"Curioso sentimento o que nos leva a destruir o objeto de nossa paixão! Mas não devemos nos extasiar perante o fato. É preferível deplorá-lo". (Leon Rabinowicz)
Edward POV.
Dois dias se passaram desde o meu ataque de fúria. Eu me arrependi das minhas palavras assim que eu as proferi, mesmo elas sendo a exteriorização de tudo o que estava sentindo naquele momento, eu fui verdadeiro, mas além de ter que ver a Bella indo embora extremamente chateada, eu ainda tive que aguentar um pedido de desculpas da minha mãe! Esse era um preço muito alto para afirmações sinceras.
Eu sempre me orgulhei de ter a inteligência acima dos padrões brasileiros. Nunca fui um moleque e nem tive a famosa rebeldia adolescente. Minha mente sempre esteve à frente disso tudo. Por essa razão eu não seria aquele homem que fica paraplégico e se isola do mundo, ou se sente tão inferior que numa atitude extremamente altruísta – e burra – pede para o amor da sua vida te deixar e ir ser feliz com outro... Essas pessoas deveriam se tratar com um psicólogo (eu). Auto depreciação tinha limites! Eu não podia negar que na minha atual situação eu não me achava mais o homem certo para a Bella e se ela decidisse terminar comigo eu realmente não a culparia.
Eu estava reagindo bem aos antibióticos e os machucados causados pelos drenos e os pontos da cirurgia estavam praticamente cicatrizados. O Jasper me aconselhou a me adaptar as barras para deficientes primeiro antes de tirar a sonda da urina, ou poderia acontecer de eu sentir vontade de urinar e não ter ninguém por perto para me levar ao banheiro, sem contar que seria mais vexatório ainda chamar alguém a cada meia hora para me ajudar. Por isso, sozinho no meu quarto, eu me esforçava para erguer o meu corpo com a ajuda dos braços por entre as barras e estava satisfeito de conseguir sair da cadeira e deitar na cama sem precisar de ajuda.
Verifiquei todos os meus exames. Olhei atentamente o raio-X da minha coluna e sorri ao constatar que o Jasper não tinha mentido para mim ao me dizer que a minha condição não era permanente. Desta forma, a fisioterapia se tornou a minha prioridade. Decidi ligar para o Emmett, mas não tinha o número do telefone dele, então eu decidi sair de casa pela primeira vez desde o acidente e fazer tudo o que eu tinha para fazer na rua de uma só vez. Eu iria à delegacia assinar o meu afastamento, depois iria ao instituto ver a Bella e também veria a Alice, que me daria o número do celular do seu irmão. Liguei na operadora de taxi e informei que era deficiente e que o taxista tinha que ser alguém que aguentasse me ajudar a entrar no carro!
Entrar na delegacia foi nostálgico, eu tive a impressão que se passaram anos desde a última vez. O delegado me informou que a Tânia tinha pedido transferência logo após o meu acidente. Pra alguma coisa essa bala nas costas me serviu! Eu vi a minha sala iluminada pela luz solar que entrava por entre a janela aberta.
- Já tenho um substituto? – Questionei o delegado.
- Não um substituto, você é aquele tipo de cara que não pode ser substituído. É mais um "tapa buraco". – Ele me respondeu dando de ombros - Mesmo se você não se recuperar eu quero muito que você volte para a delegacia e trabalhe conosco no setor de inteligência.
Eu sorri com o convite, mas tinha outros planos.
- Agradeço imensamente o seu convite, mas se tudo der errado, eu vou exercer a profissão de psicólogo.
Ele me olhou com cautela por alguns segundos e depois me sorriu de volta.
- Tenho certeza que obterá sucesso... Como tudo que você faz! – Ele disse exagerando na rasgação de seda. Tenho certeza que ele apenas falou comigo daquela forma porque eu estava em uma cadeira de rodas, pois quando eu estava em pé ao seu lado trabalhando por nós dois ele nunca me elogiou!
Quando eu cheguei ao Instituto eu não pude deixar de me lembrar de todas as vezes que eu passei com a Bella por aquela porta de entrada, saber que por um tempo indeterminado isso não aconteceria novamente me trazia uma tristeza profunda. Empurrei as rodas da minha cadeira com as mãos até o corredor que me levaria a sala dela, assim que eu comecei a passar pelo corredor eu pude ouvir a risada inigualável da minha Bella. Era uma gargalhada, alta e ruidosa. Me senti feliz com aquele som, apesar de ter uma vozinha na minha cabeça martelando que se nós estávamos brigados e eu estava paraplégico qual seria o motivo de tanta felicidade? Conforme eu me aproximava da sua porta a sua gargalhada foi se tornando uma risada mais tímida e então eu ouvi uma voz masculina.
- Você é perfeita... Tudo em você combina sabe. Seus cabelos são da cor dos seus olhos e sua pele é muito macia e branquinha. E quando você cora desse jeito fica ainda mais linda!
Meu coração gelou e eu permaneci imóvel em frente a porta fechada da sua sala.
- Assim você me deixa sem graça, Mike. – A ouvi dizer com uma voz suave.
Agora para tudo! Porque a minha Bella não iria responder um homem daquela maneira. Ela iria chutar o meio da perna dele ou apontar a sua arma para a cara daquele imbecil. Mas não, ela foi gentil e gostou do elogio. A minha mente gritava para que eu entrasse naquela sala e agarrasse quem quer que fosse pelo colarinho, foi então que eu me olhei e me vi impotente em cima de uma cadeira. Minha autoconfiança se jogou do penhasco suicidando-se.
- Imagina, Bella, se vamos trabalhar juntos você não pode ter vergonha de mim. Somos parceiros agora.
Trabalhar? Esse filho da puta era o meu substituto?
Eu não aguentei ouvir mais nada, levei minha mão até a maçaneta da porta e a abri num rompante antes que a Bella o respondesse. Quando ela me viu fez um semblante extremamente assustado, o que só aumentou a dor exorbitante que lacerava o meu peito. Tudo a minha volta perdeu o sentido, era como se os móveis, as paredes e todo o resto estivessem em preto e branco e apenas a Bella e aquele homem estivessem com cor. Ela colocou a droga do seu grande copo de café que eu já havia falado milhões de vezes que fazia mal em cima da mesa e me encarou com as pupilas levemente dilatadas e o rapaz me deu um sorriso mostrando 24 dentes perfeitamente brancos. Eu estava sendo irracional, mas a inegável beleza daquele galanteador pegou o resto da minha autoestima e a jogou no chão, para pisar em cima e depois sapatear.
- Atrapalho? – Perguntei tentando conter a ira na minha voz.
