Disclaimer Inuyasha não é meu mesmo porque se fosse eu estaria nesse momento comento chocolate junto com ele.
Vejam a nota da autora no fim...
Entre a Terra e o céu
Capitulo 11 – Acidentes de Percurso
Eu acordei sentindo algo pesado em cima de meu braço adormecido. Ao mesmo tempo eu sentia uma respiração quente em meu ouvido e minha coxa direita roçando contra algo macio, também dormente. Meu tórax também ia de encontro a uma superfície quente, porém, um pouco mais rija e eu sentia minha mão esquerda pousada sobre cabelos lisos e sedosos.
Confusa, eu não ousei abrir os olhos para ver quem era. Eu não me lembrava de ter dormido com alguém e, bem, pelo menos o Sess eu sabia que não era, pois eu saíra correndo do apartamento dele ontem e também não era o Miroku, pois se fosse eu já teria reconhecido. Minha lógica dedutiva já tinha analisado as opções e eu abri os olhos devagar em um misto de horror e vergonha.
Inuyasha.
Forçando meu pescoço um pouco para baixo eu pude vislumbrar claramente a situação em que me encontrava. Deus, era pior do que eu imaginava, eu pensei, deixando minha cabeça cair sob o travesseiro. Um pouco mais aliviada eu constatei que estava vestida. Err... pelo menos um bom sinal não é? Porque a situação já era absolutamente constrangedora.
Inuyasha ainda não tinha acordado e eu agradeci a todos os anjos por isso, o que era uma coisa idiota, pois o único anjo que importava estava deitado quase em cima de mim. Querendo fazer alguma coisa antes que ele acordasse eu tentei empurrá-lo para puxar o braço, mas ele era muito pesado. Huh, deve haver alguma asa escondida aqui, não era possível que meu anjo tivesse tanta massa corporal. Eu deixei meus olhos vagarem pelo corpo dele. Correção, é beem possível.
Tentando pela segunda vez eu coloquei mais força, mas Inuyasha não se moveu nem um centímetro, e eu resolvi partir para a ignorância. Com a perna livre eu dei impulso e consegui virá-lo, retirando-o de cima de mim. O problema é que eu dei impulso demais e acabei caindo em cima dele. Como se eu precisasse de uma situação ainda mais constrangedora...
Mais que depressa eu rolei para o lado deixando o maior espaço possível entre Inuyasha e eu. Um novo erro de cálculo e eu caí da cama como um saco de batatas. Era muito injusto mesmo! Por que essas coisas só aconteciam comigo?
Recuperando-me do susto da queda eu me deitei de volta na cama e dessa vez senti olhos dourados pousados sobre mim. Rezando a todos os deuses, outra coisa idiota, que ele não tivesse percebido eu virei para ele e me vi incapaz de falar. Ele estava... lindo.
Bom dia. – eu balbuciei depois de um minuto encarando.
Então me anjo fez uma coisa mais estranha ainda. Ele sorriu. Acariciou meu cabelo. E me respondeu:
Bom dia. Está melhor?
Eu perdi a capacidade de fala. Inuyasha estava falando comigo sem piadinhas e comentários mordazes?
Quem é você e onde escondeu o corpo de Inuyasha? – eu me vi perguntando, incrédula.
O anjo riu. Correção, gargalhou. Ele estava rindo da minha cara, por que ninguém fazia nada?
Vendo que gradativamente eu fechava a cara, ele parou de rir e respirou. Depois respondeu.
Eu faço meu comentário sarcástico se você prefere assim. Próxima vez eu cobro aluguel, bruxa.
Bruxa? – eu revidei instintivamente. – Por que você está me chamando assim?Eu não sou uma bruxa.
Mas parece uma quando acorda. – ele retrucou com um riso divertido de quem tem um ás na manga. – Arruína as tiradas sarcásticas das pessoas ainda fez um feitiço errado agora há pouco.
