Scorpius não foi preso. Percebi que sua estadia na prisão de segurança máxima da AUROR era um teste, quando encontrei os agentes mais importantes da AUROR, desde Minerva até o General Shacklebolt, em uma escura sala repleta de monitores que vigiavam todos os cantos da cela em que Scorpius estava preso. Eu havia sido chamada por Minerva, por isso entrei.

– General, quero que conheça a agente Rose Weasley – disse Minerva ao homem grande vestido com o uniforme preto. O tecido era revestido de insígnias. – Responsável pela operação na Ucrânia semana passada. Trouxe Scorpius Malfoy com o peito furado, mas vivo.

Eu fiz uma postura imediata, intimidada pela presença marcante do homem mais importante da AUROR. Fiz a reverência que devemos fazer a nossos superiores, mas o General estendeu a mão para que eu apertasse.

– Senhor, é um prazer – eu disse, tentando ser o mais profissional possível.

– O prazer é meu, agente Weasley. Salvou o mundo e nem chegou aos trinta. Você me lembra seus pais.

Ele sorriu, todo tranquilo, e eu fiz um riso nervoso em resposta, olhando de esguelha para Minerva. Todo mundo tinha a visão de que o General era um cara assustador, mas ao vivo não chegava a ser tão ruim assim. Minerva assustava mais.

– Por quanto tempo Malfoy ficará preso, senhor?

– Isso dependerá dele, agente – respondeu misteriosamente olhando para um dos monitores. Pela imagem, era possível ver Scorpius deitado na cama da cela enquanto lia um livro. Um guarda estava cobrindo a cela, sem deixar de observar Scorpius. Ele, por outro lado, não parecia incomodado com nada.

Quando tirou o livro da frente de seu rosto, percebi que dois fios elétricos estavam plantados em suas têmporas.

– O que estão fazendo com ele? – perguntei.

– Estudando-o – disse o doutor Slughorn, especialista em neurociência. Ele parecia bastante animado. – Malfoy está passando por um teste, só não sabe. É como se observássemos dentro do cérebro dele, enquanto ele se concentra em escapar da cela. Nesse processo, analisaremos todos os pontos de sua mente, entenderemos como ela funciona.

Observei outro monitor. Frequencias, números, cores diferentes, gráficos e picos. Eu não compreendia nada, mas parecia ser de bastante importância para o médico. Olhei depois para a tela que mostrava Scorpius, agora sentado na cama brincando com um parafuso entre os dedos.

– Ele não parece estar se esforçando para escapar – eu notei.

– Ele só está esperando – disse Slughorn. – Daqui dois minutos, o guarda precisará ir ao banheiro, e isso dará a Malfoy um minuto para agir sem ser visto.

– Um minuto? – impressionou-se Minerva. Cruzou os braços, descrente. – Essa cela é protegida por cinco códigos de segurança máxima. Ele não vai abrir essa cela em um minuto, é impossível.

– Ele não vai tentar abrir a porta pelo dispositivo de segurança – informou Slughorn. – É impossível alcançá-lo na parede oposta a de sua cela. Pelo que observei na forma como esteve andando muito próximo a câmera de segurança, ele está pensando em fazer alguma coisa com ela.

– E como ele pensa que vai conseguir escalar a parede para alcançar a câmera?

– É aí que a mente dele vai funcionar. Ele dará um jeito.

O guarda foi ao banheiro. Nesse instante, Scorpius se apressou a tirar o colchão da cama. O suporte de ferro embaixo era leve o suficiente para Scorpius levantá-lo e levá-lo contra a parede perto da câmera de segurança. Conseguiu fazê-la de escada para alcançar a câmera e jogar o lençol nela, tampando nossa visão.

Mas havia mais três câmeras escondidas ao redor da cela, portanto conseguimos observar o que ele estava fazendo. Scorpius estava, com aquele parafuso, tirando a câmera do teto.

Quando ouviu o barulho do guarda se aproximando, Scorpius se afastou depressa, jogando a câmera embaixo da cama.

Algum problema, Malfoy? – o guarda perguntou, observando a bagunça da cama.

Sou um pouco claustrofóbico. Perco o controle para canalizar o medo.