- Óbvio que não, Edward. – Ela disse tentando aparentar frieza. – Este aqui é o Mike Newton. Ele ficará no seu lugar enquanto você se recupera.
No meu lugar... Com certeza!
- Prazer, Newton. – Eu disse sem conseguir conter a aspereza em minha voz. Ele se encolheu minimamente quando minhas palavras foram proferidas.
- Sou um grande admirador do seu trabalho, Sr. Cullen. – Ele disse passando as mãos suadas pelas calças do uniforme da polícia que eu sabia o quanto a Bella gostava. – Agora preciso ir. Te vejo amanhã, Bella! – Ele disse virando-se para ela e o fato dele ter a chamado pelo primeiro nome me aborreceu profundamente.
- Você já o conhecia? – A questionei irritado assim que o Newton deixou a sala.
- Na verdade, sim. Estudei com ele da quinta a oitava série do ensino médio. Isso foi uma incrível coincidência!
- Incrível para você!
- Não entendi, Edward! O que está havendo afinal? – Ela me perguntou encostando-se na sua mesa enquanto cruzava os braços no peito.
Eu podia simplesmente dizer para ela que estava morrendo de ciúmes. Mas para mim seria extremamente frustrante. Eu estudei esse sentimento por anos, era a minha matéria preferida na faculdade, "o sentimento que causava uma reação complexa a uma ameaça perceptível a uma relação valiosa ou à sua qualidade!" – No meu caso essa ameaça perceptível era o Newton e seus galanteios. Eu não queria a Bella andando no mesmo carro com ele... Nem conversando com ele, porque o meu relacionamento com ela estava se tornando uma bomba relógio, ele acabaria no momento que ela percebesse que podia levar uma vida muito melhor sem mim, e eu não estava preparado para que ela me deixasse. Era tudo tão ridículo, porque ao mesmo tempo em que eu pensava essas coisas o meu subconsciente ia me enquadrando clinicamente doente, tratando o ciúme como uma doença que atinge as pessoas com falta de confiança em si próprio.
- A green-eyed monster.¹ – Eu sussurrei incoerentemente.
- Não entendi. – Ela disse caminhando na minha direção. Ela se agachou ao meu lado apoiando suas mãos no encosto da minha cadeira.
- Shakespeare. – Disse envergonhado por me sentir tão dominado por uma banalidade como o ciúme.
- Otelo? – Ela disse levantando uma sobrancelha para mim. – Está com ciúmes de mim, Edward? Mas... Mas você não tem motivos para isso!
EU SABIA QUE NÃO! Mas meu cérebro estava me traindo, eu não era mais o mesmo, minha vida não era mais a mesma e é óbvio que meu relacionamento com a Bella não era o mesmo também.
- Eu sei, Bella. Mas é que uma hora ou outra você vai acabar percebendo que eu não sou a sua melhor opção. Vai chegar um momento que você irá desejar algo que eu não posso te dar...
- Como o que? – Ela me desafiou.
- Um movimento de quadril. – Disse prontamente, porque a minha masculinidade estava ferida. Assim como uma mulher deixa de se sentir mulher quando arranca um seio, eu estava me sentindo menos homem sentado naquela cadeira. O sentimento do começo do meu relacionamento com a Bella de que eu não tinha nada de bom para oferecer a ela me engolfou com toda a força novamente.
- Você está reduzindo o amor que eu sinto por você a isso? – Ele me questionou chateada.
- Não só isso! Você me pediu um exemplo.
- Eu não estou te reconhecendo... – Ela disse se levantando.
- E nem eu. – Disse de forma verdadeira. – E eu não quero fazer de você a minha Desdêmona.¹ A minha insegurança está te magoando e isso é tudo o que eu não quero.
- Você não está me magoando, Edward... Talvez um pouco. É que quando você sente ciúmes do Mike é como se acreditasse que eu te trairia, entende?
Então pare de chamá-lo de Mike na minha frente...
- O problema não é o Newton. – Enfatizei o nome dele propositalmente. – Sou eu. Eu preciso de um tempo para me aceitar...
Vi o seu semblante mudar drasticamente.
- Você está terminando comigo? – Ela perguntou caminhando novamente até mim, agachando-se ao meu lado.
- Não, Bella. Eu só preciso de um tempo. - A respondi e realmente não sei como chegamos aquilo. Eu tinha saído de casa para vê-la e pedir desculpas por ter sido tão mal educado há duas noites e agora estava a afastando ainda mais.
- Faça o que você achar melhor. – Ela respondeu me surpreendendo - Mas saiba que eu jamais vou desistir de você. – Ela disse conforme arqueava o seu corpo para frente e investia contra os meus lábios. Seus lábios quentes e molhados se pressionaram ferozmente contra os meus e suas mãos voaram até a minha nuca, fechei meus olhos não resistindo a combinação de sabor adocicado mais perfume de morangos e levei minha mãos até os seus cabelos, perdendo meus dedos por entre os fios. Aquilo seria suficiente para me deixar duro, mas meu membro não se manifestou. Senti sua língua me pedindo passagem e abri a minha boca apenas para que seu hálito suave me invadisse. Aquele foi um beijo diferente de todos os beijos que nós já havíamos trocado. Ela me beijou com uma quantidade demasiada de amor. Eu sentia o amor dela a cada suspiro, a cada estalar dos nossos lábios, a cada investida da língua dela na minha.
- Eu amo você. – Ela disse em meus lábios. – E vou esperar o tempo necessário para que você se sinta confiante novamente.
Eu descolei nossos lábios e a encarei.
- Eu não sei se vou voltar a andar, ou se vou voltar a ser o mesmo Edward... Minha vida perdeu quase todas as certezas, só restou uma: - O amor imensurável e irracional que eu sinto por você.
- Posso te ligar? – Ela me pediu com olhos aflitos.
- A qualquer hora. – Eu respondi sorrindo. – Por falar em ligar, você tem o telefone do Emmett?
- Sim. – Ela imediatamente correu até a sua mesa e escreveu o número num papel que ela me entregou dobrado. Eu sorri e empurrei minha cadeira até a porta, abrindo-a em seguida, prendendo a porta aberta com a roda para conseguir sair. Eu não olhei para trás.
O monstro de olhos verdes adormeceu dentro de mim. Por enquanto
Bella POV.
Trinta dias longe do Edward. Quinta noite insone seguida. Eu não conseguia compreender como uma televisão contendo mais de 120 canais não tinha nada de interessante para prender a minha atenção e desviar os meus pensamentos do Edward. Eu não queria pensar na falta que a presença dele me causava, era doloroso e me levava cada dia mais perto de me tornar a Bella que eu era antes de conhecê-lo.
