Capítulo XI

Hermione estava ocupada beijando o rosto do diretor russo quando Rony entrou no camarim depois do espetáculo, naquela noite. Ela vestia um roupão curto e vermelho, e ainda estava com a maquiagem pesada que usara para se apresentar no palco. Os cabelos continuavam presos no alto da cabeça em um penteado sofisticado, que usara para o segundo número, uma dança espanhola, quando trajara uma vestimenta muito sexy.

A platéia aplaudira entusiasmada, e Rony também.

Mas naquele instante entrava no camarim para encontrá-la aos beijos com o russo antipático que a insultara tanto poucas horas antes. Rony teve um súbito e absurdo pensamento sobre qual dos dois mataria primeiro.

— Desculpe a interrupção — falou em voz alta.

Hermione voltou a cabeça com calma, o olhar brilhante, e sorriu.

— Rony!

Davidov passou um braço pelo ombro da bailarina e examinou o intruso com frieza.

— É este o empreiteiro? O que me odeia? Acho que agora me detesta ainda mais. Não gosta que eu a beije.

— Ora! Não seja bobo! — riu Hermione.

— Não gosto mesmo — sibilou Rony.

— Que absurdo! Este é Davidov!

— Sei muito bem quem é. — Rony fechou a porta. Preferia não ter testemunhas do duplo assassinato. — Conheci sua esposa hoje.

— Sim, ela gostou de você e de seu filho. Eu tenho três filhos, um rapaz e duas meninas. — De modo provocador, o diretor de bale beijou os cabelos de Hermione. — Minha mulher sabe que vim aqui no camarim cumprimentar esta bailarina. Ela foi maravilhosa, costuma ser perfeita e não a perdôo por ter me abandonado.

— Estou tão feliz! — disse Hermione, esquecendo a dor terrível nos pés.

Davidov ergueu o olhar, em um gesto impaciente.

— Feliz! — resmungou com pouco-caso. — Como seu diretor, não me importa sua felicidade contanto que dance bem. Mas como seu amigo... — Beijou-lhe as mãos. — Fico feliz que tenha tudo o que deseja.

— Ficaríamos todos muito mais felizes se você se afastasse dela — disse Rony.

Hermione franziu a testa.

— Ciúme é uma coisa horrível e, neste caso, sem sentido.

— Assassinato também é algo horroroso, mas neste caso faz sentido — sibilou Rony.

— Um minuto! — pediu Davidov. — Se vocês dois querem brigar, esperem até eu acabar de falar. Escrevi o bale Rosa Vermelha para minha esposa Ruth. E ninguém desempenhou o papel de Carlotta tão bem quanto Hermione... depois de minha mulher, é claro.

Lágrimas inundaram os olhos de Hermione.

— Obrigada.

— Estão sentindo a sua falta — disse Davidov, beijando-a na testa só para provocar Rony ainda mais. Depois voltou-se para ele. — Já a conheceu, portanto sabe que é um verdadeiro tesouro. E estou aqui com Hermione porque também a considero um tesouro. Se tem olhos nessa sua cabeça deve saber do que estou falando, depois de vê-la dançar esta noite. — A expressão de Davidov adquiriu um brilho divertido. — Entretanto, no meu caso, se pego um homem beijando minha mulher, quebro as pernas dele. Sou russo.

— Em geral começo quebrando os braços — disse Rony, mais à vontade e entrando na brincadeira. — Sou irlandês.

Davidov soltou uma gargalhada.

— Gostei dele — disse a Hermione, dando um tapinha nas costas de Rony, todo satisfeito, e saindo do camarim.

— Ele não é maravilhoso? — perguntou Hermione, enlevada.

— Há algumas horas, você o odiava.

Hermione fez um gesto de pouco-caso com a mão e sentou-se para remover a maquiagem.

— Aquilo foi no ensaio. Sempre o odeio durante os ensaios.

— E sempre o beija depois dos espetáculos?