– Observem – disse Slughorn para os homens que assistiam aquilo. – Malfoy se mantém calmo, estável, o batimento cardíaco normal pela adrenalina, mas ele consegue manter a cabeça fria para pensar rapidamente em uma boa mentira.

– O senhor parece admirado – comentou Minerva. – Saiba que ele roubou nossos arquivos.

– Sim – disse Slughorn, ajeitando os óculos no rosto. – Mas com todo o respeito... foi genial. Hã, ok, vamos ver como está o gráfico.

Tá esperando o quê, playboy? Arrume essa bagunça.

Scorpius arrumou. Pela maior parte do tempo, enquanto esperava o guarda se afastar, Scorpius passou a tentar manter conversa com ele, explicando o funcionamento de uma pistola. Falou de um truque que seria capaz de travar a arma caso caísse no chão e, se o inimigo tentasse pegá-la, não conseguiria atirar com ela.

O guarda ficou curioso com isso e testou o truque. Tinha dado certo. Tentou não admitir, mas falou: "Interessante, Malfoy."

– Ele é fácil de gostar – disse o General. – Bonitão, simpático, inteligente. Por que ainda não o temos no nosso programa?

– Tenho certeza que mais pessoas concordam com o senhor, General – disse, virando os olhos para mim sugestivamente. Eu fingi que não reparei nisso.

– Ele está manipulando – informou Slughorn mais uma vez. – Fazendo contato com o guarda, para conseguir um elo e, então... vejam.

Eu posso tomar água, suponho, se pretendem me manter aqui por algum tempo.

Minerva observou o guarda entregar um copo que estava em cima da mesa dele, para as mãos de Scorpius através dos vãos da cela. Ele tomou um gole, mas sem querer deixou cair. O vidro espalhou pelo chão.

Limpa isso – mandou o guarda. – Se eu te ver com um caco de vidro na mão, você ta ferrado. E vai ficar sem água.

Pode deixar, foi mal.

Scorpius limpou todos os cacos. Não tinha derrubado o copo sem querer, afinal de contas. Através da câmera de vigilância, Slughorn apontou para a mão de Scorpius. Ele tinha guardado, discretamente, um afiado caco de vidro.

– Ele pretende machucar o guarda – disse Minerva. – É melhor avisarmos-

– Não, senhora, com todo o respeito, o teste deve ser feito sem nossa interferência. O guarda não reparou, sorte de Scorpius.

Scorpius não usou o caco de vidro para machucar ninguém. Por um bom tempo, atrás do livro, sem o guarda notar, Scorpius ficou desfiando os pequenos fios elétricos da câmera de segurança que ele havia arrancado da parede com um simples parafuso.

– O que ele está tentando fazer?

– Se eu não me engano, ele está tentando fazer... fogo. – Slughorn fez uma expressão admirada, enquanto os outros só pareciam confusos. – Se ele conseguir criar uma pequena explosão elétrica ele pode queimar o colchão. O alarme de incêndio vai soar e o guarda será obrigado a abrir a cela para apagar o fogo.

Dois minutos depois, Slughorn mostrou que estava certo. Scorpius sempre foi muito bom com explosõezinhas. O alarme de incêndio soou na prisão e o guarda entrou com um pequeno extintor quando as chamas começaram a se alastrar pelo colchão. Não era letal, mas era o suficiente para que fosse obrigado a obedecer aos direitos humanos e entrar na cela. Scorpius aproveitou a distração do guarda, quando as chamas estavam se apagando, tirou os fios elétricos de suas têmporas e encostou a ponta dos fios na pele do pescoço do guarda, para fazê-lo levar um choque e desmaiar. Provavelmente, preocupado que as chamas queimassem o guarda, Scorpius fez o favor de terminar de apagá-la antes de finalmente escapar.

Slughorn olhou desesperado para o monitor dos gráficos que se apagaram imediatamente no momento em que Scorpius usou os fios da cabeça para apagar o guarda. Scorpius saiu da cela, digitou alguns números do dispositivo de segurança ao lado e trancou o guarda lá dentro. Não foi muito longe, porém. Cinco guardas entraram no corredor e o capturaram. Ele podia ser inteligente e engenhoso, mas obviamente não lutava kung-fu.

