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...os dois continuam andando...

...porque depois não poderão voltar...

mas agora no fundo de seus corações

a dor de um crime nunca irá se apagar...

CAPÍTULO ONZE

CONVERSAS

Apesar das ameaças de Draco e do empenho de Harry, eles não conseguiram encontrar nenhum lugar que parecesse seguro o bastante para descansarem, ou algo para comer. Já caminhavam a tempo demais na opinião do Gryffindor. Ele notara que Draco diminuía consideravelmente o ritmo dos passos e a bengala já não ajudava muito. A única coisa boa era que caminhar embaixo da capa da invisibilidade os mantinham aquecidos. Tinham que encontrar um lugar para passar a noite, antes que desmaiassem de exaustão. Felizmente ao por do sol, Harry pôde divisar os contornos de uma pequena floresta.

- Malfoy, veja aquilo. - chamou a atenção do outro lhe tocando o braço.

- O que? - perguntou o loiro erguendo a cabeça. - Uma floresta! Deve ter algo pra comer ali...

- Podemos passar a noite e descansar.

- Não estou cansado. Mas se você precisa parar um pouco, tudo bem.

Harry rolou os olhos e não replicou a alfinetada. Não estava a fim de gastar fôlego com picuinhas infantis.

Assim que alcançaram as primeiras árvores Draco parou de andar e fixou os olhos cinzentos em Harry. O Slytherin tinha as sobrancelhas franzidas de leve.

- Sentiu isso, Potter?

- O que? - perguntou o moreno. Não sentira nada.

- Magia. Entramos em território bruxo.

- O que? - o espanto de Harry foi genuíno - Não pode ser!

- Tsc. Não prestou atenção nas aulas de História da Magia? Antigamente as Passagens entre o Mundo Bruxo e o Mundo Muggle não eram tão protegidas quanto na nossa época. Provavelmente os Muggle não conseguem enxergar essa floresta e devem se manter afastados pela sensação que ela emana.

- Estamos seguros aqui?

Draco olhou em volta meio ressabiado.

- Parece que sim.

- Finalmente um pouco de sorte! - Harry exclamou enquanto tirava a capa da invisibilidade de cima de ambos e fazia a mesma voltar ao tamanho real.

- Vamos mais para dentro? Só de precaução?

Harry encarou Draco por alguns segundos e acabou concordando. Ele tinha razão, quanto mais se afastassem do Condado, melhor. Avançaram alguns metros, até um ponto em que os troncos das árvores se erguiam muito próximos uns dos outros, indicando que a mata ficava mais fechada para além daquele ponto.

- Está bem aqui?

Draco concordou com um aceno de cabeça e deixou-se cair no chão, com um suspiro. Estava cansado e seu tornozelo doía muito. Encostou-se num tronco de árvore e respirou fundo. Estreitou os olhos ao ver que Harry ia imitá-lo.

Harry estava quase se sentando ao lado de Draco quando teve que se mover com destreza única, para desviar-se da bengalada que o Slytherin mirou em sua direção. Se fosse um pouco mais lento, naquele exato segundo, estaria com um galo enorme na testa...

A ponta da bengala bateu no tronco da árvore ao lado com tanta força que arrancou pedacinhos da casca grossa.

- Ficou louco, Malfoy? - perguntou com a voz engasgada e o coração disparado pelo susto.

- Não... Eu queria só colocar um outro enfeite ao lado dessa cicatriz medíocre. O que pensa que está fazendo, Testa Rachada?

- Descansando!

- Ah, claro, folgado! Enquanto você descansa a gente morre de fome!

O Garoto Que Viveu arregalou os olhos: - Malfoy! Não sou um elfo doméstico. Preciso des...

Calou-se e arrastou-se pra longe do loiro, porque o Slytherin já erguia a bengala com intenções nem um pouco agradáveis.

- Eu não posso ir procurar algo pra comer - resmungou Draco, desolado por ver que Harry se pusera em segurança longe do alcance da bengala. - Faça alguma coisa...

