Recados da autora: Eu sei que já está ficando chato agradecer no início de cada capítulo, mas eu tenho recebido tantos comentários que fica até chato não agradecer, então, novamente obrigado a todos e um obrigado especial para as pessoas que me favoritaram ou favoritaram a minha estória. E para aqueles que pediram, eu estou expandindo a participação do Mime. Beijos para todos!
Capítulo X
Shun mal pôde colocar alguma ordem em seus pensamentos antes que Hyoga se virasse bruscamente e voltasse para o salão, quase fugindo dele. Por um momento o japonês ficou sem ação. Ele não sabia se deveria ir atrás dele, ou simplesmente arranjar algum lugar para se esconder até o dia seguinte.
Ouviu a voz de Dimitri chamá-lo, mas não prestou atenção. Não queria olhar para aquele homem de novo. Sem nem sequer saber direito o que fazia, entrou novamente no salão e procurou o único que poderia ajuda-lo: Hagen. Encontrou o guerreiro de Merak num canto conversando com Mime e se aproximou, sem se importar com sua própria aparência alterada.
-Hagen, posso falar com você?
Hagen voltou-se para ele, sem entender o por quê do nervosismo do cavaleiro de Andrômeda. Mime apenas olhou na direção de Shun e depois de analisá-lo de cima a baixo pôs uma mão no ombro de Hagen e lhe disse num tom grave e baixo:
-Hagen, é melhor você ir conversar com o Shun...Podem usar o meu quarto, ninguém vai incomodá-los lá...Se alguém perguntar por vocês eu inventou uma desculpa...
-Mime...
-Vai logo, parece sério...
Shun agradeceu ao ruivo com os olhos, dando graças aos céus por ele ter lhe poupado de ter que contar o que acontecera ali no meio do salão. Hagen, ainda confuso e agora muito preocupado, apenas conduziu Shun ao segundo andar, tomando o cuidado de usar uma escada lateral para não chamar a atenção.
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Hyoga passou direto por todos os convidados. Se alguém tivesse tentado pará-lo ou conversar com ele provavelmente seria atropelado. O loiro não conseguia ver nem ouvir nada do que acontecia ao seu redor... Só conseguia se concentrar na cena que vira no jardim.
Tinha visto aquele homem bebendo e conversando com Shun e se preocupara um pouco, mas Shun era sensato e não daria trela para qualquer tipo. Quando viu o amigo sair apressado com aquele homem em seu encalço, teve certeza de que Shun estava em algum apuro. Pedira licença a Flair e Hilda e correra para o jardim, a fim de ver se tudo estava bem...
Mas não estava preparado para o que encontrara... O tempo todo se preocupando com Hagen, e Shun estava com um segundo sujeito, nos jardins, bêbado...Sacudiu a cabeça com força, ainda sem acreditar...Não, Shun não podia fazer isso...Shun era inocente, tímido...Shun era uma criança...
Subitamente as palavras de Hagen voltaram à sua mente...Shun não era nenhuma criança. Ele faria dezoito anos logo, tinha vivido mais que muitos com o dobro de sua idade, era inteligente, bonito..
Para falar a verdade, por mais que tentasse ignorar, Shun estava crescido. Lógico que o comportamento gentil e reservado do japonês servira de desculpas para tratá-lo com condescendência por muito tempo, mas por mais que Hyoga se esforçasse não podia se fingir de cego. Shun não era mais um menino. Hyoga tentara com todas as suas forças, pela amizade de Shun, por respeito a Ikki, por culpa cristã, ignorar o fato de que, já fazia algum tempo, se via achando Shun atraente.
Tentou racionalizar. Shun parecia uma garota. Não qualquer garota, uma garota bonita, do tipo que pára o trânsito. Era doce, gentil, elegante. Fosse uma mulher, Shun já teria recebido propostas de casamento de todos os homens importantes do Japão. Se quisesse, poderia estar trabalhando na Europa como modelo, já recebera diversos convites de olheiros de agências interessados justamente em seu aspecto andrógeno e exótico. Um menino japonês de olhos verdes bonito como uma menina valia seu peso em ouro no mundo "esquisito" da moda. É claro que Hyoga se sentiria atraído. Nunca pensou que isso significava alguma coisa. Shun parecia com as meninas que geralmente lhe interessavam, delicadas, elegantes, etéreas, achá-lo bonito não significava nada.
