No Good For Me
ShiryuForever94
Capítulo 11- Desilusão
Nota da repostagem: Mais mudanças. Uma delas foi dividir o capítulo onze original em dois por conta de ter sido inteiramente revisado, aumentado e feito o acréscimo de mais ações e explicações. Ficou realmente imenso! LOL
Salão do Grande Mestre. Um tanto perto do horário do almoço. Shion de Áries ainda pensava se estava fazendo a coisa certa quando um cosmo flamejante e no limite da fúria avisou-o que o Escorpião estava lá.
Uma visão impressionante. Os fios loiros amansados pelo capacete com o ferrão do escorpião, algo parecido a presas emoldurando o rosto que parecia sem sentimentos. Um olhar azul arguto e perigoso.
"Chamou-me?"
"Bom dia, Milo. Sim, preciso de você. Temos alguns problemas em outro país e..."
"Situação, previsão de duração, local, expectativas de resistência, estratégia sugerida e grau de destruição aceitável."
O dourado da armadura rebrilhando, a capa branca esvoaçando. Só então Milo retirou o elmo e balançou os fios para ordená-los um tanto, colocando o capacete sob uma das mãos e ajoelhando-se.
"Pode se levantar Milo. Não deveria ter me cumprimentado antes de começarmos a conversar?"
"Precisamos mesmo das convenções? Posso sair e retornar para cumprir com rituais..." Um tom de ironia e um ar de perigo iminente fizeram Shion suspirar. O Grande Mestre podia sentir. O grego estava no limiar da autodestruição.
"Não sejamos tão formais."
"De pleno acordo. Pode me carregar com as informações?" Milo soergueu-se com o costumeiro tilintar do metal no piso de pedras.
Shion virou-se e pegou uma pasta branca com variados papéis, mapas, fotografias e documentos falsos para Milo, caso ele precisasse.
"Estamos com problemas em Iqaluit, a capital de Nunavut, no Canadá. Está bem frio por lá, há neve, nevascas também. Eu havia pensado em enviar Camus, mas creio que você dará conta perfeitamente bem." Shion observou a reação de Milo e não sabia se ficava preocupado ou aliviado ao ver que não havia nenhuma.
Milo não dera a perceber que sentia qualquer coisa com a menção do nome de Camus, mas por dentro sua mente trabalhava ferozmente. Neve. Tudo que precisava era mesmo ver o aquariano por todos os lados? Como se já não o visse o tempo inteiro. Em seus sonhos...
"Preciso da topografia, previsão climática, localização do alvo e, devo ir por meus próprios meios ou disfarçado de algo tão interessante quanto pesquisador de artrópodes?" A voz era modulada, com uma nota crescente de cinismo. Talvez se jogar no trabalho fosse tudo que precisasse. Talvez morrer em missão... Quem sabe teria essa sorte?
Não.
Ele não era covarde, enfrentava seus problemas. Não ia desistir de tudo, não podia. O máximo que faria era aprender a lidar com o fato de que jogara sua felicidade num buraco bem fundo quando perdera Camus.
"Estou pensando em enviar Saga com você e..."
"Você ficou louco?" A voz de Milo transmutou-se para algo próximo a um grito de guerra. Havia fúria, havia rancor, havia desgosto nela.
"Ele é cavaleiro como você."
"Dê a missão a ele se acha que eu não dou conta ou que eu possa vir a precisar da ajuda dele." A revolta no olhar de Milo deu a Shion a exata noção do quanto aquele homem estava atormentado.
"Se quiserem, posso ir, para ajudar. Bom dia e, meus respeitos, Grande Mestre." Shaina entrou no grande salão com suas vestes de amazona e o coração aos pulos, ajoelhando-se como deveria e esperando.
"Pode se levantar, Shaina." Shion riu interiormente, era coincidência demais ou algum plano de... Ele não poderia pensar em tantos detalhes, poderia?
"É alguma brincadeira sem graça?" Milo controlou-se para não descontar na amazona toda sua raiva. "O que pretende, Shaina?" Seu tom estava bem longe do carinho a que ela se acostumara.
"Que tal conversarmos um pouco? Temos assuntos inacabados, Milo." Shaina prestou atenção em como ele estava e, incrivelmente, ele parecia até mais forte.
