CAPÍTULO 11 – Hogwarts já não é mais a mesma

Alvo Dumbledore entrou na Ala Hospitalar tentando imaginar o que poderia ter saído errado com seu plano. Ele acabara de passar pelo laboratório de poções onde teve dificuldades para ignorar os protestos dos alunos contra a forma como Severo havia abusado verbalmente do jovem Harry por uma hora inteira antes de colapsar no meio da classe sem motivo aparente. Mesmo os maiores antagonistas do menino-que-sobreviveu, Draco Malfoy e seus fiéis seguidores, concordavam que as mãos de Harry estavam visíveis sobre a mesa e ele em nenhum momento sacou sua varinha.

"Alvo! Diga-me que puniu exemplarmente aquele fedelho!" Snape disparou ao vê-lo entrar.

"Ainda não, meu amigo. Preciso de mais detalhes sobre o que aconteceu. Detalhes que seus alunos não puderam me fornecer."

"Detalhes? Potter me atacou! Que outros detalhes precisa?"

"A forma do ataque, por exemplo, já que mesmo o jovem Draco confirma que Harry em nenhum momento usou a varinha contra você."

"Eu... não me lembro muito bem... Potter estava muito diferente do que eu esperava. Tal como o pai, ele sempre teve pavio curto. Algumas poucas provocações e ele deveria ter reagido, e então receberia as detenções que eu precisava dar a ele. Afinal, há limites para o que posso fazer na frente de tantas testemunhas. Eu o queria a sós comigo uma noite, aí sim ele iria sofrer o que merece..."

"Ele não reagiu? Uma hora de constantes provocações e ele manteve a calma?"

"Oh, ele não manteve a calma assim tão bem! Eu podia ver em seus olhos a raiva que ele estava sentindo, podia ver na forma como seus músculos estavam tensos como ele estava querendo pular sobre mim... Mas ele se conteve... A cada vez que eu pensava 'agora vai', algo mudava em sua fisionomia e ele conseguia resistir mais um pouco..."

"Acha que o jovem Harry tenha recebido treino em Oclumência durante as férias?"

"Não! Não era oclumência. E Potter aprender algo tão complexo durante as férias? Absurdo! Ele não teria conseguido passar do primeiro exercício em tão pouco tempo. Era algo diferente... Muito diferente..."

"Em que sentido?"

"Quando eu tentei legilimência contra ele para descobrir como ele estava se controlando, não foi um escudo que me deteve, mas algo grudento, pegajoso... Senti-me como uma fada mordente presa no pus de bubotuber. Não podia avançar nem retroceder. E então, simplesmente nada! Apaguei como se tivesse recebido um feitiço estuporante."

"Estranho, realmente estranho. Mesmo os mais fortes amuletos, como os anéis de chefes de família, não são capazes de nada parecido. Eles apenas vibram indicando o ataque, mas oferecem apenas um fraco escudo como proteção. Talvez seja melhor estudarmos o jovem Harry antes de tentarmos um novo ataque. De qualquer modo, o fato de um professor ter necessitado atendimento médico já é o bastante para que eu possa convocar o garoto para esclarecimentos, mesmo que tenha que obedecer à demanda de ter Sirius também presente."

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"Ei, Harry! Por que você faltou à aula de Adivinhação ontem? Foi um tédio sem você lá para conversar" perguntou Ron ao ver seu amigo entrando na sala comunal.

"Não faltei. Deixei Adivinhação para poder fazer Runas e Aritmância."

"Quê! Ficou louco? Adivinhação é muito mais fácil!"

"E totalmente inútil para mim, enquanto Runas e Aritmância possuem várias aplicações práticas importantes."

"Mas você vai ter que estudar muito, muito mais! Pense um pouco, Harry! Poderíamos usar esse tempo nos divertindo."

"Acho que é você quem precisa pensar um pouco, Ronald. De que vai servir para você ter cursado Adivinhação daqui a dez ou vinte anos? Que tipo de vida você gostaria de estar vivendo nessa época, e o que precisa fazer para chegar lá?"

"Doido, você! Há tempo de sobra até chegar lá, e de qualquer modo não preciso saber Runas ou o que quer que seja para jogar Quadribol."

