N/A: Sei que eu demorei, mas é que estava caprichando :P
Caprichei tanto que o capítulo ficou ridiculamente grande. Tanto que precisei dividir em dois.
De qualquer forma, prometi o natal, e AQUI ESTÁ ELE. Ta-daaaa
Ainda estava escuro quando Alex abriu os olhos. Podia ver o tom de azul arroxeado do começo do amanhecer lá fora pela fresta na cortina. Pelos seus cálculos, deviam ser umas 04:00 da manhã. Pensou em conferir, mas o peso sobre suas costas se fez notar. Norma. Ele havia rolado de barriga para baixo durante a noite e ela fizera o mesmo, só que com metade do corpo em cima dele, em busca de contato. Pode sentir uma perna dela entre as suas e a respiração cadenciada e suave em sua pele. Então apenas fechou os olhos e, puxando o cobertor um pouco mais para cima a fim de garantir que ela estivesse coberta, permitiu que sua mente desligasse novamente.
Quando tornou a acordar, podia ver que o dia já estava claro. O lugar a seu lado estava vazio e frio, o que indicava que Norma já devia estar movendo-se de lado para outro no andar de baixo. Ele nunca entenderia de onde vinha a energia daquela mulher. Respirando fundo, ele empurrou as cobertas para o lado e se levantou também.
Minutos depois, já usando jeans e camiseta, ele desceu as escadas. Foi recepcionado pela voz melodiosa de Norma cantando "Let it Snow". Ele a surpreendeu na cozinha. Vestido verde claro com florezinhas brancas e um suéter também branco, avental preso em sua cintura com um laço, os cabelos quase totalmente lisos, ela movia-se com graça e agilidade em meio a uma pia cheia de ingredientes e panelas. A mesa estava posta com mais pratos do que ele pensava existir em seu armário, e várias coisas que cheiravam muito bem. Observando da porta, Alex pensou que ela podia muito bem ser uma daquelas princesas de contos infantis materializada bem na sua frente, e agradeceu aos céus por ela estar num dia bom.
"Bom dia."
"Bom dia, Alex! Venha cá, sente-se. Já fiz o café."
"Para que exército?" Ele brincou, aproximando-se dela e plantando um beijo em sua bochecha. O cheiro estava delicioso, e ele podia ver uma variedade de coisas dispostas sobre a mesa. Waffles, rabanada coberta com uma fina camada de açúcar e canela, bacon e ovos mexidos, frutas e calda. Muito mais comida do que qualquer um deles seria capaz de comer.
Norma tinha uma certa obsessão em superalimentar as pessoas. Era seu jeito de cuidar e mostrar que se importa. E, além disso, era uma cozinheira fantástica.
"É véspera de natal, eu só queria fazer algo... Especial. E você é..."
"Um cara grande. Eu sei." Ele a interrompeu, sorrindo ao lembrar-se de como essas palavras deixaram os lábios dela numa outra situação parecida.
"É você que está dizendo", ela lhe sorriu maliciosamente e voltou a mexer algo numa vasilha grande.
"O que mais está fazendo aí?" ele tentou desviar o assunto.
"Cookies. Adoro o cheiro que deixam na casa enquanto estão assando. Já estou terminando, e então vamos começar a decorar a árvore."
Alex aproximou-se novamente, cruzando os braços à frente do corpo e apoiando o quadril na bancada. Observava o que ela estava fazendo, como os dedos delicados e ágeis seguravam a colher e moviam-se adicionando ingredientes à mistura.
Ela o olhou por baixo do cílios, sem virar totalmente o rosto para ele.
"O que está fazendo?"
"Observando você", ele respondeu simplesmente. "Quer ajuda?"
"Você quer ajudar?" Ela especulou, achando a oferta dele divertida e curiosa.
Ele permaneceu calado, apenas olhando para ela, então Norma continuou.
"Bem, está praticamente pronto. Pode colocar as gotas de chocolate."
