Disclaimer: Eu não possuo Glee, caso contrário a série nunca teria um fim.


Zoe e Kurt chegaram em casa minutos depois de deixarem a escola. Ainda era esquisito ver como em Lima qualquer trajeto que eles fizessem não levava muito tempo, na verdade a única coisa que os faziam parar eram os semáforos, porque fora isso aquela cidade não tinha congestionamento. Obviamente diferente de Nova York, onde qualquer trajeto de cinco minutos levava no mínimo meia hora. Zoe tinha que se lembrar constantemente que eles não estavam na cidade grande mais.

Isso fez a menina se lembrar de como as coisas pareciam mais fáceis quando eles ainda viviam em Manhattan. Sim, havia toda a loucura da cidade grande, as rotinas corridas, as inúmeras atividades, mas ainda assim sua vida parecia "normal". Muitas coisas haviam mudado desde a chegada em Lima, começando pela estranheza em seus pais e tios, até mesmo Madison agia diferente aqui. Zoe estava experimentando coisas novas também, como viver num lugar onde a maioria das pessoas se conhecem, onde todos parecem levar tudo numa tranquilidade quase irritante, diferente da pressa de Nova York. Ir para uma escola onde todo mundo parecia "comum" demais, quando em Nova York ela e Madison frequentaram escolas privadas e conheciam outras crianças com a vida pública parecida com as delas. O anonimato podia ser um privilégio enorme, era apenas diferente. Mas o que mais mudara desde então foi sua amizade com Madison. As duas meninas pareciam mais distantes, talvez fosse pelas novas amizades na escola ou simplesmente por Madison estar agindo estranho na mente de Zoe. Ela parecia esconder algo, Zoe só não fazia ideia do que poderia ser.

Zoe estava perdida em pensamentos enquanto terminava de se vestir depois de tomar seu banho. Blaine já havia chamado pela menina avisando que o jantar seria servido em cinco minutos para ela se apressar, mas Zoe ignorou e levou seu tempo penteando seus fios loiros em frente ao espelho.

Quando finalmente a família se sentou à mesa, eles fizeram seu agradecimento tradicional e começaram a comer.

"Então, como foi a escola hoje, querida?" Blaine puxou a conversa.

"Foi bem." Zoe deu de ombros sem levantar os olhos de seu prato, parecendo desanimada, apenas revirando a comida com o garfo.

Blaine uniu as sobrancelhas e encarou seu marido, que assim como ele não entendera o comportamento.

"Alguma novidade no clube do coral? O que vocês estão fazendo?" Blaine continuou, tentando saber o que estava acontecendo na vida de sua filha.

"O ensaio é legal. Não temos nenhum tema específico ainda, mas a treinadora já está nos preparando para a possível lista de músicas que iremos começar a ensaiar para as Seletivas."

"Oh, entendo. E quais são as opções? Ela já mostrou a vocês?"

Zoe queria revirar os olhos porque ela não estava no humor para as conversas triviais que seus pais sempre tinham durante o jantar, primeiro sobre o dia de Zoe, em seguida um deles começaria a falar sobre seus próprios dias. Como Kurt estava na pausa de seu trabalho na Broadway, ele estava começando um livro, e Blaine vivia em busca de ideias para roteiros futuros que ele pretendia criar, eram apenas ideias mas ele gostava da pausa de Nova York e o que Lima trazia, a calmaria e essas coisas. Agora afastados de suas rotinas corridas, ambos tentavam se manter ocupados durante todo o dia com coisas que tinham a ver com suas profissões enquanto levavam a vida tranquila no interior para que Zoe tivesse uma vida normal como qualquer outro adolescente.

"Nada que podemos levar em consideração ainda. Srta Corcoran não deu o veredito."

Sempre que o casal ouvia o nome daquela mulher um arrepio lhes subia a espinha, parte por se lembrarem dos tempos em que estavam na escola e o quanto aquela mulher intimidava e parte pelo o que acontecera à Rachel. Todos eles ficaram chocados com tudo o que aconteceu, e em cima de tudo isso estavam agora vendo de perto o quanto aquilo novamente na vida deles estava afetando sua amiga. Isso sem contar o que fizera com Quinn e Noah. Eles amavam Quinn e eram eternamente gratos pela adolescente sentada agora em frente a eles, quase uma cópia exata de sua mãe.

