Capítulo XI

De manhã.

Como de costume Adelle ocupou o banheiro. Mas Kimberly não se importou dessa vez. Por dois motivos: era o segundo dia; e também porque acordou bem humorada. Aquela conversa, aquele apoio que recebera tinha levantado sua auto estima, tão em baixa ultimamente. Jogar a culpa para cima de Leslie tinha sido uma injeção de ânimo.

Mas ainda havia o chocolate. Guloseima capaz de provocar grandes alterações no dia-dia de uma pessoa. Sobretudo no de Kimberly, incrivelmente suscetível ao efeito de hormônios.

O treinamento naquele dia rendeu bem mais. Recebeu elogios de Schimdt por seu desempenho. Sentiu-se feliz, satisfeita. Elogios faziam bem para o ego... Kimberly estava longe de ser a pessoa que os recusaria.

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Alguns dias depois: uma das pesagens

Uma fila marcava o ritmo daquela ditadura. A pesagem não era feita em particular. Se algo tinha de ser dito, era dito na frente de todas.

-Precisa emagrecer dois quilos.

-Mantenha seu peso assim.

-Emagreça 500 gramas.

-Se perder mais peso, vai ser mais fácil.

Schimdt nunca estava satisfeito.

O pior era ver o sermão para as novatas. Não havia nenhuma há tempos mas lembrava-se como tinha sido duro ouvir o que ouviu na sua primeira semana.

-Precisa perder quatro quilos.

-Quatro quilos? Mas estou no peso normal para minha altura!

-Você quer ser normal ou ser a melhor? Acabou a brincadeira... aqui a ginástica não é só mais um esporte. Aqui é uma coisa séria. Se quiser estar no topo precisa ser mais ágil, mais rápida e ir mais alto, e a única forma de fazer isso é sendo a mais leve! Será que entendeu?

-Entendi...

-Perca quatro quilos.

Lembrava-se perfeitamente da vergonha que sentiu porque todas as outras meninas ouviram: era a mais gorda do ginásio. A MAIS GORDA DO GINÁSIO! Sentira-se massacrada. Nunca tinha passado por nada tão humilhante na vida.

-Kimberly!

-Hã? -estava distraída.

-É a sua vez. -avisou Adelle.

Obediente e sem pensar muito, subiu na balança.

-Hummm... -estava analisando, anotando algo na prancheta. -Parabéns, Kimberly. Perfeito!

Bastou isso para que ficasse feliz pelo resto do dia.

Adelle também saiu-se bem naquela prova de fogo. As duas comemoraram muito, mas em silêncio antes que ouvissem uma bronca.

Normalmente depois de serem pesadas as meninas começavam a se aquecer. As duas fizeram o mesmo, mas Kimberly manteve-se atenta ao restante da "cerimônia".

Foi a vez de Kate. Schimdt não falou nada, nem que sim nem que não. Foi o suficiente para saber que estava no limite. Nem Schimdt e nem os auxiliares falavam de seu peso. Kate simplesmente não dava margem a implicâncias e nem se mostrara disposta a ceder. Mas o treinador parecia tolerá-la porque tinha talento e chances reais.

Logo depois foi Leslie. Schimdt olhou para a prancheta e logo depois lhe lançou um olhar reprovador.

-Você engordou. -limitou-se a dizer num primeiro momento. -Precisa emagrecer dois quilos.

-Eu estou no peso que me indicaram até agora, senhor...

-É, mas não é suficiente. Emagreça dois quilos.

Leslie desceu da balança. A expressão estava estranha. Kimberly reconheceu nos olhos dela sua própria reação quando tudo começou. Por um momento sentiu pena... mas nada que tenha durado muito.

-Nossa... você viu isso? - Adelle aproximou-se de Kimberly.

-Vi, coitada...

-Coitada? Coitada nada. Agora você vai ver quem é a verdadeira Leslie Reynolds.

Teve vontade de ir consolá-la. Mas logo Kate foi até ela.

"Vamos ver como ela se sai dessa agora" pensou, antes de ir treinar.

A noite, já no alojamento.

Quarto de Kate e Leslie. Estava muito abatida depois do que acontecera. Uma palavra de Schimdt era capaz de abalar qualquer uma. Obviamente nem mesmo a sua melhor ginasta estava imune de seu poder.

-Leslie, não pode ficar desse jeito... – Kate tentou intervir.

-Eu sei. Tenho que emagrecer.

-Não, não tem que emagrecer mais. Já está abaixo do peso saudável.

-E por acaso isso é suficiente pra ele? -estava desconsolada. -Puxa... tava bom demais pra ser verdade...

-Se estava bom não faz o que ele manda. Nunca esteve tão bem de saúde, se emagrecer agora vai ter um tremendo problema.