Ele podia não fazer ideia de como se faz cookies, mas sabia seguir direções. Ele entregou a Norma o que ela pedia, despejou as gotas de chocolate, colocando bem mais do que deveria, e ela riu enquanto ele tentava "consertar" a situação, mas apenas pegou algumas gotas e colocou na boca. Então colocaram as formas no forno e sentaram-se para tomar café.
Depois que terminaram e ele insistiu em ajudá-la com a louça, teve que reconhecer que ela tinha razão. A casa estava mesmo com um cheiro ótimo. Ele podia jurar que o imóvel sabia disso e brilhava com mais vida do que já houvera ali antes. Norma estava transformando sua casa em um lar. Ela dera um propósito àquela casa, e mesmo sabendo que ela tinha o motel e sua própria casa, ele espera secretamente que ela quisesse ficar ali com ele.
Depois de terminarem com a cozinha e retirarem os cookies do forno, Norma trouxe todos os enfeites para a sala. Os que comprara com Alex e os que trouxera de sua casa. Então começaram a tarefa de decoração. Ela lhe entregou meias decoradas para serem penduradas acima da lareira. Laços, guirlandas, pinhas douradas, bolas coloridas e brilhantes, pequenos gorros, renas e flocos de neve. Aos poucos foram dispondo os enfeites na árvore. Norma falava sobre um ou outro, relembrando como Norman a ajudava a montar a árvore todo ano, com cuidado e atenção, enquanto Dylan as vezes os ajudava, quando era criança, mas apenas jogava um ou outro enfeite num galho e logo se desinteressava.
Mas tão logo seu olhar começava a ficar distante e triste, ele fazia alguma coisa boba e ela voltava a rir e se concentrar no que estavam fazendo. Terminaram a sala e Norma colocou uma guirlanda na porta de entrada, satisfeita com o resultado.
"Quem diria que poderíamos fazer tudo isso em apenas algumas horas", ela comentou, voltando para a sala onde Alex terminava de colocar as luzes acima da lareira. "Só é uma pena que não tenhamos nenhum galho de azevinho."
"Bem, resolvemos tudo no último minuto. Mas acho que fizemos um trabalho muito bom."
"Sim. Ficou ótimo", ela concordou, olhando ao redor com um brilho de contentamento no olhar. "Bem, vou fazer algo rápido para o almoço, e acho que já vou começar a adiantar o jantar."
"Norma, ainda estamos no começo da tarde.
"Eu sei, mas assim posso fazer tudo com calma e ainda ter um tempo pra me arrumar depois. Oh! Alex, será que poderia comprar mais algumas coisas para o jantar? Quero fazer uma salada russa, mas não tenho todos os ingredientes."
"Claro, o que precisa?"
"Só algumas coisas. Vou fazer uma lista."
Alex ainda desconfiava da quantidade de coisas que ela pretendia fazer, embora Norma não tivesse lhe contado qual seria o cardápio. Ele não queria que ela se preocupasse, que passasse tempo demais cozinhando, mas a verdade é que ele estava mesmo procurando por uma desculpa para sair sozinho por algum tempo.
Ao parar no estacionamento do supermercado, lotado já àquela hora, ele pegou o telefone para fazer algo que estava querendo fazer desde o dia anterior.
O telefone foi atendido no terceiro toque.
"Alô?"
"Oi, Dylan. Aqui é o Alex. Romero."
Por um momento a linha ficou silenciosa do outro lado, mas ele sabia que o rapaz não havia desligado pois podia ouvir a respiração dele.
"Pode parecer estranho eu estar ligando, mas..."
"Norma pediu para você ligar? ", ele o cortou com irritação aparente na voz. "É mais uma das coisas que ela te pediu e você correu para fazer por ela, porque ela nunca é capaz de resolver os próprios problemas?"
