O amor é chama que afaga enquanto mata

Capítulo XI

"...Implorei ao punhal veloz

Dar-me a liberdade, um dia,

Disse após ao veneno atroz

Que me amparasse a covardia."

Charles Baudelaire

************

Shun acordou com uma inacreditável dor de cabeça. Tomou um analgésico e foi para o banheiro, começar a higiene matinal. Sentia-se exausto. Estava escovando os dentes quando ouviu o som da porta se abrindo, terminou o que fazia e foi para a sala, ainda vestido num roupão. Sorriu ao encontrar o irmão.

- Bom dia, Ikki, aonde você foi? – interrogou, vendo o rosto abatido do mais velho.

- Andar um pouco...

- Já tomou café? – perguntou desviando o olhar; pensava que todo aquele abatimento fosse sua responsabilidade.

- Não estou com fome, Shun, mas estou feliz por você estar melhor. – Ikki tentou sorrir, faria tudo que fosse necessário para que o irmão não saísse mais machucado daquela história, mesmo que isso significasse mentir pra ele. Contudo, jurava pra si mesmo que aquilo seria uma situação temporária, não cometeria os erros que tanto desprezava nas pessoas...

- Nada como uma noite de sono pra exorcizar demônios... – respondeu o mais novo e depois olhou demoradamente para o irmão.

– Mas, parece que você é quem não dormiu, não é?

- Sabe que quando fico preocupado com você, perco o sono...

- Já estou melhor só por você estar aqui... – Shun sorriu – Vou preparar um café, certo?

Ikki assentiu com a cabeça e foi para a janela, acendendo um cigarro. Mesmo sem querer a imagem do russo se formou em sua mente, não sabia ainda o que fazer com aquele sentimento que não desapareceria. Nunca foi capaz de se livrar dos sentimentos, só havia um jeito de escapar dele, transformá-lo em ódio.

Shun chamou-o alguns minutos depois e ele se sentou à mesa, enquanto o irmão servia o café da manhã.

- Ikki, a minha apresentação é na próxima semana... – disse ao sentar-se também – Você vai, não é?

- Claro que sim, eu prometi, não foi?

Shun sorriu e bebericou seu café.

- Eu escolhi uma nova música, serão três na audição.

- Qual?

- A Chaconne da Partita nº2 em Ré menor de Bach*1...

- Deixe-me advinhar, mais difícil que as outras? – perguntou Ikki experimentando o café que fumegava em sua caneca.

Shun deu um sorriso tímido.

- É tudo o mais dificil que já se produziu para violino. Mas me sairei bem...

- Tenho certeza disso, irmão...

Shun mais uma vez estranhou o tom distante e melancólico na voz de Ikki e começou a se indagar se aquilo seria apenas pelo seu problema. Não, conhecia-o muito bem e sabia que havia algo mais...

- Ikki, aconteceu alguma coisa que você não queira me contar?

Os olhos verdes de Shun se prenderam aos índigos do irmão, que sorriu e baixou-os novamente para a caneca que segurava.

- Aconteceu sim, Shun, não mentirei pra você, mas... não quero falar sobre isso.

O mais jovem assentiu com a cabeça em conformidade e se sentou, começando a comer.

- Você viajará comigo, Shun? – indagou Ikki depois de um tempo.

- Talvez...

- Você tem um sério problema, nunca diz um sim ou um não, não é verdade?

- Sou assim, o que posso fazer? – sorriu Shun – Não digo nada de que possa me arrepender depois, bem diferentes de você, não é, irmão?

- Eu só faço burrada, Shun... – disse depois de um suspiro triste – Muito coração e pouco cérebro...

- Ouso discordar, você é uma pessoa apaixonada, meu irmão, ardente e acho isso uma grande vantagem e não burrice, você é muito inteligente! – o mais jovem dos Amamiyas baixou o olhar timidamente – Espero que a pessoa que você ama, o mereça de verdade...

Ikki deixou escapar uma risada de escárnio. Se ele soubesse... se desconfiasse que a pessoa que era dona do coração do irmão, também era dona do seu.

Ergueu-se e o irmão voltou o rosto para ele.

- Aonde você vai, Ikki?

- Fumar... – disse e saiu. Shun se encolheu na cadeira, pensando ainda mais, que havia alguma coisa muito errada com Ikki. Ele estava sofrendo e isso era quase tangível.

****************

Passara-se uma semana desde que Ikki descobrira toda a verdade. Nunca mais vira o russo e pelo que sabia, Shun também não. Queria mesmo que ele desaparecesse, mas seu peito doía seu corpo exigia a presença dele. Será que estava apaixonado aquele ponto? Tentava afastar os pensamentos enquanto passeava entre as prateleiras do mercado a procura dos itens da lista de compra de Shun.

O irmão estava melhor e até mais animado; a tal apresentação que seria dali a dois dias ajudava e muito em seu estado de espírito, e também haveria uma festa na cidade nos próximos dias, comemoração ao final do ano. Shun sempre gostava daqueles acontecimentos, era uma pessoa bastante popular e sempre fazia parte da organização do evento.

Ikki ficava feliz por vê-lo se recuperar; ele... bem, achava que nunca se recuperaria.

- Onde diabos, eu vou encontrar radiche? E que diabo é radiche? – se perguntava enquanto pegava um pacote de macarrão.

- Na sessão de hortifruti e é uma folha! – uma voz suave e divertida respondeu e ele se virou.

Encontrou uma moça de belos olhos azuis e longos cabelos loiros sorrindo, ele também sorriu pra ela.

- Obrigado, June... – disse enquanto tentava equilibrar os pacotes de macarrão, café e chá, nos braços.

Ela voltou a sorrir e entregou-lhe uma cesta.

- Por que vocês homens odeiam cestas? – comentou.

- Porque queremos sempre parecer auto-suficientes! – explicou começando a andar para a sessão informada.

A menina que também carregava uma cesta cheia de guloseimas o seguiu.

- Como está o Shun? Ele não tem ido às aulas...

