Capítulo Onze – Bem-vindo ao clube

Harry tinha acordado bem mais cedo do que o normal para uma manhã de sábado. Em parte, porque precisava fazer algo que queria há dois dias, mas ainda não tinha arranjado tempo. Por outro lado, existia um motivo mais forte: um estranho sonho envolvendo um cemitério que o fez rolar na cama por duas longas horas até que o sol despontasse no horizonte.

Mesmo assim, estava bastante desperto, apesar de ainda moído de cansaço – cada vez mais ele tinha a impressão de que as semanas em Hogwarts tinham se transformado magicamente em meses inteiros. Ele jamais imaginara que o sétimo ano fosse tão exaustivo.

Um envelope que ele já tinha endereçado e lacrado na noite anterior estava sendo amassado por seus dedos enquanto o barulho dos seus passos contra o piso ecoava pelas paredes e pelo teto. O conteúdo daquela carta e as respostas que ela lhe traria não abandonavam sua cabeça há dois dias.

Ele sentiu o familiar odor desagradável de excrementos de corujas e cadáveres de animais mortos que elas traziam para o "lanchinho" matinal. Seus pés produziram um som de trituração ao chocarem-se contra os ossos de animais. Harry observou as várias corujas dos mais diversos tipos cochilando debaixo das asas agora que o sol ainda avermelhado penetrava pelas enormes janelas vazadas do corujal. Os olhos do rapaz não se demoraram muito para encontrar a sua coruja Edwiges, cuja penugem cor das neves se destacava entre as outras corujas do lugar.

Harry assobiou e chamou-a pelo nome. Edwiges, que também estava cochilando, levantou ligeiramente a asa, observando o dono irritada, com seus olhos cor de âmbar mirando-o perigosamente. Com seu temperamento difícil, que ele conhecia tão bem, a coruja deu as costas a ele, brava.

- Ora, vamos lá, Edwiges... – o rapaz suspirou. – Não vá dizer que está brava comigo por eu não ter mais aparecido!

Ela soltou um barulhinho irritado. Harry sentiu alguns pares de olhos o encararem com severidade por causa do barulho. Ele suspirou ainda mais profundamente.

- Eu também estava com saudades de você, sabia?

A reação da coruja foi instantânea. Ela se virou, bateu as asas, e pousou nos ombros do rapaz, bicando sua orelha gentilmente, apesar de suas patas terem se fechado com uma força desnecessária nos ombros dele.

- Tenho um trabalhinho para você. – ele disse com um tom de voz mais agradável do que durante toda a semana, acariciando as penas da coruja enquanto caminhava até uma das janelas. – É para o Sirius, mas eu não sei onde ele está exatamente... Você pode encontrá-lo, não é?

O pio que Edwiges soltou tinha um tom de dignidade quando ela se empertigou toda para receber a carta que Harry amarrava na sua pata estendida. A coruja apertou um pouco mais os ombros dele e estalou o bico antes de levantar vôo, sumindo entre as nuvens do céu alaranjado.

Harry ainda permaneceu algum tempo observando o céu lentamente tomar um tom azul límpido, as nuvens cada vez mais esparsas. Provavelmente aquele seria um dos últimos dias agradáveis até o próximo verão. Ele imaginou como poderia estar sua vida no próximo verão... mas logo parou de pensar no assunto. Um sentimento estranho e súbito tomou conta dele.

Enquanto voltava para a torre da Grifinória, ele percebeu os sinais de que o castelo estava despertando. Podia-se já ouvir algumas poucas vozes de alunos que tinham caído da cama, agora caminhando pelos corredores na direção do Salão Principal, ávidos por um saboroso café da manhã. Harry cumprimentou Nick-Quase-Sem-Cabeça antes de cruzar o quadro da Mulher Gorda, passar depressa por um grupo de quartanistas que vinham saindo, subir as escadas e descer dali a cinco minutos, já com a roupa vermelha e dourada do quadribol e a Firebolt nas costas.

Rony ainda dormia a sono solto, bem como os seus outros companheiros de quarto, quando Harry foi pegar a vassoura tomando cuidado para não ser notado. Não havia necessidade de acordar Rony; o treino só estava marcado para as nove. Além disso, Harry não estava a fim de ouvir os resmungos do melhor amigo acompanhando-o até o campo de quadribol se o acordasse cedo em um sábado.

Ele pensou durante todo o caminho na carta que tinha acabado de enviar a Sirius. Qual seria a reação do padrinho ao lê-la? Certamente, Harry não tinha sido nem um pouco simpático na carta e, ao invés do tom cordial que sempre usava com Sirius, contando como iam as coisas em Hogwarts, ele tinha a impressão de que até tinha sido um pouco agressivo. Estava ainda fervendo de raiva por causa daquele inesperado encontro com Samantha Stevens na sala do diretor na quinta-feira, quando escreveu a carta, exigindo explicações para o envolvimento de Samantha na Ordem. Se Sirius iria se zangar ou responder àquilo numa boa, Harry não sabia e não estava se importando muito no momento – estava mais preocupado em obter alguma resposta para suas perguntas.

No entanto, assim que entrou no campo de quadribol iluminado pelo sol da manhã, a grama ainda molhada pelo orvalho da noite anterior, sentindo o vento fresco acariciar-lhe a face, Harry esqueceu todas as suas preocupações. Aquele era o seu lugar. Ele conseguiu sorrir, sentindo-se mais confiante do que estivera por toda a semana, mas antes que pudesse montar a vassoura e dar o impulso nela, alguém sobre ele exclamou:

- Putz grila, não dá mesmo para acreditar!

Harry levantou a cabeça devagar, seu estômago despencando desagradavelmente ao reconhecer a pessoa que sobrevoava sua cabeça com uma expressão de desgosto no rosto emoldurado pelos cabelos cacheados presos com desleixe.

- Só pode ser uma maldição... – Harry suspirou, todo o ânimo que o atingira quando entrou no campo de quadribol se esvaindo tão rápido quanto viera. – O que voc está fazendo aqui, Willians?

- "O que voc está fazendo aqui?" pergunto eu, Potter! – a garota retrucou irritada, pousando suavemente a alguns metros de Harry. – Isso é uma perseguição, por acaso? – ela completou sarcasticamente, suas sobrancelhas se erguendo.

Harry a encarou como se ela fosse o ser mais desprezível da face da Terra. Dois segundos depois, ele se lembrou que esse ser era o primo dela, mas Willians provavelmente estava entre os dez da lista.

- Eu vim voar. – o rapaz indicou a vassoura com a cabeça. – Logo será o meu treino com a Grifinória. E voc? – ele disparou rispidamente. – Veio espionar, é?

Ela deu uma risadinha, seus olhos castanhos se estreitando em zombaria.

- Treino, é? – e riu novamente. – Ei, isso vai ser engraçado.

- O que você quer dizer com isso?

- Ah, não quero estragar a surpresa... – ela respondeu misteriosamente, encaminhando-se para uma mochila jogada a um canto. Ela jogou-a às costas, agitando a cabeça, seu longo rabo de cavalo acompanhando o movimento. Seus olhos continuavam com aquele brilho zombeteiro, em conjunto com o sorriso, quando ela encarou Harry. – Pode ficar com o campo para você, eu já voei o bastante.

Harry mal podia acreditar no quanto aquela garota conseguia irritá-lo somente com aquele tom de zombaria, mas ele reprimiu a palavra grosseira que quase pulou de sua boca em resposta. Antes de ir embora, Willians ainda se virou, seu sorriso alcançando os olhos quando fitou o rapaz.

- E eu encontrei uma sala para treinarmos, Potter. Sexto andar; há uma porta falsa atrás da tapeçaria dos centauros contemplando as estrelas. Seis e meia da tarde.

- Por acaso você está interessada em saber se eu posso mesmo ir nesse horário? – Harry perguntou sentindo uma onda de fúria percorrer-lhe o sangue.

- Esteja lá. – ela disse, fazendo um gesto negligente para ele, sem nem ao menos se virar, até sumir nos vestiários.

- Cretina. – Harry xingou baixinho, finalmente montando sua Firebolt e voando o mais rápido que conseguia para desanuviar a tensão.

Ele voou tanto, que acabou perdendo a noção do tempo. Quando se deu conta, já eram quase nove horas, e ele pousou rapidamente, apressando-se para chegar ao vestiário. Quando estava terminando de pegar a caixa de bolas, Rony adentrou a sala, mas não estava sozinho; Hermione vinha atrás, mordendo uma torrada que provavelmente apanhara da mesa do café da manhã (Harry sentiu o estômago revirar novamente; não tinha comido nada) e conversando animadamente com... Gina.

Harry sentiu o estômago revirar novamente e tinha certeza que dessa vez não tinha nada a ver com fome. Ele procurou se concentrar na caixa, tentando não olhar para Gina. Sentiu toda a sua irritação que tinha evaporado com o vôo voltar mais uma vez com toda a força; aquele vai e vem de suas emoções não estava ajudando.

- Você levantou tão cedo que eu nem o vi sair... – Rony comentou sonolento, à guisa de "bom dia", enquanto se deixava cair num banco vazio. – O que você foi fazer tão cedo?

- Despachar uma coruja. – Harry respondeu rudemente, jogando a goles para Rony subitamente; o amigo a agarrou de susto, seus olhos se arregalando. – Reflexos lentos, Rony. – Harry censurou.

- Dá um tempo, eu ainda não acordei direito... – Rony reclamou, jogando a goles de volta a Harry, que estando acordado há muito mais tempo, agarrou-a com facilidade.

- Um coruja para quem? – Hermione perguntou inocentemente, sentando-se ao lado de Gina num banco, mas Harry percebeu o brilho astuto por detrás de seus olhos castanhos.

- Sirius. – ele retrucou calmamente. – Fazia tempo que eu não tinha notícias dele.

Os olhos de Hermione se estreitaram levemente – Harry percebeu que ela tinha uma noção de qual seria o conteúdo da carta do rapaz. Ele ignorou isso, e Hermione também não tocou mais no assunto, mordendo sua torrada com vontade.

- Onde estão os outros? – Gina, que estava silenciosa até o momento, dirigiu-se a Harry, cruzando os braços.

- Não estão no meu bolso. – Harry respondeu ironicamente, recebendo um olhar fuzilante de Gina enquanto se sentava de frente a ela, em outro banco vazio. – E se também não estão no seu, acho que eles ainda estão para chegar.

Rony soltou uma risadinha e Hermione balançou a cabeça de um lado para outro, apesar de um sorriso ter aparecido em seus lábios. Gina estava lívida.

- Perguntei por perguntar. – ela disse mordaz. Harry deu de ombros.

Não demorou nem cinco minutos para que Peta, Jonnathan e Colin adentrassem o vestiário, cada um com uma cara diferente: Peta, saltitante como sempre, cumprimentou a todos e sentou-se entre Gina e Hermione; Jonnathan parecia ter engolido vespas, o que não era novidade, e lançou um olhar torto para Harry – o que também não era nada anormal – e depois um olhar intrigado para Hermione, provavelmente se perguntando o que ela fazia ali; quanto a Colin, ele parecia estar apenas com muito sono para demonstrar alguma emoção.

- Onde está Dênis? – Peta perguntou, olhando para todos os lados, como se esperasse encontrar o segundo batedor escondido dentro do armário ou debaixo do banco.