— No caso de tudo correr bem, sim. Ele é um gênio. Senão fosse por Davidov, não teria me transformado em uma boa bailarina, nem seria a pessoa determinada que sou. Somos íntimos, Rony, mas não como está pensando. Ele adora a esposa. Certo?

— E as coisas são assim no meio artístico?

— Sim. Do mesmo modo que os jogadores de futebol dão tapinhas uns nos outros no vestiário.

— Mas não consigo imaginar seu irmão dando beijos nos outros jogadores do time de beisebol. — Rony sentiu o olhar de reprovação de Hermione e suspirou fundo. — Tudo bem, já entendi.

— Ótimo! O espetáculo foi maravilhoso, não? Gostou?

— Você foi incrível! Nunca vi algo parecido.
Hermione saltou do banquinho e abraçou-o.

— Fico tão contente! — Riu ao ver que borrara o rosto de Rony com a maquiagem muito branca. — Desculpe-me. Fiquei tão nervosa com a família presente! Papai e mamãe que vieram de Shepherdstown, e meus avós... tios e tias... e Harry mandou flores. — Voltou a sentar-se e passar creme no rosto. — Pensei que iria passar mal de tanto nervosismo. Mas na hora, só ouvi a música. É assim que acontece no momento certo.

Rony relanceou o olhar pelo camarim. Estava coberto de flores, a maioria rosas. Mas todas pareciam pálidas em comparação com o entusiasmo no rosto de Hermione.

De repente um pensamento surgiu-lhe na mente. Como ela podia abandonar tudo aquilo e por quê? Ia perguntar, quando a porta abriu-se com um repelão, e a família entrou para cumprimentá-la. O momento havia passado.

Hermione parecia estar muito à vontade também no dia seguinte, na casa do Brooklin onde os avós moravam. A exótica bailarina que brilhara no palco na noite anterior fora substituída pela garota adorável, vestindo um jeans confortável e andando descalça.

Aquela transformação era um mistério para Rony. Qual dos dois papéis Hermione preferia? Precisava descobrir, prometeu a si mesmo.

Porém, no momento, pensou, o melhor a fazer era aproveitar o fim de semana. A casa estava repleta de pessoas e o barulho era constante e ensurdecedor.

O piano encostado a um lado da espaçosa sala era toca do seguidamente por diversas pessoas. Tudo servia, de rock a Bach. Um aroma gostoso de comida impregnava o ar, vin do da cozinha. O vinho era servido sem parar, e ninguém ficava quieto no mesmo lugar por mais de cinco minutos.

Hugo sentia-se muito à vontade naquele ambiente, observou Rony.

Sempre que conseguia vê-lo, em meio a uma dezena de outras pessoas, estava brincando com Max, empurrando carrinhos no tapete da sala ou correndo de um lado para o outro. A última vez que o vira estava sentado no colo do velho Yuri, e parecia conversar com seriedade. Antes disso, passara correndo escada abaixo, e nem percebera a presença do pai. Rony anotou mentalmente que precisavam ter uma conversa sobre correrias na escada.

— Ele está bem — disse uma mulher como se lesse seus pensamentos, sentando-se no sofá ao seu lado. Tinha a marca registrada dos Stanislaski: loura, bonita e desinibida.
— Meu nome é Rachel. Sou tia de Hermione. Somos uma família bastante indisciplinada, não?

— Vocês são muitos — disse Rony, tentando traçar mentalmente uma árvore genealógica.

Rachel. Irmã da mãe de Hermione. Casada com o dono do bar que era meio-irmão de Nick. Ufa! Era difícil armar o quebra-cabeça, pensou.

— Logo vai se acostumar — disse Rachel sorrindo. — Aquele ali é meu marido, está fingindo enforcar nosso filho Gideon que estava conversando com Sydney, a ruiva bonita, mulher de meu irmão Mik, e Laurel, a caçula de Mik e Sydney. Mik está ali, discutindo com meu outro irmão, Alex. E Bess, a esposa de Alex, aquela ruiva maravilhosa, parece estar dizendo algo muito importante para sua filha Carmen e a pequena Kelsey, filha de Nick e de Freddie. O jovem alto e bonito que está saindo da cozinha é o primogênito de Mik, Griff, que parece ter ido convencer minha mãe, Nádia, a dar-lhe um pedaço de bolo. Entendeu?