- Andou adoentado, mas está melhor... – respondeu Ikki enquanto jogava algumas latas na cesta.

- A audição é depois de amanhã... – disse a moça preocupada.

- Se ele não estiver bem, faz outro dia... – Ikki deu de ombros continuando as compras.

June riu incrédula.

- Ikki, não há outro dia, o Shun não lhe contou?

Ele parou e mirou a moça loira que ficou extremamente vermelha e sem graça.

- Ah, Deus! Me lembrei, preciso ir agora... eu...

Ela virou nos calcanhares, mas teve o braço seguro fortemente pelo moreno e foi obrigada a encará-lo.

- Me diz agora, June, o que está acontecendo?! – exigiu.

- Ikki, por favor, acho melhor você perguntar ao Shun...

- June, meu irmão está muito estranho, obcecado por essa apresentação. Eu estive cego até hoje para não perceber que havia alguma coisa errada com ele, então, por favor, me diga. Prometo que não comentarei nada.

June respirou fundo, estava muito confusa e sem jeito, mas acabou concordando com o rapaz. Eles se conheciam desde pequenos e ela como amiga deles, não achava mesmo justo que o Amamiya mais novo ficasse mentindo para o mais velho.

- Não é uma avaliação da faculdade, Ikki, é uma audição para o Royal College of Music*2 de Londres. Eles enviarão uma equipe de audição para nos avaliar e concederão bolsa aos melhores.

Ikki ficou aturdido. Por que Shun esconderia aquilo dele? Por mais que tentasse encontrar uma resposta não conseguia; então aquele era o motivo de toda aquela obstinação? Em todo o esforço para conseguir as notas perfeitas naquele maldito violino? Mas por quê? Por que o segredo?

Balançou a cabeça e June sorriu:

- Você deveria se orgulhar do seu irmão...

- Me orgulhar dele ter mentido pra mim? – respondeu zangado – Eu acho que nunca conseguirei entender o Shun, ele parece que anda louco!

- Possa ser que ele quisesse fazer uma surpresa e eu acabei estragando tudo... – disse a garota triste.

- Tudo bem, June, fique tranqüila, eu não comentarei nada com o Shun.

- Ikki, os músicos da RCM virão aqui porque o Albion mandou uma gravação do Shun ao violino. Eles virão por causa do Shun, Afinal não é todo dia que se encontra um virtuose...

- Eu sei que ele é talentoso... – disse Ikki, baixo, mas seus pensamentos estavam confusos a respeito das atitudes do irmão.

Londres? Shun o deixaria para morar em Londres e nem tivera a decência de avisá-lo. Sentiu-se irritado, contudo, decidiu engolir a raiva; queria ver até aonde o irmão iria com aquela mentira.

Caminhou para o caixa, deixando June numa das seções, pois a moça alegara que ainda teria coisas a comprar.

A mocinha do caixa já estava passando as compras quando seus olhos vislumbraram, pela vidraça da frente da loja, alguém parado atrás de si com vários pacotes nos braços. Crispou o rosto e desviou o olhar. Mas estava trêmulo, não esperava vê-lo ali, não esperava vê-lo nunca mais; e mesmo assim, seu coração descompassava com sua proximidade. Reparou, mesmo a contra gosto, o quanto ele estava magro e abatido; não se viam há uma semana; e o russo parecia que estava doente há meses. Não queria pensar, não queria cogitar que fosse o motivo daquele abatimento, ou que Shun fosse o motivo, tais pensamentos eram dolorosos demais. Terminou de passar as compras e saiu sem olhar pra trás. Não havia nada para falar um com o outro. Não mais...

Hyoga começou a passar suas compras, enquanto observava pela vidraça, o moreno sair cantando pneus na pick-up. Reparou também que ele estava mais magro, mas não quis pensar nele. Não queria pensar em mais nada e nem ninguém...

*****************

"Well you done done me and you bet I felt it
I tried to be chill but you were so hot that I melted
I fell right through the cracks and I'm trying to get
back
Before the cool done run out I'll be giving it my
bestest
Nothin's gonna stop me but divine intervention
I reckon it`s again my turn to win some or learn some"

"Bem, você fez bonito comigo e pode apostar que eu
senti
Eu tentei ficar frio, mas você foi tão quente que me
derreteu
Eu caí direitinho, mas estou tentando voltar
Antes que o frio passe, eu darei o melhor que posso
Nada me deterá a não ser a intervenção divina
Acho que é a minha vez novamente de ganhar ou aprender
alguma coisa..."

Os colegas de faculdade batiam palmas enquanto Shun cantava acompanhado por Albion que tocava violão, fazendo um acústico da gostosa melodia. Eles se apresentariam na festa do final de ano; e isso serviria para descontrair os músicos, logo depois da apresentação tão estressante para RCM.

Shun escolhera a música por ser leve e pela letra condizer e muito com seu estado de espírito. Sim, caíra direitinho nos braços de Hyoga, se apaixonara e agora só tinha uma escapatória: tocar a vida e esquecê-lo, aprender alguma coisa daqueles dias maravilhosos que passaram juntos. Deveria lutar mais? Deveria? Todas essas indagações ocupavam sua cabeça e ele continuou cantando; cantar o acalmava. Porém, no meio da melodia sua voz falhou e seu rosto crispou-se tanto numa expressão de raiva que os colegas desviaram a atenção para a porta do teatro, onde se prendiam seus olhos; porque era uma raridade, qualquer um deles, ver uma expressão como aquela no rosto sempre amável do rapaz.

Jabu se aproximou, sério, andando apressadamente para o palco. Shun, por sua vez, se retirou do palco, pegando sua mochila numa cadeira e desaparecendo apressado pelos bastidores. Não queria falar com Jabu, não queria olhar em sua cara, sentia nojo, repulsa e raiva. Saiu praticamente correndo do teatro universitário e quase seria atropelado por um táxi se uma mão não lhe segurasse o braço e, para isso, deixasse um saco de compras cair ao chão.

