SAKURAS À LUZ DA LUA - FINAL
Saori já há um tempo, havia abandonado aquele visual virginal que adotou por tantos anos, era uma mulher adulta agora. Tampouco, tinha obrigação de se paramentar como uma gueixa tradicional, como convidada para o evento, tinha uma certa "licença poética" para se vestir.
Decidiu usar um vestido em estilo das vestes das gueixas, mais modernizado. Duas camadas de quimonos, de uma seda fluida e levemente transparente. Sobrepostos, não escondiam todo o corpo da moça, mas ao mesmo tempo não revelavam a ponto de vulgariza-la. A veste de seda debaixo, era de um azul claro, da cor do céu, parecia uma espécie de camisola, com alças quase invisíveis, nas pernas, duas fendas profundas que faziam um jogo com a fenda frontal do traspasse do quimono de cima, mostrando parte das pernas conforme ela caminhava.
O quimono que se sobrepunha à veste azul era verde claro, de uma seda tão delicada e fina, que parecia não ser deste mundo, suas bordas eram em um acabamento dourado, e por toda sua extensão do quimono haviam bordados de cristais multicores, formando belíssimas flores de lótus. A faixa na cintura, acompanhava o acabamento do quimono, no mesmo tecido dourado, mas era mais estreita, de forma que o transpasse do quimono formava um decote generoso que deixava o colo bem à mostra. Nos pés, sandálias bem delicadas, seguindo o formato dos tamancos tradicionais, mas mais confortáveis.
Os cabelos estavam metade presos em um coque bem atrás da cabeça, a franja longa de lado, e metade do cabelo solta, caía sobre os ombros, lisos e brilhantes. Duas orquídeas rosa claro enfeitavam um lado do penteado, e do outro, uma jóia em forma de palito, prendia-se no coque, deixando uma cascata de pequenas florzinhas dourada penderem em sua lateral. Saori não quis fazer a maquiagem tradicional de gueixa, preferiu uma sombra dourada, com um delineado esfumaçado de marrom bem escuro, um leve blush cor de pêssego, e lábios com gloss também em tom de rosa pêssego. Brincos delicados nas orelhas completavam o visual.
Seiya não estava preparado para aquela visão, o ar lhe faltou... sempre achou Saori linda, muito mais do que ele merecesse. Por muitos anos a considerava bela e sofisticada demais para seu alcance, mesmo em seus sonhos mais ambiciosos. Especialmente nos primeiros meses quando voltou da Grécia, sequer se permitia olhar por mais tempo para uma musa inalcançável.
Ele justificava este sentimento de inadequação como antipatia pela arrogância que Saori transparecia quando criança. Dizia a si mesmo que deveria amar alguém como Mino - muito mais próxima de sua condição social, mas seu coração tinha planos diferentes, muito diferentes. Com o tempo, a mudança na personalidade de Saori, cada vez mais lúcida, madura e serena o surpreendia. Na noite – que agora parecia tão distante – quando a salvou de ser sequestrada pelos corvos de Jamian arriscando sua vida e a dela no "tudo ou nada", ele percebeu que a desejava muito mais do que tinha coragem de confessar, muito mais do que era razoável em sua condição de cavaleiro. Naquela noite, por mais que tentasse se enganar, seu coração tinha vencido a batalha para sempre...
Mas esta noite, ela estava mais bonita do que todas as estrelas do firmamento, conforme caminhava para dentro da sala, e seu corpo movimentava, seu vestido de seda fazia um jogo de transparências, que não revelavam a ponto de torna-la vulgar, mas deixavam tanto para imaginação. Se pegou suspirando alto, sem lugar, sem fala, olhos brilhantes diante dela. Sua irmã e seu cunhado se derreteram em elogios. Ele, como que hipnotizado, caminhou até ela, se ajoelhou à sua frente – apegado ao costume de cavaleiro – ela um pouco constrangida por seu gesto de adoração, lhe estendeu a mão para que ele levantasse, ele tomou sua mão e depositou nela um beijo apaixonado, transparecendo em seus olhos, seu amor, sua paixão, sua devoção por aquela mulher.
