Entardecer

Sora fechou os olhos por alguns instantes sentindo a fraca brisa que mexia em seus cabelos e em seu rosto.

Soluçou fracamente algumas vezes e balançou a cabeça, não tinha mais volta.

O vento balançava seu cabelo mais uma vez que, mesmo passado tanto tempo, não estavam mais que cinco dedos mais compridos. Fisicamente ela não tinha mudado muito com o passar dos anos; continuava com aquele jeito maduro de sempre, que era até digno de admiração por ela ser tão jovem.

Mas era apenas a superfície.

Por dentro, pensava ela, que não havia nada do que se admirar, apenas do que detestar. Sentia-se tão suja por criar tantos problemas, por ser tão egoísta e não pensar o suficiente nos outros. Parecia ser algo tão diferente da Sora de antes que todos faziam tanta questão de fazê-la se lembrar.

Porém para ela, não havia como se tornar aquela Sora. Era como se fosse outra pessoa, um alguém completamente diferente de seu "eu" de agora. Um "eu" incansável, e ela não chegava a um terço desse "eu".

A verdade é que tudo lhe parecia tão vazio como o pedido que havia feito em seu aniversário. Apenas desejos impossíveis e sonhos quebrados, contorcidos e enferrujados como o monte de ferros que sobraram de seu acidente de carro.

Colocou o pé esquerdo agora junto com o direito porém antes de seu corpo cair dez andares a baixo sentiu mãos agarrarem-na pela cintura e seu corpo chocar-se contra o chão para a parte segura, atras do muro de proteção.

Abriu os olhos sentindo dois outros corpos a abraçarem, protegendo e aquecendo-a .

Os três corações batiam acelerados, porém no mesmo ritmo. Todos os três estavam com medo, assustados e bastante machucados.

"Sora, o que você estava fazendo?"-

Tai exigiu um pouco bravo, um pouco confuso e segurando a grande vontade que tinha de chorar.

"Você está bem Sora?"- Matt perguntou olhando-a preoculpadamente nos olhos, sentando-se.

A menina apenas abraçou o garoto loiro a sua frente e voltou a chorar, com suas últimas forças e com suas últimas lágrimas.

Chorava de vergonha do que estava prestes a fazer. Como poderia cometer um ato como aquele com dois anjos que estavam sempre em volta fazendo o possível para protegê-la, afinal eles se importavam sim!

Matt embrulhou Sora com os braços, compreensivo, passando os dedos por entre os cabelos dela, tentando alivia-la do medo; no entanto ele podia sentir seu próprio coração pulsar tremulo com o susto que levara a alguns segundos atrás. Não imaginava o que faria se ela tivesse mesmo...

Balançou a cabeça tentando livrar seus pensamentos da possibilidade de algo assim acontecer e continuou abraçando-a com carinho e força ao mesmo tempo.

Tai assistia a cena em pé, porém naquele momento ele não sentia ciúme, rancor ou dor ao ver aquilo. Estava apenas aliviado ao ver que Sora estava bem. Só por ela estar viva já sentia o coração voltar aos poucos ao ritmo normal, embora o rosto ainda estivesse coberto de suor frio.

Os medos foram desaparecendo, sendo substituído pela segurança. As confusões de suas mentes tornaram-se brancos, para que ele não mais pensassem em seus problemas, fossem qual fossem.

E como se as feridas nas asas dos três começasse aos poucos a cicatrizar e a parar de sangrar, começaram a ficar em silencio. Não que as feridas pudessem ser cicatrizadas por completo, como por milagre, pois eram profundas demais, doloridas demais e complexas demais para serem esquecidas. Porém ao menos podiam ser cobertas naquele instante, até mesmo os soluços baixos de Sora foram aos poucos desaparecendo até pararem por completo, quando ela finalmente pegou no sono.


O par de olhos azuis vagavam janela a fora fitando o céu de cores alaranjadas, finalizando a tarde e iniciando a noite.

Mesmo com a bela paisagem do lado de fora, o garoto encarava apenas a si mesmo pelo vidro da janela. As mãos nos bolsos da calça indicavam que ele estava pensando.

