Ano 6 parte 2
No final da estação, Quinn Fabray observava a dinâmica entre os alunos e pais. Podia ver o clã abraçando os filhos, tal como os pais de Santana e de Finn Hudson. Alguns dos alunos tinham expressões deprimidas e até mesmo zangadas, outros estavam excitados por mais um ano em Hogwarts. A maioria era apenas adolescentes médios, que não se importavam com política, discussões ideológicas ou culturais. O que mais importava para estes era sobreviver a escola, aos estudos e aos pequenos dramas pessoais. A dor de uma rejeição do interesse amoroso, ou de inesperada nota baixa poderiam ser muito mais dolorosos do que um assassinato em massa em Paris. O jornalismo tem uma espécie de teoria sobre isso, certo? Não era o tal valor-notícia, que dizia que tudo que era mais próximo era mais relevante do que aquilo que acontece em outros locais? Sim, Quinn leu algo assim num dos livros que encontrou no apartamento de Athena. O que acontece na sua rua é muito mais importante do que acontece na rua de outro país. Logo, o que acontece contigo será sempre visto como prioridade.
"Você vai ficar bem." Athena encorajou a protegida. "Hogwarts é..."
"... um dos lugares menos seguros do mundo!" Quinn completou irritada. "Que piada!"
"Não é perfeito, mas é o melhor que temos. Você vai ficar bem, garota. Não se preocupe."
Quinn caminhou relutante pela estação e entrou no expresso. Procurou um lugar para ficar sem ser incomodada, mas era difícil. Não tinha mais dinheiro para comprar uma cabine para chamar de sua, não tinha certeza sequer se tinha algum amigo depois de um ano de isolamento e mais o fato de ter sido dedo-duro para os aurores: um testemunho que teve sua parcela de contribuição nas investigações dos aurores comandados por Harry Potter. Procurou um vagão mais "ameno". Talvez algum com muitos alunos novatos. Atravessou um vagão de cabines, esbarrando quase que constantemente em alunos, professores e funcionários do expresso. Evitava espiar as portas das cabines para saber quem estava as ocupando. Abriu a porta de acesso vagão seguinte. Era o último antes do vagão de passageiros "regulares", onde julgava que poderia sentar-se sozinha e passar o resto da viagem em paz.
"Olha quem está aqui." Kitty Wilde e as duas garotas que a seguia encararam Quinn para baixo e para cima. Elas pararam na frente de Quinn de um jeito nada amigável. Era compreensível, uma vez que Hildon Wilde, pai de Kitty, também estava preso.
"Prazer em vê-la, Kitty." Quinn procurou passar a impressão que não se importava com a presença das garotas. "Minions..." Se referiu as outras duas.
"Como se sente?" Kitty perguntou e Quinn sabia que isso era a preparação para algum tipo de ataque.
"Muito bem, obrigada."
"É como imaginei." Kitty forçou um sorriso dissimulado. "Ratos se sentem realizados depois da traição."
"Deve ser por causa disso." Quinn corrigiu a postura, empinou o nariz. O orgulho Fabray talvez fosse a melhor herança de Russell que recebeu. Ela jamais daria o gostinho ao inimigo, especialmente depois de todo trauma que sofreu.
"Sabe o que fazemos com ratos?"
Kitty sinalizou para as duas capangas, que avançaram de surpresa em Quinn. Elas a empurraram forte contra uma das paredes do expresso, machucando o ombro e a lateral do crânio por causa do impacto. Quinn ainda tentou alcançar a própria varinha. Não deu tempo. Foi jogada no chão em seguida e recebeu um pisão de Kitty bem na boca do estômago.
"Ratos são esmagados." Kitty olhou com menosprezo para Quinn, e continuou o caminho rumo a própria cabine, ignorando os olhares dos alunos que saiam das cabines daquele vagão que foram atraídos pela pequena confusão.
Uma dessas pessoas era Finn Hudson. Agindo como um cavalheiro que ele julgava ser, foi até a colega e ofereceu-lhe a mão. Quinn aceitou até por não estar em condições de rejeitar nenhum gesto afetuoso que poderia conseguir para si. Levantou-se e se curvou para frente sentindo o golpe. Segurou-se em Finn para se equilibrar em pé, respirou fundo e endireitou a postura, procurando ignorar a dor.
"Está bem?"
"Está tudo ótimo!" Respondeu ríspida apenas para se arrepender no segundo seguinte.
"Por que não entra na minha cabine para sentar um pouco e tomar água?"
"Não tem a menor necessidade. Estou bem."
"Que monte de merda." Quinn conhecia muito bem a voz que veio por trás dela. "Deixa de ser a estoica orgulhosa por um segundo e aceite a proposta do gigante paspalhão."
"Não preciso da caridade dele, Lopez, ou da sua."
"Eu discordo. Além disso..." Santana se aproximou de Quinn e Finn. "Eu vou precisar de você."
Santana sinalizou para dentro da própria cabine que dividia com Lily, Rachel e Hugo, que acompanhavam tudo da porta. Quinn acenou e acompanhou Santana, trazendo Finn consigo. Os seis sentaram nas poltronas. Hugo, Rachel e Quinn de um lado, Lily, Santana e Finn do outro. O silêncio constrangedor pairou incialmente.
"Alguém aceita sapos de chocolate?" Hugo abriu a embalagem e o sapinho encantado pulou em cima de Lily, que rapidamente manejou em captura-lo e o devolveu ao primo.
"Esse ano vai ser tenso." Finn comentou, fazendo Santana revirar os olhos.
"É por isso que precisamos ficar unidos, como um exército." Lily disse. "Como a Armada de Dumbledore, fundado pelo meu pai e co-liderado por minha mãe junto com o tio Nell."
Foi a vez que Quinn revirar os olhos. Se tinha algo que ela detestava nos Potters e Weasleys era a soberba que achavam que poderiam cultivar pelo papel de liderança e resistência proeminente que tiveram na segunda guerra bruxo. Santana também teve vontade de fazer o mesmo, mas tinha aprendido a se controlar para não causar atritos desnecessários com a namorada.
"Pelo menos estamos em paz." Rachel contestou. "Não foi o seu pai e sua tia que se tornaram heróis... de novo... por terem desarticulado todos os grupos extremistas que estavam atuando no Reino Unido?"
"Meu pai está trabalhando para evitar a profecia, mas não podemos esquecer que Samuel Evans está foragido." Lily relembrou o detalhe fundamental. "Enquanto ele não estiver preso, o perigo não passou."
"A gente não tem que fazer exército nenhum, Lily." Santana retrucou. "Mas é obvio é precisamos ficar unidos porque há muita gente com raiva por aí, sem falar naquele panaca. Ainda não sabemos se nos livramos de todos os projetos de death eaters de Hogwarts."
"Todos que eu conhecia estão presos, Santana." Quinn informou. "A maioria era filhos de supremacistas, como meu pai, que foi forçado nessa vida, como eu fui. E tinha também gente que frequentava o culto de Blaise Zabini, como era o caso de Evans."
"E o que você fazia com esses caras?" Finn estava curioso.
"Eu só os encontrei em três ocasiões em Hogwarts, numa espécie de reunião secreta. Todo mundo usava máscaras, mas a gente conseguia se reconhecer pela voz. O primeiro encontro foi basicamente para me apresentar ao grupo, o segundo foi para planejar o ataque contra Santana. Eu me voluntariei porque era a forma que encontrei para não deixar que Santana fosse morta."
Santana quis fazer um comentário esperto, mas ela se lembrava muito bem do dia do ataque e de que Quinn realmente a salvou, quando um dos death eaters juniores a desarmou e a mobilizou.
"Por que você se importa tanto com ela?" Lily perguntou com certo tom enciumado.
"Porque é melhor suportar a mediocridade do clã do que uma era de trevas."
"Eu nunca te agradeci por aquele dia, Fabray." Santana finalmente se pronunciou após o relato. "Só não pense que esqueci tudo o que você me fez no ano passado. De bom e de ruim. Nós somos aliadas, mas eu não sei dizer se voltamos a ser amigas."
Quinn acenou. Ela entrou no expresso achando que teria de enfrentar mais um ano de solidão, mas o resultado não foi ruim. Ela tinha perfeita consciência de que recuperar a amizade com Santana e os outros iria levar algum tempo. Aquela aliança era um bom começo.
...
O frio que fazia no meio da floresta era daqueles que popularmente dizia fazer doer até o osso. Apesar disso, Samuel estava com o peito nu. A calça que usava estava úmida e os pés encharcados devido a um desequilíbrio que o fez cair no riacho próximo a mansão. Mas ele precisava continuar. Estava entre matar ou morrer. Não havia outra opção além das duas: ou ele completava o rito ou ele seria morto pela Ordem. Estava escuro e havia neblina. Conjurar lumos máxima pouco adiantava naquela circunstância. Os pulmões ardiam, a pele queimava pelo frio, podia sentir suas mãos ficarem dormentes. Era o início de uma hipotermia e Samuel não tinha certeza de quanto tempo poderia aguentar. Procurou ignorar as intempéries e se concentrar apenas no seu objetivo.
Correu floresta adentro em direção ao suposto santuário que deveria encontrar. A corrida era um artifício para que não congelasse, continuar se movimentando era questão de vida e morte, por mais que suas pernas ardessem do esforço.
Escorregou no terreno pantanoso formado descendo o rio. Caiu meio de costas, machucando a lateral das costas no impacto. Sujou-se todo. A varinha escapuliu da mão. Estava escuro, muito frio. Apalpou o terreno próximo. Precisava encontrar a varinha.
"Accio varinha." Experimentou.
Nada.
Deu um soco no chão e depois contorceu-se de for por ter atingido uma pedra. Gritou o mais alto que pôde. Precisava liberar a frustração. Sentia frio, seus cabelos longos e loiros estavam úmidos e sujos de lama, sua pele queimava e coçava. Ajoelhou-se e engoliu o choro. Apalpou o terreno próximo mais uma vez, com mais calma. Conseguiu achar a varinha. Levantou-se e conjurou.
"Calidum."
Sentiu uma onda de calor reconfortante pelo corpo. Era um feitiço útil para as circunstâncias, mas não durava muito. A sensação passava depois de alguns minutos. Os mestres disseram que conjurar tal feitiço com frequência num espaço curto de tempo poderia fazer o indivíduo queimar de dentro para fora. Mas era suficiente para Samuel sentir-se revigorado e recomeçar a jornada.
Procurou afastar-se do terreno pantanoso, seguindo o curso do rio mais ao longe. Precisava encontrar o quanto antes. A própria ida dependia disso.
"Lumus maxima."
Provocou um breve clarão em meio a floresta. O suficiente para provocar a reação de alguns animais que estavam próximos. E pelo som do relinchar, Samuel sabia que o alvo estava próximo. Guardou a varinha. Ando com cautela e procurou aproxima-se devagar. Em meio a neblina, a luz parca da lua crescente que penetrou num pequeno vão em meio a floresta, lá estavam três deles.
Samuel agachou-se e contemplou os três unicórnios. Eram animais magníficos, que pareciam emanar um suave brilho próprio que emergia de dentro da pelagem alva. O chifre era elegante, majestoso, o dorso tão magnífico que qualquer cavalo caro de raça se pareceria como um animal pouco nobre. Havia um unicórnio menor, ainda dourado. Um filhote. Era a primeira vez que Samuel via unicórnios tão de perto e ele percebeu que poderia chorar. Na verdade, ele choraria só em pensar pelo que estava prestes a fazer.
Unicórnios eram animais que aceitavam mais o toque feminino, por isso precisava ser paciente. Revelou-se aos animais, que reagiram inquietos, mas não se afastaram. Samuel permaneceu imóvel. Mal respirava. Por dentro, podia sentir o próprio coração contraindo contra a caixa torácica. Precisava ser paciente, clamo. Mas estava frio, muito frio. Sentiu as mãos voltarem a ficar dormentes. Era a hipotermia que o ameaçaria.
Chegou a pensar por um segundo: e se ele não fizesse? E se ele desistisse de tudo e voltasse para a mansão? Seria morto. Foi o que Blaise Zabini disse. O teste era de vida ou morte. Se ele conseguisse, teria grande poder em mãos. Caso contrário, morreria ou pelas mãos da Ordem ou a natureza se encarregaria. A Ordem... estava frio, as mãos dormentes, a dor nas costas, a sujeira, a umidade.
Samuel puxou o punhal preso ao cinto. Deixou a arma colada contra o corpo e ficou quieto. Quando achava que os animais estavam o ignorando, dava um passo adiante. Precisava ser paciente, não poderia simplesmente correr porque unicórnios eram muito velozes e ele perderia a chance. Não podia usar magia para prender algum porque aqueles animais eram imunes a armadilhas mágicas. Precisava ganhar a confiança. O mais jovem se aproximou. Parecia curioso com a presença do humano que não se movia. O unicórnio maior relinchou, mas era como se o filhote não desse atenção a advertência.
Pobre filhote.
O golpe dado por Samuel foi preciso, de baixo para cima, rasgando uma parte do pescoço do filhote. Os três unicórnios correram. Samuel correu. Tentou ir atrás. Podia seguir o odor do sangue. Sim, ele podia. Era forte e, ao mesmo tempo, adocicado, como um perfume. Encontrou o filhote cambaleante. Já não poderia mais fugir. Estava fraco. Os pais pareciam angustiados, sem saber se salvavam a própria vida ou lutassem. A fêmea empinou. Samuel estava assustado, mas ele não podia mais voltar atrás. Correu em direção a família e assustou os animais incendiando uma árvore. Os adultos foram, o filhote dourado ficou.
Samuel ajoelhou-se. Pegou o punhal e abriu-lhe mais a garganta. Respirou fundo. O momento havia chegado. Debruçou-se sobre o corpo da criatura mágica e sugou-lhe o sangue. Permitiu que o líquido sagrado, que lhe daria condições de superar a morte, lhe curasse. A sensação era extraordinária, como o impacto de uma droga num usuário de primeira viagem. Se ele soubesse...
Deitou-se ao lado do corpo do pequeno unicórnio. Seu rosto estava completamente coberto s sangue. Mas ele se sentia ótimo. Não havia mais frio ou cansaço. Só a sensação de que poderia abraçar o mundo.
Estava feito. Não havia mais volta. Samuel havia completado o rito de entrada para a Ordem. Agora pertencia as trevas e as trevas eram dele. Um só. Assim, ele se encontrou.
...
"O que você está fazendo aqui, Lopez? Você está fora do time."
Kitty disse com um sorriso dissimulado nos lábios. Estava de braços cruzados à frente do resto da equipe remanescente do ano anterior de Slytherin, além de alguns novos elementos. Santana estava atônita. Vestia seu uniforme de quadribol e segurava a novíssima Firebolt. Ao lado dela, Quinn tentava manter a postura estoica de sempre, mas a verdade que estava pronta para socar Kitty na primeira oportunidade.