"Sabe, isso me lembra quando estávamos na escola." Kurt resolveu dizer para aliviar o clima que aquela mulher sempre trazia ao ser citada "Deus, eu sinto falta desses tempos. As coisas eram mais simples."

Zoe queria rir em deboche, simples era a última coisa que a escola poderia ser.

Blaine concordou com seu marido, tomando um gole de água e pousando os olhos em sua filha novamente, que parecia não prestar mais atenção na conversa.

"Querida, está tudo bem?"

Zoe olhou para cima e observou os dois pares de olhos preocupados sobre ela. Ela forçou um sorriso pequeno e assentiu levemente.

"Sim, estou bem. Já terminei, posso me retirar?"

"Você mal comeu, Zoey" Kurt apontou, chamando-a pelo apelido que ela era chamada desde criança "Tem certeza que está tudo bem?"

"Sim, pai. Não se preocupe. Só quero ir pro meu quarto e terminar a lição."

Assim que foi liberada, Zoe desapareceu no andar de cima. Kurt encarou o marido, preocupado.

"Ela está assim, distante, desde que a peguei na escola. Tem alguma coisa acontecendo, Blaine. Nossa filha não é assim."

"Querido, talvez ela só esteja cansada. Você sabe como os ensaios podem ser." Blaine tratou de acalmá-lo "Se algo estiver acontecendo, ela virá até nós."

"Temos que ficar de olho, o rendimento na escola não pode cair por causa do clube do coral. Ela mal conseguiu manter uma conversa conosco, e Zoe adora conversar sobre a escola."

"Nós podemos estipular um horário pra ela dormir mais cedo, e vemos se isso ajuda." Blaine sugeriu e então riu, balançando a cabeça "Ela não vai ficar nem um pouco feliz."

"Vai ser uma luta que teremos que enfrentar, mas é para o bem dela." Kurt apontou, rindo também.

O casal então terminou de comer e limparam a mesa juntos antes de subirem para conversar com Zoe.

BTY ~ BTY ~ BTY ~ BTY

Desde bebê, um banho morno era o que costumava acalmar Madison, desde cólicas infantis a resfriados ou simplesmente uma noite mal dormida. Enquanto crescia, ajudava a menina a relaxar depois das intensas aulas de dança e ginástica. Com a chegada da adolescência, os problemas com a escola ou até mesmo com seus pais costumavam se dissipar e ir embora junto com a água pelo ralo, mas naquela noite nem isso estava funcionando.

Debaixo do chuveiro, Madison estava irritada. Frustração misturada a cansaço e raiva só faziam com que seu corpo tencionasse mais do que já estava. As coisas só pareciam chegar para ela, sem conseguir por um ponto final em nenhuma delas.

Sua briga com Zoe não estava ajudando, em cima de tudo o que estava acontecendo em sua vida, sua amiga resolvera que era um ótimo momento para se rebelar. Óbvio que Zoe não sabia de nada, mas os sentimentos atualmente irracionais de Madison a fazia querer culpar até mesmo esses desentendimento entre as duas meninas. Era questão de tempo até seus pais descobrirem isso também e intervirem. Tanto seus pais quanto Blaine e Kurt intervinham quando as meninas brigavam por qualquer coisa, e por mais que eles soubessem que o certo seria elas se resolverem, os quatro pais não admitiam esse tipo de comportamento e faziam de tudo para que as duas estivessem sempre em harmonia. Com a chegada da adolescência as discussões haviam aumentado, mas isso não intimidava os adultos, que sempre conseguiam fazer as meninas enxergarem através da briga que aquilo não passava de algo bobo.

No entanto, obviamente, antes de chegarem ao ponto de ver que estavam discutindo por algo estúpido, havia o sentimento recíproco de raiva e frustração, e era nesse exato ponto que Madison estava naquele momento. E junto com esse ponto, que antecipava a realização de que deviam fazer de fato as pazes, vinha a certeza de que, daquela vez, era algo sério. Quer dizer, Madison não via como algo que ela podia acreditar que faria Zoe chegar a esse comportamento, mas se sua prima queria fazer birra e não falar mais com ela, não seria Madison que correria atrás. Ela tinha muitos outros problemas que se concentrar.

Depois de vestir uma roupa confortável e escovar o cabelo molhado, Madison se jogou em sua cadeira giratória e tirou os livros da mochila para começar seu dever de casa, mesmo que essa fosse a última coisa que ela queria fazer. Bufou com raiva enquanto abria o livro de história e tirava da pasta o questionário para resolver, ela detestava estudar história. Encarou a folha a sua frente enquanto batia o pé com raiva no chão e apoiava a cabeça em uma mão, seus olhos ainda queimando do choro de raiva durante seu banho.

