So Near, So Far.
O fim do entardecer naquele dia, deu ao céu um brilho diferenciado do qual estavam realmente acostumados. O misto das cores parecia mais vivo do que nunca e o fraco calor que o pôr-do-sol lhes proporcionava, era o suficiente para que se sentissem aquecidos. Ainda caminhavam, mesmo já sendo quase noite, talvez porque preferissem se afastar o mais rápido possível daquele vale.
- Então você está me dizendo que eu passo 30 minutos longe, e você encontra um dragão bebê e um Golden Dragon que te ajudou a me resgatar? – Shaoran arqueou as sobrancelhas, ainda incrédulo por ver o pequeno dragão nos braços de Sakura. Ela riu.
- Bem, eu também não consigo crer muito nesta história, mas ele está aqui, não está? – Sorriu, acariciando de leve o bebê dragão. – Quando pararmos, será que você pode passar aquela poção nele? Ele ainda carrega ferimentos causados por aqueles dragões malvados.
- Acho que não terá outro jeito, mas não podemos ficar andando por aí com um dragão, Sakura. – Shaoran arqueou as sobrancelhas, enquanto acompanhava o passo mais lento da garota. – Ele chamará muita atenção e não poderemos passar pelas cidades.
- Oras, Shaoran, mas ele é tão bonitinho! – Sakura passou a mão levemente pelo focinho do dragão, arrancando dele um espirro de chamas, que deixou a cara de Shaoran um tanto cinzenta. Sakura, claro, não perdeu a oportunidade de rir disso. – Parece que ele gostou de você!
- Nós não podemos ficar com um dragão, Sakura! – Bufou, irritado. – Ainda mais um bebê! Você sabe o quão perigosa é a nossa missão neste mundo. Além disso, o que faremos quando voltarmos para nossa terra? Não sabemos se ele poderá vir conosco, isso só tornará as coisas mais difíceis.
- Você está parecendo um velho reclamando tanto, Lee. – Sakura encolheu os ombros, abraçando-se mais ao dragão. – Quando nós precisarmos decidir isso, decidiremos. Por ora, ele ficará conosco. – Disse com simplicidade e passou reto por Shaoran, continuando a caminhar com toda sua graça.
- Oras, Sakura, não seja tão inconseqüente! – Shaoran disse entredentes. – Como passaremos pelas cidades sem sermos notados com um dragão nos seus braços?
- Bem, veremos isso depois. – Ela sorriu. – Veja, há uma clareira mais para frente. – Ela apontou. – Podemos parar por ali? Estou cansada de caminhar.
Shaoran, cansado de discutir, apenas revirou os olhos e passou reto por Sakura, caminhando com passos pesados que, Sakura já havia notado, eram típicos de quando estava irritado. Ela segurou um risinho, caminhando com o bebê dragão nos braços.
- Limparei bem suas feridas, para que depois Shaoran possa lhe passar aquela poção, tudo bem? – Deu-lhe um beijinho carinhoso no topo da cabeça. – Ainda temos comida, Lee?
- Acho que para uns dois dias. – Ele respondeu, encolhendo os ombros. – Eu vou ir atrás da lenha, fica de olho nessa...nesse...nisso aí. – Olhou de canto para o dragão, recebendo o que muitos chamariam de "um sorriso", ele chamava de aberração.
- Nada como um bom banho, não é? – Sakura sentou-se na beira do lago e mergulhou o pequeno dragão na água, tendo o devido cuidado para limpar suas feridas. Porém, os olhos verdes se arregalaram, ao notar que aquela coloração roxa, era tomada por uma prateada. O que significava aquilo? – Shaoran! – Ela chamou, ao ver que o garoto retornava com a lenha nas mãos.
- O que houve? – Ele perguntou, formando a fogueira no chão.
- Veja. – Ela ergueu o pequeno dragão, demonstrando que, da cintura para baixo, uma coloração prateada o acometia.
- O que...? – As orbes âmbares se arregalaram e ele largou o que estava fazendo para aproximar-se de Sakura e do pequeno dragão. – Prata?
- Prata. – Ela repetiu, como se o som da palavra os fizesse compreender o que realmente estava acontecendo. – Você conhece algo sobre dragões desse tipo?
- Só sei o que todos sabem: que são muito raros e perseguidos. Para falar a verdade, no livro que eu li, sequer existe uma foto deles. – Shaoran respondeu.
- O que faremos agora? Não podemos simplesmente larga-lo por aí como o senhor sugeriu. – Sakura lançou um olhar acusador para Shaoran.