A vida deveria ter alguma lei que nos proibisse de regredir. Assim como não se pode registrar um funcionário com um salário inferior ao do seu antigo emprego, também não poderíamos voltar a sentir solidão depois de conhecer os benefícios de ter alguém ao seu lado. Não era justo. Quem comeu arroz e feijão a vida inteira não sente falta de lagosta e caviar, pior, se for posto à prova, o seu paladar que não foi treinado para sentir aquele gosto, vai achar ruim. Mas quem desde pequeno só comeu Kobe Beef e depois for obrigado a comer arroz e feijão, apenas para manter-se vivo, certamente sonhará com o preparo do bife mais caro do mundo, onde as gorduras infiltradas entre as fibras musculares acabaram derretendo tornando-o extremamente suculento. Assim era eu, nunca sonhei em ter um Edward, por isso não sentia falta, mas depois que ele passou na minha vida eu sonhava acordada com ele por todas as minhas noites em claro.
Ele queria um tempo para se adaptar e eu lhe dei, assim como eu lhe daria os movimentos das minhas pernas se fosse possível. Óbvio que eu não compreendia essa história de "tempo" e em outra circunstância eu jamais teria aceitado, mas eu simplesmente não queria ir contra ele. Eu estava fazendo o possível para tornar tudo mais fácil, e se o nosso relacionamento estava lhe trazendo ainda mais problemas, eu não podia lhe impor isso.
Olhei no relógio digital do meu Home Theather e constatei ser 03:00H da manhã. Se o Edward estivesse aqui eu fatalmente estaria em um sono pesado. Sentei no sofá e cogitei as hipóteses de subir até o meu quarto e pegar um livro ou ir até a cozinha fazer um suco. Neste momento, meu celular tocou. Eu não sabia onde ele estava, então eu me levantei e puxei a coberta do sofá, depois joguei o travesseiro no chão e o avistei. Com o coração acelerado eu peguei o celular e olhei no visor. Não era o Edward! Era um número restrito.
- Alô. – Atendi de má vontade.
- Oi, paixão. Deseja companhia? – A voz do Jacob do outro lado da linha fez a minha bile subir até a garganta.
- Onde você está? – Foi tudo o que eu consegui perguntar.
- Não posso dizer agora, mas logo estaremos juntos. – Ele me respondeu antes de desligar.
Instintivamente eu corri até a porta da sala e verifiquei se ela estava trancada, depois atravessei a minha casa correndo e fui até a porta da cozinha e passei os trincos de segurança. Meu coração estava acelerado e minhas mãos tremiam de pânico. Subi as escadas correndo e assim que cheguei ao meu quarto tirei o meu pijama. Coloquei uma calça jeans e uma blusa preta de tecido fino, mas de manga longa, depois peguei a minha arma e a empunhei. Se ele entrasse na minha casa eu estouraria os seus miolos.
Fiquei na expectativa até as 06:00H. Eu pulava do sofá a cada mínimo barulho que eu ouvia. Pensei em ligar para o Edward, mas não queria perturbá-lo. Depois pensei em ligar para a Alice, mas também não queria lhe causar problemas. A minha arma era a minha melhor amiga naquela madrugada.
Assim que amanheceu, eu sai de casa e fui para o Instituto, eu iria ligar para o delegado e contar o que aconteceu, mas estava receosa que ele enviasse policiais de guarda para a minha casa. Eu definitivamente não queria escolta.
Assim que cheguei ao Instituto fui logo pegando o meu café, sem ele eu não conseguiria me manter acordada, já se faziam 6 dias e 5 noites que eu não dormia, nem por uma hora. Eu sabia que a minha insônia era secundária, ou seja, ela era apenas o reflexo de outra doença, que por mais que eu fugisse eu sabia que estava lá. A depressão. Após a morte dos meus pais eu entrei em uma depressão profunda e somente após conhecer o Edward que eu comecei a melhorar, mas ele não era a minha cura, eu precisava tomar medicação para realmente me curar.
Certa vez fui a um psiquiatra – única vez. – E ele me disse que não entendia porque não se via pessoas com câncer dizendo que ia esperar para ver se a doença sumia, enquanto quem tinha depressão vivia dizendo isso. Eu achei a analogia desnecessária, mas hoje, sentindo a depressão voltando eu o entendia perfeitamente. Eu também sabia que o excesso de cafeína me impedia de ter uma noite de sono, mas uma coisa levava a outra, eu precisava do café para me manter acordada durante o dia e ele me mantinha acordada durante a noite!
Antes que eu pudesse ligar para o delegado o meu celular tocou e eu senti um grande alivio ao verificar no visor que era o Mike ao telefone.
- Oi. – Atendi grosseiramente.
- Linda! – Ele me chamou pelo meu apelido do colégio e eu tive vontade de matá-lo.
- Meu nome é Bella!
- Bella não lhe faz jus. – Ele disse somente. – Temos um caso, não é demais?
Sim, era demais para mim.
- O que houve? – Perguntei tentando não demonstrar o tédio pela minha voz.
- O teto de um apartamento simplesmente desabou em cima do apartamento de baixo. Seria caso de danos morais e materiais na esfera civil se um dos entulhos não fosse um corpo em decomposição.
- Nossa! – Tentei imaginar a cena.
- Estou a caminho. – Ele disse e desligou. Respirei profundamente e tentei encontrar um ânimo para trabalhar.
Esperava pelo Mike na recepção quando para a minha surpresa o Emmett passou correndo pela porta de vidro de entrada. Ele era basicamente a minha única ligação com o Edward. Eu não me sentia confortável perguntando do Edward todos os dias para o Carlisle em nosso ambiente de trabalho, tão pouco fui à casa dos Cullen. Nesse mês, eu liguei duas vezes para o Edward e foram as duas piores noites desde que ele me pediu um tempo. Na primeira vez que eu liguei ele chorou, e eu quase implorei para ir à casa dele, mas me contive. Na segunda eu estava com tanta saudade que não consegui dizer nada, foi a minha vez de chorar. Ele ficou uns cinco minutos me escutando soluçar ao telefone.
- Oi, Bella! – Emmett disse sorridente. – O que houve com você? Foi atropelada por um caminhão de lixo?
- Estou tão mal assim?
- Não. Apenas parece que você caiu de um prédio de vinte andares com a cara no chão!
- Veio ver a Alice? – O questionei fingindo indiferença a sua última colocação.
- Na verdade não! Vim ver a minha amiga zumbi e lhe contar que o seu quase namorado sentiu os dedos dos pés formigando ontem.
