Capítulo 9: Rios Congelados

•‡•‡•‡•

"Esse é nosso inverno e somos rios congelados;

Muita sabedoria foi consumida em chama;

Quando eu era inocente;

Mágica o seu nome clama" – Fred Johnston

•‡•‡•‡•

O céu estava escuro, como a água ficava quando havia algo errado com o ecossistema. Não estava cinza, quando como antes das tempestades, ou azul claro como no verão; era uma massa verde-azul-cinza escura que sussurrava duelos mágicos e acontecimentos sombrios.

E então o céu clareou, a escuridão dando lugar ao vermelho do fogo de milhares de dragões que jogavam suas cabeças para trás e urravam pela noite. Queimava e queimava até que uma grande nuvem veio do nada e expulsou o céu de fogo.

Então, o céu estava negro, não obscuro, mas o tipo de negro calmo que sempre vinha antes do amanhecer; logo antes do dia nascer novamente.

"É isso então?" Ela perguntou a ele. Eles estavam nus de novo, o queixo dela apoiado no tórax dele para que ela pudesse olhá-lo nos olhos. A cicatriz no abdômen dele havia sumido; parecia só uma mancha agora.

"O que mais há de ser?" Ele perguntou, e eles estavam encarando um campo de cinzas, os restos daquilo que tinha queimado quando o céu estava se limpando.

"Meus pais nunca vão entender isso," ela declarou finalmente.

"Fodam-se eles," ele anunciou, e antes que ela pudesse censurá-lo, ele trouxe sua boca a dela e a beijou profundamente. Ele a beijou até que o sol saísse e as cinzas e chamas se transformassem em nada e quando ela abriu os olhos ele tinha ido embora e ela estava vestida de preto, parada em frente a um túmulo. Ela leu 'Malfoy' chorava e tudo isso parecia terrivelmente importante, mas essa memória desaparecia e ela já estava tendo problemas em se lembrar dele, mas ela se lembrava de seus olhos, sabia que eles eram cinzas; cinzas e tormentos e as últimas cosas que ela queria ver antes de morrer.

•‡•‡•‡•

Por um momento, Gina não podia lembrar onde estava. Piscando os olhos lentamente, ela viu o verde aveludado em volta de si, sentiu o peso de um braço sobre seu quadril, e pensou, Draco. Um vago sentido de inquietude a tomou, um resto de razão flutuando em seu subconsciente, mas depois de um momento, aquilo também passou, e com ela sobrou somente a batalha para acordar.

Enquanto ela lutava para se livrar do sono, ela se lembrou da tempestade e da insistência de Draco para que ela ficasse; se perguntou se havia chovido na noite passada de novo. Ela notava seu corpo ficar leve e pesado, cansado e revigorado, vibrando e parado, tudo ao mesmo tempo, Draco deitado ao seu lado pressionou um beijo contra seu ombro e Gina lembrou de tudo.

Beijemeteamotempestadeestouchorandoshhcriançateamoteamoteamo

De repente, tudo era muito – o jeito que ela sentia o braço dele, o que jeito que ela tinha o sentido – AhDeusahDeusahDeus – o que ela estava pensando noite passada? Ela tinha ficado louca? Com certeza ela tinha alguma cosa. Talvez ela precisava passar uma temporada em St. Mungos porque havia algo muito errado com ela, já que ela tinha aberto seu corpo e coração para Draco Malfoy e--

--tinha ele falado, na maneira mais vaga possível, que a amava?

"Está acordada, criança?" Ele sussurrou em seu ouvido, a respiração dele contra a pele dela no jeito mais delicioso.

Querendo dizer 'Bom dia' ou algo em resposta, ela ficou chocada quando a única frase que saiu de sua boca foi um desesperado, "Você me ama?"

Ele tencionou o corpo. "Quê?" Ele perguntou em um tom cauteloso.

Fechando os olhos, Gina se virou até que pode ver a face dele. Sem abrir os olhos, ela perguntou novamente, "Você me ama?"