"Não pode me expulsar do time. Malfoy me nomeou capitã quando ele se formou, como é a tradição da nossa casa. Eu comando a equipe e eu digo quem está dentro e quem está fora, Wilde." Santana estava fazendo um esforço grande para não bater na garota petulante do terceiro ano.
"A não ser que a maioria do restante do time pense diferente." Kitty retrucou. "E o time pensa diferente, especialmente porque cogita a volta... dessa aí."
"Fabray é a melhor apanhadora de Hogwarts."
"Ela não pode jogar conosco!"
"Ela cumpriu a pena e está liberada para participar de qualquer atividade extracurricular."
"Você pode até jogar, Lopez." Kitty continuou firme a frente do resto. "Você pode até ser capitã, como Malfoy indicou. Mas Fabray não joga no mesmo time que nós."
"Do que você está falando, sua trapaceira?" Santana estava a um passo de perder toda calma. "Você foi expulsa do time porque trapaceou. Na verdade, você é só uma jogadora sem talento algum tentando compensar o poder perdido depois que o seu pai supremacista pedófilo foi preso."
"Lopez..." Netunus tentou argumentar. "Pelo menos Wide nunca foi uma death eater. Já Fabray... ela é uma vira-casaca. Eu fico muito feliz de você ser a nossa capitã neste ano, mas não podemos admitir Fabray nesta equipe."
"San..." Quinn segurou o braço da amiga. "Não precisa esquentar com isso. Se eu jogar ou não jogar, não vai fazer diferença."
"Vai fazer para mim." Santana continuou falando firme, diretamente para Kitty e para o resto da equipe. "Claro que esperaria esse tipo de atitude dessa basilisco, mas de você, Netunus? E de vocês, Goyles? Nós formávamos um time antes desta besta chegar. Eu, vocês, Fabray, Malfoy... a melhor equipe de Slytherin em anos. Nós vencemos as duas últimas taças. Vencemos no ano passado. E como vocês podem ficar ao lado de uma jogadora que foi expulsa por trapacear? Que moral você tem para falar da Fabray?"
"Eu nunca quis te atacar, Lopez." Wilde contra-argumentou. "Eu nunca quis a sua morte, mesmo agora quando todo mundo sabe que você nunca foi uma de nós de verdade."
"Do que você está falando?" Santana franziu a testa.
"A profecia vazou, Lopez." Netunus explicou com certa cautela. "Todos sabem que você deveria ter sido escolhida para Gryffindor. Há alguns colegas dentro da nossa casa que acham que você deveria ser expulsa."
Aquela briga parecia ter impasses mais profundos. Santana e Quinn podiam ver certo remorso em Joanna Thompson e Netunus Black, mas não nos irmãos Goyle. Pudera, eles tiveram pessoas da família presas na operação comandada por Harry Potter. A informação vazou para a imprensa durante as férias. Foi um detalhe que ninguém achou que pudesse fazer diferença, mas ela fazia toda para os orgulhosos Slytherins.
"Eu sempre honrei o escudo da nossa casa." Santana disse entre os dentes. "Muito mais do que a maioria de vocês."
"A equipe votou, Lopez." Netunus disse sem conseguir encarar a colega. Ele estava desesperado para encerrar aquela discussão. "Não jogamos com dedo-duro. Ou ela ou nós."
Santana balançou o rosto sem acreditar no que estava acontecendo. Fechou os olhos por um segundo e depois apertou os lábios. Trocou olhares com Quinn, segurou a mão da colega e virou as costas para o resto do time. Estava fora. Aquele era ano de campeonato de escolas. Hogwarts mandaria uma equipe para Koldovstoretz, na Rússia. Oliver Wood iria treinar a equipe sozinho, já que Ginny Potter negou o convite por ter outros trabalhos a fazer, e a convocação de Santana era dada como certa. Mas a partir do momento em que ela virou as costas para a equipe, sabia que havia perdido a chance. Que tinha aberto mão da atividade extracurricular que mais amava fazer em Hogwarts. Tinha pela consciência que fez a coisa certa, mas isso não queria dizer que estava feliz. Quinn e Santana caminharam de volta para o castelo sem conversarem. O silêncio era sempre a melhor opção na hora em que a raiva estava à flor da pele. Santana largou a mão de Quinn e adiantou-se três passos.
"San, espera..." Quinn apertou o passo para alcançar a colega. "Eu aprecio o que fez por mim..."
"Quinn!" Santana puxou o braço. "Só me deixa em paz."
Passou a tarde emburrada, procurando evitar as pessoas que gostava, que nem eram tantas assim na escola. As vezes pensava como era estar no "lado negro da força". Como estaria Samuel Evans fazendo o que quisesse como bem entendesse? E se ela própria se permitisse fazer o que bem entendesse? Para começar, teria humilhado Kitty Wilde e retomado a liderança do time à força. Independente de qualquer profecia, ela era Santana Lopez, a garota que foi o terror de Hogwarts. Era tão mais fácil quando alunos corriam dela pelos corredores. Por que ela tinha de ser boazinha? Talvez não precisasse ser a escolhida todo tempo.
Entrou na área de dormitórios de Slytherin. Não havia muitas meninas naquele momento porque a maioria dos alunos estava nos arredores do castelo ou em Hogsmeade para aproveitar a tarde de sol. Ou então estavam fazendo alguma atividade. Rachel, por exemplo, estava na primeira sessão do coral de música muggle. Santana viu a porta do dormitório das garotas do terceiro e quarto ano. Abriu a porta, que não tinha senha, e aproveitou o lugar vazio para xeretar. Identificou a cama de Kitty e sorriu maliciosa.
Julgou que fez uma bela obra de arte. Pensou que os professores de feitiços e de transfiguração iriam ficar felizes em saber que aquela aluna, pelo menos, estava prestando atenção nas aulas. Saiu do dormitório e dirigiu-se para a sala comunal. Encontrou Quinn por lá, como se estivesse ansiosa para conversar.
"Está melhor agora?" Quinn perguntou arqueando uma das sobrancelhas. Vendo a relutância da colega, abriu um pequeno sorriso. "Eu vi você entrar no dormitório e tenho certeza que você foi muito... criativa."
"Tenho certeza que acabei de tornar este ano ainda mais complicado. Mas se ouvir o grito que espero ouvir, vai valer a pena."
"Bom..." Quinn desdenhou. "Você sempre poderá ir para Gryffindor caso as coisas deem errado por aqui."
"Por que eu faria isso?"
"Não é a sua casa de origem? Não é onde você deveria estar desde o início? Não deveria fazer trancinhas em sua namorada desde o primeiro ano? Além disso, ouvi dizer que os dormitórios de lá são bem melhores que os nossos. Quem dera se eu tivesse essa opção."
"Eu não trocaria o nosso belo dormitório por nada." Santana abriu um breve sorriso.
Quinn a encarou em silêncio, apertou os olhos.
"É óbvio que você trocaria!"
"Num estalar de dedos."
As duas ficaram em silêncio quando Kitty e outras duas capangas entraram na sala comunal em direção aos dormitórios de Slytherin. Santana e Quinn procuraram fingir estarem indiferentes. Santana fez a contagem regressiva em sua mente e deu um soco no ar em comemoração quando ouviu o grito que esperava. Piscou para Quinn e correu com a varinha nas mãos. Quinn foi atrás. Entraram na porta do dormitório e viram Kitty bufando: boa parte do quarto estava quebrado como se tudo fosse feito de vidro.
"Ouvimos gritos!" Quinn disse com dissimulação. "O que houve?"
"Isso é obra sua e dela!" Kitty gritou.
"De fato é uma obra de arte. Não é fácil fazer transfiguração para vidro, sabia?" Santana respondeu.
"Você nem vai negar?" Uma das minions estava impressionada.
"Pra quê? E correr o risco de alguém roubar a autoria do meu feito?"
Kitty tentou atacar Santana de surpresa, mas foi facilmente defendida. Quinn avançou sobre as outras duas garotas, para garantir que elas não interferissem na briga que já estava ganha. Enquanto Quinn conjurou uma corda que prendeu as duas garotas, Santana conjurava um ataque que fez Kitty voar atrás do dormitório. Então, calmamente caminhou até a garota mais jovem.
"Fique com o time se quiser, Wilde. Me denuncie para Chang ou para Thompson, me coloque o resto do ano de detenção. Por mim, tudo bem. Eu mereço pelo trote. Mas saiba que essa é a última vez que você age nas minhas costas. Se você aprontar contra mim ou contra as pessoas que eu me importo, juro que te mando para St. Mungos na próxima vez." Santana virou as costas para Kitty, deixando-a no chão. Quinn liberou as outras duas garotas e acompanhou a amiga.
No final do dia, como era esperado, Santana e Quinn receberam um aviso para se encontrarem com a professora Flora Carrow, diretora de Slytherin. Flora tinha assumido a posição de professora de porções depois de aposentadoria de Horácio. Antes, ela dava aula de História da Magia, em que costumava lecionar com o ponto de vista ligeiramente favorável à filosofia Slytherin. A conversa durou cinco minutos. Santana simplesmente assumiu tudo que fez e ganhou a punição: um mês sem direito a ir a Hogsmeade e limpar a estufa três vezes por semana. Achou que saiu no lucro: um mês passava num piscar de olhos.
Ao final do dia, depois do jantar e de tentar ignorar o melhor possível os sussurros e apontamentos que vinham de Slytherin, Santana e Quinn se recolheram no dormitório. Mesmo com Quinn de volta ao dormitório, Santana não voltou a dividir espaço com ela. Preferiu ficar junto com Rachel. Mas Quinn estava imediatamente ao lado, ocupando a única unidade individual do dormitório, o espaço mais isolado que ninguém realmente queria.
"Você precisa maneirar, San." Rachel advertiu, ainda que sussurrando à irmã. "É muito cedo para criar confusão e você sabe que não pode..."
"Não está escrito em lugar algum que eu preciso ter sangue de barata."
"Eu sei, Kitty é uma idiota. Só que você pode tornar as coisas muito difíceis para todos nós se continuar assim."
Santana olhou bem para a irmã e balançou a cabeça.
"Você é mesmo uma Slytherin, não é?"
"Quando isso virou um problema?" Ela rebateu.
"Eu não sei..." Santana sentou-se na cama depois de organizar seus objetos. Ela não queria confessar nem para si mesma, mas estava se sentindo mais e mais desconfortável em ficar na casa verde, como se a natureza Gryffindor que carregava em si começasse a reivindicar. "Vá dormir, ok?"
Observou Rachel acomodar-se e as luzes serem apagadas. Olhou do outro lado da mureta e viu que Quinn também estava acomodada na cama. Todas as garotas do dormitório estavam se acomodando. Santana esperou. Quando percebeu que o silêncio tomou conta do ambiente, pegou a varinha e sussurrou.
"Protego máxima."
Uma redoma azulada envolveu o quarto dela e de Rachel, se estendendo até o de Quinn. Só então sentiu tranquilidade para encostar a cabeça no travesseiro e dormir.
...
"Você precisa saber distinguir o que é bom do que é feito pelas mãos impuras."
Blaise Zabini deu a Samuel uma taça de vinho. O aprendiz, como lhe foi ensinado, sentiu o aroma e depois bebericou um pouco do líquido tinto. Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios causado pela sensação de prazer e bem-estar. O vinho desceu suavemente por sua garganta, um sabor que parecia ter sido feito sob medida para ele.
"Esse vinho é espetacular. Nunca provei nada parecido antes."
Blaise sorriu e, com os gestos elegantes que tinha, indicou a direção a um dos bruxos que estava presente à festa.
"Apollon Lars-Brion. A família dele administra a vinícola mais prestigiada do mundo em Bordeaux desde 1423. São duas linhas de produção. A safra mais nobre é destinada a nós, enquanto o material de segunda é industrializado para os muggles. Os Lars-Brions são bruxos puro-sangue de uma das mais antigas linhagens da França."
"Por que bruxos puro-sangue fariam negócios com muggles imundos?" Samuel questionou.
"Porque nem toda dominação tem a ver com força bruta. Os Lars-Brions foram os primeiros entre nós a entenderem que a ignorância e o medo dos muggles são as coisas mais letais deste mundo. Eles decidiram conhecer o inimigo e até fazer negócios com eles, mas mantiveram a casa intocada, entende? Pura."
Samuel franziu a testa, não entendendo muito bem a relação. Interpretou corretamente que, quando Zabini dizia que a família tradicional francesa se mantinha pura, significava que eles não se misturavam com muggles ou mestiços. Mas era conflitante a ideia de que eles mantinham negócios com muggles. Zabini puxou Samuel em direção a Apollon Lars-Brion e os apresentou. O empresário estendeu a mão ao jovem de quase 16 anos e o cumprimentou com um aperto de mão firme, direto. Era um homem de meia-idade que cultivava um cavanhaque mosqueteiro bem desenhado, cabelos pretos, ondulados, penteados para trás. Vestia um impecável terno cinza escuro, colete e gravata borboleta.
"O senhor Evans experimentou o vinho agora pouco." Zabini informou a fim de introduzir propriamente uma conversa entre os dois.
"Oh, sim. Nunca provei nada tão bom em minha vida." Samuel respondeu com a esperada juventude, provocando uma breve gargalhada do francês.
"Espero que sim, meu jovem. Nosso esforço é para esse fim."
"Pura aeternum semper." Zabini disse.
"Et aeterna puritate." Responderam Samuel e Haut-Brion ao mesmo tempo. Então os dois se entreolharam admirados.
Pura aeternum semper (o puro é eterno) é o lema da Ordem. A resposta, Et aeterna puritate (e o eterno é a pureza) é a resposta codificada que os membros da Ordem dão a frase e, assim, são capazes de se identificarem.
"Oh!" Lars-Brion levou a mão até o ombro de Samuel. "É um orgulho saber que alguém tão jovem tenha uma visão privilegiada de nosso mundo."
"Obrigado, senhor..." Samuel acenou educadamente. "Mas posso te fazer uma pergunta?"
"Claro! Sempre!"
"Seu que o senhor destina o melhor vinho para nós. Mas por que vende-lo também aos muggles?"
Lars-Brion sorriu. Pegou uma taça do próprio vinho e bebericou.
"O capital... o tão discutido capital, queira o não, é o que move o mundo. Precisamos de capital para poder viabilizar inclusive nossas ideologias. Queira ou não, o maior capital do mundo não está entre nós, mas com os muggles. O que vê nessa festa, meu jovem?"
Samuel olhou ao redor. Zabini o havia tirado da mansão e o levado para uma viagem as proximidades de Copenhague. Depois de um breve turismo a área bruxo da cidade, menor do que o Beco Diagonal, mestre e pupilo atenderam a uma festa em um velho castelo reformado. Em todo o trajeto, Zabini não explicou ao pupilo o real motivo para estarem ali. Não precisou de uma observação tão atenta para saber que aquela era uma festa de bruxos. Vestimentas, objetos e gestos deixavam tudo muito claro. O que tinha mais a ser observado? Bom, todos ali estavam muito bem vestidos e não se via ninguém ali com trejeitos plebeus, a não ser ele próprio. Havia poucas mulheres mais velhas. A maior parte das mulheres eram jovens. Com um pouco mais de atenção, conseguiu reconhecer Pietro Savannah, um dos melhores artilheiros de todos os tempos da seleção espanhola, que havia feito sua despedida com jogador profissional na última Copa do Mundo vencida pelo Peru.