O moreno respirou fundo. Estava tão cansado quanto o loiro, e queria sentar-se um pouco. Por outro lado, não comia nada desde o dia anterior, também estava com fome. Em dúvida sobre o que fazer, Harry apenas ficou olhando seu companheiro.

- Você é um inútil, Potter! Ao invés de transfigurar uma bengala, devia ter transfigurado uma vassoura. A essa hora estaríamos longe daqui.

O mais alto rolou os olhos: - Malfoy, se eu tivesse nível de magia para transfigurar uma vassoura, já teria curado seu tornozelo. Pensa, ta bom?

- Repito: inútil.

Colocando-se em pé, Harry estendeu a varinha na direção de Draco, tomando o cuidado de manter-se fora do alcance da bengala.

- Se é tão bom assim, Malfoy, eu te empresto minha varinha e você pode, além de conjurar uma vassoura, se curar.

Draco torceu os lábios e não respondeu.

Diante do silêncio, Harry balançou a cabeça inconformado. Como o outro conseguia ser tão... Tão... Draco Malfoy? Tirou a mochila do ombro e a jogou no chão ao lado de Draco, depois lhe estendeu a capa da invisibilidade.

- Fique debaixo dela. Vou ver se encontro algo para comermos.

O loiro rolou os olhos enquanto dizia com ares de superior: - Se eu ficar embaixo dela, como você irá me encontrar?

- Pelo faro.

O Garoto Que Viveu não esperou uma resposta. Transformou-se em sua forma animal diante dos olhos arregalados de Draco. Durante longos segundos ambos se encararam. A mirada intensa fez o Slytherin sentir como se tivesse borboletas batendo asas em seu estômago. Era intimidador e ao mesmo tempo incrível, indescritível.

Foi a pantera negra quem quebrou o contato visual primeiro. Deu meia volta e correu sobre as quatro patas, o pêlo lumiando sob a luz da lua.

Draco engoliu em seco acompanhando os movimentos graciosos do belo felino enquanto ele se distanciava.

- Grande Salazar... - Foi tudo o que conseguiu dizer, sentindo o coração aos saltos.

HPDM

Quando Harry retornou, não estava mais em sua forma animago. Trazia uma lebre nas mãos e as vestes estavam respingadas de sangue.

Ao ver o companheiro, Draco saiu da capa da invisibilidade. Ambos ficaram quietos, enquanto Harry usava a varinha para improvisar uma fogueira. Ainda em silêncio Harry tirou a capa negra e estendeu para Draco.

Esquecera que o loiro estava usando apenas a calça. A noite era muito fria, e mesmo que o Slytherin não reclamasse do clima, com certeza começaria a tremer assim que saísse da proteção da capa da invisibilidade.

Draco aceitou a oferta e enrolou-se no tecido negro, respirando aliviado ao sentir que conservava grande parte do calor do corpo de Harry.

Desolado, o moreno olhou para a lebre. Não tinha nem idéia de como preparar aquilo. Tinha experiência na cozinha, porque sempre ajudava a Tia Petúnia... Mas nunca limpara uma lebre antes! Dando de ombros apenas atravessou-a sobre um graveto e prendendo-o no chão deixou o bicho próximo ao fogo.

- Não devia tirar pelo menos o pêlo?

Harry olhou de Draco para a lebre e acenou, que distração a sua! Recolheu a lebre, transfigurou uma faca e começou a despelar o animal.

Levemente enojado, Draco desviou os olhos. E apesar de ter jurado a si mesmo que não daria aquele gostinho ao Filhote de Troll, não resistiu. Quando deu por si, estava comentando com uma voz cheia de despeito zombeteiro:

- Quer dizer que o Grande Harry Potter é um Animago... Estou surpreso...

Harry deu de ombros como se aquilo não fosse importante, fato que irritou Draco.

- E quanto tempo demorou pra conseguir se transformar?

Pensando um segundo, Harry respondeu: - Um ano e meio.

