A mente de Levi começa a registar sons muito antes de abrir os olhos; o bater metálico abafado do eléctrico à distância, o chilrar dos pássaros lá fora, o suave chapinhar de água enquanto Erwin se barbeia. Está a tentar ser tão silencioso quanto possível, Levi consegue percebê-lo, e algo nesse cuidado fá-lo pressionar a face com mais firmeza contra a almofada e puxar os joelhos para mais perto do peito. Não quer que este momento termine, não se quer lembrar do que o trouxe aqui, aquele medo e paralisia de antes que parecem ter aliviado durante a noite, ainda que Levi ainda consiga sentir o medo gelado mesmo abaixo da superfície.

Abre ligeiramente os olhos, apanhando o movimento da cortina branca simples ao ondular com a brisa da manhã. A janela está aberta; Levi lembra-se vagamente de como Erwin o acordara a meio da noite, pedindo permissão para a abrir de novo. O homem tinha começado a transpirar - Levi conseguira perceber pelo calor na cama e a humidade nos lençóis. Ainda consegue sentir um vestígio agora, ainda que o ar fresco tenha tirado o cheiro abafado do quarto. Enquanto inspira e fecha os olhos de novo, Levi pergunta-se porque é que não se importa por estar deitado nos lençóis sujos de outra pessoa.

Deita-se sobre as costas de forma quase relutante, esticando os braços e as pernas, olhos meio entreabertos na direcção de Erwin que está a secar a cara numa toalha. Os olhares encontram-se no espelho sobre a bacia e Erwin sorri, a sua resposta habitual ao cenho franzido de Levi.

- Espero não te ter acordado - diz ele gentilmente. - Estava a tentar não fazer barulho. Como te sentes?

Levi abana a cabeça ao sentar-se na cama, só se apercebendo da sua nudez quando os lençóis caem dos ombros e do peito. Há algo na forma como o tecido lhe toca nas nádegas despidas que o faz sentir-se embaraçado, ainda que, quando trepara para a cama na noite passada, nem se tivesse apercebido que não estava a usar nada.

- Estou bem - responde, a voz grave e áspera mesmo aos seus ouvidos ao puxar os lençóis à volta do corpo. - E não me acordaste.

- Ainda bem - diz Erwin, pendurando a toalha numa calha embutida no lavatório. - Imagino que tenhas fome. Já deve ter passado um tempo desde que comeste alguma coisa.

Levi lembra-se das papas de aveia geladas que comera na cela e estremece. - Que horas são?

- Passa pouco das seis - diz-lhe Erwin, avançando para o armário e levantando uma pilha de roupa. - Trouxe alguma roupa lavada do teu apartamento ontem à noite. Achei que não irias querer usar as mesmas de antes.

Levi sente um arranhar na garganta, o mesmo que se recorda da noite anterior, quando Erwin começara a pentear-lhe o cabelo. - Obrigado - consegue dizer quando o homem pousa as roupas na cama.

- Posso trazer o pequeno-almoço para aqui se tu-

Levi dá um estalido com a língua. - Pára de estar assim. Já disse que estou bem - repete, franzindo o sobrolho perante a preocupação na expressão de Erwin. - Vês? Já estou a falar e tudo.

O homem dá uma pequena risada. - Acho que me sentiria melhor se estivesses a dizer palavrões - denota, fazendo Levi resfolegar.

- Continua a fazer isso e vou começar - diz ao homem, que ri de novo.

- Muito bem - diz, erguendo as mãos na defensiva enquanto começa a recuar pelo quarto. - Vou estar na cozinha se precisares de mim.

- Pára lá com isso - diz Levi de novo, tentando soar severo mas não conseguindo evitar esboçar um sorriso. - É o teu último aviso.

- É melhor não tentar a minha sorte, então - responde Erwin antes de sair do quarto e fechar a porta atrás de si.

Levi levanta-se e espreguiça-se de novo; os músculos estão doridos da tensão do dia anterior, mas tirando isso, sente-se melhor do que esperava. Vai rapidamente à casa de banho, usando a pequena toalha e uma barra de sabonete para lavar o suor do corpo. Ao passar com o pano sobre o peito, Levi pergunta-se se Erwin normalmente dorme assim, completamente despido em vez de camisa e roupa interior como usara na noite anterior. Levi pensa que foi educado da parte dele, apesar de terem usado lençóis diferentes; afinal, a cama não é assim tão grande, e o peso de Erwin fizera Levi rebolar repetidamente para o lado dele do colchão.

Levi pára o pano sobre o abdómen, sentindo-se relutante em sequer olhar para o seu corpo abaixo disso, e lava-o antes de o pendurar a secar. Veste-se rapidamente com as roupas que Erwin lhe trouxera - uma camisa cinzenta e um par de calças castanhas, meias e roupa interior lavadas e as suas botas de trabalho - antes atravessar o apartamento e entrar na cozinha onde Erwin prepara pão, queijo, marmelada e manteiga, uma taça de morangos e um bule de chá quente, que leva para a mesa quando Levi se senta, puxando o joelho entre o peito e a beira da mesa.

- Estás com pressa em ir para casa? - pergunta-lhe Erwin, sentando-se do outro lado da mesa. - Tenho costelas de borrego que podíamos comer ao almoço, se quiseres.

Levi pensa na questão, e pensa em Farlan e Isabel sozinhos no apartamento. Sabe que devia dizer que sim, que se ia embora logo a seguir ao pequeno-almoço. Franze o rosto ao estranho impulso que sente, o mesmo que sentira na noite passada quando chegara à ponte, o impulso que o fizera mudar de rumo e vir para a casa de Erwin em vez de ir para sua casa.

- Pode ser - decide, olhando para o rosto sorridente de Erwin e sentindo uma pontada de culpa. - Posso ficar para o almoço.

- Óptimo - diz o homem, e ficam calados enquanto Levi começa a barrar manteiga numa fatia de pão, até Erwin quebrar o silêncio. - Compreendo se não quiseres falar sobre-

- Ainda não - interrompe-lo Levi, sentindo uma onda de terror nauseante e focando-se de imediato em servir o chá e na cor âmbar forte enquanto este cai na chávena.

- Claro - responde Erwin naquele tom tranquilizante da noite anterior. - Demora o tempo que precisares.

Levi acena sem dizer nada, deitando uma gota de leite no seu chá e mexendo. - Onde é que arranjas aquele sabonete? - pergunta ao homem, trazendo à memória aquele aroma a lavanda enquanto dá uma dentada no pão, saboreando o sabor salgado da manteiga na língua.

- Mercado negro - explica Erwin, confirmando a suspeita de Levi. - Apesar de parecer que também está a tornar-se cada vez mais raro lá a cada dia que passa. Posso tentar arranjar algum para ti, se quiseres.

- Mesmo com o que me estás a pagar, não teria dinheiro para aquilo - diz-lhe Levi, beberricando o chá.

- Um presente, então - sugere Erwin, mas Levi abana a cabeça.

- Não gosto de presentes - explica. - Deixam-me desconfortável.

- Estou a ver - diz Erwin, servindo chá para si. - Posso perguntar porquê?

Levi encolhe os ombros. - Não sei o que fazer com eles - diz ao homem por entre uma dentada no queijo. - Não gosto que as pessoas me dêem coisas. Deixa-me desconfiado.

- Desconfiado do quê? - pergunta-lhe Erwin agora, dando uma risada. - Dos motivos deles? Do que vão querer em troca?

Levi encolhe os ombros de novo. - Não há muitas coisas de borla neste mundo - resmunga. - Além disso, sou desconfiado por natureza. Chama-lhe um defeito. Ou nestas circunstâncias, chama-lhe senso comum.

- Hm - faz Erwin, pensativo. - Claro que não te posso culpar por isso, mas fico ligeiramente surpreendido ao ouvir-te dizê-lo.

- Porquê?

- Não sei - divaga Erwin, provando o chá. - Suponho que simplesmente nunca vi muito esse teu lado. Aceitaste a minha oferta para ajudar na operação de forma tão rápida que te marquei como imprudente e confiante, talvez até demasiado.

Levi levanta o olhar para Erwin, apercebendo-se que ele tem razão. Todo este tempo, ele deve ter parecido ser o tipo de pessoa que aceita praticamente tudo. Dificilmente poderia ter aceite algo mais perigoso do que isto, especialmente considerando o seu próprio juramento de se manter tão despercebido quanto possível. Esse também era o plano de Erwin, reconhece Levi, e fá-lo perguntar-se se imprudência é algo que provocam um no outro.

- És uma excepção à regra - informa Levi, enfiando o resto do pão na boca e esticando-se para retirar outra fatia. - Lugar certo na hora certa, e essas coisas.

- Bem - supõe Erwin, dando uma grande dentada na sua fatia de pão e esperando até acabar de comer antes de continuar: - Seja como for, fico feliz que sintas que podes confiar em mim. Receava que isso tivesse mudado.