Shun, lívido, olhou para o pacote na calçada de onde vazava alguma coisa de uma garrafa quebrada; o coração ainda acelerado demais para se dar conta de qualquer coisa...

- Shun, você está bem?

O mais jovem piscou os olhos, tentando sair do estado de torpor que se encontrava.

- Hyoga... o que...?

- Shun! – seus pensamentos foram novamente interrompidos pelo grito de Jabu que correu até ele e o puxou dos braços do russo.

- Você quase foi atropelado! Você tem que tomar cuidado, parece louco! – berrava o rapaz de cabelos castanhos.

Shun ficou por um tempo preso por ele, até que acordou:

- Me solta! Não toque em mim! Não me toque, nunca mais! – gritou, saindo correndo, passando por Hyoga.

Jabu correria atrás dele, mas o russo interrompeu-lhe a passagem.

O moreno o encarou irritado.

- O que é? Quer briga? Quer sair da minha frente! – regougou.

- Eu sei o que você fez... – a voz do loiro foi fria e baixa e o rapaz engoliu em seco.

- Eu? Eu não fiz nada que ele não quisesse...

- Então como sabe do que estou falando?

Engoliu novamente e avançou.

- Acho melhor você sair da minha frente ou eu passo por cima de você! – bradou ele e Hyoga o puxou pelo braço o jogando contra o muro da faculdade e lhe dando um soco no estômago que fez Jabu dobrar o corpo e urrar de dor.

- Foi à segunda vez que você o machucou e é melhor que não haja a terceira... – a voz dele não se alterou – A partir de hoje, mantenha-se longe dele, seu covarde...

Hyoga mirou o rapaz com desprezo e depois correu atrás de Shun o encontrando ofegante, encostado numa árvore.

- Shun, você está bem?

- Não, eu não estou bem, merda! – explodiu o virginiano e se deixou escorregar até a grama – Por que esse idiota tem que ficar me perseguindo?

O russo percebeu que o rapaz estava trêmulo e quis se aproximar, mas achou melhor se conter. Precisava resistir.

Shun demorou alguns minutos até se recuperar, mas continuou sentado na grama, não queria olhar para Hyoga; não queria ceder à saudade que sentira dele todos aqueles dias.

- Shun, eu só saio daqui quando você me disser que está bem... – continuou o russo e o mais jovem ergueu os olhos para ele. Seus olhos se prenderam nas duas esmeraldas confusas do rapaz sentando na grama; era incrível como não conseguia ficar indiferente a nenhum deles.

"Shun, sua alma delicada me encanta, sua meiguice me fascina, e me faz querer afundar nessa sua áurea rósea e pura... quem sabe se a tocar, se conseguir tocar sua essência, não me torne limpo e puro como você?"

- Hyoga... senta aqui... – ele pediu e o loiro obedeceu, se sentando ao seu lado e encostando-se à árvore também.

- Agora me abrace, por favor, eu preciso tanto de você... – Shun sussurrou vencendo o próprio orgulho.

O russo não resistiu; mesmo seu invejável senso prático, lhe alertando que fazia tudo errado; estreitou o mais jovem nos braços com carinho, quando percebeu, já deslizava os dedos, delicadamente pela pele branca dos braços dele.

- Hyoga, me desculpe...

- Por que está sempre pedindo desculpas? – sorriu, se afastando um pouco, a única forma de resistir.

- Por que eu sou fraco e bobo...

- Você não é nada disso...

- Não sou? – sorriu com amargura o rapaz mais jovem – Ah, Hyoga... eu deveria esquecê-lo, eu...

- Como...? se me disser como eu também juro que o esqueço, Shun, juro... – ele deslizou os lábios pelo rosto pálido do rapaz, e antes que pudessem evitar seus lábios se tocaram delicadamente. Hyoga cravou os dedos na camisa fina do rapaz, deixando seus lábios e querendo parar aquilo o quanto antes. Não podia continuar; estava sendo fraco mais uma vez...

- Eu tenho que ir... – balbuciou Shun.

- É eu sei. Eu também tenho... Mas será o que queremos? – sua pergunta foi triste e baixa e Shun reconheceu aquela dor. Estranhamente reconheceu...

- Não, mas é o que devemos fazer...

- Você e esse senso irritante de dever... - sorriu o loiro e o mais jovem mirou-lhe os olhos tristes. Eles nunca estiveram tão tristes. E aquela tristeza singular lhe lembrava a oblíqua tristeza dos olhos escuros do seu irmão. Não entendeu porque aqueles pensamentos brotavam como água em seu ser.

- Você vai a minha apresentação? Será depois de amanhã... – fugiu de suas próprias indagações internas.

- Sim...

Shun se ergueu e o russo fez o mesmo, seus olhares se encontraram por alguns segundos, mas logo os olhos verdes se voltaram para o chão.

- Então... tchau...

- Tchau, Shun... – respondeu e o mais jovem começou a se afastar rapidamente.

O russo seguiu lentamente o seu trajeto, afinal, teria que fazer compras novamente. As imagens dos irmãos Amamiyas se misturavam em sua mente, muitas vezes eles possuíam um só corpo, um rosto misturado como numa tela cubista ou abstrata; seria bom se ele conseguisse fazer essa fusão, a fusão das cores... dois seres... uma única tela. Entretanto isso seria impossível com carne e sangue...

******************

Shun voltou pra casa, melancólico, e se lembrando que deixara o violino no teatro. Tirou os tênis e se sentou no sofá com as pernas estendidas sobre a mesinha de vidro. Fechou os olhos e soltou um suspiro profundo; "Por que insisto em querer você? por que insisto nisso?!"

Cobriu o rosto com as mãos e ficou assim por um tempo; até que se deu conta da presença do irmão.

- Ikki? Você está... você está aqui há muito tempo?

- Estava na cozinha... – respondeu o leonino sério – Aconteceu alguma coisa?

- N. não, é que... – Shun gaguejou, não sabia se deveria dizer ao irmão tudo que acontecia; não, não deveria mesmo, ao menos não o problema com Jabu.