"Todos são puro-sangue? De várias partes do mundo?"
"Quase!" Lars-Brion apontou para os mais velhos. "Está vivenciando aqui o principal encontro social europeus do empresariado bruxo. Boa parte está sim discutindo negócios e fechando parcerias. Mas todos nós também nos reunimos para discutirmos política e alianças. Entenda, meu jovem, que há pessoas aqui que defendem ideologias diferentes. E há nós, representantes da mais seleta Ordem de bruxos do mundo. Seu mestre sabe muito bem que precisamos estar a par de todas as discussões para montarmos nossas estratégias para fazer uma sociedade melhor. Sempre. Por isso, procure prestar atenção no que ouvir aqui, identifique outros irmãos. Seu mestre irá apresenta-lo a alguns deles, estou certo. Aprenda. Nossa Ordem sempre formou importantes líderes em todo mundo. Todos começaram jovens como você. Os que foram arrogantes, falharam. Aqueles que souberam ouvir, triunfaram."
"Por que há tantas mulheres jovens aqui e poucas mais velhas?" Samuel perguntou, provocando um sorriso nos dois. "As mulheres mais velhas estão aqui como negociantes. Algumas mais jovens, e você conseguirá diferenciá-las se olhar com atenção, são aprendizes, como você. Outras não são puras e, por isso mesmo, só tem um propósito."
Samuel captou a mensagem apenas pelo sorriso malicioso dos dois homens mais velhos. Em meio a tanto treinamento, o mestre também saberia lhe prover alguma diversão. Já fazia algum tempo desde que Brittany e ele romperam. Talvez fosse momento de recomeçar o jogo. Além disso, lembrando-se das palavras de seu melhor amigo, precisava manter a prática até a chegada do prêmio principal. Samuel mal podia esperar.
...
"Por Merlin!" Santana resmungou pela enésima vez enquanto carregava um carrinho de mão cheio de terra adubada. "Se isso não provar que o professor Longbottom ainda me odeia, então eu não sei de mais nada deste mundo."
"Menina Santana precisa treinar os músculos."
"E o elfo Simons precisa parar de opinar de vez em quando." Santana retrucou ao velho conhecido elfo que a acompanhava na tarefa dentro da estufa. "Sem falar que eu passei as férias malhando músculos a mando daquela auror doida." Resmungou.
Subiu com o carrinho de mão até a rampa, embalou o passo e despejou a terra preparada sobre a caixa de cimento dentro da estufa que Neville usava como recipiente para facilitar o próprio trabalho tanto nas aulas quanto na manutenção da estufa. Santana detestava aquele lugar. Ela detestava as aulas de Neville porque o professor implicava com ela ao passo que sempre protegia Finn Hudson. Ficou muito tempo sem entender a razão, até que o ano anterior foi muito esclarecedor sobre o comportamento de muitos dos professores com ela.
Tinha tirado apenas "aceitável" como nota em herbologia nos testes O.W.L e, por isso mesmo, não foi mais aceita como aluna na disciplina. Não que ela tenha achado ruim. Era trabalhoso suficiente ter de fazer as disciplinas em que tirou "excepcional" nos testes: transfiguração, feitiços, defesa contra artes das trevas e estudos muggles. Santana ainda tirou "excedeu as expectativas" em porções, história da magia e astronomia. Optou por não continuar nem em astronomia e nem em estudos muggles, porque achava que já tinha aulas demais de nível O.W.L. Além de herbologia, foi medíocre em runas antigas, aritmancia e trato de criaturas mágicas. Não pôde continuar nessas matérias, mas ao menos não precisou repeti-las. Tirou "pobre" em adivinhação e não a fazia mais. Para Santana, não precisar pisar os pés nas aulas de adivinhação era uma felicidade, pois passou a ter horror de profecias.
"Satisfeito?" Virou-se para o elfo amigo que costumava acompanha-la nos castigos.
"Acredito que sua tarefa foi cumprida por hoje, menina Santana."
"Graças a Merlin! Mal posso esperar para tomar um banho."
"Mesmo? Até que te ver assim é interessante." Lily entrou na estufa com um sorriso sugestivo no rosto.
"Mesmo?" Santana ignorou por completo o elfo e caminhou em direção a namorada e a beijou.
"Te beijar assim suada só tem graça quando eu estou em condições iguais." Lily fez uma careta e Santana fingiu estar indignada.
"Simon, hora de aparatar." Esperou o elfo doméstico desaparecer e então sorriu maliciosa. "Posso dar um jeito nisso agora mesmo."
Santana segurou firme o pulso de Lily e a puxou para perto do tanque de terra. Pegou um punhado e esfregou a terra em todo braço da namorada, começando pelo ombro. Lily gritou indignada enquanto Santana gargalhava com a pequena travessura. Lily, sempre com espírito competitivo, não tardou em querer retribuir e uma pequena guerra começou entre gritinhos e gargalhadas.
"Eu me rendo!" Santana levantou as mãos. Estava suja de terra por completo, cabelo bagunçado e rosto todo sujo. Lily não estava melhor. "Agora que estamos em condições iguais..."
Lily puxou a namorada pela gravata e a beijou. De uma maneira estranha, a pequena guerrinha a deixou excitada. Não pensou a respeito no momento em que se perdia nos lábios, saliva e língua, o fato era que Lily começou a sentir tais desejos e necessidades de forma mais e mais intensa, a ponto de aproveitar o privilégio de um quarto individual para conhecer o próprio corpo. Pensou em conversar a respeito com Melissa Brown. A amiga tinha confidenciado que teve relações pela primeira vez nas férias de verão com Bail Onyo, e que foi uma experiência estranham segundo as palavras da própria. Mas estaria Lily preparada para o próximo passo? Estaria Santana preparada para o próximo passo? Lily não sabia se Santana conversava a respeito com as amigas dela. Com quem ela falaria sobre sexo? Com Brittany? As duas não eram mais próximas. Com Quinn? As duas tinham acabado de se reaproximar, e Lily sabia muito bem que a traição de Quinn ainda era um assunto mal resolvido. Achava que o certo mesmo era conversar a respeito com a própria namorada. O que faltava era certa coragem.
Enquanto isso, Santana a beijava e Lily sentia as pernas moles, a eletricidade na pele, e uma certa umidade que teimava em aparecer em seu centro. A vontade de tocar-se, ou melhor, de deixar a namorada tocá-la. Santana subiu a mão e deixou que o seu polegar maroto roçasse intencionalmente na lateral do seio da namorada. Isso deixava Lily ainda mais receptível a carícia, desejosa por mais. Num momento de coragem, segurou a mão de Santana e a conduziu até o próprio seio, fazendo a namorada quebrar o beijo.
"Lil?"
"Eu gosto." Justificou com o rosto ruborizado e 'ensinou' a namorada a tocá-la. "Continue."
Santana acenou. Procurou ser uma boa aluna, e também seguir os próprios instintos. Ela, ao contrário de Lily, nunca teve a chance de ficar sozinha e a explorar os sentidos do próprio corpo. Tinha vontade de aprender, de explorar, mas era insegura e tímida. Daí a hesitação e a surpresa por Lily ser tão mais confidente no que dizia respeito aos sentidos e aos prazeres. Santana tentou ler as reações da namorada enquanto prosseguia com a carícia.
"Assim?" Quis se certificar de que estava fazendo certo.
"Menina Santana!" Simon aparatou de repente, que se assustou e quebrou todo o clima no processo.
"Simon!" Santana ficou irritada. "Eu disse para você aparatar para outro lugar!"
"O professor vir para cá. Ele ver bagunça."
Santana finalmente deu uma boa olhada na estufa: estava uma zona, com terra espalhada pelo chão que, querendo ou não, costuma ficar limpo. Entrou em pânico sabendo que não teria tempo hábil de limpar sem usar mágica. Neville entrou na estufa em companhia de Finn e os dois se depararam com as garotas imundas de terra, com o chão imundo, um vaso de planta caído, e um elfo doméstico desaparecendo. De um lado havia perplexidade, do outro, constrangimento.
"Imagino que isso não foi o que a professora Carrow quis dizer quando mandou você ajudar a limpar as estufas."
"Desculpe professor." Lily se adiantou. "A culpa foi minha. Santana tinha arrumado tudo e eu... derrubei uma das plantas."
"Então você não vai se incomodar em limpar tudo sozinha, certo Lily?"
"Professor, Lily não teve culpa..."
"Lopez, acredito que a sua tarefa já terminou. Pode ir."
"Mas prof..."
"Agora, Lopez."
"Sim senhor."
Santana olhou para a namorada como se pedisse desculpas antes de sair da estufa. Não foi embora, no entanto. Ficou de fora, ao lado da porta, esperando Neville e Finn saírem. Ouviu a bronca que a namorada recebeu sem merecer. Esperou alguém sair e este foi justo Neville. O professor parou a porta, olhou para Santana e balançou a cabeça.
"Você tem responsabilidades demais para se envolver com confusões banais de escola, Lopez."
"Com o meu provável fim, o senhor acha que essas confusões banais são tão ruins?"
Neville olhou admirado para a aluna. Como podia? Ele se lembrava de com Harry Potter agia: ele se metia em confusões, quebrava regras, mas seus motivos nunca foram considerados banais: Voldemort estava sempre em seu encalço de um jeito ou de outro. Santana, por outro lado, era como se dedicasse energia demais para ser uma adolescente encrenqueira sem responsabilidades. Pelo menos, era como Neville a enxergava.
"Só tome cuidado com Lily. Ela é especial."
"Sei disso."
"Ok... vou para o meu escritório e você pode voltar para ajudar a sua namorada."
"Obrigada, senhor."
Santana observou o professor entrar num casebre entre as estufas, onde era o escritório a que ele se referia. Neville era o único professor da escola cujo escritório ficava fora do castelo. Hagrid não contava porque ele não lecionava mais em Hogwarts, apesar de continuar a morar na velha cabana de sempre, nos limites da floresta proibida.
Santana entrou novamente na estufa e viu a namorada com uma vassoura em mãos enquanto Finn arrumava a planta que havia caído em meio a brincadeira.
"Erva flux." Finn apontou para a planta quase como se aquilo fosse a única coisa que tinha a dizer. "Sabia que se for colhida em noite de lua cheia, ela pode ser usada para fazer porção polissuco?"
"Essa porção não foi proibida?" Lily perguntou antes de abraçar a namorada de lado e beijá-la rapidamente no rosto. Santana pegou outra vassoura e uma pá para ajudar na limpeza.
"Sim." Finn confirmou. "Ela foi banida dos livros didáticos atuais, mas eu encontrei uma edição antiga, dos anos 1960, que tinha a fórmula."
"E daí?" Lily estava curiosa, ao passo que Santana varria a terra que ela começou a espalhar em primeiro lugar.
"Nunca pensou em se passar por ninguém? Já pensou se você puder se passar por Thompson para poder jogar quadribol no próximo final de semana?"
Santana parou por um instante. Finn Hudson estava seriamente oferecendo preparar uma porção polissuco para ela poder jogar? Pensaria que aquilo seria uma armadilha se Finn não tivesse se transformado num aliado.
"Que ideia idiota! Só poderia vir da sua cabeça, Hudson."
"Você acha mesmo?" Lily questionou.
"Acho!" Santana disse com firmeza. "Seria idiota jogar o que eu sei só para valorizar alguém medíocre como Thompson e fazê-la ser escalada para o time de Hogwarts deste ano. Se for usar a porção de polissuco, é melhor que seja para algo que possa realmente valer à pena."
"Pensando por esse lado..." Finn terminou de arrumar a planta. "Apesar de que eu não incomodaria se você jogasse com os Puffs."
"Tão desesperado assim?" Santana provocou.
"Confesso que estou. Tirando Bloom, não apareceu ninguém realmente bom neste ano. Tenho certeza que vamos levar uma surra no primeiro jogo contra Gryffindor."
"Então é o caso de você tomar a porção de polissuco para tomar lugar de alguém como... Bail ou Lion, e jogar o que sabe." Santana sorriu.
"Não dê ideia ao inimigo, San." Lily advertiu.
"Realmente sou um fracasso no quadribol, não é?" Finn encostou-se na beira do tanque de terra.
"Sim!" Santana respondeu na lata.
"Não!" Lily disse ao mesmo tempo e as namoradas se entreolharam. "Talvez você esteja na posição errada."
"Ou na atividade errada." Santana complementou. "A única coisa decente que eu te vi fazer foi tocar bateria. Você é uma negação jogando quadribol, mas pode ser um músico ok."
Finn ficou pensativo. Talvez Santana tivesse razão. Ele era um capitão ruim de um time que não ganhava um jogo sequer há dois anos. Por outro lado, ele amava música e adorava tocar bateria. Pensou no coral de música muggle e no fato de o grupo estar eternamente implorando por novos integrantes. Finn deu um impulso e andou em direção a saída da estufa.
"Aonde vai, Hudson?" Santana perguntou, estranhando a atitude súbita do colega.
"Pensar."
...
Santana esperou o monitor passar para seguir sorrateira rumo ao quarto privado que visava. Pensou no quanto seria ótimo se tivesse o manto da invisibilidade da família Potter: a única relíquia da morte que ainda se tinha notícias, uma vez que a varinha das varinhas foi quebrada e a pedra da ressurreição foi perdida. Se tivesse tal notável objeto, seria muito mais simples atravessar chegar até o conjunto de dormitórios dos prefeitos sem ser pega. Alcançou o seu objetivo e, conforme o combinado, não perdeu tempo em bater. Abriu e encontrou o quarto vazio. Essa parte também estava no roteiro.
O quarto de Lily era pequeno, como dos outros prefeitos, com espaço suficiente para uma cama de solteiro, um criado mudo e um armário de duas portas. Os móveis não deixavam muito espaço de sobra. Alguns prefeitos abriam mão do quarto privado para continuar nos dormitórios, especialmente os prefeitos de Hufflepuff. Diziam que o sistema de dormitórios coletivos deles era muito mais aconchegante do que aqueles minúsculos espaços. Em muitos sentidos, a casa amarela e preta parecia melhor do que as demais. A sala comunal era melhor, tal como os dormitórios e a que tinha o acesso mais facilitado. Já os prefeitos de Slytherin não hesitavam em pegar o próprio dormitório.
Santana sentou-se na cama da namorada e esperou como uma boa menina. Depois do 'incidente' na estufa, Santana e Lily planejaram continuar a praticar novos toques. Santana tomou um banho e até pulou o jantar de tão ansiosa. Os quase quinze minutos de espera lhe pareceu uma eternidade. Olhou pela minúscula janela do quarto, que tinha vista parcial da floresta proibida e das outras torres do castelo. A paisagem ainda estava verde, o que era reconfortante para a escolhida: o inverno tinha sua beleza, mas o frio costumava a deixar irritada.
