Warning: Onde Draco se toca. Literalmente. XD

Capítulo 11

Não consegui dormir naquela noite. Óbvio. Harry Potter estava no quarto ao lado. Encostei a cabeça na cabeceira da cama, imaginando se ele estaria dormindo.

Harry desaparatara para Londres, e logo depois voltara para a Mansão trazendo apenas uma mochila. Astoria não disse nada. Apenas o recebeu com um sorriso e imediatamente o levou para um dos tantos quartos da Mansão, que por sinal era ao lado do meu. Sorri ao me lembrar da cara de Harry quando este ouviu Astoria lhe dizer que 'Draco estaria logo ali caso ele precisasse de alguma coisa'.

Era difícil imaginar o que Astoria estaria pensando. Mais difícil ainda era imaginar o que se passava na cabeça de Harry ao me dar boa-noite, ou se ele achara estranho o fato de Astoria e eu não compartilharmos do mesmo quarto.

A Mansão agora estava protegida. Dois Aurores faziam a ronda, mas não era realmente necessário já que estávamos protegidos pelo feitiço Fidelius. Minha maior preocupação era com Escorpio, mas Harry me garantira que o protegeria de qualquer mal.

A outra preocupação estava no quarto ao lado. Não era exatamente uma preocupação. Era mais como um tormento. Colei o ouvido na parede sem nem mesmo perceber. Pensei ter ouvido alguma coisa. Concentrei-me ainda mais. Achei que ouvi um gemido, mas talvez minha imaginação estivesse correndo solta demais.

Fechei os olhos. Imaginar Harry na cama estava me levando à loucura. Há quanto tempo eu não sentia o toque de outro ser humano? Anos e anos. A triste verdade. Eu não sentia falta de sexo. Não realmente. Mas se fosse Harry, será que seria diferente? Eu dormira com Astoria por alguns anos. O ato sexual havia sido satisfatório, mas vazio. Com o tempo, passamos a dormir em quartos separados e o sexo simplesmente deixou de existir.

Agora, porém, meu corpo parecia pegar fogo. E tudo pelo homem ao lado. Desabotoei a camisa do pijama de seda. Logo em seguida ela foi ao chão. Meus dedos percorreram meu torso magro. Nada desejável. Eu, no entanto, queria sentir desejo. E queria mais do que nunca ser desejado por Harry Potter. Imaginei que as mãos que me percorriam não eram as minhas, mas as dele. Mãos fortes, protetoras, de um exímio Apanhador. Mãos que apertavam meus mamilos de leve, que me torturavam a alma. Pensei ter sentido uma língua circundando-os. Soltei um gemido estrangulado.

Deitei-me. As mãos desceram para o umbigo. Meu membro pulsou. Eu estava vivo. É estranho me dar conta disso agora. Havia perdido tanto tempo me punindo por tudo. Ainda me punia por muitas coisas. Minha mente era o carrasco. Meu corpo sofria as conseqüências.

Não esta noite. Esta noite eu queria me unir às estrelas. Queria esquecer tudo e focar apenas no prazer de ter Harry comigo, mesmo que de mentira.

Finalmente minha mão entrou em contato com meu membro. Estremeci. Há quanto tempo não fazia isso? E o mais importante, por que não, se o prazer era tão intenso? Não era o prazer combustível para a vida? E aí estava uma das razões para que eu andasse como um morto vivo. Eu me negava tantos prazeres...

Fechei a mão ao redor do meu pênis e pus-me a acariciá-lo. Agora era Harry quem estava ali, me tentando, me mostrando o que eu estava perdendo. Fechei os olhos. Minha imaginação voou. Agora Harry gemia comigo, atacava meu corpo com sua boca sedenta, mordiscava meus mamilos, me beijava freneticamente.

Eu queria tudo, queria ele sobre mim, em mim. O fogo percorreu minhas entranhas, me consumiu. Já não tinha mais controle sobre nada. Só o que importava era a sensação de poder voar.

Tão forte foi meu desejo que ouvi o gemido de Harry vindo do outro lado da parede, intenso, desesperado. Como o meu. Era uma voz rouca, poderosamente masculina. Mordi o lábio inferior. Meu corpo se contraiu. O desfecho foi uma explosão de cores e sensações. Fui até a lua e voltei. A prova do meu prazer espalhou-se sobre meu estômago. Não queria que terminasse, mas era inevitável.

- Harry... – gemi.