- Shun, você vai mentir novamente? – a voz de Ikki foi calma e cansada e isso apertou o coração do mais jovem.

Ergueu-se do sofá e se aproximou do irmão que continuava parado.

- Ikki, eu não posso contar a verdade, se eu fizer isso, você... será ruim pra você...

- Sei! – Ikki riu com ironia, então era isso que ele pensava? Será ruim pra ele saber por antecedência? Sofrer por antecedência se nem sabia se passaria na audição mesmo? Seria isso que Shun pensava?

- Ikki, acredita em mim...

- Eu acredito, Shun.

- Não, esse tom de voz...

- Qual o problema com o meu tom de voz, hein? – Ikki perguntou zangado – Será que está bom pra você, somente quando eu sou o irmão super-protetor e maníaco que todos descrevem? Pra mim, chega, Shun! Chega de se o imbecil que fica perseguindo o irmão mais novo, pra mim chega disso!

- Eu nunca pedi para que se preocupasse comigo... – a voz de Shun foi um fio, não estava entendendo a raiva do irmão.

- Mas, é exatamente isso! Você nunca pede nada, não é? – riu Ikki com amargura – Eu é que estou sempre me metendo em sua vida, enchendo seu saco! Por que você permite isso, Shun? Por que não dá um basta? Eu sei que quando quer você sabe ser bem firme em suas decisões!

Ele encarou os olhos assustados e confusos do mais jovem. Odiou-se, Shun não entendia o motivo de sua fúria, talvez nem ele mesmo entendesse.

- O que você quer dizer com um basta, Ikki? Eu não estou...

- Está sim! – interrompeu – Você entende muito bem o que quero dizer, não seja cínico!

- Eu não sou cínico! – gritou Shun.

- É sim! Sabe ser cínico quando quer e tão dissimulado que eu, às vezes, não sei se você é o meu irmão!

- Para com isso! – gritou Shun, chorando – Você é que não é o meu irmão! Meu irmão nunca me diria essas coisas!

- É, talvez eu não seja mesmo! Talvez, eu tenha deixado de ser aquele idiota que achava que você era a pessoa mais pura e verdadeira do mundo! Na verdade você é tão mentiroso e traiçoeiro quanto... qualquer outra pessoa! Eu é que sou um cego!

Shun ficou atônito, o que ele queria dizer? Por que Ikki falava aquelas coisas?

- Do que você está me acusando, Ikki? Por que de uma hora pra outra eu passei a ser isso que você diz? – não conseguiu deter as lágrimas.

- Shun, me desculpe... – pediu num fio de voz.

O mais jovem tentou enxugar o rosto, mas as lágrimas teimavam em descer. Não sabia o que dizer, então somente deixou a cozinha. Seu coração estava dolorido, magoado pelas acusações do irmão.

Saiu correndo, queria alcançar a praia, olhar o mar e pensar num motivo para Ikki magoá-lo...

Ikki por sua vez, cravou as unhas nos próprios cabelos, arrependido; não sabia o que acontecia consigo, como foi capaz de dizer aquelas coisas a Shun? Como foi capaz de magoar seu irmãozinho? Sabia que aquilo não era só pela adição; estava frustrado e por isso fora tão agressivo. Shun não merecia aquilo...

Saiu correndo atrás dele.

- Shun! – chamou, mas não conseguia mais enxergá-lo, somente a confusão de carros e buzinas e o início de um engavetamento...

Seu coração falhou; alguém fora atropelado; segundos, seu coração começou a descompassar, correu entre a multidão; ele estava desacordado. Ajoelhou-se e pegou o irmão no colo, gritando para que ele falasse alguma coisa. Não ouvia nada e nem ninguém, só a respiração de Shun e seus próprios gritos.

****************

Ikki estava sentado no quarto onde Shun repousava. Sua aparência era desoladora, a cabeça estava apoiada nas mãos e ele não movia se quer um músculo que desse a certeza de que não era uma estátua.

"Deuses, como eles podem ser tão parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes..."

Hyoga fazia essa análise da porta do quarto, enquanto tentava tomar coragem para entrar. Suspirou; coragem nunca lhe faltou e tinha certeza que o moreno não lhe daria um soco naquele local e naquele momento, pelo menos não ali.

- Ikki... – ele se aproximou e percebeu o leve estremecimento que sua voz provocou no leonino que ergueu a cabeça e o olhou.

Hyoga não viu ódio em seus olhos, mas sim dor e desespero.

- Pato... – ele balbuciou e voltou a olhar o chão. O russo então se sentou ao seu lado com um suspiro. A recepção foi melhor do que pensava, porém, toda aquela tristeza o destruía, e ele deveria estar realmente desesperado para não gritar com ele; conhecia bem o quão passional podia ser Ikki Amamiya, e não era ele que estava ali, naquele momento, e sim, uma massa de dor, arrependimento e desespero.

- O que aconteceu? – perguntou, mesmo sabendo que não merecia a resposta.

- A culpa é minha... a culpa é toda minha... – disse, não sabendo exato ao que se referia.

- Não, Ikki, você sabe que não é, você sabe de quem é a culpa... – o loiro baixou a cabeça e Ikki virou-se para fitar o rosto triste dele.

- Você? sempre o dono da verdade, não é? – se interrompeu e tentou se controlar para não chorar – Eu só quero que meu irmão acorde... só isso... pouco me importa o que você sente ou por que está aqui, russo, se isso fizer o Shun feliz, aceitarei sua incômoda presença sem reclamar...

O escultor não entendeu e não quis pensar muito no significado daquelas palavras.

- Ele ficará bem... – foi só o que disse, não conseguia encarar o moreno, ao mesmo tempo era de vital importância ficar perto dele naquele momento, assim como tinha vontade de beijar mil vezes o rosto do garoto adormecido e machucado à sua frente.

