ah, sim, Pansy comentou que você tem vindo se arrumar aqui..."

Mordi o lábio inferior, incerto do que falar.

"Você tem fugido de mim." Falei baixinho. Ouvi mais risadinhas, um tanto estridentes ao nosso redor, de garotas vestidas de colombinas, e perguntei-me se ele havia escutado o que eu havia dito quando ele permaneceu em silêncio, ajeitando uma peruca dourada na cabeça.

"Ando muito ocupado. Agora sou um amante exclusivo." O tom dele foi desdenhoso e debochado. "Estou sempre muito cansado pela manhã, quando você aparece." Ele se afastou um passo e fez uma reverência, com o chapéu de sua fantasia em mãos. "Espero que aproveite bem o carnaval, pequeno príncipe."

Ele saiu caminhando, e eu fiquei ali parado, sem saber como agir. Anna se aproximou e tocou meu braço. Parecia ainda mais perdida do que eu.

"Draco, meu bem!" Pansy se aproximou de nós dois. "Suas fantasias estão lá em cima, no meu quarto. Venham comigo, tenho uma surpresa para a mocinha." Ela piscou para Anna. No primeiro dia, Pansy a ignorou completamente, não vendo nada de interessante em uma serviçal, mas era impossível não gostar de Anna quando se conhecia ela um pouco melhor.

Eu e Anna a seguimos. Ela estava excitada e animada com o carnaval, e hoje falava pelos cotovelos.

"É uma época maravilhosa." Começou a falar. "Antigamente, durava seis meses. Mas isso há um bom tempo atrás, quando eu ainda não era nascida para aproveitar toda a devassidão que deveria ser. Imagine você, o uso de máscaras tornou-se tão habitual que precisou-se criar leis para regulamentar a frequente utilização. Contraventores e assassinos ocultavam-se por trás delas, e várias pessoas cometiam adultério e praticavam atos de sedução, protegidas pelo anonimato. Hoje em dia, ao menos ainda temos tudo isso por dez dias. A liberdade que as máscaras trazem é fantástica. Homens e mulheres sentem-se livres para agirem segundo seus desejos mais íntimos e sórdidos. É realmente uma beleza, dias nos quais a hipocrisia da alta sociedade esvanece-se pelas ruas de Veneza." O tom de Pansy era apaixonado e entusiasmado.

Anna estava completamente vermelha ao meu lado. Eu, e não sei dizer se era algo bom ou ruim, já me havia acostumado aos modos de Pansy. Ela falava sem os cuidados e eufemismos dos ricos, burgueses e nobres.

Entramos no quarto espaçoso e ricamente decorado de Pansy, com cores fortes e vibrantes.

"É bom que esteja com sua espada à cintura. Não é seguro andar por aí sozinho nesses dias, tampouco. Os homens se sentem bastante liberais para seduzir jovens loiros, bonitos e de pele pálida e macia, mesmo os que condenam as práticas homossexuais. Muitos, por dentro, devem contorcer-se de vontade para tocar nesses cabelos lisos como seda." Pansy tocou meus cabelos.

"Pansy, você está me deixando constrangido." Falei, vermelho. Preferia não imaginar o que um homem pensava ao me olhar. Preferia que pensassem o mesmo quando viam qualquer outro garoto.

Ela abanou com descaso.

"Vamos lá, contem-me o que vocês já andaram aprontando. Voltam ao final da tarde cheios de risadinhas e não me dizem nada." Ela exigiu. "E vamos logo, tirem essas roupas, eu não tenho tempo a perder. Preciso ajudar os outros. Vocês não imaginam como esses dias são atribulados. A freguesia dobra, e todos parecem pensar que encontraram o amor de suas vidas. As lágrimas depois do carnaval podem ser cansativas." Pansy suspirou.

Anna foi atrás da fantasia dela e se surpreendeu com as que encontrou em cima da cama de Pansy. Ela soltou um gritinho surpreso que atraiu a dona do bordel.