Lily entrou no quarto com os cabelos úmidos do banho que acabara de tomar. O coração de Santana disparou em antecipação. Ela achava a namorada linda de qualquer maneira, mas gostava especialmente do visual caseiro e mundano da ruiva.
"Que tal?" Lily sorriu. "Ainda estou atraente sem toda aquela terra no cabelo?"
"Você é atraente de qualquer maneira. Se você aparecesse aqui agora coberta de lama, ou ensopada de chuva, eu ia ficar fascinada de qualquer jeito."
"Você é muito besta e claramente é míope. Devia começar a usar óculos!"
"Por Merlin, não! Isso me deixaria com cara de nerd e eu não conseguiria assustar mais ninguém."
"San, você é uma nerd no armário!"
Lily abraçou a namorada e mexeu nos cabelos escuros, quase negros, que descia além da altura dos ombros. Ela adorava fazer o simples gesto. Achava o cabelo da namorada lindo, sedoso. Achava irresistivelmente charmoso o fato de Santana ser uma encrenqueira que não se importava em quebrar as regras, mas também uma garota muito feminina, que não dispensava pequenas vaidades, como cuidar dos cabelos, da pele, da aparência. Santana, por sua vez, amava os cabelos ruivos de Lily num corte que lhe dava uma franja longa, colocada sempre de lado. Era elegante e moderna ao mesmo tempo. Santana amava o fato de Lily ser durona e decidida, mesmo que por vezes pudesse ser metida e arrogante. Mas havia outras circunstâncias que ela mostrava o lado frágil, que era capaz de fazer o coração de Santana derreter.
Aquelas duas jovens estavam ali, abraçadas, se beijando no pequeno quarto com uma janela estreita, prestes a descobrir outros sentidos que o amor proporcionava. Lily, mais determinada do que a namorada neste aspecto, tirou a blusa e puxou Santana para sentar na cama de solteiro.
"Lil?" Santana arregalou os olhos quando viu os seios livres da namorada pela primeira vez.
"Está tudo bem." Lily pegou a mão da namorada e levou até o próprio seio. "Lembra de como me tocou hoje a tarde?" Santana acenou nervosa. "Você gosta de me tocar?"
"Sim..." Santana estava ficando um pouco nervosa, ao mesmo tempo que estava fascinada. Era a apreensão natural de toda garota quando se via diante de algo novo.
"Eu posso te tocar também?"
Santana acenou um pouco hesitante. Lily sorriu de forma encorajadora. Beijou a namorada nos lábios, passando para atrás da orelha, enquanto suas mãos passeavam pelo pescoço e pelos ombros. Lily quebrou a carícia, colocou uma mecha do cabelo de Santana atrás da orelha e tirou-lhe primeiro o agasalho, revelando a blusa cor grená de Gryffindor.
"Parece que você está abraçando a sua verdadeira identidade." Lily sorriu.
"Era só uma surpresa para você... mas que fique só entre nós..."
"Gostei, mas essa blusa vai ter que ir." Levantou a blusa e Santana levantou os braços para facilitar.
Devagar, Lily voltou a beijar a namorada enquanto suas mãos trabalhavam no fecho do sutiã. Se ela fosse parar para pensar, ficara abismada com a iniciativa que era toda dela. Parou um pouco para admirar o tronco recém-desnudo: a pele morena, o abdômen firme e levemente musculoso, os seios um pouco maiores do que os dela, firmes, com os mamilos eretos em claro sinal de que a namorada, apesar do nervosismo, também estava apreciando. Tocou os seios de Santana e as duas voltaram a se beijar, aprendendo ainda um pouco atrapalhadas qual era a melhor maneira de coordenar lábios e mãos. Não demoraram para entrar num acordo silencioso e prazeroso.
Deitadas na cama, Lily mais consciente das respostas do próprio corpo, procurou ser um pouco mais ousada. Levou as mãos ao rosto da namorada, que lhe beijava o pescoço e ombros.
"Beije aqui." Direcionou a namorada para os seios.
Santana, mais uma vez, procuro seguir seus instintos. Encostou primeiro a ponta da língua no mamilo e, devagar, começou a sugar de leve a beijar. Lily, excitada e sem se conter, colocou a mão dentro da própria calcinha e se tocou. O movimento chamou a atenção de Santana que, fascinada, rompeu o beijo para observar Lily.
"O que está fazendo?"
Lily ergueu o quadril e tirou a calça de moletom que costumava usar como pijama juntamente com a calcinha, que aquela altura estava arruinada em umidade. Santana prendeu a respiração quando viu a namorada deitada ao seu lado, nua em pelo.
"É gostoso tocar aqui." Ela continuou a passar a ponta dos dedos fazendo uma leve pressão no clitóris. Estava tão molhada que o dedo deslizava com facilidade. "Você já se tocou?"
"Não assim..." Santana ficou vermelha.
"Quer me tocar? Eu te mostro."
Santana apenas acenou. Lily beijou os dedos da namorada e os colocou na boca, num gesto altamente erótico, antes de segurar a mão de Santana e a conduzir até o clitóris.
"Faça assim, movimentos circulares mas firmes..." Rapidamente ficou ofegante quando constatou o quanto Santana entendia rápido.
"Está bom assim?"
"Rápido... oh San... isso é tão melhor do que me tocar sozinha." Lily já não conseguia segurar alguns dos gemidos. Sua respiração estava irregular e podia sentir uma onda percorrer o próprio corpo. "Coloque dentro... por favor... dois dedos."
"Mas se eu te machucar?"
"Não vai... eu já fiz isso sozinha... no meu quarto... fingindo que era você fazendo isso comigo." Lily mudou de posição e deitou de costas, abrindo as pernas, guiando a namorada a se posicionar entre elas.
Santana mal acreditava no que estava acontecendo. Mal acreditava que se permitiu procurar com a ponta dos dedos a aberturada vagina e os puxou para dentro, fazendo que o corpo de Lily se arqueasse em excitação. Lily estava tão molhada que Santana estava fascinada no quão fácil seus dedos escorregavam para dentro e para fora.
"Mova rápido, San."
Ela obedeceu. A mão esquerda trabalhava rápido, mas com gentileza. Sentiu Lily ficando mais ofegante, agarrando os lençóis, as paredes da vagina apertavam contra os dedos, até que ouviu próprio nome escapar dos lábios da namorada como um chamado. Lily segurou a mão de Santana e demonstrou que era momento de diminuir o ritmo enquanto as ondas do orgasmo ressonavam pelo corpo. Definitivamente, a real Santana era muito melhor do que a Santana imaginária.
"Você está bem?" Santana tirou os dois dedos e observou com grande curiosidade o modo como o corpo de Lily tencionava segundos atrás e, naquele momento, parecia totalmente relaxado.
"Estou ótima!" Lily gargalhou. "Absolutamente pronta para mais uma rodada."
Santana olhou para os dedos e, de forma hesitante, sentiu o cheiro e experimentou as secreções da namorada. Secretamente, ela teve medo de não gostar nem de um e nem de outro, mas não achou ruim. Pelo contrário, até que gostou.
"O que achou?" Santana se assustou com a pergunta. Estava tão concentrada que nem reparou que Lily a observava o tempo todo.
"Você é perfeita." Santana sorriu timidamente. "Eu totalmente te beijaria aí em baixo."
"Então beije. Eu também gostaria de saber como é. E isso só você poderá fazer."
"Tem certeza?"
Lily abriu as pernas novamente, reafirmando o convite. Santana se reposicionou, e achou meio estranho fazer algo que ela tinha visto apenas em fotos pornográficas que via rapidamente no computador com medo de Rachel ou Shelby a flagrarem. Afastou um pouco dos pelos pubianos da namorada (Lily os aparava, mas não depilava ainda aquela região) e passou a ponta da língua, da mesma forma como tinha feito nos seios minutos antes. Achou bom, especialmente por sentir a mão de Lily acariciando seus cabelos. Olhou rapidamente para cima e viu a namorada a observando com expressão serena. Isso a encorajou a definitivamente beijar e sugar o clitóris, se permitindo passear a língua ao longo do sexo, até a entrada da vagina e voltar até o ponto inicial. Sentiu Lily ficar novamente ofegante e isso a deixou mais determinada.
"San..." Lily tentou falar enquanto ainda podia ter alguma coerência. "Ponha os dedos de novo."
Santana, institivamente, tentou uma nova estratégia. Continuou a sugar o clitóris de Lily enquanto movimentava os dedos na vagina. Se atrapalhou um pouco no início, pela falta de experiência, mas assim como todas as coisas, logo conseguiu se coordenar. O segundo orgasmo de Lily veio mais rápido, devido ao estímulo e ao estado de sensibilidade que estava o corpo dela. Quando finalmente relaxou, puxou Santana para um beijo erótico nos lábios. Estava realizada, no céu. Quando chamou a namorada a aparecer no quarto, tinha sim planos para avançar uma base ou duas. A relação sexual em si veio naturalmente e ela ficou feliz por isso. A primeira vez dela não poderia ser melhor: sentindo prazer inigualável, pois ela já tinha passado pela dor da primeira penetração por contra própria, quando se masturbou.
Ela estava cansada e feliz. Ainda assim, sabia que precisava retribuir o favor e introduzir Santana ao mesmo prazer que sentiu. Sem pedir permissão, tirou a calça e a calcinha da namorada. Santana mal acreditava no quanto estava estimulada só pelo fato de ter feito sexo em Lily e também não tinha percebido que o próprio prazer estava a poucos toques dali.
"Posso?" Lily olhou nos olhos de Santana, que acenou e foi a vez dela abrir as pernas.
Lily a beijou nos lábios. Desceu para os seios e brincou com eles um pouco enquanto a sua mão direita viajou ao sul. Tocou Santana, que gemeu imediatamente. Era o momento da retribuição.
...
Lily pegou a goles e arremessou contra o gol dos Hufflespuffs, abrindo o placar do jogo. Comemorou rapidamente voando próximo do lado da arquibancada em que ela sabia que a namorada assistia ao jogo. Não era novidade alguma Santana estar na plateia vendo Lily e os Gryffindors jogarem. O diferente dessa vez era que Santana não passava de uma espectadora comum: uma das melhores artilheiras da história recente de Hogwarts estava ali, confinada na arquibancada, sem time para jogar. O mesmo acontecia com Quinn, que seria titular em qualquer equipe, mas que, pelo segundo ano seguido, estava fora do quadribol.
"Sua garota está dando conta do recado." Quinn comentou enquanto observava a dinâmica do jogo em que Gryffindor dominava o adversário.
"Lily se garante. Tenho pena é do Hudson. Só falta ele jogar de apanhadora para descobrir que realmente não presta para nada no quadribol. Como é que ele ainda está na equipe?"
"Ele é bom em conversas motivacionais." Quinn disse com tom irônico.
"Eu acho que ele joga bem."
Quinn e Santana olharam de lado perplexas para o comentário de Rachel. A pequena diva estava até então quieta. Ela raramente assistia aos jogos de quadribol em Hogwarts. Costumava ficar junto com Hugo, cantando a plenos pulmões enquanto ele tocava piano. Então, sim, era uma novidade ver Rachel assistir a um jogo de quadribol sem a companhia nem de Hugo e nem dos chamados perdedores do coral, especialmente de Mercedes e Kurt. Daí porque Santana desconfiar das intenções da irmã.
Outro gol de Lily fez Santana voltar o foco no jogo. Conseguia ler perfeitamente os movimentos de Gryffindor e sabia de onde vinha o desenho tático: de Ginny Potter. Lily estava jogando exatamente como a mãe dela na época das Holyhead Harpies. O estilo era muito veloz e que poderia liquidar facilmente times taticamente e tecnicamente inferiores, como Hufflepuff e até mesmo Slytherin, mas dificilmente funcionaria contra os Ravenclaws que, na opinião de Santana, era a única equipe que poderia ameaçar os Gryffindors naquela temporada.
Mike e Brittany estavam jogando melhor do que nunca, sem mencionar que a equipe azul encontrou a equipe de batedores do sonho: Blade Caldeñas e Lohanne Stone. A garota tinha físico de quem praticava halterofilismo. Bem que os Slytherins resistiram no primeiro tempo, fazendo um jogo de igual para igual. Os azuis disparam no placar no segundo tempo e, no terceiro tempo, o apanhador de azul pegou o pomo de ouro.
Em relação ao jogo atual, Santana mal podia esperar para que acabasse. Tinha planos a fazer com a namorada. Depois que descobriu o quanto que o sexo era bom, ela e Lily procuravam aproveitar as oportunidades que tinham para praticá-lo. Passou a torcer para que Blaine Anderson, em nova posição depois da saída de Rose Weasley, pegasse logo a droga do pomo de ouro. Fim do primeiro tempo. O time grená estava 70 pontos à frente do placar. Santana previa um massacre no segundo tempo.
"Bem que se podia fazer um show nos intervalos." Rachel observou. "Como se faz no Super Bowl. O meu coral poderia cantar uma música."
"Super Bowl?" Quinn perguntou.
"É a final do campeonato de futebol americano. Os americanos fazem disso o evento esportivo do ano, sabe? Com shows de mega-estrelas da música no intervalo e tudo mais. Empresas pagam uma fortuna para lançar novas propagandas nesse dia, há trailers de filmes. Rola muita grana."
"Curioso." Quinn estava indiferente. "Nunca ouvi falar."
"Eu mesma nunca vi também, porque o super bowl é transmitido enquanto estamos aqui, em Hogwarts. Mas é muito difícil ir aos Estados Unidos e não ficar sabendo o que é." Santana explicou enquanto os dois times estavam reunidos no gramado no breve intervalo do jogo. "Parece que vai recomeçar."
Finn marcou um gol no primeiro lance. O primeiro da vida dele em jogos oficiais e saiu comemorando muito. Rachel não se conteve. Levantou-se e o aplaudiu como nunca havia feito antes, assustando a irmã e a colega.
"Sério Rach, alguma coisa aconteceu entre você e o paspalhão?" Quinn estava intrigada.
"Nós conversamos. Finn quer frequentar o coral, tocar bateria. Desta vez será para valer. Nós fizemos um dueto e funcionou muito bem."
"Por Merlin!" Santana revirou os olhos.
"Mas você não namora Hugo?" Quinn franziu a testa.
"Claro." Rachel desconversou. "O que tem? Finn e eu apenas fizemos um dueto, mais nada."
"Cuidado com o que faz, Rach. Não sacaneie Weasley. Aconteça o que acontecer, seja honesta com Hugo."
"Credo, San. Quem vê assim até parece que eu quero terminar o namoro. Isso não está nos planos."
"Só que eu te conheço, Rachel Berry. Você é obsessiva quando quer alguma coisa. E se você quer Finn como seu parceiro nos duetos, que Merlin nos ajude. Só não estrague as coisas com Weasley porque eu não quero que as suas ações atrapalhem o meu relacionamento com Lily." Santana voltou a atenção ao jogo quando ouviu o apito que marcava uma infração devido a uma falta cometida por Bail Onyo.
