CAPITULO 10

Edward ajeitou a gravata dando o toque final em sua roupa escura, camisa e calças pretas. Olhando-se no espelho constatou com tristeza que estava adequada­mente trajado para um funeral. Os pensamentos dolo­rosos lhe ocupavam a mente enquanto ele descia para o jantar. O funeral de suas esperanças. Ele jamais estivera tão sem fome, mas a vida tinha de continuar. Os italianos podiam ser famosos por sua natureza volúvel, mas na família Severini, nunca se mostrava os sentimentos abertamente. As mágoas deveriam ficar escondidas. As aparências precisa­vam ser mantidas. Nessa noite, ele lhe ofereceria a liberdade. Enquanto vivesse, não iria jamais esquecer o mo­mento exato quando a última de suas esperanças desaparecera.

Seu coração estava embalado pelo amor por sua en­cantadora Bella, a mãe de seu filho. Vibrava cheio de expectativa, com a memória avassaladora do jeito apaixonado de Bella e pela sua ternura na noite anterior. Assim, ele se aproximou do quarto, com a inten­ção de começar a consertar as coisas. Convencê-la de que ele seria capaz de merecer o seu amor.

Ela estava aconchegada na cama. No mesmo lugar onde na véspera ele alcançara o êxtase, que somente ela lhe proporcionara. Na ausência dele, ela vestia novamente o tipo de roupa confortável que estava acostumada a usar, desdenhando as etiquetas da alta costura. Falava ao telefone com o rapaz com quem fora morar, antes que ele a forçasse a deixá-lo.

Sua consciência, que já estava aflita, contorceu-se em agonia mortal quando a ouviu dizer com fran­queza:

— Não se sinta desse modo, Jacob. Ele é o pai do meu filho, o que mais eu poderia ter feito naquelas circunstâncias? Mas eu vou ajeitar as coisas de modo que tudo fique bem para você. Prometo.

Ao pensar em como ela teria a intenção de cumprir essa declaração, sentiu uma lança traspassando seu coração. Um ciúme torturante. Mas essa não era a questão principal. O mais importante fora o modo como ele tinha se comportado com ela.

Ele não tinha direito de fazer exigências. As cir­cunstâncias as quais ela se referira não lhe tinham dado outra opção, a não ser fazer o que ele dissera. Ele não tinha o direito de tê-la arrastado para longe de seu próprio país, de seus amigos, do homem com quem ela fora morar... do homem que ela amava? Não tinha o direito de fazer com que ela seguisse os padrões dele, que usasse roupas da alta costura, aces­sórios elegantes. Enfim, não tinha o direito de trans­formá-la no ideal dele de mulher. E ele tinha pensado o pior dela, desprezando seus protestos de inocência, E mesmo quando ele começara a ter suas suspeitas sobre Tânia, na sua arrogância não partilhara essas suspeitas com ela.

Ele estivera errado, terrivelmente errado, imperdoavelmente errado.

Ela já estava na sala de jantar. Ele armou uma ex­pressão de fachada, pois jamais deixaria transparecer a sua dor. Cumprimentou-a friamente, e sentou-se no lado oposto ao dela, numa mesa em que facilmente caberiam vinte pessoas. E estendeu seu guardanapo. Nessa noite ela estava tão linda a ponto de cortar o coração. Incrivelmente bela. Saberia o que a espera­va? Não mais vestia as roupas confortáveis e infor­mais que eram de sua escolha. Trajava o melhor da alta costura de Milão. Um tecido sedoso num suave tom lilás. O vestido, que realçava a cor dos olhos dela, não tinha mangas, por isso deixava os bra­ços a mostra, e um discreto decote terminava na jun­ção daqueles belos seios.

Sensatamente, dirigiu sua atenção para a comida que lhe era servida, ignorando o vinho, pois poderia ficar desinibido. Por causa de sua grosseira descon­fiança, de seu comportamento errôneo, perdera o di­reito de falar de seu amor a ela. De pedir uma segun­da chance.

Bella mastigava algo que por nada nesse mundo conseguia engolir, pois sua garganta se fechara. Edward parecia tão austero. Apesar de sua beleza impres­sionante, as feições estavam sombrias. Também a roupa que ele usava parecia bem adequada a uma ocasião fúnebre.