"Ah, sim. Minha pequena surpresa. Eu fui procurar entre meus baús, e encontrei essas duas preciosidades. Essa é minha, eu a usava nos meus tempos de traquinagens. Essa outra não sei, mas achei que combina tanto com você, Draco." Pansy falou, abrindo um leque e ponde-se a se abanar.

Eu me aproximei da cama e olhei para roupa.

A fantasia era branca, com detalhes em dourado. O contrário da de Harry. O branco, segundo Pansy, era ótimo para não chamar tanta atenção, pois se camuflava no colorido das outras fantasias, e dava uma liberdade ainda maior. Minha máscara, completamente prateada, tapava toda a parte superior de meu rosto, mas meus lábios continuavam livres. Meus cabelos ficavam soltos por sob o tecido de veludo branco que cobria meu corpo, frouxo nos ombros e braços, mas apertado na cintura, como um gibão com botões dourados. Eu usava luvas prateadas como a máscara, e minha calça se moldava bem às minhas pernas, indo até um pouco abaixo dos joelhos, de onde partiam meias finas e prateadas como os sapatos. Já a de Anna era uma fantasia colorida, azul-escura com vermelho-vinho, incrustada de joias fulgurantes.

"Perfeito." Pansy falou, satisfeita com o resultado, assim que eu e Anna estávamos arrumados. "Bem melhor que aquelas coisinhas simples e sem-graça que vocês vinham usando. Coloquei aquilo fora, até."

"Mas... a minha fui eu mesma que costurei!" Anna falou, estarrecida.

"Ora, então está explicado." Pansy dispensou.

XxX

As ruas estavam cheias como nos outros dias, com todos os habitantes da cidade fora de suas casas. Na verdade, não todos, porque festas e banquetes aconteciam nos palacetes mais ricos, ofertados pelos homens mais influentes de Veneza. Harry não abrira suas portas como muitos fizeram; era reservado demais para tanto.

"O que iremos fazer hoje? Estou meio cansado de toda essa bagunça, para ser sincero." Falei, caminhando ao lado de Anna. Ela estava belíssima em sua fantasia. Eu sempre a via com as roupas simples e retas de criada, e até sua fantasia anterior não era tão impressionante, apesar de bonita. Hoje ela estava radiante.

"Vamos até a Praça de São Marcos. De lá poderíamos ir ao palacete de Sirius e Remus. Sirius Black sempre abre as portas no carnaval. Ele adora, as festas dele são as melhores, e nós ainda não fomos lá." Anna contou.

Admito que eu estava estarrecido com a Sereníssima depois do que havia visto durante o carnaval. Anna felizmente ia na frente e me impedia de ver as cenas mais traumatizantes da libertinagem que se transformara a cidade. As máscaras realmente deixavam as pessoas livres para liberar seus instintos mais primitivos e carnais. Eu já havia perdido a conta de quantas vezes homens tentaram me puxar e beijar, ou a Anna, e eu precisei erguer meu florete para afastá-los. Nós já havíamos penetrado em tantas festas, espiado e rido de tantas cenas, que eu até já me sentia melhor, não pensando tanto em Harry e Cho Chang naqueles cinco dias.

"Você acha que Justino me acharia bonita se me visse assim?"

"É claro que acharia!" Falei, ajudando-a a subir em uma gôndola. Pus-me a remar. "Se quiser, acompanho-a até a casa dele agora. Ele disse que não gosta do carnaval, não é mesmo? Pois certo que iria gostar ao vê-la vestida assim. Está muito bonita."

"E você está muito galanteador, Sr. Draco Malfoy." Ela sorriu por trás da máscara.

Surpreendi-me com o uso de meu sobrenome. Como sempre me chamavam apenas pelo primeiro nome, eu havia me esquecido de que tinha um. Estava nos documentos que Harry fizera para mim logo depois que cheguei a Veneza. Eu havia contado a ele e a Anna. Mas todos os outros me conheciam exclusivamente por Draco.

Encontramos Justino em sua casa simples perto do porto, projetando um barco em miniatura. Os olhos dele brilharam quando Anna retirou a máscara, e eles se abraçaram, beijaram, e riram. Ele acariciou apaixonadamente o rosto dela, sorrindo.