Veio então o triste pós-êxtase, ainda mais quando se está só. A preguiça dominou meu corpo. Eu devia me levantar e me limpar, mas não queria me livrar do que eu via como prova de que meu desejo ainda estava bem vivo dentro de mim. Minha mania de limpeza, no entanto, foi maior do que eu. Arrisquei um feitiço. Perfeito. Como eu já estava mesmo exausto, não fez muita diferença.

O estupor dominou meu corpo como há muito tempo não fazia. Logo adormeci, esperando ser embalado por doces sonhos. Fui acordado de supetão por um estrondo no quarto ao lado seguido de um palavrão. Harry. Corri para seu quarto sem me importar com mais nada. Pelo menos me lembrei da varinha.

Abri a porta com a varinha em punho, pronto para duelar até o último suspiro se fosse preciso para salvar Harry. Era um avanço e tanto para um Malfoy.

A cena que encontrei, porém, não foi de devastação total, nem de bruxos das trevas prontos para atacar. Somente Harry estatelado no chão, e nu. Imaginei que ainda estivesse sonhando, e que de jeito nenhum queria acordar. Percorri seu corpo malhado com os olhos. Harry estava no topo da forma física. Sendo o Chefe dos Aurores, era o mínimo que se exigia dele. As pernas tonificadas me deixaram com água na boca. Tive vontade de correr as mãos pelo corpo dele, me deleitar naquele banquete.

Doce ilusão.

Os olhos verdes brilharam de surpresa quando pousaram nos meus, depois me encararam com aborrecimento – e talvez algo mais que não pude identificar. Com pose de lorde, ele se levantou com a toalha nas mãos e usou-a para cobrir a parte inferior do corpo. Não havia reparado até então, mas Harry parecia ter acabado de sair do banho. Os cabelos pretos respingavam no tapete persa do quarto. Minha mãe teria ficado louca se estivesse ali, mas pelos motivos errados. Ela se preocuparia com o tapete. Já eu... Sorri.

Um rubor cobriu o rosto de Harry. Meu rosto também não devia estar muito diferente. Podia senti-lo ferver numa mistura de embaraço e desejo.

- Não devia bater antes de entrar? – ele me perguntou na defensiva.

Baixei a varinha sentindo-me tolo. Logo em seguida franzi o cenho. Embora ainda atordoado pela visão de deus grego na minha frente, não significava que eu havia perdido a fala. Ainda não.

- Ouvi um barulho. Fiquei preocupado. – expliquei.

Não sei por que me dei o trabalho. Eu estava na minha casa. Harry apenas deu de ombros. O desgraçado.

- Tive um pequeno problema, mas não foi nada sério. – ele disse.

- Não? – meus olhos percorreram seu corpo novamente, mas não com objetivos lascivos.

Havia um arranhão feio no braço esquerdo. Ao lado de Harry pude ver o motivo do estrago. Ele esbarrara numa das esculturas grotescas que um parente insistira em nos presentear no natal passado. A figura, que deveria representar uma mulher nua, jazia agora quebrada no chão. Graças a Merlin e a Harry Potter. Não consegui evitar um sorriso de escapar dos meus lábios. Eu sempre detestara aquelas esculturas toscas. Eram quatro ao todo. Agora eram apenas três.

Harry fez uma careta.

- Devo pagar pela criatura horrenda que acabei de destruir? – ele me perguntou em tom extremamente jocoso.

- Acho que você me fez um favor... Mas não precisava quase se matar no processo. – comentei.

Harry deu uma risada meio amarga.

- Pois eu já estava imaginando se você não as deixou no caminho de propósito. Péssimo gosto para artes, Malfoy.

Sorri.

- Por que eu atentaria contra a vida do meu salvador? Além disso, as esculturas não foram escolhidas por mim. Foram presentes de parentes de Astoria. Seria rude não aceitá-las.

- Imagino que seria complicado doá-las também. Quem gostaria de uma coisa dessas? – ele brincou.

Aproximei-me de Harry sem me dar conta do que fazia. Peguei em seu braço machucado com cuidado. Harry estremeceu de leve. Sua respiração acariciou meu rosto.

- O que pensa que está fazendo? – ele perguntou.

- Dando uma olhada no seu ferimento. Sinto-me responsável.

Apontei a varinha para o braço de Harry, que imediatamente se afastou.

- Está louco?

Suspirei.

- Na verdade, eu sou bom nesse tipo de feitiço.

Era bem verdade que já não o praticava há tempos, mas havia feito bom uso dele quando Escorpio era menor.

- O problema não é esse. É melhor você não se empolgar muito. Ainda está em recuperação. – ele ralhou.