Click. E caiu a ficha sobre a parte do aluguel e do feitiço. Ele vira, ele sabia, ele estava acordado! Sem saber se corria ou se batia nele eu escolhi a opção mais idiota: eu me refugiei no banheiro morrendo de vergonha e ainda ouvindo a risada dele me acompanhando. "Anjo safado! Ele me paga!"
Quando eu consegui olhar para ele o suficiente sem corar eu finalmente fui tomar café. Não sentia a mesma pressa em chegar ao trabalho nesse dia. E encarando a montanha de bolo de chocolate do café eu repassei mentalmente os fatos de ontem me perguntando mais uma vez qual a ligação de Inuyasha com a insossa e qual o mistério dos sumiços dele. Tentando sondar alguma informação eu puxei assunto.
Err, Inuyasha, você vai sair hoje?
Vou. – ele me respondeu indiferente.
Afinal para onde você tanto vai? – eu tentei soar mais desinteressada que curiosa, mas não consegui.
Não faça perguntas das quais não quer saber a resposta, Kagome. – ele me cortou divertido e eu decidi mudar de tática.
Ah, mas eu quero saber a resposta. – respondi sugestiva.
Que pena, vai ficar querendo. – ele me mandou aquele sorriso sarcástico de "ganhei essa" e as essas alturas o meu marcador já tinha estourado.
Droga, por que eu nunca consigo achar uma resposta decente para o Inuyasha?
A minha ida para o trabalho foi diferente do habitual. Inuyasha passou o caminho todo calado, perdido em pensamentos, e eu me controlava para não corar estupidamente toda vez que o olhava. Mas não era só isso. Eu estava até dirigindo devagar, droga, eu temia chegar ao trabalho hoje. De certa forma o jornal era o que me conectava com a realidade, que não deixava a sensação de surrealidade tomar conta da minha vida E eu temia perder isso.
Como sempre depois de estacionar o carro, Inuyasha tomou a direção oposta à minha. Eu penso que talvez eu deva seguir esse anjo safado... sabe Deus o que ele anda aprontando por aí... "Mas não hoje" eu suspirei enquanto ele sumia das minhas vistas.
Olhando, confusa, o prédio do NHK News eu acho que é hora de enfrentar meus medos. Empurrando a porta com um fraco "Bom dia" eu atravesse o saguão do prédio até o elevador e desde até a sala de redação, no terceiro andar. Com um bom dia mais alto dessa vez eu atravessei a sala até o meu cantinho particular, meus biombos e entre eles minha mesa. Eu não havia visto Yura até então. Bom... bom...
Até então. Sentada na minha cadeira e mordendo a ponta da MINHA caneta a mulherzinha sorriu sarcasticamente para mim.
Ora, bom dia, Kagome. Eu acho que você não devia chegar tão atrasada assim, sabe?
Ela levantou e eu estreitei os olhos. O que ela era, um relógio? Ela não devia testar minha pouca paciência hoje...
Eu acho que você deveria dar uma lidinha no meu contrato antes de achar qualquer coisa. – respondi desdenhosa.
Os olhos dela se estreitaram e ela sibilou:
Eu espero que você faça boas reportagens hoje. – ela sorriu maldosamente e eu respirei fundo.
Seria mais um dia sem reportagens minhas.
De toda forma eu liguei para algumas fontes e em 15 minutos estava lendo o orçamento votado para esse ano do governo. Incrédula, eu li novamente. Por que o departamento de Comércio tinha recebido aquela verba toda? E por que, pela primeira vez, o SIJ havia sido citado para receber verbas? Rapidamente salvei os arquivos e desci até o arquivo do jornal. De relance vi a mesa de Miroku vazia quando desci. "Droga, onde ele havia se metido?"
Depois de uma longa consulta nos arquivos e de algumas horas de quebra cabeça eu deixei a reportagem na sala da editora e fui comer um sanduíche. Quando voltei fiquei trabalhando na terceira reportagem da série até Yura me dar a notícia que a minha matéria do dia fora cortada por falta de espaço.
