Capítulo 11

Aproximadamente 36 horas terrestres antes...

— Shiro, ele está inconsciente. O que fazemos agora?

O medo entremeado às palavra de Pidge fizeram o líder paladino pressionar os lábios um contra o outro com força e prender a respiração por breves tiques. Apreensivo, olhou para a forma desfalecida de Lance no chão e, antes de erguer o rosto e sustentar o olhar nos outros dois paladinos, fitou a vasta extensão de floresta que os cercavam.

— Preciso que o levem de volta ao castelo. Lance precisa urgentemente de cuidados.

Hunk pegou o amigo nos braços e encarou o líder.

— E você? — Perguntou o paladino amarelo. — O que vai fazer?

Shiro tornou a observar a floresta antes de respondê-lo.

— Eu vou acreditar em Lance. Vou procurar por Keith.

A resposta pegou tanto Hunk quanto Pidge de surpresa, e os dois se entreolharam brevemente.

— Continuar aqui, neste planeta, é muito arriscado — Advertiu a pequena paladina, não gostando nada, nada do que ouvira. — Se lembra do que Coran nos disse sobre o ziridium? Ele é extremamente tóxico tanto para o nosso organismo quanto para os nossos leões. Você viu o que aconteceu com Lance e com Blue!

— Eles foram afetados porque estão aqui há muito tempo — Respondeu Shiro. — Só preciso de algumas vargas, nada mais. Além disso, vou estar seguro dentro do traje.

— Acha que ele está mesmo aqui? — Indagou Hunk, e Shiro sentiu os ombros enrijecerem.

— A verdade é que não sei o que achar. Mas... ...é como Lance disse. Não podemos deixá-lo para trás de novo. Se o Keith está mesmo aqui, vamos achá-lo. E, se não estiver... vamos continuar procurando.

Por um instante, ninguém falou mais nada, e um silêncio que era tenso e desconfortável se instalou ao redor do trio de paladinos. E então, de repente, Pidge levou as mãos ao visor do próprio capacete e começou a fazer alguns ajustes.

— Lance disse que Keith estava de posse da bayard vermelha — Disse ela. — Posso configurar o localizador do traje para identificar frequências semelhantes a das nossas bayards — Ela levou alguns dobash's para conseguir programar o localizador. Quando obteve sucesso, abriu um sorriso enorme. — Pronto! — Exclamou e fez alguns testes, encarando a floresta com olhos estreitos e atentos, seus dedos enluvados ainda tocando a lateral do capacete e fazendo um ou outro ajuste quando necessário.

Não sabia ao certo o que esperar daquilo, pois já tinha se frustrado demais durante a extenuante busca pelo paladino vermelho, e sentia-se relutante em acreditar em Lance. Não que ela geralmente não acreditava em Lance. Não, não era isso. Pidge confiava no amigo, no entanto, ele estava muito doente, seu sangue indubitavelmente contaminado por uma substância de extrema toxicidade, e, na situação em que ele se encontrava, não seria de se estranhar se o rapaz estivesse sofrendo com alucinações das mais diversas.

E cética do jeito que estava, surpreendeu-se quando uma luzinha azul piscou na lateral do seu visor, coordenadas de latitude e longitude piscando na tela do capacete assim que o alvo foi localizado.

— Quiznak! — Gritou a paladina. — Não acredito! Ele estava certo!

— É o Keith? — Hunk e Shiro perguntaram ao mesmo tempo, e Pidge inspirou fundo.

— Se é ele, eu não sei. Mas que a bayard vermelha está aqui, é, ela está.

Decidido, Shiro deu as costas aos dois.

— Muito bem. Pidge, me passe a localização da bayard. Vou procurá-la. Agora, levem Lance de volta ao castelo — Inclinou o olhar sobre o rosto de Lance e lutou contra a aflição que a cena lhe fazia sentir. Jamais vira o paladino azul tão abatido e sem cor. — Manteremos contato.

Eles se separaram logo em seguida, Pidge e Hunk levando Lance até o leão amarelo, para, então, seguirem de volta ao Castelo dos Leões, e Shiro embrenhando-se floresta adentro na sua busca por Keith.

Consultando as informações que Pidge lhe passara, caminhou e caminhou e caminhou pela mata, passando por uma diversidade de árvores e deixando dezenas de poças d'água para trás. Em certo momento, ao perceber que se aproximava da localização indicada, apressou o passo, trotando pelo solo lamacento, até que alcançou o destino previsto.

Descobriu-se próximo a um córrego, e o som da água que deslizava vagarosamente pelas pedras, embora fosse tranquilizante e sereno, em nada contribuiu para apaziguar o coração acelerado de Shiro. Andando um pouco mais para frente, encontrou um tronco gigantesco e oco e, dentro dele, aninhado no grande vazio cavado na madeira, foi possível avistar a silhueta de uma figura humanoide sentada no chão, as costas apoiadas na parede interna do tronco oco.

— Olá — Chamou, aproximando-se com cautela, e franziu o cenho ao sentir seu braço metálico zumbir. Ignorou a sensação e voltou sua atenção para o que quer que estava escondido ali dentro. — Keith? É você?

Houve movimento – um minúsculo movimento –, e Shiro, cauteloso, deu mais um passo à frente.