- UM ANO E MEIO? - Draco gritou sem se importar se seriam ouvidos por alguém - Impossível. De jeito nenhum! Você não poderia se tornar um Animago em tão pouco tempo!

- Mas me tornei.

- Mentiroso. Está tentando me impressionar.

Harry pareceu surpreso: - Porque eu tentaria impressionar você?

- E como é que eu posso saber? Seu exibido! Só quer me humilhar. Não fale comigo até decidir contar a verdade!

Harry ficou mais surpreso do que nunca. Não estava mentindo, dizia a verdade. E não tinha intenção de humilhar o outro! Porque Malfoy estava tão irritado com um fato tão bobo? Porque se preocupar com quanto tempo Harry levara ou deixara de levar pra conseguir se tornar um animago?

Terminando de tirar todo o pêlo e a pele da lebre, o mais alto voltou a colocá-la cuidadosamente sobre a fogueira. Limpou as mãos ensangüentadas na roupa, sem se preocupar com aquilo.

Sua preocupação era outra.

- Não quero humilhá-lo, Malfoy.

- Hunf. - Draco resmungou incrédulo e ofendido.

- Sabe se Voldemort é Animago?

Ao ouvir o nome do temido bruxo Draco estremeceu e fez juma careta. Apertou a capa ao redor do corpo magro como se quisesse se proteger mais do frio da noite.

- Potter, ao contrário do que você e seus amiguinhos nojentos pensam, eu não sou amigo íntimo do Lord das Trevas... Ele não me convida pro chá da tarde, entende? E nós não trocamos confidências! Como é que eu vou saber se ele é Animago ou não?!

Harry não se assustou diante da explosão do loiro: - Eu acho que ele é.

Draco apertou ainda mais a capa ao redor de seu corpo antes de perguntar vencido pela curiosidade: - Porque?

- Dumbledore me disse uma vez que, quando tentou me matar, Voldemort passou alguns de seus poderes para mim. Por isso consigo entender Parsel... E... Por isso foi mais fácil me tornar um Animago. Eu sentia como se já tivesse feito isso antes... Foi... Estranho...

Draco resmungou alguma coisa que Harry não ouviu.

- Malfoy, não fiz isso pra humilhar ninguém. Estava em mim o tempo todo, gravado em minha mente. Se não fosse por Voldemort, provavelmente eu teria demorado muito mais tempo. - Terminou dando de ombros.

Draco começou a observar um interessantíssimo vaga-lume que voava por ali.

- E você herdou mais algum poder?

- Não que eu saiba... Mas pode ser que sim...

- Ah...

Harry virou a lebre para que não queimasse muito de um lado só. Pelo visto a cólera do loiro havia passado. Draco entendera a profundidade da situação. E Harry quase podia rir da paranóia do Slytherin.

"Seu exibido! Só quer me humilhar."

Harry não entendia porque Malfoy colocara as coisas daquele jeito. Porque ele se humilharia pelo fato de ter demorado tão pouco em conseguir sua forma Animago? Ele devia se ofender pelo simples fato de Harry a ter.

A não ser que...

O Gryffindor teve uma epifania. Num segundo compreendeu porque Draco estava tão irritado por saber que Harry demorara pouco tempo pra conseguir se transformar em pantera.

- E você, Malfoy? Quantos anos demorou? - perguntou distraído, propositadamente enchendo a voz com suave pilhéria.

- Três anos e dois meses! - Draco esbravejou, arrepiando-se de raiva e não de frio. Quando notou que tinha se entregado, corou muito encarando o Gryffindor com raiva.

- Eu desconfiei. Se você estava tão incomodado pelo tempo, é porque provavelmente demorou mais do que eu. Hum, três anos... Está na média, não? Nada excepcional.

- Morra, inteligente e dedutivo Harry Potter. Oh, porque será que não está em Ravenclaw com um cérebro tão grande? Talvez porque não saiba usá-lo e tanta massa encefálica sirva apenas pra te deixar com esse Cabeção Enorme!