Na quinta-feira, quando eu voltei do almoço havia um aviso de kaede sob a minha mesa pedindo para ir até a sala dela. Preparando-me para a bomba que viria eu saí da minha sala em direção às escadas pensando no possível a publicidade no Shikon no tama, diversas reportagens sobre os casos apareceram pelos jornais e revistas. Graças a Deus, porém, nenhum "colega" tinha a informação que eu tinha.
Bati na porta e a voz rouca de Kaede me pediu para entrar. Assim eu o fiz e sentei na cadeira em frente à mesa dela, observando aquela senhora que era como minha família. No meu breve exame pude notar que seu rosto estava sério. Estranho... Normalmente comigo ela sorria.
Algum problema, Kaede-chan? – iniciei a conversa.
Eu vou ser direta, kagome. – ela suspirou. – Por que faz dois dias que não há nem uma linha sua publicada no jornal?
Eu abri a boca, perplexa. Será que ela não percebera nada? Notando meu silêncio Kaede continuou.
Eu sei que o Shikon no tama é o caso mais importante da sua carreira até agora, e que mexe muito com sua vida pessoal mas você não pode ficar se dedicando exclusivamente a ele, filha. – a voz dela tinha um leve tom de censura e meu cérebro finalmente acordou.
Eu não estou me dedicando só ao Shikon, kaede-sama. – eu suspirei demonstrando todo meu cansaço. – eu fiz três boas reportagens ao longo desses dois dias. Só que parece não haver mais espaço para mim nesse editorial.
A editora-chefe suspirou adivinhando o problema.
Eu pensei que você e Yura já tinham superado essa rixa infantil. Quando vocês vão crescer?
Eu me senti como uma criança levando bronca da mãe.
Não depende só de mim, Kaede-sama.
Ela sorriu e murmurou um "Eu vou falar com ela".
A propósito. – eu chamei a atenção dela. – Onde está Miroku?
Ela me olhou surpresa.
Eu pensei que você soubesse. – pela minha expressão indagadora ela continuou. – Ele me ligou na segunda-feira e pediu alguns dias de licença para resolver uns problemas.
Eu suspirei audivelmente e ela completou. – Suponho que você também não saiba qual é?
Sim. – eu assenti e sorri, me levantando. – Eu acho que tenho uma reportagem a fazer, não é?
Apesar da conversa com Kaede, eu não conseguia me tranqüilizar no jornal. Era estranho... eu sempre considerara aquele lugar como um lar e agora simplesmente não conseguia me sentir à vontade ali as mocinhas de filme americano que não conseguem mais trabalhar direito depois do problema aparecer... Terminei a reportagem e entreguei-a à editora. Um olhar raivoso dela foi o suficiente para ter certeza que a conversa com Kaede não surtira efeito. Nada de reportagens minhas também naquele dia.
Saindo da redação eu entrei no carro colocando um Cd de Evanescence naquele volume e me embrenhando logo em seguida, no trânsito de Tókio. Era hora do rush e meu carro seguia devagar o fluxo daquela avenida engarrafada. Uma lufada de ar frio invadiu o carro arrepiando minhas costas e eu observei as janelas fechadas do carro.
Eu senti mais do que vi a porta ser aberta e algo duro ser pressionado contra minhas costas. Prendi minha respiração já prevendo o discurso. Eu já sabia quem era e o que diria.
Olhe para frente. – a voz fria me despertou dos devaneios e eu assenti, o sangue gelando.
Eu acho melhor você não continuar com suas gracinhas, mocinha. – o modo gelado com o qual ele disse isso me arrepiou. – Você pode acabar como seu pai.