"Droga!" reclamou, balançando o joelho e colocando agora a cabeça apoiada nas duas mãos. Ela queria gritar e atirar coisas. Ela queria gritar palavrões, queria bater em algo.

Nunca lidara bem com frustrações. Seu corpo ficava tenso e não conseguia parar sua perna ou pé, não conseguia se concentrar e o sentimento fazia seu sangue borbulhar. Por fim decidiu ignorar seu trabalho e levantou da cadeira, andando de um lado a outro pelo quarto com uma mão no quadril e outra na testa. Foi quando seu celular soou de dentro de sua mochila, indicando uma nova mensagem de texto. Suspirou quando viu o nome de Daniel no visor e desbloqueou a tela.

'Ei, td bem? Vc tava meio aérea no ensaio hoje e nem nos despedimos. Tava pensando na nossa conversa hoje e acho q já tenho o lugar perfeito'

Madison deixou um sorriso de lado escapar, pensando em como responder. Seus dedos mexeram impacientemente sobre a tela e por fim digitou:

'Legal! E vc vai me dizer qual é?'

Optou por ignorar o primeiro comentário sobre seu comportamento no ensaio. Daniel não precisava ficar sabendo daquilo.

Ignorando completamente as ordens de sua mãe, Madison se jogou de costas em sua cama enquanto abria suas redes sociais. Ela deu uma passada rápida por sua conta do Snapchat e riu das palhaçadas que seus amigos postavam em suas histórias, a febre dos filtros do aplicativo havia atingido todo mundo. Recebeu uma notificação de mensagem de texto e viu que Daniel havia respondido. Estava distraída e não ouviu quando sua porta foi aberta.

"Mad, jantar está pronto." Rachel surgiu atrás da porta. A menina ignorou sua mãe de pé na porta de seu quarto e continuou olhando para a tela do celular. Rachel ergueu uma sobrancelha "Eu não falei pra você fazer seu dever de casa? Já terminou?"

"Não estou com fome." foi a única coisa que ela respondeu, lendo a mensagem de Daniel.

'Surpresa. Mas acho que vc vai gostar... Vai ajudar a trazer um pouco das memórias de NYC'

"Dá pra você largar esse celular e olhar para mim? E responda o que eu perguntei!"

Madison outra vez ignorou o que sua mãe estava dizendo e apenas sorriu para a tela, pronta para digitar uma resposta. Mas isso não foi possível quando segundos depois ela viu seu telefone ser arrancado de suas mãos.

"Ei!" gritou.

"Você vai prestar atenção em mim quando eu estou falando com você. E claramente não era para você estar usando isso agora."

"Eu já terminei meu dever de casa, droga!"

Rachel ergueu uma sobrancelha e foi até a mesa no canto, vendo a folha de questões sem respostas em cima do livro aberto. Ela então falou, sem olhar para a menina, em vez disso bloqueando o telefone em sua mão:

"Em cima de todo esse desrespeito pra falar comigo e com seu pai, você também está mentindo. O que deu em você hoje?"

"Você ainda pergunta?!" cuspiu, se sentando na cama e cruzando os braços.

"Madison." Rachel disse em tom de aviso "Você está andando em corda bamba já, se eu fosse você iria rever esse comportamento. Nós com certeza iremos conversar depois do jantar. Agora, vamos."

"Eu já disse que não estou com fome."

"Você não vai ficar sem comer de novo. Desça e venha jantar com seu pai e eu. Fugir não te levará a lugar nenhum."

"Merda, mãe! Eu não quero! E eu não estou fugindo!"

Rachel trancou o maxilar com raiva para não gritar. Ela já estava perdendo a paciência com sua filha, a menina estava ficando desrespeitosa demais para seu gosto. Aquilo tinha que acabar de uma vez por todas.

"Madison Louise, eu estou dizendo para você descer. Agora!"

Madison se levantou, fechando as mãos em punho em seus lados.

"Eu.Nã !" finalizou batendo um pé no chão.

Rachel fechou os olhos e respirou profundamente.

"Eu não quero ter que ser radical, Madison. Eu entendo a sua revolta, mas você não vai fugir para sempre. Se você não pode agir como uma menina da sua idade e fazer o que eu estou pedindo, eu vou tomar medidas de acordo com a idade que você está agindo agora."