Ele ainda estava tenso, e ela demorou um momento para perceber que a tensão vinha do fato de que ele estava tentando não rir da cara dela. Arregalando os olhos, ela o estapeou, pesadamente, no peito.

"Não é engraçado!" Ela disse com o sussurro mais alto que podia.

"É sim," ele disse divertido, "o jeito que você falou... sua cara..."

"Pára!" Ela insistiu, tentando não rir.

"Garota boba," ele murmurou, um segundo antes de beijá-la, roubando sua irritação e seu fôlego. As mãos dele nas costas dela e em seu cabelo eram gentis, e ela segurou um soluço quando o sentiu tremer.

Suas pálpebras se fecharam e o fundo de sua garganta ardeu com a emoção. Ela não esperava que ele respondesse, que lhes desse as palavras. Uma parte dela acreditava que ele a amava. Ele certamente a segurava como se amasse. E tinha o jeito como ele a beijava, como se ele não pudesse tolerar o pensamento de não poder tocá-la, como se ela fosse o ar e água para ele. E havia um desespero silencioso nele que a assustava verdadeiramente pela primeira vez desde que se associou a Draco Malfoy: não havia nenhuma tempestade lá fora, então o que Draco tinha para temer?

Um nó se formou em seu peito e estava empurrado seu coração, fazendo o doer com o conhecimento que ela não tinha. Se o jeito que Draco a segurava era uma indicação, ele sentia aquilo também. Na noite passada, ele disse ser incapaz de fazer qualquer promessa, e ela não tinha ligado, não queria nada a não ser estar com ele completamente, mesmo que fosse só por uma note. Mas agora, sabendo como poderia ser entre eles, ela ficou ambiciosa. Ela não queria desistir dele, nunca, mas não sabia como trazer o assunto à tona. Se essa seria a única manhã em que eles acordariam juntos, ela deveria ser perfeita.

"Que dia é hoje?" Ela sussurrou no quieto casulo que haviam construído em volta de si.

"Sábado," ele respondeu, suas testas se encostando levemente.

"Sem aulas," ela declarou com um sorriso.

"Sem aulas," ele concordou, e se ela achava que antes havia medo nele, agora ela o sentia triste. Ela também estava criando essa tristeza, e não sabia como combatê-la. Ela só sabia que tinha que tentar.

"Noite passada foi..." o cérebro dela começou a processar enquanto achava as palavras para descrever o que a noite tinha sido pra ela. Adjetivos triviais como 'adorável' e 'maravilhosa' e 'divertida' e 'incrível' passavam por sua mente, mas eram facilmente descartados. Ele tinha se tornado uma parte dela aquela noite; como uma garota poderia dizer aquilo apropriadamente?

"Eu nunca..." ele corou um pouco, e ela achou maravilhoso aprender que ele podia corar. "Eu nunca soube que seria assim. Quero dizer, eu sabia que seria ótimo, claro, mas eu nunca tinha notado que... nós poderíamos ser ótimos. Juntos. Nunca havia notado o quanto era uma coisa de equipe."

"Nem eu," ela disse suavemente.

"Mesmo?" Ele disse, acariciando-a com as pontas dos dedos. "Eu achava que garotas tinham esse tipo de primeira vez mapeado do começo ao fim como algum tipo de livro perfeito de romance."

"Nós temos," Gina confirmou, sem olhar pra ele. "É só que... você nunca acha que a fantasia é real. Você espera, mas... nunca é tão bom quanto a fantasia. Certamente nunca deveria ser melhor que..." Ela começou mordendo o lábio, desejando que não soasse tão inexperiente. Ela queria que fosse bom pra ele, mas ela mal podia colocar juntas as palavras para dizer o que tinha sido pra ela.

"Melhor, hein?" Ele disse, parecendo infinitamente feliz consigo mesmo.

Incapaz de resistir, ela rolou os olhos. "Sim, Draco, você é um Deus do sexo, você me pirou e..."

O sorriso vagarosamente deixou sua face e ela deu um profundo suspiro. "E eu nunca mais serei a mesma. Feliz?"

"Na verdade, sim," ele respondeu sério. "Acho que pela primeira vez na vida, eu estou."

