9- Eu carrego seu coração - e eu o carrego no meu.

"I can't get it right
Get it right
Since I met you
Loneliness be over
When will this loneliness be over?
Life will flash before my eyes
So scattered and lost
I want to touch the other side
And no one thinks they are to blame
Why can't we see
That when we bleed we bleed the same"

"Eu não consigo me livrar
Não consigo me livrar
Desde que eu te conheci
Solidão deve acabar.
Quando essa solidão irá acabar?
A vida irá piscar diante de meus olhos
Tão partida e tão perdida
Eu quero tocar o outro lado
E ninguém acha que tem culpa
Por que não podemos ver
Que quando nós sangramos, nós sangramos juntos?"

Muse – Map of the Problematique

É claro que a minha sorte não deixaria que eu continuasse longe de Apolo. Era óbvio desde o início. Mas eu sinceramente acreditei que estava bem. Eu estava enganada. Eu sempre estava enganada quando se tratava de Apolo e isso me deixava irritada. Não era natural que eu, Juno Bree, uma vampira de mais de mil anos ficasse confusa por uma criança que ainda por cima era um lobisomem.

Mais ou menos no sábado depois da minha volta, Julio se aproximou furtivamente de mim, como quem não quer nada.

- Querida, nós precisamos de você na próxima reunião.

- Que? – eu estava dando uma surra em Marco no vídeo game, para variar.

- Na próxima reunião, você tem que ir.

- Por quê? – eu encarei os olhos amarelos dele, deixando Marco passar na minha frente.

- Uhul! Isso, Julio, continua falando com ela! – meu irmão comemorou.

- Não vai adiantar muito, Marco. Você está três voltas atrás de mim. – eu continuei jogando, sem olhar diretamente para a tela, ainda olhando para Julio. – Por quê?

- Nós concordamos que é melhor acabar com isso enquanto você estava fora. Sabe, cumprir logo nossa missão. Então a próxima reunião é para planejar o seu papel.

- E por que eu preciso ir? – Marco, ao fundo, festejava ter me alcançado.

- Porque você é nossa rainha, Juno. – ele deu um sorriso. – Se ele aparecer, você pode ir embora e eu nem vou brigar com você, certo? Acabe logo com isso, como você acabaria com sua presa. Rapidamente, para que não doa tanto.

Eu suspirei, ficando irritada.

- Ah, que merda. Quando vai ser?

- Amanhã.

- Não vou ficar mais de 40 minutos. Vocês devem ser breves. E se aqueles lobos começarem com merda pra cima de mim, eu não me responsabilizo pelos meus atos.

Ele deu um sorriso e me deu um beijo na bochecha, murmurando um obrigado. Eu não comentei nada e me virei para a tela da televisão, vencendo logo de Marco e fazendo-o reclamar. Ele sempre perdia de mim, não importava no que.

No momento eu não estava muito preocupada com os carros fazendo curvas alucinadas na televisão, mas sim no que eu poderia sentir. Eu tinha quase certeza de que não teria muitos problemas. Era só desviar o pensamento ou fingir que ele não estava lá. E pronto. E ele podia muito bem não estar lá, porque ele não precisava. E também não era como da última vez. E eu tinha certeza absoluta de que o irmão dele não iria querer que ele me visse, ele não seria tão sádico assim. E se eu me empolgasse com outras coisas, nem seria ruim. Eu estava resistindo bravamente – não pensando, não sentindo nada há algumas semanas.

No dia seguinte, eu não me importei muito em me arrumar para a reunião. Mas Diana insistiu, como uma mãe, que eu tinha que vestir uma das roupas novas para mostrar que eu estava bem. Não recusei, mas também não fiz nenhum esforço. Ela e Anette tiveram que me arrastar para o banho e depois me obrigaram a colocar a roupa. E, por ultimo, arrumaram meu cabelo como quiseram. Como se eu fosse uma bonequinha.

Elas fizeram um bom trabalho, eu admito. Elas escolheram um vestido preto um pouco acima do joelho, meio rodado, um bolero de uma renda belíssima e um sapato meio alto, com um salto grosso e estilo de boneca. Meu cabelo fazia largas ondas cor de rubi, caindo pelos meus ombros até a minha cintura e lá estava minha pulseira, no meu braço esquerdo. E um colar pequeno, delicado, com uma pequena pedra no meu pescoço.

Foi inevitável que chamássemos atenção no restaurante, mas os olhares que continuaram em mim me incomodaram um pouco. Tentei me esconder atrás de Andrei, mas tenho certeza que ele fingiu que não percebeu e me deixou desprotegida.