- Deve estar atrasado, como sempre... – Jonnathan resmungou azedo. Colin pareceu despertar do seu sono ao escutar a menção ao irmão mais novo, e olhou de lado para o colega.

- Melhor um jogador atrasado do que um mal-humorado... – Harry divagou, recebendo um olhar fuzilante de Jonnathan, que entendera a indireta.

- Você rimou! – Peta exclamou, como se aquilo fosse muito engraçado. Hermione e Gina se entreolharam e soltaram risadinhas.

- Isso soa estúpido. – Harry resmungou, levantando-se envergonhado. Ele escutou o barulho de outra pessoa fazendo o mesmo.

- Você já vai? – Rony perguntou com evidente desânimo na voz. Harry se virou e viu Hermione de pé.

- Estou de intrometida aqui, não é? – ela respondeu em tom leve, mas lançou um olhar um tanto estreito para Jonnathan, que continuava a encará-la como se fosse uma invasora. Harry às vezes (ou quase sempre) tinha vontade de socar a cara daquele garoto. – Vou assistir vocês lá das arquibancadas.

Ela sorriu para Harry e depois deu uma piscadela para Rony antes de sair, quase sendo atropelada por um garoto do quarto ano que entrava correndo pela porta, vermelho e esbaforido. Hermione ergueu as sobrancelhas, mas contornou-o e saiu. Dênis Creevey postou as mãos nos joelhos, arqueando o corpo, exausto pela corrida.

- Eu não acredito, eu até fui te acordar hoje, Dênis! – Colin repreendeu o irmão, que não tinha fôlego nem para retrucar. Harry fez um gesto como quem não dá muita importância e começou a preleção antes do treino.

Ele precisou de muita paciência para fazer Jonnathan Cavendish entender que não era sua culpa que não soubesse quem seria o primeiro adversário da Grifinória no campeonato. A Profª. McGonagall já tinha lhe avisado que ela e Snape estavam num impasse, pois o diretor da Sonserina queria que o jogo entre as duas casas fosse mais tarde e McGonagall queria o contrário. Depois de explicado isso, Harry passou para as novas táticas que tinha desenvolvido e que planejava colocar em prática naquele dia.

Um pouco antes de todos saírem para o campo iluminado pelo sol matinal, Rony colocou a cabeça para fora e soltou uma exclamação veemente. Todos se viraram intrigados para ele.

- Vocês já viram quem está lá fora?

Peta foi ver também e soltou algo muito próximo a um desanimado "xi..." quando se voltou para os outros. Harry foi dar uma olhada e seus olhos se arregalaram ao enxergar todo o time da Sonserina nas arquibancadas. Naquele momento ele entendeu o que Katherine Willians queria dizer mais cedo.

Quando ele se virou, pasmo e irritado, reparou que Rony e Peta já tinham transmitido a informação aos outros, pois o clima era de indignação geral entre todos.

- O que eles estão fazendo aqui?

- Que bando de bisbilhoteiros!

- Só vieram para perturbar mesmo!

- Mas que incompetência, Potter! – Jonnathan cruzou os braços, encarando Harry com um irritante quê de superioridade. – Como você pôde permitir que eles viessem espionar o nosso treino?

Pela segunda vez no dia, Harry teve vontade de socá-lo. Ou de dizer um sonoro palavrão, mas se conteve novamente.

- Eu sinto muito, esqueci de olhar minha bola de cristal antes de vir pra cá! – o rapaz retrucou sarcasticamente, fazendo os músculos faciais de Jonnathan tremerem ligeiramente. – De qualquer jeito, não temos como expulsá-los daí. – Harry continuou desolado, andando de um lado para outro. – Vamos ter que aturá-los.

- Eu sugiro explodirmos uma bomba onde eles estão.

- É claro, sempre há essa possibilidade, Rony. – Gina disse irônica. – Ou podemos também envenená-los, mas isso daria mais trabalho.

- Mas seria algo definitivo... – Peta completou com um sorriso maroto e selvagem.

- O que vamos fazer? – Dênis perguntou desanimado.

- Ora, está óbvio, não é? – Harry retrucou. – Vamos treinar.

- Não na frente deles! – Jonnathan protestou.

- Você tem alguma idéia melhor? – Harry se virou para ele. – Porque eu não quero perder a manhã por causa daqueles sebentos! Nós só precisamos não praticar as táticas novas na frente deles.

- E de que vai adiantar sem isso?

- Para colocar em forma preguiçosos como você, Cavendish! – Harry finalizou, dando as costas aos jogadores e cruzando o portal, com a Firebolt nos ombros.

A primeira coisa que sentiu foi o sol forte e brilhante no seu rosto. O que veio a seguir foi bem menos agradável – as vaias dos jogadores da Sonserina, que estavam nas arquibancadas, todos juntos, apenas esperando que os grifinórios entrassem para recepcioná-los calorosamente.

Harry olhou feio para eles e pôde enxergá-los melhor. Draco Malfoy, junto com seus outros jogadores grandalhões, estavam sentados todos juntos, rindo e vaiando. Katherine Willians, a única garota do time, estava sentada bem longe deles, na última fileira da arquibancada, e parecia nem se importar com a ovação que seus companheiros de time faziam; ela estava debruçada sobre uma prancheta, rabiscando algo. Por um instante, Harry pensou que fossem táticas do time, mas o pensamento se esvaiu quando ela arrancou a folha, fez uma bolinha e tacou numa pessoa sentada a alguns metros abaixo dela – Hermione, que tinha um livro no colo e observava com repugnância os sonserinos. A bolinha quicou no topo dos cabelos cheios de Hermione, que se virou indignada e lançou um olhar estreito para Willians; esta apenas retribuiu com um sorriso matreiro, antes de se voltar para o horizonte por alguns instantes e recomeçar a rabiscar o papel na prancheta; Harry então se lembrou que ela era desenhista.

- Eu não acredito que vamos ter que treinar na frente deles! – ele ouviu novamente a voz azeda de Jonnathan Cavendish, quando o restante dos jogadores se reuniu a Harry no gramado. – Vai ser uma droga!

- Se quiser ir embora, não vai fazer falta! – Harry retrucou nervoso, subindo na Firebolt e disparando para o céu azul.

Se fosse honesto consigo mesmo, admitiria que tinha acabado de dizer uma grande mentira. Jonnathan poderia ser tremendamente chato, mas ele era essencial no time e no treino, pois era de longe o melhor artilheiro. Além disso, ele não estava de todo errado; o treino seria mesmo uma droga com os sonserinos por perto.

Mal e porcamente, os grifinórios tentaram treinar por mais ou menos uma hora, em meio às piadinhas dos sonserinos. Não foi produtivo, com toda certeza, mas ainda assim era melhor do que perder a manhã. Harry notou que Willians não tinha em nenhum momento se juntado às gozações dos colegas, passando todo o tempo desenhando; quando não gostava de algum, fazia mais uma bolinha, tacando-a alternadamente em Hermione ou Malfoy; no final, dava a impressão de que ela errava o desenho de propósito, pois ela e Hermione começaram uma furiosa guerra de bolinhas de papel. Hermione chegou a enfeitiçar umas quinze bolinhas que tinha juntado para todas desabarem em cima de Willians. Pareceu a Harry que ver a rival soterrada em bolinhas deixou a monitora-chefe quase tão feliz quanto se tivesse recebido cinqüenta pontos para a Grifinória na aula de Transfiguração.

O treino teve que acabar quando os sonserinos invadiram o campo. Harry, que estava voando atrás do pomo de ouro, apanhou-o na orelha de Peta e desceu rapidamente, aterrizando meio torto no gramado tal era sua raiva.

- Eu vou me arrepender de perguntar, mas o que exatamente você está fazendo aqui, Malfoy? – ele perguntou selvagemente, encarando o sonserino sem conseguir disfarçar a irritação.

- Eu vim treinar, Potter. – o outro respondeu calmamente, cruzando os braços e encarando Harry com desdém. – Infelizmente para você, o campo não é reservado apenas a celebridades empinadas.

Harry preferiu ignorar a indireta, mas seu sangue ferveu ainda mais nas veias. A esta altura, os seus colegas de time também já tinham aterrizado e agora encaravam os sonserinos com atrevimento, apesar deles serem mais ou menos do dobro do tamanhos dos grifinórios. Harry viu pelo canto dos olhos Hermione vir descendo apressada as arquibancadas. Ele desviou a atenção e seus olhos bateram em Katherine Willians; ela estava mais atrás dos colegas de time, observando a cena com tédio, como se estivesse assistindo a algum programa chato de televisão. Quando o olhar dela cruzou com o de Harry, a garota novamente lhe lançou um daqueles sorrisos matreiros dela, como se estivesse gozando-o. Harry ficou ainda mais furioso e se forçou a olhar para Malfoy novamente.

- Eu reservei o campo com a Profª. McGonagall. – explicou, praticamente cuspindo as palavras. – Tenho o direito pelo campo toda a manhã.

- E eu tenho a permissão do Prof. Snape. – Malfoy estendeu um pergaminho enrolado para Harry, um sorriso banal espalhando-se em seu rosto, enquanto seus companheiros de time riam.

Harry bufou lentamente, mas acabou puxando com brutalidade o papel das mãos de Malfoy mesmo assim. Ele teve uma sensação de dèjá vú enquanto desenrolava o pergaminho; há cinco anos, uma situação parecida tinha ocorrido, a diferença era que Olívio Wood e Marcos Flint eram os capitães naquela época.

- Você só faz isso pra me encher, não é? – Harry estendeu o papel de volta; não precisava tê-lo checado, sabia muito bem que Snape não pensaria duas vezes em entregar uma permissão para Malfoy e estragar o barato de Harry.

- Bingo! Finalmente você pensou rápido, Potter!

- Engula essa estúpida permissão, Malfoy.

- Isso quer dizer que você vai continuar no meu caminho?

- Pelo contrário. – Harry respondeu calmamente, surpreendendo não só Malfoy e os sonserinos, como também seu próprio time. – Eu permito que você use o campo, se precisa tanto. Você deve estar se borrando de medo mesmo de ter que enfrentar a Grifinória de novo, não é?

Foi a vez de Malfoy ficar lívido de raiva.

- Para seu governo, Potter, o meu time não vai precisar enfrentar o seu... – o olhar dele de desprezo abrangeu todos os grifinórios do time. - ...até as finais. Eu quero ter o gostinho de vencê-lo e esfregar a taça na sua cara.

- Tenha bons sonhos, Malfoy. – Harry sorriu, fazendo o rosto do rival assumir um tom púrpura.

E Harry deixou o campo de quadribol, ouvindo as risadinhas que seus colegas de time dirigiam aos sonserinos.


O relógio de pulso marcava sete horas da noite.

Harry observou a noite pelas janelas. O céu estava azul escuro, sem estrelas nem lua, que estava encoberta por nuvens, obscurecendo os jardins lá fora. O corredor que percorria vagarosamente – não estava nem se importando em deixar Willians esperando, aliás, estava fazendo aquilo justamente de propósito só para perturbá-la – estava fracamente iluminado pela luz hesitante das chamas, que projetavam sombras nas paredes e no teto.