"Quadribol, Ronald? Essa será sua carreira? Você ainda nem faz parte do time. E mesmo que consiga uma posição em algum time depois de sair de Hogwarts, o que não é nada fácil, quantos anos acha que estará em forma para jogar? Carreiras no Quadribol tendem a ser curtas, e dificilmente vão lhe render o suficiente para o resto da vida."

"Ora, Harry, o que é isso? Não preciso decidir toda minha vida agora! Vou pensar em algo quando chegar a hora."

"Se você não tomar conta de sua vida desde já, vai descobrir um dia que já não há mais decisões a tomar. Elas foram tomadas por você sem você ter percebido" concluiu Harry antes de subir para o dormitório, deixando Ronald sozinho com seu jogo de xadrez.

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"Ah, Sirius, prazer em vê-lo. E Harry, meu garoto, obrigado por vir" recebeu Dumbledore aos seus dois visitantes em seu escritório.

Após se acomodarem, Sirius resolveu pular as amenidades, indo direto ao ponto: "Desculpe, Alvo, mas todos nós temos muito que fazer, de modo que podemos resumir essa conversa indo direto ao que interessa: Snape atacou meu afilhado, um menor de idade, verbalmente e por legilimência. Qual a punição que ele irá receber?"

Como Sirius esperava, Alvo foi pego de surpresa pelo ataque direto. Era certo que ele iria querer colocar Harry na posição de agressor nessa situação toda e o Maroto desarmara o velho mago invertendo de saída as regras do jogo, colocando Dumbledore na defensiva.

"Perdão? Parece que Severo foi a vítima..."

"Tenho aqui um depoimento assinado por quinze dos alunos presentes confirmando que Severo Snape, professor de poções, passou a primeira hora de aula verbalmente abusando de meu afilhado até que, ao olhar diretamente para os olhos de Harry, sentiu-se mal e desmaiou. Uma cópia desse depoimento já foi depositado com o Conselho de Diretores, que aguarda agora o seu parecer sobre o caso para decidir se Snape será demitido ou apenas ficará sob vigilância. De qualquer modo, o caso também foi registrado junto ao DELM, e aqui está a cópia do Mandado de Restrição que proíbe seu Mestre de Poções de se aproximar de meu afilhado sem minha presença..."

"Sirius, isso é inconcebível! Severo desfruta de minha total confianç único professor que temos disponível para a educação de Harry nessa matéria obrigatória! Não podemos..."

"Eu posso, e exercendo meus direitos, contratei um tutor para Harry e quaisquer de seus amigos que assim optarem. O Conselho de Diretores aceitou minha graciosa oferta de disponibilizar as aulas para todos os alunos de Hogwarts, e amanhã cedo Horácio Slughorn estará de volta a Hogwarts, como meu funcionário, para lecionar classes alternativas de Poções. Todos os alunos terão a liberdade de escolher entre continuar aulas com seu Comensal da Morte de estimação ou com um professor de verdade."

"Sirius, isso é um absurdo! Você não pode vir aqui e interferir assim em minha escola!"

"Sua escola, Alvo?"

"Apenas figura de linguagem..."

"Será mesmo? Sua escola tem sido um perigo para os alunos desde que Harry aqui iniciou seus estudos. Trasgos, dementadores, animagos, acromantulas, basilisco... nem mesmo Voldemort deixou de participar, não é?"

"Isso não importa agora. O que importa é que você está destruindo a autoridade..."

"Snape destruiu sua autoridade como professor ao continuamente abusar dela para atacar qualquer aluno fora de Sonserina!"

Os ânimos estavam exaltados. Felizmente os dois adultos se deram conta e tomaram um minuto para se acalmarem, respirando profundamente enquanto trocando olhares de raiva e desprezo.

"Acho inútil continuar tentando fazê-lo ver a situação de um modo racional enquanto você estiver dominado pela intemperança e animosidade" disse por fim Dumbledore a Sirius. "Talvez possamos postergar quaisquer ações para depois de um novo encontro, que podemos marcar para daqui uma semana..."

"Não, Dumbledore. A ordem de restrição contra Snape já está em vigor e será observada ou ele sofrerá as consequências. E Horácio estará aqui amanhã e iniciará suas aulas na segunda-feira, isso é inegociável. A única decisão a tomar é se Snape será demitido ou ficará em provação."

"Isso iremos ver. Irei pessoalmente conversar com Amélia e o Conselho de Diretores. Por certo eles serão capazes de ver o estrago que essas decisões abruptas e impensadas causarão."