-Sei. – gesticulou, roendo uma das unhas, já pequenas tanto por ansiedade quanto por exigência do esporte - Sei disso, não quero acabar como a Christhy.

-Olha, eu sei que é o seu sonho, mas nunca vai chegar até ele se não conseguir ficar de pé.

-É o meu sonho mesmo... – suspirou - Eu achei que poderia ser diferente. Não quero fazer isso de novo.

- Então não faça!

-Por que isso é tão fácil pra você?

-Talvez porque já tenha visto demais. Você também viu. Sei que é difícil mas vai acabar se acostumando. Precisa estar viva pra chegar ao topo.

-Obrigada Kate. Está me ajudando muito.

No outro quarto.

-Bem feito pra ela. – Adelle ria, enquanto lixava as unhas.

-Por que tem tanta raiva dela, Adelle?

-Não tenho raiva, Kim. Simplesmente não suporto hipocrisia. E Leslie Reynolds não passa de uma vaca hipócrita.

Kimberly sentiu-se mal por ouvir aquilo.

-Bom, vamos parar com esse assunto... como se sente sendo uma das únicas que ouviu um elogio de Schimdt nessa "prova de fogo"?

-Bem. Muito bem. - agradeceu mentalmente por ela ter mudado o rumo da conversa -Me senti poderosa!

-Ihh... essa é uma sensação ótima. Ele leva fé em você.

-Nossa... – sorriu - Estou muito feliz. Acho que não lembro de ter ficado tão feliz assim desde que vim pra cá.

-Sério? Isso é ótimo. Também fiquei feliz, porque você merece. Além disso, porque também fui bem.

-Obrigada Adelle. Você também merece.

-Isso merece uma comemoração...que tal um pequeno banquete pra comemorar? - mostrou duas barras de chocolate, parecendo empolgada.

-Ahnnn... não sei se devo... – respondeu, desanimada - Demorei tanto pra ouvir isso, não quero fugir da balança depois.

-Ei, querida... planeta terra chamando: não é você quem tem problemas com a balança. E tem meios pra evitar que isso apareça no ponteiro.

Kimberly pareceu seriamente indecisa. Era como se estivesse um anjinho e um diabinho aconselhando-a.

"Qual é, Kimberly? Você merece um chocolate..."

"Não... mas isso não é certo. Está violando as regras"

"Também é contra as regras passar vontade"

"Você não precisa disso para ser a melhor"

"Este é apenas um recurso... qual o problema? Só um chocolatezihno... só por essa noite..."

"Lembre-se de Christhy... é desse jeito que começa."

"Você não é igual a ela. Essa Christhy foi fraca... mas você é forte".

"Não pode arriscar sua saúde dessa forma!"

"Deixe de ser boba, todas fazem isso. Não vai acontecer com você. Olha só que delícia... chocolate recheado com..."

"Pare com isso!"

"... nozes, castanhas e avelãs, e mais uma mistura cremosa de chocolate branco e..."

"Pare!! Pare com isso!!"

-Tá bom, tá bom... aceito. -pausa -Esse aqui eu não conheço. É novo?

-É. Você vai adorar. Todo mundo começou a pedir dele agora. Chocolate preto por fora recheado com chocolate branco cremoso, nozes, castanhas e avelãs -abrindo a embalagem -Uma comemoração a altura da conquista.

-Humm... putz... um beijo em quem inventou essa maravilha!

Adelle sorriu concordando enquanto Kimberly voltou a comer. O sorriso que deu tinha muito mais do que satisfação por ela ter gostado do chocolate ou sua vitória contra a balança naquele dia. Havia outros motivos escondidos por trás daquele rosto inocente.

Voltou a comer.

Quando acabaram...

-Bom, agora nós temos que fazer.

-Eu não gostaria disso.

-É uma decisão que você mesma tem que tomar.

-Não quero fazer isso. – repetiu.

-Então não faça.

-Não é tão fácil assim.

-Por hoje não tem mais que temer. Pode até deixar que chegue ao seu estômago, mas o problema é que ele é hipercalórico.

-Imagino que sim. Tudo que é bom é hipercalórico. – tentou parecer como se não se importasse.

-Hoje comemos porque tínhamos um motivo especial. Amanhã não precisa, caso não queira... mas não foi bom sentir-se mais leve nos saltos?

-Foi. –admitiu, a contragosto.

-Nem se sentir poderosa?

-Foi ótimo.

-Pode continuar desse jeito. É o que estou dizendo: só depende de você. – insistiu Adelle.

Pareceu refletir por mais algum tempo.

-Certo, não tenho porque engordar hoje.

-É assim que se fala!