"Não tenho tempo para frescuras e nem este é o lugar para resolver probleminhas amorosos. Não estamos num bar, Shaina." Milo voltou-se para Shion e pegou a pasta, começando a examinar tudo como se Shaina nem estivesse lá.
"Frescuras? Probleminhas? Chama o nosso relacionamento de frescura? O que houve com você, Milo? Ao menos tenha a hombridade de me encarar para resolvermos isso." A voz da amazona subiu uma oitava e Shion suspirou novamente pensando se aquilo era realmente necessário.
Metal contra pedra quando Milo se virou. Metal contra pedra quando ele encarou Shaina de frente e quando mascarou sua raiva. Na verdade não era raiva dela. Era de si mesmo por não ter sabido assumir o que realmente queria e sentia. "Se é de algo oficial que você precisa, gostaria de dizer que não há a mais mínima possibilidade de nosso anterior relacionamento prosseguir. Se não ficou suficientemente claro, eu não quero mais nada com você, Shaina. Siga em frente e tenha toda a felicidade que merece, mas não será comigo que irá encontra-la." Direto, frio, distante.
"Canalha miserável! Você foi... Foi..." Avançou em direção a Milo tentando acertá-lo, lembrando que ele tinha sido seu primeiro homem e agora... Agora...
Engano número um. Atacar Milo tão de frente.
A amazona sequer teve tempo de ver o que acontecia quando ele cortou o golpe, girou-a ainda no ar e atirou-a ao chão como se ela fosse feita de papel.
"Esta conversa está encerrada, aliás, nem deveria ter começado. Como eu disse, não é o momento, nem o local." Milo sequer demonstrou ter sentido alguma coisa.
"Shaina, talvez seja melhor você ir." Shion não queria exatamente se intrometer, mas se Milo estava tão no limiar quanto parecia, Shaina parecia não perceber o perigo.
"É assim que você conversa, Milo?" Shaina levantou-se furiosa. Magoada, feita de idiota na frente de todo mundo e ia ficar por isso mesmo? "O que tem para me contar? Que está apaixonado por outro homem? Que virou gay? Assuma pelo menos! Do que você gosta agora? De homens em cima de você? Ou será que prefere ficar em cima deles? Por que não experimenta no puteiro de Atenas? Deve ter um monte de homem lá louco pra te dar!"
"Shaina!" Shion achou que era hora de intervir.
"Pode deixar, Grande Mestre." Foi a resposta da amazona num tom oscilando entre ironia e fúria.
Engano número dois. Fazer joguinhos com Milo. Ele era um mestre em ciladas. Ninguém fazia joguinhos com ele tão abertamente e escapava ileso.
Numa velocidade tão grande que nem dava para ver, Milo ergueu-a juntando os braços dela ao corpo para impedir que se mexesse, para que pudesse encará-la diretamente.
"Não fale do que não sabe, Shaina e, sobretudo, não se meta na minha vida. Compreenda que não é caso de gostar de mais alguém, é de não gostar de você. Se isso não é suficiente, creio que precisa desenvolver seu amor próprio. Não tenho nada a contar, não para você. Vou apenas aclarar algo. Eu já experimentei o puteiro de Atenas, para usar as mesmas doces palavras suas. Quando e como, reitero que não é da sua conta. Era solteiro à época, não tínhamos um relacionamento e não tenho que lhe dar mais nenhuma satisfação."
"Como é? Do que você está falando? Você mentiu?" A moça arregalou os olhos. Como assim? Eles haviam sido namorados, eles haviam feito sexo. Ele dissera a ela que fora sua primeira vez e ela achara lindo. Não haviam terminado formalmente antes. Fora traída? E agora... Ele mentira? Milo mentira friamente para ela?
"Não acha mesmo que foi minha primeira mulher, não é Shaina? Só pode estar de brincadeira. Está vendo como há muitas coisas que você não sabe a meu respeito?"
Cínico. Sádico. Furioso.
Engano número três. Nunca provoque um escorpião.
"Bastardo!" A moça se debateu diante do olhar dele e tentou soltar-se sem sucesso.
"Não faço ideia se é verdade, não faço ideia de quem pudessem ser meus pais como quase todos nós. Mais alguma questão sentimental de nenhuma serventia para o que preciso fazer? Eu não quero me atrasar." Frieza. Não havia nada na voz dele. Nem piedade, nem simpatia, nenhuma emoção. Camus ficaria orgulhoso.