O jogo se arrastou até o quarto e último tempo. Nenhum apanhador conseguiu pegar o pomo, mas o placar foi tão dilatado a favor dos grenás que não faria mais a menor diferença. O trio desceu da arquibancada e esperou o grosso dos alunos saírem da arena para o castelo. Alguns ficariam pelo gramado para aproveitar os últimos minutos de sol antes de terem de entrar. Quinn seguiu sozinha com o grupo, ao passo que Rachel esperou para conversar com Finn e dizer que, apesar da derrota, que ele jogou muito bem. Santana esperou pela namorada.
Lily comemorou brevemente com o time ainda na saída da arena. Abriu um sorriso quando viu Santana a esperando e correu para beijá-la.
"Foi um ótimo jogo, bae." Santana segurou a mão de Lily, entrelaçando os dedos enquanto as duas caminharam acompanhando o grupo. Santana ainda olhou para trás e acenou para Quinn e Rachel. Voltaria a falar com as duas depois.
"Obrigada."
"Ela não é uma ótima capitã?" Melissa Brown estava acompanhando as duas na ocasião. Santana não gostava da garota. Achava que ela era uma fofoqueira e uma falsa, mas tinha de tolerá-la porque era a dita melhor amiga da namorada.
"É a melhor." Santana concordou, mas não esboçou maiores reações de simpatia para Melissa.
Muitos Gryffindors passavam e cumprimentavam Lily. Muitos deles eram sinceros e pareciam gratos pela vitória. Santana pouco sentia o ar de cobrança com a equipe. Talvez porque eles fossem realmente bons, mesmo tendo perdido as duas últimas finais justo para Slytherin. Era diferente na casa de verde em que a equipe era cobrada pelo resultado, seja ele acadêmico ou esportivo. Isso a fazia ponderar mais e mais sobre o seu verdadeiro lugar, do que ela realmente era e do que ela supostamente deveria estar rodeada. Até quando valeria a pena conjurando protego todas as noites antes de dormir? Até quando ela aguentaria a rejeição da própria casa? Até quando suportaria as ameaças? Por outro lado, diferente de Santana que se tornou uma Slytherin por um jogo de manipulação, Rachel vestia mesmo o verde. Por isso que Santana tinha medo de mudar de casa e deixar Rachel sozinha, pagando pelos 'pecados' da própria irmã.
"Ei? Santana para o planeta Terra!" Lily sacudiu o braço da namorada.
"O quê?"
"Eu disse que a você poderia ir comemorar comigo em nossa sala comunal e depois... a gente pode ir para o meu quarto." Disse de forma sugestiva.
"Ou você poderia comemorar com o seu time e seus amigos e depois nos encontramos na entrada para os dormitórios dos prefeitos. O que acha?"
"Tem certeza? Eles não vão se importar. Eles sabem que você é uma de nós."
"Lily, eu já te disse que não me sinto confortável com essas coisas."
"Eu sei, desculpe. Mas é querer demais ver a minha namorada frequentar o lugar que ela realmente pertence?"
"Sim e não. Lil..."
"Okay, não precisa explicar de novo."
Lily beijou rapidamente Santana nos lábios antes de seguir com o resto do time para a tradicional comemoração. Santana desacelerou o passo. Deixou o grupo seguir adiante cantando o grito de vitória da casa, celebrando a grande atuação de Lily e de Bail. Viu quando alguém ergueu Lily e a colocou em cima dos ombros. Estava feliz pela namorada, de verdade.
Santana andou devagar pelos corredores do castelo sem pressa de chegar a entrada dos dormitórios dos prefeitos. Cruzou o caminho com Brittany e Mike. Acenou para o casal, mas ninguém parou para conversar. Era em momentos assim que ela se lembrava do quanto Brittany fazia falta. Santana não pensava mais nela como namorada, mas por vezes se encontrava saudosa da amiga que Brittany era. Continuou a caminhar sozinha, enrolando pelo castelo, pois não tinha muito que fazer. Pensou então em ir a sala precisa. Talvez pudesse treinar um pouco, aliviar a tensão antes do encontro romântico.
Foi quando, num dos corredores, viu Kitty e as duas capangas encurralando Marley. Resmungou e xingou baixinho. Sacou a varinha. Primeiro nocauteou a minion mais próxima. Depois fez a segunda voar alguns metros. Kitty, atenta ao ataque, agarrou Marley e a fez de escudo, colocando a varinha contra o pescoço da Hufflepuff.
"Não se meta nos meus negócios, Lopez." Kitty tentou parecer confiante e ameaçadora, mas a verdade que ela própria estava com medo, porque sabia não ser páreo para a adversária.
"Eu não quero me meter nos seus negócios, Wilde." Santana sorriu e guardou a varinha no suporte anexado ao cinto da calça jeans. "Viu, podemos resolver isso sem varinhas. Apenas largue Bob Marley."
"Todo mundo sabe que você consegue conjurar sem varinha. Abaixe as mãos, Lopez."
"Tudo bem..." Santana abaixou as mãos. "Ei, Marley, está tudo bem aí?" A menina acenou nervosa, sem entender exatamente o que Santana queria com aquela conversa mole. "O que foi desta vez? Você respirou mais forte? Não conseguiu passar por Kitty pela metragem mínima de distância? Ou você simplesmente existiu?"
"Corta o papo, Lopez!" Kitty advertiu.
"Ok!" Santana levantou as mãos, com as palmas voltadas para as garotas. Rapidamente apontou o indicador em direção a elas. "Expelliarmus."
A varinha voou das mãos de Kitty, permitindo que Marley reagisse, se libertasse e corresse para o lado de Santana. Ao ver que Santana não mais atacou, e também sem querer arriscar a sorte contra uma bruxa mais experiente e mais poderosa, Kitty sorriu de forma dissimulada e recuou.
"Você anda se metendo muito nos negócios alheios, Lopez. Permanece em uma casa que não é a sua, nos ofendendo toda vez que troca saliva em público com a Potter enquanto veste o nosso uniforme sagrado. Depois não reclame que o ambiente esteja hostil para você."
"Desde quando um uniforme é sagrado, Wilde?"
"Está avisada."
"Tchau, Kitty."
Santana observou a garota ajudando as outras duas a se levantar e depois se afastar, sem se preocupar em dar as costas para o inimigo, pois sabia que Santana era honrada suficiente para não atacar. Quando o trio estava fora de alcance, Santana finalmente respirou e voltou-se para a colega mais jovem.
"Caramba, Marley. Você precisa aprender a se defender de uma vez por todas."
"Eu não gosto de brigar."
"Não se trata de gostar ou não de brigar. Se trata de saber se defender desses bullies! Elas não irão embora enquanto ver em você um alvo fácil. Aquelas garotas, Kitty... eu sou a madre Teresa perto dela. E você... você é Marley, a garota bacana e bonita de Hufflepuff com lindos olhos azuis."
"Você acha que eu sou bonita?"
"Definitivamente."
Marley sorriu envergonhada. Não era todo o dia que o crush dela a elogiava.
"E quanto a você?" De repente, Marley ficou preocupada, se lembrando da ameaça. "Sobre o que Kitty disse. Das coisas ficarem difíceis para você em Slytherin?"
"Não acredito que ela vá piorar as coisas como elas já estão."
"Se piorarem?"
Santana pensou a respeito. Na verdade, ela não parava a pensar sobre o clima hostil a ela em Slytherin desde quando as aulas começaram. Se perguntava até quando era prudente permanecer na casa, mesmo quando a escola inteira parecia conhecer a profecia e a manobra feita pelos professores anos atrás.
"Sei cuidar de mim mesma. Mas obrigada pela preocupação." Sinalizou para que ela e Marley andassem para outro lugar.
Caminhou com Marley até próximo ao salão e seguiu o próprio caminho até a entrada dos dormitórios dos prefeitos. Encontrou Lily ainda em uniforme do time e parecia impaciente.
"Oi bae!" Santana segurou a mão da namorada.
"O que foi?"
"O que foi o quê?"
"Você está com cara de que alguma coisa aconteceu."
"Kitty estava atormentando Marley de novo."
"Aposto que você foi a cavaleiro no cavalo branco mais uma vez."
"Ciúmes?" Santana sorriu. "Da Marley?"
"Claro que não! Mas é óbvio que ela tem uma queda por você."
"Deixa disso. Você me prometeu mostrar um certo quarto."
Lily apertou os olhos endireitou a postura de uma forma austera antes de segurar a mão da namorada e a conduzir escadaria acima.
...
"Por que sua adversária é poderosa?" Blaise Zabini perguntou a Samuel enquanto os dois estavam numa arena circular sentados de frente um para o outro em posição de meditação oriental.
"Porque ela treina desde muito cedo e..."
"Resposta errada."
"Porque ela é naturalmente poderosa."
"Resposta errada."
"Porque ela é esperta?"
"O senhor está me perguntando? Pergunta errada!"
Samuel balançou a cabeça impaciente. Havia três meses em que estava na companhia de Zabini, a maior parte deles às sós, na mansão da Ordem dos Puros. Ele treinava a arte das trevas e com afinco e estudava a história segundo a versão dos livros da Ordem. Aquela era uma organização secreta milenar que admitia poucos membros: apenas um ou dois noviços vindos de qualquer parte do mundo eram submetidos aos testes por ano. Eram jovens como Samuel, que vinham de uma linhagem de bruxos antiga e considerada de puro-sangue (só o sangue dos puros abrem os portões da mansão). Todos também apresentavam traços normativos considerados ideais: heterossexuais, abertos a sugestões e doutrinações, inseguros, perdidos. Ou seja: jovens perfeitos para terem a mente moldada em favor da Ordem. A maior parte dos integrantes eram homens, mas havia algumas mulheres.
Samuel, no entanto, era especial. Além de todos os requisitos ideais, ele ainda fazia parte de uma profecia que se tornava mais e mais conhecida no mundo bruxo. Era uma joia rara, um diamante a ser lapidado pela Ordem.
"Mestre, por que a minha adversária é poderosa?" Samuel perguntou em tom humilde.
"Porque ela é um símbolo acima de tudo. O símbolo em si não é perigoso. A questão é que todo símbolo representa uma ideia. As ideias detêm o verdadeiro poder."
"Se destruirmos o símbolo, destruímos a ideia?"
"Oh, meu caro Evans, o senhor é realmente estúpido!" Zabini gargalhou. "A destruição de um símbolo pode reforçar a ideia. Se você quiser verdadeiramente destruir um símbolo e a ideia por trás, é preciso inventar outro mais persuasivo e melhor. E se isso não for possível, troque o símbolo e se aproprie da ideia."
"Como eu faço isso? Como eu posso ser um símbolo mais poderoso que minha adversária?"
"Isso é um trabalho em progresso da Ordem. O seu trabalho é efetivamente se tornar mais poderoso do que sua adversária, pois o enfrentamento será inevitável. E quando chegar a hora, você vai matá-la e vai conquistar tudo que deseja."
...
Rachel estava inquieta. De um lado estava Hugo Weasley, o adorável ruivo de olhos verdes, pianista, sensível e fiel. Do outro estava Finn Hudson, lindo, alto, que além de tocar bateria, sabia cantar o suficiente para acompanha-la. De fato, ele era o único da atual formação do coral que conseguia acompanha-la estabelecendo uma autêntica parceria de vozes. Finn era a escada para que Rachel pudesse brilhar. Diferente do que acontecia toda vez que ela tentava cantar com Kurt, Mercedes ou Blaine. Era excitante finalmente ter encontrado a peça perfeita.
O problema era que Rachel, em sua personalidade possessiva, egoística e compulsiva (não era à toa que pertencia a Slytherin) seria capaz de fazer qualquer coisa para obter o que desejasse. E o que ela desejava mais do que tudo naquele momento era Finn Hudson. E quanto a Hugo? Rachel não tinha coragem de terminar o namoro e fazer a coisa certa. Hugo estava admirando um novo sintetizador com tecnologia muggle adaptada para poder funcionar no ambiente mágico. Finn, por sua vez, vestido com a camiseta dos Appleby Arrows, conversava com Mike sobre qualquer coisa. Rachel pensou em se aproximar com a desculpa para falar sobre o coral e gentilmente afugentar o outro colega.
Sim, ela poderia falar com Finn antes de se encontrar com Hugo e se preparar para dar cabo a um relacionamento amoroso que nunca progrediu. Que nunca passou de abraços, beijos nos lábios e passeios de mãos dadas porque Hugo nunca despertou em Rachel o fogo para querer ir além. Para Rachel, Hugo era um amigo em que ela tinha quase a obrigação de segurar a mão e recebe-lo com um beijo nos lábios. Isso não estava certo. Finn, por outro lado, tinha o frescor da novidade, do desejo. O grandalhão mesmo sendo o capitão do pior time da história de Hufflepuff, ainda conseguia ser um dos garotos mais populares de Hogwarts. Finn tinha o cheiro do carisma que estava ausente na Slytherin.
Rachel olhou como uma águia em direção ao objeto de desejo e deu um passo à frente, apenas para recuar num pulo para trás, seguido de um grito de susto. Santana desaparatou em sua frente com um sorriso sacana no rosto.
"Bu!" A irmã mais velha começou a gargalhar por causa do estado de Rachel.
"Por Deus, Santana! Você um dia vai me matar."
"Oras, eu preciso praticar. Estou um mês atrasada e não posso perder tempo."
Aulas para aprender a aparatar eram as únicas optativas dadas em Hogsmeade. Eram destinadas aos alunos do sexto ano que tinham autorização dos pais (também para os alunos do sétimo que precisavam do reforço), e precisavam serem feitas na vila por causa dos feitiços de proteção do castelo. Mesmo que Santana não tivesse autorização de Juan e Shelby para as aulas, ela receberia tais aulas com autorização da diretora.
"Vai praticar matando outra pessoa!"
Santana olhou ao redor e viu que algumas pessoas estavam observando as duas, inclusive Finn e Hugo. Pode-se dizer que o grito de Rachel chamou a atenção daqueles que estavam próximos. Hugo andou em direção as irmãs.
"O seu namorado está vindo para cá e eu preciso voltar para a aula."
Santana aparatou deixando, sem saber e sem querer, a irmã em uma situação incômoda.
"Aulas de aparatação?" Hugo comentou casualmente. "Rose e meus primos me assustaram algumas vezes."
"Isso é horrível!"
"Nem tanto. A gente se acostuma... depois, ano que vem será a nossa vez." Hugo beijou o rosto da namorada e segurou a mão dela. "Que tal tomar um sorvete?"
"Não. Preciso preservar minha voz."
"Podemos fazer outra coisa. Ouvi dizer que a senhora Persival vai recitar algumas poesias performáticas na livraria."
"Não estou afim de ouvir poesias sobre dragões sanguinários e famintos."
