Sentia-se nervoso. Nunca antes saira de sua cidade, que embora não fosse pequena, nada tinha de atraente.

Mas agora se despedia dos pais e da pequena irmã, que acabara de completar 12 anos, sob pretexto de ir para uma ótima faculdade em outro estado. Sempre tivera o desejo de conhecer o mundo, mas não negava que a saudades da família seria enorme.

Abraçou a mãe, que tentava conter os soluços, apertou a mão do pai, homem robusto e sério, e ao chegar à irmã notou o olhar perdido da mesma. Ela não entedia a situação.

-Anna,- Ele se abaixou para ficar no nível da irmã. As palavras lhe doíam.- ficarei fora alguns anos. Estudarei bastante e voltarei melhor do que sou agora. Me prometa que também irá se esforçar para se tornar uma garota cada vez melhor.

-Prometo mano.- Anna sentia grande respeito pelo irmão, e deixava isso claro.

-Vou escrever cartas toda semana.- Não era uma promessa que pretendia quebrar.

Já dentro do trem, procurava uma cabine, sem muito sucesso. O trem sairia logo então tinha pouco tempo, ou teria que se sentar no corredor. Nessa busca, passou por um grupo de rapazes, não muito mais velhos que ele. Não pareciam ir a alguma universidade, e sim procurar emprego em outros lugares, esperando que a sorte lhes sorrisse na cidade grande. O grupo era bastante animado.

-O que acham de logo que chegarmos, andarmos pelas ruas?

-Você não engana ninguém. Quer ver as donzelas passando.

-Você também, admita, Peter.

Isso lembrou-lhe que também estava deixando vários amigos para trás, mas logo ignorou esse fato. Não importava quando tempo passasse fora, um dia voltaria para a família, os amigos e para a noiva.

Não amava realmente sua noiva. Não o amar de que tanto falam os poetas. Mas eram amigos de longa data e tinham muito carinho um pelo outro. Ambos nunca haviam se apaixonado e concordavam que era melhor para as famílias e para eles próprios não esperar algo que talvez nunca viesse. Assim pelo menos formariam um lar com alguém que respeitassem.

Já desistindo de encontrar uma cabine, abriu uma porta. Felizmente ali só havia um rapaz, de idade próxima a sua, de aparência pálida. Era a cabine mais vazia que encontrara e tinha que aproveitar a sorte.

-Com sua licença, poderia me sentar?- O outro rapaz sorriu simpaticamente.

-Claro.

Não gostava de ficar encarando as pessoas em silêncio, e os olhos dourados do estranham lhe incomodavam um pouco, por isso iniciou um conversa.

-Como se chama?- O loiro pareceu surpreso.

-Willian. E o seu nome seria?

-Michel. Mas ninguém me chama assim, só de Mich.

-É um prazer conhecê-lo Mich.- Willian parecia achar graça do jeito do moreno.

-Sabe por que o trem está tão cheio?- A pergunta do loiro confundiu Michel.

-Ora, depois da guerra o número de empregos está enorme. Todos estão indo para as cidades maiores para conseguir dinheiro.

-Faz tempo que não acompanho as noticias, me sinto fora de época.- Willian riu do que pareceu ser uma piada interna e Michel se perguntou qual era a noção de tempo dele.

Durante a maior parte do tempo, os dois conversaram, mas era Michel quem mais falava, principalmente sobre a família e os estudos. Willian não parecia se importar, na verdade, parecia se divertir com a animação e juventude do rapaz, sempre mais curioso sobre a vida do mesmo.

-Mas e você Willian? Para onde está indo?E a sua família?- O outro pareceu relutante e Michel quase se arrependeu de ter perguntado. Quase.

-Estou indo visitar alguns amigos antigos. Pode não parecer mas sou bem mais velho que você. Sobre minha família, ela já não existe faz tempos.

Agora Michel se arrependeu de ter perguntado.

-Desculpe por minha intromissão.

-Não precisa se desculpar, essa é só uma história antiga.

Nessa hora tudo virou de pernas para o ar. Literalmente.

O trem havia saído dos trilhos. O barulho era ensurdecedor e não se via nada com clareza. A única coisa que Michel sentiu foi uma dor monstruosa no crânio e depois tudo ficou escuro.

Não é comum que aja sobreviventes nesse tipo de acidente. Excepcionalmente, dois rapazes saíram vivos, mas tremendamente feridos. Não haveria tempo para o socorro chegar nem para levá-los ao hospital mais próximo. O vampiro a bordo do trem sabia disso. Também sabia que poderia condenar duas almas boas a uma eternidade de sofrimento. Nesse conflito de pensamentos, a solidão e a lembrança da como era ter uma família prevaleceram. Provavelmente iriam odia-lo, mas o egoísmo era maior.

Os dias seguintes foram muito difíceis para os três.

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Esse extra é o meu pedido de desculpas pelo cap demorado, mas nem sei se resolve.

A maior parte é da perspectiva do Mich, porque já vou fazer a versão do Will da fic e eu não saberia dizer o que se passa na cabeça do Peter.

Para quem quer identificar o tempo histórico é depois da 1º Guerra Mundial e antes da Crise de 1929. Mesmo assim pode haver erros de contextualização, faz tempo que estudei século 20.