As mãos de Levi abrandam na sua tarefa de espalhar marmelada na segunda fatia de pão ao lembrar-se da discussão que tinham tido há duas semanas, de forma tão clara como se tivesse sido no dia anterior. Consegue sentir vergonha a queimar-lhe as bochechas ao olhar para Erwin. As coisas que dissera ao homem pareciam agora tão estúpidas quando se permite admitir que, se não fosse o seu erro durante a missão na Alberstadt, o homem não estaria nesta situação agora. Talvez tivesse sido o homem ter-lhe batido que tivesse feito Levi querer culpar aquilo tudo nele, em vez de aceitar o seu próprio papel no que Erwin era agora forçado a fazer - ou talvez Levi só estava demasiado envergonhado para o admitir.

- Eu sei que disseste que não era necessário - começa Erwin, agora de rosto franzido - e eu sei que provavelmente não gostas que puxe o assunto. Mas por favor, mais que não seja para minha paz de espírito, deixa-me pedir desculpa por te ter batido. Não consigo expressar o quanto lamento.

Levi olha de novo para cima antes de afastar o olhar de novo para a chávena de chá. Se tem estado à espera de o ouvir, não se tinha apercebido disso, e na altura em que dissera a Erwin que não era necessário pedir desculpa estava mesmo a falar a sério, ou pelo menos achava que estava. E ainda assim, há algo naquelas palavras ditas em voz alta que aliviam um peso no peito de Levi, mesmo quando ele sempre assumira que saber como Erwin se sentia sobre aquilo seria suficiente para ele.

- Está tudo bem - diz Levi, olhando de novo para cima, para os olhos de Erwin. - Pensei que te tinha perdoado na altura, mas agora já perdoei mesmo, por isso não precisas de continuar a preocupar-te com isso.

- Fico feliz por o ouvir - responde Erwin, parecendo aliviado; regressa ao seu pequeno-almoço, parando abruptamente quando Levi quebra de novo o silêncio.

- E peço desculpa - começa; as palavras soam estranhas, e todas as outras que ainda está a reprimir parecem pressionar-lhe o peito. - Peço desculpa por te ter chamado egoísta. Quero dizer, toda esta merda com o Osterhaus é culpa minha, se eu não tivesse-

- Já te disse, não te deves culpar por-

- Se não me deixas falar agora, nunca vou conseguir dizer esta merda, por isso podes... - diz Levi, inspirando fundo e olhando de novo para Erwin. - Podes só deixar-me falar?

Erwin olha para ele, e apesar de não estar a sorrir, aquelas ténues rugas nos cantos dos seus olhos parecem de repente mais fundas. - Desculpa por ter interrompido. Continua, por favor.

Levi aproveita o momento para organizar os pensamentos, mexendo o chá devagar. - Se eu não tivesse feito merda naquela missão, não estarias a lidar com o Osterhaus e com esta merda toda agora - recomeça de novo. - Desculpa por te ter posto nesta posição, e desculpa por ter dito que não prestavas por estares a tentar fazer o melhor com uma situação terrível e fodida. Quando nos conhecemos, disse-te que não fazias a porra de ideia do que estavas a falar, sabes, sobre pessoas como eu. E a verdade é que eu não sei as coisas pelas quais tens passado, ou como a tua vida tem sido, por isso quem caralhos sou eu para julgar as coisas que fazes ou porque razão as fazes.

Erwin ouve calmamente, as mãos grandes pousadas na mesa.

- Não nego - diz - que se não tivesses cometido aquele erro na missão, o Osterhaus não estaria agora na posição de usar esse conhecimento contra mim. No entanto, a decisão de te envolver na missão foi minha, e considerando que foi a tua primeira, continuo da opinião que desempenhaste o teu papel admiravelmente. Perdoo-te por esse erro com toda a honestidade, e também te perdoo pelo que disseste. Não te posso culpar por achares que sou egoísta. Afinal, não é um comentário infundado.

Recomeçam ambos a comer o pequeno-almoço, mas algo ainda está a remoer a mente de Levi, algo que não foi dito e que não o deixa em paz. Olha para Erwin a retirar uma porção de morangos cortados em metades e a comê-los com uma colher; há um olhar distante nos olhos do homem, como se ele também estivesse preocupado com alguma coisa. Levi luta para encontrar a fonte do seu próprio desconforto, estremecendo internamente quando por fim consegue. Mas decide que esta é a altura certa; provavelmente não vai voltar a falar tanto durante muito tempo.

- E peço desculpa - começa, tal como fizera antes, como se precisasse daquela palavra extra para ser capaz de dizer o resto, - pelo que te disse, que só te via como o dono do apartamento que limpo. Não queria dizer isso.

Erwin sorri. - Fico feliz por o saber. Eu-

- Acho que só pensei que seria mais fácil - continua Levi, e uma parte de si está a perguntar-se o que o está a deixar tão falador, - ver-te dessa forma. Quero dizer... Nem sequer começou dessa forma, mas depois... Também não é amigos, e eu sou só uma merda tão grande com pessoas que eu não sei bem-

- Levi? - interrompe-lo Erwin gentilmente; aquele sorriso na cara dele faz Levi sentir-se estúpido. - Quer estejamos a trabalhar ou não, eu aprecio a tua companhia e espero que aprecies a minha. Não precisa ser mais complicado do que isso.

- Pois - declara Levi, voltando para o seu pequeno-almoço, finalmente satisfeito com silêncio.

- Mais uma chávena de chá na sala? - pergunta Erwin a Levi depois de terminar os morangos.

Levi acena, começando a preparar mais chá enquanto Erwin leva as chávenas num tabuleiro para fora da cozinha. Levi segue-o passado um momento, sentando-se no seu lugar habitual no sofá do lado oposto a Erwin.

- Então limpaste a mancha de café do tapete - nota Levi, lembrando-se do porco do Osterhaus a entornar a chávena. - O que é que usaste? Álcool e amoníaco?

- Exactamente - responde Erwin. - Tive de pedir conselhos a uma das minhas vizinhas.

Levi resfolega. - Bem, tens outros talentos - diz, fazendo Erwin dar uma risada. - Estava meio à espera que a mancha ainda ali estivesse quando cá voltasse.

- Não tinha a certeza se voltarias - diz-lhe Erwin, servindo o chá. - Por isso tive de tratar do assunto.

- Eu ia voltar, sabes - diz Levi sem pensar. - Estava mesmo à tua porta quando-

O pensamento atravessa-o à força, fazendo Levi parar e estremecer. Num segundo lembra-se de tudo, a longa caminhada para o quartel general da Gestapo, o interrogatório, o fedor a mijo na cela, o hematoma sobre o olho do outro homem. "Só vais ter paz de espírito", dissera ele, "quando parares de tentar achar uma centelha de razão na loucura deles." Levi pensa na forma como caíra de joelhos à frente de Darlett - tem nódoas negras agora para o relembrar - e implorara pela vida, e aquele alívio entorpecido que não consegue sentir devidamente sob a apatia generalizada.

- Levi? - chama-lo Erwin baixinho, e algo na suavidade com que o homem diz o seu nome traz Levi de volta ao presente. - Estás bem?

Levi franze o sobrolho. - Estou - diz de novo, sem ter a certeza se é a sério. - Acho que sim.

À sua frente, Erwin pousa a chávena na mesinha do café, dando a volta a ela e posicionando a poltrona à frente de Levi. Senta-se e apoia os cotovelos nos joelhos.

- O melhor é que eles não vão continuar a procurar-te - diz a Levi numa voz baixa e grave. - Theodore Mertz está morto e enterrado, e ninguém tem qualquer motivo para desconfiar de Lukas Weller.

Levi acena devagar, encontrando os olhos de Erwin por uns momentos antes de desviar o olhar. - Foda-se, que estupidez - resmunga para si, pressionando as palmas das mãos contra as pálpebras fechadas. - Eu estou bem. Eu-

- Apanhaste um susto e tanto - diz Erwin, estendendo a mão e colocando-a sobre o joelho de Levi; é uma sensação quente através do tecido das calças de Levi, de alguma forma segura, e tranquilizante. - Ficaria muito surpreendido se não ficasses minimamente abalado por aquilo.

- Fiquei - responde Levi, passando a mão pelo cabelo em nervosismo. - E fez sentido na altura, mas porque é que me sinto mal como a merda agora? É só... foda-se, é uma estupidez.

- Não acho que seja estúpido - diz-lhe Erwin. - Quer dizer que levas estar vivo muito a sério, o que, é de facto, uma coisa boa.

Levi resfolega. - Aquela merda daquele instinto de sobrevivência - murmura. - Acho que não há forma de lhe escapar.

- Espero sinceramente que não haja - diz Erwin baixinho.

Ficam calados durante um longo momento durante o qual a mão de Erwin no joelho de Levi se torna maior e mais pesada, como se o simples toque estivesse a tornar-se mais importante. Levi encara o olhar de Erwin com firmeza, olhando para os olhos dele como se estivesse à procura de alguma coisa, apesar de não saber do quê. Não há nada de familiar na expressão no rosto de Erwin, pelo menos nada que tenha visto no rosto de outra pessoa; há um tipo de melancolia que Levi não compreende, e fá-lo quebrar a ligação.

- O que aconteceu? - pergunta-lhe Erwin, fazendo Levi suspirar.

- Fui parado à porta do prédio - começa a contar, - por dois cabrões idiotas de merda da Gestapo. Levaram-me para o quartel-general, outro monte de merda nazi veio e fez-me umas perguntas. Mas ele teve de sair, recebeu uma chamada, por isso disse aos idiotas para me... analisarem.