E ela ainda achou que devia agradecer por isso, sentindo as lágrimas lhe beirarem os olhos. Caso ele mostrasse a mais leve lembrança da noite que haviam partilhado juntos, se mostrasse o menor sinal de ter­nura, ela estaria completamente perdida, impotente para atravessar os passos que sabia deveriam ser da­dos.

Assim que Tânia terminou seu telefonema, ela entrara em estado de choque. Toda a sua intenção de procurar Edward desaparecera. Sentada na beira da cama, começou gradualmente a colocar os pensa­mentos em ordem.

Edward estava louco de amores pelo filho. Desse modo trincara os dentes e fora em frente pedindo-a em casamento. Para legitimar a criança. Ela dissera não. A parte dele que suspirava pela sua noiva, rica, bela e da alta sociedade, deve ter ficado aliviada, mesmo que o dever lhe estivesse apontando para ou­tra direção.

Nessa manhã, ele devia ter acordado e ficado hor­rorizado. Ele traíra a mulher que amava pela segunda vez. Depois disso, procurou refúgio ao lado dela, e seu senso de honradez o fez confessar, terminar o noivado, porque ele tinha um dever a cumprir com o filho. E a mãe de seu filho o convidara para a cama com voraz apetite. Parecia que ela tinha mudado de idéia quanto ao casamento.

Não era à toa que ele parecia arrasado. Como se a luz tivesse desaparecido de seu mundo. Torturando-se terrivelmente, Bella tomou um grande gole de vi­nho para ajudá-la a engolir o que obstruía sua gargan­ta. E era tudo culpa dela. De algum jeito teria de con­sertar todo esse estrago.

No momento em que seu prato estava sendo troca­do, aproveitou para se recostar na cadeira. Não con­seguia nem olhar para o que estava sendo servido, quanto mais fazer outra tentativa de comer.

Edward dispensou a empregada e se levantou. Ha­via muita sensualidade nele.

— Como parece que nenhum de nós dois está com fome, proponho irmos tomar o café no jardim.

Sem fala, Bella se levantou. Sentia frio no estô­mago.

Momento terrível. E ela teria de suportar. Porque o amava mais do que a si mesma e queria vê-lo feliz.

Ela precisava saber que ele estaria feliz, vivendo a vida charmosa que ele e Tânia tinham planejado. Não uma vida marcada pelo senso de obrigação. Ela teria de mentir, como nunca mentira na vida. Dizer a ele que a noite de paixão que eles tiveram não havia significado nada. Ela continuava sem querer se casar com ele. E iria jurar desaparecer discretamente com Thony. Mas claro que ele poderia visitar o menino, se quisesse. E o instigaria a assegurar a Tânia, que ela jamais iria se intrometer na vida deles, ou fazer exi­gências de qualquer tipo. Ela não seria notada. Fica­ria invisível. Se a outra mulher estivesse se sentindo destroçada pelo fim do noivado, como dera a impres­são de estar, certamente poderia ser persuadida a per­doar a infidelidade dele. Considerá-la como uma es­capada sem muita importância, e que jamais se repe­tiria.

O café esperava por eles. A bandeja estava deposi­tada na mesma mesa onde ela tomara o café da ma­nhã, acompanhada de Thony e Minette, alegres e feli­zes à luz do sol.

— Você não vai se sentar? Com um nó na garganta, Bella se sentou na ca­deira que ele gentilmente puxou para ela. Pelo som distante e frio da voz de Edward, soube que ele já a ex­cluíra de sua vida.

Ele devia estar se sentindo imensamente desgostoso consigo. Ter se entregue à luxúria por instinto ani­mal, não era exatamente um traço de caráter admirá­vel, do qual pudesse se orgulhar. Mas o erro dela, esquecendo de tomar a pílula anticoncepcional, resulta­rá que ele agora estava encarando um futuro diferente e com uma mulher bem diferente daquela com que ele esperava se casar.

— Está com frio?

Edward notara que ela tremera ao servir o café, e condoeu-se por ela. Sentou-se do outro lado da mesa, bem longe da tentação de tocá-la. Não tinha certeza de resistir à tentação de agarrá-la se estivesse perto.