Eu não sei o que deu em mim, ou que tipo de reação foi aquela, mas eu pulei no pescoço do Emmett empregando toda a minha força no movimento. – Não brinca – Eu disse eufórica.
- Eu jamais brincaria com isso, Bella. – Ele disse sério abraçando-me. – Eu sabia que ele não iria te contar... Ele tem receio de dar falsas esperanças, mas porra, é o meu trabalho que está dando certo e eu estou muito orgulhoso comigo mesmo.
- E eu também, Em. Continue dando tudo de si, entendeu! – Eu disse sentindo o meu coração inflar dentro do peito.
- Com certeza. Agora me diz o que houve com você essa noite. Eu te conheço Bella e sei que há algo errado.
Eu me afastei do seu corpo grande e o encarei. O Emmett era um mutante, eu tinha certeza que seus genes haviam sofrido uma mutação, não era possível um homem grande e forte como aquele ter olhos tão infantis e cativantes.
- O Jacob me ligou... E disse que em breve estaremos juntos. – Eu disse a verdade.
Vi quando o Emmett perdeu a cor e cerrou o punho travando a mandíbula em uma linha fina.
- Ele que tente se aproximar de você... – Ele ameaçou numa voz rude.
- Vou falar com o delegado, não se preocupe! E não conte nada ao Edward. Ele não precisa de mais preocupações.
O Emmett assentiu, mas eu não senti confiança que ele realmente não contaria.
O Mike cruzou com o Emmett na porta de entrada. Ele se esforçava para andar de forma máscula, mas fracassava.
- Quem é o Deus grego? – Ele perguntou com olhos esbugalhados fazendo-me sorrir de forma verdadeira após longos dias de pura tristeza.
- Um amigo. Mas não se iluda. – respondi pegando a minha bolsa.
O Mike tinha uma BMW M power na cor branca, mas dirigia mais devagar do que eu. Eu tentava não fazer comparações, mas meu cérebro cansou de pensar que se eu estivesse dentro do Volvo já teria chegado ao local do crime há muito tempo. Quando o Mike finalmente estacionou o seu carro em frente um prédio residencial, eu agradeci internamente, andar de forma vagarosa estava me enjoando.
Subimos até o apartamento 324 onde para a minha surpresa eu encontrei a Alice.
- Nossa! Vocês demoraram! – Ela me acusou assim que me viu.
- Quem guarda esse monte de lixo? – Mike disse ao meu lado enquanto entrávamos no apartamento que havia cedido o piso. O local era inabitável e havia tanto papelão, plástico e tralhas em geral que eu me assustei. Era óbvio que tanto peso assim uma hora cederia.
– Uau! Nossa! – Mike deu gritos histéricos e eu me virei abruptamente para o encarar. – Disco dos Menudos dos anos 80! – ele disse pegando um disco velho nas mãos. Rolei os olhos.
- Dá para ser menos gay? – Sussurrei no seu ouvido e ele sorriu sem graça.
- Isso é clássico! – ele disse caminhando ao meu lado até que finalmente encontramos os restos mortais da vítima. Olhei furtivamente para os ossos e peguei o meu pequeno gravador, eu precisava gravar cada palavra que dissesse, pois como não estava dormindo a probabilidade de esquecer tudo em minutos era grande.
Avistei os restos mortais da vítima e os olhei rapidamente.
- O corpo não caiu no andar de baixo? – Questionei enquanto olhava o grande buraco no chão do piso que estava pisando.
- Sim, mas trouxemos de volta para ver se a moradora parava de gritar. – Um policial desconhecido me respondeu.
- A vítima é um homem em seus 40 anos. – Disse.
- É isso? – Mike disse cético ao meu lado. – Isso é tudo o que tem? Quero dizer, ouvi dizer muito do seu trabalho. Já ouvi dizer que você faz uma lista de especificações com apenas uma olhada nos ossos...
- Estou cansada, triste e distraída, então não me encha a paciência!
- Ah! Me valorize, Bella. Este é o nosso primeiro caso, temos que arrazar! – Ele disse e eu desejei que o Edward estivesse ali para ver como o seu ciúme do Mike era sem fundamento.
Liguei meu gravador e recomecei.
- Há lesões aparentes perimortem para os ossos temporal e parietal e a sutura esquamosal.
- A cabeça está amassada! – Mike disse apontando o seu dedo indicador na direção do crânio fazendo-me rolar os olhos novamente.
- Sim, vamos ver se o que atingiu o crânio está por aqui! – O respondi desligando o gravador.
- O disco fica comigo. – Ele disse colocando o disco em baixo do braço.
Caminhamos por entre o lixo para o outro cômodo da casa de forma lenta. Não havia espaço para andarmos.
- Como vamos encontrar qualquer prova pertinente em meio a toda essa porcaria? – Ouvi a Alice dizer com sua voz estridente em algum cômodo da casa. Imediatamente eu me lembrei do Edward e do sorriso enorme que ele daria com o ataque da Alice.
- Toda essa porcaria é evidência Alice! – Gritei para que ela me ouvisse. Segundos depois a escutei bufando e dizendo algo como: Uma vez Bella, sempre Bella!
- AHHH. JESUS TENHA MISERICÓRDIA! – Mike gritou ao meu lado e segurou firme no meu braço enquanto sapateava.
- O que houve? – O questionei. Todos que trabalhavam dentro do apartamento pararam e se viraram para ele.
- Uma barata subiu na minha perna. – Ele disse com a voz enojada.
Todos bufaram e depois deram risada.
- Se tranca, Mike. Por favor! – Disse sorrindo.
- Quem poderia viver nesse fedor? – Alice disse caminhando em minha direção com o dedo indicador e o polegar tampando suas narinas.
- O sentido do olfato é destruído depois de algum tempo. Deve ser um mecanismo de sobrevivência – Disse olhando atentamente para todo aquele lixo.
Mike se afastou de mim e foi vasculhar indícios. Eu não havia notado o cheiro ruim até que a Alice mencionou este fato, o odor era realmente desagradável e estava embrulhando o meu estômago.
- Hey, Linda! Venha até aqui. – Mike gritou e eu desejei bater na cara dele com as minhas mãos por me chamar de "Linda" no meio de tantas pessoas.
- Encontrou mais restos? – O questionei assim que cheguei mais perto.
- Não exatamente. – ele me respondeu. – Eu, entretanto, encontrei 36 máquinas de churros. Embora nenhum recheio. Nem doce de leite, muito menos chocolate. Então, qual é o objetivo?
- Como? – Questionei confusa.