O seu reflexo no vidro indicava que muitas coisas haviam mudado com o passar dos anos, o tamanho de seus cabelos, a sua altura, seu peso... Quase tudo no físico havia mudado, o jeito de ser mudou também, não muito mas já era alguma coisa. O que não mudava era seu intuito para brigas, a sua mania de se distanciar das pessoas. Não que não se esforçasse, era algo que vinha dele; coisas que não mudam, continuam iguais, só podem ser adaptadas...

Sentado na poltrona branca da sala de espera estava um outro garoto, este de olhos castanhos, que analisava os movimentos do outro a sua frente com certa curiosidade e apreensão.

Nenhum deles ousava falar nada, nem uma palavra se quer. Até mesmo uma simples pergunta das horas podia fazer o ambiente ficar ainda mais carregado. Agiam como se não conhecessem um ao outro, tratavam-se como desconhecidos para evitar tocar em um assunto que ambos haviam feito um acordo silencioso de que não voltaria ser mencionado.

Matt continuou a observar sua imagem refletia na janela e passou as mãos nervosamente pelos cabelos, como se isso o ajudasse a pensar. Tinha um batalhão de perguntas para fazer a Tai, perguntas que talvez até o digiescolhido da coragem tivesse receio em responder por medo das conseqüências. Perguntas que talvez, naquele momento não seriam as mais adequadas.

Mas ele não podia evitar de faze-las.

Como se Taichi adivinhasse o que seu colega estivesse pensando, sentou-se corretamente no sofá e entrelaçou os dedos tentando se preparar para o interrogatório.

"Taichi, por quê... Nunca me disse que estava gostando da Sora?"- Matt perguntou, mas continuou sem se virar, apenas observando Tai pelo vidro da janela.

Tai soltou um riso pelo nariz antes de responder, estava visivelmente nervoso. O porquê desse nervosismo não era pela pressão de Matt em si, ou a surpresa daquela pergunta, já que se preparava mentalmente há anos por ela.

"Eu nunca tive coragem o suficiente de contar para ela própria... Não me parecia o mais adequado conversar diretamente com o namorado dela... É pedir para tomar um soco na cara não acha?"- Sorriu um pouco sínico, mas não intencionalmente para provocar, e sim por algo que ele já guardava a muito tempo dentro de si mesmo, que acabava por envenena-lo.

O garoto loiro acenou com a cabeça pacientemente, segurando seu impulso agressivo.

"Por que a deixou ir então?"

Taichi levantou-se e ficou de frente para a mesma janela que Matt estava, só que ao contrário do digiescolhido da amizade ele não olhava para seu próprio reflexo que estava se tornando miserável e sim para o céu que começava a escurecer, como se estivesse procurando algo que nem ele mesmo podia enxergar.

Matt olhou para Tai ao seu lado um pouco confuso mas resolveu que o melhor era ficar quieto e esperar.

"A Sora é como um pássaro na gaiola."

"Um pássaro na gaiola?"- Yamato não pode deixar de ficar espantado com a comparação.

" Depois de muito tempo preso um dia você resolve solta-lo, se o pássaro voltar para você, você o cativou..."-

Taichi encarou seu reflexo pela primeira vez.

"Mas se ele não voltar... então ele nunca foi seu."

"O que você..."

"Quando nós ainda éramos crianças, eu sempre mantive a Sora em uma gaiola, sempre perto de mim. Quando ela aprendeu a voar sozinha eu a soltei, mas ela não voltou pra mim; ela foi direto pra você Matt."

"Tai..."

"E naquele dia que eu..."- Tai não ousou falar, porém Matt já sabia perfeitamente do que se tratava- "Eu pensei que ela tivesse voltado pra mim... Mas eu me enganei. "

Taichi vez a única coisa que as opções daquela situação lhe proporcionavam; virou as costas e começou a caminhar em direção a saída.

"Foi mal, Matt." Soltou.

"Sabe Tai..."- Foi a vez do garoto loiro tomar as palavras- "Eu acho que eu também tranquei a Sora em uma gaiola."

