Hyoga e Shun estavam caminhando para casa. A calada da noite permitia que evitassem a fama angariada com a exposição da Guerra Galática. As armaduras estavam guardadas no Coliseu e, agora que eram efetivamente detentores de suas armaduras de bronze e de ouro, não havia porque temê-las. Havia barreira atrás de barreira para resguardá-las, e elas não precisavam ser tão intrincadas assim.
A primeira e mais mundana era a segurança automatizada do Coliseu: era preciso ser um ladrão profissionalíssimo para entrar lá. Mas até aí, vale à pena um desses mestres dos dedos leves arriscarem-se para centenas de quilos em ouro maciço. A segunda, era o seguro: com todas as armaduras devidamente seguradas por dez vezes o seu valor, a seguradora garantiria que as armaduras dormissem em paz.
Em seguida, vinham dois fatos mais místicos sobre as Armaduras: Kiki, cujo treinamento para Cavaleiro estava sendo dado, após a morte de Mu, por Shina, podia senti-las, teleportar-se e trazê-las de volta. E por fim, os seus próprios donos poderiam queimar seus cosmos, agora suficientemente fortes, e invocá-las onde quer que elas estivessem, pelo menos numa ilha das proporções daquela que abrigava Tóquio. Por isso os dois Cavaleiros que agora andavam pelas ruas desertas do centro de cidade não precisavam temer perdê-las.
Shun vestia calças cargo de um branco levemente amarelado, cheia de bolsos, calçava all-stars azuis e cobrindo o dorso uma camiseta azul justa, de mangas pequenas, que revelava bastante do corpo magro e muito bem definido. O cabelo verde estava preso num rabo de cavalo que não era refeito já há algum tempo, deixando algumas mechas soltas. Hyoga já não se vestia tão bem, preferindo o básico jeans, tênis de corrida prateados e a camiseta do Lokomotiv Moscow.
Estavam próximos ainda do Coliseu, tendo acabado de deixá-lo, e ao invés de dirigirem, preferiram dar uma caminhada pela orla da Baía de Tóquio, como Shun gostava muito de fazer e, de tanto o acompanhar, Hyoga passou a adotar aquele hábito também. Shun olhou para o alto com uma expressão longínqua e caminhava com aquele olhar perdido no céu escuro, até que Hyoga o trouxe de volta à Terra.
- Shun? Está tudo bem?
- Anh? Ah, sim. Claro, Hyoga. É que, depois de passar tanto tempo na Ilha de Andrômeda, depois no Santuário... ainda não me acostumei com o céu da cidade grande. As luzes dela ofuscam todas a não ser as mais fortes estrelas do céu. Até a lua parece menor, não acha?
Hyoga sorriu um sorriso manso e parou de andar, acompanhado por Shun, cruzando os braços e dirigindo também os olhos azuis pro céu. Fitou o firmamento por alguns instantes antes de dar continuidade à conversa:
- É verdade. Ficamos um tanto desorientados quando não conseguimos enxergar nossas constelações, não é?
Shun aquiesceu, balançando a cabeça, os dois agora, solitários naquela rua que se apinhava de pessoas apressadas durante o dia, olhando o céu.
- Uhum. Eu não consigo ver a Nebulosa de Andrômeda. Acho que aquela estrela ali pertence a Cisne, entretanto!
Shun terminou com um sorriso quase infantil, de olhos fechados, até que abriu os grandes e expressivos olhos verdes e ia seguir caminho quando Hyoga o conteve, segurando sua mão, e Shun mergulhou o amigo no mar verde de olhos que sorriram antes apenas para esconder uma angústia maior. E Hyoga pôde enxergá-la.
- Você está procurando Fênix no céu, não é?
- Como sabia?
- A estrela que me apontou é de Fênix, Shun.
Shun sentiu os olhos encherem-se e transbordaram quando Hyoga o envolveu num abraço, repousando o rosto do Cavaleiro de Andrômeda em seu ombro e, deixando-se levar pelo doce cheiro dos cabelos verdes sedosos que lhe tomaram os sentidos. Shun chorou por alguns instantes, sentindo os dedos de Hyoga acariciarem sua nuca e, sentindo um arrepio percorrer sua espinha, olhou para ele, não entendo muito bem o que ele fazia.
Os rostos estavam muito próximos, os olhos azuis plácidos de Hyoga mal focalizavam os verdes repletos de expectativa de Shun.
- Ei, eu tenho uma idéia – disse Hyoga – porque não vamos ao Planetário da Fundação? Lá podemos olhar as estrelas que quisermos!