Os olhares que recebi da mesa dos lobisomens me fizeram me perguntar porque eu tinha aceitado estar ali. Eu era sádica? Estava me entregando livremente para os meus carrascos. Me sentei em silêncio entre Andrei e Julio, olhando para a toalha da mesa, ciente de que eles provavelmente seriam indiscretos, irônicos ou qualquer coisa do tipo comigo. Órion estava sentado exatamente na minha frente, parecido demais com Apolo para minha segurança.

-Quanto tempo, Juno. Espero que esteja bem. - ele falou, num tom que pareceu verdadeiro.

-Ela deve estar ótima. - Mihail soou maldoso, do seu lugar. - Depois de passar tanto tempo com aquele mulherengo, deve ter tomado um jeito.

Eu levantei meu olhos para ele e depois olhei para Julio, meio sem acreditar naquilo.

- Que mulherengo?

- Você sabe, o seu "chefinho". Que parece que tem fogo nas calças. Ele deve ter dado um jeito em você. - o sorriso dele se tornou ainda maior naquele rosto quadrado dele, quase como o do gato de Alice no País das Maravilhas. - Eu nem sei o que alguém veria numa ruiva sem graça como você, de qualquer forma.

Eu fechei minha mão no meu colo, segurando o meu vestido. Respirei fundo, sentindo raiva. Quem aquele cara achava que era para falar daquele jeito de Alexei, de mim? Quem ele pensava que era para insinuar esse tipo de coisa? Eu não gostava – e ainda não gosto – desse tipo de intimidade.

- Mihail. Calado. - Órion rosnou, o repreendendo com o canto dos olhos. - Mihail tem uma aversão por você, Juno. Me desculpe. Mas não tome a aversão dele como regra. Não temos nada contra você, ao contrário do que você possa pensar.

Eu poderia ter rido na cara dele, mas não estava com ânimo para isso. Não levantei meu olhar para encontrar o de Órion.

-Vamos ao que interessa, ok? Eu tenho mais o que fazer. - eu falei, olhando para o meu prato, soando um pouco irritada.

- Sem problemas. - o tom que ele usou foi o do tipo que é acompanhado de um dar de ombros.

-Certo. - a boca de Julio era uma linha no rosto dele, de preocupação. Consegui imaginar o por que. Se Mihail ou qualquer um deles continuasse a ser ofensivo daquela maneira, ele não conseguiria me controlar sem causar uma cena. - Juno, você é a carta na nossa manga. Nós estamos enfraquecendo o grupo deles e eles sabem disso. Estão malucos para pegar um de nós e se vingar.

- Exato. Nos últimos meses, nós destruímos um grande contingente do exército em formação deles. E o tal chefe está muito irritado conosco. É aí que você entra.

-Desde o início você já estava ciente disso. Logo, não será muito problemático. Só precisamos programar exatamente como você vai ser pega e quanto tempo depois você abrirá espaço para entrarmos e terminarmos com tudo.

Eu concordei com a cabeça.

- Que tal brincar de chapeuzinho vermelho? - eu sugeri, dando um meio sorriso e encontrando os olhos de Órion. Ele deu um sorriso encorajador e eu desviei os olhos. Por que eles tinham que ser tão parecidos?

- Quer ser apanhada pelo lobo mal, é? - Mihail fez um comentário maldoso e eu olhei para ele.

Senti a raiva subir pela minha espinha e eu fechei os olhos, massageando minhas têmporas. Ele precisava ver um pouco do que eu era capaz. Dei um sorriso felino e abri os olhos, o encarando firmemente.

- Não. Eu sou o lobo mal. Eu quero que a chapeuzinho venha até mim, esperando que eu seja a vovózinha. – eu apoiei minha mão na mesa, numa postura felina, mostrando deliberadamente um pouco das minhas presas no meu sorriso. – A pobre chapeuzinho só vai reparar na encrenca em que se meteu quando, coitada, sentir como os dentes da loba podem ser afiados.

Eu assisti o homem se encolher no seu lugar enquanto eu falava e vi uma pontada de medo no olhar dele. Eu não gostava de usar, mas era inerente a todos os vampiros essa habilidade de intimidar. Mihail ficou calado e eu lambi meus lábios, contente por meu truque ter funcionado.

- Soa interessante. - Abel tomou a palavra agora, parecendo não se importar com a intimidação que eu estava fazendo em seu companheiro. - Uma boa estratégia. Mas que tal você fingir que é a própria chapeuzinho? Perdida na floresta, sem saber como voltar e acaba sendo 'enganada' por eles?

Eu olhei para ele e levantei uma sobrancelha, achando a idéia muito boa. Meu sorriso se tornou suave.

-Hunm, acho que é uma idéia perfeita. E aí quando eles se revelarem como lobos maus, eu me revelo como a caçadora disfarçada. Vai dar certo, Julio?