Taichi forçou um sorriso para si próprio e assentiu com a cabeça.

"Nós não podemos mais pedir para que ela escolha uma gaiola, não agora."

"Eu sei..."

"E de qualquer jeito."- Taichi forçou o sorriso mais ainda- "Eu acho que ela ia escolher você mesmo Matt. Eu não sou vocalista de banda nenhuma sabe? Só sei jogar futebol...

Diz pra Sora, que eu mandei um 'Alô' tá?"

Yamato apenas ficou quieto por alguns segundos, quando reuniu um pouco mais de coragem para falar Tai já havia sumido.


Alguns meses depois

"Nem consigo acreditar que as aulas estão no fim!"

As conversas misturavam-se pelos corredores do colégio. Talvez fosse pela agitação dos últimos anos escolares, ou pela simples aproximação das férias. O fato era que de muito que se falava, pouco conseguia-se entender.

"Eu também não acredito que consegui passar de ano!" exclamou a outra ainda mais alegre.

"Só você mesma Sora! Mesmo depois de faltar tanto nas aulas ainda conseguiu tirar notas altas!"

A garota de olhos castanho-avermelhados sorriu discretamente com um pouco de orgulho de si própria. Depois de tanto se esforçar, de tantas desculpas aos professores e correria quanto aos trabalhos atrasados, conseguira notas satisfatórias.

"O que pretende fazer nas férias, Chiharu?"

"Hum.. eu não sei talvez..."

"Oi gente!"- um garoto cumprimentou apressado enquanto corria para o vestiário para trocar a roupa.

"Oi Davis..."- Youlei respondeu sem muita vontade

"O-olá..."- Chiharu respondeu com a cor do rosto estranhamente vermelha e um tanto tarde demais para que Davis pudesse ouvir sua resposta, pois já estava longe.

As demais meninas voltaram o olhar curioso para ela, que sequer percebeu, apenas ficou olhando para a direção onde o digiescolhido havia passado.

"Parece que alguém está apaixonada pelo Daisuke..."- Kari comentou com um sorriso um pouco zombeteiro.

"E-eu?"- piscou os olhos duas vezes ainda mais corada- "Eu não estou apaixonada pelo Dai-chan... quero dizer... o Daisuke-kun... isso é.. isso é..." tentou concertar, porém acabou atrapalhando-se mais ainda.

"Tudo bem Chiharu" Sora colocou uma das mãos no ombro da amiga.

"Afinal o amor é cego mesmo... O que se há de fazer?"- completou Youlei espertamente, ajeitando os óculos.

"E por falar em amor..." Arashi que até o momento estava calada apontou para o casal a frente delas, que caminhava de mãos dadas para a saída.

"A Mimi e o Izzy... fazem um par até que bem bonito não?"- Kari perguntou.

"É mesmo... Mas são tão diferentes um do outro!"-

"Por serem tão diferentes... que fazem um casal tão bonito."

Sora apenas balançou a cabeça concordando silenciosamente e passou a observar a forma íntima como eles se tratavam, ao mesmo tempo que qualquer gesto como uma caricia na face os deixava com as maçãs do rosto vermelhas.

"Olha aí vem o Tai!"- Kari exclamou, fazendo a atenção voltar-se para ela e em seguida para o seu irmão.

"Olá Tai, que bom vê-lo aqui pois eu não o vi na classe ho..." Sora começou a falar porem parou quando ele passou diretamente por ela sem cumprimenta-la.

"Arashi"- Ele chamou- "Você é a representante de classe não é...? Será que eu poderia pegar algumas de suas notações emprestadas?"

"C-c-laro." Gaguejou confusa

"Tai eu te empresto as mi..."

"Arigatou"- cortou, pegando os papéis das mãos da representante.

"Onii-san!"- Kari chamou-lhe atenção- "Por que está sendo tão grosso com a Sora?"

A digiescolhida do amor encolheu os ombros .

"Me desculpe Sora."- falou secamente sem fita-la "Eu não te vi."

"Tem algo errado...?"

Ele olhou dentro dos olhos preocupados de Sora, porém não conseguiu encara-la muito tempo e virou o rosto em outra direção sem pronunciar mais nenhuma palavra sequer.