- Esqueça. – Ele disse rolando os olhos para mim. – Observe. – ele disse acendendo a sua lanterna e jogando uma forte luz azul que causa contraste no chão. Foi por isso que te chamei.
Havia uma grande mancha de sangue no chão.
-Estou achando que a causa da morte pode ter algo a ver com essa perda de sangue. – Disse ironicamente o encarando enquanto ele assentia.
Edward POV.
- Porra, Edward. Se esforça, cacete! De nada vai adiantar você ficar ai chorando feito uma mulherzinha. – O Emmett me disse quando eu simplesmente desisti dos exercícios devido à dor exorbitante que sentia. Eu estava deitado em uma maca específica que meu pai havia me comprado e colocado no meu quarto. Ele foi contra no começo, quando eu disse que faria uma reabilitação domiciliar e com o Emmett, ele queria me mandar para uma clinica de reabilitação, mas eu fui categórico.
- Está doendo. – Foi tudo que eu respondi. Eu estava suando muito, tanto quanto se eu estivesse jogando uma partida de futebol e, no entanto, o único esforço que estava tendo era o de tentar subir o meu pé em uma marca riscada na parede. O Emmett apoiava o meu pé na primeira marca e eu ia o subindo pela parede até alcançar a outra marca. Mas, naquele dia, era uma marca nova, muito acima do que a última, era praticamente impossível.
- É mesmo? Oh! "psicologozinho" de merda! Já ouviu esta frase: - Sem esforço não há recompensa?
Rolei os olhos mentalmente. Óbvio que eu já tinha ouvida aquela bendita frase. Respirei profundamente e busquei na minha mente a imagem da Bella. Nos meus piores dias eu sempre buscava a imagem dela, eu estava praticamente definhando de saudade, mas eu não queria estragar o amor que tínhamos construído com a minha insegurança.
Eu havia conseguido progressos relevantes. Refiz alguns exames e constatei que a lesão na minha medula estava quase zero. A bala não chegou a causar uma lesão completa, ela se alojou ao lado da medula causando apenas uma compressão fazendo com que eu perdesse os movimentos. Eu dei sorte do Jacob ser ruim pra caramba de mira e ter atirado a uma distância razoável. Mas agora, após um mês, tudo o que me impedia de andar era a minha mente.
Eu não tenho palavras para descrever o que eu senti quando ouvi esse diagnóstico. O meu caso era raro, e até os médicos se assustaram com a eficiência do meu tratamento e a rapidez da minha recuperação. Óbvio que o fato de eu ter dinheiro para comprar os melhores remédios do mercado me ajudou, mas o Emmett era um fisioterapeuta excelente e não me deixava desistir. Ele ficava o dia inteiro em casa e eu tinha poucas horas de descanso. Ele só me deixava descansar quando atingíamos "a meta do dia". Em dias alternados ele me levava para a clínica de reabilitação para usarmos aparelhos mais complexos.
Agora eu sentia meus pés. E sentia o toque na minha perna. Era para eu me sentir extremamente feliz e confiante novamente, mas havia uma coisa que eu não conseguia e isso estava me impedindo de ligar para a Bella. Após quinze dias com uma sonda urinária, finalmente o Jasper a removeu e confesso que doeu muito. Achei que sem a sonda eu voltaria a ter ereções, mas nem imaginando a Bella completamente nua eu conseguia ficar duro. Aquela situação era frustrante. Eu não podia imaginar a Bella me beijando e levando suas mãos até o meu membro inerte. Eu preferiria a morte! A minha impotência estava me frustrando e me impedia de ser persistente na fisioterapia.
Encarei o Emmett e franzi o cenho. Eu queria lhe responder de maneira rude, mas da última vez que eu lhe respondi de forma grossa ele me respondeu que quem tinha medo de grossura era cu. Esse era o Emmett!
- Vou tentar outra vez. – Disse tirando um sorriso enorme dos lábios dele.
O Emmett pegou os meus pés e os apoiou na parede, na primeira linha riscada. Fechei meus olhos e respirei profundamente tentando trazer aos meus pensamentos o perfume inebriante da Bella. Lentamente eu fui erguendo os pés, eu segurava firme ao lado da maca e a dor era exorbitante. Senti as gotas de suor se formando na minha testa, meu coração acelerou como se eu estivesse em uma corrida, mas eu persisti.
- Eita porra! Era disso que eu estava falando! – Escutei o Emmett exclamar e tive a certeza que havia alcançado aquela bendita marca! Abri os olhos e vi os meus pés bem acima da marca que o Emmett havia desenhado na parede, então eu me ouvi sorrindo alto, coisa que eu não fazia há dias! Naquele momento eu senti uma necessidade absurda de conversar com a Bella, eu desejava tocar o seu rosto, eu precisava sentir os seus lábios nos meus.
- Emmett! – Disse com a voz vibrando um pouco pelo constrangimento.
- Fala. – Ele me respondeu cruzando seus enormes braços no peito.
- É que... Bem... Você já ouviu falar, ou sabe de alguma ligação entre fraturas na coluna e a perda da capacidade de ereção? – Céus, meu rosto estava queimando de vergonha.
O Emmett dobrou os lábios para baixo e ficou pensativo, depois silenciosamente foi até os meus pés e começou a baixa-los.
- Na verdade, sim. Tudo está ligado cara. – Ele disse naturalmente. – Mas... Você ainda tem sensibilidade?
- Sim! Eu sinto ele. – Respondi me sentindo ridículo. – Mas, ele não responde aos meus comandos.
Emmett sorriu de canto e balançou a cabeça.
- Não me leve a mal ok. Mas, já fez o teste com a Bella?
- Não. Não quero fazer teste com ela, porque se eu não conseguir a vergonha será muito grande.
- Achei que ela fosse sua companheira, sua amiga acima de tudo. Pelo menos é assim que ela se vê.
Droga! Aquilo era jogo baixo.
- Estou sendo um estúpido, eu sei...
- Está tudo na sua cabeça Edward! Os estímulos sempre partem do cérebro, descem pela medula e chegam através de nervos até os órgãos genitais. Quanto é dois mais dois?
- Mais que porra de pergunta é essa? – Perguntei franzindo o cenho.
- Responda! – Ele ordenou sorrindo como sempre fazia quando me ouvia perder a linha e dizer um palavrão.
- São quatro! – Respondi.
- Seu cérebro está ótimo, sua medula também e eu não quero ter que ver seus órgãos genitais para afirmar que esse seu pau só não sobe porque você não quer!
- Como te passaram na faculdade com este linguajar? – Eu disse para ele em meio a uma gargalhada. O Emmett era o homem com o maior nível de testosterona que eu já havia encontrado na vida!