"Sua mãe não sabe que estou ligando. E o que eu fiz por ela só cabe a nós dois discutir, não acho que você tenha qualquer coisa a ver com isso."
"Tudo bem, tanto faz. E qual é o problema, dessa vez?"
"Você."
"O quê?"
"Escute, Dylan, eu não vou demorar, então agradeceria se apenas ouvisse por um momento. Sua mãe ligou para você ontem e você não quis falar com ela. Eu entendo que esteja com raiva. Não sei muito sobre a relação de vocês, ou sobre o que aconteceu quando brigaram..."
"Você tem razão, não sabe do que aconteceu. Você não a conhece direito. Norma é louca!"
"Pode ser. Mas não significa que te ame menos por conta disso."
"Não sabe do que está falando."
"Acha que eu não sei? Eu tenho visto ela chorar há dias sempre que fala no seu nome. Eu tenho tentado fazê-la sorrir, mas não consigo porque toda maldita coisa que eu tento fazer, ou lugar que tento levá-la, tudo traz uma lembrança dos filhos. Sua e do Norman." Ele sabia que sua voz estava ficando mais alta, a irritação aparente, mas não se importou em se conter. "E não importa o quanto eu me esforce, ela nunca esquece porque, antes de qualquer coisa, ela é mãe. E eu nunca vou poder competir com isso. "
Ele fez uma pausa. Respirou fundo. Esperou, mas Dylan não disse nada. Então ele continuou, mais calmo.
"Enfim, só o que eu queria dizer é que, talvez, devesse ouvir o que ela tem a dizer. Aceite as desculpas dela. Porque, um dia, talvez você queira ouvir a voz dela, e não possa mais. Porque, por mais que não pareça, você nunca se recupera da perda da sua mãe. Sempre haverá remorso, dor, dúvida... Mesmo que você esteja morando há quilômetros de distância. Ainda que mantenha as conversas no mínimo porque não quer saber de certas coisas, de certos aspectos da vida que prefere esconder. E o arrependimento vai perseguí-lo onde quer que vá, não importa o que faça. Vai sentir falta dela, e muitas vezes essa falta será tamanha que vai ser capaz até de sentir o perfume que ela usava. Vai pedir perdão a uma lembrança no escuro e não será capaz de ouvir nenhuma resposta... E acredite, eu sei do que estou falando."
Quando terminou de falar, sua voz era baixa, controlada, mas ainda entregava uma certa emoção. Ele acabou revelando ao garoto mais do que planejava. Ele não planejara despejar suas próprias amarguras em cima dele, apenas falar sobre como pode ser a vida, na esperança de que ele desse mais uma chance à Norma.
"Romero..."
"Não precisa responder nada, nem falar nada pra mim. Vai dizer que não é da minha conta. Tudo bem. Mas só... pense um pouco no que disse. Pense se vale a pena arriscar um relacionamento de verdade com a pessoa que mais se preocupa com você no mundo por causa do orgulho. "
"Não quero que seja para sempre, essa situação. Eu só... ainda não consigo falar com ela sem pensar em..." ele parecia estar lutando tanto com as emoções quanto com as palavras em busca do que dizer. " Eu não queria ter brigado com ela, mas é que...É complicado."
"Eu sei. Ela é impossível, às vezes. "
Ele ouviu uma meia risada do outro lado da linha antes que o rapaz continuasse.
"Agradeço o que está fazendo por ela, cara. De verdade. Talvez, se ela tivesse te conhecido antes, tudo isso pudesse ter sido evitado."
"Bem... eu não posso mudar o passado, mas posso mudar o que acontece agora. Ela... não teve uma vida fácil, tenho certeza que sabe disso. Mas quero ajudá-la a superar as coisas ruins."
"Espero que consiga. Norma... Ela merece alguém como você. Obrigado por tomar conta dela."
"Vou levá-la para Montana."
"O quê?"