"Eu quero casar com você." Ele falou, os olhos brilhando.

Eu sorri também, e os deixei sozinhos – depois daquele pedido de casamento, percebi que havia perdido minha amiga para o dia. Voltei para a gôndola e remei para a Praça de São Marcos. Quando cheguei, pulei para a calçada e fui me esgueirando pelas pessoas, admirando as fantasias. Eram todas muito bonitas, cheias de cores, com máscaras sérias, sorridentes, assustadas. Havia uma com três faces, e quem estava por baixo as alternava segundo seu humor. Havia desfiles nas ruas, e votações populares pelas fantasias mais belas.

Fiquei rindo de arlequins que faziam pirraça e bagunça pelas ruas, atrapalhando o concurso de fantasias. Discordei ferrenhamente do primeiro lugar, preferindo muito mais o que ficou em terceiro. Sobressaltei-me quando um homem tocou meu ombro, e levei a mão ao cabo do meu florete, mas ele apenas me ofereceu uma flor.

"Uma flor para uma flor." Ele disse, sedutor, com uma pequena flor em mãos. Ergui as sobrancelhas.

"Não sou uma flor. Eu sou um rapaz. Não vê a fantasia?" Falei. Ele pareceu desconcertado com a informação.

"Oh, é que muitas mulheres vestem-se de homem durante o carnaval... Mas aposto que há rapaz muito bonito por trás dessa máscara. Nunca vi olhos tão belos..." Ele engatou a flor no broche de minha fantasia, depois de recuperado do susto. "Está sozinho?"

"Não." Falei, afastando-me, e resolvi que seria melhor entrar em algum lugar.

Resolvi seguir a dica da Anna e ir até a festa do Sirius.

O palacete estava lotado, e todos estavam fantasiados, até mesmo os empregados do lugar. Impossível saber quem era quem. Porém eu sabia qual era a fantasia de Harry. Tinha-a perfeitamente gravada em minha mente. Então quando percebi que ele estava ali também, meu coração disparou. Pensei em dar meia volta, mas então pensei que não iria recuar por causa dele. Respirei fundo e entrei, desviando-me facilmente de todos.

Passei por Harry e toquei-o casualmente no braço, apenas de provocação, sem olhá-lo, e segui meu caminho. Pude sentir seu aroma amadeirado de cravo, e tive certeza de que era ele. Senti seus olhos às minhas costas e, quando me virei, apoiando-me a parede logo ao lado de uma entrada que levava a um corredor, nossos olhos se encontraram. Prendi a respiração, perguntando-me se ele seria capaz de me reconhecer. Apenas a parte inferior de meu rosto era visível. Poderia ele me reconhecer apenas com isso à mostra?

Umedeci meu lábio inferior e o mordi, mantendo o contato visual antes de displicentemente virar o rosto, como se não estivesse interessado. Fui atrás de algo para comer, mas o que consegui foi uma taça de champagne, que tomei em um único gole. Era suave, nada forte, um gosto interessante e doce. Peguei outra e então achei uma mesa com alguns doces venezianos. Eu adorava os de castanha. Levei um aos lábios e suspirei, extasiado. Eu deveria vir mais vezes à casa de Sirius, pois Harry era do tipo saudável chato.

Ao abrir os olhos, que eu mal percebi haver fechado, deparei-me com Harry do outro lado da mesa, e nossos olhares se encontraram novamente, causando um rebuliço dentro de mim. Aqueles olhos verdes queimaram em mim e eu recuei, largando o copo sobre a mesa e fugindo dele. Acabei parando em meio à pista onde as pessoas dançavam, trocando os pares, em um rodopio sem fim. Quando dei por mim, estava dançando em meio àquele mar de gente, olhando ao redor tentando captar a fantasia preta de Harry.

Mas é claro que ele seria mais esperto e me teria em seus braços sem que eu sequer percebesse. Olhei para frente e levei outro susto ao perceber que ele era meu par, segurando com firmeza minha cintura e encarando-me de cima, pairando sobre mim com seus vários centímetros a mais que os meus. Senti uma vertigem.