O ambiente em volta deles se tornou divertido, e Gina recebeu isso feliz. Erguendo as sobrancelhas, ela beijou a ponta de seu nariz e então a curva de seu queixo.

"Aposto que eu consigo fazer você um pouquinho mais feliz," ela sussurrou.

"Aposto que eu nunca apostaria contra você," ele disse enquanto as mãos dela iam por baixo dos lençóis até sua cintura.

Mais tarde, enquanto eles deitavam quietos, um sentimento de temor se apossou dela.

"Vai ser sempre assim?" Ela perguntou em voz baixa.

Ela não podia ver a face dele, mas ela sentiu o sorriso nas palavras. "Eu vou ter que prestar mais atenção da próxima vez."

•‡•‡•‡•

"Gina, você está... pulando?" Uma garota do quinto ano perguntou enquanto ela deixava a sala comunal da Grifinória.

"Se eu estou," Gina gritou por cima do ombro enquanto a Mulher Gorda fechava o buraco do retrato, "eu mereci!"

Cantarolando, Gina seguiu para a biblioteca. Ela tinha que por os estudos em dia para um teste do Professor Bins na segunda-feira, e depois disso, ela encontraria Draco perto do lago.

Ambos tinham sido contra deixar o calor e segurança da cama dele mais cedo, mas o pensamento de serem descobertos por um bando de sonserinos babões os motivou. Eles trocaram uma dúzia de beijos enquanto se vestiam e ela teve que usar toda sua força de vontade para deixá-lo.

A biblioteca estava lotada (N.I.E.M.s começavam segunda) de alunos do sétimo ano. Uma mesa de corvinais que aparentavam estar lá o dia todo, com sanduíches meio comidos espalhados pelos livros. Gina encontrou uma mesa vazia na esquina, colocou sua mochila em uma cadeira e foi procurar pelos livros da lista de Bins.

Ela estava estudando havia meia hora quando alguém cutucou seu ombro.

"Esse assento está vazio?" Kyle McGraw perguntou, um pequeno sorriso de esperança em sua face.

"Está agora," Gina respondeu, genuinamente feliz por vê-lo. Ou talvez ela só estava genuinamente feliz no geral hoje.

"Eu só queria ter certeza de que as coisas estão normais entre a gente," ele disse enquanto se sentava. "Eu odiaria se houvesse qualquer tipo de... estranheza."

"Não há," Gina assegurou, "desde que concordemos em ser só amigos."

"Verdade absoluta e sem brincadeirinhas," Kyle concordou. "Além do que, você conseguiu a ultima mesa vazia daqui." Eles trocaram sorrisos e Kyle começou a arrumar seu material de estudo. Eles leram em silencio por alguns minutos até que Gina sentiu alguém se aproximar.

Gina olhou para cima e encontrou uma garota adorável em sua frente. "Você não está atrasada, eu cheguei mais cedo," ela ouviu Kyle falar. "Gina, essa é Lysandra Burns, Lys, essa é Gina Weasley."

"Oi," Gina disse, sorrindo com o jeito que Lysandra colocava uma mão de maneira possessiva no ombro de Kyle, enquanto a outra tentava achar algo na mochila. Gina reconhecia Lysandra agora; ela era uma Lufa-Lufa, também no sexto ano, que tinha a maioria das matérias de Kyle. Os Lufa-Lufas e Grifinórios só dividiam uma aula juntos esse ano – a do Professor Bins. "Veio estudar até seu cérebro falhar?"

"Esperançosamente nada tão drástico," Lysandra disse, tirando triunfantemente uma pena de sua mochila e sentando ao lado de Kyle. "Eu só estou estudando o suficiente pra passar." Ela fez um gesto de 'ah sim' com as mãos. "O motivo pelo qual eu estava atrasada é que não puder perder o show durante o almoço."

"Que show?" Gina perguntou curiosa.

"Aquela nova garota, Ezra Qualquercoisa? Ela e Simas Finnigan tiveram uma briga estranha no corredor durante o almoço."