"Deixe-a, Milo. Já chega." Shion foi até onde ambos estavam e retirou as mãos de Milo da amazona que tinha um ar cansado e triste.
"Por que, Milo? Por que deixou chegar a tal ponto?" Shaina agora estava triste. Tentara. E o resultado fora o pior possível. Gostava dele. Realmente se apaixonara por ele. Tudo tão errado, tudo tão sem sentido.
"Não sei do que fala." Milo sabia. Claro que sabia.
"Não sabe? Todo mundo falou às minhas costas de quão cheio de ciúme você ficou naquele dia! Resta saber se foi apenas ciúme do Camus ou se vai soltar a franga e ser a mulherzinha de todo mundo no Santuário!" A fúria de uma mulher traída. Ela era amazona, mas era uma mulher. Ela estava ferida e uma mulher machucada como ela fora nem sempre media as palavras ou o risco. Milo era perigoso... Muito.
"Shaina!" O aviso de Shion veio tarde demais. As agulhadas de Milo penetraram o corpo da amazona fazendo-a gritar. Ela cairia no chão se não fosse por uma presença forte que a pegou no colo.
"Hei, machão, que tal parar com isso, hein?" Kanon surgira das sombras, apenas para variar, o sorriso irônico que disfarçava o quão em guarda ele estava. "Vai ficar tudo bem." Pressionou um ponto no corpo da amazona parando o sangramento doloroso. "Não é assim que se trata uma mulher, Milo." Um jeito atencioso, mas Kanon era dissimulado. Ele também era bastante perigoso.
"Se não quer levar uma agulhada também, não se meta. Para sua informação eu trato as pessoas como elas merecem ser tratadas." Milo estava sem paciência alguma.
"Sei. Então o tratamento que deu a Camus foi algo exemplar, não?"
"Como?" Milo inflamou o cosmo e sua unha escarlate surgiu novamente.
Kanon sorriu para o escorpiano. "Se está com vontade de enfiar algo em mim, que posso fazer? Sou irresistível mesmo, o problema é aguentar as consequências." Era uma piada, mas ao mesmo tempo soava como um aviso.
"Você me paga, Milo." Shaina agora deixava lágrimas caírem. Era doloroso. Não apenas o golpe dele, mas tudo que acontecera e acontecia. "Por que simplesmente não me disse? Podíamos ter terminado como pessoas decentes."
"Talvez eu tenha cometido um erro." Milo mordeu os lábios de leve. Odiava admitir qualquer engano. Era muito justo, mas também era bem orgulhoso. Errara com Camus e caíra na armadilha de palavras de Kanon. Malditos geminianos!
"Só um?" Kanon deixou a amazona junto a uma pilastra de mármore e logo estava bem mais perto, muito perto. O soco de Milo quase o alcançou. Encararam-se num mudo desafio. O punho de Milo contra a palma da mão de Kanon. "Vai cometer outro?" A voz grave e firme do irmão de Saga.
"Parem com isso, os dois! Ou deveria dizer os três? Fazia tempo que eu não exercitava meu lado babá..." Shion enlaçou os ombros da amazona. "Vá para casa, Shaina. Simplesmente saia daqui. Não vai ajudar em nada a sua permanência aqui."
"Mas..."
"Até mais, Shaina." O olhar de Shion não deixava dúvidas. Era uma ordem.
"Sim, senhor." Shaina murmurou baixinho e então suspirou. "Posso pegar minhas coisas na sua casa, Milo?"
"Sim, faça como quiser." Milo ainda encarava Kanon que tinha um meio sorriso divertido no rosto. "O que é agora, Kanon?"
"Vai comer agora ou quer que embrulhe? Você mal consegue se controlar perto de mim, não é mesmo? Também sente esse tesão todo por Saga? Oh, desculpe, por ele você sente é raiva e inveja?" Kanon passou os dedos pelo rosto de Milo com ar abusado.
"Seu grande filho da puta!"
"Como você xinga, Milo... Caso clássico de amor enrustido? Está a fim de me provar? Eu o deixo aceso?" Kanon estava se divertindo, totalmente.
"Agora chega!" Shion separou os dois com uma força indescritível. O poderoso carneiro não era qualquer um.