- E fizeram-no?

Levi acena. - Não sabiam que merda estavam à procura - explica, voltando a passar com a mão na cabeça e escarnecendo. - Acho que devia estar pelo menos grato por isso.

Erwin concorda. - E depois o que aconteceu? - pergunta agora, como se soubesse que está de alguma forma a ajudar, deitar aquilo para fora.

- Levaram-me para uma cela - continua Levi. - Estive lá imenso tempo. O lugar todo tresandava a mijo e a merda. - A memória faz Levi tremer. - Tiraram-nos de lá para esperarmos pelo comboio e escreverem os nossos nomes numa lista. Vi o Darlett, disse-lhe que tinha havido um engano e que trabalhava para ti.

- Ele viu-te no quartel-general e ligou-me - explica Erwin, retirando a mão; o lugar onde estivera na perna de Levi fica de repente frio.

- Ele disse para te dizer que lhe deves uma - lembra-se Levi, fazendo Erwin dar uma risada seca.

- Sim - comenta. - Tanto quanto sei, o Darlett não é do tipo de fazer as coisas pela bondade do seu coração. Sem dúvida viu que podia aproveitar alguma vantagem ao ajudar-te.

Levi dá um estalido com a língua. - Não gosto dele - diz de forma algo desnecessária, fazendo Erwin rir de novo, mais genuína e calorosamente agora.

- Já tinha reparado - diz, sorrindo enquanto Levi pega na chávena de chá, esvaziando-a antes de suspirar longamente; algum peso parece sair-lhe de cima ao fazê-lo. - Ele não é uma pessoa totalmente má, e está do nosso lado nesta luta, o que o torna-

- Tolerável - completa Levi e fazendo o homem rir de novo; o som faz os cantos da boca de Levi estremecer para cima.

- Não teria dito melhor - elogia-o, pegando na sua chávena e bebendo o chá. - Tens um dom com as palavras, não tens?

Levi ri também. - Oh sim - diz, pensando na sua anterior batalha para formar sequer uma frase compreensível. - Sou um verdadeiro poeta.

Erwin suspira. - Não sei porque é que achas sempre as minhas observações sobre ti tão ridículas. Devias saber que eu realmente estou a falar a sério, na maioria das vezes.

- Na maioria das vezes? - pergunta Levi, sorrindo perante a expressão exasperada na cara de Erwin.

- Claramente, interpretei-te mal em alguns aspectos - clarifica ele, recostando-se na poltrona. - Olha a questão da imprudência, por exemplo.

- Tenho sido imprudente sobre isto - diz-lhe Levi. - Por isso não me interpretaste assim tão mal.

- Bem - divaga Erwin. - Seja como for, estava a falar a sério. Podes não ser sempre muito delicado ao fazê-lo, mas eu admiro a tua forma de fazeres passar a tua mensagem.

- É preciso fingir muito - diz Levi baixinho, - ao viver desta maneira. Suponho que fiquei apenas feliz por ter achado alguém com quem não tenho de andar sempre em pézinhos de lã a merda do tempo todo.

- Percebo muito bem o que queres dizer - responde Erwin. - Ainda que suponha que no meu caso seja o oposto. O Holtz é... de certa forma mais rude nos seus maneirismos do que eu prefiro ser.

Levi acena e ficam em silêncio. Ao olhar para Erwin, ocorre a Levi de novo o quão parecidos eles são, o quão parecidas são as suas circunstâncias, ainda que tenham chegado aqui por caminhos tão diferentes. Já se passara um tempo desde que se apercebera disso, e parece-lhe estranho de repente como esse pensamento se tornara reconfortante - o quanto significa ter alguém que te compreende. Apercebe-se que Erwin se sente da mesma forma, como dissera na noite da festa, que a presença de Levi na sua vida a ajudara a tornar-se mais tolerável. Levi gosta de saber disso, que pode ajudar Erwin, nem que seja por simplesmente passar tempo na sua presença, enquanto ainda existem formas em que não se conseguem aproximar.

Passam outra hora assim, falando e não falando, apreciando o silêncio tanto quanto a conversa, até Levi começar a trabalhar quando o estado do apartamento lhe começa a mexer com os nervos. Quando a luz lá fora começa finalmente a lançar raios inclinados através das janelas da sala, cozinham as costeletas de borrego para o almoço com batatas fritas e feijão verde; Levi guarda o resto para levar para casa para Farlan e Isabel. À porta, Erwin entrega-lhe um punhado de Reichmarks que Levi coloca rapidamente no bolso.

- Achei que pudesses estar a ficar sem dinheiro. Com aquela pausa e tudo isso.

Levi concorda com um grunhido. - O Farlan já se começou a queixar - diz ao homem, sorrindo de novo quando ele ri.

- Uma dona de casa só tua - brinca ele, e Levi não consegue evitar concordar, ainda que ache o termo ligeiramente perturbador.

- Nunca imaginei ter uma dessas, mas aqui estamos nós - admite. - Não que ele esteja errado. Precisamos do dinheiro.

- Claro - declara Erwin. - Fico feliz por poder ajudar com isso.

- Sim, sim - resmunga Levi. - Sempre feliz por ajudar. Já sei.

Erwin ri de novo, um som que acompanha Levi durante todo o percurso de volta ao apartamento onde Farlan e Isabel correm para o receber assim que ouvem a chave na fechadura, ou assim parece a Levi. Isabel é a primeira a fechar a distância entre eles, correndo para o abraçar com tanta força que Levi mal consegue respirar. É seguida rapidamente por Farlan que faz o mesmo, libertando-o muito mais rápido que Isabel.

- Como foi? - pergunta demasiado depressa, assim que Isabel se soltara de Levi. - O que aconteceu? O Erwin não explicou, só disse que a Gestapo te tinha interrogado.

Levi acena, cansado, caminhando para a cozinha atrás de Farlan, sentando-se à mesa a pedido dele enquanto ele lhe serve uma chávena de chá.

- Meteram-me numa cela a noite toda - diz Levi. - Fiquei na plataforma antes de um conhecido do Erwin me tirar de lá.

- Tiveste medo, mano? - pergunta-lhe Isabel, fazendo Farlan resfolegar.

- Que pergunta estúpida, Isabel. Claro que ele teve medo - declara taxativamente ao sentar-se do lado oposto a Levi. - Então ficaste na casa do Erwin?

Levi acena de novo. - Era mais perto e eu estava cansado - explica, sabendo que é apenas meia verdade. Farlan parece satisfeito o suficiente com a resposta, e Levi não elabora. - Trouxe almoço, e dinheiro.

Isabel, que estivera a fixar o saco de papel castanho em cima da mesa com curiosidade, começa a remexer nos atilhos antes mesmo de as palavras saírem da boca de Levi, só ver a sua parcela arrancada das suas mãos por Farlan.

- Pratos! - exclama ele quando a rapariga revira os olhos. - Não há razão para não podermos pelo menos fingir que somos civilizados, mesmo no nosso estado.

Levi lembra-se de repente do seu primeiro encontro com Erwin, como o homem dissera algo muito semelhante na altura, e dá uma risada baixa. Algo na discussão animada fá-lo sentir-se melhor.

- Eu não quero ser civilizada - insiste Isabel, apoiando os cotovelos na mesa. - Quero não ter fome.

- Demoro dois minutos a pôr isto nos pratos - diz-lhe Farlan.

- E vais demorar quinze a lavar a loiça toda - recorda-lhe ela. - Como é que não faz mais sentido nós comermos com as mãos?

Farlan olha para Levi como que a exigir uma intervenção dele, só para receber um encolher de ombros.

- Eu diria que é mais limpo comer com um garfo - começa Levi. - Mas um garfo devidamente lavado não é tão limpo quanto mãos devidamente lavadas?

- Sinceramente! - bufa Farlan, voltando-se para o armário para tirar dois pratos que coloca na mesa. - É como tentar ensinar duas crianças selvagens a viver!

- O que é que esperavas? - pergunta Isabel. - Nem toda a gente foi criado num palácio como tu.

- Eu não fui criado num palácio - retorque Farlan, fungando. - Mas pelo menos tínhamos toalhas de mesa, e porcelana boa para ocasiões especiais.

- Como o quê? - continua Isabel, a rir. - O teu casamento?

Farlan faz-lhe uma careta enquanto Levi ri para a sua chávena de chá.

- Queres comer alguma coisa? Tiro um prato também para ti? - pergunta-lhe Farlan de repente, e ele franze o rosto.

- Eu já comi.

- Eu sei, mas achei que ainda pudesses ter forme, ou te apetecesse comer. Ainda há muito de sobra se tu-

Levi abana a cabeça. - Comam vocês - diz-lhes aos dois.

- Tens a certeza? - pergunta Farlan, esperando pelo seu aceno antes de dividir as doses para os pratos. - Queres mais alguma coisa? Mais chá? Acho que tenho uns pêssegos em calda guardados algures, se tu-

- Pára com isso - ordena Levi ao homem, gentilmente. - Não preciso de nada. Estou bem.