"Bom Rachel, não é que a gente tenha grandes opções de entretenimento em Hogsmeade ou na escola. O que quer fazer para aproveitar esses últimos dias de sol?"
"Acho que prefiro voltar ao castelo."
"Claro... podemos namorar um pouco lá, certo?" Hugo disse esperançoso. Ao contrário de Rachel, ele sempre queria mais. Obviamente pensava em sexo, como todo garoto hormonal prestes a fazer 15 anos. Mas ele respeitava a namorada e jamais tentava forçar situações e fazê-la experimentar sensações que talvez ela não estivesse preparada. Ele era paciente e, por enquanto, lhe bastava a relação amorosa que tinha com a própria mão direita na hora do banho.
"Estou com dor de cabeça." Rachel respondeu asperamente.
"Tudo bem." Hugo disse frustrado. "Eu te acompanho até a sala comunal de Slytherin."
Andaram de mãos dadas praticamente todo caminho de volta. Por mais que Hugo tentasse puxar conversa, Rachel sempre respondia de forma seca ou monossilábica. Ao mesmo tempo que ela estava irritada com a interrupção da oportunidade que teve de falar com Finn Hudson, ela não deixava de se sentir culpada por saber que estava arruinando uma relação com um ótimo garoto. Hogwarts estava vazia no momento em que chegaram, o que era natural pois apenas os alunos dos primeiro e segundo anos ficavam no castelo e arredores, ao passo que a maioria dos demais estudantes costumavam aproveitar ao máximo cada visita ao pequeno vilarejo.
Rachel deu um pequeno sorriso e beijou rapidamente Hugo nos lábios antes de entrar na sala comunal de Slytherin. Bufou quando alcançou o acesso para os dormitórios femininos. Seguiu pelo corredor até a penúltima porta e entrou no dormitório do quinto e sexto ano. Foi até ao espaço que dividia com a irmã. Como sempre, a cama de Santana estava porcamente arrumada ao passo que a dela estava perfeita. Deitou-se na cama e olhou para o teto sem ter necessariamente o que fazer. Não tinha planos para voltar tão cedo ao castelo. Não queria sair a sala comunal e nem estudar. Achava que já lia o suficiente pela semana. Pensou em ir à sala de música. Ao menos lá estava a única vitrola que funcionava na escola, uma vez que nem streaming e nem CD funcionavam em Hogwarts. Ao menos o disco de vinil era objeto de desejo de consumo e os grandes artistas lançavam trabalhos nesse formato. Daí a razão do senhor Schuester conseguir manter a coleção mais ou menos atualizada.
Cruzou a escola rumo a sala de música e ficou aliviada por não ter cruzado com o namorado no caminho. Ficou ainda mais feliz por encontrar a sala vazia. Passou a ponta dos dedos em cima do piano de calda e viu todos os demais instrumentos guardados ou no armário ou no canto ao lado dele. A vitrola ficava em cima de uma estante com a coleção de discos concentrada das prateleiras superiores. Passou a ponta dos dedos em alguns deles. Jurava que conhecia toda coleção de cor e salteado. O disco favorito era, de longe, de Barbra Streisand. Era a referência maior tanto de Shelby quanto dela. Pegou um vinil de Barbra e o colocou na vitrola. Sorriu discretamente ao ouvir o lindo chiado seguido dos primeiros acordes da orquestração que acompanha a cantora. Quando a voz de Barbra ganhou o ambiente, foi um deleite para Rachel. Ela sentou-se em uma das cadeiras e ficou observando cada detalhe da capa do vinil enquanto a melodia progredia.
"É uma boa coisa saber que você está aqui sozinha."
Rachel olhou em direção a voz. Ficou assustada ao ver que havia quatro pessoas mascaradas ali. Se não eram death eaters, eram moleques pretensos. Levantou-se e imediatamente sacou a varinha. Ela sabia se defender. Rachel era uma pacifista. Não era a mais interessada no treinamento de defesa contra arte das trevas que fazia regularmente com a irmã, Lily e Hugo, mas era o suficiente para ela saber se defender. A questão era: será que seria habilidosa suficiente para encarar quatro de uma vez?
"O que querem?" Rachel procurou manter a concentração para não ser presa fácil.
"Deixar um recado para sua irmã."
"Basta dizer o recado."
"Não, Berry. Esse recado precisa ser mostrado para que ela saiba que estamos falando sério."
"Ok..." Rachel procurou controlar o tremor em suas mãos. "Manda ver."
Rachel atacou primeiro. Com a desvantagem de quatro contra uma, ela que não se daria o luxo de facilitar. Provou no primeiro golpe que os treinamentos que fazia com a irmã e os amigos tinham seu valor. Desarmou o primeiro e derrubou o segundo, mas nada pôde fazer com um ataque simultâneo dos outros dois. Sentiu o corpo chocar-se contra a parede, bateu a cabeça. Ficou tonta. Viu os projetos de death eaters se aproximarem e sentiu seu corpo ser envolvido por uma gosma nojenta.
...
"Quem fez isso?" Santana ajoelhou-se em frente a irmã. Procurou ser o mais suave possível em seu tom de voz para não deixar Rachel ainda mais nervosa.
"Estavam todos mascarados." Rachel choramingou.
"Você é boa com timbres, Rach." Hugo estava logo atrás de Santana. "Pode tentar reconhecer as vozes."
"Eu não tenho certeza de quem eram. A voz estava abafada pela máscara. Mas eram três garotas e um cara."
Santana se levantou abruptamente e virou as costas para Rachel na frustrada tentativa de não deixar a irmã ver a raiva que sentia. Foi Hugo quem encontrou Rachel na sala de música. Ela estava desacordada, envolvida por uma gosma verde, amarrada magicamente na parede da sala de música. Junto a Rachel havia um bilhete: "Não se meta em nossos negócios". Pelo trote era possível entender que não se tratava de death eaters profissionais, mas sim de estudantes de Hogwarts querendo assustar.
A primeira suspeita era Kitty. Era possível que fosse uma retaliação. Fazia sentido, uma vez que a garota tinha seguidores e uma rixa com Santana e Quinn. Mas daí a acusa-la sem provas era outra história. O fato era que Santana nunca foi uma pessoa popular na escola, por mais que fosse uma atleta brilhante e uma garota bonita. Eram seis anos em Hogwarts sem nunca ter um período de tranquilidade e paz. Enquanto ela precisava segurar as consequências do próprio rojão e destino, estava tudo bem. Mas o ataque sofrido por Rachel levou essas questões para outro nível.
"Eu vou matar aquela garota!" Santana esbravejou sussurrando para Lily, Finn e Quinn.
"Você não sabe se foi ela, San. Não vá se meter em encrenca." Lily advertiu.
"Isso não vai ficar impune."
"Por enquanto vai!" Quinn, como sempre, tendia a pensar de forma mais racional. "O que eles desejam é que você saia por aí fazendo besteira. Não importa se foi Kitty, ou um aliado próximo de Evans, o que eles querem é te desacreditar. Dizer que você é a vingativa."
Mercedes, Marley e Kurt também estavam na sala, acompanhando tudo como testemunhas silenciosas. Até que Marley timidamente andou até o grupo veterano e tocou no braço de Santana, mantendo a cabeça baixa.
"Desculpe." Marley disse quase sussurrando.
"Por que?" Quinn perguntou quase de forma inquisitiva.
"Porque Santana me ajudou e agora Rachel pagou o preço."
"Você não tem a menor culpa porque uma idiota te fez de alvo." Lily colocou a mão no ombro da colega mais jovem quando viu que a namorada estava em silêncio para não estourar. Ela puxou Santana para o canto da sala e a fez sentar. "Respira. Sua irmã ainda precisa da sua ajuda."
Santana passou as mãos pelos cabelos e depois pelo rosto. Fechou os olhos por cinco segundos e levantou-se. Se ela era uma líder natural, tinha que começar a assumir a responsabilidade e a agir como uma.
"Ok, vamos jogar certo desta vez. Mercedes e Lily ajudem, por favor, Rachel a se limpar. Quinn, e o resto, seria de grande ajuda se vocês puderem sondar com outros colegas para tentar descobrir quem fez parte disso."
"E o que você vai fazer?" Finn perguntou.
"Caçar uma gata."
"Não, não, não não." Lily correu e segurou a namorada pelo braço. "Você está louca? Se foi mesmo Kitty, não vê que é tudo que ela supostamente pode querer? Não importa quem você seja, San, aqui você não tem privilégios. Só mais obrigações. Você pode acabar sendo expulsa."
"Se acontecer, aconteceu."
Antes de sair da sala de música, Santana beijou Rachel na testa. Andou em passos firmes diretamente para a sala comunal de Slytherin. Sentiu-se olhada, como se todos ali soubessem o que havia acontecido. Ou talvez fosse apenas o estado de humor que a fez olhar as coisas por tal perspectiva conspiratória. Passou muda para os dormitórios. Exceto por Sugar e Quinn, não lhe sobrou amigos naquela casa. Entrou no dormitório e viu Tina conversando com uma das amigas próximas de Kitty. Qual era mesmo o nome dela? Bree? Santana pouco ligava para o nome que estava na identidade da garota, mas não deixou de reparar a proximidade dela com uma garota que costumava frequentar o coral capitaneado por Rachel. Tina a olhou de lado, interrompendo o papo com a outra garota. Santana antou até as garotas com um sorriso cínico no rosto.
"Ei garota Chang. Será que posso interromper ainda mais a sua conversa particular com a minion?" Voltou-se para Bree sem nem ao menos esperar Tina responder. "Onde está Wilde?"
"Não está aqui." A garota respondeu cinicamente.
"Espero que você consiga alertá-la antes que eu a alcance."
Foi até o guarda-roupa e pegou um objeto que não foi identificado pelas outras garotas, e o colocou no bolso do casaco. Saiu do dormitório sem falar com mais ninguém na sala comunal. Viu que Lily e Finn estavam a esperando do lado de fora: a namorada ansiosa para impedir que Santana fizesse uma bobagem, ao passo que Finn estava ali como apoio.
"Não faça nenhuma besteira, San." Lily insistiu.
"Não me faça agir contra vocês dois." Santana respondeu com a voz gelada, compenetrada.
"Eu vou contigo." Lily tentou alcançar a mão da namorada, mas Santana puxou o braço.
"Último aviso, Lil." Continuou a andar sem olha para a namorada ou o garoto ao lado. "Pare de me seguir."
"Não, Sant..."
"Petrificus totalus." Santana conjurou numa velocidade incrível, atingindo Lily e Finn. Não olhou para trás.
Seguiu escadaria acima e foi até o salão da escola. Poucos alunos estavam por lá. O jantar ainda não estava servido e muitos dos alunos ainda estavam aproveitando os últimos minutos de lazer daquele fim de semana. Pensou onde Kitty poderia estar. Ela não conhecia muito bem a aluna mais jovem. Sabia, no entanto, que Kitty gostava de passar o tempo no campo de quadribol ou então na ponte coberta, porque ali era um ponto em que alguns casais costumavam andar e Santana sabia que Kitty tinha um namoradinho. Verificou a ponte coberta e o pátio da torre do relógio. Nada. Foi até o campo de quadribol. Encontrou Brittany por lá brincando com outros alunos. Ela acenou alegre e chamou Santana para a brincadeira. Ficaria para depois.
Santana não encontrou Kitty em lugar algum. Era como se a garota tivesse desaparecido do mapa. Ao pensar nisso a palavra mapa estalou em sua cabeça. Correu até as proximidades da sala comunal de Slytherin, onde tinha paralisado a namorada e Finn. Não encontrou nenhum por lá, o que era, de certa maneira, previsível: ou alguém os livrou ou o efeito havia passado. Correu novamente até o salão e nada. Foi para a escadaria que dava acesso ao quadro da Mulher Gorda, guardiã da entrada da sala comunal de Gryffindor.
"Oh, é você." A pintura encantada disse como ar de tédio.
"Lily Potter, ela passou por aqui há pouco tempo?" Santana perguntou ao quadro.
"Não te interessa."
"Ela mandou você dizer isso. Lily está aí dentro." Diante do silêncio do quadro, Santana insistiu. "Por favor, eu sei que você pode chama-la."
"Por que não faz você mesma e me deixe em paz?" A Mulher Gorda começou a se abanar e revirou os olhos.
"Só Gryffindors podem entrar..." Foi quando outro clique veio a mente de Santana. Ela era uma Gryffindor. Não oficialmente, mas ela estava destinada a pertencer a casa grená. A questão era: qual era a senha mesmo? Ouviu Lily dizê-la uma vez, mas sem prestar atenção direito. Era o nome de uma planta... "Guelricho?"
A Mulher Gorda a olhou com indiferença.
"Você está fazendo uma pergunta para mim, meu bem?"
"A senha: guelricho."
"Até que enfim você se decidiu." A passagem foi aberta.
Santana já estivera na sala comunal de Gryffindor pagando uma aposta que havia perdido para Lily. Lembrava que a primeira impressão que teve foi de como o lugar era muito mais amistoso do que a sobriedade e frieza de Slytherin. Havia ao fundo as escadarias que davam passagem para os dormitórios, uma grande lareira no lado oposto e os jogos de sofá aveludados em cor grená. Podia ver os quadros de antigos integrantes com importância histórica, havia janelas grandes, duas pequenas mesas, tabuleiro de xadrez bruxo, tapetes fofos em que se podia dormir neles. Era um lugar não apenas de convivência, mas de recreação.
Santana fico tão apegada aos detalhes cênicos que só depois de algum tempo reparou que todos os pares de olhos ali na sala estavam voltados para ela. Os Gryffindors estavam perplexos com a presença da conhecida Slytherin.
"A Mulher Gorda deve estar maluca por deixar você entrar aqui." Lion Bates saltou do sofá, apontando a varinha diretamente no pescoço da visitante inesperada.
"Ela pode entrar aqui porque é uma Gryffindor." Melissa Brown interviu, puxando a mão de Lion para baixo. Santana ficou tão surpresa quanto os outros. Jamais esperaria que Melissa a ajudasse em qualquer coisa. "História complicada." A melhor amiga de Lily, no entanto, não estava com jeito de quem iria colaborar por muito tempo. "O que quer, Lopez?"
"Eu preciso falar com Lily e sei que ela entrou aqui."
"Vai se desculpar por tê-la paralisado quase na porta da sala comunal de Slytherin?" Melissa continuou desafiante e culpa se fez presente na expressão de Santana.
"Ela se machucou? Alguém fez algum mal a ela?"
"Não graças a Quinn. Quem diria, aliás."
"Melissa... por favor... eu preciso muito falar com Lily. Vim aqui pensando em fazer uma coisa, mas vejo agora que preciso me desculpar. Fique junto se quiser, não ligo... só me deixe falar com ela."
Melissa abriu o caminho e apontou em direção as escadas.
"Primeiro andar, segunda porta a direita."