"Você não se atreveria."

Rachel ergueu uma sobrancelha "Isso é um desafio? Você sabe que eu faço. Você quer ir ficar de pé no canto com o nariz enfiado na parede até eu dizer que pode sair e ir dormir mais cedo? Seu comportamento me diz que você está irritadiça e precisa de umas horas a mais de sono."

"Eu não sou uma criança!"

"Então aja conforme a sua idade e desça para jantar."

"Argh! Ta bom!"

Madison esperou que sua mãe saísse do quarto antes dela, mas Rachel não se mexeu, ao invés disso ela apenas guardou o celular da filha no bolso de trás de seus jeans e cruzou os braços.

"Anda, pode ir." Acenou com a cabeça para a porta.

Madison hesitou. Quando criança, ela sabia o que aquilo significava, quando ela estava em problemas, passar por um de seus pais significava na maioria das vezes ganhar uma palmada bem dada no traseiro, o que a faria esfregar todo o caminho até o andar de baixo. Rachel não havia nascido ontem e ela sabia que Madison estava relutante porque não queria arriscar sua sorte. Se não fosse séria a situação Rachel teria rido, e ainda assim a mãe fez de tudo para não sorrir, Madison que tanto alegava não ser mais uma criança ainda tinha aquelas reações.

Madison deu o primeiro passo e então apressou, inconscientemente cobrindo seu traseiro ao passar por sua mãe e finalmente descer as escadas. Rachel descruzou os braços e se permitiu rir finalmente, caminhando para fora do quarto e fechando a porta atrás dela.

Jesse havia terminado de colocar os talheres na mesa quando Madison apareceu. Ele ainda não estava nada feliz com o comportamento da filha e apenas disse para ela se sentar.

O jantar consistiu apenas em conversas entre os dois adultos. Apesar de estar sem fome, Madison comeu um pouco mais apressada que o normal para voltar pro quarto pelo resto da noite. Ela se lembrava de sua mãe ter dito que eles iriam ter uma conversa, mas se ela pudesse se esconder e talvez fingir que estava dormindo, seus pais a deixariam em paz.

Muito para seu desagrado, isso não aconteceu. Quando terminou de comer e pediu para ser dispensada, sua mãe a parou.

"Nem pense em ir para o seu quarto. Pode nos esperar no sofá."

Madison fechou a cara e cruzou os braços, pisando até a sala de estar. Rachel havia cogitado mandar a menina lavar a louça do jantar, mas conhecendo sua cria, ela sabia que Madison enrolaria até o último minuto pra acabar e então eles não poderiam conversar. O casal então decidiu que aquela tarefa poderia ser feita mais tarde.

Na sala, Madison se sentou na ponta do sofá e apoiou seu corpo contra o encosto, os braços cruzados e uma carranca teimosa. Rachel se sentou ao lado da menina, de frente pra ela, enquanto Jesse ocupou o outro sofá ao lado. A adolescente se recusou a olhar cada um de seus pais, preferindo encarar um ponto fixo a sua frente. Rachel suspirou.

"Madison, não adianta fazer essa cara, você está pedindo por essa conversa desde a hora que te deixei na escola, quando você foi desrespeitosa comigo. E depois quando te chamei pra descer e vir jantar conosco, mais uma vez você não estava fazendo como eu pedi e ainda falou coisas que você sabe que não toleramos." Rachel disse à menina, mas sentiu como se estivesse falando com uma parede.

"Madison, olhe pra sua mãe, ela está falando com você." Jesse ordenou.

A adolescente apenas revirou os olhos e se virou pra sua mãe, ganhando um olhar duro da mesma. Rachel resolveu ignorar por enquanto.

"Nós já conversamos sobre isso ontem e já deixamos claro pra você também que qualquer coisa que você precise conversar, pode vir até nós. Seu pai e eu entendemos que é muita coisa pra processar e sabemos que é difícil passar por tudo isso sozinha, mas nós só vamos poder te ajudar se você falar com a gente." Rachel sentiu-se como um disco arranhado tendo que repetir aquilo, mas ela sentiu que precisava "No entanto, tudo que você tem dirigido à nós, Madison, são palavras desrespeitosas, está nos ignorando, dando as costas. Você sabe muito bem se expressar melhor, sabemos que isso está incomodando e queremos encontrar uma maneira de resolver."