Sirius apenas se levantou, acenou para que Harry o precedesse na saída, cumprimentou Alvo com um quase imperceptível aceno de cabeça e saiu do escritório com toda a dignidade e seriedade possível. Ouvindo a porta se fechar atrás de si, largou a pose e riu com vontade.

"Obrigado, Harry! Nunca pensei que teria a oportunidade de tratar esse velho gagá dessa forma e sair impune!"

"Agradeça aos espelhos, Sirius. Sem eles não haveria tempo de preparar tudo com antecedência. E a madame Bones. Aposto que ela tinha a ordem de restrição pronta antes de você chegar ao Ministério, não é? Mas como conseguiu achar um novo professor tão rápido?"

"Horácio era o professor de poções antes de Snape. Ele adora ajudar alunos promissores para em troca pedir pequenos favores quando eles se estabelecem em suas vidas. A chance de poder incluir o famoso menino-que-sobreviveu entre seus contatos foi por demais tentadora para o velho Slug."

"E o Conselho de Diretores? Como conseguiu convencê-los tão rapidamente a colocar Snape em provação?"

"É por bons motivos que a família Black é temida, Harry. Se soubesse quantos esqueletos aqueles velhos guardam em seus armários! E está tudo anotado com detalhes nos documentos que herdei."

"Chantagem! Você usou de chantagem contra eles?"

"Nada muito direto. Apenas uma leve menção aqui ou ali. Não se preocupe com isso, Harry. No fundo eles já estavam sabendo da situação e só não conseguiam agir porque Dumbledore usava sua fama e influência para proteger Snape. Com o golpe que Dumbledore recebeu, eles apenas aproveitaram a oportunidade para fazer o que era certo. Afinal, a maioria deles tem netos ou bisnetos estudando aqui."

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Com os duendes de Gringotts agendados para coletar a carcaça do basilisco na manhã seguinte, domingo, Harry desceu com algumas das garotas à Câmara Secreta. A intenção era ter certeza de que não houvesse mais nada de valor por lá. Não seria nada agradável deixar para algum duende a chance de descobrir e reclamar posse de algo valioso quando eles tinham toda a oportunidade de checar o local com antecedência.

E eles tiveram muita sorte! Encontraram uma série de aposentos secretos usados pelo próprio Salazar, com toda sua biblioteca pessoal e um laboratório completo de poções, com muitos ingredientes e poções de grande valor mantidos em prateleiras com runas para mantê-los conservados!

Aparentemente Salazar havia retornado (ou jamais deixado) Hogwarts, e passara seus últimos anos de vida aqui, na sua Câmara de Segredos, fazendo pesquisas e redigindo suas memórias. Seus restos mortais foram encontrados em sua cama por seu descendente Tom Riddle e enterrados dentro de um baú entre os pés da estátua, conforme puderam confirmar por anotações deixadas sobre uma mesa.

Mas as anotações de Riddle tinham muito mais informações para eles. Continham sua descrição sobre a criação de seu primeiro horcrux, o diário, e como ele planejava criar um total de seis, repartindo sua alma em sete pedaços, um poderoso número mágico. E descrevia como ele iria criar e onde iria esconder o segundo deles. Riddle estava planejando a morte do próprio pai para a criação de seu segundo horcrux, e usaria a residência de sua mãe para escondê-lo.

Também havia especulações sobre outros itens que Voldemort achava apropriados para reter parte de sua alma, e localizações que ele achava seguras o suficiente para guarda-los. Eles agora tinham um ponto de partida para começar a caça àquelas abominações.

Os livros de Salazar seriam um belo acréscimo à já imensa biblioteca que estavam criando. Mas um terço dos volumes estava escrito em uma forma rúnica da linguagem das serpentes que apenas Harry era capaz de ler. O já sobrecarregado garoto agora teria também a tarefa de atuar como tradutor para todo aquele acervo.

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O grande assunto da reunião daquela noite foi como os Sonserinos do grupo deveriam se posicionar face às aulas alternativas. O pessoal das três outras casas iria certamente aderir, com exceção de Judith O'Brian, uma aluna do sétimo ano de Lufa-Lufa. Aquela menina deveria ter algum sério problema mental. O pessoal dizia que ela havia contraído Severitis, uma estranha compulsão que levava a vítima a achar 'charmoso e elegante' aquele estilo gótico pomposo e arrogante do professor mais odiado na história de Hogwarts.