O sinal mudou de vermelho para ver de eu respirei fundo vendo pelo retrovisor a porta do carro se fechando. Acelerei deixando a adrenalina se esvair pelo meu sangue. Eu pensei que assim que me visse só eu desabaria em um ataque de choro histérico mas ao que parece meu corpo já tinha suportado choros histéricos demais essa semana e uma calma estranha se apoderava de mim. Nos últimos dias eu andei uma rede de emoções tão intensas que eu não conseguia mais me desesperar. Não que estivesse tranqüila, era mais como se eu já vivesse em um constante desespero.
Só por precaução rodei a cidade toda duas vezes antes de seguir para a casa. Ao chegar lá eu tomei um banho e me sentei no sofá à espera de Inuyasha. De hoje a conversa não passava.
Hum, Inuyasha? – eu não tinha mesmo imaginação para começar conversas com ele.
Diga, bruxa. – ele me respondeu daquele modo gentil.
Não é a primeira vez que você vem à Terra, não é?
Ele imediatamente engasgou com o café e eu sorri intimamente. Dessa vez eu havia acertado.
Por que você diz isso? – ele rebateu a pergunta, tenso, e eu me dei um sorriso de vitória.
Err, eu sei que você é um anjo meio inexperiente e tal, mas às vezes deixa certas pistas.
Ele achou mais fácil iniciar uma discussão e logo seu rosto estava rubro, se de raiva ou vergonha eu não sabia.
De onde você tirou essa idéia de que eu sou um anjo inexperiente? – sim, ele parecia indignado.Ora você mesmo disse que era um hanyou! – eu rebati. – Além disso você nem sabia consolar alguém direito
Talvez a minha outra protegida não fosse um poço de problemas ambulante para eu ter que consolá-la a cada segundo! – ele falou e olhou minha face chocada. Aquilo havia sido... cruel.
Tentando se desculpar desse deslizes Inuyasha baixou o tom de voz e suspirou voltando a falar:
O fato de eu ainda ser um hanyou não significa que sou inexperiente. Eu já estive na Terra antes. Eu só não consegui... – ele parou subitamente como se percebesse o que havia dito.
Se você já esteve aqui em missão porque ainda não é um anjo protetor? – eu indaguei curiosamente voltando ao normal.
Houve um problema. – ele suspirou como se falar daquilo doesse. Como uma ferida fechada apenas superficialmente. – E eu não consegui ajudar a pessoa.
Eu fiquei desarmada em vê-lo tão desamparado... Era muito estranho ver Inuyasha, que sempre parecera mais sólido que uma rocha, falar naquele tom dolorido como se cada palavra fosse uma facada no seu coração. Ele continuou falando, mas eu não ouvi. Simplesmente andei até ele e o abracei murmurando "Shh, não precisa falar. Eu entendo que é doloroso."
Ficamos vários minutos abraçados, eu alisando distraidamente o cabelo e as costas dele até que ele me fitou com o olhar cheio de divertimento e malícia e sussurrou uma de suas famosas tiradas:
E você aí, aproveitando para tirar uma casquinha, não é?
Absolutamente vermelha eu me afastei em um pulo e corri para o quarto. Inuyasha não é um anjo normal, não é possível. Como um anjo poderia ter pensamentos pervertidos como aquele? Se ainda fosse um anjo do Miroku...
Mais tarde, deitada em minha cama lembrando os fatos da noite, eu me peguei revendo as palavras que Inuyasha falara enquanto eu tentava consolá-lo. Era impressão minha ou eu tinha ouvido coisas como garota e proibido? E eu sentia como se algumas peças do quebra-cabeça que ele era começassem a se encaixar. Eu poria a história nesses termos: ele descera a terra para ajudar alguém e acabou se apaixonando por uma garota e assim fracassou na missão. Era hollywoodiano, mas não deixava de ser uma explicação.
Sorri com minha estúpida idéia e balancei a cabeça. Se ele era um anjo como poderia se apaixonar? Anjos não se apaixonam, certo? E de que forma isso fez com que a missão fracassasse? E quem me garantia que a missão fracassara por esse motivo?