Madison ouviu as palavras de sua mãe e suspirou, se virando para encarar o pai, que confirmou com um aceno tudo que Rachel havia acabado de dizer. Ela estava ficando de fato cansada daquele assunto, ela queria por um momento esquecer aquela história e seguir em frente. Mas era quase impossível sabendo que no dia seguinte lá estaria Shelby novamente. De repente sentiu raiva, porque ela resolveu que aquilo estava a ponto de terminar pra ela. Tudo que isso estava fazendo era trazer problemas. Problemas com seus pais, problemas com Shelby e até mesmo com Zoe. Madison se revoltou subitamente.

"Sabe o que me deixa com mais raiva, mamãe?" elevou a voz, surpreendendo ambos os adultos quando ficou de pé num átimo e fechou os punhos apertados "É que se não fosse por Shelby reaparecer como minha professora, nada disso seria revelado. Vocês continuariam escondendo de mim. E sabe o que mais? Por um momento eu queria era nunca ter sabido dessa história."

"Ei, calma lá." Jesse interviu, ficando de pé junto com sua filha.

Rachel estava cansada de repreender a menina e dessa vez não o fez, pelo menos Madison estava colocando pra fora seu descontentamento. A mulher sentiu seu estômago cair ao ouvir Madison dizer que preferia não ter sabido, porque isso só fez suas inseguranças crescerem sobre se foi realmente o certo a se fazer, colocar Madison nisso tudo. Rachel sabia que fora uma má ideia.

"Me desculpe." Rachel murmurou, fechando os olhos.

Madison uniu as sobrancelhas em confusão e Jesse apenas encarou a esposa com simpatia em seus olhos.

"Amor..." ele tentou.

"É minha culpa que você esteja se sentindo assim, Maddy. Me desculpe por te colocar nisso, eu só queria poder fazer diferente." E com isso Rachel se levantou do sofá e foi até as escadas.

Madison e Jesse ficaram estupefatos, ainda de pé no meio da sala.

Rapidamente Madison levantou a cabeça encarando seu pai e Jesse viu o arrependimento nos olhos azuis da menina.

"Pai, eu não quis-"

"Querida, não é sua culpa, ok? Se acalme." Jesse puxou a menina para um abraço quando viu os olhos dela lacrimejarem. Ele beijou a cabeça dela "Eu vou subir e falar com ela. Lembre-se, não é sua culpa, tá bom? A mãe só fica mexida quando toca nesse assunto. Nada disso é sua culpa."

"Mas se eu não tivesse dito aquilo, que eu não queria saber, ela não se sentiria culpada." A menina disse com a voz embargada, abraçando seu pai de volta e escondendo o rosto em seu peito "Eu sou uma idiota."

"Ei, ei." Jesse se afastou de sua filha e segurou seu rosto entre as mãos, limpando com os polegares as lágrimas que começavam a escorrer pelas bochechas de Madison "Não diga isso. Você não é idiota e isso não é sua culpa. Nem de sua mãe. É apenas uma obra do destino que nós precisamos passar juntos, como tudo que acontece em nossa vida. Você faz parte desta história e então merecia saber. Por favor, não se martirize por isso mais, princesa."

Madison encarou de volta os olhos azuis iguais aos seus e assentiu devagar, fungando e engolindo o nó na garganta.

"Eu quero falar com a mamãe."

Madison se afastou completamente de seu pai, limpando as lágrimas, e se virou para as escadas. Jesse agarrou seu braço e puxou a menina de leve.

"Não, Maddy. Primeiro deixe que eu fale com ela. Agora eu só preciso que você vá para o seu quarto e fique lá até que eu entre para dar boa noite. Por favor faça isso por mim."

Mesmo contrariada, Madison assentiu. Jesse sorriu e beijou a testa da menina antes de se virar e subir as escadas atrás de sua esposa. Madison voltou a se sentar no sofá, sentindo as lágrimas quentes em seus olhos e o nariz ardendo levemente enquanto segurava o choro. Ela odiava fazer seus pais chorarem, e mesmo que ela entendesse que aquela obra do destino não era culpa de ninguém, seu lado emocional de adolescente hormonal fazia com que ela culpasse a si mesma por estar agindo daquela forma. Mas ela não podia evitar, eram tantas coisas acontecendo e ela só queria respostas.

Por fim ela decidiu subir as escadas, e no meio do caminho para seu quarto, ela parou perto da porta de seus pais para tentar ouvir a conversa abafada no lado de dentro.