"Sobre o que?" Agora, Gina estava preocupada com a amiga.

"Não sei," Lysandra disse, desconcertada. "Eles estavam discutindo em sussurros muito altos onde você não pode entender coisa nenhuma, só sabe que é ruim."

"Então o show é o motivo por você estar atrasada," Kyle notou.

"Eu achei que não estava atrasada," Lysandra respondeu com um sorriso. Kyle sorriu de volta e Gina segurou a vontade de virar os olhos. Não era ciúmes – eles davam ânsia.

"Estou surpreso que chegamos aqui," Kyle disse, "com o jeito que esse lugar anda louco."

"Você encontrou outro casal brigando?" Gina perguntou.

"Não. Só um maníaco insano," Kyle disse rudemente. "Eu sei que ele é... um amigo seu ou algo do tipo, Gin, mas alguém deveria realmente dar um jeito em Draco Malfoy. O cara tem um parafuso solto."

"Você tombou com Draco?" Gina se sentou reta em sua cadeira.

"Mais como ele tombou em mim," Kyle corrigiu. "Ele estava murmurando algo sem fôlego, parecendo com pressa. Mandou eu olhar aonde ia. Me perguntou onde você estava, na verdade. Lhe disse que provavelmente estaria aqui."

"Como você sabia que eu estava aqui?" Gina perguntou estranhando.

"Você está brincando comigo, né?" Kyle disse devagar. "Todos da maldita escola estão aqui, ou estarão antes do fim do dia. Metade tem N.I.E.M.s e N.O.M.s, e a outra metade estão estudando para, o que eu ouvi dizer, as provas finais mais estressantes da história de Hogwarts. Você não ouviu o que todos estão dizendo?"

"Não?" Gina disse inconformada. Pra falar a verdade, a não ser que tenha algo a ver com Draco, ela não tinha ouvido ou se importado ultimamente.

"Todos os professores estão preocupados," Lysandra confidenciou. "Algo vai acontecer. Professor Dumbledore teve um presságio ou algo." Ela suspirou. "Eu realmente espero que o que quer que seja não interfira com a Copa Mundial de Quadribol. A Irlanda tem sérias chances esse ano."

"Não quando a Escócia jogar com eles," Kyle murmurou.

"Você e seu orgulho escocês," Lysandra disse, acenando uma mão. "Eu nem sou irlandesa – eu só torço pro melhor time."

"Ah, fala sério," Kyle disse, "se o Manchester estivesse competindo, você atiraria o apanhador irlandês na frente de um trem."

"Escuta, por que eu não deixo vocês dois em paz," Gina interrompeu, guardando seus livros. Sua mente estava maquinando para tentar descobrir o que havia acontecido com Draco desde que ela o deixou para ele tombar com Kyle. Talvez ele tinha recebido uma coruja de seu pai. Pensando bem, Draco nunca contou a ela o que o incomodava.

"Tem certeza?" Kyle disse em dúvida. "Nós temos muito que estudar para--"

"Positivo," Gina disse com um grande sorriso. "Divirtam-se."

Se apressando para fora da biblioteca, Gina pensou no que Kyle disse para Draco sobre onde ela estava. Será que ele... Será que ele pensou que ela estava encontrando Kyle secretamente? Era ridículo, Draco não era tão inseguro, mas... Se algo estava o incomodando, algo com seu pai, era possível que ele tomasse algo completamente inocente em um escândalo. Outro pensamento ocorreu a ela – e se Draco tinha ido até a biblioteca e visto ela e Kyle juntos?

Ele ficou tão ciumento da última vez, tão irracional. E tinha sido antes deles terem dormido juntos. Apressando o passo, Gina revirou o cérebro tentando descobrir onde Draco poderia ter ido.

•‡•‡•‡•

Uma hora se passou e Gina não estava nem perto de encontrar Draco. Ele não estava na sala comunal da Sonserina ou perto do lago. O campo de Quadribol estava deserto e ela não podia perguntar a qualquer um nos corredores, pois todos estavam na biblioteca. Ela até tinha criado coragem e perguntado ao Professor Snape se ele tinha visto Draco – não, claro, mas ele a olhou suspeitando.