Tantas dúvidas e apenas uma pessoa com as respostas. Mas eu não sabia o quão perto eu havia chegado.
Sexta-feira era para ser o melhor dia da semana. Você se livra do trabalho, dorme tarde e sabe que ainda tem o fim de semana todo pra descansar. Sexta-feira deve ser um dia absolutamente feliz. Mas não aquela sexta-feira.
Eu levantei sonolenta vendo o céu cinza ser clareado por raios lá fora. Um aguaceiro típico de fim de verão me recepcionou da janela e eu suspirei desanimada com o tempo. Algo em mim diria que aquele ia ser um dia ruim.
Tomando um banho rápido eu lutei com a sensação estranha que se apossava de mim. Já devidamente vestida eu olhei o celular na minha bolsa com uma chamada não atendida do Miroku e retornei a ligação achando que no fim o prenúncio fosse só uma impressão errada. A caixa de mensagem desfez minha tênue esperança e, em um suspiro eu admiti que aquele seria realmente um dia ruim. E ele estava apenas começando.
Deixando Inuyasha no centro da cidade como sempre, eu cheguei cedo na redação para encontrar pares de olhos cravados em todos os meus movimentos. Sim, era sexta-feira e como sábado seria feriado e o jornal não ia funcionar, era hoje que saía a terceira reportagem da série, aquela que era mais importante para mim pois denunciava Naraku, o assassino de minha família.
Passei pela mesa vazia de Miroku e segui para minha cadeira tremendo de expectativa ante a reportagem da série, a única com a minha assinatura por toda a semana. A chuva caía torrencial e eu não podia evitar o sentimento de que alguma coisa ruim estava para acontecer.
Eu inseri o disquete e meu corpo pareceu entrar em um estágio de contagem regressiva. 7:45. Quinze minutos e estaria feito. Um medo irracional me abateu e pela primeira vez eu me questionei se devia mesmo mexer com toda aquela sujeira. 7:56. Quatro minutos. Eu era uma jornalista, não era? É claro que eu tinha que mexer com aquela sujeirada e trazer todos os podres à tona. E eu me perguntei onde estava Miroku e o CD. 8:00. Estava feito. A reportagem saíra e eu estava gelada de medo. As ameaças não paravam de ecoar na minha cabeça. Pelo menos eu parei de discutir comigo mesma...
Eu respirei fundo para voltar ao normal e bati os olhos no piloto do jornal em cima de minha mesa. Na primeira página a foto de Naraku sobreposta à imagem protótipo da arma desenvolvida no projeto acompanhada da manchete "Escândalo atinge Ministério da fazenda". Eu sorri satisfeita com meu trabalho. Iriam ter represálias sim, mas, e daí? Que elas viessem! Pelo menos eu contei a verdade sobre aquele crápula.
As represálias vieram antes do esperado. Às onze horas um sujeitinho loiro pálido de olhos acinzentados chamado Satô adentrou a sala me procurando. A conversa foi breve como eu esperava. Basicamente Naraku estava me processando por Calúnia e pedia uma quantia exorbitante ao jornal por dano moral e a reparação do dano. O tom de ameaça foi perceptível e após a saída dele eu recebi um bilhete de Kaede dizendo "Eu espero que você já tenha encontrado o CD".
Que ótimo! Eu estava sendo processada e nem mesmo tinha a prova de minhas declarações nas mãos. Não tinha como ficar pior, não é?
Hoje realmente era um dia ruim O que caracteriza dias ruins é que efetivamente eles sempre podem ficar piores. E ficam. O meu, por exemplo, ficava pior a cada minuto que passava. Na hora do almoço recebi um telefonema de Myouga dizendo que eu buscasse o boletim de ocorrência pela invasão da minha casa e avisando que se eu não desse um jeito de entregar o CD a ele, ele não teria como incluir Naraku como indiciado no relatório de encerramento do Inquérito Policial(2) e, portanto ele provavelmente não figuraria na denúncia(3). Eu gemi em protesto e baixei os ombros em derrota. Em outras palavras o meu destino estava nas mãos de Miroku pos se eu não o encontrasse minha credibilidade enquanto jornalista iria para o espaço.