Com a influência e prestígio de Dumbledore em um mínimo histórico, o grupo estava convencido de que a capacidade de Snape retaliar estava seriamente afetada, de modo que os Sonserinos seriam incentivados a traírem seu chefe de casa optando pelo novo professor. É claro que nem todos adeririam, mas seria um grande choque para aquele morcego gigante que assombrava as masmorras do castelo descobrir que nem mesmo os Sonserinos gostavam dele.

De qualquer modo, Luna e Lisa já haviam iniciado a operação 'Exterminação de Pragas' e estavam levantando informações para um artigo em O Pasquim com o intuito de forçar a demissão do seboso chefe de Sonserina. O que Harry não sabia ainda é o método que as duas resolveram usar para obter a informação necessária. Afinal, pensaram elas, porque incomodar o garoto com esse detalhe quando ele já tinha tanto com que se preocupar?

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Ao final da reunião, Hermione acompanhou Harry de volta à torre de Grifinória, mas o fez parar e entrar em uma sala desocupada, fechando a porta e colocando um feitiço de privacidade. A expressão no rosto da menina estava séria demais para o conforto de Harry.

"O que foi, Mi? Está ainda preocupada com o falso Moody?"

"Não, não é isso. É sobre você, Harry, e também sobre mim. Eu... Aff! São tantas mudanças tão rápidas, eu acho que fiquei um pouco confusa, e insegura também."

Harry sempre gostara disso em Hermione: a capacidade dela parar e refletir, detectar o que não estava bem e tentar resolver o problema, mesmo quando não era agradável enfrenta-lo. Mas ele também sabia que se não ajudasse um pouco a amiga, poderiam perder muito tempo até que ela conseguisse expressar seus sentimentos.

Respirando fundo, Harry aproximou-se de Hermione e a envolveu em um terno abraço, tentando passar para a amiga que ele estava lá por ela e queria ajuda-la.

"O que é que a está preocupando, Mi? É algo em que eu possa ajudar?"

Aquilo foi o suficiente para abrir as comportas e Hermione começou a despejar todas suas dúvidas e anseios sobre o amigo.

"Pode. Aliás, você é a parte principal do problema. Quero dizer, o problema é meu, sou eu... E Ron também. Você mudou tanto nesse verão! Antes você se contraía todo e evitava qualquer contato físico... Eu percebi, cada vez que o abracei eu percebia sua reação. Mas agora... Você tem estado em contato direto com todas essas garotas, e flertando livremente, como se fosse natural, como se sempre tivesse sido assim... E eu pensei que nunca teria chance de me aproximar de você... Então comecei a me interessar por Ron mas... Argh! Ele não me desce! É tão preguiçoso, e machista, e... e tudo mais que eu não quero em um namorado! Mas você parecia tão inalcançável, e era exatamente o que eu queria... Mas eu não podia... Não podia correr o risco de força-lo e perder sua amizade... Então eu não fiz nada! E agora parece tarde... Você tem todas essas outras garotas, e até uma noiva, mesmo que só no papel, mas ainda assim... E você está se relacionando tão bem com elas todas, e eu sou apenas mais uma, e você não se aproximou de mim como eu queria... E eu sei que você anda tendo mais contato com elas do que eu vejo... E eu queria também, sabe? Também tenho meus sonhos, e meus desejos, e meus hormônios... Só que eu não tenho experiência alguma, não sei como agir, não sei como me aproximar, não sei sequer como me fazer notar..."

Harry interrompeu a confissão da amiga com um longo e suave beijo. Hermione como que se derreteu em seus braços, e não seria capaz de se manter em pé sem sua ajuda.

"Hermione, você pode ter comigo o relacionamento que quiser desde que não exija de mim exclusividade. Não sou egoísta, você sabe. Não quero montar um harém ou algo assim, embora é certo que vou ser acusado disso. Apenas que isso tudo é novo demais para mim, e são tantas garotas maravilhosas que estou podendo conhecer... Ainda somos jovens demais para fazer uma escolha tão séria agora, não acha?"

A menina respondeu beijando-o de novo. Quarenta minutos depois os dois saíram da sala de mãos dadas. Tudo estava novamente maravilhoso na vida de Hermione Jean Granger.