O salão principal estava quase vazio e Gina parou por um momento para comer algo – ela não comia desde o almoço do dia anterior e não seria nada bom se ela desmaiasse. Enquanto estava ali, uma nervosa Corvinal do primeiro ano derramou pudim nas vestes de Gina e esta teve que se segurar para não descontar toda sua preocupação e frustração na pobre garota.

Seguindo para a torre da Grifinória para se trocar, Gina viu Hermione saindo pelo buraco do retrato da Mulher Gorda, que parecia estar desaparecida.

"Mione," Gina chamou, "segura o quadro!"

Hermione pareceu confusa por um momento, então notou a ausência da Mulher Gorda. "Desculpa," ela murmurou, "estou um pouco distraída, acho."

"Algo a ver com os rumores que eu ouvi sobre os presságios de Dumbledore?" Perguntou Gina.

"Oh céus," Hermione disse arrasada, "já existem rumores?"

"Hermione, esse é o momento em que você deve dizer, 'Que, Gin, acreditando em rumores? Bobeira' e me colocar em meu caminho," Gina disse nervosamente.

"Não é bobeira," disse Hermione miseravelmente. "Mas não é tão grave quanto você imagina."

"Como assim?" Gina perguntou.

"As coisas estão... Linhas estão sendo desenhadas," Hermione disse, perdida nas palavras, algo que nunca acontecia. "As coisas vão ficar mais apertadas, principalmente na escola. Gina, eu não posso conversar agora, estou indo encontrar Harry--"

"Vai," disse Gina. "Desculpa."

"Você vai ver," Hermione disse enquanto percorria o corredor. "Tudo vai acabar bem."

"Vai mesmo?" Gina sussurrou baixinho pra si mesma. Hermione não ouviu, e Gina estava agradecida. Querer ganhar confiança sobre uma situação que você não conhece bem era incrivelmente infantil e Gina gostava de pensar que ela não era mais uma criança.

Quando ela estava entrando pelo buraco do retrato, ela ouviu vozes. Virando-se, ela viu Ezra e Draco andando em sua direção, discutindo sobre algo.

"Eu estou apaixonado por ela," Draco disse, e o coração de Gina pulou em seu peito. Ela podia dizer até o fim que ela não precisava ouvir aquilo dele, que ela podia sentir – mas nada, nada dava aquela sensação de quando ele disse. Ela se sentiu invencível; naquele momento, ela poderia dizer a qualquer um que perguntasse que ela sentia como se pudesse voar.

Era estranho também ouvi-lo dizer aquilo quando ele não sabia que ela estava escutando. Não teria sentido mentir para Ezra, claro -- eles provavelmente só haviam começado aquela conversa porque Draco estava perturbando Ezra para saber onde estava Gina. O olhar no rosto de Ezra era impagável -- como se ela não conseguisse acreditar no que estava ouvindo. Gina imaginou que demoraria um pouco para todos se acostumarem. Ezra deveria estar dando um sermão a Draco, avisando-o para não machucar sua amiga.

"Isso é ótimo, Draco," Ezra disse amargamente, "Eu estou feliz por você. Mas não muda porcaria nenhuma."

"Muda tudo," Draco insistiu.

"Não muda!" Ezra afirmou teimosamente. "Não mudou nada quando eu me apaixonei, e não muda pra você. Nós estamos presos um com o outro, Malfoy, lamento dizer. A não ser que você queira ser aquele a enfrentar a ira dos nossos pais; só me dê tempo para ir embora, seu trasgo egoísta".

Draco permaneceu horrivelmente calado e sentido, as peças começando a se juntar na mente de Gina, cada uma carregando uma sensação de horror e náusea. Negação deveria ter agido naquele momento, mas Gina não teve o conforto da insensibilidade, ao invés disso, as sensações pularam direto para uma dor inigualável. Ela devia ter soltado um suspiro ou algum outro traidor som de incomodo (e eu estava tentando ser tão quieta!), porque Ezra e Draco ambos olharam para ela. Gina notou que Ezra parecia extremamente culpada.