"Não fiz nada." Kanon tentava ficar sério, mas estava, positivamente, se divertindo. "Eu devia ter feito? Talvez o problema de Milo seja falta de alguém que faça algo com ele..."
Dessa vez o soco de Milo foi certeiro, mas Kanon não se abalou, deixando-se bater e apenas esfregando o rosto. "Essa é a extensão da sua raiva, sofrimento e tristeza?" Kanon falou com voz séria.
"Kanon!" Shion se lembrava. Aquelas mesmas palavras.(1)
"Seiya também bateu no rosto de Shion com força na Guerra de Hades apenas para descobrir que o idiota era ele. Ouvir verdades dói, Milo?" Quem disse que o geminiano ia deixar barato?
"Pela última vez, quietos! Não vamos a lugar algum desse jeito." Shion inspirou o ar fortemente e olhou para cima. Oh, por todos os deuses do Olimpo, estavam com problemas sérios e tinha que aturar dois cavaleiros tendo crise? Bom, na verdade achava que havia entendido as intenções de Kanon, mas não tinha certeza. Melhor averiguar antes de tomar uma decisão. "Kanon, o que veio fazer aqui?"
"Estava por aí. Ou meu acesso ao décimo terceiro templo será negado?"
"Você não é um de nós." A voz de Milo, o olhar dele, a postura. Ele estava com raiva.
"Oh, esse assunto de novo? Acho que já resolvemos isso na última guerra santa. Ficou sem memória? Aliás, por que eu o incomodo tanto, Milo? Talvez porque sou a cara do meu irmão? Ah, claro, o problema é que Saga é namorado do Camus, não é isso?"
Um momento de hesitação. Shion estava preparado para enfrentar a fúria de Milo, mas não foi isso o que aconteceu. O olhar vítreo de Milo ficou frio e distante.
"Tenho trabalho a fazer." Milo pegou a pasta com os documentos, fez uma reverência e saiu de lá rapidamente, mas não foi para seu templo, simplesmente não queria ficar no Santuário, não naquele momento. Tirou a armadura, colocou roupas civis e passou quase a tarde toda fora.
"Seu senso de oportunidade é algo que tem em comum com Saga?" Shion suspirou. "Não precisava tê-lo provocado tanto."
"Eu precisava sim, para testar os limites dele. Um cavaleiro completamente descontrolado não daria certo. Ele quase cedeu, mas apenas pegou sua missão e foi embora. Eu creio que ele vai conseguir." Kanon mudara totalmente a postura. Estava sério e nem um pouco brincalhão.
"O que conseguiu descobrir?" Shion estava realmente preocupado.
"Não muito. Ele não está mais tão deprimido, apenas zangado em excesso, é capaz de tomar decisões, evita contato com todo mundo, mas acho que está funcional. A "muda" parece ter surtido efeitos."
"Você acha? Parece? Estou mandando-o para um trabalho difícil e você acha?" Shion andou de um lado ao outro. "Ele parou de usar?"
"Os antidepressivos, o remédio para dormir, a bebida ou algo mais que ele já não tenha usado? Talvez eu devesse ver se ele usa vibradores?" Kanon falou aquilo com a maior calma do mundo.
"Por Atena, eu devia ter dado esse trabalho ao Shura..."
"Ele não é bom mentindo descaradamente." Kanon apenas cruzou os braços.
"Não sei se acho isso incrível ou se fico aterrorizado."
"Ora, vamos, sabe muito bem que ninguém é melhor espião que eu. Ou tão dissimulado. Enfim... Do que falávamos?"
"Drogas pesadas. Ele já foi usuário, num passado distante. Quem o tirou disso tudo foi Saga, quando ele ainda era adolescente."
"Saga? Oh, então foi por isso que..."
"Que ele pediu para você cuidar dele." Shion relaxara um pouco e agora caminhavam pelos jardins do décimo terceiro templo.
"Compreendo. Ele está limpo, pode estar certo. Entrei no templo dele algumas vezes e..."
"Como você fez... Ah, deixe para lá. Você entrou no templo submarino e enganou Poseidon, entrar num templo de um Santo de Atena deve ter sido fácil." Shion tentava por em ordem seus pensamentos. Percebeu que Kanon parara de andar e o encarava com ar grave. Fitaram-se.