— Estou bem.

Bella passou a xícara ao responder. Mortificada, avaliou que deveria estar parecendo como se estives­se sendo estrangulada. Na luz difusa, sob o céu estre­lado, ele parecia desolado. Parecia ser exatamente o que era: um homem que havia se comprometido rigi­damente com um dever.

Ela não poderia levar isso adiante. Precisava liber­tá-lo para que ficasse com a mulher que havia jurado que eles tinham sido feitos um para o outro. Amava-o tanto. Não iria suportar o peso de ter arruinado a vida dele.

Respirou com dificuldade, desejando que seu co­ração se acalmasse, e que a boca parasse de vacilar. Até que essas duas façanhas estivessem concretiza­das, ela não seria capaz de falar com determinação e prática, que os laços entre eles estariam cortados, com exceção, é claro, de partilharem uma criança.

— Você não parece estar bem.

Na verdade, Edward achava que ela estava à beira de irromper em prantos. Seria conseqüência da con­versa que tivera com o rapaz com o qual ela queria vi­ver? Uma conversa que certamente a recordara dos planos de morar no apartamento dele, em Londres. Edward não iria jogar contra ela o fato de ter feito amor com ele na véspera. Não queria ser moralista.

Durante todo o longo noivado com Tânia Denali di Barsini, ele estivera livre para ter amantes, com o acordo tácito de sua noiva. No círculo de amizades dele, tais arranjos eram perfeitamente aceitáveis.

— Não vou demorar muito — comunicou grave­mente. — Aqui fora estaremos com nossa privacida­de garantida. Se estiver com frio, eu mando buscar um agasalho.

Tudo o que ele ansiava era tomá-la em seus bra­ços, esquentá-la com o seu corpo, acariciá-la, guar­dá-la como a um tesouro.

Ela fez um movimento com a cabeça negando, e preparou-se para engrenar sua fala. Então ele despejou sobre ela:

— Você está livre para partir. Pode pegar Thony e levá-lo de volta para a Inglaterra, se esse for o seu de­sejo. É natural que eu insista em ter acesso razoável a ele. Irei sustentá-lo financeiramente, e também a você. Entretanto eu gostaria de imaginar você, e meu filho, vivendo no campo, respirando ar puro. Vou providenciar a quantia necessária para facilitar tais movimentos.

— Não há necessidade de pagar para se livrar de mim!

Com uma ferocidade assustadora, o calor voltou a esquentar o corpo gelado de Bella. Tanto melhor que ela estivesse com suas nobres intenções de liberá-lo para que ele fosse viver com sua maravilhosa e socialmente aceitável Tânia! Ele já havia assumido o controle da situação outra vez e decidido que romper o noivado era um preço muito alto a pagar pelo filho dele.

As palavras que ele acabara de dizer eram tudo o que ela vinha querendo ouvir, antes da última noite. Bella lutava para se colocar de pé, mas caiu com um baque ao ouvir que ele falava prontamente.

— Você tem obrigações, Bella. Não se trata de querer comprá-la para me livrar de você.

E depois, desprezando-se por sua vergonhosa fraqueza, ele acrescentou:

— Há uma outra opção. Minha oferta de casamento ainda permanece.

Bella achou que iria explodir de dor, sua face empalideceu enquanto lutava para respirar. Ela poderia passar a maior parte dos dias numa felicidade sentimental, convencida que eles poderiam construir uma vida maravilhosa para ambos, convencida de que a proposta exclusiva de casamento era o melhor para ambos. Mas que nada, viveriam um sonho bobo. Ela acreditara que ele era um homem livre, mas ele não era.

Ela levantou os olhos e sua boca tremia. Ele colocava o futuro deles nas mãos dela e ela nunca o amara tanto.

Se ela aceitasse a proposta, ele iria até o fim. Seu senso de dignidade o levaria a isso. Já o fizera ao lembrá-la dessa segunda opção.

Ela não poderia e não iria fazer isso com ele.

Ficar de pé exigiu-lhe um esforço monumental. Soltar a voz exigiu um esforço ainda maior.

— Posso lhe pedir que se encarregue de comprar as passagens? Gostaria de partir com Thony o mais rápido possível.