Capitulo 9

Lá fora, uma repentina chuva de primavera batia nas ja nelas no alto. O pequeno monte de carvões no fogareiro quei mou lentamente, sem irradiar calor para afastar o frio da adega. Uma vela de sebo lançava um brilho débil sobre o tabuleiro de xadrez e um cheiro ruim no ar. A Srta. Angela fazia seu trabalho manual à luz de um lampiãozinho a óleo que fedia também.

Edward imaginou Bella caminhando em sua direção, com um ondular sedutor dos quadris, tirando as roupas conforme andava. Estava sorrindo, procurando-o enquanto saltava para fora da roda das anáguas e se postava vestida com a combinação transparente. Os bicos dos seios destacavam-se através da seda creme, contraídos de desejo por ele...

O tom desagradável de Bella despedaçou-lhe a fantasia:

— Meu senhor, está olhando para o tabuleiro por cinco minutos inteiros. Gostaria de que eu fizesse a jogada por você?

Edward saltou como um garoto pego com os dedos no me lado.

— Ora, Bella, você deve ser paciente com Sua Senhoria — a Srta. Angela ralhou. — Ele passou o dia acorrentado pelo tornozelo e está pronto a rosnar como um leão.

— Mais como uma fuinha mal-humorada — resmungou Bella.

Edward a encarou. Estava sentado a uma ponta da mesa, ela na outra. Bella mostrava uma expressão contrariada, e seus olhos faiscavam de irritação.

Ficava difícil permitir-se um sonho com ela. Edward gos taria, só uma vez, que Bella lhe desse algo com que fantasiar: uma olhar sedutor, um sorriso sensual...

— Lorde Northcliff estará melhor amanhã, quando o res gate chegar e ele poderá ficar livre — a Srta. Angela disse, serena.

— Amanhã? — Por um momento, Edward se esqueceu de Bella. — Tem certeza de que será amanhã?

— Se seu tio seguir as orientações, o resgate será entre gue amanhã, e você ficará livre. — Bella sorriu para ele com alívio.

Ela parecia mantê-lo em seu poder. Gostava de ter os homens saltando às suas ordens. Não era terna e doce e bonita do jeito que ele gostava que as mulheres fossem. Bella era inteligente. Tinha a língua afiada. Suas feições eram formosas, e Edward diria que ela nunca sorria só que não era verdade.

Bella sorria quando olhava para a Srta. Angela.

Ela podia estar, aliás, estava, equivocada em suas tenta tivas de extorquir dinheiro dele, mas Edward não tinha como duvidar da sincera afeição de Bella pela velha senhora. Nem, infelizmente, tinha como duvidar da esmagadora pobreza da Srta. Angela.

Talvez, pelo menos de uma certa maneira, Bella tivesse razão. Tio Aro falhara visivelmente no trato com a Srta. Angela, e isso deixava Edward com a preocupação de que o tio havia falhado de outras formas também. Teria de man ter os olhos mais atentos para a administração de suas pro priedades. Quem sabe, se tio Aro fosse realmente ne gligente, Edward pudesse perdoar as má-criações de Bella... se não o próprio aprisionamento.

Ele deu-lhe o beijo da paz, escorreu a mão por seu braço e pela saia, e pousou a boca nos lábios que sorriam enquanto ela implorava por seu perdão...

Tomado de luxúria, Edward moveu o rei.

— Senhor, essa foi uma jogada descuidada e eu lhe peço... Oh! — Debruçando-se, Bella estudou o tabuleiro atentamen te. — Que esperto. Eu não tinha visto esse estratagema antes. Deixe-me pensar como contra-atacar.

Esperto? Ele fora esperto? Talvez a vida de devassidão que levava não tivesse deixado sua mente atrofiada, afinal.

— Como serei libertado? — Edward esperava que tives sem imaginado algum plano estúpido que lhe daria a chance de se sentir infinitamente superior.

— Depois que a Srta. Angela e eu formos embora da qui... — Bella começou.

— Vão fugir?

— Sim, em vez de ficar aqui e ter você ordenando que nos esfolem vivas, vamos embora. — Ela o desafiava com ironia e com lógica.

— Não posso imaginar que ele nos mande esfolar, querida — murmurou a Srta. Angela.

— Isso parece ter saído de moda como a roda de tortura. Creio de lorde Northcliff fica ria satisfeito em nos mandar enforcar. Verdade, milorde? — Bella riu na cara dele.