"Norma. Vou levá-la para Montana. Ela precisa de um tempo para si mesma. Tudo isso... Tem sido muito duro para ela." Ele podia estar cometendo um erro, se comprometendo assim. Afinal, não havia comentado nada com ela, e Norma podia odiar a ideia, ou simplesmente não querer ficar longe demais do filho doente preso a uma instituição. "Conversei com o médico de Norman, ele aconselhou uma... Uma forma de terapia. E talvez seja melhor afastá-la de tudo isso até que ela esteja bem para poder ajudar o Norman."
"E o Norman...?"
"Está de volta à Pineview. Ele... não está podendo receber visitas, no momento, e isso está deixando Norma ainda mais preocupada, mas os médicos garantem que ele está bem."
Alex não deu maiores detalhes. Não sabia o que falar, na verdade. Não é que ele não merecesse saber, mas não acreditava que uma conversa de telefone seria a melhor forma de dizer a alguém que o próprio irmão tentou matar a mãe.
"Ok."
" Bem, não vou tomar mais o seu tempo. Então... Só pense no que disse. Dê uma chance a ela. Todos cometemos erros, Dylan. "
"Vou pensar. De qualquer forma, obrigado por ter ligado."
Alex desligou o telefone com um suspiro profundo. Não havia sido exatamente do jeito que ele planejara, mas as coisas raramente saem como o planejado. Ele tentou, agora não havia mais nada que ele pudesse fazer além de esperar.
Cerca de meia hora depois quando voltou para casa, o cheiro de algo cozinhando fez seu estômago roncar assim que abriu a porta. Ao entrar, notou que havia algumas caixas de presentes embaixo da árvore. Ele não reconheceu nenhum dos embrulhos, de forma que só podiam ser os presentes que Norma havia comprado para ele. Sorriu, pensando em deixá-la curiosa mais um tempo, e só levar seus próprios presentes no começo da noite.
E foi o que fez. Levou as compras para Norma na cozinha. Ele trouxera uma garrafa extra de vinho e também Champagne, além de uma caixa de chocolates que sabia que ela gostava. Norma lhe agradeceu com um beijo na bochecha e eles almoçaram quase em silêncio. Ela perguntou se ele gostaria de chamar alguém para o jantar, e ele recusou, devolvendo a pergunta a ela. A verdade é que eles não tinham muitos amigos na cidade, ninguém que se lembrassem para convidar para a véspera de natal. E mesmo os amigos de Alex teriam preferido ficar em casa com a família. Seria apenas os dois. E ambos preferiam assim.
Não era perfeito. O que Norma mais queria era que Norman, Dylan e Emma estivessem lá também. Até mesmo Calleb, ela não se importaria de tê-lo ali. Mas guardou o desejo para si, e apenas se contentou com o que tinha, agarrando-se a esperança de que, no próximo ano, seu sonho pudesse se tornar realidade.
Para sua surpresa, Alex se ofereceu para ajudar. Ela aceitou e o colocou para descascar legumes e fazer as coisas mais simples. O talento dele na cozinha não era tão grande quanto o que tinha numa sala de interrogatório, mas assim como fizera com os cookies, ele seguira todas as instruções dela e eles acabaram se divertindo e fazendo mais bagunça do que seria necessário.
Tudo estava praticamente pronto logo no finzinho da tarde, e eles se jogaram no sofá, um ao lado do outro. Ficaram em silêncio por um tempo. Alex observando o olhar dela se desviar da pequena árvore para os locais próximos.
"Alex? Por que não tem nenhum presente além dos que comprei para você embaixo da árvore?"
"Oh. Os presentes. Certo, sabia que estava esquecendo algo."
Ele se fez de esquecido, e ela continuou olhando para ele em expectativa.
"E então?"
"Então o quê?"
"Não vai buscar os presentes? Sabe, só pra deixá-los embaixo da árvore."
"Tudo bem."