As suas garantias parecem cair em ouvidos moucos, no entanto; depois de almoço, Farlan e Isabel sentam-se com ele no sofá e trazem-lhe tudo o que ele precisa e mais coisas de que não precisa, contando piadas e histórias engraçadas para o fazerem sentir melhor. Levi adora-os por isso, ainda que ache que já não precisa de tudo aquilo, e já começa a sentir aquela inquietação por ficar muito tempo parado. Na altura em que Farlan se junta a ele na cama depois de lavar a loiça, Levi já está a tentar pensar em algo para fazer no dia seguinte.

- O que é? - pergunta-lhe Farlan baixinho quando Levi se levanta da cama. - O que é que precisas?

- Foda-se - reclama Levi, coçando a parte de trás da cabeça. - Preciso de ir mijar. Vais-me segurar na pila também?

O outro homem ri e abana a cabeça. - Preferia não o fazer, se te conseguires desenrascar sozinho - diz ele a Levi, antes de puxar os lençóis para o queixo; já está a dormir quando Levi regressa.

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O desejo de Levi para ter mais coisas para fazer é concretizado alguns dias depois - ainda que não da forma que ele teria preferido - quando Isabel regressa a casa à noite, e a sua habitual demanda por submarinos num jornal roubado é constantemente interrompida ao coçar furiosamente a cabeça, um hábito que Farlan ganha na manhã seguinte. Levi é poupado até terça-feira, altura em que já lavara todos os lençóis e passara horas a correr os cabelos de Farlan e de Isabel com um pente para piolhos. Pede um envelope a Farlan para enviar uma mensagem a Erwin, confiando a sua entrega a Isabel no posto de correio algumas ruas ali perto.

- Ele viu-me a cabeça depois daquela noite, sabes - diz Levi a Farlan, tremendo numa banheira cheia de água morna enquanto o homem lhe puxa o cabelo com o pente.

- O Erwin? - pergunta Farlan, e Levi acena. - Foi muito amável da parte dele.

- Ele é - resmunga Levi, estremecendo quando Farlan esmaga outro piolho entre os dedos. - Muito amável.

- Sim - murmura o outro homem. - Vocês o dois têm isso em comum.

Levi escarnece. - Acho que ele está em melhor posição para o mostrar - declara, fazendo Farlan concordar.

- Talvez. Mas, seja como for, acho que é querido.

- Como é que ainda consegues ser assim tão romântico? - pergunta-lhe Levi. - Numa altura como esta?

Atrás de si, Farlan ri. - Podia ser o fim do mundo, que eu ainda acreditaria no amor, meu caro - diz ele a Levi, abanando a pente num arco dramático. - Para outras pessoas, pelo menos.

Levi resfolega. - Olha que era muito melhor para ti do que para mim. Eu não sei o que fazer com o romantismo.

- Então deixa que ele te ensine - responde o outro homem. - E tenta não estar sempre tão preocupado com tudo. É algo muito pouco atraente num homem.

- Olha quem fala - contrapõe Levi, voltando-se para olhar sobre o ombro. - E além disso, ele é ainda pior do que tu.

Farlan dá um estalido com a língua, inclinando-lhe a cabeça para a frente. - Então, bem... - começa, parando para suspirar. - Deixa alguém tomar conta de ti para variar. Pode ser? Deixa que ele faça isso, se ele quiser. Os homens gostam de sentir que são precisos, sabes.

- Onde é que aprendeste merda desta? - pergunta-lhe Levi a rir. -"Das Blatt der Hausfrau"? Andas a ler revistas femininas?

Farlan ri também. - A minha mãe lia religiosamente - diz - e, admito, eu também lhes dava uma espreitadela às vezes.

- Faz-me ficar nervoso - admite Levi, após um longo silêncio, puxando os joelhos para perto do peito quando a água arrefece ainda mais.

- Homens a ler revistas de mulheres? - pergunta-lhe Farlan, voltando a mandá-lo ficar quieto quando ele abana a cabeça.

- Isto com o Erwin - clarifica Levi, ouvindo a hesitação do outro homem antes de ele responder.

- Eu sei.

Depois de Farlan encher a sua cabeça de vinagre e a enrolar numa toalha, deixa que Levi acabe de se lavar, despedindo-se dele à porta antes de ir às compras. Levi volta a encher a banheira, tentando em vão com que a torneira deitasse água que fosse mais quente do que a sua temperatura corporal. Senta-se com uma carranca, coçando a cabeça através da toalha, esperando até se habituar ao fedor do vinagre que agora paira a toda a sua volta. Os dedos descem abaixo do braço para aliviar uma comichão, forçando-o a sair da banheira e a espreitar os pêlos escuros no espelho.

De repente, parece que cada pedaço de pêlo no corpo está repleto de bichinhos minúsculos, como se tivessem posto ovos por todo o lado. Pega no pente que Farlan deixou para trás, passando pelas axilas e servindo-se da ajuda do espelho sujo na parede. Quando tem a certeza que não vai encontrar nada, Levi volta a sua atenção para os pêlos ásperos entre as pernas, dobrando o pescoço doloramente para espreitar mais atrás, sem sucesso.

Depois de coçar a cabeça com a toalha de novo, Levi toma uma decisão, tirando a espuma de barbear e a navalha de Erwin que guardara na gaveta de cima do armário. Espalha a espuma entre as coxas e até às nádegas, erguendo um pé na ponta da banheira para conseguir mover-se melhor. Passa vinte minutos a passar a lâmina contra a pele, retirando os pêlos em tufos, até finalmente passar a área por água e regressar ao apartamento vazio, fechando as cortinas antes de olhar para si no espelho alto do quarto, franzindo o cenho perante a imagem.

O pénis está flácido e solitário, destacando-se do corpo como se fosse um dedo demasiado grande, como se mal ali pertencesse mais. Levi tenta passar a mão por ele, mas a sensação também é errada, a delicadeza da pele parece demasiado infantil e embaraçosa. Cruza os braços à frente do peito, fitando a exposição total, a visibilidade, e suspira, perguntando-se quanto tempo vai demorar para que volte tudo a crescer.

Demoram duas semanas a livrar-se dos piolhos, durante as quais Levi lava todas as roupas e lençóis em água quente três vezes, e todo o apartamento fede a vinagre. No final, o cabelo de Isabel está quase tão pequeno como o de Farlan, um facto que ela não parece importar-se apesar da quantidade de vezes que se contorcera e a quantidade de caretas que fizera enquanto lhe cortara o cabelo. Levi e Farlan conseguiram manter os seus como estavam e, apesar de Levi nunca se ter considerado uma pessoa vaidosa, fica feliz por ainda ter cabelo, especialmente porque sente a depilação total sob as roupas.

Quando consegue finalmente regressar ao apartamento de Erwin, sente as mãos formigarem para começar a limpar; sem dúvida que o trabalho se acumulara no tempo que estivera fora. Salta os degraus dois a dois, cumprimentando Erwin com um sorriso rápido quando este abre a porta.

- Limpaste enquanto eu cá não estive? - pergunta ao homem, que coça a nuca com um ar envergonhado. - Também me pareceu.

- Uma chávena de chá antes de começares? - oferece-lhe Erwin antes de começar a prepará-lo, levando o tabuleiro para a sala de estar onde Levi espera. - Acho que não fui tão cuidadoso como deveria ter sido. O teu cabelo, refiro-me - diz ele a Levi quando se senta, fazendo Levi abanar a cabeça.

- Não foi isso - explica Levi. - Acho que a Isabel apanhou de um miúdo qualquer da vizinhança. Ou de um cão de rua, é mais provável.

- Ela gosta bastante de animais - diz Erwin, sorrindo calorosamente. - Reparei quando estivemos na quinta. Suponho que tenha a ver com o passado dela.

Levi acena, beberricando o chá impacientemente; há montes de cotão debaixo da escrivaninha que continuam a chamar-lhe a atenção sempre que olha para cima.

- Ela devia viver num lugar assim - responde ele. - Às vezes penso em mandá-la para o campo. Acho que, de muitas formas, seria mais seguro, mas não sei de nenhum lugar onde ela pudesse ir.

Erwin acena. - Viajar está a tornar-se cada vez mais difícil, mesmo com os papéis certos. Duvido que até os conhecidos do Osterhaus tenham a vida facilitada, mesmo com os subornos que podem pagar.

- Então não achas que os pudesses ajudar? Ao Farlan e à Isabel? - pergunta Levi, arrependendo-se assim que vê pena no olhar de Erwin.

- Gostava mesmo de poder. Sabes que sim - responde ele. - Mas não consigo pensar num lugar para eles que seja mais seguro do que aqui. Sei que já falei da base antes, durante a nossa discussão da viagem, mas só me referi a ela como último recurso. Acredito honestamente que ele estão melhores aqui contigo, pelo menos por enquanto.

Levi acena mais uma vez. - Já supunha - diz, bebendo o chá. - Eu provavelmente ia enlouquecer sem saber o que eles estavam a fazer.

- Acho que realojar a Isabel seria difícil, mas possível, se a situação assim o exigir - diz-lhe Erwin. - Mas conseguir que tu e o Farlan saiam do Reich nesta altura é impossível. Têm ambos idade para o exército e a vossa partida seria vista com o maior nível de suspeita. Não acho que nenhuma documentação no mundo vos conseguiria fazer passar a fronteira.

