Intrincado - Alguns sentimentos são confusos demais.
Capítulo 11 – Desistir, por Scorpius Hiperion Malfoy
Meu primeiro pensamento foi sobre chocolates. Minha mãe não gostava de chocolates, por isso eu nunca tinha comido antes de ir para Hogwarts. Meu pai era indiferente a doces, ele me dizia que quando criança minha avó Narcisa lhe mandava todos os dias, mas depois da guerra tinha perdido o gosto. Quem me ensinou a comer chocolates foi Albus. Eu me deliciava em ver sua expressão de felicidade, com o rosto todo lambuzado, lambendo os dedos sujos com o doce.
Eu sempre tive vontade de lamber aqueles dedos.
Quando o sol da manhã invadiu meu quarto, meus olhos se fixaram na única coisa que se mexia ali. Eu olhava para a foto em movimento na mesinha ao lado da cama sem nenhuma disposição para me levantar ou simplesmente pensar seriamente sobre qualquer coisa. Minha mente estava em branco. Fazia três dias que eu tinha saído com meu pai da casa dos Potter. Três dias que eu tentava não remoer nenhum sentimento, mas que no fim, deixava a culpa se infiltrar na minha pele, corroendo meus ossos e se instalando em todo o meu ser.
Três dias em que não falava com Albus Severus Potter.
Ele também não tinha tentado entrar em contato de qualquer maneira.
Por esse motivo, eu me mantinha ali, apático para vida. Como se tudo não passasse de um estranho sonho que nunca faz sentido. Porque não fazia sentido por qualquer ângulo que eu olhasse. Meu pai até tentava me fazer sair do quarto, mas ele mesmo, Draco Malfoy, que havia sobrevivido a pressão do próprio Voldemort dentro da sua casa, parecia ter desistido de viver, tão apático quanto eu, andando pela casa como se estivesse sem rumo. Estávamos ambos sem rumo.
O rio tinha chego ao fim e não era o mar, mas sim um lago parado e profundo que nos puxava cada vez mais para o fundo e finalmente tínhamos desistido de lutar para nos mantermos na superfície. Eu quase podia sentir minha respiração falhar enquanto afundava. A luz do sol parecia cada vez mais distante.
Suspirei me encolhendo na cama, mas mesmo minhas cobertas e feitiços não conseguiam me aquecer. O frio fazia parte do meu corpo. Eu achava que não tinha mais lágrimas. Não havia mais calor em nada.
Eu sabia que meu pai também não tinha procurado Harry Potter.
Estávamos todos ferrados.
Um Malfoy não deveria quebrar, mas era assim que eu me sentia.
Onde eu estava com a cabeça ao dormir com Lily Potter? Com Lily e Albus? Juntos? Com minha melhor amiga e o homem que eu amo? Eu sempre amei Albus durante toda a minha vida, eu sempre estive ali para ele, então porque fiz algo tão grotesco? Como me deixei levar pela bebida daquele jeito. Eu mereci cada soco e chute que o James me deu, no fundo, eu deveria ter apanhado bem mais.
Eu merecia todo ódio do mundo.
Eu me igualei a escoria dos meus antepassados.
Talvez um Malfoy nunca deixasse de ser um Malfoy não importando os acontecimentos, não adiantava tentar nadar contra a corrente, em algum momento você vai quebrar a cara e cometer um pecado hediondo. Um crime que você vai carregar na mente por toda a sua vida. Não importa quantos banhos você tome ou feitiços de limpeza você use, a sujeira não sai da sua pele, está ali, colada, grudada, presa, para sempre.
Meu pai cometeu seu erro.
Eu cometi meu erro.
Independente do toda a minha dor e sofrimento, no dia seguinte eu terei que me levantar, vestir meu impecável uniforme da Sonserina, com o orgulho que somente um sonserino de verdade pode possuir, e seguir adiante. De preferência de cabeça erguida. Engolindo a vergonha, o medo e a dor. Porque isso é para os fracos, e eu sou um Malfoy e este é meu último ano em Hogwarts. Eu sou monitor e responsável. Monitor Chefe. Eu me sinto tão ferrado, porque não vai ter jeito de encarar Lily e Albus nos olhos, eu não vou conseguir encará-los não importa o que aconteça, será demais para mim e eu não posso quebrar na escola, não posso quebrar no meio da sonserina ou serei engolido vivo, mas nada disso importa porque eu sei que eles me odeiam, a reação apática de Albus no dia seguinte dizia isso. Eu acabei com qualquer coisa de ele pudesse começar a sentir por mim.