Ele se levantou, uma expressão neutra. Foi até o quarto e pegou a menor das caixas, embrulhada em papel turquesa com um laço prateado. O embrulho devia ter cerca de 10cm, e não era alto. Ele desceu as escadas e o colocou junto com os dela embaixo da árvore. Norma estreitou os olhos e cruzou os braços à frente do corpo, olhando para ele com incredulidade.
"É só essa caixinha?"
"Bem..."
"Tudo bem", ela disse devagar, olhando-o de cima a baixo.
Alex continuou parado ali, olhos fixos nela enquanto Norma o observava. Estava usando toda sua força de vontade para não rir e permanecer sério. Os olhos dela encontraram os dele novamente e ela estudou seu rosto, sua expressão, parecendo desconfiada da capacidade dele para escolher presentes, ou para ver se não estava mentindo. Por fim, deve ter se contentado ou se decidido que não importava. Seja como for, descruzou os braços e começou a sair da sala.
"Tudo bem, então. Vou continuar a preparar o jantar."
"Eu vou ajudar você."
"Não, não é necessário. Por que não procura alguma coisa na TV enquanto isso? Não vou demorar, assim que terminar venho me juntar a você."
"Norma, eu quero ajudar. Não vou ficar aqui sentado vendo TV enquanto você faz tudo sozinha. Vamos, não sou um ajudante tão ruim assim."
"Não, não é."
Ela sorriu, aceitando a oferta e sinalizando para voltarem para a cozinha. Aceitar que Alex estava mesmo querendo ajudar parecia estranho. Nenhum de seus outros maridos a ajudavam, nem que fosse nas tarefas mais simples. Nem mesmo logo após o parto, quando ela ainda estava se recuperando e precisando encontrar o balanço com uma nova criança que dependia dela para tudo.
De forma geral, ela não se importava. Gostava de manter a casa do seu jeito, e não confiava que outras pessoas pudessem fazer as tarefas do jeito que ela preferia. Mas ter alguém disposto a pelo menos oferecer ajuda, que não criticava suas escolhas e ainda lhe fazia companhia, era algo com o qual ela nunca sonhou. E, no fim das contas, era divertido ensinar Alex a cozinhar, embora ele nunca fosse virar um grande chef.
No fim das contas, ela acabou fazenda uma boa variedade de pratos, mas em pequenas porções, e tudo estava pronto a uma hora razoável para que ainda assistissem a um dos filmes antigos que ela gostava.
Ao anoitecer, Norma subiu para se arrumar. Enquanto tomava banho, Alex aproveitou para colocar os outros presentes embaixo da árvore antes de subir para se arrumar também. Ao chegar ao quarto, Norma estava em frente ao espelho, já vestida, fazendo a maquiagem. Ela usava um vestido verde petróleo, que ele não se lembrava de já tê-la visto usando antes. Era um modelo acinturado e elegante, na altura dos joelhos, com um decote discreto e mangas que se estendiam até pouco abaixo dos cotovelos. Ele lhe lançou um olhar apreciativo dos pés, ainda descalços, até chegar aos olhos dela, que o estava observando observá-la com um sorriso divertido e uma sobrancelha levantada. Constrangido por ter sido pego, ele apenas anunciou que também ia tomar banho e se arrumar. Quando voltou ao quarto, ela já não estava lá. Mas havia uma camisa e calças pretas sobre a cama, ao pé da qual seus sapatos reluziam, e ele imaginou, achando graça, Norma escolhendo suas roupas por ele.
Ao descer, ele a encontrou na cozinha. Ela havia complementado o traje com sapatos de salto pretos e uma gargantilha dourada muito delicada. Mas o que mais chamou sua atenção, no entanto, foi o tom vermelho nos lábios dela. Nunca vira Norma usando batom vermelho, mas já era sua nova cor favorita nela.
"Então... escolhendo minhas roupas, uh?"
"Só queria ter certeza de que não iria acabar usando moletom e camiseta."