- Eu sei, o médico disse que não quebrou nada e que ele ficará bem, mas sentirá dores devido à pancada que foi forte... – Ikki suspirou – Agora por favor, pare de falar comigo, eu não agüento ouvir sua voz!

Aquelas palavras doeram no loiro, mas ele sabia merecê-las; mesmo assim, ignorou o que o outro dizia e continuou:

- Mas, o importante é que...

- Você não entende, a culpa foi minha, eu... eu o magoei... – mais uma vez, Ikki apoiou a cabeça com as mãos, escondendo o rosto.

Não sabia por que estava conversando com Hyoga, não sabia por que tinha deixado-o entrar, mas sabia que precisava dele, que precisava ouvir sua voz para não desmoronar de vez. Era mentira, não estava fazendo aquilo por Shun, fazia por sim mesmo, porque necessitava dele mais do que o ar, mais do que sua razão queria.

Sentiu a mão do russo, passear pelos seus cabelos rebeldes e estremeceu, mas não teve força o suficiente para afastá-lo, apenas murmurou alto o suficiente para que ele ouvisse:

- Pare, Pato... Não pense que algo mudou porque o deixei entrar...

- Não estou pensando nada... – respondeu o russo, mas continuou com o afago – Aliás, eu nunca penso quando estou perto de você, Ikki...

O moreno respirou fundo e levantou do banco.

- Fica com ele... eu... eu preciso de um cigarro... – disse antes de sair do quarto.

Correu para o estacionamento do hospital e acendeu um cigarro com mãos trêmulas, tragando profundamente; depois olhou para ele, pensando que o irmão sempre lhe pedia para parar de fumar. Jogou-o no chão apagando-o com o sapato; colocou as mãos nos bolsos da calça preta e ficou andando de um lado para o outro; chutando algumas poças d'águas que a chuva recente deixou no chão de cimento. Não queria pensar para não enlouquecer; como foi capaz de dizer aquelas coisas a Shun? Como foi capaz de magoá-lo? Ele que prometera cuidar, proteger e amar...? nunca se perdoaria, Shun estava ferido por sua causa, e poderia perder a melhor chance de sua vida por causa de suas ações...

Sentiu vontade de gritar de desespero, dor e frustração; por que dissera aquelas coisas? Por quê?

— "Ah, irmão, queria ter sido eu... a... mas agora nada importa, o mal já foi feito e... — não conseguia ordenar os pensamentos; caiu de joelhos na poça d'água, soluçando, dando vazão as lágrimas contidas; toda a carga emocional suportada dignamente durante todo aquele tempo, desabou em seus ombros e ele mal conseguia ficar de pé.

— Ikki...

Ouviu o meigo chamado daquela voz conhecida, mas não se moveu, não tinha forças. Então a pequena mão pousou em seu ombro, carinhosamente.

— Eu vim assim que soube, como ele está?

— Minu... — ele sussurrou — Obrigado...

A moça de cabelos negros sorriu e lhe ofereceu a mão.

— Venha comigo, vamos tomar um café, sei que você está precisando...

Ikki hesitou, mas decidiu-se por fim aceitar a mão que lhe era oferecida. Enxugou o rosto, constrangido e seguiu a ex-namorada para dentro do hospital.

***************

— Ikki... — Shun murmurou e Hyoga se aproximou da cama. Sorriu ao verificar que ele abria os olhos.

O Amamiya mais jovem piscou confuso ao verificar que era o russo que estava ao seu lado.

— Onde está meu irmão? — perguntou — Hyoga, o que...

- As notícias correm depressa nessa cidade, acabei sabendo que você foi atropelado, não fica feliz em me ver? – perguntou afagando-lhe os cabelos.

- Não é isso, é que... estou sentindo uma sensação de dejavú, sabe?

Shun tentou rir, mas isso fez seu corpo doer e ele gemeu.

- Você encontrou o Ikki?

- Sim... – respondeu simples e friamente, desviando instintivamente o olhar.

O mais jovem ficou olhando para ele como se esperasse algum comentário, vendo que não teria resposta, sorriu e disse:

- Ele não é tão ruim quanto parece, Hyoga!

- Eu sei... – disse com um meio sorriso melancólico e suspirou – Ele ficará feliz por você ter acordado, estava muito preocupado...

- Deus! Deve estar se culpando! – Shun levou a mão à testa – Tivemos uma discussão antes de... tenho certeza que ele deve... ah, Hyoga, o robby do meu irmão é a culpa!

- Eu pensei que estaria zangado com ele... bem, ele me disse...

- Minha raiva do Ikki não dura cinco minutos... – riu o virginiano – Eu só não entendi porque ele estava tão bravo comigo e...

Shun se interrompeu, porque a porta se abriu e Ikki entrou acompanhado de Minu que trazia um buquê de flores amarelas nas mãos.

- Shun, você acordou! – exclamou o irmão, correndo em sua direção e o abraçando – Shun... eu... seu idiota! Por que você saiu daquela forma?!

- Ikki, quer parar de me apertar, estou sentindo dores insuportáveis... – gemeu o mais novo e o moreno resolveu se afastar.

Então o convalescente mirou friamente para a mulher parada ao seu lado.

- Oi, Shun... – ela começou sem jeito – Que bom que está melhor...

- Obrigado... – ele também respondeu friamente e ela depositou as flores num jarro ao lado da cama.

- Minu, Hyoga, vocês poderiam me deixar a sós com meu irmão, por um momento?

Ambos aceitaram a solicitação de Shun e deixaram o quarto. Os olhares de Ikki e do loiro ainda se encontraram, mas logo o leonino desviou a atenção para o irmão que o encarou fixamente.

- Por que, Ikki? Por que aquelas acusações? Seja franco, eu fiz algo de errado?

- Não... eu descontei minhas frustrações em você, Shun, sou um covarde... – ele disse e segurou a mão do irmão – Por favor, me perdoe... pensar que... que por minha causa...

Ikki não conseguiu terminar a frase. Respirou fundo se controlando ao extremo para não chorar na frente de Shun.