Minerva estava com os braços cruzados o tempo todo durante essa brilhante fuga de Scorpius, quando apertou o escuta do ouvido e disse a um dos guardas:

– Traga-o para o meu escritório.

E saiu, com a expressão indecifrável. O General estava ainda olhando para a tela, curioso.

– Sabia que somente uma pessoa passou nesse teste fazendo a mesma coisa que ele fez? – contou para mim. Antes de ir embora, revelou: – É o que dizem, agente Weasley. Tal mãe, tal filho.

Se passaram um mês desde o teste de Scorpius. Eu não o vi desde então. Quero dizer, pelo menos não pessoalmente. Na televisão, ele estava aparecendo em entrevistas, como se nada de terrível tivesse acontecido com ele. Explicou em conferências que seu sumiço se deu a um experimento que ele desejava fazer desde a morte de seu avô. Anunciou que a cidade fantasma da Ucrânia podia ser habitada por pessoas sem que riscos de radiação ocorressem. Ele ofereceu doações de milhões de libras para reparar as casas de famílias vítimas dos ataques aéreos da Irlanda, na Bulgária, como um verdadeiro filantropo. Ele estava sendo adorado. Eu podia até imaginar as mulheres em cima dele.

Anunciou, também, um novo presidente para a sua empresa, depois de provar que a empresa Zabini era corrupta – com uma ajudinha dos arquivos da AUROR que havia copiado. Os jornais estavam infestados de fotos de Scorpius Malfoy ao lado de sua mãe, Astoria, sua nova presidente nas Indústrias Malfoy. Ah, claro, e uma moça completamente aleatória para o serviço de secretária.

Eu estava tentando arrancar uma bala do meu braço, sozinha no meu apartamento alugado depois de completar uma missão secreta na Islândia, quando liguei a televisão e vi Astoria ao lado do filho nos noticiários.

E eu conhecia aquele olhar de alerta e disfarce, que ela tinha estancado discretamente no rosto.

Lembrei do que Minerva havia me falado: "Encontrarei outro agente para protegê-lo". De algum modo, aquilo me deixou aliviada. Saber que Astoria era a responsável por protegê-lo me dava mais confiança de que Scorpius não levaria um tiro ou seria sequestrado. Aparentemente, sua mãe havia sido uma das melhores agentes de sua época e tinha a total confiança do General. O suficiente para que ela voltasse ao programa, mesmo por ter falhado uma vez. Mas isso, pelo visto, agora era passado.

Consegui tirar a bala do braço, fazendo uma careta e me lembrando de todas as instruções do meu pai sobre situações médicas como essa. Bebi mais um pouco da cachaça horrorosa porque, naquelas circunstâncias, eu não podia ir ao médico para ser anestesiada. Tremendo, eu não sabia o que fazer. Eu não queria costurar minha pele sem ter idéia de como fazer... Mas meu celular estava ligado e então falei, ofegante:

– Boa noite, Winky.

Boa noite, agente Weasley. Faz tempo que não mantém contato, muito ocupada?

– Um pouco. O de sempre. Escute... eu estou com um probleminha aqui... Eu preciso costurar minha pele, sozinha. Como eu faço isso, sabe, sem morrer de dor? Não posso mais beber ou vou acabar desmaiando...

Ela começou a explicar todo o procedimento médico. Teve um momento em que eu achei que ia ficar cega, pela própria tortura de fazer aquilo, mas Winky foi prestativa e disse exatamente o que eu tinha que fazer. Eu estava quase caindo desmaiada no sofá, pela bebida alcoólica e pela dor, quando terminei de dar os pontos.

Mas a dor foi pior na manhã seguinte, quando o efeito da bebida desapareceu. Além da dor de cabeça, da ressaca, do meu braço recém costurado pela minha mão esquerda – frisando que eu era destra –, eu estava exausta assim que acordei caída no sofá.

– Que saudades de ser só secretária – murmurei para mim mesma.

De repente minha televisão se ligou sozinha. Minerva estava atrás de sua mesa, quando disse:

– Bom dia, agente Weasley. Recebi sua mensagem, Dominique e Albus estarão esperando você no aeroporto. Esteja pronta em uma hora. A propósito, bom trabalho, o dinheiro voltou a salvo para a conta do Primeiro-Ministro. Isso é cachaça?