Ele não era o único a ter aquela irritante tarefa de se encontrar com seu parceiro de Defesa no sábado. Os alunos aproveitavam aquele dia para colocarem as lições em dia, e Remo tinha cobrado muitos princípios de defesa básica para o dia seguinte, como os feitiços de Desarmamento e Impedimento. Harry dominava-os há bastante tempo, precisamente desde o quarto ano, mas ainda havia muitos alunos que não conseguiam executá-los. Hermione, para variar, estava paranóica com os estudos e se reuniu com Brendon Summerfield toda a tarde para treinar, o que desagradou muito Rony.

- Eu vou ter uma conversa séria com ela quando voltar. – o amigo, que não estava treinando defesa nenhuma por motivos óbvios de dupla, resmungou para Harry um pouco antes do rapaz sair. – Ela não precisa passar toda a tarde de sábado com esse carinha, não é?

- Você tinha quase a mesma atitude na época de Vítor Krum, lembra-se? – Harry ponderou. – E no final, estava errado.

- Ah, cala a boca, Harry!

Ele olhou desanimado para a tapeçaria dos centauros no sexto andar. Era uma bela peça, mas Harry nunca tinha dado muita atenção a ela antes; apesar de conhecer bastante Hogwarts, ele sabia que havia ainda muitos lugares desconhecidos no castelo e aquela sala era um deles. Ele estendeu o braço, e então se perguntou o que deveria fazer para revelar a passagem – aquela pentelha da Willians não tinha lhe explicado isso.

Harry tentou puxar a tapeçaria, mas um dos centauros que estava estampado na peça – o maior – virou seu rosto ameaçador para ele, fitando-o com seus olhos perigosamente estreitos.

- Você sabe ler as estrelas?

Harry não sabia o que responder. Para ele, as estrelas eram só... as estrelas, oras! Mas ele sabia que os centauros interpretavam os sinais do céu; no seu primeiro ano, Firenze, um centauro que ele conhecera na Floresta Proibida, contara-lhe isto. O rapaz desviou o olhar para as estrelas e percebeu qual era a charada – o centauro lhe dera uma pista. Harry pôde ler perfeitamente a palavra, literalmente escrita nas (ou com as) estrelas:

- "Sabedoria". – ele disse e o centauro sorriu misteriosamente.

Os centauros abriram espaço e as estrelas se reorganizaram, formando nitidamente a figura de uma porta e de uma maçaneta. Harry achou aquilo um pouco estranho, mas tentou tocar a maçaneta; era inesperadamente sólida, e ele a girou.

A sala onde estava tinha uma iluminação parcial; na realidade, ela estava quase totalmente imersa nas sombras. A única luz provinha do teto – Harry ergueu o pescoço, observando-o maravilhado –, onde pequenos pontos cintilantes, parecidos com as estrelas da tapeçaria, projetavam finos feixes de luz. O teto era arredondado, bem como toda a sala; não havia móveis nem objetos decorativos. Harry percebeu as janelas também arredondadas que cercavam a sala quando uma voz o chamou:

- Você está atrasado.

Ele observou Katherine Willians, sentada no parapeito de uma das grandes janelas, por onde penetravam sorrateiros e fracos feixes da luz noturna lá fora. Ele ficou um pouco desapontado ao perceber que seu atraso não tinha consigo irritá-la; a garota parecia perdida em pensamentos enquanto observava a noite, recortada contra a luz fraca que provinha de lá de fora.

Harry se aproximou de uma outra janela, ao lado daquela onde estava sentada Willians. Ele apoiou os cotovelos no parapeito, observando a paisagem; percebeu que aquelas janelas davam para os fundos do castelo. Ao longe, reconheceu aquele pequeno morro que precisaram subir no primeiro dia da aula de duelos, a fim de seguir para a majestosa sala projetada pelos fundadores. Por um instante fugaz, Harry se lembrou de que era atrás daquele morro que ficava o misterioso cemitério de Hogwarts.

Ele tinha sonhado com um cemitério naquela noite...

- Eu... me esqueci do horário. – Harry murmurou distraído, finalmente quebrando seu silêncio; ele ainda observava o horizonte com uma estranha sensação.

- Eu já imaginava. – Willians replicou no mesmo tom baixo e calmo, muito diferente da garota pentelha da manhã; ela até parecia um pouco chateada. – Vamos começar logo, então?

Ela pulou agilmente do parapeito, posicionando-se no centro da sala circular. Harry se forçou a desviar o olhar do lugar onde seria o cemitério para olhá-la; a garota tinha sacado a varinha, seu corpo pouco visível à luz fraca da sala, fazendo com que apenas seus olhos se destacassem. Ela encarava Harry indulgentemente, a varinha apontada para ele com impaciência.

- Você vai ficar aí até eu me cansar e lançar um feitiço em você?

Harry soltou um barulho que ficava entre um riso e um bufo, finalmente afastando-se da janela; ele se posicionou a alguns metros da garota, também sacando a varinha e apontando-a para Willians.

- O que vamos praticar primeiro? – ela perguntou.

- Seria melhor que praticássemos alternadamente, assim pegamos o adversário de surpresa. – Harry sugeriu.

Ao ouvi-lo, Willians abriu um meio sorriso e rapidamente exclamou a azaração de Estuporamento, pegando o rapaz de surpresa; ele tentou conjurar uma barreira, mas mesmo assim sentiu um pouco o impacto do feitiço e deu alguns passos descoordenados para trás.

- Fique esperto, Potter. – a garota provocou. Harry estreitou os olhos para ela, irritado, e lançou o feitiço de Desarmamento, do qual ela se desviou com um salto para o lado.

- Como você achou essa sala? – ele perguntou, ligeiramente ofegante depois de alguns minutos de exercício. Apesar de não ter muita técnica, Willians era ágil o suficiente para ser uma pedra no sapato.

- Eu venho me esconder aqui quando estou de saco cheio de todo mundo. – ela respondeu com simplicidade, seu rosto avermelhado e suado pelos movimentos rápidos que executava. – Por isso, você não vai abrir a boca para contar a ninguém sobre esse lugar. – ela ameaçou, atirando faíscas alaranjadas pela varinha, que zuniram no ouvido de Harry. – Ou eu troco a senha com o centauro e você não entra mais aqui.

- E aí onde iríamos treinar, esperta? – Harry ironizou, atirando novamente o desarmamento, que ricocheteou na barreira dela. Ela ficou em silêncio por alguns instantes, mas não por efeito do feitiço.

- Você não vai contar para ninguém de qualquer jeito. – ela retrucou convicta depois de alguns instantes. – E seria muito interessante se você ficasse quieto e apenas duelasse.

- Impedimenta! – ele exclamou, finalmente pegando-a tão de surpresa, que ela não teve tempo para nenhuma acrobacia. Willians ficou paralisada na posição que estava, encarando-o com seus olhos castanhos faiscando. Harry sorriu marotamente, contente pela sua pequena vingança. – Acho que vai ser você que vai precisar ficar quietinha algum tempo, não é? Porque não vou ser eu que vou desfazer o feitiço.

Ela não podia se mover ou gritar com ele, mas se pudesse, ele tinha certeza de que o faria. Harry sentiu os olhos dela acompanharem-no com raiva enquanto ele se dirigia a uma das janelas calmamente; teria que esperar alguns minutos para que ela voltasse ao normal sem o contra-feitiço. A azaração de Impedimento não era permanente, o que significava que isso não demoraria muito a acontecer, mas ele preferia deixá-la daquele jeito só para irritá-la.

Era uma noite fresca e úmida. A lua, parcialmente encoberta pelas nuvens, iluminava os jardins com uma luz vacilante, ao mesmo tempo em que uma névoa prateada cobria-os até aquelas montanhas que Harry observara anteriormente. Uma brisa gelada subia pelas paredes de pedra do castelo, zunindo como abelhas furiosas. Harry fitou novamente aquelas montanhas, sabendo que por trás delas estava o tal cemitério; aquilo o intrigava, ele sabia que não havia um porquê, mas algo o impulsionava a ir até lá, algum dia. Ele se lembrou novamente do sonho que o acordou naquela madrugada; não tinha sido a primeira vez que sonhava com cemitérios. Sonhava muito com isso no quinto ano, depois da visita que fizera ao cemitério onde o pai de Voldemort estava enterrado, mas a sensação que tinha ao acordar destes sonhos de agora não era aquele mesmo sentimento de angústia de antes.

No entanto, ele tinha sonhado com outro cemitério dessa vez. E o sonho desta noite não tinha sido o primeiro; havia outro, ele só não se lembrava quando o tinha sonhado. Harry tinha aprendido a acreditar em seus sonhos há muito tempo; eles nunca eram totalmente fruto de sua imaginação. Havia muita verdade neles. Será que estava recebendo outro sinal agora? Poderia haver algo naquele cemitério que fosse importante para ele? Tinha vivido tantos anos naquele castelo e só viera a saber da existência desse lugar agora, no seu último ano na escola; não poderia ser coincidência ter ido parar lá e descobrir que o cemitério existia. Não existiam coincidências.

- Onde você vai? – Willians, que tinha acabado de voltar ao normal, perguntou surpresa ao ver Harry caminhar apressado para a porta.

- Já treinamos o suficiente, eu preciso ir embora agora. – ele respondeu rudemente, deixando a sala. A tapeçaria voltou ao normal atrás dele; o centauro lhe disse uma frase enigmática, mas ele não prestou atenção.

Ninguém o veria sair para os jardins se tomasse cuidado. Eram pouco mais das oito da noite, o que significava que ele ainda podia estar fora da sala comunal. Por outro lado, não era permitido ir para os jardins àquela hora, mas quantas vezes não fizera o mesmo para ir visitar Hagrid? Era só ser cauteloso e ninguém saberia...

- Ei, Potter!

Ele se virou e viu Willians correndo para alcançá-lo. Ele bufou, profundamente irritado. Não tinha lhe dito que precisava ir embora? O que ela ainda queria?

- O que foi?

- Nós ainda não acabamos! – ela exclamou indignada, parando ao lado dele, seu rosto ligeiramente vermelho pela corrida; alguns fios de cabelo estavam grudados na face pelo suor do treinamento anterior. – Você não pode sair assim, sem mais nem menos!

- Você não vai me dizer o que eu posso fazer ou não! – ele retrucou mal-educado, voltando a andar ainda mais rápido. Ela não desistiu, correndo para acompanhar seus passos largos.

- Mas eu não vou deixar que você venha e vá embora quando quiser! – a voz dela, que geralmente era mais grave do que o normal para uma garota, estava um pouco aguda de nervosismo. – Você chegou atrasado e agora sai sem nem ao menos me explicar! É uma grande falta de consideração!

- E eu lhe devo explicações? – ele perguntou, furioso com a insistência dela. Eles começaram a descer as escadas para o Hall de Entrada. – E porque você mereceria a minha consideração?

Ela deixou o queixo cair, seus olhos muito arregalados. Quando ela estava pronta para gritar com Harry, ele fez sinal para que ela se calasse e puxou-a sem aviso para detrás de uma armadura. Ela o encarou sem entender, mas Harry colocou novamente o dedo sobre a boca, indicando silêncio. Ofegantes, os dois esperaram.

O zelador Argo Filch e sua horrorosa gata, Madame Nor-r-ra, pararam a alguns metros deles; dava para enxergá-los através das fendas da armadura. Harry sabia que tinha escutado algo, por isso parou; ele torceu para que os dois não conseguissem enxergá-lo ali atrás, junto com Willians.