Harry nem ouviu a enxurrada de ofensas. Os olhos verdes brilharam sob luz da fogueira e ele encarou Draco de modo intenso.

- Você se transforma no que, Malfoy?

Draco fez uma careta: - Não te interessa.

- Interessa sim! Aposto que você vira uma lebre! Por isso corre tanto...

- Errou feio!

- Um leopardo?

- Não! Não vai descobrir nunca.

- Um cavalo de corridas?

Draco estreitou os olhos perigosamente: - Não é mamífero, imbecil. Minha forma não pode correr.

Ao ouvir aquilo o brilho nos olhos de Harry desapareceu e ele pareceu muito decepcionado.

- Uma serpente? Ah, Malfoy, que clichêzinho sem graça. Eu esperava mais de você. E cobras nem se movem tão rápido assim... Apenas pra dar o bote, claro.

Draco corou e virou pro lado, evitando encarar Harry outra vez.

- Dane-se, Cara de Cicatriz.

- Melhor do que Cara de Cobra... - Harry riu - Pelo menos vou poder conversar com você, quando estiver em sua forma Animago... Sorte sua que entendo Parsel, e não se sentirá solitário. - terminou a provocação rindo alto.

Draco ficou aborrecido. Calou-se ignorando terminantemente a presença do Gryffindor. Harry deixou o outro quieto, apesar de começar a fantasiar com a forma Animago do loiro. Seria uma serpente? Uma cobra? Seria prateada? Verde? De escamas lisas ou decoradas?

O Gryffindor pensou em provocá-lo mais um pouco, porque percebera que adorava o jeitinho amuado do outro. O modo que os olhos cinzentos se estreitavam e de repente não pareciam mais tão frios assim, aquecidos pela cólera.

Naquele pouquíssimo tempo ao lado do loiro, Harry estava descobrindo particularidades que nunca notara antes, muito provavelmente graças a rivalidade que movia seus atos e os atos de Draco. Subitamente Harry se perguntou se Malfoy estaria descobrindo essas particularidades em si próprio. Estaria Draco descobrindo em Harry detalhes que desconhecia até então? Sondou o rosto pálido, atrás de respostas, mas tudo o que o Garoto Que Viveu encontrou foi um 'bico' de contrariedade.

- Ei, Malfoy!

Draco não respondeu, mas olhou de esguelha para o moreno.

- Qualquer que seja sua forma Animago, eu o respeito por ter conseguido. Meu padrinho e Lupin disseram que é muito difícil... Eu sei que também demoraria mais, se não fosse...

- Se não fosse PP... - Draco cortou com voz ácida.

- PP? O que é isso?

- "Potter Perfeição"! - o loiro praticamente cuspiu as palavras fazendo Harry sorrir e corar.

- Você me acha perfeito?

Draco também corou: - Vai sonhando! Eu estava sendo irônico!

Harry riu e não respondeu.

- Não fique com idéias erradas, Troll Cicatrizado! Eu nunca acharia você bonito!

Harry riu mais ainda: - Quem falou em 'bonito'? Era apenas perfeito...

- Está distorcendo minhas palavras em seu beneficio. Que merda de Gryffindor é você? - Draco resmungou. - Malfoy, paz, está bem? - Harry respirou fundo - Estou cansado, muito cansado. Conseguimos sair de uma enrascada hoje e a noite promete ser muito fria. Que tal deixarmos nossas diferenças de lado?

Draco evitou olhar para o mais alto e afirmou com voz distante: - Nossa última trégua terminou de um jeito perigoso demais pro meu gosto.

- Sinto muito... - de repente tinha um gosto amargo na boca de Harry. Ele não gostava de lembrar onde sua impulsividade os tinha levado - Já disse isso.

- Sei. Só não sei se posso confiar. Mas... Pior pra mim, não é?

- Malfoy, eu te dei minha palavra de que não vou mais interferir nesse tempo...