-Se você quer tanto assim ficar com ele, o que eu posso fazer? – Limitou-se a responder, encolhendo os ombros. – Mas...- Ergueu o indicador antes que Sakura fizesse algo além de alargar aquele enorme e reluzente sorriso. - ...se ele nos causar problemas, a culpa será sua.
- Tudo bem! – Ela respondeu, terminando de lavar o pequeno dragão, para depois seca-lo, envolto em um pano que sempre carregava consigo na bolsa. – Uhn...você precisa de um nome...- Sakura constatou, sentando-se com ele de frente para a lareira, a qual ela própria tratou de acender o fogo.
- Você não vai dar nome a um dragão, vai? – Shaoran arqueou as sobrancelhas. – Ele não é um bichinho de estimação, Sakura. Dentro de vinte, talvez trinta anos, ele será do tamanho de uma montanha! – Estreitou os olhos.
- Oras, ele ainda é um filhote! E como vou chama-lo quando quiser sua atenção? Não, não, meu pequeno terá um nome e ponto final. – Sorriu, ao ver a expressão do pequeno dragão, que brincava, tentando alcançar as chamas.
- Você só pode estar brincando. – Shaoran bufou.
- Uhn...acho que Shiroi seria um bom nome...- Coçou levemente o queixo.
- Ao menos dê um nome decente a ele, Sakura! – Shaoran olhou-a. – Seja original e não crie nomes como "Silver" ou "Shiroi".
- Silver é um bonito nome! – Ela constatou, deixando um Shaoran boquiaberto. – Você gosta de Silver? – Perguntou ao bebê dragão e viu-o menear positivamente com a cabeça. – Então será Silver. – Sorriu alegremente.
- Eu não mereço isso. – Shaoran suspirou pesadamente e ergueu-se. – Vamos encher os cantis de água, porque partiremos cedo amanhã, Sakura.
- Eu tenho mesmo que ir? – Ao notar o olhar maligno de Shaoran sobre si, ela apenas afastou o dragão bebê – agora Silver - , colocando-o no chão. – Ta, ta, to indo! – Sakura riu. – Eu não demoro, tudo bem? – Afagou levemente o topo da cabeça de Silver, antes de pegar um dos cantis e ir atrás de Shaoran.
- Agora, gênio, me diga como andaremos para lá e para cá com um dragão! – Bagunçou os cabelos levemente e agachou-se para encher o cantil de água.
- Bem, eu ainda não sei. – Sakura encolheu os ombros, agachando-se ao lado dele. – Mas, na hora, sei que vou pensar em algo! – Sorriu abertamente. – Não precisa ser tão negativo assim, Shaoran. O que você acha que um dragão tão pequenino pode fazer de mais?
- Prefiro nem responder. – Ele bufou, erguendo-se e colocou o cantil ao lado do corpo. – Vamos voltar logo, eu estou faminto.
- Ah, eu também estou! – Apressou-se em caminhar para alcançar Shaoran, mas, quando os olhos dos dois se encontraram com a visão de um pequeno dragão de barriga para cima, duas mochilas reviradas, e nenhuma comida, a reação dele não pôde ser outra.
- SAKURA! – O berro de Shaoran ecoou por toda a clareira e a garota apenas encolheu-se, com Silver nos braços.
- Eu sei, eu sei! – Ela encolheu-se mais ali, limpando a boquinha do dragão. – Mas ele é só um bebê, Shaoran! E devia estar com fome, não podemos culpa-lo! – Sentou-se ali.
-Agora quem está com fome somos nós! – Bufou. – Sequer sabemos onde terá outra cidade, do que vamos viver? Ar? – Disse entredentes, demonstrando que não estava nada feliz com a situação.
-Ele não tem culpa disso, não precisa ficar gritando...- Afagou levemente o pequeno dragão, por notar sua tremulação diante da voz de Shaoran.
-Oras, você vai ficar protegendo ele até quando?! – Estreitou os orbes âmbares, inclinando-se sobre ambos. – Ele não é um bebê qualquer, Sakura! Ele é um dragão! Quando ele crescer, nós teremos que alimenta-lo com uma cidade, entendeu?! – Revirou os olhos. – Eu vou dar uma volta. – Bufou e saiu de lá a passadas largas, deixando uma confusa Sakura para trás.