- E fugir ilegalmente tem os seus próprios riscos - declara Levi. - Se fores apanhado, és provavelmente morto ali mesmo.

- Se as coisas se complicarem, há outras possibilidades de esconderijos dentro da cidade - recorda-lhe Erwin. - Sabes que a minha porta está sempre aberta a todos vocês.

- Eu sei - responde Levi, olhando para Erwin. - Só gostava de-

As suas palavras são interrompidas por uma batida alta na porta que os faz a ambos saltar do lugar. Levi lembra-se de repente e vividamente da boca arroxeada de Osterhaus ao curvar-se naquele sorriso presunçoso e sente um arrepio descer-lhe pela espinha.

- Leva o tabuleiro para a cozinha - diz-lhe Erwin em voz baixa e Levi acena, pegando e levando-o para fora da sala, sem resistir olhar pelo canto do olho para o hall e ver Ewin abrir a porta.

Lilian esgueira-se para o apartamento, de costas direitas e com um par de saltos altos e um vestido de verão. O tempo está quente o suficiente para ele; Levi reparara quando caminhara pela cidade, a transpirar mesmo com as roupas leves que está a vestir. Ela tira os óculos de sol e volta-se para Erwin - com os saltos é quase tão alta como ele - enrolando os braços à volta do pescoço dele e pressionando um beijo rápido contra os lábios. Levi consegue ver Erwin olhar rapidamente para ele antes de agarrar nos braços de Lilian e os forçar para baixo.

- O que estás a fazer aqui? - pergunta-lhe baixinho, provocando um beicinho nos lábios de Lilian.

- A Agata levou as crianças ao jardim zoológico, por isso pensei em fazer-te uma visita - explica ela rapidamente. - O que foi? Não foi uma surpresa agradável?

Levi vê Erwin suspirar e tocar na cana do nariz antes de lançar a Lilian um sorriso rápido e forçado. - Não achei que o fosses fazer, depois da última vez - diz-lhe ele suavemente.

- Oh, aquilo foi só uma pequena discussão tola - responde Lilian, rindo de uma forma que parece ligeiramente nervosa a Levi. - Já não penso nisso, está tudo no passado. Por favor, não voltes a lembrar-me disso.

Erwin hesita por um momento antes de fechar a porta. - Entra, então.

- Obrigada, Herr Sturmbannführer - graceja ela, passando por Erwin e entrando na sala, lançando-lhe um olhar sobre o ombro antes de se sentar no lugar de Levi no sofá. - Devias oferecer-me algo para beber. Estou seca.

- Weller - chama Erwin, e de repente ele é Holtz; Levi sente um arrepio nas costas. - Arranja-nos um jarro de água e-

No sofá, Lilian arqueja suavemente: - Água, Erwin? - pergunta-lhe ela, a voz cheia de indignação que Levi assume ser um pouco exagerada. - Pensei que tinhas prometido que não ias ser tão forreta ao pé de mim. Sabes que eu não gosto nada.

Erwin demora outro momento para dar um longo suspiro antes de se virar para Levi. - Há uma garrafa de champanhe atrás dos baldes na despensa - diz ele naquele tom estranho e áspero que Levi não reconhece.

- Muito melhor - diz Lilian languidamente; Levi consegue vê-la tirar os sapatos e esticar as pernas no sofá antes de ele regressar à cozinha.

Faz o possível para os ignorar quando lhes leva a garrafa e dois copos, focando-se nas suas tarefas daí para a frente. Enquanto fica na cozinha, é relativamente fácil; consegue ouvi-los a falar, mas baixinho, como barulho de fundo junto com os sons da vassoura e do bater dos pratos no lava loiça. Enquanto limpa, Levi recorda-se desta falha de Erwin, a sua falta de atenção por limpeza básica, um defeito que Levi se vê a contrabalançar muito bem como as coisas estão. É um novo pensamento, que eles criem um equilíbrio, e permite-se ter um momento a considerá-lo até o riso de Lilian o trespassar e ele se aperceber que, se alguém cria um par harmonioso nesta casa, não é ele e Erwin, e sim Erwin e ela.

Torna-se ainda mais claro que assim seja quando regressa à sala de estar e os encontra a descansar no sofá, os pés dela no colo dele e as mãos dele a massajá-los enquanto ela beberrica o champanhe. Levi tenta não olhar para eles enquanto limpa o pó da estante dos livros, da escrivaninha e do pequeno armário no canto. Mesmo com aquele único relance ao par, Levi consegue ver que eles não destoariam num daqueles filmes que Farlan gosta, do tipo que aparece nas revistas, com a actriz principal num vestido de gala e diamantes e o seu homem de gravata e sapatos de gala. Quanto vai à casa de banho buscar água para esfregar o chão, Levi pára pare se olhar ao espelho, perguntando-se que destino fora aquele de o fazer tão pequeno e com um ar tão estranho; ao lado de Erwin, ele parece-se com um miudinho desmazelado com rugas à volta dos olhos e com um ar de quem vai começar a abanar os punhos a qualquer pessoa que esteja perto o suficiente.

- Tenho andado para te perguntar - diz Lilian a Erwin na sua voz cantada quando Levi se ajoelha para começar a esfregar as pegadas no chão. - Como estão as coisas entre ti e o Osterhaus agora? Ouvi um rumores que vocês se tinham reconciliado.

Erwin expira profundamente, pousando o copo de champanhe na mesinha do café; mal lhe tocara. - Não sei o que tens a ver com isso - diz-lhe de forma amarga. - Mas chegámos a um entendimento. Mais ou menos.

- Que maravilhoso - responde Lilian num arrastar preguiçoso. - Nesse caso, posso convidá-lo para a minha festa também.

Erwin dá um grunhido. - Uma festa? - bufa ele, parecendo verdadeiramente irritado. - Não deste uma há pouco tempo?

- Sim, e tu não apareceste, o que me obriga a preparar outra - repreende-o ela, endireitando-se no sofá, ainda com as pernas no colo dele. - Vá lá, Erwin. Toda a gente gosta das minhas festas. Torna todo o restante pavor em que vivemos muito mais fácil de suportar.

- Estamos em guerra, Lilian - diz-lhe Erwin, exasperado. - É suposto as coisas serem pavorosas. É suposto estarmos a fazer sacrifícios.

- Au contraire - diz ela com um sorriso. - É suposto que alguns de nós façam sacrifícios para aqueles que são importantes não tenham de os fazer.

- Diz-me que não estás a falar a sério.

- Oh, Erwin - ri ela. - Sabes que eu acho que todo esse teu passado de classe média-baixa é absolutamente encantador, e até afrodisíaco às vezes, mas tens de te lembrar que há regras diferentes para pessoas como nós. Há coisas que são esperadas de nós, e essas expectativas têm de ser alcançadas.

- E as tuas festas são uma forma de o fazer? - pergunta-lhe Erwin, soando cada vez mais ríspido.

- Exactamente - diz-lhe ela, inclinando-se para perto do seu ouvido. - Já te divertiste bastante nelas, não já? Ou antes... - Ela faz uma pausa para passar a mão pelo colarinho da camisa dele. - Já te divertiste no que acontece depois das festas. Não é assim?

Levi olha para os dois pelo canto do olho quando Erwin agarra no pulso de Lilian e retira a mão dela de forma gentil mas firme, e ainda assim com muito mais força do que ela está habituada, a julgar pela sua expressão surpresa e consternada.

- Agora não - diz-lhe ele baixinho; as palavras parecem-se com um rosnar.

- Erwin - protesta ela, parecendo insultada. - Ele é só um serviçal.

- Não me interessa - atira Erwin. - Não se trata dele, Lilian.

- Então do que é que se trata? - exige ela, cruzando os braços à frente do peito. - Achei que já tinha deixado perfeitamente claro que não iria tolerar que me tratasses assim, Erwin. Sabes que não vou.

Ele escarnece, voltando a massajar a cana do nariz. - Sabes que não há nada menos atraente do que uma mulher adulta que ainda se comporta como uma miúda mimada? - diz ele, soando cansado. - Porque é que não vais para casa e aprendes a comportar-te como a tua idade? E refiro-me à tua verdadeira idade, Lilian.

Levi não consegue evitar erguer o olhar do chão para ver como ela está a fixar Erwin, os lábios pressionados com tanta força que parecem uma ferida no seu rosto. O silêncio que se segue é odioso e inabalável, e parece que assim que as mãos de Levi se esqueceram da sua tarefa, a sua mente começa a disparar, perguntando-se o que se passara entre eles os dois para deixar Erwin tão rude. Quando vê Lilian olhar de relance na sua direcção, Levi começa a esfregar de novo o chão furiosamente, apanhando pelo canto do olho quando ela se levanta. Calça os sapatos deliberadamente devagar antes de sair, atirando com a porta atrás de si sem dizer uma palavra, deixando para trás um silêncio desconfortável que quer Erwin, quer Levi, parecem hesitantes em quebrar. Quando Levi olha para o homem, a expressão nos olhos dele é distante, até ele os tapar com as mãos, suspirando profundamente.