Julio era o melhor estrategista que já existiu na face da terra. Em parte porque tinha seus "super-poderes" e um deles era prever se uma estratégia iria funcionar ou não, como um tipo de previsão do futuro.

- Eu não sei, eu preciso me concentrar. - ele deu um sorriso para mim, animado com a minha súbita mudança de humor.

- Me parece um bom plano. Mas quanto tempo você vai ficar lá dentro? Quando nós teremos que aparecer? - Órion olhou para mim e para o seu companheiro lobisomem.

- Eu não sei dessa parte. Isso é com ela. - Abel deu de ombros e olhou para mim.

- O que vocês querem que eu faça? Só abra caminho, comece o trabalho ou espione o funcionamento? Ou querem que eu faça os três?

- Acho que fazer os três, né? Já que você já vai estar lá dentro.

- Certo então, Órion. - eu olhei para ele. Provavelmente a antecipação me impediu de me sentir mal, porque sorri para ele, sem desviar o olhar. - Eu acho que então três dias lá dentro. E no final do terceiro dia eu abro para vocês entrarem e destruírem a sede, ok? Julio?

- Eu ainda não consegui ver nada. - ele olhou para mim. - Três dias?Não acha que é tempo demais?

- Eu tenho que estudar o comportamento deles também. Três dias é o suficiente. - eu encostei minha mão na mão dele, para tranqüilizá-lo.

- Três dias. Tudo bem. Nós vamos fazer nosso plano. - Órion olhou para Abel e depois para Julio.

Julio concordou, parecendo um pouco relutante. A mão dele se fechou suavemente na minha e eu pude sentir a pulsação dele um pouco acelerada. Depois de tantos séculos, eu o conseguia ler perfeitamente. Ele ainda não tinha conseguido ver nada e isso o deixava nervoso

Eu fazia um movimento para tranqüilizá-lo quando a voz de Meredith chegou aos meus ouvidos.

- Você não acha melhor mandar Apolo pra longe nesses três dias, querido? – ela cochichou no ouvido de Órion. Senti o pulso de Julio se contrair sobre minha mão em reação ao estremecimento que o nome de Apolo causou em mim.

- Eu acho que já está tudo decidido, não é? Juno pode ir para casa. - Julio olhou para Órion e ele só balançou a cabeça, concordando.

- Sim. Está tudo combinado. Julio te avisará quando você tiver que se infiltrar, ok? Fique pronta pois será em breve.

Eu concordei com a cabeça, aliviada, enquanto eu via o loiro na minha frente olhar para a esposa de forma repreendedora. Ela parecia arrependida e sussurrou um desculpa.

Eu refleti. Será que minha reação tinha sido tão ruim? Era só o nome dele. Eu estava bem até um segundo antes, havia até conseguido encarar o irmão dele, que era tão parecido com ele. As coisas não deveriam ser assim. Eu não estava bem melhor? Eu não conseguia desviar meu pensamento, fazer outras coisas, seguir minha vida?

Mas ainda assim a simples menção do nome dele causou uma reação espontânea, como se meu corpo reagisse fora do domínio da minha mente. Eu suspirei e comecei a me levantar para sair, já estava na hora de ir mesmo.

- Espere. Você nem vai se dar ao trabalho de perguntar? - Mihail infelizmente voltou a falar, apoiando o cotovelo na mesa e olhando para mim de forma desafiadora. Eu tive vontade de quebrar a cara dele de forma que ele nunca mais pudesse falar, mas me controlei.

- Perguntar o que? - o encarei, voltando a me sentar. Honestamente pensei que fosse algo relacionado ao plano, porque a frase que segui me surpreendeu de forma assustadora.

- Se Apolo é um bom lobisomem agora que se transformou. - e ele deu um sorriso maldoso.

Eu soltei um ruído baixo, parecido com o de uma leoa ferida e disfarcei, transformando em tosse. Eu pude sentir o meu coração acelerar e senti uma dor que achei que já havia sido curada. E ele continuou falando. E a raiva deu lugar a tristeza que deu lugar a culpa.

Órion tentou fazê-lo se calar, sem efeito. Ele discursava sobre como Apolo parecia ser perfeito, como não tinha sofrido muito, como podia correr mais rápido do que qualquer um deles, como se adaptou facilmente. Tive uma imagem clara de Apolo me contando tudo isso, dizendo como ele era perfeito, num tom de brincadeira, de forma que nunca aconteceria. Imaginei como ele estaria animado com tudo isso e senti uma culpa imensa.

Ele fazia de propósito e eu sabia. Queria me provocar, queria que eu sumisse da frente dele.

- Ah, e eu acho que ele já deve estar chegando, não é, Órion? Você não o mandou vir perto das 11? Ele é pontual, já deve estar bem próximo por agora.