Draco simplesmente parecia triste; o tipo de tristeza que matava um homem em momentos horríveis de agonia, anos antes de o corpo começar a morrer. O rosto dele refletia o mesmo coração partido que Gina sentia-se despedaçando dentro do peito.

Coberta em pudim e miséria, Gina fez a única coisa que pôde:

Ela correu.

•‡•‡•‡•

Ela nunca foi particularmente boa em esportes, nunca o suficiente para agradar as expectativas de sua mãe, Gina sendo a única garota nascida em uma família de meninos. As brincadeiras bruscas de seus irmãos, das quais ela adorava quando criança, não eram mais tão boas agora que ela conhecia as glórias da maquiagem e da moda. Quando sua carta de Hogwarts chegou, Gina já era uma garota em todos os sentidos.

Fazia anos que não corria desse jeito, mas ela correu como se o próprio diabo estivesse a seguindo (e não estava?). Seus pulmões já estavam queimando e o lugar parecia borrado. Em algum lugar no fundo de sua mente, ela ouviu Draco chamar seu nome; vagamente reconhecendo passos corridos que não eram seus.

De uma coisa ela estava certa: ela não poderia deixar que ele a alcançasse. Se ele fizesse, ele tentaria explicar, e não havia nada a ser dito. Todas as fantasias que tivera estavam despedaçando a cada passo que ela dava. Alguns minutos atrás sua maior preocupação sobre a nova relação era como seus pais levariam a notícia.

Arthur Weasley gritaria. Isso era certo. Molly o calaria, colocaria um braço em volta de Gina e seria bem 'mãe', fazendo perguntas como, 'você tem certeza, querida?' e 'ele é bom suficiente pra você?' o que faria ser pai explodir um 'Céus, não, ele não é! Ele é um Malfoy, não é?' e Gina diria 'Papai, ele não é como o resto deles!' secretamente sabendo que ele era sim igual ao resto deles, com uma grande diferença: ele a amava. Ele realmente, verdadeiramente a amava, mesmo que ele nunca tenha dito a não ser aquela vez, na maneira mais vaga possível. Mas ainda assim, ele a mostrou que a amava, e não era isso mais importante de qualquer forma? Não era daquele tipo de amor que você conseguia sentir nos ossos? O tipo de amor que conquistaria tudo?

"Eu sou tão estúpida." Ela arfou alto quando parou finalmente. Ela havia corrido todo o caminho até o lago e agora estava com água até os joelhos, respirando com dificuldade.

"Você não é estúpida," Draco disse, tentando respirar fundo enquanto se colocava ao seu lado. "Mesmo que quase tenha me dado um ataque cardíaco. Meu Deus, mulher, que feitiço de velocidade é esse?"

"Incrível quão rápido você pode correr com um coração partido, não é?" Ela disse meio histérica.

"Não," ele disse rudemente. "Não diga que seu coração está partido, não pode estar, eu não vou deixar."

"Ele está!" Ela respondeu, se virando para encará-lo. "Está partido em minúsculos pedaços e eu nunca vou te perdoar por isso!" Ela gesticulou abertamente com os braços. "Draco, você está noivo!"

"Não é minha culpa!" Ele gritou. "Eu te disse que não podia prometer nada, eu te disse desde o começo! Eu até tentei fazer você ir embora--"

"Bom, você não tentou o suficiente!" Ela chorou. "Você deveria ter me jogado pra fora do quarto! Você deveria ter me empurrado quando eu te beijei, você deveria--"

"O que?" Ele argumentou. "Partido seu coração antes? Te rejeitado, feito você pensar que eu não te queria?"

"É," ela disse nervosa. "Teria sido melhor assim. Teria sido melhor se você o tivesse feito aquela hora, antes... antes de..."

"Antes do que?" Ele perguntou. "Antes de você me amar?"