- Deixei que fosse longe de mais - murmura Erwin, e se ele não tivesse olhado para Levi a seguir, Levi teria assumido que o homem estava simplesmente a falar sozinho.

Levi acena, mas não sabe o que dizer. Olha para Erwin, de volta a si próprio, e pergunta-se se haverá mais alguém na vida de Erwin agora que veja isto, que veja tanto dele como Levi vê, toda a sua culpa e desconforto e angústia. Pensa em todas as partes de si que esconde de Farlan e Isabel - e, agora que pensa nisso, não fora essa uma das razões por que viera ter com Erwin naquela noite, para evitar que eles o vissem como estava naquele momento? Lembra-se das palavras de Farlan: "Deixa que ele tome conta de ti, para variar", e olha para Erwin, perguntando-se se precisa, perguntando-se se seria justo colocar tal fardo no homem.

Erwin ainda está sentado no sofá quando Levi sai, apoiando o cotovelo no braço da poltrona e fumando cigarro atrás de cigarro, como se estivesse à procura de algum tipo de conforto que não consegue encontrar. Levi tem vontade de esticar a mão, passar os dedos pelo cabelo do homem, deixá-lo inclinar-se sobre o seu peito e respirar por um pouco, mas algo o impede; eles não se tocam, não daquela forma, não vindo de lado nenhum em plena luz do dia. Levi interroga-se se deveria ficar, mas Erwin quebra a quietude do momento ao levantar-se.

- Só tenho dinheiro desta vez - diz ele. - Desculpa estão tão pouco preparado.

Levi abana a cabeça. - Não faz mal - responde. - Eu disse-te, dinheiro ou comida, por isso dinheiro não faz mal.

- Certo - murmura Erwin, entregando a Levi um pequeno maço de notas. - Espero que as coisas possam voltar ao normal agora.

- Eu também - admite Levi. - Já não há piolhos, pelo menos.

Erwin solta uma gargalhada que mais se parece com uma tossidela. - Sim - diz ele ao caminharem para a porta. - Sem piolhos.

- Vais ficar-

- Vou ficar bem, Levi - diz-lhe Erwin, sorrindo de forma cansada. - Por favor, não te preocupes comigo.

Levi acena, mas quebra a promessa ainda antes de chegar à ponte Augustus. Pensa no que Farlan dissera, sobre homens como Erwin gostarem de se sentir úteis, e compreende ao que Farlan se referira; ele próprio já sentira isso: como a única razão que justifica sair da cama é certificar-se que Farlan e Isabel têm comida suficiente, e para evitar que eles se preocupem consigo. Consegue ver porque é que Erwin quereria isso, poder ajudar de forma tão directa após passar tantos anos com este disfarce em cima. Mas há um reverso da medalha, Levi sabe-lo: aquele sentimento de ter de estar lá por alguém, ter de ser forte para outra pessoa o tempo todo. Lembra-se do sentimento que tivera nos degraus do casebre, sentindo-se tão em paz com Erwin porque Erwin não precisava de nada dele, Levi não tinha de ser ninguém para ele. Esse pensamento parece estranho agora, como poderia ter havido uma altura em que Levi não se preocupara com o homem, não achava que ele era alguém com quem tinha de se preocupar.

Não discutem o assunto da vez seguinte que Levi lá vai, ainda que lhe seja claro que algo ainda está a pesar na mente de Erwin. Levi ainda tenta pensar em algo para dizer ao homem, algum conselho para lhe dar, mas sabe que não possui nenhum conhecimento superior da situação, nunca tendo ele próprio experienciado nada daquilo. Quando Erwin se senta à escrivaninha por fim, Levi fica quase aliviado por não ter de torturar mais o cérebro, especialmente quando está tão pouco habituado a ter esse trabalho.

Sentado à mesa de jantar mais tarde nessa noite, Levi ainda está a pensar nisso, se haveria mais alguma coisa que pudesse ter feito. Isabel parece sentir o seu desconforto, sugerindo um jogo de klaberjass para passar o tempo. Mal acabara de distribuir as cartas quando um som estridente interrompe a conversa deles, um rugir de sirenes ao longe.

- Ataque aéreo - diz Farlan de imediato, e levanta-se, pálido mas calmo. - Para a cave.

Levi e Isabel acenam, seguindo Farlan para fora da cozinha depois de agarrarem numa manta ou cobertor cada um da sala. As escadas estão repletas de barulho, passos e pessoas a chamarem-se umas às outras enquanto todos descem. Levi consegue sentir o coração martelar-lhe contra o peito ao agarrar Isabel pela manga quando ela tenta começar a correr.

- Ficamos todos juntos - diz-lhe ele baixinho, acenando a Frau Schultz quando ela se apressa a passar por eles nas escadas até onde Farlan está, berrando direcções às pessoas, recordando-lhes para ficarem calmas e deixarem todos os pertences desnecessários para trás.

Entram todos na cave, Farlan entrando por último e fechando a porta, abafando o som das sirenes que ainda berram o seu aviso. Ficam sentados perto de Frau Gernhardt e dos seus filhos, que estão ambos agarrados aos seus brinquedos preferidos, parecendo assustados e confusos até Isabel os persuadir a brincar a algum jogo de palavras que já jogaram muitas vezes antes. A mãe parece grata, movendo-se para mais perto de Levi e Farlan depois de se certificar de que as crianças estão bem.

- Sinto que não há mais nada a fazer agora do que ouvir o som das explosões - diz ela numa voz sussurrada; parece que toda a gente tem esse tom reservado para situações destas. Levi já reparara nisso nos simulacros, como se estivessem todos sentados ao lado de alguém que está prestes a morrer.

- O mais provável é ser um falso alarme - tenta Farlan tranquilizá-la. - Ainda que suponha que essa não é a melhor forma de ver isto, caso não seja mesmo. Trouxe os seus cobertores?

- Sim - confirma ela, apontando para Hanna e Bruno, que estão ambos sentados sobre uma manta dobrada. - Por isso, em caso de precisarmos de fugir para a rua, só temos de-

- Atirá-los para aquele barril de água, molhá-los tanto quanto consiga e embrulhá-los à sua volta e das crianças - termina Farlan por ela de forma muito mais paciente do que Levi teria feito; talvez ele seja mesmo a melhor pessoa para o trabalho. - É difícil fazer um plano para estas coisas quando nunca sabemos o que vai acontecer. Mas tenho a certeza que vamos todos ficar bem.

Levi olha para Farlan, surpreso por ver o quão bem ele está a fingir; já faz algum tempo desde que ele fora assim tão bom nisto. Levi pergunta-se se será isso que mantém o homem tão calmo, aquele sentimento de morte iminente de que ele falara a Levi. Se é isso, então Levi fica grato que ele ainda consiga dizer este género de coisas a outras pessoas, especialmente à frente de Isabel.

- Sim - diz Frau Gernhardt, esboçando um sorriso corajoso nos lábios. - Tenho a certeza que vamos.

Ficam todos calados, respirando aquele ar que Levi imagina já estar a tornar-se saturado. Pensa no azar que foi isto acontecer na noite de um dia tão quente; a pequena divisão está cheia do fedor da transpiração de todos, incluindo da sua própria, e não importa quanto tempo passem aqui em baixo, o seu nariz não parece estar a habituar-se. Há algo nos sussurros, nas palavras meio-faladas que ele mal consegue ouvir, que o faz ficar em pele de galinha; fá-lo lembrar-se daqueles últimos anos na escola, quando sempre que o professor mencionava alguma coisa sobre os judeus, a sala ficava calada tal como agora, e ainda assim cheia de sussurros, de pessoas a falar dele.

Tal como Frau Gernhardt dissera, não há mais nada para Levi fazer do que esperar ouvir o ribombar abafado de explosões à distância. Pensa em Erwin, interrogando-se se ele estaria em casa quando as sirenes começaram a gritar, perguntando-se de ele estará amontoado numa cave como esta com os seus vizinhos, com a velha coscuvilheira do andar de baixo. Pensa que Erwin seria sem dúvida o primeiro a ajudar toda a gente, até se lembrar que, para todos, ele é Holtz, um monte de merda nazi que provavelmente não liga porra nenhuma a ninguém, quanto mais a vizinhos senis.

Quando as sirenes berram de novo, soltam todos suspiros de alívio, pegando nos seus cobertores e lamparinas a óleo e velas e outros míseros pertences e, em muitos casos, agradecendo a Farlan por tomar conta da situação, antes de regressarem aos seus respectivos apartamentos. Levi prepara-lhes chá, perguntando-se distraidamente porque é que não se sente mais aliviado que tenha tudo sido apenas um falso alarme; talvez a sua experiência com a Gestapo ainda esteja muito fresca na sua mente, diminuindo todos os outros medos menores a um ponto que mal os sinta.

- Foi muito excitante, não foi? - pergunta-lhe Isabel quando se sentam à mesa para continuarem o seu jogo.

- Não é suposto ser excitante - repreende-a Farlan. - É inteligente ficarmos um pouco assustados quando isto acontece. Um dia destes pode ser por um motivo real. Podem começar a bombardear a cidade a qualquer momento.

- Bem, tu não estavas assustado - contrapõe Isabel, indignada. - Nem o mano.