- O que te magoa tanto meu irmão? Diga-me, quem sabe eu não possa...

- Ninguém pode, Shun... eu... – ele se interrompeu mais uma vez.

Shun ficou o observando, sabia que Ikki era orgulhoso demais para compartilhar suas dores; não, ele jamais diria o que tanto o afligia. Poderiam ser íntimos em todas as questões, menos na dor, quando estava machucado demais, ele se trancava em sua couraça impenetrável e não permitia que ninguém o ajudasse. Já estava acostumado, porém, uma dor profunda o suficiente para fazer o irmão magoá-lo sem motivo algum, deveria no mínimo ser considerada...

- Ikki, por que você não confia em mim?

- Eu faço a mesma pergunta, por que você não confia em mim, Shun? – o moreno olhou fundo nos olhos verdes do irmão e Shun se sentiu acuado com aquele olhar. Afinal o que Ikki sabia?

- Eu confio em você mais do que em qualquer outra pessoa e...

- Eu já sei da Audição, Shun...

O rapaz empalideceu ainda mais e pareceu que a afirmação triplicou as dores no seu corpo, que não eram intensas, por causa dos medicamentos, mas que ainda existiam.

- Sabe, como?

- Na importa, o que importa é que você continua com as mentiras...

- Eu não sabia se passaria na audição...

- Shun, sabemos que isso é mentira, me responda por quê?

Shun desviou o olhar para as próprias mãos machucadas e as torceu, nervoso.

- Não sei explicar... eu... acho que queria fazer sozinho...

- Eu não entendo...

- Estava tentando sobreviver sem o seu apoio... – explicou o mais novo – Em todos os meus momentos difíceis, você esteve comigo, irmão, dessa vez, eu queria fazer sozinho, vencer sozinho pelo menos dessa vez... ah, Ikki, às vezes, me sinto tão inútil, sempre dando trabalho a você!

- Deixa de ser idiota! Quantas vezes tenho que dizer que você não me dá trabalho nenhum?!

Ikki sentou-se ao lado dele e segurou-lhe a mão com força. Tentou se acalmar, porque ao contrário acabaria desabando na frente do irmão e não queria vê-lo mais preocupado do que já estava. Sabia, e como sabia, que assim como acontecia consigo, Shun conseguia sentir-lhe a angústia e também possuía a convicção de que ele acabaria se sentindo culpado; pois não conhecia a verdade, e a verdade era que amava quem não deveria.

- Shun... me desculpe...

- Ikki, não fica assim, eu estou ótimo...

- Mas, sua apresentação é amanhã e...

- Já disse que estou ótimo e vou me apresentar amanhã...

- Shun, você está todo machucado...

- Isso tudo é superficial, você esqueceu que sou seu cavaleiro, rei Ikki! – riu o mais novo e o mais velho acabou rindo também. Shun acabara de recordá-lo de uma brincadeira de infância, infância tão sofrida; momentos como aquele, quando brincavam num mundo imaginário, eram os únicos que os órfãos tinham para fugir da dor e do abandono.

- Ah, irmão, como eu queria que fôssemos crianças agora, como naquele tempo...

- Nada mudou Ikki... – disse Shun, carinhosamente – Eu ainda continuo jurando lealdade a você. Eu te amo. Você é e sempre será o rei do meu coração...

Ikki sorriu sem jeito e puxou o irmão para um abraço.

- Odeio quando você fica sentimental! – disse escondendo o rosto para que o outro não visse sua própria emoção. Suspirou; - Eu também te amo irmão, muito, muito mesmo...


Hyoga e Minu estavam sentados no corredor de frente a porta do quarto em que Shun e Ikki estavam. Permaneciam em silêncio desde que deixaram os irmãos, mas de vez em quando o russo sentia os olhos da moça passearem por ele; estudando cada detalhe do seu corpo e rosto, chegando mesmo a se perder um pouco na tarefa de o examinar. Aquilo já estava o incomodando e por isso ele resolveu dar um basta.

- Obrigado... – o loiro se virou pra moça e sorriu depois de um tempo.

- O quê? – ela o encarou sem entender.

- Da forma que tem me olhado desde que deixamos aquele quarto, devo crer que esteja me achando muito bonito...

Minu corou e riu.

- Não, não é isso! – disse sem jeito.

- Então não sou bonito? – perguntou Hyoga com um proposital e charmoso sorriso.

- Não! – riu mais a garota, ficando ainda mais vermelha – Claro que você é bonito, mas... é que estava me perguntando... ah... é... você é namorado do Shun?

Hyoga mirou a mulher por um tempo antes de responder.

- Não, sou só um amigo...

Ele percebeu que a expressão demonstrada por ela foi de desapontamento e tentou entender por que, só achando uma resposta: Ikki...

- E você? É namorada do Ikki?

- Ex-namorada... terminamos recentemente...

- Mas, ainda gosta dele, não é?

Minu suspirou e sorriu; simpatizara com o rapaz loiro e não sabia o motivo, mas gostara de conversar com ele. Hyoga por sua vez, sabia abusar do próprio charme e arrancar de quem quer que fosse, tudo que, por ventura, quisesse saber. Embora achasse que não agia certo. Não havia por que seduzir aquela garota apenas para arrancar-lhe informações que provavelmente de nada adiantariam.

- Na verdade, gosto dele desde que me entendo por gente, bem... foi uma relação meio complicada a nossa...

E então Minu contou desde a infância ao lado dos irmãos, até a adolescência, quando Ikki a trocou por Esmeralda. Era fácil assim para ele; aprendera desde cedo o ofício da sedução e da manipulação. Sempre conseguia o que queria.

- Mesmo assim, você ainda tem esperanças de ficar com ele? – perguntou o aquariano e Minu sorriu sem jeito.

- O amor é assim, não é?

- Não, o amor não é assim... – a voz do rapaz loiro continuava calma e indiferente – O problema é que muitas vezes damos o nome de amor aos nossos caprichos...

- Não é um capricho...