Ela caminhou na direção dele com duas taças cheias de um líquido borbulhante e avermelhado, e lhe entregou uma. "Prove. Fiz mimosas de framboesa."
Ele pegou a taça e a seguiu até a sala. Norma sentou-se no sofá e indicou o lugar a seu lado. Ele se juntou a ela, provando a bebida e sentando-se muito próximo a ela.
"Então", ela perguntou, depois de tomar um gole do drink, " o que é que você tem contra o natal?"
Seu tom era neutro, casual, como o de alguém que pergunta sobre o tempo. Era a segunda vez que ela fazia isso. Perguntava de forma casual sobre algo que ele não queria mencionar. Primeiro foi com Rebecca, e agora os motivos, pessoais demais, para ele não gostar do natal. Ela podia ler através de sua fachada de policial durão, podia enxergar além do jeito despreocupado e fechado que ele tentava usar para intimidar todo mundo.
"Eu não tenho nada contra o natal. Só não tenho muitos motivos para comemorar."
"Alex, você estava parecendo o Grinch enquanto escolhíamos a árvore."
"Não estava, não!"
"Estava, sim. Talvez um pouco. De qualquer forma, você nunca foi muito festivo. Ano passado você literalmente me respondeu com um 'tanto faz' quando eu desejei feliz natal."
Ele sorriu ao se lembrar da cena e tomou mais um pouco de sua bebida, vendo-a fazer o mesmo.
"É verdade, eu não sou o maior entusiasta das festas de fim de ano. A época toda, essas festas, me lembram... Me fazem lembrar da minha mãe. Era a época favorita dela."
"Oh, Alex. Eu sinto muito. Não devia ter comentado. Me desculpe."
"Não tem problema. Não tinha mesmo como você saber."
Ela o olhou, atenta para as mudanças na expressão dele. Alex bebeu o restante da bebida de uma vez e abaixou a cabeça, olhando para a taça vazia em suas mãos. Norma colocou a mão sobre o braço dele, um gesto de calma e conforto para chamar sua atenção. Como ele ainda se mantinha cabisbaixo, ela tocou seu rosto de leve, fazendo-o olhar para ela, e sentiu como ele se inclinava na direção de sua palma.
"Quer falar sobre isso?"
"Não, está tudo bem. Já faz muito tempo, é só que..." ele balançou a cabeça tentando afastar os pensamentos.
Houve um momento de silêncio que se estendeu entre eles. Norma terminou sua bebida e olhou ao redor, procurando algo sobre o qual falar. Um assunto comum, trivial, qualquer coisa.
"Sabe, nunca havia pensado sobre o fato de você ter um piano em casa. Você toca?"
"Não. A única com habilidades musicais aqui é você. Era da minha avó. Ela até tentou me ensinar alguma coisa quando eu era criança, mas eu nasci para a música. E... bem, minha mãe às vezes tocava, também. Antes de tudo ficar muito ruim."
Norma queria se chutar mentalmente por conseguir mencionar o único assunto que o perturbava e o deixava triste por duas vezes seguidas em menos de 10 minutos. Mas antes que pudesse pensar em alguma outra coisa para dizer que não fosse "sinto muito", Alex a encarou com o mesmo sorriso gentil de sempre.
"Quer tocar? Faz muito tempo que está parado, mas acho que ainda deve funcionar."
Ela ia dar uma desculpa e recusar. Algo sobre tocar o piano da mãe morta dele a incomodava. Mas antes que reagisse à oferta, ele a segurou pela mão, guiando-a até o instrumento.
'Venha. Toque algo para mim."
"Se não estiver desafinado..."
Ela depositou a taça vazia em cima do piano, onde a de Alex se juntou em seguida. Com gentileza quase reverente, ela levantou a tampa e correu os dedos pelas teclas, testando se todas funcionavam, se o som estava certo. Então puxou o banco e sentou-se, colocando as mãos em posição.