A distribuição dos dormitórios em Gryffindor era diferente de Slytherin. Eram menores, porém mais numerosos, feitos para cinco alunos. Como não havia distinções significativas, era possível ficar no mesmo dormitório durante todos os setes anos, caso o aluno desejasse e era o que geralmente acontecia. O primeiro andar a partir da sala comunal era destinado às garotas, e o segundo andar ficava o set de dormitórios masculinos. Como era comum em todas as casas de Hogwarts, os dormitórios eram enfeitiçados para separar os gêneros. Dessa forma, meninos não conseguiam entrar nos dormitórios femininos e vice-versa. Santana entrou no quarto indicado, acompanhada de perto por Melissa. Encontrou Lily sentada numa cama próxima a janela (mesmo sendo prefeita e podendo fazer uso de um quarto particular, aquela cama continuava a ser a dela). Estava abraçando as pernas com o queixo encostado nos joelhos e parecia mais zangada do que triste. Não ficou surpresa ao ver Santana entrar. Acreditava que as coisas deveriam ser assim. Só que ela não estava com bom-humor.
"Conseguiu fazer a bobagem que estava doida para cometer?" Lily perguntou de forma tão gélida que fez Santana sentir calafrios.
"Não consegui. Eu não a encontrei para a sorte dela e minha, acho. Desculpe... eu estava mesmo de cabeça quente."
"Mel, você poderia nos dar licença por um minuto." A amiga acenou e retirou-se do dormitório. Lily então voltou-se para a namorada. "San, eu sei qual é o seu boggart. Eu vi. Eu vi o seu rosto quando encontrou Rachel. Eu vi como você tentou disfarçar o seu desespero. Só que o seu descontrole não vai te fazer bem algum. Além disso, você me machucou."
"Desculpe, Lily. Eu... droga, eu ainda quero matar aquela garota." Santana se aproximou e sentou na cama ao lado.
"Olha..." Lily sentou-se de frente para a namorada. "Nós vamos pegar as pessoas que machucaram Rachel, ok? Mas nós vamos fazer isso do jeito certo." Lily franziu a testa quando Santana colocou a mão no bolso do casaco e tirou dele um pequeno gravador k7. "O que é isso?"
"Eu não ia realmente matar Wilde. Pilhas e fitas eletromagnéticas são uma das poucas invenções muggles que funcionam sem problemas em nosso meio, por isso que eu gravei algumas fitas e trouxe pilhas: para ouvir um pouco de música em paz. Como isso daqui também grava voz, eu ia tentar arrancar uma confissão."
"Uau..." Lily parecia desconcertada. "Isso me parece... esperto."
"Talvez eu usasse um pouco mais de força para isso. Não vou mentir que quero muito machucar aquela garota. De qualquer forma, esse era o meu plano."
"Parece razoável. Mas não para hoje. Deixe que eu faço isso, ok? O jogo entre Gryffindor e Slytherin será no próximo fim de semana e até lá vou ter um encontro de capitãs com Kitty. Confie em mim, San. Só me mostre como isso funciona. Depois, volte para Slytherin, ok? Rachel precisa de você."
Santana acenou. Ela ajoelhou-se na frente de Lily, que abriu as pernas para que o corpo de Santana se encaixasse melhor. Colocou uma mecha dos cabelos escuros e lisos atrás da orelha da namorada e curvou-se para beijá-la.
...
Lily se viu sendo intimada por uma assembleia extraordinária de Gryffindors tão logo Santana Lopez deixou o lugar. Ela tinha plena consciência que a situação foi por demais peculiar para os demais simplesmente ignorarem. Entendia que se deixasse as pessoas pensassem o que bem entendessem, a situação de Santana e até mesmo dela poderia piorar. Daí a decisão de contar pelo menos as partes principais da história aos companheiros durante a assembleia.
"Isso é mesmo pra valer?" Bail Onyo estava perplexo assim como os demais. "Digo, sobre a profecia?"
"Sim, é a mais pura verdade. Santana é uma de nós."Lily explicou. "Eu não sei porque ela foi deslocada para Slytherin, mas isso foi uma estratégia dos aurores para esconder a identidade dela e do novo lorde das trevas dos supremacistas."
"Por que ela não muda simplesmente de casa?" Mercedes perguntou. "Se Santana é uma de nós, não faz sentido ficar do lado de lá."
"Mudanças de casas nunca aconteceram na história de Hogwarts, Cedes. Não é tão simples." Kurt conversou com a colega quase em particular, mas alto suficiente para que os outros escutassem.
"Eu descobri que Santana era uma de nós durante a aula de poções há dois anos. Só que na época nem ela mesmo sabia o que era, e nem eu sabia o que isso significava." Lily explicou. "Gente, sei que essa história é confusa pra vocês, mas é ainda mais para mim e para San. Ela está passando por um monte de problemas e pressões que vocês nem imaginam. Por isso que eu peço a vocês que peguem leve. Sei que vai ser difícil, mas não a olhem como se fosse um cachorro de três cabeças como as outras pessoas já estão fazendo."
"É difícil ter pena de Santana Lopez." Um aluno do sétimo ano esbravejou. "Ela foi tão encrenqueira, que esse destino parece justiça divina. Desculpe Lily, sabe que eu gosto de você, mas se a sua namorada está destinada a enfrentar o novo Lorde das Trevas, ótimo. Antes ela do que eu."
"Eu te entendo." Lily procurou manter a cabeça no lugar, apesar da vontade de brigar com o colega. "Eu mesma detestava Santana no início. Não nego que ela foi uma grande e irritante bully. Só que ela é uma pessoa boa, pode acreditar, ou eu jamais ficaria com ela. Além disso, ela pode morrer por nós."
"Talvez esse seja um fim justo." O aluno rebateu e provocando um burburinho em que alguns outros concordavam, deixando Lily muito próxima de puxar a varinha e dar uma lição no colega.
"Sei que você é só mais um aluno médio. Eu sei que se o outro lado tomar o poder, sua vidinha vai continuar a ser a mesma. Por mim, tudo bem que você fique de braços cruzados reclamando e criticando como se a sua opinião de merda tivesse alguma relevância. Mas se você fizer qualquer coisa contra minha garota seja por meio for, eu não responder por mim."
"Eu não vou me meter no caminho dela ou no seu, Potter. Mas independente de qualquer coisa, eu sou membro legítimo desta casa e, de acordo com o nosso código, minha opinião tem o mesmo peso que a sua sobre as questões que envolvem Gryffindor. Eu penso que já temos problemas demais e não precisamos de outro do tamanho de Santana Lopez."
"Ela é uma Gryffindor!" Lily esbravejou. "Ela é nosso problema!"
"Vamos colocar em votação." O prefeito do sétimo ano de Gryffindor sugeriu. "Aqueles que são favoráveis ao acolhimento de Santana Lopez nesta casa levantem a mão."
Lily, Mercedes, Kurt e Blaine foram os únicos que levantaram a mão. Lily ficou decepcionada com o resultado. Era a única Potter/Weasley atualmente na casa, e ela não tinha a mesma liderança de Albus ou Rose.
"Está decidido!" O prefeito olhou para a companheira de casa. "Entendemos as circunstâncias, Potter, mas entendemos que Santana Lopez não foi por ter sido designada para ficar em Slytherin. Ela acabou se tornando uma. Por isso, entendemos que Santana Lopez não é bem-vinda dentro da nossa sala comunal, muito menos em vestir nossas cores e símbolos."
"Vocês estão cometendo um erro." Lily lamentou e retirou-se para o quarto.
Achava irônico que a casa dos corajosos tinha tomado uma decisão covarde.
...
Livros nunca foram companhia para Samuel Evans, mas desde o retiro na qual foi submetido, ele se viu lendo todos os dias. Um hábito que nunca pensou que teria. Sentia que não apenas estava muito melhor devido aos treinamentos físicos e feitiços, como se tivesse passando por um curso intensivo muito superior ao que era ensinado em Hogwarts, mas o raciocínio estava mais rápido. Era como se ele não tivesse mais problemas com a dislexia que lhe afligia em Hogwarts e o afastava da biblioteca.
Após o jantar, foi até a biblioteca e encarou os livros que teoricamente eram destinados apenas aos anciões da Ordem dos Puros. Tal setor da biblioteca não estava protegida por nenhum feitiço ou mecanismo de defesa contra curiosos. Qual a razão para tal em um lugar que já era por si só restritivo? O que impedia Samuel de pegar um desses livros era a mera falta de entendimento e curiosidade. Tais barreiras estavam claramente superadas quando ele escolheu The Tales Of Beedle The Bard. Estranhou, pois esse livro era comum, vendido para crianças nas livrarias do Beco Diagonal. Mesmo que ele nunca tivesse lido, conhecia a história que era contada pelo pai dele.
Ao abrir o livro, logo viu que o diferencial eram as inúmeras anotações. Eram muitas e feitas, pelo menos, por três pessoas diferentes. Samuel sentou-se no sofá e começou a ler.
"Escolha interessante." Samuel estava tão imerso na leitura, que não viu Zabini se aproximar. "Dentre todos os livros dos mestres, por que você escolheu justamente esse conto para crianças?"
"Porque eu queria saber o que um livro para crianças fazia entre os demais." Samuel levantou o livro e mostrou as anotações. "Parece que há um bom estudo sobre ele."
"É verdade." Zabini puxou uma cadeira e sentou-se em frente ao pupilo. "O que sabe sobre das Deathly Hallows?"
"Que há boatos que elas realmente existiram. The Elder Wand pertenceu a Albus Dumbledore e há boatos que Harry Potter possui the cloak of invisibility. Mas não há notícias sobre a pedra."
"Sim, elas são reais, ou foram reais. Samuel, você sabe o que é o fundamentalismo?"
"É quando você lê certos textos sagrados, como a bíblia ou o alcorão, ao pé da letra e encara isso como verdade absoluta."
"Exato. Sabemos que o fundamentalismo é uma burrice porque não procura entender a história e as razões por trás da metáfora. Me diga, Samuel, o que você encontrou de interessante nessas anotações?"
"Que as hallows não foram feitas pela morte, mas planejadas pelo próprio Merlin. Ele foi o primeiro mestre da morte."
"Isso é apenas uma hipótese, uma especulação. Merlin foi estudante do próprio Salazar Slytherin e, dizem, que ele usou todos os ensinamentos do mestre para se tornar o maior criador de feitiços e poções da história. Merlin estava disposto a criar os objetos mágicos definitivos: a mais forte das varinhas, a habilidade de estar em qualquer lugar e o poder de enganar a própria morte. Enquanto ele manipulava aquele half-blood Arthur para construir a Inglaterra e expulsar os romanos que dizimavam os bruxos, ele trabalhou intensamente nesse projeto secreto, e conseguiu. A fórmula para a pedra da ressurreição foi há muito perdida, e há muitas outras formas de se criar o mesmo efeito da capa da inviabilidade. Mas existe uma forma de se recriar a varinha mais poderosa."
"Como?"
"O custo é muito alto, caro aprendiz. Muitos da Ordem dos Puros tentaram reproduzi-la e falharam." Zabini tocou nas cicatrizes do próprio rosto. O preço da beleza perdida foi o preço que ele próprio pagou tentando reproduzir tal varinha.
"Se eu conseguir reconstruir essa varinha, eu me tornarei tão poderoso que nem mesmo ela vai conseguir me impedir, certo?"
"Sim."
"Então eu preciso tentar."
"Você está mesmo disposto?"
"Se eu sou o escolhido, então é porque existe uma boa razão. O que eu preciso fazer?"
...
Kitty Wilde, Bree Lighttripper, Brian Vicius e Lauren Boccah, todos alunos do quarto e terceiro ano da casa de Slytherin estavam suspensos pela agressão a Rachel Berry. O anúncio foi feito em reunião privada entre professores, um representante dos pais, alunos e prefeitos das casas de Slytherin e Gryffindor. Lily era uma das presenças, uma vez que ela própria gravou a confissão de Bree. Kitty mostrou ser muito esperta para confessar qualquer coisa que tivesse feito, mas Bree adorava se gabar. Não era o peixe que morria pela boca?
O assunto ganhou a escola, em especial por causa da suspensão a apanhadora de Slytherin as vésperas da rodada decisiva do campeonato das casas já praticamente ganho por Ravenclaw. Isso abriu as portas para Quinn e Santana voltarem ao time para disputar o último jogo, mas elas recusaram em parte devido ao orgulho. Isso não foi bem interpretado por seus companheiros de casa, o que aumentou consideravelmente as tensões num ambiente que já estava com o clima ruim.
Por mais que estivesse com orgulho da namorada, Santana reconhecia que namorar a capitã e prefeita de Gryffindor ajudava em nada. Era como se ela tivesse traído todos os princípios Slytherins. Pensou ter duas opções: ou aguentava o tranco, ou tentava sair da casa verde de alguma forma. Ainda pendia para a primeira porque não gostava de se sentir uma covarde, mas sabia que se as coisas complicassem, teria de aprender a recuar.
Pensava sobre isso enquanto caminhava para o jogo final entre Gryffindor e Ravenclaw. As duas equipes vieram de vitórias sobre Hufflepuff e Slytherin e iriam disputar diretamente o título encurtado das casas. Boatos diziam que a convocação do time de Hogwarts aconteceria no dia seguinte e Santana sabia que havia uma chance pequena de ela ser convocada, mesmo sem ter jogado a temporada. Torcia para que isso realmente acontecesse. Depois de um semestre tenso, seria bom se pudesse apenas jogar e se esquecer dos problemas.
Sentou-se na arquibancada acompanhada de Quinn, Rachel, Hugo, Finn, Marley, Mercedes e Kurt. Santana observou o comportamento dos amigos e da irmã pouco antes dos times serem anunciados. Kurt estava ali só porque Blaine, o namorado, iria jogar como apanhador. Rachel porque, primeiro, quadribol era um evento social e, segundo, Finn era um jogador. Hugo estava ali por causa de Rachel, e Mercedes só compareceu porque todos os amigos estavam ali e ela não queria ficar sozinha. Marley? Ela achava que se andasse mais com o grupo, ficaria protegida. Apesar de Kitty ter sido punida (condição que não seria para sempre), ainda havia muitos bullys naquela escola.
Os times entraram em campo fazendo os tradicionais movimentos aéreos. Nas arquibancadas, o grupo estava quase todo favorável aos grenás, menos Quinn, que torcia mais para Ravenclaw. Dizia que era o time de azul era o melhor da temporada, além disso, como uma autêntica Slytherin, não conseguia torcer para Gryffindor. O jogo começou e Santana vibrou ao ver a namorada jogando bem. Lily havia evoluído muito ao longo dos anos: de uma jogadora mais cheia de si do que talentosa para uma competidora técnica e inteligente. Foi de um drible seguido de uma assistência precisa de Lily que os Gryffindors abriram o placar.