Levantou-se, mas continuou segurando a mão dela na sua, queria saborear a sensação de se tornarem gradualmente um casal, o pensamento aqueceu seu coração, a antecipação o deixava eufórico, ela também parecia não ter palavras, concentrada em suas mãos unidas e na sensação tão nova, confortável, de poderem estar juntos em tempos pós-guerra.
O casal anfitrião quebrou um pouco o encanto, perguntado se estavam todos prontos, então, se dirigiram para fora, para seguirem ao evento. A lua se tornou cheia exatamente naquele dia, o que tornava a noite mágica, de forma que cada cerejeira parecia brilhar magicamente à luz da noite. Entraram no carro, e após poucos minutos em silêncio, chegaram ao parque do templo, onde outros carros também estacionavam e as pessoas desembarcavam para festa, a maioria vestida à caráter, era como se tivessem entrado em um portal para um mundo mágico, destes que só se vê na ficção.
Os dois pares desceram do carro, Seika e seu marido, como pessoas importantes da região, precisavam cumprimentar a todos, o cunhado de Seiya queria apresenta-lo, e senhorita Kido – personalidade famosa no Japão – à sociedade local. Por um tempo, ficaram nas apresentações, Seiya não se aguentava de ansiedade, queria ficar à sós com Saori, aproveitar sua companhia. Desde que chegaram, tentava sem sucesso ter privacidade com ela, mas nunca parecia o momento certo. O motivo foi justo, certamente, queria saber de sua irmã e de sua vida, mas não poder voltar à conversa que tiveram no mirante, estava deixando o rapaz muito agitado.
Seika, parecendo ter o mesmo pensamento, ou sentindo a angústia do irmão, disse ao marido: "Querido, vamos deixar Seiya e Saori se divertirem um pouco, meu irmão não está tão acostumado com estas formalidades sociais. Quem sabe você consegue um passeio de gôndola pelo riacho para os dois, antes que a atração se abra para o público?" Ele achou a ideia da esposa formidável, afinal, depois que a atração fosse aberta, ficaria lotada, tirando todo romantismo que aquela bela noite ofereceria.
Chamou o cunhado e Saori e saíram discretamente do burburinho da chegada dos convidados. "Tenho uma surpresa para vocês", disse, "Venham comigo!". Caminharam por uma estrada entre as cerejeiras, ao fundo se via o templo belíssimo, e bem atrás, com a luz da lua cheia, podia-se ver o Monte Fuji... era um cenário de tirar o fôlego.
Chegaram à margem de um pequeno riacho, que era cercado nas duas margens por cerejeiras que explodiam em sua beleza floral. Haviam algumas gondolas – no estilo das venezianas – encostadas em um pequeno deque. Gondoleiros à caráter eram responsável por guiar os convidados. O marido de Seika convidou os dois a entrarem dizendo "Esta é uma das grandes atrações do festival, muito concorrida pelos casais apaixonados, como sou organizador, consegui que vocês pudessem fazer o passeio antes que as margens estejam lotadas de convidados". Seiya e Saori agradeceram muito encabulados, o cunhado os deixou aos cuidados do gondoleiro.
Seiya entrou primeiro, ajudou Saori a se acomodar, ambos se assentaram, lado a lado, bem juntinhos pois o barco era estreito. Então, começaram a deslizar pelo rio de águas muito calmas. A luz da lua deixava tudo claro como o dia, e o espetáculo para a vista era emocionante: as flores de cerejeira caíam no rio e flutuavam sobre as águas, de forma que a gondola parecia flutuar em um rio cor de rosa. As flores continuavam a cair como uma chuva mágica sobre eles, a lua brilhava magnífica ao fundo e o perfume das flores envolvia todo ambiente.
Seiya passou o braço pela cintura de Saori, ela se aconchegou em seu corpo. Ficaram em profundo silêncio, mudos perante tanta beleza, não parecia real, o som leve das águas, o aroma das flores e o perfume um do outro que sentiam estando tão perto. Naquele ângulo, a beleza de Saori à luz da lua tirava o fôlego de Seiya, ele queria falar com ela, dizer do seu amor, mas a emoção era tão esmagadora, ele nem sabia por onde começar...