Quem era aquela atrevida de sotaque sofisticado e boca suja?

Edward desviou a atenção para o tabuleiro. Com olhar sombrio e voz cheia de insinuações, ele a desafiou:

— Me ocorreu que há outros meios de matar uma mulher.

Bella o fitou apreensiva, como se não compreendesse di reito.

Será que era realmente inocente? Ou se tratava de uma atuação de uma atriz incomparável?

— Como... tortura? — Como se Edward fosse uma cria tura estranha e misteriosa, ela o observou pelo canto dos olhos, ao fazer a jogada.

— Alguns podem chamar de tortura. — Ele deu uma ri sada curta e rouca. Sim, sentar ali a imaginar fantasias sobre uma mulher de mente criminosa era certamente uma tortura.

— Mas você estava me dizendo como eu seria li bertado.

— Oh... — Bella endireitou-se. — Você não terá problema em voltar para onde é o seu lugar. Sua casa fica além do canal.

— Então, eu estou em Summerwind. — Edward se es pantou. Era impossível ter certeza com janelas tão altas. E aquela bruxa poderia tê-lo enfiado em qualquer adega e mentido a respeito.

Ele moveu um peão.

— Está. — Bella moveu um bispo.

— A chave do grilhão já foi colocada numa gaveta na sua casa. Depois que formos embora, mandaremos um bilhete a seu tio dizendo onde, e você ficará livre assim que ele chegar aqui com ela.

Edward fingiu analisar o tabuleiro enquanto a estudava de soslaio.

Bella usava as roupas mais horríveis que ele já tivera a infelicidade de ver. Suspeitava de que fossem da srta. Angela.

— Então? — Bella bateu o pé no chão.

Ele colocou sua rainha no caminho da peça adiantada por Bella.

— Esse foi um lance muito estúpido, senhor. — O desprazer dela era palpável. — Ou é um jogador medíocre, ou está sendo cavalheiro e me deixando ganhar o jogo, embora nenhuma coisa nem outra pareça provável. No que estava pensando?

Edward estava pensando que, se Bella fosse sua, ele a vestiria com as mais finas sedas para proteger aquela pele delicada. E isso o arrastara para fantasias muito vividas, provocando um tal desconforto que Edward ansiava desesperadamente por uma louca cavalgada pela ilha ou por uma enorme bebedeira com os amigos. Ou até por uma simples caminhada ao sol.

Nos dois meses esperando que a perna sarasse, sofrerá do mais terrível tédio. Não havia se dado conta de quanto tinha sorte de comer bem, exercitar-se e, mais do que tudo, ver o sol, as árvores, o horizonte. Estava enlouquecendo de vontade de ficar livre e, claro, sumir da frente daquela Bella desdenhosa, teimosa, correta.

Assim que fosse liberto, esqueceria dela nos braços de outra mulher... ou quem sabe encontrasse Bella e lhe mos trasse o que acontecia a uma mulher qualquer que ousava desafiar o marquês de Northcliff.

Tamborilou os dedos e sorriu.

Edward a despiu do vestido horrível e empalmou-lhe os seios, examinando o formato e a cor dos mamilos. Eram tão macios e claros como um pêssego... Não, eram castanhos e se contraíam de desejo por ele...

— Senhor, parece meio adormecido. — A Srta. Angela colocou a renda sobre a mesa. — Quer que saiamos?

— Dormir a esta hora? Absurdo. Não devem ser nem nove horas! — Em Londres, ele passara muitas noites farreando até o amanhecer.

— Sou velha e preciso do meu sono. — A Srta. Angela levantou-se.

Edward levantou-se também, num gesto de respeito.

— Irei com a senhorita — Bella apressou-se a dizer. — Deixaremos a vela com lorde Northcliff. Ele pode ler.

— Não, não. Ficarei bem, e o nosso hóspede não pode ser deixado sozinho. Vocês, crianças, fiquem aqui e terminem a partida. — Sem medo, a Srta. Angela aproximou-se e abraçou Edward. Tomou-lhe as faces entre as palmas das mãos e fitou-o nos olhos.

— E bom ter você como hóspede outra vez. Volte logo... Não estarei aqui, mas gostaria de que você não fosse um estranho em Summerwind. A vila e as fazendas ficariam contentes com uma visita do seu lorde soberano.

— Farei isso, Srta. Angela. — Inclinando-se, Edward roçou um beijo na face flácida da velha.

Com um último abraço, ela pegou o lampião e se afastou.