Fiquei emocionado.

- Obrigada por se preocupar com meu bem-estar, Potter, mas eu acho que posso fazer isso sem me matar.

- Você é minha chave para o Livro dos Mortos, Malfoy. Precisa estar saudável até que a gente abra a Câmara onde ele está escondido!

Fiz uma careta. A ilusão de que ele se importava comigo se quebrou em mil pedaços. Bem que ele podia ser um pouco menos rude com seu anfitrião. Ou melhor, sua chave. Meu suspiro foi mais do que audível.

- O que você sugere então?

Harry me olhou como se eu fosse a pessoa mais idiota do mundo. Caminhou até a cabeceira da cama, pegou a famosa varinha de azevinho, apontou-a para o arranhão e curou-o sem abrir a boca. Harry ainda era novo, mas seu poder mágico já era comparado a grandes bruxos como Dumbledore. Tinha fascínio em imaginar quão poderoso Harry seria quando ultrapassasse os cem anos de idade. Infelizmente, eu estaria acompanhando seu futuro pelos jornais apenas, supondo que eu chegasse a viver tanto.

- Acho que se machucou de propósito só pra me impressionar com o seu grande poder... – ironizei.

Eu realmente estava impressionado, mas não queria que ele notasse.

Harry riu.

- Acha que sou assim tão poderoso?

Havia um quê de provocação na voz sexy. Maldito.

- E não é?

Ele deu de ombros.

- Só tento fazer meu trabalho bem feito.

O silêncio caiu sobre nós. Eu deveria me retirar, mas parecia grudado no lugar. Meus olhos também estavam tendo dificuldade em se desviar para outra coisa que não fosse o torso nu de Harry.

- Você realmente está magro, Malfoy. – disse Harry me pegando de surpresa.

Olhei para mim e só então reparei que estava sem a camisa do pijama, que jazia aos pés da minha cama. Tive vontade de me cobrir como uma donzela medieval, mas me segurei.

- Sua esposa me disse que você não come muito.

Arregalei os olhos. Desde quando Astoria andava trocando confidências com Harry? E o que mais ela lhe dissera sobre mim?

- Minha mulher parece ter se esquecido da palavra discrição... – murmurei desgostoso.

- A culpa foi minha. Eu tinha que saber mais sobre a sua condição e acabei por pressioná-la um pouco.

Não gostei nada daquilo. Por mais que eu fosse fascinado por Harry, não o perdoaria se ele chateasse Astoria de alguma forma. Ela era, afinal de contas, minha companheira.

- Não se preocupe. Eu fui um cavalheiro. – ele disse como se pressentisse meu mau humor.

Fiz uma careta. Podia imaginar Astoria se derretendo sob o charme de Harry.

- O que mais ela lhe contou?

Houve certa hesitação por parte de Harry, algo que ele se apressou a esconder. Tarde demais, porém. Eu já havia notado e não gostara nada daquilo.

- Potter? O que ela lhe disse?

Comecei a tremer de frio. Não que o quarto de Harry estivesse gelado. O frio vinha de dentro de mim. Cruzei os braços. Vendo minha súbita tensão e mal estar, Harry se aproximou. Pude sentir o calor de seu corpo irradiando para o meu. Quis chegar mais perto. O instinto de me aconchegar nele foi tão forte que dei um passo à frente. Curiosamente, Harry não se afastou.

- Ela apenas me contou um pouco da sua rotina. – ele murmurou, colocando a mão na minha testa.

Estremeci ainda mais. Era a primeira vez que sentia o contato da pele de Harry na minha daquela forma tão gentil. Foi um choque.

- E já que vamos viajar juntos numa missão quase impossível é lógico que me importo com seu bem estar.

As mãos fortes pousaram nas minhas bochechas. Como um idiota, entreabri a boca, como se esperasse por um beijo. Definitivamente, eu estava sonhando.

- Você parece um pouco febril.

Quem era o idiota agora? Claro que eu estava febril. Não porque estivesse doente, mas porque ele me fazia sentir daquela forma.

Quando Escorpio tinha febre, lembro-me de Astoria encostando sua fronte na dele para medir sua temperatura, e depois beijando sua fronte carinhosamente. Por um instante, imaginei Harry fazendo o mesmo comigo.

Nossas bocas estavam tão próximas agora que nossas respirações se misturavam docemente. Deixei-me levar. Meus olhos perderam-se nos dele. Senti-me embriagado. Molhei os lábios.