Minutos antes, Jesse havia entrado no quarto e encontrou Rachel saindo do banheiro, seu cabelo estava preso em um coque e seu rosto estava lavado da maquiagem do dia. Rachel encarou o marido antes se suspirar e sentar na cama.

"É tudo culpa minha, Jes. Tava tudo bem antes de contarmos tudo à Madison e então, num piscar de olhos, tudo desaba. Eu não aguento ver nossa filha tão chateada por algo que aconteceu no passado mas que ainda me assombra. A gente não pode viver assim, esperando que a corda arrebente."

Jesse acenou e se aproximou da cama, sentando ao lado da esposa.

"Eu sei. É difícil pra mim também ver o quão angustiada a Maddy está. Eu posso imaginar o que é ter que ouvir tudo que ela ouviu de nós e não poder conversar com mais ninguém. Eu gostaria muito que ela viesse até nós, mas eu também compreendo que às vezes é preciso um amigo, outra pessoa não envolvida pra que possamos desabafar. Alguém que não vá interferir." Ele falava, acariciando uma mão de Rachel "Ao mesmo tempo que eu acho tudo isso, eu também sei que isso é um assunto muito delicado e que não podemos sair por aí falando com qualquer pessoa. Não envolve só nossa família. Os danos podem ser gigantes."

"E ela tem sido tão desrespeitosa esses dias, ela sabe que não toleramos, mas ainda assim eu to perdendo as forças de punir ela..."

"Madison sabe que a gente vai estar sempre aqui pra ajudá-la e para o que ela precisar, mas ela também sabe que fazemos isso com respeito e que esse tipo de comportamento é inaceitável. Ela precisa entender que o que está acontecendo não muda o fato que somos os pais dela e que há outras maneiras dela conversar conosco, sem birras ou malcriação. É difícil, sim, mas ela precisa saber os limites."

"Eu to literalmente cansada de brigar com ela, não que eu esteja aceitando o comportamento, mas apenas parece que não está adiantando. Já tirei o celular, ameacei, mas não adianta."

"Eu vou falar com ela, está quase na hora dela ir dormir, a mandei me esperar no quarto." Jesse alcançou o queixo de Rachel e a fez virar o rosto para ele, olhando em seus olhos castanhos "Mas antes, preciso que você me escute. Nada, ouviu? Nada disso é sua culpa, ou minha, ou de Madison. Os erros foram cometidos e precisamos lidar com eles, mas culpar alguém não vai resolvê-los." Rachel encarava os olhos azuis do marido e por fim assentiu, aceitando o beijo leve que Jesse depositou em seus lábios "Eu vou conversar com nossa filha, nós vamos dormir e amanhã vai ser um novo dia, ok? Sem culpa, sem remorso, sem climas pesados ao redor da casa."

"Okay..." Rachel assentiu mais uma vez, se deixando sorrir um pouco.

Madison quase tropeçou em seus pés quando tentou sair depressa dali e entrar em seu quarto, ouvindo o movimento atrás da porta de seus pais, só deu tempo dela alcançar o banheiro em seu quarto quando ouviu os passos no corredor.

Jesse bateu levemente na porta entreaberta e entrou quando Madison autorizou, de pé no banheiro escovando os dentes. Depois de minutos ela saiu, já vestida em seu pijama e o rosto fresco recém lavado.

"Vem, vamos conversar um pouco." Jesse disse calmamente, batendo no colchão para que ela se sentasse.

Madison o fez, hesitante, e encarou seu pai.

"Sua mãe me contou do seu comportamento esta manhã, no caminho para a escola, e depois eu vi a forma que você falava com ela quando voltou. Madison, nós já deixamos claro que sabemos o que você está passando e que não é fácil de absorver, mas você sabe que existem limites e regras. Sua mãe e eu não somos seus amigos, e mesmo com eles você sabe que não deve agir dessa forma, é desrespeitoso, minha filha. Sua imagem fica apenas suja para as pessoas, e você sabe que se tratando da nossa família, sempre tem alguém de olho em nosso comportamento. Mas essa não é razão que a gente deve se comportar bem." Jesse pausou e segurou uma mão de sua filha, da mesma forma que havia feito com Rachel minutos antes "Sua mãe está triste por tudo que está acontecendo, isso afeta demais à ela ainda, e te ver agindo assim deixa ela ainda mais preocupada sobre ter tomado essa decisão. Ela não te culpa, e muito menos eu o faço, porque sabemos que é difícil, mas tudo que a gente pede é que você colabore da melhor forma, não estamos pedindo pra você aceitar, mas ao menos chegue para nós e diga o que quer dizer da forma correta, nós iremos te ouvir."