- Potter, o problema é que eu acho que só o fato de estarmos aqui está influenciando o futuro. Não tem essa sensação também?

- Não. - o moreno foi sincero - Desde que não façamos nada tão temerário quanto o que eu fiz no Condado, acho que podemos passar despercebidos. Veja, já estamos em território bruxo. Talvez cheguemos logo a Londres. E a primeira coisa que faremos é providenciar uma nova varinha pra você.

- Espero sinceramente que o diretor nos ajude. E acredite no que nos aconteceu.

- Vai acreditar. Nossa maior dificuldade é chegar a Hogwarts. Depois que estivermos lá, será fácil até mesmo deixar um pergaminho para Dumbledore. Se seguirmos por essa floresta, estaremos a salvo dos Muggle.

Draco olhou em volta e concordou balançando a cabeça. Parecia ser seguro ficar protegido pela magia da floresta. Pelo menos não precisavam temer que caçadores de bruxos os encontrassem. E não esbarrariam com Frei Tomás jamais.

Ao se recordar do homem, Draco estremeceu.

- Meu pai tinha razão. Esses Muggle são sádicos! Nunca pisarei em território Muggle enquanto eu viver.

Harry pegou um gravetinho mais fino do chão e depois de assoprá-lo tentando limpar, cutucou a lebre, pra ver se estava boa. O assado desprendia um cheiro agradável.

- Nem todos os nascidos sem magia são cruéis assim, Malfoy.

Draco deu de ombros. Os olhos cinzentos voltaram a observar o vaga-lume, que piscava mais distante: - Eu não pretendo descobrir se o que diz é verdade ou não. Obrigado. Bem que isso podia ser um pesadelo, não é? Ou, sei lá, o efeito de alguma poção errada...

- Não creio que seja. Ninguém tem tanta sorte assim: voltar para o nosso tempo só porque Snape providenciou o antídoto... Não... Malfoy, dessa vez nós é que teremos que achar a solução, sozinhos.

- "Dessa vez... Dessa vez..." - Draco debochou afinando a voz - Como se eu estivesse acostumado a sair por aí me metendo em viagens no tempo e perseguições por Muggle! O egocentrista metido a temerário da dupla não sou eu, Harry Só Vivo Com O Perigo Potter.

- Não. Você não faz isso. O que eu quis dizer é que sempre que se mete em fria, Snape vem te salvar. Dessa vez será bem diferente! E... Seu sarcasmo barato não me afeta. Desista.

- Desistir? E abrir mão da única diversão que me restou? Vai sonhando... - então o loiro esticou a mão e pegou a bengala caída no chão - Única não... Ainda me sobra a Fiel Bengala... Não durma, Cara de Troll... Ou acordará com o canto de dois galos, um de cada lado da sua cicatriz... Cortesia de Draco Malfoy.

Harry riu baixinho.

- Acho que a lebre está boa. Quer comer?

- Eu? De jeito nenhum. Coma você primeiro. Se sobreviver, eu também experimento.

Mas Harry balançou a cabeça e passou a mão pelo estômago: - Eu já comi, Malfoy. Sabe, na minha forma Animago carne crua não é tão ruim assim...

Aquilo explicava como seu padrasto tinha sobrevivido tanto tempo a base de pequenos animais. Provavelmente os instintos selvagens ficavam mais intensos, por isso podia caçar e sobreviver daquela forma.

Draco, por sua vez, torceu o nariz muito enojado: - Eca. Perdi a fome. Afaste isso de mim. Amanhã você procura alguma fruta...

Harry ergueu uma sobrancelha e abafou uma risada pelo nariz. Se Draco Malfoy estava achando que ele bancaria o elfo doméstico estava muito enganado!

- Você é quem sabe, Malfoy. Se quiser morrer de fome, o azar é todo seu.

E o moreno afastou a lebre do fogo, para que não queimasse. Deixou o graveto pregado no chão a uma distância suficiente para que a carne se mantivesse aquecida, só pro caso do loiro mudar de idéia. Não que ele estivesse preocupado...