Aquela situação de silencio era desconfortante, desconfortante por Sora não poder compreender o que se passava na cabeça de Tai, ou porque ele insistia em ignora-la desde que saíra do hospital.

O digiescolhido da coragem mexeu os lábios porém nenhum som saiu e precipitou-se em direção a saída. Sora ainda fitou-o por alguns segundos enchendo o peito de a foi atrás dele.

"Tai, me espera!"

Ele continuou andando, fingindo que não ouvira, apressando os passos para que ela não o alcançasse.

Alguns alunos encostaram-se no armário e ficaram por assistir a cena, sem se importarem de estarem sendo inconvenientes e mal-educados.

Por fim o garoto alcançou a saída para o pátio da escola fechando a porta atrás de si. Olhou para trás e como não viu mais ninguém perseguindo-o respirou um pouco mais aliviado, ao mesmo tempo que sentia o coração se apertar um pouco e se sentir ridículo por fugir da situação como se fosse só um garotinho. Talvez algum dia ele voltasse para pedir desculpas por ser tão estúpido e infantil, mas não naquele momento. Naquele momento ele queria só fugir de seus problemas, embora soubesse que não poderia fugir para todo o sempre.

Voltou a andar em seu ritmo normal de caminhada olhando para a própria sombra tentando deixar á mente em branco, livrar-se dos pensamentos que faziam um embaralhado em sua cabeça e apertavam seu peito de forma que ficava cada vez mais difícil respirar, como uma cerca de arames farpados. Sentiu então algo quente e macio segurar sua mão.

"Você me disse que se eu precisasse de você era só chamar... Agora Tai eu quero ajudar você... porquê está com medo de mim? O que eu fiz de errado?"

Taichi Kamya parou de caminhar sentindo-se fraco diante da pergunta de Sora. Mesmo com a sua memória perdida ela não perdia aquele jeito de se preocupar com os outros. Porquê estava sempre preocupada assim? Por quê assumia a culpa por um erro que era dele?

"Sora... eu não quero te manter em uma gaiola novamente..."- ele falou antes de se soltar da mão dela – "Agora que você não se lembra de nada eu não posso te pedir desculpas, pois você não irá entender então apenas aproveite a sua liberdade Sora."

Taichi voltou a tomar distância porém dessa vez Sora optou por apenas acompanha-lo enquanto ele ia sumindo, com os olhos confusos segurando o colar com o pingente de coração entre os dedos.


Tradução

Onii-san(chan)- Irmão mais velho

Comentários.

Oi gente, me desculpem pela minha incapacidade de conseguir atualizar a fic com mais frequencia, porém desde que eu voltei á escola tenho tido problemas com a inspiração e tempo, e aulas de Sábado e de inglês, sem falar em pressão para o vestibulinho não tem contribuído muito. Obrigada pela compreensão de vocês.

A quem deixou comentários:

Rayana Wolfer- Sim sim estamos chegando ao clímax(gotinha), A sim, perdão se vc não compreendeu, eu usei Asas como metáfora mesmo viu? Domo Arigatou Gozaimassu pelo seu comentário

Hikari Tenchi- Oi maninha (happy) Eh, acho que vc jah disse tudo mesmo.. a e eu jah lhe expliquei pq demorou não? Então é isso bjs te adolooo

Fefechan- Que bom que vc está viva (gotinha) - A.. -super hiper mega vermelha- O-obrigada.. eu naum sei nem o que responder soh muito muito mas muito obrigada mesmo T.T

Maron Chan- Gomen, eu sinto tanto por naum conseguir atualizar com mais vezes...(nuvens negras ao redor)Eu agradeço por vc ser tão boazinha...

Crisvaz- Arigatou( de novo nuvenzinhas negras tomam conta do ambiente) Buuuaaa me desculpe por naum atualizar mais...

Kitai Relena( as nuvenzinhas começam a soltar raiozinhos)- Gomem T.T, a vc achou que minha fic tah perfeit... O.O Eu.. eu.. agradeço muito (happy)