- Você ouviu algo também, Madame Nor-r-ra? – Filch perguntou com sua voz rascante. – Será algum aluno perambulando pelo castelo? Ah, se eu o pego...

A gata miou alto, como se estivesse conversando com o dono. Harry rezou para que os olhos de contas dela não os vissem ali.

- Eu sei que ainda não é o horário, mas está quase lá... – Filch continuou, ansioso pela oportunidade de castigar algum aluno fora dos limites. – Mais um pouco e eu o pego...

Madame Nor-r-ra farejou, aproximando-se da armadura. Foram momentos tensos; Harry sabia que poderia estar ali, ainda não eram nove horas, mas como explicaria estar se escondendo atrás de uma armadura, àquela hora, e tão distante da Grifinória? Ele olhou de esguelha para Willians, ao seu lado, muito quieta, respirando baixo como ele para não ser ouvida. Harry desejou que ela não estivesse ali, seria mais fácil se esconder na armadura sem ela. Ele sentiu o cheio dela, misturado ao suor pelo treinamento, e torceu para que Madame Nor-r-ra não sentisse o cheiro forte que os dois emanavam, suados como estavam.

- Não há ninguém aqui. – Filch falou após alguns minutos. – Vamos embora, Madame Nor-r-ra.

A gata, que estava apenas a pouco mais de um metro deles, farejou o ar novamente, e mesmo sem se dar por satisfeita, seguiu o dono, ainda olhando furtiva para trás, desconfiada. Harry e Willians esperaram uns bons dez minutos para que o zelador se afastasse, apenas escutando as respirações arfantes um do outro.

- Acho que já podemos sair daqui. – Harry sussurrou.

- Eu gostaria de saber por que estávamos nos escondendo ali. – Willians murmurou emburrada, olhando Harry com raiva.

- Filch faria perguntas e isso não seria bom.

Eles atravessaram o saguão silenciosamente; Harry abriu uma fresta na porta de mármore, por onde saiu, Willians bem atrás.

- Eu poderia dizer que estava seguindo para as masmorras. – ela disse lá fora, com um quê de superioridade, enquanto eles caminhavam pelo gramado encharcado pela umidade da noite. Havia uma neblina prateada envolvendo-os, e era difícil enxergar o caminho a tomar. – Filch não desconfiaria.

- Mas ele desconfiaria de mim, minha sala comunal fica a quilômetros dali.

- Quer dizer que estávamos protegendo você. Eu ainda por cima estava te ajudando?

- Não, você estava me atrapalhando. Tudo seria mais fácil sem você lá. Aliás, porque você ainda está aqui comigo?

- Eu estou aqui porque... – ela pensou por alguns instantes. – Porque preciso acertar as contas com você, não foi nada certo o que você fez! Sair daquele jeito, nós ainda não tínhamos terminado o treinamento! Na segunda-feira, o Prof. Snape e o Prof. Lupin vão querer todos os feitiços, e eu não me sinto preparada! – ela finalizou, enchendo-se de razão.

- Treine sozinha agora, eu já te ajudei bastante hoje.

- Você se acha muito bom nisso, não é?

- Melhor do que você, eu sou.

- Como você é arrogante!

- E você é uma sonserina pentelha!

- Ah, eu não deveria perder meu tempo tentando falar com você!

- "timo, vá embora então! Já vai tarde!

- Eu vou mesmo!

Harry se sentiu aliviado por não precisar mais ouvir aquela voz no seu ouvido, reclamando sem parar, mas seu alívio não demorou nem um minuto. Ele percebeu que Willians tinha voltado quando ela bufou ao seu lado, cruzando os braços.

- O que você está fazendo aqui? – Harry perguntou. – Perdeu alguma coisa?

- Não dá pra voltar. – ela retrucou entredentes, seu olhar fuzilando-o como se ele fosse o culpado.

- Como não? É só dar meia volta, ou você não tem senso de direção?

- Olha para os lados, seu burro! – ela exclamou furiosa. – Dá pra ver alguma coisa?

Harry parou, pronto para xingá-la, mas seu estômago despencou quando percebeu que ela estava certa. A neblina tinha-os envolvido de tal forma, que era impossível enxergar um palmo na frente do nariz. A névoa prateada era tão espessa, que Harry não conseguiria dizer nem para que lado ficava o castelo. Definitivamente, aquilo não estava bom.

Ele abaixou o rosto para encarar Willians. Os olhos castanhos dela perfuravam-no, nervosos, como se tentassem queimá-lo vivo. Harry não gostou daquele olhar; sentiu algo estranho percorrer-lhe o corpo. Ele bufou, desviando o rosto e postando as mãos na cintura.

- É, nós estamos perdidos. – ele finalizou, como quem analisa calmamente uma situação e chega num veredicto.

- Como "estamos perdidos"? – ela perguntou histérica. – Nós não podemos simplesmente "estar perdidos"!

- É como se chama quando não se sabe para que lado ir.

- Nós temos que encontrar um meio de voltar!

- Eu não vou voltar; não ainda.

- Como é que é?

Dessa vez, foi ele que a encarou firmemente.

- Eu tenho que ir a um lugar, não vou voltar agora que estou aqui fora. Se você quiser voltar, vá sozinha.

Willians apenas ficou ali, parada, a boca aberta, estupefata como se tivesse acabado de levar um tapa. Harry deu alguns passos para longe dela, sacou a varinha e posicionou-a na palma da mão aberta. Ele desejou ter o Mapa do Maroto, que lhe indicaria toda a propriedade e sua localização, mas como o objeto estava bem guardado no seu malão, a aproximadamente sete andares e muitos quilômetros de distância, aquilo era o melhor que ele poderia fazer.

- Me oriente. – ele sussurrou para a varinha. Ela girou e indicou para trás; o norte ficava naquela direção e ele sabia que, no dia que visitaram a sala de duelos dos fundadores, eles seguiram na direção sul. Portanto, tudo o que tinha que fazer era seguir em frente e ir se orientando; quem sabe a neblina pudesse diminuir um pouco mais para frente.

- Eu vou com você. – Willians estava ao seu lado agora, de braços cruzados, bufando de raiva. Seu tom de voz demonstrava que só estava fazendo aquilo porque era sua única alternativa.

- Ainda é tempo de desistir. – Harry provocou com um sorrisinho de escárnio, guardando novamente a varinha.

- Eu não vou voltar sozinha.

- Você está com medo.

- É claro que não! – ela retrucou indignada, seus olhos faiscando enquanto os dois recomeçavam a caminhar, Harry prestando atenção na direção que tomavam, sempre procurando um caminho onde a névoa fosse menos densa. – Eu só... não conseguiria encontrar o castelo com essa neblina... – ela admitiu frustrada consigo mesma.

- Então você é mesmo uma tonta perdida. – Harry disse rindo.

- E você bateu a cabeça em algum lugar para ter essa idéia de rato de se embrenhar no meio dessa neblina! Numa noite como essa!

Eles continuaram a avançar lentamente, caminhando com atenção, porém discutindo pelo caminho. Harry admitiu intimamente que não era de todo ruim ter companhia, apesar de ser a companhia daquela pentelha; pelo menos ele se distraía discutindo com ela. Entrementes, ainda não tinha achado uma explicação para aquela atitude súbita que teve de tentar encontrar o tal cemitério, mas tudo o que desejava no momento era encontrá-lo.

Harry parou pela terceira vez para executar o Feitiço dos Quatro Pontos; a varinha indicou que eles tinham se desviado muito para o sudeste, então tomaram o caminho contrário. Willians parecia curiosa com o feitiço, mas preferiu não perguntar o que era, provavelmente para não demonstrar sua ignorância no assunto.

A névoa gelada ainda os envolvia, arrepiando os pêlos da nuca de Harry quando os dois começaram a subir o morro, indicando que estavam no caminho certo. No topo dele, a visão era mais nítida, e eles puderam enxergar os ciprestes escuros e retorcidos, à direita, emoldurando o cemitério encoberto pela espessa neblina. Harry mal podia acreditar que estava tão perto; em seu peito ardia uma sensação estranha, que não conseguia definir: era algo de ansiedade, misturado a euforia e inquietação. Era como se alguma coisa sussurrasse no seu ouvido, dizendo que ele precisava ver algo ali, naquele lugar.

Eles começaram a descer, e dessa vez em silêncio, porque o morro daquele lado era ainda mais íngreme do que a descida para o caminho da sala dos fundadores, de tal modo que estavam cansados e ofegantes demais para trocar alguma palavra. Harry acabou escorregando no final da descida e se apoiou nos ombros de Willians para não cair, o que foi um pouco constrangedor, no entanto, eles fizeram um acordo em silêncio para não comentarem o acontecido.

O local onde se encontravam era bem diferente do que estava do outro lado do morro; sombrio e aterrador era pouco para defini-lo. Havia muitos mais ciprestes do que dava para imaginar olhando lá de cima; as árvores eram escuras e retorcidas em formas ameaçadoras, seus longos galhos formando ângulos estranhos, quase como se fossem mãos pegajosas, com seus dedos longos ameaçadores estendidos, prontos para abocanhar algum visitante distraído. O ambiente era mais frio; Harry percebeu que Willians se encolhera ligeiramente, seus olhos atentos a qualquer movimento das copas dos ciprestes, que formavam ao redor deles um caminho sinistro, ladeando-os à espreita. A névoa se enroscava sorrateiramente nos caules das árvores, saindo de vez em quando para envolvê-los, sussurrando e enregelando seus corpos mal agasalhados.

Havia uma aura estranha no ar, um tom negro e mórbido; o mero piar de um corvo era suficiente para deixá-los tensos. A névoa argentina, soprada pelo vento, sussurrava palavras estranhas, como se um coro de vozes tentasse se comunicar com eles. As copas dos ciprestes balançavam numa dança sonolenta e lânguida.

- Anh... Você tem certeza de que já não viu o bastante? – Willians perguntou incerta, observando ao redor e andando muito próxima de Harry.

- Nós ainda não chegamos. – Harry insistiu. – Eu quero ver o cemitério.

- Isso está muito estranho... – a garota murmurou pensativa, arrepiando-se. – Esse lugar me dá uma sensação esquisita... Por que você quis tanto vir aqui?

- Você não precisava ter vindo também. – Harry se desviou da pergunta; nem ele mesmo sabia por que estava ali de fato.

- Nós já discutimos isso.

Harry paralisou de súbito e Willians deu uma trombada nele, de tão próxima que estava. Ela soltou uma exclamação veemente, mas Harry não se importou; estava mais interessado no que estava enxergando à sua frente.

Centenas de lápides de mármore escuro se erguiam entre a névoa prateada, dispostas de modo a formar corredores entre si. Duas estátuas de gárgulas de pedra branca ladeavam a entrada, seus olhos ameaçadores fitando os visitantes. Harry respirou muito fundo; tinha chegado.

Suas pernas pareceram conduzi-lo sozinhas a partir dali, e ele ia tão rápido, que Willians tinha que andar apressada atrás dele, reclamando mais que a boca. Eles tomaram o segundo corredor da direita; os ciprestes projetavam sombras sinuosas sobre as lápides, tornando difícil identificar suas inscrições. Quando Harry já tinha percorrido umas quinze lápides, escutou a voz de Willians chamando-o:

- Ei, Potter, venha dar uma olhada nisso!