- Até que ponto? Seja lógica, ele a deixou uma vez por outra pessoa, ele perdeu essa pessoa e você continuou ao seu lado incondicionalmente, e mais uma vez ele a deixou. Acha mesmo que algum dia ele vai amar você?

- Você não entende! – Minu ficou um pouco nervosa com as declarações do russo, mesmo porque, sabia que ele tinha razão.

- Talvez não, me desculpe, eu só falei o que suas próprias palavras me levaram a entender...

- A questão é o Shun!

Hyoga olhou profundamente para ela e não conseguiu esconder um pouco de ironia.

- O Shun?

- Sim, desde o começo tudo foi o Shun, a própria Esmeralda se parecia com ele, por isso seduziu o Ikki...

- O que você quer dizer? Que existe algo meio "complexo de Édipo" entre eles? – riu o russo.

- Mais ou menos, eu não entendo bem, mas todas as ações do Ikki rodam em torno do Shun, se o Shun estiver feliz ele estará feliz, se o Shun fica triste, ele desaba! Eu não compreendo o que os dois sentem!

- Amor... – respondeu o loiro com melancolia; a mocinha não tinha idéia de quanto suas palavras o machucavam. Como pode entrar e macular uma relação como aquela?

Ele se levantou da cadeira.

- Foi muito bom conversar com você, Minu, mas...

Interrompeu-se porque a porta se abriu e Ikki apareceu. O moreno olhou dele para Minu com uma expressão estranha.

- Por favor, Hyoga, fique com o Shun, eu vou procurar o médico... – disse friamente.

- Algum problema? – Hyoga também tentou demonstrar indiferença.

- Não, só preciso saber quando ele sairá daqui...

- Eu vou com você! – disse Minu levantando-se também e seguindo Ikki pelo corredor.

Hyoga ficou parado, observando os dois, antes de voltar para o quarto, para o lado de Shun.

******************

O médico terminou de examinar o rapaz e sorriu:

- Sorte, Senhor Shun, já pode ir pra casa, mas precisa repousar, não foi uma pancada tão forte, tem apenas que cuidar dessa luxação no seu ombro, para que não se agrave.

- Obrigado, doutor, eu vou me cuidar... – disse o garoto.

Shun tentava sorrir, mas a verdade era que sentia muitas dores, contudo, precisava pensar em coisas mais importantes que sua condição física.

Voltou-se para o irmão.

- Ikki, podemos ir embora?

- Sim, Shun, você só precisa se trocar.

O rapaz saiu da cama, pegou uma sacola e foi para o banheiro. Hyoga que estava calado próximo a janela se virou para Ikki.

- É minha deixa, estou indo embora...

O moreno tentou não demonstrar o vazio que aquela afirmação lhe causou; nada disse.

Shun saiu do banheiro, ainda vestindo a camiseta e com uma expressão de dor. Seus olhos estavam marejados embora ele tentasse disfarçar isso.

- Shun, o que foi, irmão?! – Ikki se acercou dele e Hyoga saiu de onde estava.

O mais jovem se sentou na cama com uma expressão que beirava o desespero.

- Eu... eu não consigo... – sua voz foi um sussurro.

Ikki puxou a camiseta preta que Shun conseguira vestir até o cotovelo.

- Não tem problema, eu volto e pego uma camisa pra você... – Ikki afagou-lhe os cabelos cacheados.

- Ikki... minha audição... – ele suspirou – Eu não consigo levantar o braço, como vou tocar...?

Hyoga sentou ao seu lado na cama e afagou-lhe o ombro.

- Shun, você não vai desistir agora, não é? – disse com carinho – Você vai conseguir. Amanhã você estará bem melhor no momento da Audição.

O mais velho dos Amamiyas se afastou deles, achou que estava sobrando ali; era estranho, não sentia ciúmes o que seria natural, sentia somente tristeza e vazio... naquele momento, nem a raiva que o impulsionou durante todo tempo, ele conseguiu sentir.

- Eu vou buscar uma camisa...

- Não precisa, Ikki... – sorriu Shun – Eu vou conseguir vestir essa...

Ele pegou a camiseta sobre a cama e começou a vestir lentamente, seu rosto ruborizou com o esforço de erguer o braço direito e suportar a dor absurda que esse movimento causava. Cerrou os olhos e puxou a camiseta com força pela cabeça, até que conseguiu vesti-la. Quase gritou, tamanha foi a dor em seu ombro, mas resistiu, tinha que resistir...

- Estou bem, viu? – disse ofegante, sem conseguir conter as lágrimas de dor que desceu por seu rosto.

Ikki assentiu com a cabeça e saiu do quarto quase correndo, parou na recepção para tomar ar, pensando que talvez isso impedisse que desabasse.

- Ikki...

Ouviu a voz de Hyoga e bufou, tentando se controlar ao máximo, mas estava sendo muito difícil.

- Por que veio atrás de mim, Pato? Vai ficar com o Shun, é ele quem precisa de você e não eu!

- Não é o que parece...

Hyoga disse e ele se virou para olhá-lo com raiva, segurou o russo pelos ombros.

- Escuta, eu sou até capaz de tolerar você, se você o fizer feliz, entende? – disse e Hyoga mirou chocado; os olhos escuros marejados, onde brilhava uma dor tão profunda que fez o loiro querer chorar também.

- Não, Ikki, eu não posso fazer ninguém feliz, me perdoe... – disse num fio de voz.

- Porra, Pato! Você tem que se esforçar! – ele falou áspero e o soltou, dando-lhe as costas – Eu estou pedindo... faça o Shun feliz...

Foi um sussurro quase inaudível as últimas palavras de Ikki e Hyoga sentiu vontade de abraçá-lo e nunca mais deixar que a dor o tocasse; mas era tarde, ele estragara tudo.

- Voltarei para o lado do Shun... – foi a única coisa que pensou em dizer, não sabendo se aquilo ajudaria ou mataria Ikki de vez; talvez, aquela não fosse sua real vontade. Talvez, sua vontade fosse fugir dali e apagar qualquer vestígio de sua passagem pela vida dos dois.