O gondoleiro parou em uma parte do parque, bem próxima ao pátio do templo, onde o "jardim" de cerejeiras parecia mais majestoso. Tudo estava decorado com lanternas de papel japonesas, de um tom levemente rosado, que realçava as cores das flores. O japonês já mais idoso perguntou: "Vocês gostariam de descer, para aproveitar a paisagem? Posso busca-los depois ou vocês podem caminhar de volta, há só uma trilha que vai até onde estávamos e não é distante."
Os dois se entreolhavam, tentando adivinhar o pensamento um do outro, Saori disse: "Pode nos deixar aqui, voltamos caminhando pela trilha, para apreciar o parque, será um passeio muito agradável." Ela também não via a hora de poder ficar sozinha com Seiya, compartilhava a mesma urgência de abrir seus sentimentos para ele, não queria mais esperar, depois de tanto tempo se escondendo atrás de uma máscara impassível para dar exemplo no santuário... não queria mais negar a eternidade de seus sentimentos por ele.
Os dois desceram da gôndola, Seiya como antes, desceu primeiro, e ajudou Saori a desembarcar. Mesmo estando em solo firme, não soltou a mão da moça, sentindo a respiração descompassada apenas por esse pequeno contato. Confortável na situação - feliz pelo efeito que seu toque causava nele - a moça acariciava a mão que envolvia a sua com seu delicado polegar, o que enviava ondas de emoção por todo corpo do rapaz. Depois de caminharem um tempo, pararam debaixo da mais frondosa das árvores do parque, parecia uma planta milenar...
Seiya então, pegou a outra mão de Saori, fazendo com que ficassem frente à frente. Por alguns momentos, ficaram apenas admirando um ao outro, como se seu coração se derramasse à sua frente e pudessem apreciar o que havia de mais precioso lá dentro. Tanto sentimento, tanto tempo sentido, entesourado, e não verbalizado... era possível ler tudo naqueles dois pares de olhos... Seiya quebrou o silêncio, tomado por sua impetuosidade característica:
"Saori, algo que você me falou no mirante, não sai da minha cabeça, desde então, desejo uma oportunidade de falar novamente sobre isto... você me disse, que não havia me procurado, ou me encorajado a te procurar após a guerra, pois achou que eu merecia uma chance de uma vida normal. Que você não era merecedora de tomar nem mais um minuto da minha vida. Como você pode pensar uma coisa dessas? Só de imaginar uma vida sem te ver, sem poder estar perto de você, fico aterrorizado! Estes meses para mim, foram uma sucessão de vazios... me desculpe, mas cheguei a sentir saudades das batalhas, nelas eu tinha pretexto para ficar perto de você, mesmo que fosse apenas como um soldado te defendendo, pelo menos eu podia te ver, e te tocar de vez em quando..." A voz do cavaleiro ficou embargada, lágrimas teimosas escorriam de seus olhos, não conseguiu mais falar...
Saori soltou uma de suas mãos e levou ao rosto do rapaz, limpando as lágrimas suavemente... "Ah, Seiya! Confesso que também senti sua falta mais que tudo! Fiquei saudosa do campo de batalhas, em que estava sempre contigo, e vez ou outra nos tocávamos em momentos extremos... mas sentia que te devia tanto, pois se os outros cavaleiros sempre se arriscavam por mim, você ia além do dever, além do impossível... isto me fazia entreter uma alegria egoísta, me dava esperanças de que você nutria um sentimento mais profundo por mim – por minha porção mortal..." Ela parou, respirou fundo para ter controle das emoções, ainda acariciando a face de seu amado continuou:
"...Mas te vi tantas vezes ser torturado, sangrado à minha frente... e contra todas as chances, levantar, mesmo quando eu desejava que você se entregasse, pois te ver sacrificando-se por mim, era dor maior que o meu próprio sacrifício! Comecei a pensar, que talvez, estar perto de mim constantemente te fizesse mal. Me afastei - quem sabe outra moça menos complicada poderia te fazer mais feliz? Mas foi a coisa mais difícil que fiz, mais dolorosa que todas as batalhas! As noites destes longos meses tem sido testemunhas de minhas lagrimas de amargura que as saudades de ter você por perto me causa... mas achei, que depois de você se sacrificar tantas vezes por mim, eu também te devia um sacrifício, em troca de sua felicidade." Neste momento, ela também não suportou a emoção daquele momento de revelação de seus sentimentos mais profundos, seu coração totalmente desnudo aos olhos dele, lágrimas teimosas escorrendo de seus olhos.