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A manhã seguinte proveu um espetáculo diferente para os alunos de Hogwarts. Enquanto Dumbledore fingia desinteresse folheando um exemplar de O Profeta Diário, dois membros do Conselho Diretor da escola acompanharam Horácio Slughorn até a mesa dos professores. Um deles então explicou aos alunos que, atendendo finalmente a numerosos pedidos, Severo Snape estaria passando por um período de provação ao final do qual seria decidida sua permanência ou não como professor de Poções em Hogwarts, e que o professor Horácio estaria ministrando aulas alternativas para aqueles que assim optassem caminhando até a mesa e assinando a lista fornecida.

Entre palmas e assovios uma enorme fila se formou em frente à lista. Harry se divertiu observando as caras e bocas que Draco e seus amigos faziam a cada Sonserino que se dirigia até o local. Snape poupou a todos de seu mau humor faltando ao café-da-manhã e almoço daquele dia.

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A reunião daquela noite teve muitas novidades. Foi Lisa Turpin quem iniciou as revelações.

"Como vocês sabem, Luna e eu começamos a escrever um artigo contra Snape. Como não tínhamos muita informação sobre seu passado, decidimos que a melhor forma de obter essa informação seria direto na fonte, por isso nós o entrevistamos durante a madrugada..."

"E ele colaborou?" perguntou espantada Hermione.

"Como ele foi levado às pressas para a enfermaria, não houve tempo para que ele selasse seu estoque com as proteções usuais. Nós passamos por lá primeiro e tomamos emprestados alguns frascos, como o de veritaserum."

"Luna, como você pode fazer isso?" perguntou Hermione, em uma recaída de sua mania de respeitar autoridades, mesmo quando abusivas ou corruptas.

"Foi fácil. Entramos, pegamos o que queríamos e saímos" respondeu a loirinha, parecendo realmente espantada de que Hermione fizesse uma pergunta sobre algo tão simples.

"Hermione!" interrompeu Lisa antes que a Grifinória voltasse ao ataque. "Aquele... lixo, por falta de melhor palavra, merece tudo que pudermos fazer contra ele. Harry, foi ele quem contou a Voldemort parte da profecia, colocando os Potters e os Longbottoms em perigo!"

Harry imediatamente ficou vermelho de raiva. Mas aquilo não era tudo, nem de longe.

"Ele conheceu sua mãe antes mesmo de virem para Hogwarts" explicou Luna. "E ele tinha uma verdadeira obsessão para com ela. Harry, ele chegou a pedir a Voldemort, como bônus por revelar a profecia, que ele poupasse sua mãe para... uh, aquele egoísta... seu uso pessoal."

Harry permaneceu rígido e calado por algum tempo, as meninas olhando-o com apreensão, até que ele calmamente proclamou: "Vou mata-lo."

Houve muitos protestos das garotas, contudo apenas Hermione contrária à morte do professor. As demais estavam preocupadas apenas com que Harry não se precipitasse e sofresse por seus atos. Foi Dafne quem, colocando a questão em uma perspectiva Sonserina, fez o garoto se acalmar e pensar: "Harry, morrer é muito rápido, ele merece mais! Vamos destruí-lo primeiro, fazer que ele deseje a própria morte, prolongar seu sofrimento..."

Demorou algum tempo para que chegassem a um consenso. O primeiro passo seria a publicação do artigo sobre Snape, revelando tudo o que haviam descoberto sobre seu passado, e todas as más ações que cometera como Comensal da Morte e como professor em Hogwarts, seguido pela pressão para que perdesse seu cargo e recebesse uma merecida estadia em Azkaban. Um júri imparcial o manteria lá pelo resto da vida apenas pelas ações que ele havia praticado ou acobertado em Hogwarts.

"Bom, eu também tenho algumas novidades para contar" reiniciou Harry depois que o assunto Snape foi encerrado. "Madame Bones esteve mantendo a mansão Riddle em constante vigilância por meio dos espelhos instalados por Dobby no perímetro da propriedade. Infelizmente, um ataque direto nas circunstâncias atuais seria problemático. Malfoy não é o único acompanhante de Voldemort. Parece que ele contratou um grupo de mercenários para ajuda-lo, e as proteções ao redor da casa são fortes. Não sabemos quantos mercenários estão lá. Segundo Amélia, um mínimo de quinze, talvez até mesmo o dobro disso. E qualquer um que use aparatação ou chave-de-portal tem que se distanciar pelo menos cem metros da propriedade. Isso significa que uma força de ataque teria que caminhar no mínimo essa distância em terreno aberto e totalmente exposta, enquanto os mercenários estariam protegidos dentro da mansão e com excelente visão das cercanias."