— Bem...

— Vai absorver com o tempo. — Rachel soltou uma risada divertida e deu-lhe um tapinha no joelho. — E ainda existem muitos outros que não estão aqui. E pode ficar descansado que seu filho está bem, e... Você não está bebendo. O que vai querer? Vinho?

— Claro, obrigado.

— Pode deixar que vou buscar — disse Rachel, levantando-se com a mesma velocidade com que se sentara.

Imediatamente Griff tomou-lhe o lugar e começou a conversar sobre carpintaria.

Esse, pelo menos, era um assunto que podia levar avante, pensou Rony.

Hermione atravessou a sala, abrindo caminho entre adultos e crianças, e sentou-se no braço do sofá, oferecendo-lhe um copo de vinho.

— Tudo bem por aqui?

Sim. Estou agindo conforme o manual dos escoteiros que diz: quando estiver perdido, apenas sente em um lugar, que os outros o acharão. As pessoas sentam perto de mim, conversam um pouco e seguem adiante. Em breve conhecerei todos os detalhes de sua família, se continuar neste sofá e usando este sistema.

Quando virou a cabeça para o lado, viu que Griff já se guira adiante, e Alex sentava-se, colocando os pés na mesinha de centro.

— Então, Bess e eu estamos pensando em acrescentar um ou dois cômodos na nossa casa de campo.

Rony sorriu e voltou-se de novo para Hermione, sussurrando:

— Percebe o que digo?

Mas ela levantou-se e foi para a cozinha onde Natasha dava os retoques finais em uma salada enorme. Nádia estava no fogão supervisionando o trabalho de Laurel, que mexia uma panela.

- Precisam de ajuda? — perguntou Hermione.

— Sempre há gente demais na minha cozinha — replicou Nádia.

Os cabelos da senhora eram brancos como neve e o rosto marcado pelos anos. Mas o olhar era cheio de vivacidade. Disse a Laurel:

— Muito bem. Pode ir agora.

— Mas quero comer, vovó. Estamos todos famintos!

— Logo. Diga a seus irmãos e irmãs, primos e primas, para colocarem pratos e talheres na mesa.

— Certo! — respondeu a menina, saindo da cozinha e já gritando ordens.

— Essa gosta de mandar — comentou Nádia.

— Mãe! Todos na nossa família gostam — disse Natasha rindo. — E como vai Rony, Hermione?

— Está conversando com o tio Alex — Hermione examinava o que fervia nas panelas. — Não é maravilhoso?

— Tem um olhar bondoso mas decidido — comentou Nádia. — E cuida bem do filho. Você tem bom gosto, Hermione.

— Tive bons exemplos. — Kate inclinou-se e beijou a avó. — Obrigada por recebê-lo.

Nádia escondeu a emoção.

— Vá ajudar a pôr a mesa. Seu jovem amigo e o filho vão pensar que não se come nesta casa.

— Em breve verão que é bem o contrário — replicou Hermione, pegando uma torrada e beijando a mãe ao sair da cozinha.

— Bem — disse Nádia, mexendo em outra panela. — Logo teremos um casamento para dançar. Você está contente com a escolha de Hermione, filha?

— Claro. Ele é um bom homem e a faz feliz. Para ser sincera, eu não teria escolhido melhor se tivesse que arrumar-lhe um marido. — Olhou para a mãe, emocionada. — Oh! A minha garotinha vai se casar!

— Sei disso, filha — disse Nádia correndo a abraçar Natasha e oferecendo a ponta do avental para que a filha enxugasse os olhos úmidos.