- Boa idéia! – Shun animou-se e, agora ele puxando Hyoga pela mão, pôs-se a andar de volta para o complexo do Coliseu – Mas vamos cortar caminho pelos jardins, as jasmins deixam um cheiro maravilhoso lá durante a noite!
No caminho, Shun não conseguia pensar em palavras. Hyoga não soltara sua mão, andava o tempo todo segurando ela! O que será que isso queria dizer? Será que Hyoga sabia o que Shun sentia e... agora depois de dois anos iria finalmente corresponder aos sentimentos que Shun mantinha em silêncio?
Shun decidiu que era finalmente a hora de falar ao amado o que sentia, mas o toque cessou no momento em que Seiya veio correndo, esbaforido, preocupado. Hyoga não queria que ele os visse?
- Shun! Hyoga! Venham rápido!
- O que aconteceu, Seiya?
- A Mino, Hyoga! Ela está sendo atacada! Venham!
- A Mino?! – Hyoga estava chocado, não podia acreditar naquilo! Quem atacaria Mino? E porque Seiya se deu ao trabalho de vir chamá-lo ao invés de cuidar ele mesmo do agressor? – Como assim, Seiya?
- Venham rápido, quando verem vão entender!
Os três se puseram a correr com toda a velocidade que lhes cabia e, em questão segundos, estava, diante de Ikki, debruçado sobre Mino, com a mais transtornada das expressões, Shina e Marin de pé ao lado dele. Os cães, afugentados por ele, estavam observando a tudo de longe, latindo e rosnando. Seiya não havia previsto os cães, teria de pensar em algo rápido. Contava na verdade com a impetuosidade de Ikki e a animosidade que já existia entre este e Hyoga para que aquele detalhe passasse despercebido.
- Ikki! O que você...?
Hyoga não podia acreditar naquilo. Na verdade, podia sim. Podia e queria, porque nunca, em nenhum momento, acreditou plenamente na redenção de Ikki. Ikki nunca foi capaz de integrar-se aos demais Cavaleiros, sempre agiu por si só, e a bem da verdade dedicava uma lealdade muito maior a Shun do que a Saori. Ao menos, era isso que o ego ferido de um Cavaleiro que, no começo tido como um dos mais fortes, dizia a respeito daquele que o superou diversas vezes. Era o suficiente para que a temperatura no local caísse drasticamente e um halo de brancor tremendo envolvesse o Cavaleiro de Cisne. Ao fundo, um raio da mesma cor do halo, disparou do Coliseu em direção aos céus.
- Espere, Hyoga, deixa o Ikki falar... – Shun estava praticamente em choque, imóvel, incapaz de agir ou pensar com coerência diante da visão do corpo de Mino completamente dilacerado e de Ikki, coberto de sangue, inclinado sobre ele.
E, a esta altura dos acontecimentos, nem Ikki nem Shina tinham paciência o suficiente para tolerar disparates do arrogante Hyoga. Ao raio branco que unia o Coliseu ao céu uniu-se um de roxo profundo, e outro prateado, invocado por Seiya. Marin não podia acreditar naquilo, e precisou afastar-se de Ikki uma vez que, se o ar estava congelante, a aura que envolvia Ikki era tão quente a ponto de causar aquele efeito na visão comum em estradas em dias muito quentes, ou nas imediações de uma chama forte.
E ela também não podia crer que Seiya estivesse tomando parte nesta briga dos de pavio curto. Sabia que era arriscado, arriscado até demais se intrometer. Já não era de hoje que aqueles envolvidos lhe superaram em poder e habilidade, e não seria diferente agora, especialmente se, esquentados como eram, acabassem por vê-la tomando o partido de algum dos lados. Mas afinal, porque Seiya também estava se deixando levar? Foi Hyoga que pulou para trás e, num flash fortíssimo de luz, tocou o chão, afastado de alguns metros dos demais, vestindo a armadura de Cisne e colocando Shun, que chorava em silêncio, com os olhos vidrados em lugar nenhum, no chão. O plano de Seiya parecia funcionar bem.
- Ikki, você vai pagar pelo que fez a Mino! Por se rebelar contra Athena!
Ikki sabia pisar em calos quando queria e, puto como estava, não queria apenas pisar, e sim esmagar.
- Cala a boca, seu pederasta, filho da puta de um recalcado! Larga o meu irmão e vem até aqui – e numa explosão de chamas, a Armadura de Fênix vestia o corpo de Ikki – pra eu limpar o chão com a sua cara por achar que eu fiz isso à Mino, e pra te provar de um vez por todas que você é e sempre vai ser mais fraco que eu! E Seiya! Por que você está com ele?!