"Bem, eu não sou muito boa..."
"Não seja modesta, já vi você tocando."
"Não havia nenhuma partitura, então ela tentou se lembrar de alguma música que conhecesse bem. Sorriu e começou a dedilhar as notas tão conhecidas. Mas não demorou muito até que fosse interrompida.
"Chopsticks, Norma? Sério?"
Ele estreitou os olhos e ela riu. Por algum motivo, sempre adorou provoca-lo. E sabia que ele adorava quando ela o fazia. Então ela voltou sua atenção para o instrumento, e ele se sentou ao lado dela, vendo seus dedos deslizarem pelas teclas com sutileza, tocando as notas com suavidade e precisão.
"Fly me to the moon
And let me play amont the stars
Let me see what spring is like
On Jupiter or Mars
In other words, hold my hand
In other words, darling kiss me"
Enquanto ela cantava e tocava, Alex se aproximou mais, enlaçando-a pela cintura. Tendo cuidado para não atrapalhá-la, ele pousou um beijo suave em seu ombro.
"Fill my heart with song
And let me sing forevermore
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please be true
In other words, I love you"
Enquanto a voz melodiosa dela declamava a letra, ele não podia deixar de notar como a música se encaixava perfeitamente para eles.
"Eu amo você também" sussurrou junto ao ouvido dela, fazendo-a sorrir. Ele prosseguiu roçando os lábios em seu pescoço e ela se encolheu um pouco, mas sem parar de tocar. Ele ficou mais ousado, mordiscando de leve a pele, distribuindo beijos até a parte de trás do pescoço e então voltando, subindo até o maxilar, até o canto da boca. Incapaz de se concentrar por mais tempo, ela descansou as mãos sobre as teclas, fazendo um som esganiçado, e inclinou-se na direção dele. Tinha os olhos fechados, mas sorria, permitindo o assalto da mão que ele agora tinha sob seu vestido, acariciando sua coxa, e dos lábios dele em seu pescoço delicado. O pensamento de que ele poderia deixar marcas a deixava-a agitada como uma adolescente, e ela deixou que ele continuasse por mais um pouco, até que se desvencilhou dos lábios dele.
"Não sei onde está querendo chegar com isso, mas é melhor parar", ela avisou entre risinhos.
"Não sei do que está falando. Estou apenas admirando seu talento."
Ele cobriu os lábios dela com os seus, e ela correspondeu, virando-se mais para ele, a fim de passar os braços ao redor de seu pescoço. O beijo foi breve, no entanto, e antes que ele fizesse uma tentativa de aprofundá-lo, ela se esquivou de novo, passando o polegar pelos lábios dele para retirar os pequenos vestígios do batom que havia transferido.
"Boa tentativa, senhor, mas não vamos fazer sexo no piano da sua avó."
Ele riu enquanto ela passava os dedos ao redor dos próprios lábios, para limpar qualquer traço de batom que tenha saído do lugar. Então levantou-se, pegando as taças vazias.
"Venha, vamos jantar."
Ok, quantos de vocês realmente notaram o piano na casa do Alex? Ele havia totalmente passado despercebido por mim, até que essa semana eu estive assistindo uns pedaços de alguns episódios da Season 4 e vi um piano na sala dele. E fiquei me perguntando, "por que tem um piano na casa dele? Será que ele toca? Alguém na família dele tocava? Se ele sabe tocar, por que não falou nada para a Norma? Provavelmente ele não sabe, mas então só teria o instrumento porque pertenceu a alguém importante para ele, certo?". E então resolvi colocar o piano na história só porque, sério, quem não ama ver a Norma ao piano? :P
à propósito, a música tocada por ela nesse capítulo é Fly Me To The Moon, imortalizada na voz de Frank Sinatra mas, pra mim, Norma a canta de um jeito mais melodioso, mais lento, como Shirley Bassey, ou Judy Garland :)