- Eu estava um bocado nervoso - diz-lhe Levi, pegando nas suas cartas. - O Farlan tem razão, Isabel. Não é um jogo. E também não podes sair disparada a correr como tentaste. É muito fácil perderes-te numa multidão.

- O Levi tem razão, tens de ficar com ele - repete Farlan enfaticamente.

- Está bem - concede ela, apoiando os cotovelos na mesa. - Mas também vais ter de ficar connosco, Farlan. Depois de te certificares que toda a gente está bem.

- Vou ficar - promete ele rapidamente. - Desde que estejamos todos juntos, vamos ficar bem.

.

Não há mais ataques aéreos durante o fim de semana, mas a experiência ainda está fresca na mente de Levi quando chega ao apartamento de Erwin na terça-feira seguinte. O tempo arrefecera consideravelmente, fazendo Levi arrepender-se de ter vendido todos os seus casacos mais finos; o casaco de inverno iria destacar-se demasiado na rua. Quando o homem abre a porta, Levi não perde tempo a preparar chá, levando-o para a sala de estar onde o sol da tarde pintara a madeira do chão de tons dourados.

- Sim, bem - diz Erwin quando Levi lhe pergunta sobre o ataque aéreo. - Estes falsos alarmes vão provavelmente acontecer cada vez mais daqui para a frente.

- Uma das minhas vizinhas - começa Levi. - O filho dela disse-lhe que não é provável que atinjam Dresden.

Erwin acena, bebendo o seu chá. - Dresden é um alvo pouco provável - confirma; as palavras condizem com o uniforme que está a usar de novo, fazendo Levi franzir o cenho. - A distância de Inglaterra é ainda demasiado grande para os bombardeiros conseguirem atravessar. Há outras cidades muito mais perto que são destinos muito mais compreensíveis. Berlim, por exemplo.

- Suponho que tenha sorte por ter fugido - murmura Levi para a sua chávena.

- De facto - diz Erwin, tocando na cana do nariz; algo no gesto faz Levi reparar nas sombras pesadas sob os seus olhos.

- Estás bem? - pergunta a Erwin, que olha para cima, dando uma risada seca.

- Estou bem, só um pouco cansado - explica na evasiva, esvaziando a sua chávena de um único grande gole. - O trabalho espera-me.

Levi acena, com uma carranca, enquanto segue Erwin com os olhos quando o homem se senta pesadamente à frente da escrivaninha. O som do seu teclar parece mais lento também; Levi fica a ouvi-lo enquanto lava a loiça, imaginando a figura curvada do homem e franzindo ainda mais o rosto. Sem saber o que fazer ou dizer, Levi prepara-lhe uma sanduíche e leva-a, colocando-a num prato perto da máquina de escrever.

- O que é isso? - pergunta Erwin, os olhos sem nunca se afastarem da página; Levi olha de relance para ela, mas não compreende as palavras.

- Uma sandes - diz-lhe Levi. - Não tinhas disso do país donde vens?

Erwin dá uma risada. - Sim, temos. Estava a perguntar-me porque é que me trouxeste uma.

- Estavas com ar de quem precisava de comer - explica Levi, afastando uns grãos de pó de cima da escrivaninha.

- Ai sim?

- Sim - insiste Levi, desejando que o homem olhasse para cima. - Pareces cansado. Tens andado a dormir?

- Sim, Levi - murmura Erwin, franzindo o sobrolho às palavras que acabara de escrever. - Tenho dormido. Já te disse, não tens de te preocupar comigo.

Antes de Levi poder fazer mais alguma coisa do que fungar audivelmente, há outra batida na porta que faz Erwin arrancar a folha da máquina de escrever e começar a encaixar a pequena chave dourada na fechadura da gaveta de cima.

- Podes ver quem é, por favor? - pede ele a Levi à pressa. - E se for a Lilian, podes por favor dizer-lhe que saí?

Levi não consegue evitar revirar os olhos ao atravessar o hall, abrindo a porta hesitantemente para cumprimentar um jovem rechochundo e baixo, de cabelo loiro e uma série de sardas na cara. Está a carregar um grande caixote de madeira, a suar pelo seu peso e pelo número de degraus que subira, supõe Levi, ofegando um pouco ao espreitar para Levi por detrás da caixote.

- Uma entrega para o Herr Holtz - diz ele sem fôlego, movendo os olhos de Levi para Erwin quando o homem aparece atrás dele.

- Ah, sim - responde Erwin, apressando-se a pegar no caixote. - Entre e vamos descobrir quanto é que isto custa.

O homem limpa a testa na manga da camisa, entrando no apartamento depois de Levi fechar a porta atrás dele. Deixa um rasto de pó e Levi segue-o para a cozinha, onde Erwin pousara o caixote sobre a mesa. O homenzinho redondo sentara-se na cadeira de Levi e estava a ocupado a usar o chapéu como leque.

- Alguém pode arranjar-me um copo de água, por favor? - consegue ele dizer por entre arquejos. - Não conseguem ver que estou aqui a morrer?

Levi revira os olhos enquanto se apressa para a torneira para encher um copo com água, entregando-o ao homem, que o esvazia com poucos tragos antes de lho devolver.

- Devia saber que não é assim que normalmente fazemos os nossos negócios, Herr Holtz - diz o homem, voltando-se para Erwin, que desviara o caixote e se sentara do outro lado da mesa. - Não posso dizer que goste muito.

- Compreendo - responde Erwin, olhando para o homem solenemente. - Vamos tratar disto rápido.

- Carta do meu pai da semana passada - continua o homem. - Disse que está pronto quando o senhor estiver, e que os outros não vão saber nada sobre isto, tal como ordenou.

- Óptimo - diz Erwin, acenando como que distraído. - Diga-lhe que a sua discrição vai ser recompensada.

- É bom que seja - resmunga o homem. - Não quero aquele maluco a morder-me os tornozelos de novo.

- Asseguro-lhe, não vai chegar a esse ponto - promete Erwin. - Não se todos nós representarmos bem os nossos papéis.

- Já temos alguém em Genebra - continua o homem. - Um dos nossos, alguém de confiança, tal como o senhor disse. Diga-me algo com uns dias de avanço, e eu aviso-o para ficar à espera deles.

- Óptimo - diz Erwin de novo, soando ligeiramente aliviado a Levi. - Então está combinado.

Levantam-se os dois, o estranho de forma mais lenta, e Erwin entrega-lhe um grande maço de Reichmarks. O homem conta as notas cuidadosamente, duas vezes, antes de as colocar no seu bolso e aceitar a mão estendida de Erwin.

- É um prazer, como sempre, Herr Reeves - diz-lhe Erwin, fazendo o homem suspirar.

- Quem me dera poder dizer o mesmo - resmunga ele antes de voltar a colocar o chapéu e sair do apartamento.

Levi observa quando Erwin dá a volta à mesa e se volta a sentar, pressionando o rosto contra as palmas das mãos por um momento antes de endireitar a postura e puxar a sua cigarreira do bolso. Acende um cigarro e recosta-se na cadeira, massajando a têmpora esquerda com as pontas dos dedos.

- Levi - chama ele baixinho, fazendo Levi aproximar-se um pouco do seu lugar junto ao lava loiça. - Podes esvaziar a caixa? Pode haver produtos perecíveis.

Levi avança para o caixote de madeira sem dizer nada, levantando a tampa e encontrando uma panóplia de material proibido: cigarros americanos, uma pequena lata de chá, um jarro de compota de laranja, uma barra daquele sabonete de lavanda, alguns ovos frescos e três garrafas de vinho. Enquanto guarda tudo nos armários e na despensa, Levi mantém Erwin sob olho; o homem parece ter-se esquecido do seu cigarro enquanto olha pela janela, uma ruga pesada a pressionar-lhe aquelas sobrancelhas largas. Levi não tem de se perguntar o que fizera Erwin sentir-se assim; é tudo por causa daquele suíno do Osterhaus e do seu esquema nojento em que Erwin está a ser obrigado a participar.

- Ei - chama Levi baixinho, sentando-se à mesa; precisa repetir para chamar a atenção de Erwin.

- O que foi? - pergunta-lhe o homem, limpando a cinza do cigarro de cima da mesa quando Levi se apressa em direcção ao armário para lhe arranjar um prato como cinzeiro.

Levi hesita por um momento, tentando pensar em algo para dizer, qualquer coisa que soasse útil mesmo na sua cabeça, mas não encontra nada.

- Não sei - admite por fim, grunhindo de frustração e bufando. - Foda-se, porque haverias de dizer que sou bom com palavras quando sou um inútil?

- Há alguma coisa em particular que queiras dizer agora? - pergunta-lhe Erwin, parecendo genuinamente interessado, mantendo o olhar em Levi mesmo quando vira a cabeça para expirar uma nuvem de fumo.

- Não sei - diz Levi de novo. - Só que estás com um aspecto de merda, suponho.

Erwin ri-se baixinho por um momento antes de massajar o espaço entre as sobrancelhas com o polegar. - Não vale a pena esconder coisas de ti, pois não?

Levi franze o sobrolho. - Quero ajudar-te com-

- Não - declara Erwin severamente antes de Levi conseguir terminar a frase. - Não vais ser puxado para o meio disto, Levi. Não o vou permitir.