"E quanto ao falso Moody?" perguntou Morag. "Cada dia que ele permanece na escola é um dia a mais em que estamos todos em perigo."

"Amélia vetou o plano de captura-lo durante uma das refeições" Harry explicou. "A distância da porta de entrada do Grande Hall até a mesa dos professores é muito grande. Crouch Junior teria tempo de perceber a chegada deles e tomar alguma ação. De qualquer modo, em um local tão aberto e com tantas testemunhas, Neville teria dificuldade de executar sua vingança."

"Neville, tem certeza..." Hermione começou a perguntar ao colega, mas foi rapidamente interrompida.

"Sim, Hermione. Você pode discordar quanto quiser, é seu direito, mas isso é algo que tenho que fazer, por meus pais e também por mim mesmo."

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Aquele domingo começou a ficar interessante para os alunos de Hogwarts exatamente às oito horas da manhã, quando Amélia Bones interrompeu o café-da-manhã ao chegar no Grande Salão com um grupo de aurores.

"Ah, madame Bones! Que surpresa agradável!" disse o diretor ao vê-la, embora sua expressão não confirmasse que a surpresa fosse tão agradável.

"Bom dia, Dumbledore. Estamos aqui para supervisionar a retirada da carcaça de um basilisco da Câmara de Segredos de Salazar Slytherin a pedido de seu executor, o senhor Harry Potter, como é de seu direito como eliminador da ameaça" explicou ela. "A pedido de Potter, chegamos mais cedo para permitir que os alunos, e também os funcionários e professores de Hogwarts, que estiverem interessados possam visitar o local e observar a criatura antes que ela seja preparada para transporte."

Por um momento a fisionomia de Dumbledore mostrou surpresa; em seguida revelou algo entre preocupação e frustração para finalmente voltar a sua expressão tradicional de bem-humorado avô.

"Sim, claro. Tenho certeza de que a experiência de nosso mestre de Poções..." começou ele mas foi logo interrompido por Amélia.

"O professor Slughorn foi convidado a participar dos procedimentos, e receberá alguns materiais para suas pesquisas em troca de sua ajuda. Os duendes de Gringotts chegarão precisamente às 10 horas para recuperar a carcaça. Durante todo esse processo, o senhor Snape estará proibido de se aproximar do local como garantia da segurança do senhor Potter, com quem ele está proibido de interagir."

"Mas, Amélia, seja razoável! Frente a uma oportunidade única como esta..."

"Chega! A lei será cumprida à letra! E enquanto eu estiver aqui no exercício oficial de minhas funções, atente a manter a formalidade, por favor."

Dumbledore não gostou nem um pouco da rispidez como Amélia o tratara na frente dos alunos. Hum, os alunos! Talvez ele pudesse atrapalhar um pouco aquele teatro todo que Potter e Bones haviam montado sem sua permissão ou conhecimento!

"Bom, como queira. Mas infelizmente é meu dever bloquear o acesso dos estudantes menores de idade a um local potencialmente perigoso e à visão possivelmente traumática de uma criatura tão perigosa e temida, a menos que estejam de posse de uma permissão por escrito de seus pais."

Para seu espanto, não houve nenhum protesto por parte dos estudantes à suas palavras. Ao contrário, o diretor apenas viu a maioria deles retirar uma peça de pergaminho de algum bolso e levantá-lo ao alto, pronto para entregar a solicitada permissão. Alvo voltou a se sentar e passou a ignorar tudo mais, perdido em seus pensamentos. Como é que ele estava constantemente sendo passado para trás tão eficientemente? Teria ele perdido sua legendária capacidade de planejar adiante e estar preparado para qualquer situação? Estaria ele ficando velho demais para esse tipo de jogo?

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"Professor! Professor Moody!" gritou Harry enquanto corria ao lado de Neville para alcançar o falso professor, que estava prestes a entrar em seus aposentos.