- Eu não tive prova oral! – Ele me respondeu levantando os ombros.
Ele me ajudou a sentar na maca, depois eu mesmo com a ajuda das barras sentei na cadeira de rodas ajeitando os meus pés no apoio.
- Há uma praça próxima a casa da Bella. O que acha de irmos lá mais tarde? – Disse demonstrando indiferença, mas meu coração não cabia dentro do peito.
- Acho uma ótima ideia! – Ele me respondeu com o seu jeito infantil.
Nós lanchamos e às 19:00H fomos até a praça que ficava na esquina com a casa da Bella. Estava uma noite muito agradável e eu não fiquei constrangido com os olhares que as pessoas me lançavam conforme me viam passar com um brutamontes empurrando a minha cadeira. Paramos na praça o mais próximo possível da casa da Bella e eu fiquei na expectativa para a chegada dela, pedindo a Deus que ela não fizesse plantão naquela noite. Eu e o Emmett começamos a conversar assuntos corriqueiros e eu ria muito com as coisas que ele falava quando passava uma mulher bonita e com o corpo avantajado perto de nós.
Eu olhava para a fachada da casa da Bella a cada segundo, até que eu vi um BMW branco e reluzente parando na entrada da sua casa, e então, o meu pior pesadelo se tornou realidade quando o Mike Newton saiu de dentro do carro e correu até o lado esquerdo do carro, abrindo a porta para que ela descesse. Meu estômago convulsionou de ódio e eu segurei forte no apoio da cadeira. O ar me faltou. Eu estava com medo, mas muito medo mesmo de presenciar um beijo dos dois, mas ele apenas mexeu nos seus – nos meus – cabelos e depois foi embora. Eu o assisti caminhando como se estivesse em câmera lenta. Ele trajava o uniforme da policia e eu sabia que a Bella era maluca por aquele uniforme. Ele era loiro dos olhos azuis e certa vez eu e ela estávamos conversando sobre gostos e eu lhe disse que preferia as morenas, ela sorriu e disse que um loiro nunca lhe passava despercebido. Se já não bastasse tudo isso ele tinha aquele carro! Agora só faltava ele colocar o pênis para fora e mostrar ser bem maior do que o meu!
- Vamos até a casa dela? – Emmett me perguntou.
Eu respirei fundo tentando conter a minha ira.
- Não. Prefiro ir para a casa descansar. A fisioterapia me deixou esgotado!
- Você não está com ciúmes daquela birga, está? – Ele me perguntou cético.
Que diabos era birga? Mas vindo do Emmett eu achei melhor nem perguntar!
- Não estou com ciúmes, só estou cansado! –Menti descaradamente.
O Emmett bufou, mas fez o que eu lhe pedi. Levou-me para casa.
- Vejo você amanhã as 06:00H. – Ele disse se despedindo e eu agradeci por finalmente ficar sozinho com a minha dor.
Bella POV.
Estava irritada! O dia não rendeu o esperado, o Mike não me ajudava nem um décimo do que o Edward ajudava nas investigações! Para piorar o meu carro quebrou no estacionamento do Instituto. Eu tentei de tudo: Ligação direta, chupeta, empurrar... Mas ele não pegou! A Alice havia ido embora mais cedo e eu tive que aceitar a carona do Mike. Nada contra ele, mas eu fiquei o dia inteiro escutando ele falar sobre o nojo que ele sentia por cadáveres. Não foi fácil!
Tomei um banho demorado e deixei que a agua quente escorresse pelas minhas costas e relaxasse meus músculos, talvez se eu conseguisse relaxar sentisse sono. Depois do banho vesti o meu pijama de flanela e fui até a cozinha "caçar" algo para comer. Eu estava com fome, mas não queria jantar, nada de arroz e feijão! Também não queria nada de comida congelada. Abri a geladeira e fiquei olhando para dentro dela, havia danone, suco, leite... Mas não era nada daquilo que eu queria. Depois olhei para o armário e vi o pão de forma, ele me animou um pouco para comer. Peguei o pão, abri a geladeira novamente e peguei o requeijão; quando eu fui pegar a faca eu escutei o meu celular tocando – Droga! - Corri escada acima até o meu quarto e peguei o meu celular dentro da bolsa.
- Alô. – Atendi ofegante.
- Oi, paixão. – A voz do Jacob me sobressaltou. – Já te disse o quanto você fica linda com os cabelos molhados?
Eu desliguei o celular e o atirei em cima da cama. O coração acelerado fazia o percurso do sangue nas minhas veias quase perceptível. Levei minhas mãos tremulas até meus cabelos molhados e senti o desespero tomar conta do meu ser. Em um segundo eu pensei em todas as minhas alternativas. Eu podia ligar para a policia e esperar no mínimo vinte minutos até que eles chegassem em casa, eu podia ligar para o Emmett e esperar meia hora, eu poderia ficar em casa e ver se ele estava blefando ou se estava realmente me vendo ou eu podia correr duas quadras vestida apenas de pijama até a casa dos Cullen. Nem preciso mencionar que eu corri para fora e larguei a luz acesa, a porta aberta e o celular. Eu não olhei para trás nem para o lado, o medo que alguma bala me atingisse era real e me causava pânico. Eu corri até as minhas pernas protestarem de dor e meu pulmão arder e quando eu finalmente cheguei na porta dos Cullen eu senti meus olhos marejando. Apertei a campainha e aguardei impaciente, olhando para todos os lados a procura do meu provável assassino. Apertei a campainha novamente e então a porta se abriu e eu visualizei o Jasper me olhando com um semblante assustado. Primeiro ele me olhou dos pés a cabeça – Pijama de flanela e chinelo de veludo – depois me encarou.
- O que houve, Bella? – Ele perguntou aflito e eu fiz a única coisa que poderia ter feito. Corri até ele passando meus braços ao redor do seu pescoço e comecei a chorar copiosamente. Ele me abraçou pela cintura e tentou me acalmar.
- Tenta respirar Bella. – Ele dizia enquanto passava as mãos delicadamente nas minhas costas. – Você está frustrada por não conseguir dormir? É isso? Está desperdiçando tantas lágrimas para conseguir um maldito remédio para dormir? – Ele perguntou com um tom de brincadeira.
- Não é nada disso. – Disse afundando meu rosto ainda mais em seu pescoço.
- Você está definhando de saudade do Edward, é isso? Levante essa cabeça e olhe para cima, assim você poderá vê-lo.
Meu Jesus. Não era nada daquilo, mas só de imaginar eu levantando a cabeça e o encontrando eu já sentia um nó na garganta.