Ela parecia ansiosa. Harry deu meia volta, um pouco irritado, e se postou ao lado dela, de fronte a um grande túmulo de mármore azul escuro. Uma delicada águia emoldurava o topo da lápide, onde uma longa inscrição estava talhada com letras caprichadas em prata.

- O que foi?

- Olhe o nome da pessoa que está enterrada aqui. – Willians disse, indicando a inscrição tumular.

Harry se aproximou um pouco; as letras em prata eram grandes e brilhantes:

Rowena Ravenclaw

17/1/951

2/6/1014

- Será que todos os fundadores estão enterrados nesse cemitério? – Willians balbuciou espantada.

- Se Rowena Ravenclaw está aqui, os outros devem estar também. – Harry concluiu, hipnotizado pela inscrição na lápide. – Eu gostaria de ver onde está Godric Gryffindor...

- Quem se importa com aquele leãozinho, eu queria mesmo era ver Slytherin! – a garota exclamou em tom de deboche, ainda observando a lápide.

Os dois se entreolharam rapidamente, com o mesmo pensamento de enfiar a cabeça do outro dentro da terra até que este admitisse que Gryffindor era melhor que Slytherin ou o contrário.

- Eu vou procurar Gryffindor! – Harry se decidiu, dando um passo, mas Willians segurou seu braço.

- A excursão pode esperar, apressadinho. – ela disse em tom de zombaria, mas seus olhos estavam grudados na lápide de mármore azul escuro da fundadora da Corvinal. – Dá só uma lida no que está escrito aqui.

Impaciente, Harry olhou novamente a inscrição e percebeu que tinha deixado passar um grande pedaço dela na primeira olhada; havia um verso enorme abaixo do nome da bruxa da Corvinal:

Rowena Ravenclaw

17/1/951

2/6/1014

"Tanto cipreste no

atroz espelho lhe

falam deste papel.

Assim, pode estar

cá, lá e num' ação. C

gerou suma teia; a ela

responda agora: o

ideal retrilha como

as velhas (larvas) dos milharais.

Clama! (Tu) ouviu uma mensagem!"

- Eu não entendi patavina. – Harry falou no final, com toda sinceridade.

Ele olhou para Willians, achando que ela se gabaria de ter descoberto algo estupendo naqueles loucos versos, mas a garota, apesar de encarar a inscrição tumular com um sorriso, apenas disse também com sinceridade:

- E eu boiei legal, não dá para entender nem uma vírgula disso aí.

Ela riu, como se aquilo fosse muito engraçado. Harry teve certeza que aquela garota tinha algum parafuso (ou mais de um) solto.

- Certo, então estamos perdendo tempo.

- Não, não, espera. – Willians insistiu. – Esses versos parecem sem sentido de propósito... – ela murmurou pensativa, seu rosto se iluminando. Harry juntou as sobrancelhas com descrença, encarando-a como se ela tivesse bebido umas doses a mais de uísque de fogo. – Dá a impressão de que tem algo aí no meio dessas palavras estranhas.

Harry olhou de soslaio para a lápide e em seguida para Willians; nunca tivera tanta certeza de ser a única pessoa sã e equilibrada em quilômetros.

- Você é maluca, sabia?

Willians nem deu ouvidos ao comentário. Ela bateu na sua roupa em pontos estratégicos, como se procurasse algo e, depois de alguns instantes, achou o que procurava num bolso do jeans que usava: um pergaminho amassado e um toco de lápis. Harry achou aquilo muito estranho; bruxos nem sabiam o que era um lápis, todos costumavam usar penas. A garota se apoiou no túmulo mesmo e começou a rabiscar o pergaminho, olhando de vez em quando para a lápide.

- O que você está fazendo? – Harry perguntou, olhando por cima do ombro dela. Ela tinha desenhado a forma da lápide – um arco – e sobre ele um rascunho da águia. Dentro do arco, ela escreveu numa letra corrida as frases estranhas da inscrição. – Por que raios você está copiando isso?

- Porque eu quero, oras!

- Isso é inútil!

- Dá pra parar de encher? – ela reclamou, terminando seu trabalho e guardando o pergaminho de volta no bolso da calça. – Se eu acabei vindo parar nesse lugar, pelo menos eu posso pegar o que acho interessante, ou é algum crime?

Harry apenas respondeu com um olhar indulgente, dando de ombros. Ele se virou e continuou a caminhar entre as lápides; podia ouvir os passos de Willians, seguindo-o.

Ele observou com mais atenção as inscrições, mas não bateu os olhos em mais nenhum nome conhecido. Willians teve a impressão de ter visto Slytherin umas duas vezes, mas era alarme falso; Harry também não estava nem um pouco interessado no fundador da Sonserina para dar importância a isso.

Era uma situação esquisita, ele e Willians, naquele cemitério, olhando túmulos. Chegava a ser mórbido, macabro... Começou a crescer dentro de Harry uma sensação incômoda de angústia, que ele não sabia se era pelo lugar ou pela situação. Era quase surreal; dava a impressão de que Harry estava mergulhado em mais um dos seus pesadelos estranhos, mas o frio enregelante, que fazia-os tremer e soltar baforadas de fumaça, era real demais para que fosse apenas um sonho. O rapaz viu Willians esfregar as mãos enluvadas, assoprando o ar quente da boca, que se transformou num vapor esbranquiçado; ele desejou ter luvas como ela naquele momento também.

Eles dobraram, finalmente, uma das longas fileiras de túmulos. Harry quase se sentiu como se estivesse de volta naquele cemitério de Little Hangleton; a diferença era que não havia Voldemort ali, e ele se sentiu imensamente grato por isso. A curta ausência do bruxo em sua vida, que ele não via desde o quinto ano, era um alívio, mesmo que durante esse tempo tivesse descoberto coisas que o faziam acreditar que, em certas circunstâncias, era preferível viver na ignorância. Saber a verdade poderia ser doloroso.

Harry estava tão imerso em seus próprios pensamentos, que foi como se caísse com um baque na terra quando Willians o chamou novamente. Ele se virou para olhá-la; a garota tinha parado em frente a dois túmulos, muito juntos, e decididamente parecia horrorizada.

- O que você achou? – Harry perguntou curioso.

Ela o encarou de uma forma que nunca tinha olhado antes; Harry tentou decifrar seus olhos e teve a impressão de que eles tinham um certo brilho de pena. A garota balbuciou algumas palavras sem sentido, um tanto indecisa.

- Fala! O que foi?

- Eu... eu acho que encontrei algo que lhe interessa... – ela murmurou lentamente, voltando a encarar as lápides, seu rosto girando tão rápido que Harry teve a impressão de que foi para desviar o olhar dele.

O rapaz voltou alguns passos, postando-se ao lado da garota e observando as lápides. Seu estômago despencou para os pés. Parecia que o ar faltava à sua volta, e de repente tudo ficou mais silencioso do que antes; ele não ouvia nem ao menos o farfalhar das copas dos ciprestes. A sua garganta deu um nó, e seus olhos ficaram ligeiramente molhados. Ele se ajoelhou, lentamente, sobre a grama e as folhas secas acumuladas de fronte aos túmulos, seus olhos vidrados nos nomes que viu, inscritos em letras douradas no mármore escuro:

Lílian Evans Potter

Tiago Potter

"Filhos, amigos e pais amados"

Vagamente, Harry percebeu que Willians tinha se afastado um pouco, em silêncio, num gesto de respeito. Mais tarde, ele ficaria surpreso ao se lembrar dessa atitude delicada de uma sonserina, no entanto, naquele momento, ele não conseguia pensar em mais nada que não fosse olhar fixamente para aquela inscrição, o nó em sua garganta se intensificando cada vez mais. Nunca tinha imaginado que os corpos de seus pais estivessem tão próximos, todos aqueles anos. Por que Dumbledore nunca tinha lhe contado?

Ele primeiro se sentiu indignado, mas depois algo lhe disse que o diretor não tinha lhe dito exatamente por ter uma grande consideração por ele; estava sendo terrível encarar aqueles túmulos, o lugar onde estavam enterrados os pais que Harry nunca conheceu, e com certeza Dumbledore tentara lhe poupar desse sentimento de vazio que preenchia o rapaz em todo o seu ser.

E, novamente, ele teve aquele sentimento de revolta. Por que tinha que ser assim? Por que ele não podia ser como os outros, que tinham pais, que tinham família? As duas pessoas que mais lhe amaram em toda a sua vida estavam ali dentro, e ele sequer tivera a chance de conhecê-los...

Harry retirou os óculos por um momento, enxugando os olhos nas mangas da camisa, grato por Willians estar olhando para o outro lado. Ele voltou a colocar os óculos no rosto, que estavam embaçados, mas isso não importava; Harry apenas continuou contemplando a inscrição, hipnotizado, seu cérebro livre de pensamentos por pelo menos um segundo para que apenas pudesse sentir...

Então, um peso leve sobre seu ombro; ele enxergou a mão enluvada de Willians pousada suavemente à sua esquerda.

- Eles não estão aí. – ela sussurrou num tom bem mais brando do que o habitual. – É melhor irmos embora.

Harry decidiu seguir o conselho dela ao menos uma vez; estava miserável demais naquele instante para sentir algo menor como estúpido orgulho. Ele se levantou devagar, desviando os olhos dos túmulos por um segundo para olhar a garota; ela o fitava seriamente, seus olhos transmitindo não o costumeiro desafio de sempre, mas sim algo parecido com confiança. Pela primeira vez na noite, ele se sentiu contente por não estar sozinho naquele lugar.

- Sim... vamos embora... – ele murmurou com a voz embargada.

Ele lançou um último olhar ao túmulo dos pais antes de dar as costas e caminhar no sentido oposto, sem olhar para trás ou se importar com as outras lápides. Parecia que já tinha visto o que tinha para ver naquele lugar e nada mais importava. Ele sentiu que Willians estava caminhando ao seu lado, mesmo que a garota também estivesse em silêncio.

Eles estavam quase chegando nos gárgulas quando Harry olhou de esguelha para Willians, dividido entre continuar caminhando em silêncio ou... tinha que admitir para si mesmo; ou agradecê-la por tê-lo avisado sobre seus pais. Ele não iria notar se ela não o avisasse. Porém, antes que pudesse abrir a boca para sussurrar as palavras, eles tomaram um susto com algo que sobrevoou suas cabeças.

Os dois se abaixaram rapidamente, olhando intrigados para o céu. Fosse o que fosse, tinha sumido entre a névoa prateada. Harry e Willians se entreolharam confusos.

- Você ouviu esse som? – ela perguntou, um pouco assustada.

- Parecia um rufar de asas. – Harry ponderou, ainda observando o céu à procura do que tinha passado. – Com certeza alguma coisa passou voando aqui.

- Esse lugar é esquisito... É melhor irmos embora depressa.

Foi então que Harry viu; atrás da garota, vários olhos vermelhos espreitavam-nos das copas dos ciprestes. Ele pôde enxergar quando uns cinco pares de olhos se movimentaram, na direção dele e de Willians, suas asas negras e longas deslizando no ar, confundindo-se com a paisagem escura. Eles emitiam um barulho agudo, como se estivessem gritando, nervosos.