Duas horas. Eu tinha terminado a reportagem da edição e deixado sob a mesa de Yura e já andava de fininho para a saída quando a voz maldosa da mulher me chamou.
Kagome, Kaede pediu que você fosse à sala dela. – a expressão dela de quem vira o coelhinho da páscoa era assustadora.
Certo, na volta do almoço eu passo lá.
Agora, kagome. – além da expressão ela ostentava um sorriso doentio e eu tive um calafrio.
Qual era o problema do mundo? Será que uma pessoa não pode pensar no seu estômago primeiro? Será que eu não podia comer em paz? Eu pensava revoltada enquanto subia as escadas para a sala da editora-chefe.
O que foi dessa vez Kaede? – a minha paciência já estava esgotada e o humor não melhorou ao ver novamente aquele loro pálido. Eu já disse uma vez como eu ODEIO advogados, não disse?
Sente Kagome. – a mulher me indicou a poltrona ao lado do homenzinho e eu prestei atenção na sua face cansada e abatida enquanto obedecia.
Presumo que já conheça o senhor Sato Aikiuda. – ela continuou, apontando para o homem.
Sim, já conheci. – respondi de forma controlada, completando mentalmente "infelizmente" e reprimindo um "e daí?".
O Senhor Sato propôs um acordo com o jornal, Kagome. Ele tirará o processo contra o NHK News mediante retificação pública de erro na reportagem do Naraku.
Não foi um erro, Kaede! Você sabe muito bem que nenhuma palavra que eu disse é mentira. – eu já estava mais que irritada. Então a reportagem da minha vida era um erro? Aquele assassino ia sair impune novamente?
Eu olhei o rosto de Kaede por longos segundos. Sua face estava pálida mas os lábios tremiam ligeiramente em sinal de raiva. Ótimo, então eram duas irritadas ali. Em seguida desviei o olhar para o advogado loiro e tive ganas de esganá-lo ao mesmo tempo em que me assustava com o divertimento daquele olhar. Aquele acordo não envolvia só aquele termo, eu sabia. E o que eu tinha falado sobre dias ruins?
Eu sei que você não tem provas, Kagome. – kaede falou de forma estrangulada e meu olhar voltou-se para ela novamente. – Escreveu de forma inconseqüente. Então foi um erro sim.
Eu tentei ficar calada para conter a minha fúria, mas não consegui. E logo a minha voz alterada se fez ouvir na sala.
E o que vai ser feito para reparar esse erro, Kaede? Lamber o chão daquele verme?
Eu respirei fundo esperando uma resposta espinhenta que não veio. Abri os olhos e a vi me fitando com... pena? Estranhamente ela me estendeu uma folha de papel e falou:
As outras condições estão ai, Kagome.
Eu reconheci o papel como o instrumento do acordo com a assinatura do Naraku e a procuração do advogado. Oscilante entre o medo e o desespero eu li e foi como um tapa na cara. Não, não podia ser. Qualquer coisa menos aquilo.
Eu sinto muito, Kagome. – a voz baixa e triste falou e eu percebi que só restara eu e a editora-chefe na sala.
Meu Deus, vocês não podem fazer isso. Não isso. Esse jornal é a minha vida! – eu andei até a mulher e coloquei a folha na mesa dela enquanto lágrimas não convidadas enchiam meus olhos – me diga que não vai assinar. – eu supliquei e ela desviou os olhos. – Se isso acontecer é o fim da minha carreira, kaede.Eu estarei totalmente desacreditada.
A maioria dos acionistas decidiu, Kagome. – ela me olhou com pena.
Eu ... eu vou pegar minhas coisas. – eu me dirigi à porta ainda em choque.