— Keith, sou eu, Shiro. Você está a salv...

— M-Me desculpe — Ouviu, e a voz, apesar de soar débil, rouca e fragilizada, soou também tão familiar que Shiro sentiu vontade de chorar.

Era a voz de Keith, disso ele tinha certeza.

Extasiado e com o coração a ponto de explodir, deu outro passo à frente, no entanto, parou ao ver alguma coisa rolando de dentro do tronco e parando o trajeto apenas ao tocar no seu pé.

Olhou para baixo e viu a bayard vermelha desativada.

— E-Eu o assustei... e acho que foi por causa disso — A voz disse mais uma vez, e Shiro se agachou para pegar a arma desativada. — Ela pertence ao... ao p-paladino vermelho.

Confusão tomou conta das feições do líder paladino, e ele encarou o dispositivo em suas mãos por um tempo. Achava que o ser ali escondido era Keith, o próprio paladino vermelho, todavia, a julgar pelo significado de suas últimas palavras, não era Keith quem estava ali.

— Quem é você? — Perguntou e se aproximou ainda mais.

As sombras do tronco oco ainda escondiam boa parte do corpo daquele ser misterioso, entretanto, Shiro foi capaz de ter um vislumbre de pés descalços de coloração arroxeada e de pernas magras de semelhante cor. Ao erguer o olhar assombrado, viu um corpo pequeno e malnutrido coberto em farrapos, mãos com garras – que não eram afiadas, mas sim sujas e quebradiças –, uma boca que deixava a mostra dentes pontiagudos, olhos amarelos e um cabelo escuro sujo e relativamente comprido.

— Eu n-não s-sei — A criatura falou com máxima dificuldade, e Shiro notou que ela aparentava estar tão ou até mesmo mais doente do que Lance.

O líder também notou que aquele ser era, sem sombra de dúvidas, um Galra, contudo, não era um Galra qualquer. Notou principalmente que, apesar da sensação de alerta que recebia do seu braço implantado, o seu coração e a sua mente lhe enviavam outras sensações. E a de familiaridade era a que mais se sobressaía.

Lembrou-se, então, de Lance, o rapaz cubano agonizando e berrando nos braços de Hunk enquanto implorava aos outros que procurassem por Keith.

Não sabia que era ele, porque ele está diferente agora... mas ainda assim continua o mesmo.

Ele não entendera nada naquele momento; agora, todavia, ao ver aquele Galra que era tão estranho e tão familiar ao mesmo tempo, entendia perfeitamente o que Lance tentara lhe dizer.

Pelo visto, tinham mesmo encontrado Keith, mas não do jeito como gostariam de tê-lo encontrado.

— Quiznak... o que fizeram com você? — Murmurou, horrorizado, e tocou o rosto do Galra com sua mão humana.

Olhos amarelos o fitaram repletos de dúvida.

— C-Comigo?

— Sabe quem eu sou? — Engoliu em seco e deixou escapar um som de pura tristeza ao ver o Galra sacudir a cabeça para os lados, numa resposta de negação. — Meu nome é Shiro. Sou seu amigo... vou te ajudar.

— Shiro?

A sombra de um sorriso surgiu nos lábios feridos do Galra e ele tentou dizer mais alguma coisa, no entanto, não conseguiu. Suas pálpebras começaram a se fechar e sua cabeça tombou para o lado. Ao perceber que ele começara a desfalecer, Shiro o segurou com força pelos ombros e o sacudiu.

— Keith! — Quase gritou, e os olhos do Galra tornaram a se abrir. — Keith, fique comigo, por favor.

— Esse nome... ...o paladino vermelho... eles me chamam assim, mas eu não entendo... eu nunca entendo...

— Esse é o seu nome — Shiro o respondeu e tornou a sacudir o Galra quando ele aparentou querer desmaiar de novo. — O seu nome é Keith. Keith Kogane. E você é o paladino vermelho. Você só está diferente do que era, mas... mas ainda é o Keith. Consegue me entender?

O Galra não o respondeu. Tossiu sangue, estremeceu todo e perdeu os sentidos de imediato.

Shiro tentou despertá-lo tal como fizera antes, mas sem sucesso. Com cuidado, pegou o corpo molenga do Galra no colo e levou uma mão à lateral do capacete.

— Pidge, Hunk, na escuta?

Aguardou por uma resposta e sorriu ao escutar a voz de Pidge em meio a uma cacofonia de chiado.

— Shiro!

— Como está Lance?

— Ainda desacordado — Respondeu a paladina. Ao fundo, foi capaz de ouvir a voz de Hunk, mas não conseguiu assimilar exatamente o que ele dizia. — Já avisamos Allura e Coran. Eles prepararam uma cryopod para Lance.

Shiro assentiu.

— Ótimo. Peçam a eles para prepararem mais uma.

Ele ouviu Pidge prender a respiração. Após um par de tiques, ela se manifestou, a voz trêmula e vulnerável por pouco não se sobressaindo ao chiado:

— Shiro... Shiro, você...?

— Lance estava certo — Respondeu e ouviu uma comoção ao fundo. Sorriu, porém havia um quê de tensão em seus lábios. — Keith está comigo. Vou levá-lo para casa.