"Shion, eu não tenho orgulho do que eu já fiz contra Atena e o Santuário, mas tenho muito orgulho do que sou capaz de fazer. Se essa é uma tentativa inadequada de me fazer sentir pesar pelo passado, melhor não ir por esse caminho. Eu o respeito imensamente, mas foi a própria Atena quem me aceitou de volta e, com toda a deferência que devo ao Grande Mestre, ser lembrado a todo instante de que fui um traidor não é agradável. E, não, também não gosto quando fazem julgamentos sobre Saga. Como se sentiria se todos ficassem falando que você comandou os cavaleiros renegados para sangrar a deusa?"
"Havia um motivo e você sabe muito bem." Shion não estava acreditando que Kanon fosse tão direto quanto àquilo.
"Todos ouviram sua parte da história e aceitaram. Todos cometemos erros ou fazemos o que precisamos fazer. Em qual categoria vai me encaixar, não me interessa, mas se vamos concluir o nosso trabalho, eu gostaria muito que deixássemos questões pessoais e o passado para trás. Eu não sou criança, você muito menos, somos Santos de Atena e devemos trabalhar juntos. Se não gosta de mim, chame outro, mas não me incomode mais com esse tipo de assunto." O cosmo exuberante de Kanon. Tal como o de Saga, era próximo ao de um deus.
"Acalme-se. Vai chamar mais atenção do que gostaríamos." Shion interrompeu o passeio e ambos seguiram para uma imensa biblioteca, o repositório de sabedoria não apenas do Santuário, mas de toda a humanidade.
"Está bem. Perdoe-me qualquer atitude impensada. Hum, Saga estudava bastante por aqui. Ele e Aiolos."
Shion sorriu. "Sim, eles eram bons garotos. Enfim, vamos em frente. O que sabe sobre anfetaminas?" Dois grandes homens e dois grandes poderes. A maturidade de ambos fazendo-os trabalhar calmamente superando quaisquer divergências.
Kanon pensou por instantes. "Como um cavaleiro pode usar drogas? Usamos o corpo como se fosse uma arma, lutamos o tempo inteiro, não sei se posso imaginar um de nós usando drogas. No entanto, vejamos, anfetaminas. Sei o suficiente para ficar longe delas e de quaisquer outras substâncias definidas como drogas."
"Rapaz inteligente." Shion pegou alguns imensos livros e foi abrindo-os sobre uma bonita mesa de mármore.
"Sempre achei isso." Kanon sorriu e observou os livros. "Ainda de pele de animais? Certo, pergaminhos. Quantos anos isso aí tem? Séculos? Se não me falha a memória, o pergaminho era feito com peles de ovelha, cordeiro, carneiro e também cabra. Hum, acho que vou esfolar Mu, talvez o Shura..."
O olhar de Shion fez Kanon ficar quieto. "Sabe que algumas notas são muito antigas, sobre drogas, eu quero dizer. Podemos aprender muito com o passado."
"Iboga, ayahuasca, peyote, folhas de cocaína. Pelo que sei, o historiador grego Heródoto escreveu que em 450 a.C. a cannabis sativa era queimada em saunas para dar barato em frequentadores. Ou seja, todo mundo adorava ficar louco." Observou o olhar de quase censura de Shion. "Estou viajando e nem fumei nada. Certo, vamos lá, você falava de anfetaminas. O que sei sobre elas é quase de conhecimento comum. Há variadas formas e apresentações farmacêuticas. São utilizadas atualmente em casos de narcolepsia dado seu potencial de viciar com facilidade e causam efeitos variados, sendo que o que motivou seu uso como droga distribuída nas guerras mundiais foi sua capacidade de reforçar a resistência e eliminar a fadiga das tropas."
"Era distribuída como se fosse a coisa mais natural do mundo."
"Ora, Shion, tirava o sono, deixava o soldado totalmente disposto. Para os exércitos, um verdadeiro achado."
"Ainda bem que hoje é ilegal, embora ainda possamos achá-la em remédios para emagrecer."
"Já usou alguma droga, Shion?" Kanon perguntou à queima-roupa.
O Grande Mestre suspirou e abriu um velho álbum, chamando o jovem geminiano para ver. Eram fotografias bem antigas, algumas eram apenas ilustrações e desenhos a carvão.