No meio da semana seguinte, Hermione já estava ansiosa para abrir as portas da escola e receber as primeiras alunas. O salão de dança estava pronto, e tudo brilhava, do chão aos espelhos. O escritório estava arrumado e os vestiários e banheiros prontos.

Escola de Dança Granger.

Ela parou na calçada, leu e releu a placa, tapando a boca com as mãos. Os sonhos, concluiu, às vezes se tornavam realidade. Tudo que se tinha a fazer era acreditar com força e trabalhar bastante.

— Senhorita?

Perdida em seus próprios devaneios, Hermione estremeceu e voltou-se, piscando várias vezes para a mulher que atravessara a rua. Com um aperto no estômago, lembrou-se de que era a mesma que vira Rony carregá-la nos ombros.

— Oh! Como vai?

— Bem, obrigada. Na verdade, ainda não nos conhecemos — disse a outra, retorcendo a alça da bolsa, como senão estivesse muito à vontade. — Sou Marjorie Rowan.

— Hermione Granger

— Sei disso. Aliás, também conheço de vista o seu namorado. O síndico o contratou algumas vezes para fazer reparos no prédio onde moro. De qualquer modo, peguei uma brochura na loja de sua mãe sobre sua escola. Minha filha de oito anos vive pedindo para fazer aulas de bale.

Hermione sentiu uma onda de alívio. Não se tratava de um sermão sobre não causar escândalos no meio da rua. Logo alegrou-se de fato, ao perceber a possibilidade de ter uma nova aluna.

— Estou às ordens para conversar com a senhora e sua filha. As primeiras aulas começarão na próxima semana. Gostaria de entrar e visitar a escola?

— Bem, para ser sincera, já andamos espiando pelas janelas, se não se importa.

— Claro que não!

— Eu disse a Audrey, minha filha, que vou pensar a respeito, mas já decidi. Quero que freqüente suas aulas para ver se tem aptidão.

— Então por que não entramos e a senhora me conta mais sobre Audrey?

— Obrigada. Ela logo voltará da escola e terá uma gran de surpresa. — Começou a subir a escada com Hermione, as duas sentindo-se mais à vontade. — Sempre quis estudar bale quando era menina, porém minha família não tinha meios.

— E por que não realiza seu sonho agora e aprende tam bém?

— Agora? — repetiu Marjorie, achando graça na sugestão de Hermione. — Oh! Estou velha demais.

— O bale é um excelente exercício físico. Aumenta a flexibilidade e é divertido. Ninguém é velho demais para isso. E a senhora está em muito boa forma.

— Procuro me manter — murmurou Marjorie, olhando em volta com ar sonhador, para as barras, os espelhos enormes e os posters coloridos. — Acho que seria agradável, mas não posso pagar dois cursos.

— Vamos conversar a esse respeito. No meu escritório.

Uma hora mais tarde, Hermione subiu para seu apartamento. Precisava compartilhar com alguém sua vitória do dia, e Rony fora o eleito. Tinha duas novas alunas, a primeira dupla de mãe e filha! E isso era um novo ângulo para a publicidade da escola.

Entrou como um raio na pequena sala de estar e parou. Em seguida começou a fazer um círculo, vagarosamente. Estava tudo pronto. Andara tão ensimesmada que nem percebera o progresso da obra. Tudo brilhava e exalava um aroma de verniz novo.

Atônita, encaminhou-se para a cozinha que reluzia. Os armários esperavam, prontos, pela louça e os mantimentos, e as prateleiras, junto à janela, clamavam por alguns vasos de flores.

Deslizou os dedos sobre o balcão que Rony insistira em colocar, dizendo que seria perfeito para o café da manhã. Sim, ele e ela haviam contribuído, juntos, para deixar o apartamento maravilhoso. Como a obra e todo o prédio, fora um trabalho de equipe.

Hermione apressou-se a entrar no dormitório onde Rony, agachado, instalava as fechaduras nas portas dos armários. Sentado no chão, de pernas cruzadas, Hugo concentrava-se em desatarraxar um parafuso com uma pequena chave de fenda. Mike ressonava feliz, no meio dos dois.