Depois Harry arrastou-se pelo chão até encostar-se do outro lado, bem longe de Draco. Ele não sabia se o loiro estava falando sério em acertá-lo com a bengala, e não ia correr o risco desnecessário. Ajeitou a varinha no cinto, deixando-a a mão. Enrolou-se na capa da invisibilidade, ficando apenas com a cabeça de fora, numa cena muito bizarra. Em questão de segundos, vencido pelo cansaço e pela tensão, Harry caiu num sono pesado.

Do outro lado, Draco observou o moreno longamente. Ele estava mais próximo da fogueira, por isso o frio não o atingia muito, apesar da fina capa que o envolvia. Tinha uma coisa dando voltas em sua mente. Algo que o Gryffindor havia dito... E que era muito interessante.

A despeito de todo o frio, Draco ficou em pé, evitando apoiar-se no tornozelo ferido e deixando a capa negra cair, sorriu torto.

- Vamos ver se o Grande Harry Potter disse a verdade ou... Estava apenas blefando...

Fechou os olhos com força e, de repente, teve a nítida impressão de que o tudo ao seu redor ficava muito, muito maior do que si...

HPDM

Harry estava caminhando pela floresta. Sentia que tinha algo errado. Estava... Sozinho! Mas... Não chegara naquela floresta sozinho... Viera com Draco Malfoy! Então, onde estava seu companheiro?

Avançou com passos lentos, se orientando pelo belíssimo luar, que dominava o céu sem estrelas. A lua cheia não poderia se mostrar mais perfeita. O tempo todo tinha a sensação de que seu corpo estava mais leve do que o normal. Se continuasse assim estaria flutuando em pouco tempo...

Os olhos verdes notaram que logo à frente, a poucos passos, a densa mata se abria em uma pequena clareira.

Havia alguém na clareira.

Com passos ainda mais reservados, o Gryffindor avançou. Então seu coração deu um salto no peito e se acelerou. As batidas pareciam tão altas que Harry ficou com a impressão de que ecoavam na noite silenciosa.

No meio da clareira estava parado alguém. Um rapaz, de cabelos loiros e finos, que se agitavam tocados pela brisa da noite, e refletiam o brilho dourado da lua. O garoto estava de costas para Harry, com a face levemente erguida, parecendo sentir a luz da lua acariciando sua tez.

Mas não foi a beleza estonteante da cena que acelerou o coração de Harry. Nem tão pouco a sensação de que conhecia o jovem loiro, ou ainda, a impressão de estar tendo um absurdo e fantástico sonho...

O roubou a atenção de Harry foi o magnífico par de asas que o loiro tinha nas costas. O torso desnudo e reluzente era rasgado por asas com plumas tão claras e imaculadas quanto o mais puro branco. E pareciam macias... Tão macias... Deviam ter dois metros de envergadura, e estavam abertas, com as penas acolhendo a leve brisa, balançando suavemente, dominando completamente todo o cenário noturno.

Era um Anjo!

Harry perdeu a capacidade de pensar ou falar. Tudo o que queria era ficar observando aquele ser místico para sempre. Por toda Eternidade.

Mas, como se sentisse a presença do moreno, o Anjo moveu o rosto de leve, deixando entrever uma face de queixo pontudo, o que apenas aumentou a sensação de familiaridade. Harry conhecia aquela pessoa! Conhecia o Anjo!

O loiro agitou as asas, sem virar o rosto completamente, e fazendo a pontinha emplumada esbarrar de leve na face esquerda do mais alto. Se era apenas um sonho, porque Harry sentira aquele roçar em sua pele com tanta clareza? Não fazia sentido!

Sua garganta apertou-se em um nó, quando compreendeu a intenção do Anjo. Ele ia embora! Estava partindo!

- Espere! - pediu recuperando a voz. Mas não foi atendido. O loiro bateu asas com mais e mais força, até alçar vôo e começar a se erguer com uma rapidez surpreendente, afastando-se mais e mais de Harry.