"Está fugindo de mim?" Ele perguntou, aproximando um pouco o rosto para eu que pudesse ouvi-lo. Arregalei os olhos. Ele sabia que era eu, ou estava apenas me perseguindo por diversão?

"E se eu estiver?" Retruquei, disfarçando a voz, que saiu bem estranha. Olhei para os lados, em busca da saída mais próxima. Onde estava Cho Chang quando se precisava dela?

"Talvez eu não queira deixar você fugir." Harry sussurrou perto da minha orelha. Estremeci, maldizendo meu corpo ludibriável, e me afastei de Harry.

"Talvez você não tenha escolha." Retruquei, mudando de par com um sorrisinho de deboche para Harry. Ficamos por vários minutos naquela perseguição entre a dança, procurando-nos com o olhar enquanto os pares trocavam. Cheguei a ficar tonto com aqueles rodopios entre vestes coloridas e máscaras misteriosas, a música preenchendo o salão como uma sinfonia teatral em que nós éramos os atores principais. Quando eu via Harry entre a confusão caótica de cores e vultos, meu corpo todo se arrepiava e meu coração batia com mais força.

Até que eu caí de novo de par com ele, sendo segurado com firmeza pela cintura. Harry inclinou o rosto, para perto de meus lábios, e eu levei um susto com isso, saltando para trás meio desorientado. O que ele havia tentado fazer? Meu coração parecia ter falhado e não voltado a funcionar direito.

Saí me esgueirando entre os que dançavam para longe dele, e caminhei em direção a um dos corredores do palacete, olhando para trás para ver se seria ou não seguido. Senti certo alívio e decepção misturando-se ao ver que não. Mesmo assim, continuei andando, em busca de segurança.

Meus passos ecoavam no corredor, que tinha algumas portas abertas, onde outras pessoas conversavam e riam e escutavam música. Eu continuei avançando, já mais aliviado, mas então arrisquei um olhar para trás. Meus lábios se entreabriram ao ver que Harry me seguia, não muito distante. Parei na dobra do corredor e o olhei, antes de seguir em frente. Senti-me como um gato que é caçado por cão de raça, muito mais esperto e rápido.

Quando arrisquei mais um olhar, vi que Harry dobrara o corredor também. Eu corri alguns passos, e segui para o quarto andar do palacete, subindo apressado enquanto Harry galgava os degraus com calma, sem medo de perder-me de vista.

Eu conhecia o lugar, já havia vindo ali antes; não muitas vezes, porém eu tinha boa memória. Cheguei a uma área que parecia vazia, silenciosa, sem as conversas e os risos. Parei ao virar um corredor e me apoiei à parede. O som de meu coração parecia tão alto quanto os trovões em dias de temporal, que alagavam as ruas de Veneza, transformando-a em uma grande lagoa. O que eu faria agora?

'Estúpido! Deveria ter ido para a rua e não fugido para um lugar sem saída!' Minha mente me repreendeu duramente.

Ouvi os passos de Harry, cada vez mais próximos. Minhas mãos, geladas, tremiam, assim como meus lábios. Por que ele me seguiu? Xinguei Harry de todos os nomes possíveis. Se ele descobrisse, o que diria? E se já não soubesse? E se houvesse me perseguido por ter-me reconhecido? E por que eu estava tão nervoso?

Eu só sabia de uma coisa: não queria que ele soubesse sobre minhas escapulidas e acabasse com a minha sensação de aventura. Ah, que se dane, pensei, virando o corredor pronto para tirar a máscara e acabar com aquela brincadeira. Dizer algo como 'Ah, você me pegou, Harry! Foi divertido, não?'. Mas eu sequer tive tempo de pensar antes que ele segurasse meu braço e o puxasse contra ele. No instante seguinte, minha boca era violada de uma maneira que eu nunca havia experimentado. Meu coração explodiu no peito e meus lábios queimaram com o beijo forte, que aprofundou-se quando ele colocou a mão quente em minha nuca.