— Não há nada mais interessante do que observar dois homens trabalhando. Olá, meus lindos!

Ambos ergueram o olhar, e Hugo disse:

— Vim ajudar o papai porque Rod e Carrie precisavam ir ao dentista. Eu já fui na semana passada e não tenho nenhuma cárie.

— Que bom! — Hermione olhou para Rony. — Tenho andado tão envolvida com o andar de baixo que não reparei no prodígio que fez aqui em cima. Está maravilhoso! Tudo certo!

— Ainda faltam alguns detalhes. Arremates na parte de fora do prédio. Mas já pode ocupá-lo.

Entretanto, não havia o costumeiro entusiasmo na voz de Rony, que sentia-se deprimido havia vários dias.

— Adorei. — Hermione agachou-se ao seu lado, enquanto Mike, cambaleando, vinha saudá-la, abanando o rabo. — E acabo de conseguir mais duas alunas. Agora, se conseguisse arrumar dois belos rapazes para me acompanharem em uma comemoração, o dia seria perfeito.

— Vamos! — gritou Hugo entusiasmado.

— Filho, tem deveres de casa a fazer.

— Estava pensando em jantar cedo — disse Hermione. —Hambúrgueres e fritas em uma lanchonete.

Hugo agarrou os ombros do pai.

— Por favor, vamos?

Encurralado de novo, pensou Rony, resmungando:

— E difícil recusar um convite tão elegante.

— Ele concordou — disse Hugo, voltando-se para Hermione, e segurando-a pelo braço. — Podemos ir agora?

— Preciso terminar algumas coisas aqui em cima — res pondeu Rony, passando a mão nos cabelos e olhando para Hermione.

Fazia muito isso nos últimos tempos, ela observou para si mesma. Desde que voltara de Nova York. Ficava olhando para o seu rosto, mas de um modo diferente, como se a analisasse.

Hermione sentiu um mal-estar invadi-la.

— Dentro de uma hora está bem? — perguntou Rony.

— Perfeito. Importa-se se roubar seu ajudante? Quero contar as novidades para minha mãe. Poderemos exercitar Mike.

— Claro. Hugo, comporte-se.

- Ele quer dizer que não devo pedir brinquedos — explicou o menino para Hermione, com ar confidencial. — Pai...
— Debruçou-se ao ouvido de Rony e cochichou algo

— Sim, pode.

— Voltaremos em um hora — gritou Hermione da porta.

— Ótimo.

Rony esperou que fossem embora e então sentou-se no chão. Precisava tomar algumas decisões, pensou. E logo. Era um problema estar muito ligado a Hermione, e o filho a adorava. Podia agüentar algumas mágoas, mas recusava-se a magoar Hugo. A única coisa sensata a fazer era sentar e ter uma conversa com Hermione. Era hora de pôr tudo em pratos limpos, concluiu.

Além disso, precisaria ter uma conversa com o menino e saber o que pensava e sentia.

Primeiro Hugo, pensou Rony. Talvez seu filho visse Hermione apenas como uma amiga e, ao contrário, ficasse aborrecido perante a idéia dela tornar-se alguém muito importante em sua vida. Desde que nascera foram apenas ele e o pai. A dupla.

Rony se assustou ao perceber movimento no quarto.

— Se não ligasse esse rádio tão alto, não seria pego de surpresa — falou Arthur Weasley às suas costas.

— Gosto de trabalhar ouvindo música — respondeu Rony, mas ergueu-se e desligou o rádio, de modo obediente. — Deseja alguma coisa?

Não conversavam desde a cena na cozinha dos Granger. Os dois homens olharam-se com desconfiança.

— Tenho algo a dizer — começou Arthur.

— Então diga.