"Eu tentei, pai..."

"Não. Você se irritou e tratou sua mãe com grosseria. Não é assim que consertamos as coisas."

Madison suspirou e desviou o olhar, envergonhada, encarando a mão de seu pai segurando sua própria.

"Eu... Eu me senti pressionada. Com tudo acontecendo e vocês ainda me fazendo falar, eu só senti a raiva borbulhando e explodi. Eu não queria ter dito o que eu disse, apenas saiu e eu não consegui voltar atrás."

Jesse assentiu e respirou fundo antes de falar.

"Você disse o que estava querendo dizer, querida, mesmo que em seu subconsciente. Você colocou pra fora o que estava te incomodando, e apesar de ter doído, foi a verdade. Nem sempre a verdade é fácil de ser ouvida, mas sempre é a melhor coisa, te garanto isso."

"Mamãe ficou chateada comigo."

"Ela está frustrada, sim, com seu comportamento. Mas, ei, sua mãe não está chateada com você e nunca esteve, ela está brava com a situação e se culpa, mas nós dois sabemos que não é culpa dela. Então eu peço que você me ajude a fazê-la enxergar isso."

Madison voltou a encarar seu pai e assentiu.

"Tudo bem, eu vou ajudar. E eu vou me desculpar por hoje." Jesse assentiu sorrindo, levando a mão que ele segurava até os lábios e dando um beijo no dorso. "Eu só queria que tudo isso passasse logo."

Jesse riu levemente e puxou a menina para seus braços, apertando Madison levemente e beijando sua cabeça.

"Eu também, princesa. Mas o que seria da nossa família sem um pouco de drama, não é mesmo?"

Madison riu contra a camisa de seu pai e fechou os olhos por alguns instantes, curtindo o momento de silêncio confortável entre pai e filha.

"Eu te amo, papai."

"E eu te amo mais, minha princesa." Jesse a beijou novamente e bateu levemente em suas costas "Ok, já está ficando tarde e é hora da senhorita ir dormir."

Dessa vez Madison não protestou, ela estava exausta dos eventos do dia e queria pelo menos curtir uma noite de sono merecida. Ela estava pronta para o esse dia acabar.

Os dois levantaram da cama e Jesse segurou os cobertores para que Madison deitasse e quando ela encontrou uma posição confortável, Jesse a cobriu. Ela abraçou seu macaco de pelúcia e bocejou longamente.

"Boa noite, pai. Diz pra mamãe que eu a amo e que sinto muito."

"Pode deixar. Boa noite, Maddy. Tenha bons sonhos." Jesse se inclinou e beijou a têmpora da filha, que logo fechou os olhos e relaxou no travesseiro.

BTY ~ BTY ~ BTY ~ BTY

A semana voou e logo era sexta-feira novamente. Claro que ainda havia toda a tensão no ar, principalmente na escola, mas Madison se esforçou muito para guardar aquilo no fundo de sua mente. Com sua mãe as coisas estavam mais calmas, e apesar de Rachel ainda sentir um pouco de culpa, tanto Madison quanto Jesse a todo momento faziam com que ela se sentisse melhor sobre o assunto. Não era como se as coisas tivessem simplesmente desaparecido, eles ainda estavam um pouco inseguros e viviam um dia de cada vez, sempre a postos sobre imprevistos.

Zoe ainda estava brava com Madison, apesar de ter parado de lançar frases sarcásticas em direção à amiga. Ela se sentava com Olivia e Scott e, às vezes, com Brian na hora do almoço, enquanto Madison ficou mais próxima de Daniel e um outro pessoal do clube do coral. Beth não havia mais dirigido a palavra a ela tampouco, mas também não havia mais a troca de olhares raivosos nem comentários maldosos. Por mais que toda a tensão estivesse no ar para Madison, as coisas estavam mais calmas do que antes. Quanto à Shelby, bom, Madison tentava ignorar o sentimento na boca do estômago toda vez que via a mulher pelos corredores ou nas aulas. Era um misto de curiosidade com raiva pelo o que aquela mulher fizera à sua mãe. Mas ela havia prometido não dizer nada.