"Nunca precisei de anfetaminas para sentir a adrenalina correndo, nem para ter confiança em mim mesmo. Só que sei bem o que ela causa. Milo uma vez chegou aqui com as pupilas dilatadas, a respiração em ofegos, seu coração parecia uma metralhadora e a fala dele ia numa velocidade assustadora. Ele ficava eufórico, Kanon, de um jeito mortal e sanguinário."
"Você o viu assim? Mas não foi Saga que..."
"Nos seus momentos de lucidez Saga escrevia um diário sobre tudo que ocorria no Santuário. Ele contou em pormenores como Milo estava. Seu irmão também o fez parar, ele não era ruim o tempo inteiro. Ora, me desculpe, eu sei que não era bem o Saga." Shion estava ligeiramente sem graça.
"Saga não deveria ter atacado você, Shion. Eu sei que ele se arrependeu" Kanon soou amigável. "Nós dois lhe temos o maior respeito."
"Agora é você quem está voltando ao passado. Sem ressentimentos. Nenhum de nós, como você disse, está livre de cometer erros ou de ter arrependimentos."
"Milo deveria ser grato a ele." Kanon apenas seguiu e mudou de assunto.
"Se ele se lembrasse." Shion ficou muito sério.
"Como assim se ele se lembrasse?" Kanon franziu o cenho. Não sabia todos os detalhes, então?
"Saga bloqueou muita coisa na mente de Milo, sobre seu passado movido a drogas e desgraça. Saga fez isso por ele e não quer que porventura uma grave crise como a que ele vem passando desperte as lembranças que ele trancou."
"Mas... Como..." Kanon estava boquiaberto. Não sabia nada daquilo e sabia tudo sobre Saga, ou achava que sabia.
"As anfetaminas agem de um jeito incrível, Kanon, a pessoa tem insônia, inapetência, sente-se cheia de energia e fala depressa. Parece que foi ligada a uma tomada. Desse jeito, fica capaz de executar atividades por mais tempo, sentindo menos cansaço. Só que o efeito não dura para sempre e o cansaço vem, horas mais tarde. Sabe o que é tolerância?"
"Sim. O organismo precisa de mais e mais doses."
"Milo poderia ter morrido se não fosse por Saga. As anfetaminas fazem com que o organismo reaja acima de suas capacidades exercendo esforços excessivos, e olhe que já temos capacidades bem acima do normal. O problema é que, se parar de tomar essa droga, seu organismo fica com astenia, falta de energia, o que gera depressão, sem falar que até as tarefas normais ficam difíceis."
"Nem precisa me falar como drogas são a desgraça do mundo moderno."
"Há ainda o fato de que Milo ficava bem mais agressivo e irritadiço, com suspeitas contra todos e qualquer um. Ele chegou a ter surtos paranoicos, Kanon. Saga o internou numa clínica e depois simplesmente obliterou as lembranças dele. Ninguém além de Saga e eu sabíamos disso."
"Meu irmão é incrível..."
"Sim, ele é. Por que acha que ele era candidato a Grande Mestre?" Shion deu um pequeno sorriso.
"Agora faz todo sentido ele me mandar vigiar o escorpiano." Kanon sentiu vontade de falar sobre toda aquela época, mas não sabia se devia.
"Quer me dizer mais alguma coisa?"
"Se eu não tivesse insuflado tanto a alma de Saga, talvez ele não tivesse feito um monte de coisas erradas, talvez não tivesse perdido sua sanidade."
"O passado não tem conserto, Kanon. Apenas vamos em frente. Se é o que está pedindo, tem o meu perdão. Sem ressentimentos." Shion viu o olhar bonito do geminiano mais novo ficar caloroso. "Vocês tem personalidades bem distintas, isso é interessante."
"Obrigado. É um alívio saber que não tem mágoas de mim."
"Vocês eram jovens demais. No entanto, que tal deixarmos essas reminiscências para depois? Tem algo que eu gostaria de saber."
"Se eu souber..." Kanon não ia insistir no assunto, algumas coisas deveriam apenas ficar enterradas.
"Saga está apaixonado por Camus? Seja sincero. Eu preciso realmente saber."
Kanon deu um pequeno sorriso. A conversa ia ser boa.
(1) Na Saga de Hades, Santuário, Seiya ataca Shion com um soco e o ariano apenas deixa acontecer. As palavras de Shion foram exatamente as que Kanon disse. ^^