- ABAIXA! – ele gritou, e tanto ele quanto Willians se ajoelharam no chão, sentindo o topo das cabeças serem roçados por aqueles seres.

Willians levantou um pouco os olhos e, como Harry, percebeu do quê se tratavam as criaturas.

- Parecem morcegos... – ela sussurrou. – Mas...

- Mas eles têm algo diferente. – Harry continuou por ela. – É como se fossem mais do que simples morcegos...

- E parece que eles não gostaram muito de nós... Vamos embora agora! – ela exclamou, colocando de vez todo o fingimento de lado e demonstrando que estava mesmo apavorada com aquele lugar.

Harry não fez objeção; os olhos vermelhos daqueles morcegos lhe diziam com todas as letras que eles não eram bem-vindos em seu território. Willians correu na frente, Harry seguindo-a, os dois desviando de lápides que se colocavam no caminho.

No entanto, os estranhos morcegos não desistiam; continuavam atrás deles, emitindo aqueles sons agudos, que varavam a noite escura, nevoenta e silenciosa do cemitério. Harry olhou para trás depois de passarem os gárgulas; seus olhos se arregalaram quando viu claramente um dos morcegos contra a luz: eles eram totalmente negros, com a exceção dos rostos – tão brancos e pálidos quanto a morte, emoldurados por aqueles estreitos olhos vermelhos. Harry fez uma horrível associação àquele rosto; a boca deles era semelhante à de dementadores: um rasgo profundo que se escancarava em dentes amarelados, pontiagudos, que pareciam querer sugar tudo à sua volta.

Sugar.

Foi nesse instante que Harry se lembrou de algo que vira em seu Livro Monstruoso dos Monstros; eles não eram simples morcegos, eram vampiros. Harry já tinha estudado o bastante sobre vampiros para ter a certeza de que não gostaria de vê-los em sua outra forma que não era a de morcegos; se aquela, que era a melhor forma deles, era tão horrível, ele esperava não precisar ver a forma humana, ou quase humana, que eles assumiam.

- Ahhhhhhhh!

PLOFT. Harry escutou o barulho lamacento de algo se espatifando no chão molhado pela umidade da noite. Ele derrapou no chão até parar, virando-se para ver o que tinha acontecido; Willians tinha caído de bruços no chão, seu pé direito estendido em um ângulo muito estranho.

No entanto, não houve tempo para que Harry voltasse e perguntasse o que tinha acontecido. Em questão de segundos, os morcegos que os seguiam rodearam a garota; os olhos tanto dela, quanto de Harry, arregalaram-se ao presenciar a bizarra transformação deles. Era como se fossem animagos, mas ao mesmo tempo não era como ver Almofadinhas se transformando em Sirius; essa transformação era diferente, horrível e, provavelmente, dolorosa.

Eles emitiam um som próprio, de trituração, ao suas asas se rasgarem para dar lugar a braços escuros como o céu da noite, de aparência pegajosa e enrugada. Seus dedos eram assombrosamente longos, as unhas negras de sujeira compridas e afiadas; não eram como os vampiros imaginados pelos trouxas, pálidos, com aquelas capas negras esvoaçantes - estes eram muito diferentes. Somente o rosto deles era branco, passando a mesma impressão horrível que Voldemort passava a Harry quando observava seu rosto: pálidos, os olhos vermelhos ameaçadores, o nariz apenas um rasgo; a boca era especialmente horrorosa: um rasgo pegajoso, redondo, com dentes afiados como navalha e extremamente pontiagudos, semelhantes a uma sanguessuga, o que não estava longe do que eles faziam com suas presas.

Willians tentou se arrastar, mas alguma coisa estava muito errada com seu pé direito; ele estava torto, virado sobre a perna esquerda em um ângulo muito esquisito. Ela deveria ter tropeçado em algo e quebrado o pé. Os vampiros se aproximavam; o cheiro que eles exalavam – algo pútrido, fétido como carne morta, apodrecendo há dias – entorpecia qualquer um; parecia ter um efeito anestesiante, pois até Harry, que estava a alguns metros deles, sentiu-se meio tonto. Os olhos de Willians pareciam meio caídos, mas a expressão apavorada dela mostrava que ela estava bem consciente do que estava lhe acontecendo. A boca redonda dos vampiros parecia aspirar a névoa à sua volta, num gesto semelhante ao dos dementadores quando estavam prestes a beijar sua vítima.

Harry sacou a varinha, rezando para que o feitiço que tivesse lembrado fosse o certo; ele sabia que há muito tempo tinha aprendido aquele feitiço em alguma aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, mas estava tão desorientado no momento, que nunca poderia se lembrar quem tinha sido o professor. Seus dedos tremiam ao segurar a varinha, e ele teve medo de que ela escorregasse da sua mão suada. Torcendo para que não estivesse dizendo besteira, ele gritou as palavras mágicas.

E nada aconteceu.

Harry segurou a varinha com as duas mãos, seus olhos se focalizando naquelas criaturas horrendas que eram os vampiros, forçando-se a imaginá-los longe dali, concentrando-se, o que era muito complicado com aquele cheiro pútrido e entorpecente invadindo suas narinas. Ele repetiu novamente as palavras, cada músculo desejando que fossem as certas e, milagrosamente, faíscas amareladas pularam da ponta de sua varinha, atingindo os seres, que sugaram-nas e cambalearam, como se tivessem sido envenenados. Eles soltaram um outro som agudo, mais estridente ainda, que ecoou pela noite, arranhando o ar; o cheiro que eles exalaram foi ainda pior, se isso era possível, e eles se transformaram novamente em morcegos, com gritos de sofrimento. Para imenso alívio de Harry, eles voaram para o lado oposto, retornando aos ciprestes do cemitério.

Demorou algum tempo para que ele voltasse à noção da realidade. A adrenalina ainda corria em suas veias, misturada ao efeito anestesiante do cheiro daquelas criaturas. Ofegante, Harry deu alguns passos bambos até Willians, ajoelhando-se ao lado dela.

Se ele achava que estava mal, a garota estava mil vezes pior. Seu rosto empalidecera como se estivesse doente, o suor tinha feito algumas mechas do seu cabelo grudarem em sua face, e a expressão dela era de nada menos que horror. Ela respirava lentamente, porém visivelmente abalada, seus olhos perdidos vagamente em algum lugar muito distante.

- Ei, tudo bem com você?

Ela não respondeu. Seus olhos ainda encaravam o nada, como se estivessem mergulhados numa escuridão imensa e impenetrável. Harry postou uma das mãos no ombro dela, balançando-a.

- Tem alguém aí dentro?

- Ah! – ela exclamou, como se voltasse à realidade com um baque repentino. A garota fitou Harry, os olhos ainda um tanto confusos. – Eu estou... aqui. Tá... tudo bem.

Não parecia. Ela levou uma das mãos enluvadas ao pescoço, pressionando-o de leve, como se estivesse sentindo-o. Respirou muito fundo, soltando o ar lentamente, formando uma leve fumaça esbranquiçada perto dos lábios. Harry desviou o olhar para os pés da garota; de perto, ele teve a certeza de que o pé direito estava quebrado – ele estava indiscutivelmente virado ao contrário, um osso saltando horrivelmente da pele. Harry não conteve uma careta.

- Está doendo? Seu pé?

- Meu pé? Doendo? – ela repetiu vagamente, então virou o rosto para observá-lo, fazendo uma careta semelhante à de Harry e desviando depressa os olhos, horrorizada. – Eu nem me lembrava que tinha pés!

- Você acha que pode andar?

Ela se forçou a novamente olhar de relance para o próprio pé.

- O que você acha?

- Eu acho que quero parar de olhar para o seu pé. – Harry despejou com uma nova careta, virando o rosto; já tinha visto muito sangue, cortes, feridas e até mesmo o seu próprio braço sem os ossos, mas um osso saltado realmente dava uma péssima impressão, até para ele.

- Oh, então eu não sou a única que não quero olhá-lo. – ela retomou o tom debochado, apesar de sua voz ainda tremer sensivelmente.

- Mas nós não podemos ficar aqui, não é? – Harry insistiu. – Vamos, eu te ajudo a levantar.

Harry colocou o braço esquerdo dela sobre seus ombros, amparando-a, e sentiu todo o peso da garota quando a ajudou a se erguer, com muita dificuldade. Numa distração, ela acabou usando justamente o pé direito machucado para se apoiar e soltou um grito agudo e arrepiante que penetrou até a alma de Harry – ela estava muito próxima dele e gritou bem em seu ouvido.

- Ah... – ela suspirou de dor, apoiando a cabeça no ombro de Harry e novamente todo o seu peso sobre ele. – Você não sabe algum feitiço que possa me aliviar?

- Eu posso piorar... Não sou bom com esses feitiços. – ele respondeu encabulado. – É melhor eu levá-la até Madame Pomfrey.

- A ala hospitalar fica a quilômetros daqui! – ela gemeu.

- É o melhor que eu posso fazer. – ele argumentou. – Você já usou um feitiço em mim quando me cortei ano passado, não pode usar algum agora para melhorar sua dor?

- Não sei usar feitiços em mim mesma.

- Então vamos ter que andar. – ele suspirou.

Os dois, então, começaram uma caminhada lenta e dolorosa de volta ao castelo, parando de vez em quando para Willians descansar. Com certeza, o mais complicado foi subir e descer o morro de volta; em certo momento, Harry achou que a garota não fosse conseguir – ela urrou de dor ao encostar o pé no chão novamente. Ele chegou a sugerir que poderia carregá-la naquele trecho, mas a garota se recusou com tamanha veemência, que Harry decidiu não insistir.

Pelo menos uma coisa estava melhor; a névoa, bem menos densa, não os atrapalhou na caminhada de volta, e eles puderam achar o castelo com facilidade. Para grande alívio dos dois, também não encontraram ninguém pelo caminho, nem nos jardins, nem dentro do castelo, de modo que puderam seguir tranqüilamente até a ala hospitalar. Ao chegarem lá, Willians hesitou, mas Harry insistiu que Madame Pomfrey não costumava fazer perguntas – e ele tinha experiência no assunto. Ela achou melhor entrar sozinha, mas Harry argumentou que seria impossível ela caminhar sem ajuda. A garota acabou cedendo, e eles entraram juntos na ala.

Madame Pomfrey estava sentada na sua mesa, revirando uns papéis e bocejando de sono ocasionalmente. Quando Harry a chamou, ele pensou que a enfermeira fosse atingir o teto com o salto de susto que deu. Ela arregalou os olhos ao ver os dois adolescentes – Willians, com o pé daquele jeito, apoiando-se completamente em Harry, que também não estava muito apresentável.

Atarantada, a bruxa se apressou em ajudá-los, mandando que Harry levasse a garota até a sala ao lado e a colocasse em um dos leitos. Enquanto os dois se dirigiam para lá, Madame Pomfrey, sem perguntas, foi correndo buscar seus artefatos e remédios.

Harry conduziu a garota até a cama mais próxima, onde ajudou-a a se sentar. Ela colocou sozinha a perna esquerda sobre o colchão, mas estava tendo dificuldades com a direita machucada; seu rosto demonstrava a dor que a tentativa lhe causava.

- Eu... posso te ajudar? – Harry perguntou incerto, observando as tentativas dolorosas de Willians.