Harry afastou as mãos de meu rosto e descansou-as ao lado do corpo. Senti falta de seu toque.

- É melhor você ir, Malfoy.

Definitivamente era melhor. Mas então por que ele simplesmente não colocava alguma distância entre nós? Do jeito que as coisas iam, Harry parecia querer o contrário. Ele continuava ali, na minha frente, olhando-me como se eu fosse feito de vidro. Meu coração bateu descompassado. Os olhos verdes estavam cheios de desejo. Não era possível que eu estivesse imaginando coisas.

Abri a boca, mas Harry finalmente conseguiu me fazer perder a fala, pois nada saiu dela.

- Estou falando sério. Agradeço seu súbito impulso de bancar o cavalheiro e me salvar do perigo, mas acho melhor você ir descansar. Afinal de contas, temos poucos dias antes de partir para o Egito. E quanto antes partirmos, melhor.

Como ele podia ser tão prático numa hora daquelas? Suspirei.

- Odeio quando você tem razão. – consegui dizer.

- O que é sempre.

Desgraçado. Sem querer, sorri. Como que por milagre, Harry retribuiu meu sorriso. A cada minuto ficava mais difícil deixar aquele quarto. Não sabia o que estava acontecendo entre nós, mas com certeza não queria que terminasse ali.

- Potter...

- Malfoy...

Ouvi uma música tocar. Achei que talvez fosse a trilha sonora do nosso momento a dois, mas na verdade era o maldito celular de Harry. Juro que um dia destruiria o desgraçado.

O bastardo imediatamente voltou a usar a 'máscara Potter', atendendo o aparelho longe de mim e falando baixo para que eu não ouvisse. Consegui, porém, perceber a doçura na voz. Odiei-o ainda mais. Devia ser Gina ao telefone.

Foi como um banho de água fria. Sem nem mesmo me despedir, voltei para o meu quarto. Deitei na cama sem sono algum. Estava mais aceso do que nunca. Pior, estava com raiva. Harry me confundia cada vez mais, e nem ao menos tinha a coragem de colocá-lo na parede e exigir que ele parasse de brincar comigo daquela forma. Será que ele não percebia o poder que tinha sobre mim? Era bem provável que sim. Era provável também que ele houvesse percebido minhas tendências masoquistas, e fazia tudo para me fazer sofrer.

Fechei os olhos com força, mas sabia que não conseguiria dormir. Sentia-me como uma criança que tivera o brinquedo favorito confiscado. Queria gritar, fazer birra, mandar alguém pro inferno – especificamente Gina Weasley. Mas eu era um adulto, e como tal, deveria fazer o que os adultos fazem quando bate o estresse: tomar uma poção para dormir.

Gostaria de poder dizer que dormi como um bebê, mas meu estado de espírito quando adormeci era tal que tive pesadelos a noite toda. Acordei como se uma manada de elefantes tivesse dado uma festa no meu cérebro.

Só o que consegui fazer no café da manhã foi resmungar. Astoria ficou me olhando entre curiosa e apreensiva.

- Não dormiu bem, querido? – perguntou ela suavemente.

Apenas resmunguei uma resposta. Estávamos a sós. Os meninos ainda dormiam, e Harry também não havia descido. Com certeza devia estar acordado. Ele era, afinal, o poderoso chefão dos Aurores. Nem devia dormir. Devia ficar em estado de alerta vinte quatro horas por dia. Fiz uma careta.

- O que disse a Potter? – perguntei sem delongas. Precisa saber, e rápido.

Astoria pousou a xícara no pires com a delicadeza de sempre. Em todos aqueles anos juntos, nunca havia visto Astoria perder a paciência ou ficar zangada. Era bizarro. Talvez ela não o fizesse porque eu já tinha chiliques demais pelos dois.

- Só disse a ele que você estava sob tratamento médico, e que ele não lhe causasse aborrecimentos desnecessários.

Tive vontade de usar um vira-tempo só para poder ouvir a conversa dos dois. Devia ter sido extremamente interessante. Não conseguia imaginar Astoria dizendo a Harry para pegar leve comigo.

- Foi só isso mesmo? – insisti.

Ela assentiu.

- Ele foi bastante compreensivo.

Ah, eu podia imaginar. Harry devia ter gargalhado por dentro. O fedelho Malfoy, cheio de poses e não me toques na adolescência, era um adulto fraco que mal podia usar magia sem ter um colapso. Humilhante.

- No futuro, será que pode ficar de boca fechada? Não quero que Harry fique sabendo de todos os detalhes da minha vida.