– É – eu disse, suspirando, e apontei para o meu braço direito, para explicar a situação.

– Agente Weasley, é a primeira vez que leva um tiro desde que a coloquei em campo.

– Não deu para evitar dessa vez.

– Isso se chama distração.

– Isso se chama óculos de visão noturna quebrado. Eu não vi o cara.

Ela me encarou através da televisão até diminuir a expressão reprovadora.

– Queremos você inteira para a próxima missão.

– Sim, senhora. Minerva... Eu estava vendo uma notícia de Malfoy...

– Não. Sei o que vai perguntar e a resposta é não. Não falarei sobre o que conversei com Malfoy naquele dia em que fez o teste da prisão. É confidencial.

– Mas...

Ela desligou a tela, não me dando a chance de perguntar. Era tão estranho, sentir que eles estavam guardando segredos, Minerva e Scorpius. Durante quase toda a minha carreira, Minerva nunca me deixou fora de alguma coisa. Eu quem estive guardando segredo de Scorpius, para que ele nunca descobrisse minha identidade. Agora ele estava fazendo turnês pelo mundo, mostrando seus novos projetos de armas, como se não tivesse passado por um período intenso de mentiras, revelações e mortes, como se ele não tivesse sido traído por metade de sua companhia, como se ele não estivesse sendo o alvo dos Lestrange.

Tentei perguntar o que estava acontecendo para Winky, mas só o que ela me falou fez com que eu não tentasse mais procurar por alguma resposta a minha curiosidade:

Não posso revelar nada, agente, ordens dele.

Scorpius não estava me procurando, não estava nem dando sinal de que precisava de mim. Eu me senti esquisita, como se o tempo todo eu precisasse ter certeza de que Scorpius ficaria bem sem minha ajuda.

Ele nunca me obrigou a protegê-lo e talvez isso me ajudasse a querer ainda mais protegê-lo. Podia não se importar, mas ele era definitivamente dependente da minha ajuda. Por oito anos, você se acostuma. E eu também percebi naquele momento que eu estava acostumada o suficiente para, sim, admitir que eu sentia a falta dele. Muito. Dolorosamente.

Sei que receber tantas informações ao mesmo tempo deixa a cabeça confusa e também com raiva. Menti a ele por anos. Eu não o culpava, mas eu tinha certeza que ele sentia minha falta também.

Talvez ele estivesse fazendo um acordo com Minerva. Talvez por isso Minerva estivesse guardando essa confidencialidade de mim. Ela fez Scorpius prometer alguma coisa por alguma coisa...

Então naquelas últimas semanas de planos e missões aleatórias, Winky era a única coisa de Scorpius que eu tinha por perto.

Dominique e Albus me esperavam fora do avião da AUROR.

– Então? – perguntei. Os dois sorriam. – Qual a próxima missão?

Mais duas pessoas saíram do avião quando fiz aquela pergunta. Yan Krum e Lily Potter.

Franzi a testa.

– A equipe aumentou – comentei.

– Agente Weasley, não é bom revê-la – disse Krum, sério como sempre, aproximando-se para apertar minha mão. – Isso significa que não vai ser uma missão fácil.

– Deixe-me adivinhar – falei. – Lestrange.

– Especificamente a filha – disse Dominique. Olhei para ela, tendo certeza de que não ia gostar das novidades.

– Ela desapareceu da prisão da AUROR ontem à noite – contou Lily. – Alguém a ajudou, então fomos traídos.

– E precisamos encontrá-la o mais rápido possível, junto com o traidor – acrescentou Albus. – É melhor entrarmos para discutirmos o detalhe das missões agora. Entraremos em contato com Minerva assim que estivermos sobrevoando a cidade.

– Então por que estamos perdendo tempo? – Dei um passo em direção ao avião, mas começamos a ouvir um barulho.

Música. Alta. Rock. Estava se aproximando do terreno privado da AUROR, perto de nosso avião, pela estrada.

– Minerva disse que teremos um novo membro na equipe – disse Al. – Tomara que seja gostosa.

– Tomara que seja gostoso – retrucou Dominique.

– Tomara que seja inteligente – disse Lily.