- Mas está a fazer-te sentir como-

- Por favor - interrompe-lo Erwin de novo, apagando o cigarro e voltando-se para olhar para ele. - Não discutas comigo nisto, Levi. Se me queres ajudar, então concede-me isso.

Levi fica calado, os olhos ainda fixos em Erwin, naquelas sombras sob os seus olhos e aquela linha severa da sua boca. Sente vontade de praguejar, não sabe como dizer estas coisas, mal sabe o que fazer, e agora isto. O homem está mesmo à espera que ele vá ficar ali caladinho a vê-lo ser devorado por aquilo dia após dia, como se não o incomodasse ver Erwin daquela forma? Ele pensa mesmo que Levi vai ficar satisfeito por fazer tão pouco, com uma promessa de não fazer absolutamente nada? Tem vontade de explodir, pronto para dizer qualquer coisa, fazer qualquer coisa para tirar aquela exaustão e dor dos olhos de Erwin. No final, só consegue pensar numa coisa, o único remédio que sempre conhecera, que o força a colocar-se de pé, avançar para o homem e estender a mão, para a qual Erwin olha por um momento, confuso.

- Vem lá - diz-lhe Levi, tremendo quando sente o calor da pele de Erwin na sua.

Conduz Erwin para o quarto, sentindo o cheiro a cigarros quando se aproxima para desabotoar a camisa do homem, puxando a bainha para fora da cintura das calças antes de a retirar de cima dos ombros largos de Erwin e atirando-a para a pilha de roupa suja. A camisa interior branca do homem rapidamente se segue; enquanto Levi a puxa por cima da cabeça, olha de relance para a cara de Erwin, que está cheia de um divertimento incrédulo, e algo mais, algo caloroso e grato.

- Outra vez isto? - pergunta-lhe Erwin em voz baixa.

- Não é para mim - responde Levi, acenando para que o homem descalce as botas ao entrar na casa de banho e começar a encher a banheira.

Volta ao quarto, dando uma palmada gentil no pulso de Erwin para o deixar ser ele a tratar da tarefa de lhe desapertar o cinto. O botão segue-se, e durante todo esse tempo Levi consegue sentir Erwin a olhar para ele, a sorrir, curioso e afectuoso. Quando Erwin despe as calças, Levi abre a porta do guarda roupa, expondo o grande espelho no interior.

- Olha para ti por um minuto sem teres aquele uniforme horrível vestido - ordena ele ao homem antes de regressar para tratar do banho, agarrando no pequeno banco onde Erwin se sentara da última vez, e uma pequena toalha e um sabonete de lavanda, antes de se sentar na ponta da banheira e desligar a torneira. - Já podes vir, se já olhaste o suficiente.

Erwin ri ao entrar na casa de banho; o som torna a respiração de Levi mais leve. - Não é uma visão assim tão fascinante - diz ele, fazendo Levi resfolegar, tentando evitar olhar para o homem quando ele entra na banheira, como se tivesse medo que ao vê-lo fosse obrigá-lo a entrar num território que não está pronto para explorar.

- Algumas pessoas podem discordar - resmoneia quando Erwin se senta, esticando os braços ao longo da banheira. - Como o Farlan. E a Lilian, suponho.

Erwin suspira baixinho e Levi decide não falar mais do assunto. Mergulha a pequena toalha na água quente e enche-a de sabão, tal como Erwin fizera antes, pressionando o tecido gentilmente contra a pele do homem; ele estremece, mas não diz nada, relaxando rapidamente sob o toque de Levi. Começa a espalhar espuma pelos ombros de Erwin, pelo pescoço, pelas costas, orientando-se pelos suaves suspiros e gemidos que o homem faz.

- E isto ajuda-te, não ajuda? - pergunta-lhe Eriwn passado algum tempo, inclinando a cabeça para a frente para deixar Levi esfregar a parte de trás da cabeça.

- É o que eu costumava fazer quando era mais novo - diz-lhe Levi baixinho. - Em Berlim. Fazia-me sentir limpo, mas era mais do que isso.

- Nunca o vi como outra coisa além de limpeza - admite Erwin, suspirando de novo quando Levi move o pano para o seu peito. - Mas acho que percebo o que queres dizer.

Levi dá um grunhido em resposta às palavras, lutando para evitar que o olhar desça para o trilho de pêlos entre as pernas de Erwin; já o vira antes, não faz muito sentido que tivesse tanto efeito em Levi agora. Lembra-se daquela madrugada junto ao rio, a água gelada contra o corpo, o ar frio a beliscar-lhe a pele, a tensão do momento quando vira o efeito que tivera em Erwin. Ainda consegue sentir o cheiro de cigarros no cabelo do homem quando se inclina para mais perto, desejando poder apoiar a face contra o pescoço dele e sussurrar-lhe alguma coisa ao ouvido, ainda que não saiba o quê.

- Levi - diz Erwin, uma nota de hesitação na voz. - Sinto que não preciso de me explicar a ti.

Levi fica sentando em silêncio por algum tempo, retirando a toalha e considerando as palavras de Erwin. - Não precisas - responde por fim, pensando que sabe ao que o homem se refere.

- Ainda bem - suspira Erwin, olhando para trás para Levi. - Isto parece tão descomplicado, e eu-

- E é - tranquiliza-o Levi. - Não te devias preocupar com isso.

Erwin acena sem dizer nada, voltando a pressionar o corpo para o toque de Levi quando ele recomeça a tarefa. - Não quero que tu sintas que há algo que precisas de-

As palavras são interrompidas por uma nova batida na porta que faz Levi largar a toalha enquanto Erwin se senta, fazendo a água bater contra os lados da banheira. Olham um para o outro, há um traço de alarme e exasperação na expressão de Erwin que deixa Levi nervoso.

- Eu vejo quem é - diz a Erwin. - Se for a Lilian, digo-lhe que não estás.

O homem acena, parecendo preocupado; Levi consegue ouvi-lo sair da banheira atrás de si enquanto ele vai ao armário para secar as mãos numa das toalhas lavadas e suaves. Sai para o corredor em direcção à porta, sentindo o coração martelar contra as costelas, apesar de não saber bem porquê; provavelmente não é nada, diz a si próprio, enquanto abre a porta de novo.

Os olhos encontram uma mulher, gravidíssima e carregando uma grande bolsa e um pedaço de papel; Levi consegue ler a morada de Erwin escrita nele a lápis. Ela olha para ele, confusa, depois para o número da porta, e de volta a Levi.

- Posso ajudá-la? - pergunta-lhe, tentando ser educado, enquanto a boca dela se abre num sorriso.

- Sim, olá, peço desculpa - diz ela, olhando para baixo para o papel que está a segurar. - Receio ter-me enganado no apartamento. Estou à procura do Sturmbannfüher Holtz? Lamento, só tinha esta morada e, bem, já é um pouco antiga, e eu-

- Ele mora aqui - interrompe-a Levi, parando por um momento para olhar para o formato oval do rosto dela e os caracóis suaves castanho-avermelhados que lhe caem até aos ombros. - Dê-me um momento e vou chamá-lo.

- É muito simpático da sua parte - diz a mulher, entrando no apartamento e pousado uma mão sobre a barriga dilatada enquanto se desvia para Levi fechar a porta. - Muito obrigada.

Levi acena sem falar, dirigindo-se à casa de banho e encontrando Erwin a vestir-se com as roupas que usara antes; Levi consegue ver a arma pousada no lavatório.

- É uma mulher - diz Levi num sussurro, levantando a camisa do chão e entregando-lha.

- Lilian? - pergunta-lhe Erwin, fazendo Levi revirar os olhos.

- Eu sei quem é a Lilian. Não é ela - relembra a Erwin, hesitando por um momento antes de acrescentar. - Grávida.

- O quê?

- Está grávida - repete, rabugento, demorando outro momento para perder a batalha interior e acrescentado: - Achas que é teu?

Uma expressão de confusão misturada com pânico surge no rosto de Erwin por um momento antes de ele franzir a testa e abanar a cabeça. - Eu não... - começa, as palavras a arrastarem-se por um segundo. - Ela disse o nome?

- Não achas que te tinha dito se soubesse? - Levi pergunta-lhe irritado, franzindo o sobrolho quando Erwin pega na pistola. - O que é que vais fazer? Matar uma mulher grávida?

O homem lança-lhe um olhar de aviso antes de colocar a arma no cinto atrás das costas e sair da casa de banho com passadas largas. Levi segue-o mais devagar, mantendo ainda assim a distância entre eles curta o suficiente para conseguir agarrar a pistola caso a situação o exija. Assim que viram para as portas decoradas, Erwin estaca de repente, deixando Levi parado perto da poltrona.

- Marie? - Levi ouve-o arquejar; a mulher no corredor ri quando o homem corre para ela com Levi a segui-lo, pairando perto das portas duplas e vendo-o abraçá-la com alguma dificuldade. - Meu Deus! És mesmo tu?

- Podes apostar que sim - diz-lhe ela, ainda a rir, a mão a acariciar-lhe o rosto assim que se separam. - É tão bom ver-te! Meu Comandante.

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