Mas se Lily havia crescido como jogadora ao longo dos anos, Brittany também. Da impetuosa quase malabarista artilheira, o que a fazia ser um pouco inconsequente, ela ganhou em técnica e em experiência, o que a fez ser considerada a melhor artilheira da temporada. Diziam que Brittany era forte candidata a deixar Hogwarts com um contrato profissional assinado. Seja lá quem a fosse contratar, teria de fazer uma proposta boa suficiente para que a garota deixasse de pensar na outra coisa que amava fazer: crochê. Brittany gostava tanto de fazer toucas de chapéus de crochê, que pensava em fazer disso um negócio.
Crochê à parte, no campo de quadribol, Brittany e Mike estavam no dia deles. Mesmo que Lily fosse muito boa e que o time de Gryffindor estivesse bem organizado, Ravenclaw estava embalado e jogava como se andasse sob trilhos. O placar no primeiro tempo terminou favorável para o time azul por 30 pontos de diferença.
"O idiota do seu namorado não está jogando nada!" Santana empurrou levemente Kurt, que estava a sua frente. "Oh, até enjoa meu estômago dizer que sinto falta de Rose."
"Blaine está fazendo o melhor que pode, posso te assegurar." Kurt rebateu senhor de si.
Santana e Quinn olharam uma para outra e reviraram os olhos em sincronia. Kurt não entendia quadribol e não conseguia perceber que Blaine estava fazendo a movimentação errada. Quando começou o segundo tempo, foi dito e feito. Blaine avistou o pomo e disparou, mas o apanhador de azul conseguiu alcança-lo e driblá-lo de forma a ter a vantagem na perseguição a esfera alada. Fim de jogo. Ravenclaw voltava a ser campeã das casas após nove anos de jejum.
"Não disse?" Quinn cutucou a amiga. "Se serve de consolo, a sua garota jogou bem. Apesar de sua ex-garota ter sido muito melhor."
"Ninguém pediu a sua opinião, Fabray."
Santana e Quinn se permitiram trocar um pequeno sorriso antes de descerem da arquibancada. O grupo ficou concentrado na entrada de uma das pontes sob o pequeno canal que dividia o castelo do campo de quadribol. Kurt foi o primeiro a avistar o namorado e correu para o lado de Blaine.
"Mesmo depois de uma hora voando, nenhum fio do cabelo dele saiu do lugar." Mercedes comentou sobre Blaine, provocando risadinhas de Rachel, Hugo e Santana.
"Ouvi dizer que a mãe dele fabrica cinco quilos de gel para durar até as festas de inverno." Rachel gostava de desdenhar de Blaine porque tinha algumas restrições quanto a ele. O achava incisivo demais no coral que, supostamente, ela deveria ser a grande estrela. Blaine não cantava tão bem, mas tinha carisma e se portava como um gay alfa, como Mercedes o definiu certa vez. "Vocês vão para o castelo agora?"
"Eu não." Santana respondeu olhando para a multidão a espera da namorada.
"Está tão frio que eu vou para a sala comunal da minha casa." Marley comentou.
"Não é má ideia." Finn concordou.
"Tem certeza?" Rachel se apressou a contestar. "O dia está ótimo... não está chovendo."
"Podemos ensaiar um número para tentar compor a delegação de Hogwarts neste ano. O que acham?" Rachel insistiu com o grupo na esperança de passar mais tempo com o garoto por quem estava encantada.
"Outra hora, Berry." Mercedes resmungou. "Alguns de nós temos uma ida além do coral."
Rachel viu o grupo se dispersar. Santana encontrou-se com Brittany, Finn e Marley caminharam juntos para o castelo. Mercedes acenou para um grupo de garotas de Gryffindor e correu até elas, Kurt foi até Blaine. Restaram Hugo e Quinn, que aparentemente não tinham planos.
"Vai comemorar a vitória dos seus amigos?" Rachel perguntou a companheira Slytherin se referindo a Brittany.
"Não." Quinn respondeu como se estivesse entediada. "Acho que vou praticar um pouco na sala precisa."
"Posso ir contigo?" Rachel perguntou querendo ficar com qualquer um, menos com o namorado.
"Se quiser."
A Slytherin mais jovem abriu o sorriso teatral e despediu-se do namorado com um selinho os lábios, sem ao menos convidá-lo para acompanha-las. Atitude, aliás, que não passou despercebida por Quinn. As duas caminharam até o castelo. Os corredores estavam vazios, o que era conveniente pois a sala precisa era conhecida apenas por poucos alunos daquela geração. Quinn pensou e uma porta pomposa de madeira surgiu. Rachel estranhou que a sala precisa havia dado acesso as duas a um espaço menor, com um jogo de sofá no canto, tapete, uma vitrola e uma estante de livros e alguns discos de vinil.
"Achei que fosse querer treinar." Rachel caminhou até a estante e verificou os discos que estavam ali. Era uma pequena coleção de jazz e standards com discos que datavam das décadas de 1940 e 50. "O que é isso aqui?"
"A sala de estudos de Horace Slughorn." Quinn sentou-se no sofá.
"Sério?" Rachel arregalou o olho. "Como?"
"Ele mencionou algo num dos encontros do Slug Club."
"Oh, o infame clube de notáveis em poções..." Rachel contorceu o nariz por nunca ter sido convidada a frequentá-lo, apesar de ela ser uma ótima aluna em poções. Aparentemente, o professor veterano pensava que as duas irmãs, Rachel e Santana, não eram agradáveis suficiente para sentar-se junto a ele e seus respectivos favoritos. Lily e Quinn, por outro lado, tinham a estima de Horace.
"Ele disse que quando era jovem, antes de Dumbledore lhe proporcionar o espaço que achava que merecia, que ele arrumou uma forma de ter o próprio. Eu formulei a hipótese e descobri esta versão."
"É mesmo a cara de Slunghorn. Olha só esses discos? Jazzistas bruxos e britânicos... aparelho de chá... e esse tapete de estampa horrorosa."
"Pelo menos é confortável." Quinn sorriu.
"Aparentemente." Rachel escolheu um disco e o colocou na vitrola antes de sentar-se ao lado de Quinn. As duas ficaram alguns minutos em silêncio ouvindo a primeira faixa do disco. "Nada mal. Já explorou essa biblioteca?"
"Eu nunca usei essa sala. Não realmente."
"Então por que pensou nela e não na sala de treino?"
"É o que você quer realmente fazer? Treinar?"
"Não." Rachel respondeu rapidamente, quase se arrependendo em seguida.
"Bom. Então por que me acompanhou?" Quinn encarou a jovem pouco mais de um ano mais nova e ergueu a infame sobrancelha. "Você deveria terminar com ele, sabe? Hugo?"
"Como?" Rachel colocou a mão no coração, como se estivesse espantada com a revelação. Só ela não via que a má vontade em relação ao namorado já saltava aos olhos de várias pessoas.
"Você é tão sutil quanto a sua irmã." Quinn ironizou. "Talvez um pouco pior."
Rachel não se ofendeu com a observação da colega. Ficou preocupada se outras pessoas observaram o mesmo e não falaram com ela por algum motivo. Pelo menos Quinn estava sendo sincera.
"Não leve a mal, eu gosto do Hugo." Rachel tentou se justificar.
"Não estou dizendo que você não goste dele, Berry. A impressão que sempre me passou é que ficou com Hugo para não ficar sozinha ou algo assim."
"Não foi por isso." Rachel se apressou a responder. "Não foi por medo de ficar sozinha. Eu quis realmente namorar Hugo. Ou talvez a ideia de ter um namorado foi maior. A questão é que eu não o usei. O namoro aconteceu naturalmente, só que..."
"Agora você não quer mais e não tem coragem de terminar?"
"Exato." Rachel ouviu um pouco mais da música antes de voltar-se novamente para Quinn. "Você já namorou alguém além de Santana?"
"As minhas outras experiências não se encaixam nessa definição."
"Nem mesmo quando você ficou com minha irmã?"
"Eu gosto da sua irmã, ok? Às vezes acho que gosto dela mais do que deveria. Mas eu sei muito bem que Santana só tem olhos para Potter." Quinn abraçou as próprias pernas e se controlou para manter a voz firme, apesar da vontade de chorar. "O pior é que esse relacionamento torto com a sua irmã foi a coisa mais próxima que tive em saber como é ser amada por alguém. Lily tem muita sorte."
"Eu não entendo, Quinn. Você é a garota mais bonita da escola, é inteligente, é uma excelente jogadora de quadribol. Poderia ter qualquer um. Mas a impressão que me passa é que você parece ser a pessoa mais solitária de toda Hogwarts."
"Acho que sou. Tirando a amizade de Santana, não tenho mais ninguém."
"Você tem a mim também." Rachel colocou a mão no rosto de Quinn e sorriu sincera.
Sim, houve um momento entre elas. Um em que Quinn pensou seriamente em aproximar o rosto e beijar Rachel nos lábios. Foi surpreendida quando a Slytherin mais nova tomou a iniciativa. Foi um beijo tênue, quase inocente, e que durou menos que ambas gostariam. Rachel sorriu e se afastou. Nenhuma precisava dizer que o que aquele momento deveria ficar naquela sala.
As duas Slytherins passaram a tarde naquela sala em silêncio confortável, apenas aproveitando a companhia uma da outra enquanto o disco de jazz tocava na vitrola.
...
Santana e Quinn estavam perplexas. As duas caminharam até a frente das mesas das casas de Hogwarts olhando uma para outra sem entender o critério do treinador Wood. Santana achava que não jogaria por ter ficado de fora da temporada reduzida. Quinn, por sua vez, estava há mais de um ano sem jogar e dava como impossível uma convocação. O fato era que não surgiram novos bons apanhadores na escola desde quando Rose Weasley se formou e Quinn deixou de jogar por questões extracampo.
Santana e Quinn uniram-se aos goleiros Gail Traves e Nick Robensbaum, aos batedores Blade Caldeñas, Lohanne Stone e os gêmeos Goyle, aos artilheiros Mike Chang, Brittany Pierce, Lily Potter, Bail Onyo e Jerome Page, e a apanhadora Aurora Bloom. Era um time veterano, pois a maior parte era composto por alunos do sexto ano, o que deixava a equipe teoricamente mais forte. Nick era um Gryffindor do quarto ano considerado uma revelação. Teoricamente deveria ser reserva do experiente Ravenclaw Gail Travis, que vivia a melhor fase. Blade era um Ravenclaw do quinto ano que havia sido considerado o melhor batedor da temporada e Lohanne foi a primeira mulher a assumir a posição de batedora em anos. Jerome Page era outro Ravenclaw do quinto ano que fazia a composição do ataque junto com Brittany e Mike. Aurora Blomm era a mais jovem da equipe: era uma Hufflepuff do terceiro ano: boa atleta e aluna sabichona.
No dia seguinte, como foi sugestão do treinador, a equipe foi almoçar junta no três vassouras. Todos estavam ali, exceto Aurora Bloom. Sentaram numa mesa apropriada para a quantidade de pessoas. Madame Rosmerta, feliz por receber a equipe que defenderia Hogwarts naquela temporada, ofereceu uma (e apenas uma) rodada de graça de cerveja amanteigada.
"Um brinde a equipe de quadribol de Hogwarts!" Gail Travis, o novo capitão do time, ergueu o caneco, sendo imitado por todos os outros. "E que agora possamos voltar com a maior taça em mãos."
"Se mais da metade do nosso time voltar inteiro desta vez, estaremos bem." Mike disse provocando risadinhas.
"Eu também gostaria de fazer um brinde." Brittany ergueu o copo. "A volta de Quinn e San, mas apenas para a equipe de Hogwarts. Sem elas em Slytherin, nosso primeiro campeonato em anos ficou mais fácil. Com elas, vamos deixar a vida dos nossos adversários ainda mais complicada."
Santana e Quinn se entreolharam meio desconfortáveis com a suposta homenagem da amiga. Sabiam que tudo seria mais complicado para as duas, pois teriam de provar a todo instante porque mereceram a convocação mesmo sem ter jogado. Nesse sentido, até mesmo a falha seria cobrada em dobro. Lily, discretamente, colocou a mão na perna da namorada e apertou um pouquinho próximo ao joelho. Era só um gesto de carinho e consolo ao mesmo tempo. As duas trocaram olhares e Santana sussurrou próximo ao ouvido de Lily.
"Mais tarde."
"Oh!" Brittany disse de supetão, chamando a atenção novamente para si. "Esqueci que tenho um encontro! Preciso ir!"
"Encontro?" Mike perguntou. "Por acaso o seu namorado não está bem aqui?" Apontou para si mesmo.
"Encontro com Artie. Ele me pediu ajuda com um projeto." Brittany sorriu.
"Artie?" Gail Travis estranhou. "Eu não sabia que você andava falando com ele."
"Artie?" Foi a vez de Santana estranhar. "É aquele garoto da cadeira de rodas?"
"Este." Mike confirmou.
"Se vocês me dão licença!" Brittany sorriu e se levantou, jogando beijos aleatórios no ar.
O time observou Brittany deixar o pub sem ao menos pagar a parte dela da conta. Pelo menos os colegas sabiam que ela não fazia aquilo por mal.
"Você já tem a tabela de jogos?" Lily perguntou ao capitão da equipe.
"Só dos grupos." Gail respondeu. "Vamos enfrentar Castelobruxo, Koldovstoretz e Beauxbatons. Só que não temos ideia ainda das equipes formadas. O que sei é que os russos vão jogar com três alunos que já estão na seleção nacional deles. Não vai ser fácil."
"Que diversão teria se não fosse?" Mike respondeu provocando excitação no resto do time.
Até mesmo Santana e Quinn relaxaram mais. Era bom voltar a equipe.
...
Samuel saiu voando pela floresta até que o corpo colidiu contra o chão úmido devido a primeira neve que havia caído na noite anterior. Cuspiu e demorou-se para se levantar. Passou a mão no rosto e tudo que conseguiu fazer foi espalhar ainda mais a sujeira. Podia ver o mestre se aproximar a passos lentos, calmos, senhores de si. Isso o deixava irritado. Como podia ele ser o escolhido se não conseguia superar Blaise Zabini depois de meses treinando a finco?
"O que você fez de errado desta vez?"
"Eu não sei!" Samuel respondeu em voz alta, frustrado, irritado. "Talvez eu não seja bom. Talvez eu nunca serei tão bom e poderoso sem a Elder wand. Talvez vocês devam me deixar em paz e procurar outro para fazer essa merda!"
Zabini apenas abriu um sorriso cínico.
"É assim que pensa que vai conseguir o que deseja? Sendo um bebê chorão?"
"Não..." Samuel levantou-se a contragosto. "Mas você deve estar desapontado por eu não ser tão forte quanto pensava."
"De fato." Zabini começou a andar circulando o pupilo. "Você agora deseja ardentemente tentar produzir uma nova varinha, mas devo lembrar que a sua adversária sabe duelar até mesmo sem uma. Se quer derrota-la, deve saber fazê-lo com qualquer instrumento."
"Como?"
"Como te disse, Evans, a verdadeira destruição de sua oponente corre no campo das ideias. Mas você deve dar o primeiro golpe e também golpe final."
"Como?"
"Vocês não compartilham um amor?"