"O que é, Potter? Não deveria estar lá embaixo, aproveitando o efeito que seu basilisco vai certamente provocar em todas aquelas garotinhas excitáveis?"

Harry enrubesceu com o comentário, mas continuou com o plano: "É que temos algumas questões para o senhor, se o senhor puder nos conceder apenas alguns minutinhos."

Moody olhou para os dois lados do corredor, depois para cada um dos garotos antes de finalmente conceder.

"Seja rápido, Potter. Tenho muito que fazer."

Se houvesse ainda alguma dúvida de que aquele não era o verdadeiro Alastor Moody, ela foi dissipada quando o homem virou as costas para os meninos e os precedeu em entrar nos aposentos. Quando ele reacordou, estava firmemente preso a uma cadeira e já sentia o veritaserum que lhe fora aplicado começando a funcionar. Harry devia um beijo a Luna pela feliz ideia de pegar a poção dos estoques particulares de Snape. O verdadeiro Alastor Moody já estava livre e com sua varinha apontada para o impostor, e Harry já havia atualizado o velho auror sobre os recentes acontecimentos e o plano que haviam elaborado.

Crouch Junior poderia simplesmente ter estuporado Harry, voado com ele até além dos limites da escola e aparatado para longe, tudo em menos de um minuto. No entanto, iria passar praticamente o ano todo tentando ser Alastor Moody apenas para que o rapto de Harry ocorresse na última tarefa do Torneio Tribruxo, em frente ao maior número possível de pessoas e celebridades. Que estupidez!

Terminado o interrogatório Harry deixou Crouch Junior sozinho com seus dois desafetos. Moody também queria um pouco de vingança pelo jeito. O que acontecesse ali daquele momento em diante seria um segredo entre aqueles três. A Harry bastava saber que Crouch Junior jamais seria uma ameaça a ninguém novamente.

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Segunda-feira chegou, e Severo Snape lamentava-se de seus recentes fracassos: Potter evitando revidar a seus assaltos verbais, uma ordem de restrição para com o menino, a instabilidade de seu atual emprego, a desmoralização de perder tantos alunos para Slughorn, a chance perdida de extrair ingredientes de um basilisco de mil anos de idade! O único pensamento que o consolava era de que não havia muito mais que sua situação pudesse piorar.

Como ele se lamentou de ter tido aquele pensamento! Parece que o destino ouvira seu pensamento e decidira ensinar-lhe uma amarga lição. Nem bem dez minutos depois seu afilhado Draco vinha exibir-lhe a nova edição de O Pasquim, com uma série de artigos especiais revelando seus mais íntimos segredos, de sua paixão obsessiva por Lily Evans ao assassinato de seu pai e à profecia que selara o destino dos Potters.

Hogwarts já não era mais uma opção segura. Era mesmo possível que madame Bones já estivesse a caminho para 'convidá-lo' a depor em uma das salas especiais do DELM. Em poucos minutos ele fez suas malas e abandou Hogwarts sem nem mesmo se preocupar com uma carta de renúncia. Que Alvo descobrisse por si mesmo!

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Amélia não prendeu Snape porque seria muito difícil mantê-lo preso apenas com as provas de que dispunham. Dumbledore havia conseguido um perdão para as faltas que o mestre de poções cometera como Comensal da Morte em troca do auxílio que ele prestara como espião. As ações que ele cometera em Hogwarts eram sérias, e deveriam ser o suficiente para condená-lo, mas como favoreciam estudantes de famílias conceituadas contra vítimas nascidas-trouxas ou meio-sangue o assunto ficava complicado. Muitas daquelas vítimas provavelmente se recusariam a depor, por medo de represálias, enquanto que algum dinheiro trocando de mãos solidificaria a tendência de os puros de sangue se proteger contra os demais. Os alunos culpados sendo absolvidos eventualmente causariam a absolvição de Snape, que apenas acobertara as ações.

Foi assim que Amélia nem pensou em perder tempo indo a Hogwarts, permanecendo na sala de operações do DELM, de onde confortavelmente presenciou o momento em que Snape, acompanhando Lúcio Malfoy, ingressou na Mansão Riddle. Aqueles espelhos eram realmente uma fantástica invenção! Tão simples, mas tão úteis!