Sua boca era macia, mais cheia que a minha, sua língua era impetuosa e sôfrega, explorando a minha boca com furor. Seu perfume terminou de desorientar todos os meus sentidos. O que diabos estava acontecendo? Eu arregalei os olhos e cheguei a tentar afastá-lo pelo susto, surpreso demais com o desenrolar dos fatos, mas ele me virou contra a parede e prensou meu corpo, e a mão em meu braço desceu e agarrou um dos meus glúteos. Soltei uma exclamação abafada de surpresa pela onda selvagem e crua de prazer que me invadiu e gemi rendido com toda aquela avalanche de estímulos.

Eu não sabia o que fazer, não sabia como acompanhar seu ritmo. Não havia beijado ninguém antes, não com a língua, não que eu me lembrasse... Mas ele não parecia se importar e instigava-me a mexer a língua e aumentar o contato. Em algum momento ele prendeu minhas mãos trêmulas pelos pulsos, logo acima da minha cabeça, e eu me senti mais vulnerável do que nunca, arrebatado pela excitação que rasgava todo meu corpo.

Fiquei verdadeiramente vermelho e nervoso quando ele me içou do chão, fazendo com que minhas pernas o rodeassem pela cintura, e pressionou-se mais contra mim. Meu corpo se arrepiou por inteiro, e eu senti meu baixo ventre pulsar mais forte, como da vez em que havia fugido do quarto dele e me trancado no banheiro. E os lábios dele continuavam devorando os meus, como uma vontade e intensidade que eu nunca poderia prever.

Quando ele se afastou, deixando-me completamente ofegante e desorientado, foi para tirar a máscara, o chapéu e a peruca dele, jogando-os no chão. Ele soltou meus pulsos e meu tronco caiu para frente, de modo que precisei apoiar-me em seus ombros. Tremi e entreabri os lábios ao sentir a mão livre dele percorrendo minha coxa.

Olhei fundo nos olhos verdes, escurecidos de desejo, e me senti arder, meu estômago revirar com mil borboletas e um arrepio eriçar os pelos do meu corpo. Uma gota de suor escorria pelo lado do rosto dele, e só então percebi como estava quente naquele corredor. Ou seria pelo calor do contato?

Ele aproximou o rosto do meu novamente, e eu revirei os olhos, fechando-os, quando ele mordeu meu lábio inferior, lentamente, antes de voltar a devorar minha boca. Gemi longamente.

"Harry..." Murmurei entre seus lábios, tão baixo, que jurei que ele não havia escutado. Mas escutou, e parou o beijo, e me encarou avaliador. Meu coração, se possível, bateu com ainda mais força. Amaldiçoei minha boca grande e estúpida. E, quando ele ergueu a mão para retirar minha máscara, eu o empurrei com todas as forças.

Caí no chão, dobrando as pernas para amparar a queda e me apoiando com as palmas das mãos. Olhei-o rapidamente e então disparei, virando o corredor e correndo o mais rápido que pude. Tropecei diversas vezes pelo caminho e quase fui de boca ao chão, mas eu não conseguia parar de correr. Era surreal demais o que havia acabado de acontecer. Eu sentia meus lábios latejarem pelo contato recente, e meu corpo parecia ainda em ebulição.

Depois daquele beijo, eu jamais poderia negar o que sentia... E tampouco guardar meus sentimentos para mim por muito tempo. Quando alcancei a rua, arranquei minha máscara e passei as mãos pelos meus cabelos, sentindo os fios úmidos de suor. O vento da rua me gelou e refrescou, e senti como se voltasse a respirar depois de horas prendendo a respiração.

Corri de volta para o palazzo, desviando-me das pessoas, pulando muretas e soltando risadas ofegantes e incrédulas por todo o caminho. As pessoas me olhavam como se eu fosse um louco. E talvez eu fosse mesmo.

Louco de amor.

XxX

NA: Acho que ninguém esperava por um primeiro beijo assim, certo?

Obrigada como sempre, e nos vemos depois do dia 12 de julho com a próxima atualização!