Seiya então a abraçou forte e impetuosamente, aninhando seu rosto em seu pescoço, sentindo o perfume que há tanto tempo tinha sido sua inspiração e esperança... falou em seu ouvido "Saori, eu prefiro mil vezes dar a minha vida por você, te defender para me ajoelhar à sua frente e beijar suas mãos apenas... do que uma vida em que eu passe um dia sem te ver... nenhuma mulher no mundo poderá satisfazer meu desejo, minha ânsia por você! Nenhuma outra família poderia me fazer feliz, se não for a que nós dois construirmos juntos! Não existe outra felicidade ou outra vida para mim, que não seja com você, mesmo que você não me ame e deseje apaixonadamente, como eu me sinto por você, por favor, não me afaste de você de novo!" E ficou daquele jeito abraçado com ela por um longo momento, todas as partes do seu corpo, sentindo o encaixe perfeito com o corpo dela, seu coração descompassado, a respiração ofegante.
Ela então se afastou um pouco, sem quebrar o abraço, as duas mãos segurando os dois lados do rosto de Seiya, pensava em como ele podia ser tão lindo? Aquela beleza selvagem, os olhos de menino, refletindo uma paixão que ele nunca tinha deixado transparecer assim em toda sua potência. Ela o olhou nos olhos e falou "Seiya, por todos este tempo eu tenho te amado, logo que você chegou da Grécia eu sentia um incômodo em relação à você, que depois comecei a perceber que era uma atração muito forte que sentia, me tirava de minha zona de conforto, você me tirava o chão... naquela noite que você me perguntou se eu arriscaria a vida com você, e eu disse que lhe confiava plenamente, eu selei meu destino, meu coração passou a ser irremediavelmente seu... eu não te amo com o meu dever de amar todos meus cavaleiros, eu estou – desde que nos reencontramos – completamente apaixonada por você! Eu também não quero mais Seiya, uma vida em que eu não possa te ver todos os dias, e estou disposta a pagar o preço que seja necessário!"
Seiya não aguentou mais a emoção daquele momento, os olhos vidrados nela, a sua vulnerabilidade, a sinceridade desnuda daquela declaração... diminuiu a distância que os separava, tocando seus lábios nos dela. O beijo começou lento, inicialmente só um toque, como se quisessem comprovar se aquilo não era um sonho. Então, ele começou a se movimentar com leveza, explorando os lábios doces de seu grande e único amor. Ela levou as duas mãos para sua nuca, separando levemente os lábios, dando maior acesso a ele e aprofundando o beijo que se tornou intenso e apaixonado. Ficaram um bom tempo neste primeiro beijo, sob a luz da lua cheia, uma chuva de flores de cerejeiras caindo sobre os dois, eternizando a cena mágica - pareciam ao longe, um quadro impressionista, eternizado em sua beleza!
Quando se afastaram, Seiya olhou mais apaixonado do que nunca nos olhos de Saori "Eu te amo, te amo, te amo" acompanhando as frases de leves beijos salpicados em seus lábios... ela sorria: "Te amo mais que tudo, meu Seiya!" Ele se ajoelhou, pegou sua mão entre as suas... "Quer ser minha namorada?" Ela sorriu, o levantou beijando-lhe de novo... "Preciso mesmo responder?"
FIM
P.S.: Pessoal, haviam muitas possibilidades de se concluir esta história, mas achei que terminar no auge da beleza, daria a imaginação de vocês alimento para pensar o que aconteceu depois. Ela não está totalmente finalizada, publicarei em breve um epílogo. Gostaria de receber feedbacks, pois é a primeira história que escrevo. Obrigada por lerem!
P.S.2 : Me desculpem se exagerei no romance, mas eu sempre achei que Seiya e Saori mereciam momentos felizes e apaixonados, que fizessem jus a beleza desse amor que encoraja a dar a vida pelo outro.
