Dias se passaram, e Mickey infelizmente lembrava de quase tudo que passara com Lília. Por isso, passara a evitá-la deliberadamente. Acabara com qualquer conversa de garotas que elas tinham no trabalho, e qualquer encontro, em qualquer lugar que fosse, fora do escritório. Fugia de Lília como se disso dependesse sua própria vida - o que não deixava de ser verdade. Sentira coisas tão boas ao lado dela, coisas que não sentia mais a tanto tempo, mas que não vieram de Olívia. Sentia-se culpada por gostar muito da companhia de Lília e por sentir que poderia realmente começar a gostar dela. Mickey escolheu pensar como uma mulher casada, e decidira pensar no relacionamento dela com Olívia. Precisava tentar novamente. Não podia desistir dela tão fácil. Não depois de tudo que elas viveram.
No entanto, Olívia não parecia pensar o mesmo. Manteve o mesmo comportamento arredio, por mais que Mickey se comportasse de forma oposta, e continuava não se preocupando com a esposa. Chegasse a hora que chegasse, Olívia não lhe dirigia a palavra, a não ser que fosse por algum assunto urgente, tipo contas a pagar, ou reuniões em família. A situação continuava da mesma forma, por mais que Mickey tentasse invertê-la.
Enquanto isso, Lília começara a sentir raiva de Mickey pode tê-la deixado plantada naquela praça daquele jeito, só para voltar para aquele navio afundando. Cansou de presenciar cenas em eventos sociais, no qual observara o quanto a Olívia lhe tratava com frieza, e no quanto fingia na frente dos outros.
– Ela se agarra na idéia de esposa, sabe. É isso que me irrita. Não consegue dar uma chance para outro amor, não consegue sair do passado. - confessou, magoada.
– Ela está tentando recuperar o casamento, Lília, e acho que isso seria um sinal de que gosta dela ainda. - constatara a irmã de Lília, a quem ela sempre desabafava seus problemas.
– Eu estou sofrendo, ela está sofrendo, a outra lá deve estar sofrendo. Então que espécie de casamento é esse?
– Mas você não disse que meio que ajudou ao casamento chegar aonde estar?
– Sabe, Míriam, eu achei que sim, e cheguei a me culpar por isso em algum momento, mas enquanto conversávamos naquele jantar a Mickey me contou que a situação já vinha ruim há muito tempo. Olívia sempre foi assim, e ela está a muito tempo infeliz. Então eu pensei e constatei que acabei fazendo algo bom. Apareci em sua vida para ajudá-la a virar essa página e finalmente voltar a ser feliz. Mas ela me deixou plantada lá, e se mantendo naquela farsa.
Lília começou a chorar, e Míriam a puxou para um abraço.
– Você realmente está apaixonada por ela né, irmã? Nunca tinha te visto por ninguém assim antes.
– Ela é especial. Mas me deixa com muita raiva às vezes.
– A raiva pode ser um simples tempero do amor.
Lília saiu da casa da irmã decidida a terminar com aquele relacionamento de uma vez por todas.
Um dia depois.
Chegara um dia esperado pelo casal Ramos. Mickey e Olívia estariam comemorando o aniversário de casamento de 9 anos. Embora o casamento estivesse na beira de um precipício, para Olívia a imagem era tudo, e ela planejou um jantar onde chamaria toda a família delas e os amigos mais íntimos. Lília, obvialmente estaria na lista dos "conhecidos-invasores a serem barrados na entrada".
Mickey que passara o resto dos dias tentando de toda forma recuperar seu casamento, prometera que iria estar lá.
Era uma manhã normal como qualquer outra, Olívia estava na cozinha preparando ovos mexidos com suco de Limão, seu café da manhã preferido, enquanto Mickey estava na banheira tomando banho e refletindo sobre o caos em que sua vida se metera.
Olívia ouvira um barulho na porta. Abrindo-a, dera de cara com a conhecida-invasora em potencial. Tentara fingir um sorriso educado, embora a insatisfação percorresse o seu sangue e alcançasse o seu cérebro.