Levantaram e foram ao banheiro.

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Os dias foram se passando muito rápido.

Kimberly e Adelle continuaram se dando bem com a balança. Em cada pesagem sentiam-se vitoriosas. Também, ambas tinham motivo para isso.

Mas as vitórias escondiam muitos sacrifícios: algumas de suas horas de sono eram substituídas por séries de abdominais e flexões. Por algumas vezes vomitaram uma das refeições básicas. E o chocolate da noite não parou por ali.

Kate continuava agindo como a ovelha-negra. Ninguém dizia sobre seu peso. Fazia o que estava ao seu alcance para ser saudável e continuar praticando o esporte. Sabia que estava no limite, e estava bem resolvida quanto a isso.

Leslie não estava com tanta sorte. Com o apoio de Kate não se submeteu novamente aos expedientes que suas colegas usavam para manter-se no peso desejado. Optou pelos exercícios extras. Perdeu algum peso mas não o suficiente para agradar seu técnico. Ouviu novas broncas de Schimdt e estava ficando nervosa. Não conseguia dormir direito. Seus nervos estavam a flor da pele.

Mary percebeu sua angústia e decidiu puxar conversa quando ela apareceu na sala de fisioterapia.

-Leslie? O que está acontecendo com você?

-Não tenho dormido muito bem ultimamente. – esfregou os olhos – Preciso dormir direito por pelo menos algumas horas.

-Também precisa de calma. Anda muito nervosa.

-Dá pra perceber?

Mary fez que sim.

-Essa cobrança... o meu peso... não está bom...

-Se você não sente dificuldades com os exercícios e está satisfeita com seu peso...

-Não quero ficar ouvindo bronca do treinador.

-É mesmo difícil. Está sofrendo uma pressão absurda... mas tente administrar essa ansiedade.

-Se fosse só isso...

-Kimberly, não é?

-É. Parece que a senhora andou conversando com ela... acabou brigando comigo.

-Puxa... lamento muito por ter causado tanta confusão.

-Confusão nenhuma. – suspirou - Talvez tenha sido melhor.

-Ficar com Adelle não é o melhor pra ninguém.

-É... eu sei..

-Fica tranquila. Seus problemas vão acabar se resolvendo mais cedo ou mais tarde. Já vi muitas meninas caírem por causa de não saberem se controlar. Sei que você também já.

-Já. A Christhy morava comigo.

-Pobre menina... -a lembrança de Christhy era suficiente para deixar Mary com olhos marejados -Então não faça o que sei que está pensando. Não faça! Não vale a pena.

-Não farei.

A conversa se encerrou com um aperto de mão.

Kimberly estava saindo de lá quando viu as duas conversando. Pensou em parar para ouvir, achando que estivessem falando dela, mas como não conseguiu ouvir acabou desistindo.

"Maldita... é sobre mim mesma... Adelle tem razão, ela é uma vaca hipócrita!"

Voltou para o quarto. Bateu a porta quando fechou-a.

-Credo, Kim... mas que cara é essa??

Continuava não gostando que a chamassem de "Kim", mas não falava nada. Afinal os chocolates não eram cobrados e ainda por cima lhe dava tanta atenção...

-A Leslie estava conversando com a Mary. E tenho certeza que era sobre mim!

-Tenta se acalmar... pode não ter passado de um mal entendido.

-Não dá, Adelle... você tinha razão. Ela é uma tremenda hipócrita! -começou a andar pelo quarto -Como pude me enganar tanto com uma pessoa?

-Fica calma. -mexeu numa bolsa e tirou dois pacotes azuis -Toma isso aqui.

-O que é isso?

-Chocolate. Não conheço nenhum calmante melhor que esse.

Dessa vez Kimberly não pensou duas vezes. Aceitou sem pestanejar, abriu e tirou o primeiro pedaço com voracidade. E, como se realmente fosse um calmante ou um analgésico sentiu-se mais relaxada após sentir o sabor de seu doce preferido.

-Tá mais calma agora?

-Tô -respondeu, depois de engolir. -Tô mais calma sim.

-Ótimo.

-Mas ainda não consigo acreditar nisso...

-Não culpe apenas Leslie. Ela não é a única hipócrita que temos por aqui.

-Não?

-Kate é outra.

-Kate?? -pareceu surpresa, pra não dizer perplexa. -Mas ela...

-Tudo máscara. Se tivesse noção... eu dividi o quarto com ela e sei.

Passaram a noite conversando sobre o assunto onde Adelle contou a sua versão de como tinha sido dividir espaço com ela por tanto tempo. Versão totalmente distorcida, mas do qual Kimberly, fragilizada não conseguia distinguir. A verdade não era atraente aos seus ouvidos naquele momento.