- Errou de novo... Em partes. – Disse com o choro mais contido.
- Bella querida, você está me assustando. – Escutei a voz suave da Esme dizer.
Desencostei meu rosto do Jasper e soltei o seu pescoço, levei minhas mãos até o meu rosto e passei a secar as lágrimas que o lavavam. Eu não tive coragem de levantar o meu rosto por cima do ombro do Jasper. Era estranho o que o tempo havia feito comigo e o Edward, eu o amava mais a cada dia, mas a intimidade que nós tínhamos se perdeu um pouco.
- Eu estou com medo. – Disse num sussurro. – Muito medo. – Confessei.
Vi a Esme caminhar na minha direção e segurar na minha mão, ela me guiou até a sala e me sentou no sofá, assim que eu sentei, levantei a minha cabeça e, como se estivesse tudo premeditado, o meu olhar encontrou o do Edward. O verde e o castanho se fundiram e eu senti meus ossos amolecerem. Eu tive um mês para me livrar dessa sensação ao vê-lo, mas o impossível aconteceu. A sensação de ter todo o ferro do meu sangue sendo atraído para ele aumentou. Nossos núcleos giravam na mesma direção causando um campo magnético intenso e ficar longe dele se tornou uma tarefa árdua.
- Medo do que, Bella? – Carlisle - que só naquele momento eu notei estar presente - me questionou.
Ainda sustentando o olhar hipnótico do Edward eu respondi.
- O Jacob... – Assim que eu disse o nome dele eu vi o Edward ficar rígido na cadeira, suas mãos se fecharam em punho e ele travou a linha do maxilar, foi a minha deixa para desviar meus olhos do seu.
- O que tem o Jacob? – O Edward finalmente falou comigo e eu comecei a apertar minhas mãos uma na outra.
Não conseguindo protelar em responder uma pergunta que ele havia feito diretamente para mim eu passei a contar sobre a ligação da noite passada, onde ele disse que logo estaríamos juntos e sobre essa nova ligação, que ele havia falado do meu cabelo.
- Desculpe-me vir assim, mas eu realmente não tinha mais ninguém para recorrer. – Eu disse voltando a chorar. Eu levantei minhas pernas e as abracei, encostando minha cabeça nos joelhos. – Sei que já causei transtornos demais para essa família, mas eu fiquei apavorada.
Foi então que eu senti um toque familiar nos meus cabelos, senti os dedos do Edward se embrenhando por entre os fios e o perfume dele nublar a minha mente. Senti seus lábios serem pressionados forte no topo da minha cabeça e então eu voltei a chorar.
- Se você não viesse, eu jamais te perdoaria. – Ele sussurrou e eu senti meu corpo estremecer. – Vou ligar para o delegado. – Ele disse e saiu. Eu permaneci na mesma posição, tentando buscar a calma que havia se esvaído.
- Beba esse chá querida, irá te fazer bem, eu acabei de fazer. – Escutei a voz da Esme e levantei a minha cabeça. Ele tinha um sorriso maternal nos lábios e nas mãos ela trazia uma grande xícara. – É de camomila. – Ela me disse assim que eu o peguei da sua mão.
Vasculhei a sala em busca do Edward, mas ele não estava mais lá. O Jasper e o Carlisle também haviam sumido.
- Vou arrumar uma cama para você dormir. – Ela disse cautelosa. – Você prefere dormir em algum lugar? Aqui na sala? No quarto do Edward?
Eu sorri sem vontade. Dormir no quarto com o Edward era tudo o que eu mais queria.
- Não se preocupe, Esme, eu não vou dormir mesmo!
Ela me olhou compadecida e eu entendi porque o Edward odiava tanto aquele olhar.
- Eles vão encontrá-lo! – Esme foi enfática.
- Espero que sim. – Respondi ajeitando-me no sofá enquanto tomava o chá morno com gosto de flor que a Esme havia me preparado.
Não convenci a Esme a ir dormir, então ela ficou comigo esperando os meninos voltarem. Foi bom conversar com ela que me contou detalhes da recuperação do Edward e não posso negar que me senti magoada em saber que ele havia conseguido muitos progressos e não me incluiu em nenhum deles. Ele não me deu nenhum telefonema, nem me mandou um SMS que fosse, informando me que tinha voltado a sentir a sensibilidade nas pernas, ou que estava mexendo os pés... Me senti muito mal por não fazer parte disso.
Horas se passaram até que ouvimos passos e vozes. Levantei-me e fui até a porta, quando eu a abri minha boca abriu junto com a quantidade de policiais que estavam cercando a casa... Vi o Edward conversando com o delegado e quando olhei para cima avistei três policias subindo no telhado. - Caramba! Aquilo era mesmo necessário? – Demorou alguns minutos até que o Edward me enxergasse parada na porta da sua casa, ele veio até mim e me estendeu o meu celular.
- Está com um programa de rastreamento. Se ele te ligar tente ficar com ele na linha o maior tempo possível! – Ele me orientou.
Peguei o celular das suas mãos e senti um arrepio percorrer a minha espinha quando acidentalmente nossos dedos se tocaram, ele também sentiu, pois me encarou e então me deu o seu sorriso torto perfeito que fez meu coração disparar. Ainda sorrindo ele se afastou de mim e voltou a conversar com o delegado, e eu entrei sorrindo feito uma boba!
- Nunca pensei que minha casa precisaria ser vigiada por policiais. – A Esme disse desolada assim que me viu, fazendo-me sentir péssima.
- Me perdoa, Esme. Eu juro que amanhã volto para a minha casa e esses policiais certamente vão comigo!
- Não foi isso que eu quis dizer, Bella! – Ela se desculpou de pronto. – Eu nem conseguiria dormir sabendo que você está sozinha naquela casa com um louco a solta. Você é como uma filha para mim. – Ela disse fazendo meus olhos marejarem. Eu não estava acostumada a chorar tanto, mas depois que eu conheci o Edward as minhas emoções voltaram com força total. Ela caminhou até mim e me abraçou forte e eu senti o aconchego que somente uma mãe é capaz de proporcionar. – Sempre quis ter uma menina. – Ela sussurrou e começou a chorar fazendo-me chorar junto com ela. Ficamos abraçadas por um longo período e o que eu senti não era algo que eu pudesse explicar, foi como se ela tivesse pedido para ser minha mãe e eu tivesse aceitado, sem palavras, apenas com um abraço.
- Muito obrigado. Eu não mereço tanto. – Disse afastando-me do seu abraço.
- Você está se desculpando demais, sabia? Você não era assim... – Ouvi a voz do Edward atrás de mim.