– Olá, Sra. Olívia.
Olívia notara a diferença de tom quando referiu-se a ela pelo seu nome. Sempre usara o sobrenome de Mickey para referir-se a ela. Isso lhe parecera mais uma insolência da jovem.
– Mickey está no banho. - dissera, curta e grossa, tentando evitar qualquer tipo de conversas ou cumprimentos forçados por parte das duas. Olívia sempre fora assim. Ama ou odeia, e ponto. E Mickey sempre gostara disso.
– Oh. Entendo. - Um silêncio se fez no local. - Bom, eu só passei aqui para entregar esse café, eu sei o quanto a Mickey gosta de tomar um café expresso quentinho com chantily por cima pela manhã. E como ela vai chegar mais tarde no trabalho hoje porque estará no fórum, enfim... Por favor, avise-a que o deixei aqui, está bem? - Disse, colocando o café quente sob a mesinha de centro da sala de estar.
Sem mais delengas, a jovem procurou sozinha a saída, e sem dizer mais nenhuma palavra. Imediatamente depois que a porta se fechou, Olívia foi até o quarto, onde encontrou Mickey enxugando o seu cabelo, em um silêncio tão acolhedor que a advogada estava sentindo como se estivesse meditando.
– Sabe quem acabou de passar aqui?
– Quem? - Perguntou displiscentemente, sem nem imaginar o que teria acontecido.
– A sua queridinha amante.
– De novo isso, Olívia? Pelo amor de Deus, eu não tenho amante.
– Será que não? E por que sua querida secretária acabou de passar aqui te trazendo um "café da manhã expresso com chantily, que você adora tomar pela manhã". - Disse, com desdem, mudando o tom imitando a voz de Lília, incomodando profundamente Mickey.
– Pelo menos ela se preocupa comigo.
– O que você quer dizer com isso?
– Que hoje é nosso aniversário de casamento, e que éramos para ficar bem, mas você, como sempre, tem que fazer um show logo pela manhã.
Mickey sentou na cama, aborrecida. Olívia se aproximou, magoada.
– Você não pode estar querendo dizer que essa fulaninha que você conheceu a poucos meses cuida melhor de você do que eu, que cuido de você há 12 anos.
– Não estou dizendo nada disso. Aliás, quem está falando dela não sou eu. Apenas estou falando de você. Do seu comportamento que não é mais como antes.
– Ah, é? Pois sabe de uma coisa, você deveria procurar ela e dizer para ela ser sua esposa. O que você acha disso? Hã? Talvez assim você se sinta mais feliz, não é? Ou será que você prefere enrolar ela por 3 anos e depois passar 9 anos de casada para arranjar outra que se preocupe mais com você?
Irritada, Mickey se levantou, e foi em direção a Olívia. Olhando-a, cara a cara, disse em voz alta, evidentemente se controlando para não terminar tudo e ir embora.
– E talvez se você buscasse ser uma esposa melhor, e se preocupar mais comigo do que com o seu ego, você não sentisse ciúme da própria sombra, e não estaríamos tão infelizes.
Olívia dera um tapa na cara de Mickey, que segurou seu braço por instinto, e respirou fundo. A situação estava fugindo do controle. Se arrependera do que disse, embora não tiraria nenhuma daquelas palavras que pronunciara. Disse exatamente o que queria dizer. Exatamente o que pensava. No entanto, arrependera-se ao notar em Olívia uma expressão de choro, e instintivamente reagira a isso. Se importava demais com ela para vê-la sofrer, e ainda disfrutar disso.
– Olívia, você não precisa ter ciúme. Independente de qualquer coisa, eu não faria nada contra nosso casamento. Você sabe o quanto o "nós dois" é importante para mim. Minha vida é você e a nossa família.
Olívia chorou, e abraçou Mickey, que foi trabalhar prometendo que voltaria cedo para o jantar de aniversário de casamento.