Eu sou tão estúpido! Entreguei Albus bandeja para o James. Como se ele já não pertencesse ao James desde o principio. Eu só liquidei com qualquer chance que pudesse a vir ter ao lado dele.
Sempre soube que Albus nunca seria realmente meu. Eu sempre o dividiria com o mundo, mas eu queria estar ali do lado para vê-lo brilhar de perto, para poder segurar sua mão quente e macia quando fosse requisitado, para lhe falar palavras de encorajamento quando necessário, para ser seu melhor amigo ou qualquer coisa que ele desejasse. Bastava Albus pedir que eu conseguiria para ele. Eu lhe daria as estrelas se assim ele desejasse.
Eu perdi tudo.
Perdi o que poderia existir e o que eu tinha construído até ali.
Perdi meu irmão, meu amigo e meu amor.
Lágrimas.
Um Malfoy não deveria chorar.
Um Malfoy não deveria sentir seu coração se rasgar em mil pedaços.
Um Malfoy não deveria se lamentar dessa maneira.
Um Malfoy não deveria sentir.
Hoje entendo o que meu avô queria dizer com não ter coração. Em algum momento você descobre que é mais fácil não ter um coração batendo no peito, porque isso o tornará fraco e patético. Eu me sinto tão miserável agora e o pior sentimento que um Malfoy pode ter é pena de si mesmo.
Meu pai nunca desistiu do seu coração e infelizmente tenho que admitir que ele é patético em alguns momentos. Quando suspira ao ouvir a voz do tio Harry ou quando sorri como um bobo ao voltar da casa dos Potter. Porque esse tipo de coisas pequenas deixa falhas onde o inimigo pode atacar, onde você pode ser ferido, é a rachadura no escudo perfeito.
Harry Potter é o ponto fraco do meu pai.
Albus Severus Potter é o meu ponto fraco.
Pergunto-me se não teria sido mais fácil se aquele imbecil do Lorde das Trevas não tivesse matado Harry Potter quando criança e assim, exterminado para sempre essa família da nossa vida.
Talvez eu devesse jogar meu coração fora, mas meu pai diz que nem mesmo meu avô teve coragem para tanto, afinal, no fim, ele e vovó tinham corrido na batalha para salvar seu único e precioso filho. Aquilo era prova de um coração, não era? Talvez vovô se arrependa de ter salvado a vida desse único filho para vê-lo suspirar pelo salvador do Mundo Mágico e ter deixado mamãe partir.
Mas nada disso importa, ou importa tanto que eu não quero me deixar levar. Preciso concentrar meus esforços em seguir adiante. Em me manter em pé. É tão difícil fingir ser frio e indiferente enquanto meu coração está sangrando. Dói tanto. Às vezes meu coração parece que irá parar de bater a qualquer instante. Desistir de tudo. Simplesmente desistir. Seria tão mais simples se existisse uma feitiço que apagasse toda essa dor.
Eu não teria coragem de lançar um feitiço de memória em mim mesmo e nem seria louco de pedir para o Zabini fazer isso, do jeito que ele é, provavelmente, eu esqueceria até mesmo do meu nome. Não, obrigado. Prefiro saber exatamente tudo pelo qual passei, mesmo que me faça sofrer.
- Scorpius? – ouço meu pai me chamar no batente da porta, mas não tenho disposição para responder.
Os passos lentos dele se aproximam, mas eu não me mexo, encolhido debaixo das cobertas pesadas, pela fresta tudo o que eu vejo é o retrato do Albus, sorrindo daquele jeitinho tímido e sem graça, com os olhos verdes brilhando ao sol. A imagem perfeita de um amor que destrocei. Ele parecia tão puro naquela foto, tão ingênuo, tão delicado...
- Filho... – começou novamente meu pai sentando na cama ao meu lado – Amanhã você vai para Hogwarts e eu vou para França.
Meu pai sempre sabe como conseguir minha atenção, por isso me virei para olhar naqueles olhos cinzentos tão parecidos com os meus.
- França? – indaguei curioso.
- Eu estou deixando Londres definitivamente Scorpius.
O choque passou rapidamente pelos meus olhos, pelo visto, eu não era o único que estava desistindo ali.