Mas apesar de conseguir ignorar por muito tempo, não pôde se convencer de que só achava Shun bonito. Não quando se pegava observando seus movimentos durante os treinos, olhando para certos detalhes de sua anatomia que ordinariamente só lhe chamavam a atenção em mulheres, imaginando a firmeza da carne que se escondia sob a pele fina e pálida, admirando o tom de verde água de seus olhos em cada variação de luz... Assim que se deu conta desses sentimentos, acreditou, se forçou a acreditar, que se tratava de luxúria, nada mais.
Hyoga era um homem que se deixava levar por mulheres bonitas. Com um pouco mais de dezoito anos, já poderia se considerar experiente, sua fama de Don Juan estava assentada em fatos. Não podia mentir para si mesmo, gostava de se divertir com garotas bonitas. Nunca abusara de ninguém, Eiri durante algum tempo e Flair agora, contaram com sua absoluta fidelidade. Quando estava com alguém, estava completamente. Mas quando estava livre, o russo jamais tivera nenhum pudor em procurar companhias femininas, e mesmo quando namorando, nunca deixara passar uma mulher bonita sem pelo menos um flerte.
De vez em quando se perguntava por que Flair não conseguia despertar nele o mesmo tipo de desejo. Ele desejava Flair, não tinha dúvida disso, mas comparado com o tipo de sensação que Shun lhe despertava, seu desejo por Flair parecia uma mera brincadeira de criança, um namoro de escola: apaixonado, cheio de desejo, carinho, sonhos e ilusões cor de rosa. Mas com Shun...ele sentia algo que quase doía...algo tão forte que chegava a ter vergonha...O que sentia por Flair parecia seguro e correto, o que Shun lhe fazia sentir era algo cheio de confusão e culpa.
Logicamente, pensava ele, pensar em Shun daquela maneira era apenas sua libido se manifestando de forma um pouco equivocada. Empurrara o assunto para algum lugar escondido em seu cérebro, fazendo força para ignorar todas as vezes que a visão de Shun num short, ou um toque descuidado do companheiro voltavam a despertar aquelas sensações. Amor...amor só sentia por Flair. Com ela conseguia imaginar um futuro, um casamento, filhos...Como manda a etiqueta. Shun era seu melhor amigo, seu irmão, alguém por quem tinha carinho, alguém por quem não podia nutrir pensamentos desse tipo.
Estava indo muito bem, até ver Shun nos braços de um outro homem. Jamais pensara que sentiria isso. Pensava que um dia se casaria e Shun encontraria um companheiro, o tempo passaria e ele se lembraria daquilo tudo como uma besteira de juventude...Então por quê se sentia assim?
Por quê? Por quê essa raiva, essa sensação de humilhação, como se Shun lhe tivesse dado um tapa no rosto?
Subiu as escadarias apressado, procurando o silêncio de seus aposentos para ordenar as idéias. Ao passar por uma das portas na fileira de aposentos destinados aos guerreiros deuses, ouviu um par de vozes conhecidas...
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-Calma, Shun! Calma! O que houve?
Hagen segurou o jovem pelos ombros mantendo-o quieto no lugar a custo.
-O Hyoga...ele viu tudo, Hagen ele viu tudo!
-Tudo o quê? O que o Hyoga viu?
-Aquele homem...Dimitri...
-O enviado da Rússia? O que tem ele?- Hagen decidiu ajudar o amigo com perguntas ao perceber que ele não conseguiria contar a estória com calma.
-Ele me beijou...eu não queria, eu juro...você pode acreditar em mim, eu não...
-Shun! Shun...Eu acredito em você. Ele te beijou e o que você fez, você fugiu dele, não?
-Claro! Eu o empurrei...mas quando eu me virei...o Hyoga tinha visto tudo...Ele acha que eu...
-Shun! Espera, você não sabe o que ele acha...- Hagen forçou Shun a se sentar sobre a cama e puxou a cadeira da escrivaninha que Mime usava para compor suas peças, afastando alguns livros e partituras do caminho.
-Mas ele...-Shun já começava a soluçar, estrangulado.
-Ele viu você empurrar o Dimitri, não viu?
-Viu...