Mais do que ele já sabia...

- Não sei se percebeu, mas o chamou de Harry...

O comentário soou casual, mas deu o seu recado. Ruborizei. Peguei uma fatia de pão e comecei a passar manteiga nela com fúria desnecessária. Como que para coroar o momento, Harry apareceu. Não estava vestido com o uniforme de Auror. Pelo contrário, usava roupas trouxas. A calça jeans delineava os quadris torneados. O blusão verde-água irradiava força para os olhos verdes. Ele usava óculos, o que era uma raridade. Os cabelos negros pareciam menos rebeldes.

- Bom dia. – disse ele sentando-se a mesa.

- Bom dia. – respondeu Astoria com ar de dona de casa perfeita.

Eu resmunguei uma resposta.

- Alguém acordou de péssimo humor. – Harry comentou.

Grunhi.

- Ah, Draco geralmente acorda de mau humor, mas melhora ao longo do dia. – ela disse com um sorriso. – Café?

- Ah, sim, obrigado.

Arqueei a sobrancelha na direção de Astoria. Que parte exatamente ela não havia entendido sobre não falar mais sobre mim com Harry? E por que diabos a atmosfera entre eles era a de uma idílica cena doméstica? Será que eu entrara em outra dimensão?

Definitivamente, eu devia estar vivendo outra realidade, onde Harry e Astoria eram velhos amigos e tramavam contra mim.

Sabia o que Astoria pensava sobre sentimentos reprimidos, mas esperava que ela não estivesse tendo idéias bizarras do tipo confessar meu amor a Harry. Principalmente porque Harry já era bastante comprometido com Gina Weasley – eu me recusava a pensar nela como uma Potter.

Pensando bem, porém, se a família Potter era tão perfeita como dava a impressão, então por que Harry me provocava daquela forma? Será que os remédios estavam me fazendo ver coisas que não existiam? Depois de todos aqueles anos? Talvez. Afinal de contas, isso era bem mais provável do que Harry correspondendo ao que eu sentia.

- Não está comendo, Malfoy. Os ovos estão deliciosos.

Olhei para Harry como se estivesse diante de uma quimera.

Astoria apenas olhou de um para o outro esperando a minha reação.

- Não estou com fome.

- Pois é bom começar a ter, ou nada de viagem para o Egito.

Ah, agora eu era uma criança mimada? Fiz uma careta.

- Não pode ir para o Egito sem mim.

- Como se você estivesse em condições de me dizer o que eu posso ou não fazer, Malfoy. – ele jogou na minha cara.

Fiquei fulo da vida.

- Não se esqueça de que está na minha casa, Potter. Não vá colocando as asinhas de fora só porque é Auror Chefe! Não é o meu chefe.

Harry deu um sorriso maligno.

- Na verdade, enquanto estiver nessa missão comigo, terá que me obedecer, Malfoy. Caso contrário, não só não o levarei para o Egito, como o prenderei por desacato a autoridade. Além disso, se não estiver bem para a nossa viagem, juro que vou deixá-lo aqui e darei um jeito de fazer tudo o que deve ser feito sozinho. Portanto, se quiser me desafiar e vir atrás de mim, precisará de energia, Malfoy. Dito isto, é melhor começar a comer. Começamos nosso treinamento hoje à tarde. Vou dar um pulo no Quartel agora, mas volto depois do almoço.

- Treinamento? Do que está falando?

- Você está enferrujado, não é? Vai precisar se exercitar um pouco. Além disso, prometi a Alfred que lhe ensinaria a controlar sua magia. Acho que o treinamento vai fazer bem a vocês dois.

- Que ótimo! – disse a mulher que eu pensava ser minha esposa. – Só não exagerem muito. Draco também precisa descansar.

- Não se preocupe. O treinamento não será extenuante. Eu conversei com o curandeiro de Malfoy e ele me disse exatamente o que eu posso e não posso fazer.

Certo. Definitivamente, entrara num portal para outra dimensão. Toda aquela conversa de doidos estava me deixando confuso.

Percebi que Harry me encarava, o que me irritou ainda mais.

- O que foi? – rosnei.

- Não vou sair daqui enquanto não vê-lo comer alguma coisa. E isso é uma ordem, Malfoy, caso ainda tenha dúvidas.

Detesto confessar que o tom de Auror Chefe me impressionou. Pior, me deixou extremamente excitado. Fiquei imaginando como seria ter aquela voz na privacidade do meu quarto me dando determinadas ordens. Precisei piscar um pouco para dissipar a imagem.