O Garoto Que Viveu caiu de joelhos no chão, com lágrimas queimando em seus olhos verdes. Esticou o braço e abriu a mão, como se pudesse alcançar o fugitivo e mantê-lo junto a si, mas era impossível. Estava completamente fora de seu alcance.

- Não!

Harry Potter acordou do estranho sonho sentindo o suor escorrer em sua testa e em suas costas, apesar do frio acentuado. Ofegante, correu os olhos pela pequena clareira onde estavam, procurando pelo companheiro, e o que viu teve o poder de roubar seu fôlego pela segunda vez aquela noite, e não em um sonho.

Draco estava parado no meio da clareira, com os raios da lua refletindo um tom dourado sobre os cabelos platinados. Mas ele não estava de costas para Harry. Encarava-o de frente, com um sorriso satisfeito no rosto e as bochechas coradas de leve, apoiando-se mal e mal na bengala.

Este loiro não estava com o torso desnudo como o loiro de seu sonho, nem possuía asas, além de estar envolto na fina capa negra, mas a sensação de familiaridade persistia, confundindo a mente de Harry a ponto dele acreditar que ainda era um sonho.

- Tinha razão, Potter. - o sorriso nos lábios finos aumentou vitorioso - Na forma Animago carne crua não é...

Calou-se ao ver que o Gryffindor levantava-se do chão com um salto extremamente ágil, e em duas passadas estava a sua frente, encarando-o com olhos brilhantes, quase desvairados... Recuperou a voz com o susto:

- Potter... O que...

Harry segurou-lhe o queixo, fazendo-o encarar as inflamadas íris verdes. Parecia que o Garoto Que Viveu estava tendo uma alucinação!

- Não vai escapar dessa vez... - sussurrou o moreno numa voz baixa e carregada.

E aproveitando que Draco entreabrira os lábios de puro espanto, Harry colou as bocas de ambos, começando um beijo inesperado.

Draco arregalou os olhos. Harry Potter estava beijando-o. Harry Potter estava beijando-o!

O primeiro impulso que teve foi empurrar o moreno pra longe, no entanto parecendo prever a ação, Harry passou uma mão pela cintura de Draco, puxando-o mais para perto, e enterrou a outra nos fios loiros. E no momento em que as línguas se tocaram o Slytherin desistiu de lutar. Fechou os olhos e se entregou às sensações.

Passou as mãos pelo pescoço de Harry e retribuiu ao beijo. Permitiu que as línguas se enroscassem, uma desafiando a outra, uma tentando dominar a outra, experimentando e descobrindo o sabor uma da outra.

Harry percebeu que o loiro se derretia em seus braços e então a sensação de urgência se foi. Deixou de sentir aquela terrível intuição de perda eminente e inevitável. Quase sorriu através do beijo, quando Draco enroscou a língua de ambos, sempre desafiador, sempre se recusando a deixar Harry no comando.

Com muito custo, Harry se afastou do loiro, encerrando o beijo. Draco ainda permaneceu dois segundos com os olhos cerrados e os lábios entreabertos, molhados e inchados, para deleite do moreno.

Quando o Slytherin abriu os olhos e Harry se viu fitado pelo mercúrio líquido, corou sem jeito e sem saber o que dizer. Sem atinar porque agira daquela maneira, apenas pelo efeito de um sonho sem sentido!

Draco estava igualmente sem jeito. Fitava Harry sabendo que seu rosto corava na mesma proporção do rosto do Gryffindor. Ambos pareciam ter perdido o juízo!

- Draco... - Harry começou hesitante.

Porém o mais baixo virou os olhos para a esquerda do rosto de Harry. De corado, ele passou a intensamente pálido.

- Potter! - exclamou enquanto lutava para se livrar dos braços que o envolviam.

Harry libertou Draco e virou-se num salto para ver o que assustara o loiro. Foi então que se arrepiou por inteiro. Um par de olhos pequeninos, vermelhos e brilhantes olhavam fixamente para os bruxos, através da folhagem ao redor das árvores.