Seiya sorriu ironicamente, e aquilo fez o coração de Marin saltar pela boca. Se antes Ikki lhe lembrava de Aiolia, era Seiya agora que agia exatamente igual seu falecido amado naquele breve período em que teve a mente controlada pelo poder do Satã Imperial! Shina também percebeu essa discrepância, mas ao invés de reagir como Marin e notar que havia algo de errado, ela apenas se enfezou ainda mais. Ao mesmo tempo, as armaduras de Pégaso e Cobra vestiram Seiya e Shina.
Marin, entretanto, sabia que Ikki e Shina nada tinham a ver com o assassinato de Mino, e por isso iria defendê-los se necessário fosse. Mas Ikki e Shina tinham condições de agüentar Seiya e Hyoga, desde que os embates se dessem nessa ordem. Além do mais, com Seiya e Hyoga machucados, era provável que a Guerra Galática não pudesse continuar e, com isso, acabaria-se essa doideira ingênua que Saori tentava fazer.
Seiya finalmente respondeu Ikki:
- Por que eu também nunca confiei em você, Ikki! Eu sei que você matou Mino porque senti um cosmo maligno, instantes antes de achar vocês aqui!
E foi então que percebeu-se o raio verde subir do Coliseu em direção ao céu, seguido de uma explosão da mesma cor, e Shiryu, com olhos transbordando de ódio, uniu-se Hyoga e Seiya. Este último mal pôde conter sua satisfação em ver o abalado Cavaleiro de Dragão unindo-se a eles ali.
- E eu também, Seiya! Foi esse cosmo me trouxe até aqui. Ikki, seu maldito! Você vai pagar pelo que fez à Shunrei!
- O quê?! Como assim?! – Ikki não podia crer. Porque estavam todos acusando ele? Apenas porque não aceitara participar da farsa de Saori?! – Eu não fiz nada à Shunrei!! Por que vocês estão fazendo isso comigo?!
- CONTIGO?! – Vociferou Hyoga – Você é aquele que desde o princípio só surgiu no momento em que a vida de seu irmão corria perigo, você é aquele que desde pequeno tentou ser diferente de nós todos, você é aquele que nunca se uniu plenamente a nós, e mais uma vez, negou a ordem expressa de Athena e foi embora com as Armaduras de Fênix e Leão! E agora quer que achemos mesmo que não foi você que fez isso a Mino quando está imundo com o sangue dela?!
Aquilo era demais para Ikki agüentar, e Hyoga não teria tido velocidade o suficiente para desviar do soco flamejante que veio em sua direção e, não fosse Shiryu colocar-se no caminho com seu escudo, era provável que Ikki abrisse um novo rombo na Armadura de Cisne. Depois de muito tempo calada foi Shina quem decidiu falar.
- Deixem Ikki em paz! Não foi ele quem fez isso, e é fácil provar! Basta ver as câmeras de segurança!
- Foi ele sim, Shina! Veja – redargüiu Seiya, apontando para os postes finos onde se erguiam as câmeras – todas elas estão quebradas!
Seiya estava diferente, e Shina iria achar seu amado, o Seiya de sempre, ali dentro, nem que fosse debaixo de porrada! E por isso, num trovão, partiu para cima dele.
Marin observava a tudo, atônita: Shun, abraçado aos joelhos, chorando em silêncio. Shina e Seiya digladiando-se. Ikki enfrentando um Hyoga que se libertava finalmente, e um Shiryu à beira da loucura. Desse jeito, o próprio Ikki não duraria muito. Ela precisava igualar as coisas. Portanto, queimou seu cosmo, vestiu a armadura de Águia, e uniu-se à batalha, igualando três para cada lado.
Ao que parecia, uma analogia irônica se formava ali: seis Cavaleiros de Ouro enfrentaram-se até a beira da morte nos jardins da Casa de Virgem. Agora, seis Cavaleiros, quatro de Bronze e duas de Prata, enfrentavam batalha similar, uma vez mais, os jardins do Complexo do Coliseu.
Os cães, sem que ninguém percebesse, trataram de correr para longe dali. Animais, afinal, sabem quando é a hora de se afastar de um cataclismo.
Notas:
1 – Obrigado mais uma vez a Kyubi-chan e ao Andarilho pelo apoio.
2 – Deixem reviews!! Quero saber o que estão achando! Sejam eles bons ou ruins.
3 – Uma licença poética foi tomada: eu sei que a luta das Exclamações de Atenas de seu dentro da Casa de Virgem, e não os jardins. Mas assumiu que foi nos jardins para se assimilar à cena em questão.
Boa leitura!