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Com o início das aulas do professor Slughorn e a repentina partida de Severo Snape, ninguém fora do grupo notou nada de estranho com o professor Moody. Nem mesmo durante a curiosa reunião dos professores naquela noite.

"Parece que Alvo não irá mesmo participar desta reunião. Acho melhor começarmos sem ele" disse McGonagall, iniciando a reunião dos professores na ausência do diretor.

"Sabe onde ele está, Minerva?" perguntou Sprout.

"No Ministério, tentando explicar as ações reportadas hoje contra Severo, na esperança de que ele possa voltar a lecionar aqui" respondeu a vice-diretora com claro aborrecimento.

"E ele deixou com você a agenda do que deveríamos tratar?" perguntou Flitwick. "Afinal foi ele quem tomou a iniciativa de marcar essa reunião extraordinária."

"Sim, ele deixou, mas, sinceramente, não concordo com um único ponto. Vocês verão por si mesmos. O primeiro ponto seria encontrar uma forma de podermos banir imediatamente as bicicletas de Hogwarts."

"Por que isso, Minerva?" perguntou Sétima Vector. "Elas são usadas apenas fora do castelo, e são um ótimo exercício. Esses jovens precisam gastar um pouco do excesso de energia que possuem. Além do mais, nunca os vi tão felizes."

"Eu sei, e concordo" comentou McGonagall. "Mas Alvo... Não sei o que passa na cabeça dele. Ele acha que as bicicletas descaracterizam a escola de alguma forma. Tentei argumentar que elas eram inócuas e que ele criaria revolta entre os estudantes, mas, como sempre, ele não me ouviu."

"Apenas anote aí que não vemos possibilidade de imediato banimento das bicicletas e passemos ao próximo ponto" sugeriu Aurora.

"Próximo ponto: punir com rigor todo e qualquer uso de magia por parte dos estudantes fora das classes de aula."

"Onde as crianças vão poder praticar?" perguntou Hagrid.

"Como ele espera que nós poucos vigiemos centenas de crianças em um castelo tão grande?" perguntou Charity, a professora de Estudos Trouxas.

"Alvo enlouqueceu" comentou Flitwick. "Ontem de manhã vi um grupo de ingressantes recebendo instruções de alunos mais velhos sobre feitiços de limpeza e polimento. Foi um prazer ver aqueles olhinhos brilhando por estarem aprendendo magia útil. Aquele corredor é agora o mais limpo e belo que esse castelo viu em muitos anos. E à tarde, quando tive algumas daquelas crianças em minha classe, foi a mais produtiva aula inaugural de Charmes de minha carreira. Estavam todos ávidos por aprender, e os que haviam participado da instrução improvisada ajudavam os demais contando a eles o que haviam aprendido e praticado. Se é isso que Alvo quer eliminar, sou contra!"

"Bom, eu compreendo" respondeu Minerva. "Vou apenas colocar aqui que não vemos uma forma prática de implantar a medida e não podemos sobrecarregar o corpo acadêmico com essa tarefa."

"Mais algum ponto?" perguntou Pomona.

Minerva deu um longo suspiro antes de apresentar o próximo ponto. Era claro que esse tampouco agradaria a seus colegas.

"Alvo quer descobrir os participantes do grupo vigilante que vem contra-atacando a prática de bullying na escola."

"Para puni-los rigorosamente, é claro, enquanto os agressores apenas recebem um ou dois pontos de punição" comentou Alastor sarcasticamente.

"É claro" respondeu Minerva com igual sarcasmo.

"Ele deixa os bandidos escaparem praticamente sem punição e quer punir os mocinhos por fazerem o trabalho que seria de Alvo e de nós professores" reagiu indignada a professora Sinistra. "Se eu os vir em ação, saiba que aplaudirei e me recusarei a delatá-los."

"Ótima ideia! Colocarei aqui que os professores tomarão atitudes apropriadas se virem os responsáveis" comentou Minerva, fazendo seus amigos sorrirem com sua discreta manipulação dos fatos.

"É só?" perguntou Pomona.

"Sim, é só. Por Merlin, nunca pensei que chegaríamos nesse ponto. Hogwarts já não é mais a mesma!" concluiu McGonagall, visivelmente estressada.

"Eu acho que falo por todos ao dizer que estou feliz com a maioria das mudanças" comentou Flitwick. "Se pelo menos pudéssemos convencer Alvo a se aposentar!"