Nós olhamos para o veículo preto ficando cada vez mais visível. A música não me era estranha. De fato, eu escutei aquela música durante oito anos, todas as manhãs de sábados.

Lentamente, para ter certeza de que era isso mesmo o que estávamos vendo, tirei meus óculos escuros.

Quando chegou mais perto, eu reconheci a música. E o carro.

Leve-me para a cidade do paraíso, onde as gramas são verdes e as garotas lindas¹. Era o refrão da música que anunciava a chegada nada discreta de Scorpius Malfoy.

– Sem chance! – exclamou Lily e não tive certeza se ela estava brava ou animada. – Oh, meu Deus. Eu não acredito que é ele.

– Rose, você sabia disso? – cochichou Dominique.

Não deu para responder que eu estava mais confusa do que eles. Aquela Mercedes estacionou um pouco longe. Scorpius abriu a porta e saiu do carro. Era ele mesmo, depois de semanas sem vê-lo. No terceiro passo, fechou com um clique na chave que, reparei, ainda tinha o chaveiro do R2D2 que lhe dei de aniversário. Em uma caminhada quase cinematográfica, começou a se aproximar cada vez mais. Estava usando óculos escuros, o que sempre o deixou charmoso, mas aquele traje a rigor, com a gravata borboleta no colarinho, fez com que eu fosse a primeira a dizer:

– Chegou atrasado, os testes para 007 acabaram. O que está fazendo aqui?

– Olá para você também, Weasley. Eu estava em uma festa quando a chefe de vocês ligou para mim. Não me deu detalhes, apenas o horário e o endereço.

– Espere – disse Albus. – Você é o novo membro da equipe?

– Bem-vindo – Dominique se apressou a apertar a mão dele. – Estamos nos preparando para conhecermos detalhes da nossa missão. Rose ficaria encantada em mostrar o avião para você. Não é, Rose?

Missão? Scorpius foi chamado para participar de uma missão?

– O que aconteceu? – eu perguntei em uma voz estranha.

– Eu não sei, foi uma ligação – ele disse e pareceu sincero. – Eu sabia que deveria me encontrar com alguns membros da AUROR em algum momento. Eu não sabia que um deles seria você. Não que eu esteja reclamando. Você está ótima.

– Eu estou de ressaca e passei a noite costurando meu braço depois de levar um tiro. Não seja sarcástico a essa hora.

– Essa é Rose Weasley – apresentou Lily quase bufando. – Ela não sabe agradecer quando um cara está elogiando ela. Meu nome é Lily Potter e, com todo o respeito, admiro muito seu trabalho.

Scorpius sorriu para ela ao apertar sua mão.

– Qual deles? – perguntou curioso.

– O projeto 3.8 que apresentou a Universidade de Oxford no ano passado. Aquela foi uma excelente palestra. Eu também já li todos os seus ensaios para a ArquiX. É inspirador.

– Obrigado – ele disse, ainda sorrindo. Ele devia sorrir menos, ou pelo menos não ficar mostrando os dentes perfeitos. – Garotas nerd são as melhores fãs.

– É melhor nos acomodarmos – interrompeu Yan Krum. – Minerva está esperando comunicação. Vamos logo.

– Não fique muito animado com Lily – eu avisei a Scorpius, quando entramos no avião. – Ela realmente entende o que você faz e isso não é porque ela te quer.

– Isso é o seu ciúmes? – quis saber.

– Não. Lily tem uma namorada, então... só avisando para entender porque vai levar um fora.

Scorpius tirou os óculos escuros do rosto. Aproximou-se para deixar claro:

– Eu não estou aqui para passar o tempo. Eu estou aqui, profissionalmente. Você entende isso. – Mas não se conteve e cochichou: – Você falou "namorada"? Hum.

– O que você está fazendo aqui?

– Sou um recurso. Para ajudá-los na missão.

– Minerva não me contou isso. – Acrescentei com a voz baixa: – Você não me contou.

– Era confidencial. Eu não podia entrar em contato com você ou com mais ninguém da AUROR por um determinado tempo. Minerva disse que precisaria de mim em algum momento. Acho que esse é o momento. – Ele cruzou o braço ao reparar no meu silêncio. – Pensei que ia ficar feliz em me ver.