Ela o encarou por alguns instantes, parecendo ponderar a sugestão, mas acabou assentindo. Muito sem jeito, Harry segurou com cuidado a perna dela e colocou-a sobre a cama, ao que a garota fez outra careta de dor ao sentir o pé fazer contato com o colchão.

Willians suspirou profundamente, apoiando a cabeça nos travesseiros e fechando os olhos por alguns longos instantes. Harry apenas a observou. Quando ela reabriu os olhos, eles se encontraram com os dele.

- Você está com uma cara de assustado. – ela disse, rindo de leve.

- Estou? – ele riu também, quebrando o gelo. – É que você fez tanto escândalo que...

- Escândalo? – ela exclamou rouca de indignação. – Você acha que eu fiz escândalo? Quer o meu pé pra você?

- Eu já perdi todos os ossos do meu braço uma vez.

- Por isso mesmo não sentiu dor.

- Mas senti quando eles tiveram que crescer sozinhos.

- Ah, poupe-me! – ela retrucou, sem argumentos, ao que Harry não reprimiu uma risadinha. Inacreditavelmente, ela também riu, ficando séria instantes depois e desviando o olhar do dele. – Ei... valeu por hoje.

Harry ficou muito sem jeito. Ela estava agradecendo-o?

- Não... quer dizer... Eu faria por qualquer pessoa. Não precisa... erm... Não precisa.

Ela suspirou longamente.

- Mas... obrigada mesmo assim. Estou lhe devendo uma.

- É claro que não! – Harry protestou rapidamente. – Você não... não está me devendo nada. Além disso... você... também me ajudou... – ele falou tão baixo, que era difícil até mesmo para ele escutar sua voz. – Você me alertou sobre o... túmulo dos meus pais...

- Não que isso tenha sido um bem. – ela retrucou chateada.

- Pra mim foi.

Ela se virou para olhá-lo, novamente com aquele olhar de dó. Harry descobriu que não se importava com esse olhar; não gostava quando as pessoas o olhavam com dó, não se sentia bem em despertar isso nelas, mas estranhamente não se importou com o olhar dela. Estava sendo sincero; não que tivesse ficado feliz em ver o túmulo dos seus pais – ninguém ficaria – mas com certeza fora um bem vê-lo.

- Saia, saia da frente, Potter! – a voz atarantada de Madame Pomfrey interrompeu a conversa; Harry pulou para o lado. – Meu Deus, o que é isso aqui?

A enfermeira arregalou os olhos ao examinar o ferimento da garota, que a essas alturas já parecia ter-se acostumado com a dor, pois nem caretas mais fazia.

- Como vocês deixaram ficar desse jeito? – a bruxa perguntou indignada, virando-se para os dois garotos. – Não me digam que ficaram andando assim por aí!

Harry e Willians se entreolharam constrangidos.

- Nós andamos o suficiente para chegarmos aqui, senhora. – Willians explicou.

- Você bem que poderia tê-la carregado, não é? – Madame Pomfrey exclamou, virando-se acusadoramente para Harry depois de despejar todos os seus apetrechos e curativos numa mesinha de cabeceira. – Pouparia muito trabalho para mim e muita dor para a menina!

Harry não sabia o que dizer; ele abriu a boca, mas preferiu não expressar nenhum frase. Willians girou rapidamente seu rosto para a enfermeira.

- Foi culpa minha, senhora. Eu que insisti para que ele... não me carregasse.

- Oh, por Merlin, o que há com essas meninas de hoje? – Madame Pomfrey exclamou. – Na minha época, nós ficávamos lisonjeadas se um rapaz nos carregasse!

Harry sentiu o rosto muito quente e desejou poder esconder seu rosto debaixo da terra para que ninguém o visse. Ele não podia acreditar que aquilo estava acontecendo! Teve a ligeira impressão de que não conseguiria mais olhar para Willians depois daquilo.

- E o que o senhor ainda está fazendo aqui, Sr. Potter? – ele levou um susto ao ouvir a voz da enfermeira. – Eu preciso cuidar dessa menina, se quiser visitá-la, volte amanhã!

Harry assentiu, atordoado, e murmurou um tímido "boa noite" antes de sair. Ele ousou lançar um olhar de soslaio para Willians, que também estava ligeiramente avermelhada, olhando fixamente o teto. Harry nunca tinha saído tão rápido de um lugar como naquele dia.

Foi só depois, quando estava nos corredores vazios do castelo, que se deu conta do quanto aquela situação era irreal; ele e Willians, unidos brevemente, ajudando-se. Tinha sido a experiência mais estranha de sua vida, com certeza. Talvez acordasse no dia seguinte e descobrisse que tudo não passara de mais um sonho estranho dos que sempre tinha.

Ele murmurou a senha para a Mulher Gorda automaticamente e nem respondeu quando ela perguntou "Por onde você andou até essas horas da noite?". No entanto, a única coisa que Harry soube quando entrou na sala foi que seu estado de torpor foi brutalmente interrompido por gritos nervosos.

O rapaz parou, estático no mesmo ponto onde se encontrava, aparvalhado com a cena que presenciou. A sala estava vazia – já era bem tarde da noite – exceto por duas pessoas: Rony e Hermione.

Eles nem deram por sua presença, de tal forma que estavam engajados em sua briga. Harry só se lembrava de uma ocasião em que presenciara uma briga tão forte entre os dois amigos: após o Baile de Inverno do quarto ano. Naquela época, os dois nem eram namorados, o que tornava a situação atual muito mais preocupante. Hermione tinha o rosto vermelho e lívido de raiva, seus cabelos castanhos cheios movimentando-se conforme seus movimentos bruscos. Rony, por sua vez, estava parado no mesmo lugar, a alguns metros da garota, vermelho como os cabelos e desferindo acusações.

- SEMPRE COM ESSE CARINHA, VOCÊ NEM SE IMPORTA MAIS COMIGO!

- QUE GRANDE MENTIRA, VOCÊ É EGOÍSTA, RONY WEASLEY! VOCÊ É QUE NÃO SE IMPORTA COM OS MEUS SENTIMENTOS!

- VOCÊ NUNCA TENTA SE COLOCAR NO MEU LUGAR!

- E VOCÊ ESTÁ SENDO INSENSÍVEL, COMO SEMPRE!

Harry teve o ímpeto de sair correndo dali; não era sua intenção, com toda a certeza do mundo, assistir a uma briga de namorados, ainda mais quando estes eram seus dois melhores amigos. No entanto, antes que formulasse um plano para contorná-los e sair correndo pela escada dos dormitórios masculinos, a briga teve um desfecho que Harry nunca poderia esperar:

- Você não confia em mim, Rony, está provando isso! – Hermione exclamou magoada, as lágrimas que ela provavelmente estava tentando conter até o momento escorrendo livremente pelo seu rosto vermelho. – E se você não confia em mim... não vejo como possamos continuar...

Foi como se Rony levasse um soco. Ele apenas ficou ali, estático, encarando-a com os olhos arregalados. Hermione enxugou desajeitadamente os olhos na roupa, a voz saindo anasalada:

- Estou cansada disso! Agora acabou de verdade, Rony!

Hermione, depois disso, saiu correndo pela sala e subiu as escadas para o dormitório feminino, teimando em esconder as lágrimas que não podiam ser evitadas. Rony permaneceu parado, apenas piscando e parecendo tentar codificar em seu cérebro o que estava acontecendo. Harry também estava pasmo.

- Me desculpe... – foi a primeira coisa que Harry conseguiu dizer. – Eu não pretendia... assistir...

Pareceu que Rony tinha acabado de notar a presença do amigo na sala. Ele encarou Harry como se o visse pela primeira vez, entorpecido; sua boca estava ligeiramente aberta de espanto.

- Tudo bem... duvido que alguém tenha deixado de escutar na Grifinória... – ele balbuciou.

- Eu sinto muito, Rony... – Harry disse sinceramente; sabia o que o amigo estava sentindo. – Sinto mesmo.

- Eu vou subir. – Rony avisou maquinalmente. – 'Noite.

- 'Noite.

Harry observou o amigo subir as escadas em completo desânimo, o sentimento de vazio dentro de si se intensificando ainda mais. Ele se jogou numa poltrona próxima à lareira, em brasas mínimas, chocado por tudo que tinha acontecido naquela noite.

Rony e Hermione tinham rompido. O.k., eles nunca foram um casal estável, mas Harry sabia que os dois se gostavam desde sempre e nunca imaginou que eles pudessem romper definitivamente. Ele repetiu para si mesmo: "Calma, amanhã eles farão as pazes; mais tardar, na semana que vem.", mas algo dentro dele insistiu que aquela cena que presenciara tinha sido forte demais... Isso lhe dava a horrível sensação de que seu mundo estava desmoronando.

Harry não saberia dizer por quanto tempo permaneceu ali, apenas encarando as brasas vacilantes da lareira, sua mente vagando livremente e seu corpo tão exausto, que não conseguia mover um músculo, quanto mais ter ânimo para levantar dali e seguir para o dormitório masculino. O primeiro movimento que deu, na realidade, foi de espanto ao perceber que as chamas estavam tomando a forma de um rosto conhecido.

Ele exclamou um grande palavrão de susto.

- O que você está fazendo aqui, Sirius? – o rapaz perguntou rouco, levantando-se num ímpeto, seus olhos crescendo de tamanho ao se ajoelhar de frente à lareira e verificar que o rosto de seu padrinho flutuando nas chamas não era uma miragem.

O rosto de Sirius demonstrava que Harry não era o único cansado ali; a barba por fazer revelava que ele não tinha tido tempo para cuidar de si mesmo por vários dias e os olhos fundos marcavam sua face com as noites de sono mal dormidas. Ele encarava Harry dividido entre irritação e preocupação; parecia estar examinando a aparência cansada do afilhado da mesma maneira que o rapaz o fazia.

- Como você está, Harry?

O rapaz se sentiu um pouco envergonhado; tinha mandado uma carta com um tom nem um pouco cordial para ele, e a primeira coisa que o padrinho lhe preocupava era como estava.

- Estou bem... – ele mentiu; estava longe de "bem", principalmente àquele momento. – E você?

- Se vamos fingir um para outro... – Sirius revirou os olhos; Harry ficou pasmo por ele ter percebido que estava mentindo. – Então, sim, eu também estou bem.

Harry se revirou constrangido, procurando uma posição melhor no chão. O clima entre os dois era palpável, mas ele também percebeu que estava contente por Sirius estar ali; estava mesmo precisando ver seu rosto familiar.

- Uau... Eu te mandei a carta de manhã e você já está aqui... – Harry suspirou, mudando de assunto e procurando não olhar diretamente o padrinho. – Como sabia que eu estaria aqui essa hora?

- Bem... Pra falar a verdade, eu não sabia, mas tentei mesmo assim; além disso, foi a única hora em que eu consegui uma folga.

Harry olhou o relógio de pulso: uma hora da manhã. Ele observou o padrinho, preocupado.

- Você está trabalhando demais.

- Você também não me parece muito disposto. – Sirius se desviou, seu tom aparentemente negligente que não conseguia esconder a apreensão. – Sobre sua carta... Edwiges chegou não faz muito tempo, está muito cansada e eu a deixei dormindo, mas... – ele fitou Harry duramente. – Imagino que você está me culpando por ter encontrado aquela mulher aí.