-Não se preocupe, Silver, ele só está estressado. – Suspirou, ouvindo o estômago roncar pela fome. – Apenas não faça mais isso ou ele vai acabar me matando...- Apoiou o queixo sobre a cabecinha do dragão, ao que ouviu um pequeno arroto dele e riu.
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As vezes ele se perguntava como ela podia ser tão inconseqüente. Andar por aí com um dragão não seria uma tarefa fácil, mesmo para eles, que eram feiticeiros. Shaoran suspirou, sentando-se no topo de um penhasco e olhou na direção da lua. Tão bela..
- Não é possível que uma princesa seja assim, tão cabeça dura. – Suspirou, tomando a harpa nas mãos. – Será que hoje você terá alguma resposta para me dar, oh, lua cheia? – Os olhos se fecharam no instante em que começou a tocar aquela melodia. Tão doce...tão suave...que chegou aos ouvidos dela.
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Silver já havia adormecido quando ela começou a escutar aquela canção. Estava alisando suavemente suas escamas quando a ouviu. "A melodia do Anjo", ela pensou. Estaria ele sempre por perto, não importando a distância que percorresse? Instintivamente, colocou o dragão deitado sobre um pano, ao lado da fogueira, e ergueu-se. As pernas lhe guiavam automaticamente e, como se estivesse hipnotizada pelo tom da melodia, a voz lhe saiu dos lábios, começando a acompanha-la como se sentisse necessidade disso.
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Ele escutou quando sua melodia vazia, foi preenchida por uma lacuna que a completava. Aquela voz, a voz de seu Anjo. O Anjo que sempre lhe acompanhava, não importava aonde estivesse. Não ousou parar a melodia, tinha medo de espanta-lo com isso. Seria certo vê-lo? Seria a hora certa para isso? Decidiu que se limitaria apenas a tocar, enquanto escutava a voz tornar-se mais próxima. A respiração lenta, o coração acelerado, os olhos fechados, os dedos tocando mecanicamente a melodia que conhecia com seu coração.
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Um passo, dois passos, três passos. Ela não enxergava nada à sua frente. Nada era importante. Apenas se guiava pela melodia suave, enquanto cantava aquela música que já conhecia tão bem. Ouvia-a ficando cada vez mais alta, como se estivesse se aproximando. Ao fim da clareira, ela finalmente o viu. Em toda sua plenitude, tudo que ela enxergou foi a sua silhueta, perante a lua. E ele tocava aquela melodia com todo seu coração, ela pensava. Os pés se estagnaram ali, onde estavam. E ela não conseguiu se mover. Apenas continuou a acompanha-lo em sua melodia. "Um Anjo", ela dizia para si mesma. Ele só podia ser um Anjo. Porque aquela melodia era perfeita demais para existir no mundo humano. Linda demais. Os olhos entreabertos se fecharam lentamente, para acompanhar melhor o som daquela harpa.
Ele, por sua vez, não podia vê-la, mas sentia que estava ali. Sentia que seu Anjo, como a chamava, estava tão próximo que poderia toca-lo se assim desejasse. Mas ele não fez isso, não ousou a sair de onde estava e sequer por um único instante, deixou de tocar. Os dedos correndo suavemente pela harpa, conhecendo cada uma daquelas cordas. Os olhos fechados, os ouvidos atentos para o dueto que formavam juntos.
Durante um longo tempo, eles suportaram estender aquela canção, como se fosse algo ensaiado. Era como se Sakura tivesse cantado junto dele milhares de vezes e vice-versa. Quando o dueto finalmente chegou ao fim, a harpa desapareceu de suas mãos e ele virou-se lentamente, os olhos ainda fechados. A luz da lua iluminou-lhe à face, dando visão total de quem ele era.
- Sakura...? – Ele murmurou baixo, os olhos arregalados.
- Shaoran...? – Murmurou em mesmo tom. Aquilo não podia ser verdade.
Continua...
N/A:
Ok, essa é a parte em que vocês me matam porque o capítulo da fic está curtíssimo e eu demorei absurdamente para postar. A verdade é que eu estava sem idéias para ela e demorei a trabalhar esse pouquinho. Depois de muito pensar, o capítulo ia ser totalmente diferente desse, mas acabou ficando assim LOL
Eu gostei do final, mesmo porque eu estava planejando isso já há algum tempo XD O próximo capítulo vai ser maior e mais divertido de escrever, vocês vão ver.
Por hora, é isso!
E, ah!
Vi-chan, eu fiz sua fic! O nome dela é Fantoche, procure depois xD
Essa semana eu não devo aparecer mais, por causa do AF.
Kissus!
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