Eu me virei e o encarei.
- Me sinto culpada por causar tantos transtornos e sofrimento para as pessoas. É como uma maldição, algo de ruim sempre acontece com quem eu amo!
Ele sorriu com o canto dos lábios.
- Precisa de terapia!
- Eu tinha um psicólogo... – Disse mordendo a parte inferior dos lábios.
Ele então me fitou intensamente e eu vi seus olhos ficarem vermelhos e molhados. Desviei meu olhar do seu e percebi que estávamos sozinhos. Todos saíram da sala para nos dar privacidade.
- Se importa se formos conversar no meu quarto? – Ele pediu e eu me senti incapaz de dizer não para ele. Caminhei atrás da sua cadeira e quando entrei no seu quarto me assustei, além da sua cama havia uma maca e duas bolas enormes, além de um andador e um par de muletas.
O observei parando a cadeira ao lado da sua cama para depois segurar firme nas barras fixadas na parede e erguer o seu corpo, passando da cadeira para a cama. Ele sentou no lado esquerdo da cama e colocou o travesseiro atrás das suas costas depois me encarou. Eu continuava inerte em frente a porta.
- Senta aqui. – Ele pediu batendo com a mão no espaço livre ao seu lado.
Envergonhada eu caminhei até a sua cama e me sentei ao seu lado.
- Vocês acharam indícios de que o Jacob esteve realmente em casa? – Perguntei tentando não falar sobre nós, ou eu choraria, novamente!
- Não. Chegamos à conclusão que ele blefou! – Ele me respondeu virando um pouco na minha direção.
- Menos mal, amanhã quando eu for para casa não ficarei paranoica.
Ele sorriu sem vontade.
- Sei que não tenho o direito de te pedir nada... Mas eu queria que ficasse aqui até o Jacob ser preso.
Eu me mexi em cima da sua cama de forma desconfortável. Eu e o Edward na mesma casa fingindo ser amigos, não ia ser legal.
- Não sei não...
- Eu posso ser seu psicólogo! Você não disse que quer fazer terapia?
- Eu não disse isso. – Respondi na defensiva penteando meus cabelos para trás com os dedos da mão.
Ele fechou os olhos ao meu lado e inspirou o ar profundamente, depois começou a sorrir. Sua risada começou contida, depois foi aumentando em ondas até se tornar aquela bendita gargalhada contagiante. Eu comecei a sorrir junto com ele por reflexo relaxando meu corpo ao seu lado. Senti nossos ombros se tocarem e quando me virei para ele encontrei o seu rosto a centímetros do meu. Engoli em seco contendo a minha risada quando o perfume único da sua pele me engolfou turvando os meus pensamentos.
- Eu perdi a piada? – perguntei querendo saber o motivo do seu riso.
- Não posso te contar, não agora! – Ele me respondeu levando sua mão esquerda até o meu rosto, acariciando minha bochecha com o seu polegar.
- Esqueci que não faço mais parte da sua vida. – Respondi magoada.
- Você é a minha própria vida, Bella. Foi desde o primeiro dia que eu te vi e será até o dia da minha morte.
Meu coração acelerou freneticamente e eu estava prestes a me atirar nos seus braços quando o meu celular tocou. Olhei rapidamente para o visor e dei um suspiro aliviado quando vi que era apenas o Mike.
- Isso são horas? – O repreendi.
"Você me disse que não dormia"
- Nisso você está certo.
"Dormi e tive um pesadelo com aquele crânio amassado"... "Estou pretérita Bella, não sei se volto amanhã!"
- Vai voltar sim Mike, você se acostuma.
"Ai amiga. Você me ajuda a superar isso?"
- Claro!
"Estou melhor agora. Vou tomar um chá de morango antes de voltar a dormir."
- Faça isso. Durma bem.
Desliguei o celular sorrindo largamente com a "gayzisse" do Mike, mas quando eu olhei para o lado, o Edward sorridente e cordial havia sumido. Seus olhos estavam negros e pela primeira vez desde que eu o conheci eu senti medo dele.
- Ele sonhou com o crânio. Estamos em um caso sabe. Ele viu o cadáver em decomposição e está assustado. – Comecei a me explicar.
- Você não me deve satisfação Bella e eu não quero saber! – Ele disse deitando na cama de forma rude.
Deitei ao seu lado e o observei estender o braço até o interruptor ao lado da cama para apagar a luz. Quando o quarto ficou completamente escuro a presença do Edward ao meu lado tornou-se ainda mais sensorial, eu sentia a eletricidade irradiando do corpo dele, eu sentia o seu perfume, eu ouvia a sua respiração forte. Ele estava deitado de costas e tinha as duas mãos atrás da cabeça. Eu não resisti ao impulso de deitar a minha cabeça em seu peito. Quando meu ouvido encostou-se à sua pele eu pude ouvir o seu coração disparar. Passei meu braço por cima da sua barriga e encaixei minha mão na sua cintura. Lágrimas traiçoeiras escaparam dos meus olhos quando ele tirou sua mão de trás da cabeça e me abraçou, apertando o meu corpo junto ao seu. Seus dedos acariciavam o meu braço quando ele se virou na cama de frente para mim abraçando-me completamente. Eu afundei o rosto no seu pescoço e ele inalou profundamente os meus cabelos. Passei uma perna no meio das pernas dele sem dificuldade e o puxei para mais perto aninhando-me completamente em seus braços.
Duas coisas aconteceram antes que eu dormisse profundamente após tantas noites em claro: -Senti a sua ereção roçando em mim e ouvi o seu sorrisinho maroto ao pé do meu ouvido.
O0o0o0
Otelo (Personagem principal de uma das obras de Shakespeare), o general mouro de Veneza, é prisioneiro da cor de sua pele. Por seus dotes militares, é tolerado, mas não aceito pelos venezianos, que nutrem com relação a ele sentimentos racistas. Otelo está ciente desse preconceito e se sente inseguro. Para dissimular sua insegurança, comporta-se de modo grosseiro e impulsivo, a ponto de intimidar sua própria mulher, Desdêmona.
A insegurança de Otelo faz com que seja receptivo às intrigas de Iago, que desperta seus ciúmes, insinuando um romance entre Desdêmona e Cássio. O ciúme se intensifica ao longo da peça e culmina com o assassinato de Desdêmona pelo marido. Uma acuada Desdêmona não pode também fugir a seu destino, como Otelo não pode fugir do crime e de sua autodestruição.
É em Otelo que se encontra a mais genial - e certamente a mais popular - definição de ciúme: ciúme é um monstro de olhos verdes (a green-eyed monster).