— Fiz o melhor que pude a seu respeito. Não é justo que me acuse do contrário, quando me esforcei para ser um bom pai. Talvez tenha sido severo demais, mas era um menino indisciplinado e precisava de rédeas curtas. Tinha uma família para sustentar e fiz isso do único modo que conhecia. Talvez ache que não passei tempo suficiente com você... —

Arthur fez uma pausa e enfiou as mãos nos bolsos. — Pode ser que sim. Não tenho jeito para essas coisas, e não sei agir como age com seu filho. Mas, verdade seja dita, você também não era uma criança tão agradável como Hugo. Ele é a sua melhor obra. Quem sabe devesse ter dito essas coisas no passado, mas é melhor tarde do que nunca.

Rony nada disse por um longo tempo, tentando recuperar-se do choque que as palavras do pai tinham provoca do em seu íntimo. Por fim, falou, escondendo a emoção:

— Acho que foi o maior discurso que já fez em sua vida.
A expressão de Arthur endureceu.

— Bem, já acabei e vou embora.

— Pai... — Rony apoiou a furadeira a um canto. — Gostei muito de ouvi-lo.

Arthur soltou um suspiro, como se sentisse um profundo alívio.

— Então é bom terminar tudo que tenho a dizer. Quem sabe não devesse ter feito a cena que fiz outro dia, na frente do menino e da... srta. Granger. Sua mãe me passou um sermão.

Rony encarou-o, surpreso.

— Mamãe?

— Sim. — Arthur olhou para o chão, fingindo observar as ripas brilhantes de madeira. — Ela não costuma fazer isso, mas quando faz, parece um anjo vingador. Ainda mal fala comigo. Disse que a envergonhei.

— Hermione também me passou um sermão.

— Não gosto muito de admitir isso, mas a moça tem fibra. Mantém você na linha.

— Faço isso sem a ajuda de ninguém, pai.

Rony balançou a cabeça concordando. Sentia que um peso fora retirado de seus ombros.

— Você é um bom carpinteiro, Rony Weasley.

Pela primeira vez em muitos anos, Rony sorriu com prazer para o pai.

— E você é um ótimo encanador, Arthur Weasley.

— Mas me demitiu.

— Porque me irritou muito.

— Ora, rapaz! Se despedir todo homem que o irrita, como vai manter uma equipe de trabalho? — Mudou de assunto. — E a mão, como vai?

Rony ergueu os dedos e flexionou-os.

— Está bem.

— Então, já que não ficou aleijado, quem sabe possa dar um telefonema. Ligue para sua mãe e diga que esclarecemos um pouco as coisas entre nós dois. Ela não vai acreditar se eu próprio contar, porque nos últimos dias mal olha para mim.

— Farei isso. — Rony fez uma pausa, e disse: — Pai, sei que o desapontei na vida.

— Ora, não foi bem assim.

— É verdade — continuou Rony. — Creio que também desapontei a mim mesmo. Mas tenho certeza de que fui bom para Connie e Hugo. — Tomou fôlego e prosseguiu: — Tentei ser bom marido e bom pai em parte para mostrar a você que valia alguma coisa.

— E mostrou. — Arthur não sabia muito bem como dar o primeiro passo, mas, dessa vez, agiu. Atravessou o quarto, e estendeu a mão. — Tenho orgulho de você.

— Obrigado — murmurou Rony, segurando a mão calejada do pai. — Meu próximo trabalho será reformar uma cozinha. Preciso de um bom encanador. Está interessado?

Os lábios de Arthur curvaram-se em um sorriso.

— Pode ser.


Awn adoro reconciliações!

Me perguntaram porque de eu não fazer minha própria história... Bom eu já tentei mas não tenho muito tempo pra escrever e quando eu tenho minha imaginação não ajuda... Porém leio muitos livros, muitos mesmo a cada dia eu baixo uns 3, e sempre tem aquele que me faz pensar em Rony e Hermione (e eu não sei porque) então é mais fácil eu adaptar do que escrever.

Obrigado pelos comentários eu realmente amo!

O próximo capítulo pretendo postar dia 20 ou 21, e ele será uns dos mais fofos :D