- Eu não estou te culpando! – Harry exclamou na defensiva; o momento que estavam adiando tinha chegado. – Que idéia ridícula, Sirius, por que eu te culparia?

- O tom na sua carta me deixou isso bem claro. – havia um leve tom de mágoa no timbre de sua voz. – Ou me enganei?

- É claro que se enganou! – Harry protestou indignado, arrependendo-se por ter-se deixado levar novamente pelas emoções ao escrever aquela carta. – Eu só queria... explicações...

Sirius soltou um som desdenhoso.

- E por que você acha que as teria?

- Porque... porque você é um membro da Ordem, não é? E sabia que ela estava trabalhando para Dumbledore e, ao mesmo tempo, para... – ele engasgou; quase tinha dito "Voldemort", mas conseguiu se controlar a tempo. Se dissesse aquilo, implicaria em explicações desagradáveis depois. Ele esperava que Sirius não notasse o tom hesitante em sua voz depois disso. – Bem, eu não esperava que ela estivesse na Ordem, sendo quem é...

As sombras tomaram conta dos olhos de Sirius com mais intensidade, como sempre acontecia quando o assunto era Samantha Stevens.

- Pois saiba que você não é o único que não compreende as atitudes de Dumbledore. – ele desabafou; aquele parecia ser um assunto que já lhe trouxera bastante dor de cabeça também. – Eu cansei de dizer para ele que ela não é confiável! No entanto... ele me ignora! – o tom dele era de revolta. Harry preferiu permanecer em silêncio. – Ele diz que ela é muito útil... eu não vejo como ela pode ser tão útil assim a ponto de valer a pena se arriscar... Ela é bem propícia à traição.

Harry se lembrou que no passado, Samantha tinha traído Sirius de uma maneira imperdoável. Ele também ficaria indignado no lugar do padrinho.

- Me desculpe pela carta... – Harry murmurou envergonhado. – Eu fui estúpido com você.

O olhar que Sirius lhe dirigiu era condescendente. Ele conseguiu sorrir para o afilhado.

- Tudo bem, Harry... É compreensível. – ele respirou fundo, mordendo o lábio inferior. – O que ela falou para você?

Harry observou o padrinho com cuidado; qualquer coisa que pudesse dizer a mais sobre aquela conversa entre ele e Samantha na sala de Dumbledore poderia ser perigoso. Ele explicou, sem encarar Sirius nos olhos, que eles apenas tinham conversado sobre o porquê dela estar ali, mas Dumbledore tinha chegado logo em seguida.

- Hm... agora que já está tudo explicado... – Sirius sorriu levemente, seus olhos um pouco mais alegres ao observar Harry. – Como vão as coisas por aqui? – ele observou a sala comunal nostalgicamente. – Pela sua cara, parece que você já está quase ficando doidinho com esse ano!

Harry riu junto com ele, resumindo depois os acontecimentos da semana, contando sobre a escola, os deveres e os treinos de quadribol. Sirius riu ao ouvir o desabafo de Harry sobre as brigas contínuas de Rony e Hermione, dizendo que os dois "nunca mudariam" e que Lílian e Tiago também eram parecidos na sua época de escola. A menção dos seus pais fez Harry se lembrar do cemitério, mas ele acabou se decidindo por não comentar nada com Sirius; queria guardar para si mesmo aquele momento e não precisava perguntar por que ele nunca tinha mencionado que os pais de Harry estavam enterrados naquele lugar – sabia que Sirius tinha feito isso para não fazê-lo sofrer.

- E garotas? – Sirius perguntou com um largo sorriso, seu tom mais leve do que em toda a conversa. – Ora, Harry, não me diga que com dezessete anos você está em abstinência!

Harry riu; às vezes Sirius era uma figura.

- Não há ninguém. – ele admitiu. – Eu não quero que haja.

O padrinho lhe dirigiu um olhar oblíquo.

- Isso me preocupa...

Harry quase deu um tapa na cabeça que flutuava nas chamas.

- Eu estou bem sozinho por enquanto.

- Sei, sei... – Sirius zombou. – Vamos ver até quando você vai continuar com esse discurso...

- Pf... Estou falando sério, Sirius.

- Eu também. – ele desdenhou, soltando um enorme bocejo. – O.k., acho que está na hora de você ir dormir, Harry.

- Como se fosse eu que estivesse bocejando, não é? – ele riu; Sirius lhe mostrou a língua, abrindo outro bocejo. – Tudo bem, Sirius, despreze a minha companhia...

- Eu preciso acordar cedo amanhã... – o padrinho explicou, definitivamente parecendo exausto. – Posso ficar tranqüilo, Harry? Você vai estar bem?

- Eu estou bem.

- Humhum... – o bruxo concordou descrente. – Me avise se precisar de algo, eu venho pela lareira desse jeito sempre que puder.

Harry assentiu. Antes que Sirius fosse embora, ele deixou um aviso:

- E sobre ela: se essa desgraçada aparecer de novo por aí, você promete que vai ficar a uma distância bem grande dela?

Harry suspirou.

- Não foi minha culpa encontrá-la.

- Promete?

- Ah... prometo.

Sirius sorriu aliviado, dirigindo uma piscadela para Harry e sumindo nas chamas com um crack. Harry suspirou novamente, desanimado; estava tão cansado, que nem sabia o que pensar daquilo. Era como se o seu dia tivesse sido uma completa sucessão de acontecimentos errados e coisas ruins.

Ele se levantou, forçando-se a subir as escadas dos dormitórios masculinos, praticamente se arrastando. Quando chegou no dormitório do sétimo ano, ouviu as respirações lentas e ritmadas dos seus companheiros de quarto. Silenciosamente, ele atravessou o quarto e trocou a roupa por um folgado pijama. Assim que seu corpo moído pelo cansaço fez contato com o confortável colchão, ele ouviu as cortinas do dossel da cama de Rony se abrindo.

- Pensei que você fosse dormir lá embaixo. – o amigo sussurrou, mas seu tom não indicava que estava se importando muito com o fato.

Harry virou lentamente seu rosto para ele; Rony não parecia muito bem, na realidade, estava péssimo. Ele teve a impressão de que o rompimento com Hermione não lhe faria bem.

- Você estava me esperando?

- Eu queria conversar com você.

- Eu estou cansado, Rony. – Harry declarou honestamente, sem se importar em ser rude; seu corpo implorava por uma boa noite de sono. – Podemos falar amanhã?

- Tem que ser agora. – o amigo se sentou na cama e, pelo seu tom, Harry sabia que ele estava afito. – Você acha que foi sério aquilo com a Mione?

- Você é que tem que saber, não é? Afinal, voc é que estava discutindo com ela...

- Mas você presenciou o final, quando ela disse que... – ele engasgou, não conseguindo continuar. Harry fitou o teto.

- Se eu acho que ela vai voltar? Bem, Rony, eu espero que isso aconteça. – ele mesmo sentiu um leve tom de censura na própria voz; respirou fundo e continuou mais ameno. – Fique tranqüilo, ela gosta de você...

- Você acha que eu exagerei? – o amigo perguntou, sua voz revelando que, por mais que não admitisse, estava arrependido.

- Sinceramente?

- Claro, oras!

- Acho.

Houve um silêncio atordoado por alguns instantes.

- Você faria o mesmo no meu lugar.

- Talvez, mas eu e você sabemos que a Mione não merece isso. Ela é confiável.

- Eu sei disso. – Rony murmurou envergonhado. – Mas é que eu...

- Você está com ciúmes, é isso que está acontecendo.

- É que eu fico meio... sei lá, inseguro... Hermione é tão inteligente, tão... ela é uma garota especial e eu sou só... um nada.

- Ah, pára com isso, Rony! – Harry exclamou irritado. – Se ela tá com você, é porque você significa algo para ela! Você não é um nada!

Ele ouviu Rony se jogar sobre os travesseiros.

- Ela não está mais comigo agora. Eu estou sozinho...

- Bem-vindo ao clube.

Harry sentiu que o amigo lhe fitou atentamente. Ele apenas se virou na cama, cobrindo-se melhor e observando a noite pela janela até escutar a respiração de Rony também se ritmar e, depois de algum tempo, finalmente adormecer num sono restaurador.


Nota da autora: O.k., o.k., me matem, mas eu demorei para postar esse cap aki no ff soh de preguiça msm... :P Mas eu acho q vcs já devem tê-lo lido no meu site, né? hehehe :D Bem, mas aqui está ele, betadinho, como prometido :) E sobre o próximo... sem previsão... estou em provas e logo começam os exames de vestibular também. Desculpa msm... :(

Diu Hiiragizawa: Hehehe, eu não falei? Nem tava tão preocupada em postar aqui pq sabia que vcs tinham lido, já que eu tinha avisado antes, hehehe... mas eu preciso parar msm com essa preguiça, aiai... Ahhh, você odeia a Sam??? Hehehe O.k., eu concordo; a Sam é o tipo de personagem que ou vc ama ou vc odeia. Eu tenho uma miga que eh doida p/ xingar a Sam de uns belos nomes, é super engraçado, hehehe :D Brigada pela parte q me toca e bjks!!!

morgana: Não, não, não pire! Senão eu piro junto! Qse tive um treco aki qnd vi vc gritando na review, hehehe :P Ainh, espero que se resolva o enrosco da sua fic ;) E sobre essa fic q vc falou, eu já a vi por aí, mas ainda não li... mas... eu não gosto de H/D não, nem como amigos... Tipo, eu tenho problemas com o Draco... meu santo não bate com o dele... hehehe :p

Lo26: Lolozita!!! Kd vc???? Ahhhh, tô surtando de saudades aki, mulher!!! MTAS SAUDADES!! A gente agora deu q só se conversa por review, cumadi! Hehehe :p Eu tô bem aki, toda atrapalhada, mas blz, e vc??? :) Hahahaha, mtus vícios, hein, miga? Tá até na fic? Hehehe :D Pois eu tô com crise de abstinência aki sem tua cachaça, viu?? Que bom q tu gostou do cap, mininah! E... hohohohoh, acho q o Harry naum tah mtu a fim q descubram sobre o avô super star dele, uhauahuhaua :p Ainhhh, vc foi viajar??? Preciso te encontrar p/ vc me contar tudoooo!! Hehhe Te doro de montao, miga, saudades mil e um e bjks no coração :)

Talitablack: Miguxa, q lindo vc aki :D Hmmm.. ficou abismada, foi? Traidora na Ordem? Bem, lembre-se q essa fic eh narrada no ponto de vista do Harry e os títulos tbm são culpa dele, viu? Hehehe :p Isso quer dizer q.. bem, vc entendeu, hehehe :) Hmm... agora, sobre o DD estar sendo enganado... mais p/ a frente vc obtêm a resposta, hahahaha (risada maléfica). Harry a favor das trevas??? Não, não, ele não a favor do vovô dele, mas posso garantir que orgulhoso e cabeça dura ele eh sim! Agora, o Harry vai pensar melhor... ele não vai fikar com falta de atitude por mtu tempo.. ;) Hmm, q bom q vc gostou do cemitério!! :D E vc quer H/K ou H/G??? heheheh Decida-se! Uhahuahuaa :D Tô brincando.. vc vai ver q mta água ainda vai rolar... hehehe Bjks, te doro!!!