Com a boca seca, Harry viu surgir mais e mais pares de olhos avermelhados, até que o moreno perdeu a conta, entendendo que centenas de criaturas olhavam de modo maléfico e intenso para os jovens bruxos, ao redor deles, pelos lados, frente e, certamente, costas de ambos.

Harry e Draco não precisavam ser muito inteligentes para entender que estavam total e completamente cercados. E não tinham nem idéia do tipo de criatura que armara aquele cerco...

Harry & Draco

4ever


N's/A: Deixem-me respirar fundo. Pronto... aí está a cena do beijo. Ela veio uns dois ou três capítulos antes do que eu tinha programado, mas creio que não vai atrapalhar tanto assim o andamento da fic. Esse 'sonho' do Cicatriz não estava planejado, encaixei meio no susto, pra explicar o atac... digo, beijo entre os dois. Espero que não achem estranho ou sem sentido... rsrsrsrs... e que gostem! Depois de tantos pedidos, era impossível continuar protelando por mais tempo!

Estou tentado postar esta fic desde sexta-feira, mas nosso amigo ffnet não estava deixando. Depois tive uns problemas e fiquei off. Rsrsrs. Mas acho que hoje vai!


Gostaria de dedicar esse capítulo especialmente à Dryade. Moça... você não sabe o quanto me deixou emo no fim de semana. OBRIGADO.


Pra quem leu, e deixou um review, obrigado! Os comentários desse chapie estão entre os mais legais que eu já recebi. Valeu mesmo: Samantha (seus comentários me matam de rir! Obrigado!! TE ADORO!), Kalyl (Rsrs. Fui muito Slytherin dessa vez, mas a culpa é do Mata-mata), Rapousa (você não foi chata! Foi detalhista, eu gosto que chamem minha atenção para detalhes que passam batido! Essa do metro em Londres foi boa. Quem sabe?), Thais Weasley Malfoy (estou me sentindo um Troll agora... rsrsrs. Desculpe mas escrever 5 fics ao mesmo tempo é mais complicado do que eu pensei.), Sofiah Black (obrigado pelo super review e por não querer a minha cabeça.), Nicolle Snape (então consegui dar um nó no cérebro das pessoas... e nem era minha intenção... rsrsrsrs), Sophie Black30 (Eu não tinha pensando nesse lance da vassoura, mas obrigado por me ajudar a amarrar mais uma ponta), Aleera Black (sim! Está tudo certo para ser uma fic cheia de sagas, mas não será dividida em trilogia), Isabelle Malfoy (obrigado pelo review e desculpe a confusão com as sagas...), Gê Black (então tá combinado! Aguarde, rsrsrs e o outro chapie foi só pra não ficar no vácuo...), Dryade (apesar de tentar ao máximo, me atrasei de novo!), Sanae-chan (moça, seu review foi decisivo para que saísse o beijo! Espero que goste!), Scheila Potter Malfoy (desculpe pelo susto. Esse lance das sagas confundiu um bocado.), Maaya M. (obrigado pelo review! Aí está o primeiro beijo!), Dana Norram (mais uma que pede pelo beijo, rsrsrs, espero que não se decepcione! Tentei caprichar mesmo. Obrigado pelo review.), Sarih (gostei do seu review... apesar das ameaças de morte e tortura... rs. Seu senso de oportunidade é incrivel!), Bella Potter Malfoy (obrigado pelo seu comentário! Como eu disse em pvt, inventar apelidos para o Cicatriz é super funny!) e Miyu Amamyia (quando vier o lemon, eu prometo caprichar! E sobre a forma do Draco, acho que dei uma super dica neste chapie... é só usar a imaginação!).


Pra quem revisou e por um motivo ou outro não deixou review, agradeço! Só não sei se queriam o beijo... e que gostem do jeito que saiu!

Oka. A próxima fic que pretendo atualizar será "Spatium". Até lá!