Com um suspiro, comecei a comer aos poucos. Primeiro a fatia de pão que atacara tão ferozmente alguns minutos antes, depois meu chá com leite. Arrisquei até um dos famosos brioches de Cisne, perfeito como sempre. Astoria ficou extremamente satisfeita. Harry não disse nada, mas percebi algo diferente em seu olhar.

Baixei os olhos. Ver Astoria emocionada me fez sentir culpado. Não imaginava o estresse que meu estado lhe causava. Astoria, inclusive, tinha paciência demais comigo, um marido que lhe era completamente inútil. Infelizmente não conseguia nem pensar na idéia de um divórcio, não só por Escorpio, mas porque eu era dependente dela. Um egoísta imbecil. Suponho que se Astoria reclamasse, eu a deixaria partir. Mas ela nunca demonstrava descontentamento. Para um homem como eu, era a companheira perfeita. E dera à luz ao meu bem mais precioso. Seria eternamente grato a ela.

- Foi assim tão difícil? – Harry perguntou.

- Não, Potter.

Recobrei minha irritação e o encarei em desafio. Eu estava em desvantagem, era verdade, mas não era mosca morta.

- Ótimo. – disse Harry levantando-se. – Te vejo mais tarde, Malfoy. Sra. Malfoy, muito obrigado por tudo e até logo.

Gostaria de poder dizer que consegui colocar Harry no seu lugar antes que ele se fosse, mas não chegaria nem perto da verdade. Eu apenas deixei que ele saísse sem dizer nada.

- Harry Potter é mesmo um homem interessante. – disse Astoria para coroar o momento.

Revirei os olhos.

- Ah, sim, o charme em pessoa. – ironizei.

- Acho que tê-lo aqui vai ser bom pra você.

Astoria e eu nos olhamos por um bom tempo. O que minha esposa estaria pensando?

- Talvez. Ou talvez seja uma péssima idéia. – disse.

Eu realmente não acreditava nisso. Ter Harry por perto era o paraíso. Seria traumático quando ele se fosse. E mal se passara um dia...

As coisas fluíram normalmente até a hora do almoço. Li os jornais. As notícias eram as de sempre. A Gangue dos Bruxos parecia ter se dividido em duas facções, e eu já podia imaginar a razão. O Profeta Diário não mencionava nada sobre O Grupo dos Poderosos, porém. Na página de esportes, Gina Weasley como sempre reinava absoluta. Maldita Weasley e seus comentários geniais... Detestava admitir, mas ela era mesmo boa comentarista.

Joguei o jornal de lado. Minha próxima leitura foi a carta de três páginas de minha mãe. Era curioso pensar que os bruxos de hoje não se davam mais ao trabalho de mandar cartas pelo correio-coruja, preferindo as formas mais rápidas de comunicação. Apenas os mais velhos, e principalmente os conservadores, ainda faziam uso das corujas. Minha mãe era uma delas. Ela gostava de me mandar notícias a cada quinze dias me contando sobre o dia a dia dela na França. Suspirei aliviado quando não vi menção alguma às loucuras que eu andava fazendo. Milagrosamente, meus pais ainda não sabiam de nada.

Após o almoço, tirei um cochilo.

Acordei desorientado e com um início de dor de cabeça. Resolvi então dar um passeio com meus cães pelo jardim. Fui acompanhado por Angel. O pequeno ficou em silêncio o tempo todo, o que me agradou, mas ao mesmo tempo me deixou desconfortável. Uma criança da idade dele não devia ser assim tão bem comportada. Ele realmente tinha algo de especial. Talvez estivesse diante do próximo Harry Potter.

O próprio apareceu pouco depois quando eu voltava para casa. Graças ao ar fresco e à companhia quieta de Angel, conseguira me livrar da dor de cabeça.

- Pronto para nosso treino, Malfoy? – perguntou Harry com um ar maroto. Tive vontade de agarrá-lo.

Ele usava o detestável uniforme de Auror. Minha vontade era de arrancá-lo dele. Harry ficava muito melhor em roupas trouxas, eu odiava admitir aquilo.

- Eu nasci pronto, Potter.

Ele sorriu com ar de menino. Desgraçado.

- É bom que esteja mesmo pronto. Não vou pegar leve com você.

Ah, uma promessa. Sorri de volta. Os dias com Harry Potter prometiam ser interessantes.

Continua...

Notas da autora: Várias reviews! *_* E algumas enormes! Obrigada! Espero que tenham gostado desse capítulo! O momento está próximo agora! ;-)