Vá para a casa, Kagome, amanhã você pega. – a frase dela soou como uma ordem e inconscientemente eu acatei.
Eu já estava na porta quando ouvi a última frase da conversa.
O CD, Kagome. Somente o CD.
Fora da sala eu passei a mão pelos olhos bruscamente, peguei minha bola e desci as escadas correndo. Passei por Houjo e Yura que discutiam e pude ver o espanto nos olhos deles pelo meu estado. Eu só tinha um pensamento: casa. Eu precisava ir para a casa e dormir. Quem sabe eu não descobria que isso tudo era só um pesadelo?
Sem nem perceber a chuva torrencial que voltara a cair eu abri a porta do carro em um rompante. Eu sempre fui uma pessoa responsável e controlada na direção, mas eu estava fora de controle. O desespero se evidenciava em todos os meus atos e dirigir não era exceção.
Liguei o carro e engatei direto a segunda marcha, acelerando desvairadamente. O trânsito àquela hora ainda não atingira o estado de completo caos. Mas era movimentado demais para os meus 100 km/h. A ameaça de ontem ainda estava bem viva na minha cabeça. E eu pensava no inferno que tinha se tornado minha vida.
Depois de poucos minutos eu notei que o carro tremia sob a pista e eu notava uma crescente perda de controle apesar de manter o volante firme em minhas mãos. "Você pode acabar como seu pai" a frase começou a ecoar na minha mente e eu dei um suspiro quando entrei na auto-estrada que levava ao meu bairro. Eu já estava perto agora. Instintivamente diminuí a velocidade para 80.
Sem nem perceber a música que ecoava do som eu senti o carro tremer e repuxar para a esquerda, desgovernando. Imediatamente segurei o volante com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. E enquanto me perguntava que Diabos acontecera com meu Peugeaut eu vi uma ultrapassagem que fez meus ossos gelarem. Nada de errado com o fato da Mitsubish ultrapassar o Renault azul. Errado era ele vir em minha direção.
Eu vi a cena se desenrolar em câmera lenta sob meu olhar. A mitsubish acelerou para tentar entrar na pista certa e eu virei todo o volante para a Direita com toda a força que eu tinha e percebi horrorizada que o carro continuava em linha reta. Ao mesmo tempo meu pé esmagou freneticamente o freio em uma tentativa de evitar a colisão.
Eu não lembro direito o que acontecei só lembro que depois de três anos eu rezei pela primeira vez, pedindo a Deus que me ajudasse a me manter viva. A freada brusca fez com que meu corpo, solto do cinto que eu esquecera de colocar, se deslocasse pelo ar e caísse no acostamento. E como um filme americano eu vi a Mitsubish entrar na pista certa no último segundo e apenas tocar meu carro que rodou na pista diversas vezes. E como essas coisas inexplicáveis de filmes eu vi que o motorista da mitsubish tinha cabelos prateados.
(1) Meu Deus o advogado é Draco Malfoy... a voz arrastada, o queixo fino, o nariz torcido...
(2) Eu não sei anda sobre a justiça japonesa então fui pela brasileira mesmo. A polícia indicia, ou seja, afirma que há indícios suficientes de autoria e materialidade no Inquérito Policial que tem prazo para ser concluído de 15 dias se não houver investigado preso.
(3) A denúncia é a petição inicial da ação penal. É feita pelo Ministério Público e é onde se aponta o autor do crime.
Ye! Fic também é cultura
Ok, uma nota séria dessa vez... Vocês devem ter percebido que esse capítulo é grande e, bem, terminou na melhor parte, então um pouco de compreensão se o próximo demorar um pouquinho...
Dessa vez eu não vou contar o que vem no próximo capítulo... suspense é fundamental E desculpem eu não responder as reviews mas eu realmente não tenho tempo, o que não significa que eu não leia e adore todas! Então se este capítulo for digno de um comentário, não se façam de rogados e apertem o go ai embaixo.
Beijos e Já ne
Thai-chan