– Eu estou – falei depressa demais. Eu era acostumada e treinada para esconder minhas expressões, o que isso tornava a comunicação difícil. – É só confuso. Um mês atrás você estava sendo preso por roubar os arquivos da AUROR e agora...

– E agora eles querem minha ajuda. Acho que os impressionei – sorriu e passou por mim para observar o avião, que estava automaticamente começando a decolar. Era um espaçoso veículo aéreo, com sofás, mesas e até mesmo dormitórios com nossas roupas dentro do armário. Algo me dizia que íamos passar bastante tempo dentro daquele avião. Um grande monitor estava na parede e, sem aviso, ligou.

Minerva estava na imagem da tela.

– Agentes – chamou. – Como podem ver, temos um novo membro da equipe. Scorpius Malfoy será um grande recurso para a próxima missão.

– Como exatamente? – perguntou Dominique. – Sem querer ser chata, eu demorei anos para conseguir entrar em uma missão. Ele nem mesmo é da AUROR.

– Não – concordou Scorpius, sentado muito acomodado no sofá enquanto movia os dedos pelo celular. Espiei e girei os olhos quando vi que estava jogando Temple Run. – Sou um voluntário. Com talento extremamente brilhante e útil.

Ninguém quis discutir, mas observei Albus fazendo uma discreta careta facilmente traduzida para "arrogante do caralho".

– Bella Lestrange foi retirada da prisão por um de nossos agentes – continuou Minerva.

Deixei escapar um palavrão quando a foto da identidade de Jacob McLaggen apareceu na tela. Dominique assoviou baixinho.

– Ele é o traidor? – perguntou Al. Dominique não precisou cochichar ou dizer nada, nós sabíamos nos comunicar por olhares. Foi mal, Rose, fiz você transar com ele.

– Acreditamos que o agente McLaggen é um agente duplo que trabalha para os Lestrange. Por sorte, implantamos chips de rastreamento em todos os agentes de combate da AUROR. Sabemos onde estão. Os dois fugiram para Dubai e uma câmera de vigilância em uma rua da cidade mostrou uma curiosa atividade do agente McLaggen as três e vinte e uma dessa madrugada.

Um vídeo gravado por uma das câmeras de segurança da rua de Dubai mostrava um senhor ultrapassando a rua vazia e escura com uma maleta na mão direita. McLaggen o pegou de surpresa com um tiro no peito, usando um silenciador. Em seguida, aproximou-se do corpo caído, roubou a maleta e fugiu em um carro que era dirigido por Bella.

– O que tem dentro da maleta? – perguntei.

– Não sabemos. Mas sabemos que interessa a Lestrange, por isso também nos interessa.

– E quem é o homem que ele matou?

– O motivo de Malfoy estar aqui.

– Legal – disse Lily empolgada. – Você vai se infiltrar nos dados da CIA, coisas que gênios fazem, para descobrir a identidade do homem. Legal. Posso assistir?

– Na verdade, não vai ser necessário – ele disse. – Eu o conheço. Foi meu professor. O nome dele é Rolf Scamander. Um homem brilhante. Louco, mas brilhante.

– Hum – Lily voltou a olhar para a tela, sem esconder a decepção.

– A missão de vocês é recuperar a mala de Rolf Scamander. Segundo o agente duplo de Krum, McLaggen deverá entregar essa mala nas mãos de algum empresário durante a convenção de armas militares em Dubai esta noite. E Malfoy, como sua presença é a atração principal desse evento, terá a missão de descobrir quem é esse empresário. Rose, Dominique e Krum estarão por perto para interceptar a entrega do pacote. E Albus para prender o agente McLaggen no processo.

– Espera, espera – eu disse depressa. – Minerva, Scorpius não pode participar disso. É perigoso.

– Ele é nossa única chance. Lestrange está interessado em outra coisa, agente Weasley, e nós vamos descobrir o que é.

– Está tudo bem, Rose – disse Scorpius. – Eu quero fazer isso. Eu quero ajudar. Em troca de não voltar a prisão, quero dizer.

– Sr. Malfoy, como agora está trabalhando em parceria com meus agentes, peço que os chamem como tal.

– Ok – ele disse lentamente, estranhando por levar uma bronca. Nos entreolhamos. – Minhas desculpas, agente Weasley.