-Então...ele vai acreditar em você, se ele é tão seu amigo como diz ele vai acreditar em você. Se eu conheço o Hyoga, logo ele vai atrás desse sujeito para tirar satisfações do que ele fez com você...
-Você acha...que ele...ele vai acreditar que eu...
-É claro...O Hyoga te conhece ele sabe que você não é assim.
Antes que Shun pudesse reencontrar sua voz e responder, a porta se abriu. Hagen se amaldiçoou mentalmente por não ter tido a presença de espírito de trancá-la, mas ao voltar-se e ver Hyoga de pé na frente deles, sua autocensura lhe disse que era, de fato, um imbecil.
-Hyoga...-A voz de Shun não era mais que um fio de som.
-Shun...o que está acontecendo aqui...Eu acabo de ver você se agarrando com outro lá embaixo e agora você já está aqui fechado num quarto com o Hagen? Não tem vergonha na cara?
-O quê? –Hagen se levantou sem acreditar nos ouvidos, as palavras de Hyoga o deixando quase sem ação.
-O quê? Você não sabia? Não sabia daquele homem que estava com o Shun lá embaixo? –Hyoga sorriu, um sorriso que mais parecia uma careta monstruosa de algum sátiro num cortejo dionisíaco.-Ou sabia? Mas é claro...Vocês combinaram isso, não? É isso, Shun? Está esperando por ele também, para se juntar a vocês?
Hagen sentiu o sangue ferver. Não podia deixar Hyoga fazer uma idiotice daquelas.
-Hyoga, já chega. Você está de cabeça quente...
-CALA ESSA BOCA, HAGEN!
-Hyoga, eu já disse: BASTA!
-Hyoga, você já falou o suficiente...Saia daqui.-A voz de Shun veio, resoluta e áspera, como ele mesmo não estava acostumado a ouvir.
-Acho que você quer ficar mais à vontade, correto?
-Hyoga, já chega! Saia daqui agora!
-Você não tem vergonha mesmo, não?
Hagen agarrou o loiro pelo colarinho antes que ele pudesse avançar sobre Shun. Para a surpresa de ambos Shun não se movera um centímetro mesmo frente a um possível ataque. Ele apenas olhava para o loiro com olhos vítreos, cheios de raiva e decepção.
-CHEGA! POR QUANTO TEMPO VOCÊ VAI AGIR COMO UM IDIOTA? –Foi tudo que Hagen conseguiu articular antes que Hyoga escapasse dele e voltasse a se dirigir para Shun. No entanto, o cavaleiro de Cisne foi bruscamente parado antes de poder dar um passo adiante.
Ao seu redor, finos fios translúcidos se enrolavam em seu torso e braços, imobilizando-o completamente. O russo voltou-se e viu que o guerreiro Deus de Benetnasch, com sua armadura completa, controlava as cordas que o mantinham preso.
-Basta, Hyoga-Disse Mime com calma, liberando o loiro aos poucos.
- Isso não tem nada a ver com você!
-Qualquer coisa que aconteça no meu quarto me diz respeito. Eu não sei o que aconteceu por aqui, mas seja lá o que tem para resolver, resolva em outro lugar.
-Mime, eu já disse que...
-Francamente, meu caro, eu não tenho paciência para argumentar. Faça o favor de se retirar antes que eu tenha que expulsá-lo.
-Está bem, Shun, você...
-O Shun não vai a lugar nenhum.
-Eu já disse que esse assunto não é do seu interesse!
-Hyoga, você não é mais que um convidado em Asgard, então, por favor, tenha modos e respeite nossa hospitalidade. Shun obviamente não quer a sua companhia, então não faça um escândalo.
-Mime...-Mime quase podia ouvir Hyoga trincando os dentes ao pronunciar seu nome. Decidiu que era hora de terminar com aquele circo:
-Por Odin, será que eu tenho que dispensar as boas maneiras? Que seja: FORA DAQUI!- Com isso Mime abriu a porta com estrondo. Hyoga, vendo-se sem argumentos, apenas bufou e saiu, batendo a porta atrás de si.
Uma vez livre da inconveniência, Mime voltou-se para os outros dois e com um olhar de pai que pegou os filhos numa travessura, perguntou:
-Então, meninos...Vão me dizer o que diabos está acontecendo por aqui?
(Continua...)