— Lorde soberano, ora essa — murmurou Bella. — Você não sabe como ser um lorde soberano.

— Sou o lorde soberano nesta terra. Meu pai transmitiu-me o conhecimento necessário para ser um Northcliff. — No entanto ele negligenciara suas obrigações, e o desprezo de Bella o feria. Por isso, perguntou, com crueldade:

— Seu pai a ensinou? Ou você nem mesmo sabe quem é ele?

Bella avançou sobre Edward, mas parou a uns poucos pas sos de uma distância vital.

— Meu pai me disse para ser honesta comigo mesma e fazer a coisa certa. Mostrou-me o significado do dever e do sacrifício. E eu aprendi as lições que ele me ensinou. Pena que você não tenha feito o mesmo.

Meu Deus! Ela o açoitava com as palavras, sem mostrar um grama de respeito à sua posição.

— É melhor ser uma dama de boa família que enfrenta tempos difíceis e que permitiu que a amargura a envene nasse?

— Essa é sua nova teoria a meu respeito? — Bella esbra vejou. — Imagino que outra bobagem irá forjar para explicar seu aprisionamento aqui, hum?

— Há centenas de coisas que poderiam ter feito você como é, mas uma coisa permanece inviolada. Você é uma criatura ridícula! — Edward usava um tom desdenhoso que deixava claro que ele desejava chamá-la de outras coisas bem menos elegantes.

— A vida é um exercício ridículo desempenhado pelos entediados, os famintos e os desesperados. E eu estou cheia de você. — Bella olhou ao redor. — Mas não posso subir as escadas ainda. Você é um horrível jogador de xadrez.

— Na verdade, um dos melhores de Londres. — Quando não estou jogando contra uma mulher. Uma mulher que faz meu sangue brotar à superfície e o desejo nadar sob a minha pele.

— Londres é a cidade dos idiotas, então. — O olhar de Bella pousou no trabalho da Srta. Angela. — Fazer renda o manteria ocupado.

— Não... não — Edward rosnou por entre os dentes. Bella pegou a pequena peça e sacudiu-a para ele.

— Vamos lá, senhor. Pense em como ficaria satisfeito em me mostrar que estou errada em alguma coisa.

— Não sou mulher.

Mas ela era. E Edward adorava o jeito com que Bella en rolava o xale sobre o busto como se, ao se blindar dos olhos que a devoravam, pudesse se proteger de sua luxúria. A atitude era inútil e mostrava pouca experiência com ho mens... ou, quem sabe, experiência demais.

— Não, você é um dos entediados.

Bella estava certa quanto a isso, droga! Edward sabia que ela o açulava. Sabia que não poderia sucumbir à caçoada. Porém estava entediado. E perturbado com desejos libidinosos. E desesperado.

— Está bem. — Ele tomou a decisão num repente. — Mostre-me.

Bella pareceu espantada e, em seguida, cheia de suspeitas.

— Que foi? — Edward arqueou as sobrancelhas com ar inocente.

— Você me convenceu.

— Está sendo muito amável.

— Na verdade, algumas pessoas me chamam de fasci nante.

— Debutantes. — Bella deu à palavra uma conotação sa tírica. — Estou certa?

— Sim.

— Não acredite nelas — ela ò advertiu. — São lisonjeiras. Estão atrás do seu anel para o dedo anular.

Era no que Edward acreditava também, mas Bella via isso de um modo diferente. De um modo pejorativo. Um que in dicava que ela não conseguia imaginá-lo fascinante nem por um instante.

E o pensamento o incomodou. Talvez jamais houvesse sido fascinante. Seu pai, por certo, nunca fora fascinante.

O que era melhor que ser como sua mãe: encantadora, inconseqüente, volúvel.

Sua boca se endureceu.

— Não importa. Pode ir se deitar. Não sou criança. Não preciso de você para me entreter.

— Ótimo. — Bella enfiou o trabalho de renda no bolso. — De qualquer maneira, tenho certeza de que você é incapaz de se concentrar pelo tempo suficiente para aprender.

Edward deu dois passos para o catre, com a maldita cor rente a tilintar conforme se movia.

Deixou-se cair sobre o colchão.

— Sim, porque sou um sujeito negligente, irresponsável, risível.

Bella hesitou, e era evidente que não compreendera aque le estado de ânimo.

— Leve a vela. — Edward a dispensou com um gesto dos dedos.

Com um movimento brusco, ela o deixou olhando para o escuro.