Isso foi estranho. Nós olhávamos para lados opostos, quando Minerva falou:

– Nos dão licença, quero conversar a sós com a agente Weasley.

– Qual Weasley?

– Rose. Dominique, mostre a Malfoy onde ele deverá dormir. O restante de vocês, descansem. Já estão a caminho de Dubai.

Eles fizeram o que Minerva ordenou. Eu continuei parada em pé a frente do monitor da televisão. Comecei a dizer que não achava uma boa idéia colocar Scorpius em campo, sem treinamento, sem experiência, quando Minerva me interrompeu como se não tivesse escutado nada do que eu disse:

– Eu quero ter certeza de que seus sentimentos por Scorpius Malfoy não continuará afetando seu trabalho, agente Weasley.

– Meus sentimentos?

– Caso contrário, eu posso retirá-la dessa missão.

– Meus sentimentos são irrelevantes aqui. Eu passei oito anos protegendo-o e então espera que eu pare de me preocupar com ele?

– Eu não pedi para que se preocupasse com ele em nenhum momento da sua missão de protegê-lo. Isso foi por sua conta. Então, agente, deixará seus sentimentos atrapalharem seu trabalho? Não queremos perdê-la por estar distraída.

Senti a pontada de dor em meu braço ferido pela bala de minha última missão.

– Meus sentimentos por Scorpius Malfoy são estritamente profissionais – eu disse, sentindo-me dura como uma pedra. – E não afetam meu desempenho como agente da AUROR.

– Ótimo. Acredito em você. A partir de hoje, você e ele trabalham juntos. E sabe o que penso sobre colegas terem relações sexuais. Eu assumo que, pelo seu profissionalismo, isso não chegou a acontecer, pelo menos.

– Não, senhora – eu disse, pela primeira vez mentindo a Minerva McGonagall. Que crime eu acabei de cometer ali? – Como eu disse, nosso relacionamento é estritamente profissional.


Minhas costas nuas e molhadas foram empurradas contra a parede do banheiro, a água do chuveiro jorrando contra os músculos das costas de Scorpius e descendo suavemente até minhas pernas enroladas em seu quadril. Suas estocadas estavam firmes e sua boca pousada na minha o tempo todo, inspirando o mesmo ar que o meu. Não lembro como chegamos até ali, mas acho que foi alguns minutos depois da conversa que tive com Minerva.

Só não acreditei que estávamos fazendo sexo verticalmente dentro de um boxe no avião que nos levava a uma missão importante, como dois adolescentes completamente imaturos que não controlavam seus impulsos. Eu deveria tê-lo expulsado de meu banheiro, e não o beijado, quando ele me surpreendeu com sua presença enquanto eu tomava banho.

Arranhava seus ombros a cada centímetro que ele deslizava seu sexo dentro do meu, rápido e forte. Em um momento, minha voz deu lugar aos gemidos dentro daquele minúsculo lugar do avião, o único onde não havia câmeras e ninguém podia descobrir o que estávamos fazendo.

– Somos estritamente profissionais, certo? – puxei seu cabelo loiro e molhado. O vapor dificultava a visão nítida, mas isso fazia a sensação da pele dele ficar ainda mais quente contra a minha.

Ele mordiscou meu lábio inferior e me torturou deliciosamente ao afastar a boca para o meu pescoço, enquanto apertava meus seios com vontade.

– Claro. – Mas sorriu, contrariando, antes de me virar de costas e meter em mim como se o avião fosse cair a qualquer momento. A princípio, mordi minha própria boca para não gemer, mas depois acabei não me importando. Com nada. Naquele momento, só importava as mãos dele na minha cintura e seu peito roçando contra minhas costas enquanto o quadril movia-se em um vai-e-vem delicioso. Eu podia escutar nossas peles se chocando, o som misturado com a água. Só importava o sexo, a velocidade, a satisfação de fazermos isso mais uma vez, sem cerimônia, sem conversas, só o ato. Escondidos, proibidos. Estritamente profissionais.

As estatísticas apontam que duas pessoas que passam por experiências traumáticas como levar um tiro ou se expor a radiação fatal para salvar o outro, eventualmente irão se apaixonar. E, sinceramente, nesse caso, não há exceções.