Voltou para o quarto onde Shun esperava sentado na cama, seus olhos verdes se cravaram no rosto triste do loiro com uma interrogação muda. Hyoga resignou-se, afinal fora o garoto a sua frente quem pedira para que fosse atrás do moreno.

- Hyoga, o Ikki...?

- Ele... ele está na recepção, deve estar cuidando de alguma coisa burocrática, pediu para que eu ficasse ao seu lado... – Hyoga disse e abraçou Shun para esconder o rosto onde lágrimas teimavam em descer.

******************

Ikki abriu a porta da casa, já que o braço direito do irmão estava imobilizado numa tipóia. Shun entrou, sendo seguido por ele e Hyoga que o Amamiya mais jovem, notava, estava tenso e melancólico. Olhou do irmão para ele, mas nada comentou. A tensão entre os dois era evidente, porém, Shun não conseguia pensar em outra razão que não fosse a super proteção do irmão, que via em qualquer um que se aproximasse dele uma ameaça.

- Eu não sei o que faria sem vocês dois! – sorriu Shun – Mas, agora acho que vocês devem descansar, eu já posso me cuidar sozinho...

- Nem pensar, Shun, ficarei aqui com você... – discordou Ikki.

- Ikki, não precisa...

- Shun, por favor, não discute...

O mais jovem se deu por vencido e mirou o russo, caminhando até ele com um sorriso.

- Obrigado, de verdade...

- Já disse que não precisa agradecer... – disse Hyoga sorrindo, mas se afastando de Shun, pois, percebia que a qualquer momento o rapaz esquecer-se-ia da presença do irmão e o beijaria.

Shun estranhou aquela atitude do russo, uma rejeição, mas Hyoga nunca rejeitara um beijo seu antes, aquilo só poderia ter uma razão, Ikki; o Amamiya mais jovem não sabia o quê, mas alguma coisa aconteceu entre os dois, era mais que simples antipatia ou ciúmes, era algo maior...

- Bem, eu tenho que ir agora... – disse o russo e seus olhos passaram por Ikki que estava apoiado no parapeito da janela, e depois se voltaram para Shun – Te vejo amanhã no teatro...

- Sim. – volveu o rapaz de olhos verdes, olhando o russo dentro dos olhos, seriamente, e pela primeira vez, seu olhar desconcertou Hyoga, era como se ele soubesse...

Tratou de se despedir e sair sem olhar pra trás, fugiu mais uma vez.

Depois que o russo saiu, Shun se voltou para o irmão.

- O que aconteceu entre vocês, Ikki?

O leonino empalideceu tão visivelmente que o irmão achou que ele fosse desmaiar.

- O que... do que você está falando, Shun? – ele quase gritou; era a única forma de fugir daqueles olhos verdes inquisidores. Precisava se mostrar irritado e furioso. Não, aquela não era a hora; o irmão estava machucado e... Não era a hora (fuga).

- Não tente me enganar, Ikki!

- Shun, definitivamente, eu não sei o que você quer dizer! – Desespero, dor, medo. Todos esses sentimentos eram lidos pelo irmão mais jovem.

- Sabe sim, o clima entre vocês era tão tenso que eu poderia jurar que se odeiam! O que você falou pra ele, Ikki?

- Nada... – sua voz foi um sussurro – Só que... se ele não pudesse fazê-lo feliz, que desaparecesse...

Shun respirou fundo; embora ainda não estivesse certo de que aquilo fosse verdade, as palavra do irmão aliviou um pouco o medo em seu coração.

- Ah, irmão, para com isso! Deixa o Hyoga em paz... – pediu com os olhos marejados – Nada no mundo fará com que ele me ame e não preciso do meu irmão mais velho, dando a ele a prova de que sou um inútil!

- Shun, não é nada disso...!

- É isso sim, é o que sou! Um inútil! – gritou e foi para o quarto chorar em seu travesseiro, estava cansado de tentar ser forte. Não era, não era...

Ikki achou melhor não ir atrás dele. O irmão precisava ficar sozinho e ele também. Aquela casa, naquele momento, era um labirinto de tortura... A dor era visível em todos os cômodos...

Continua...

N/A: Ah, tá, eu confesso, achei que esse atropelamento foi meio clichê, perdoem a crise de criatividade na reta final da fic (cora), mas é que não pensei em algo melhor para emendar os acontecimentos que virão a seguir. Sorry!

Vocês já perceberam que essa fic trata do (em minha opinião) o mais terrível defeito humano, nossa capacidade de julgar as pessoas e seus sentimentos, nossa arrogância em achar o nosso senso moral é sempre o correto. Espero que consiga desenvolver isso até o final.

*1 A chaconna de Bach é considerava a mais difícil composição já feita para violino devido as suas nuances e exige uma absoluta destreza do violinista.

*2 Renomado conservatório londrino, um dos melhores do mundo.

Bem, espero que estejam gostando da fic, sei que ela enveredou por um lado mais angst, mas nunca neguei minhas raízes (angstmaníaca).

Agradecimento a todos que estão acompanhando em especial:

Amaterasu Sonne, Pandora Black (você tem razão, se o Ikki contasse naquele momento o Shun desabaria, mas, isso não justifica ele ficar sem contar, não é? Ele falou do Hyoga mas olha ele repetindo o mesmo erro. A vida é assim, um dia somos pedra no outro vidraça, e é isso que quero passar nessa fic. XD!). Amamiya fã (Puxa, se o Ikki pisa na cabeça do Hyoga, o russo morria e acabava fic kkkkk, calma! A hora do Jabu vai chegar hehehehe...).

Kate-chan, PATRICIA RODRIGUES e todos do FF. Net

Vagabond, Shunzinhaah2, Mefram_Maru, Arcueid, Temari_Nara, shermie e toda a galera do Nyah!

Obrigada a todos vocês que continuam incentivando essa autora psicótica.

Abraços mil!

Sion Neblina