Ela havia também finalmente conversado com Daniel e os dois combinaram um passeio no dia seguinte, visto que era sábado e eles não teriam ensaio.

No fim das aulas, o ensaio estava para começar no horário de sempre. Shelby cumprimentou seus alunos no auditório e se sentou na mesa posta da plateia.

"Ok, pessoal. Vamos a partir de hoje começar a nos preparar de vez para as Seletivas. Eu sei e vocês já devem ter percebido que durante essa semana nós tivemos ensaios com mais alongamentos do que de fato coreografia, mas hoje eu quero fechar com vocês nossa playlist."

Os alunos no palco se animaram. Eles não viam a hora de começar a ensaiar para a competição, todos ali presentes sabiam o quão competitiva Shelby era e que ela trabalhava duro para alcançar o primeiro lugar sempre. Eles sabiam que a partir de agora os ensaios também seriam muito mais puxados, mas valeria a pena se o nome deles fosse anunciado como campeões.

"Teremos então uma canção em grupo, um dueto e um solo, para começarmos em nossa zona de conforto... Por enquanto. Ainda não decidi quem vai fazer o solo, mas terá que merecer, quem quer que seja que está nesse palco." Ela fez uma pausa e estudou os rostos de seus alunos, todos prestavam atenção nela. Shelby voltou então a olhar a prancheta sobre sua mesa "Para o solo faremos Sia, assim como na canção de grupo. No dueto faremos Meghan Trainor. California Dreamin será a canção que todo o grupo levará pra competição."

Os murmúrios começaram dessa vez, eles sabiam que seria um desafio. Afinal Shelby Corcoran era a treinadora deles, desafio devia ser a palavra favorita dela.

"Continuando... Alive será o solo, e como já disse, quem o fizer terá que merecer, é um trabalho enorme em suas mãos." Shelby fez outra pausa, sem tirar os olhos dos papéis em sua mesa "A canção do dueto será Like I'm gonna lose you, e depois de muito avaliar, escolhi dois de vocês para liderarem a canção, com todo o grupo no fundo... Scott Tanner e Hailey Jameson."

A menina loira sorriu enormemente e abraçou Beth, que estava ao seu lado, a qual retribuiu o abraço com menos entusiasmo, feliz pela amiga. Ela pensava que pegaria o dueto, mas também conhecendo sua mãe, Shelby não seria tão óbvia em suas escolhas. Apesar disso, ela até imaginava quem iria pegar o solo, e isso a fez revirar os olhos.

Madison sorriu em seu lugar, por mais que ela gostasse de ser destaque, ela estava feliz por cantar Sia. Ela amava Sia, apesar de ser realmente um desafio. Daniel ao lado dela também sorriu.

"Achei que você pegaria o dueto." Madison comentou para o garoto.

"Treinadora Corcoran é totalmente imprevisível, acostume-se. E eu já fiz alguns duetos, hora de passar a vez." Comentou brincalhão.

Madison revirou os olhos e apenas riu.

"Aposto que o solo será da Beth." Outra menina perto deles, Lisa, comentou.

Eles deram de ombros e voltaram a atenção para o ensaio.

"Ok, então. Todo mundo agora se acalmando." Shelby bateu palmas, chamando atenção de todos "Vamos começar a aquecer. Primeiro o alongamento, visto que teremos muita dança pela frente."

Rapidamente todos entraram em um ritmo já acostumado de alongamento, com alguns passos que eles já estavam familiarizados, apenas para aquecer os músculos. Madison estava entre Daniel e outro colega deles, Drew, fazendo os passos de dança, quando, de repente, em um jogo de braços, ela sentiu algo forte bater em seu rosto, a derrubando no chão imediatamente.

"AI!" ela gritou de dor, sentada no chão, segurando o nariz. Seu coração estava acelerado pelo susto e pela adrenalina.

A música imediatamente parou e todos encararam a menina caída, Shelby se levantou de imediato quando percebeu que era sério.

Drew acidentalmente havia jogado o braço na direção de Madison, que estava um passo atrás dele, o qual acertou o nariz da menina bem em cheio. Madison sentiu todos os pares de olhos sobre ela, ao mesmo tempo que seus próprios olhos se enchiam de lágrimas.

"Eu acho que quebrei o nariz!"


Boa noite a quem lê a história e desculpe pela demora, é bem insconstante a frequência que eu posto mas infelizmente terá que ser assim por conta da vida que cobra a gente como uma vadia! Me desculpe mais uma vez.