"Não, idiota, antes que eu soubesse que você me amava!" Ela deu um tapa no peito dele, forte, com a palma da mão. "Era tolerável, pensar que nós nunca ficaríamos juntos porque você não me amava. Mas aí você tem que ir e me beijar e me abraçar e concordar comigo quando eu disse que não poderia não te amar..." Havia lágrimas escorrendo em sua face e ela teve que se virar. "Por que você concordou comigo?"

"Desculpa," ele sussurrou, se movendo atrás dela. Os braços dele envolveram sua cintura e ele a abraçou, segurando firme. Ele colocou o rosto em seu pescoço e ela pôde sentir a face molhada. "Eu não -- Eu não entendo o que eu estou sentindo."

"Como assim?" Ela sussurrou perdida.

"Eu estou tão desesperadamente, terrivelmente, irrevogavelmente apaixonado por você," ele confessou suavemente. "Eu nunca amei... nada desse jeito e me assusta, me assusta muito. Eu não sei como me comportar ou reagir ou... como te deixar ir embora. Eu não fui feito pra deixar você ir, criança."

"Mas você vai se casar com outra garota," ela resmungou miseravelmente. Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta. Não parecia deixar nada melhor. Draco, casado com outra garota. Não só qualquer garota, também; Ezra. A primeira amiga que Gina fez sozinha; a primeira amiga que não a meramente tolerava por Rony.

"Eu tenho que fazê-lo," Draco disse quieto. "Nossos pais esperam isso--"

"Seus estúpidos pais não entendem que não estamos mais na Era Negra?!" Gina gritou, trazendo uma mão para junto do braço apertando sua cintura.

"Não," ele respondeu seriamente.

Eles ficaram daquele jeito por um momento. Gina encarou a água, querendo que seus olhos secassem. Tentar parar só a fez chorar mais, até que ela soluçava. Draco acariciava sua barriga levemente; o toque era instintivo e trouxe novas lágrimas a seus olhos.

"É isso, então," ela disse quieta, não percebendo o que disse até sentir a tensão do corpo dele atrás de si. "Acabou," ela disse, um pouco alto.

"Não tem que ser," ele sussurrou em sua orelha, e ela se virou pra olhá-lo.

"Draco," ela disse, quase gentilmente, "eu sei que você odeia desistir, mas até você tem que admitir que essa situação já era."

"Eu não quero te perder, Gina," ele disse, e sua voz era a mais honesta que ela havia ouvido. "Eu não posso me afastar de você sem lutar."

"Com quem você vai lutar?" Ela perguntou em voz baixa. "Seu pai? Você mesmo?"

"Talvez ambos," ele respondeu. "Fuja comigo."

Ela arregalou os olhos. "Que?"

"Você me ouviu," ele disse. "A única maneira que temos pra ficarmos juntos é ir aonde meu pai nunca nos encontrará."

"E deixar tudo pra trás," ela disse, desacreditada. "Minha família..."

"Eu entendo se você não conseguir. Significaria deixar tudo pra trás, significaria ter só um ao outro--"

"Tudo bem," Gina disse, e ela estava surpresa com a própria resposta assim como ele.

"Tenha certeza," ele avisou. "Lembre-se, eu não tenho nada a perder, nada para deixar. Você é a única coisa boa na minha vida; eu provavelmente sou a pior coisa na sua."

"Não," ela disse honestamente. "Você é... Draco, você é o que eu vejo quando imagino meu futuro. Eu me vejo com você, eu sonho com você, eu... eu não sei por que aconteceu, e foi tão rápido, tudo foi tão rápido, e eu não se exatamente quando ou mesmo como, mas... eu não consigo imaginar minha vida sem você."

Ele a olhou por um momento, e era o mesmo olhar que ele a deu na noite em que ela professou seu amor por ele: medindo, cauteloso e desesperadamente querendo acreditar.

"Então nos encontraremos aqui de noite," Draco disse. "Diga adeus se precisar. Mas encontre-me aqui e partiremos antes do anoitecer."

Puxando-a para si, ele a beijou desesperadamente, trazendo-a mais perto como se quisesse sugá-la inteira para dentro de seu ser. Tudo que ela pode fazer foi murmurar um choroso 'sim' contra a boca dele.

•‡•‡•‡•