Ele havia conseguido. Parabéns, Mihail. Eu senti um cheiro que me lembrou assustadoramente de Apolo e senti lágrimas se acumulando nos meus olhos. Eu não estava pronta para vê-lo. Senti todos os olhos da mesa me encarando, esperando minha reação e aquilo foi demais para mim. Eu não era um espetáculo num circo, um experimento que todos poderiam assistir livremente. Acreditando os lobisomens ou não, eu tinha sentimentos. E não era nada engraçado brincar com os sentimentos de uma pessoa assim, como se eles não importassem.

Eu não agüentaria mais um segundo ali, não com aquele cheiro se aproximando. Poderia ser alguma coisa da minha cabeça, uma alucinação causada por estresse. Mas eu tinha que ir embora. Eu murmurei um "com licença" e me soltei da mão de Julio. Eu sabia que Mihail iria se sentir vitorioso, porque havia curvado a "ruiva sem-graça", mas era uma humilhação menor ir embora do que chorar na frente de todos eles. Eu sentia que estava cada vez mais perto de chorar.

O conhecimento da verdade, de que Apolo tinha se transformado logo depois que eu o deixei me fez sentir a pior das pessoas. Ele parecia ser feito para ser um lobisomem e eu não deixava de pensar que talvez estar comigo tivesse atrasado o seu destino. Eu o havia afastado do lugar aonde ele pertencia. Não era o tipo de coisa que eu queria para ele.

Me esgueirei entre as pessoas do restaurante, desviando de alguns garçons, torcendo para chegar logo do lado de fora.

Então senti uma mão me segurar pelo pulso, impedindo meu avanço. Confesso que estava confusa. Muito confusa. Principalmente porque ao invés de identificar o dono da mão pelo cheiro, eu o identifiquei pelo cabelo loiro.

- Andrei, eu estou bem. Não se preocupe. - eu falei, tentando me desvencilhar suavemente do toque, sem olhar para ele. Eu sabia que ele veria as lágrimas nos meus olhos e ficaria preocupado.

Mas a mão, ao invés de me soltar, me puxou mais para perto, me forçando a olhar com raiva para o dono. Ele parecia tão confuso quanto eu, quase não acreditando no que via. Mas em poucos segundos os seus olhos voltaram a ter a expressão normal, a expressão que eu conhecia tão bem. Os olhos eram azuis, cor de gelo, e me encaravam. Os lábios que acompanhavam os olhos formavam um sorriso suave, espontâneo, que eu tinha certeza que o dono não fazia idéia de que estava ali. Eu prendi minha respiração e o encarei por alguns segundos, que pareceram horas.

- Fugindo de mim, Juno? Que coisa feia. – ele deu um sorriso torto e eu estreitei meus olhos, sem conseguir falar nada.

A mão dele ainda segurava meu pulso firmemente e eu podia sentir que ele estava mais quente do que nunca. Os meses que haviam nos separado haviam operado mudanças visíveis nele. Apolo estava ainda mais bonito do que quando eu o havia deixado. Um simples sorriso era suficiente para derreter uma garota, um olhar era o bastante para fazê-la se sentir a pessoa mais importante do universo. Ele estava pronto: finalmente era um deus grego. Também havia adquirido um ar um pouco mais sério, mais adulto, que o fazia parecer mais velho do que seus quase dezoito anos. Seu cabelo estava curto agora, jogado para trás de forma descuidada e ele estava um pouco mais alto que antes.

Por alguns segundos, a única coisa que eu perigosamente pensei em fazer foi abraçá-lo, sentir seus lábios nos meus e os seus músculos sob meus dedos. Tentei soltar minha mão da mão dele antes que eu fizesse alguma loucura mas ele a segurou firmemente.

- Eu não estava fugindo. - eu falei entre dentes, tentando parecer firme mas sem sucesso. Soei como uma garotinha. - Eu só preciso ir ao banheiro. Só isso. Dá para me soltar?

- Hunm... você fica tão bonitinha mentindo, Juno. - ele deu um sorriso que fez meu coração dar um salto e me puxou mais para perto dele.

- Me solta. - eu desviei os olhos dele, lutando um pouco mais para me soltar e para não chorar. - O que você está fazendo aqui?

Ele me puxou ainda mais para perto, me deixando a poucos centímetros do corpo dele. O cheiro real dele finalmente me atingiu, como uma flecha, fazendo todos meus pelos se arrepiarem. Era um suave cheiro de canela misturado com alguma coisa que eu não conseguia identificar, mas que era muito apelativo para mim. Eu fechei os olhos e senti a outra mão dele passar pela minha cintura. Suspirei, sentindo que não conseguiria controlar minhas lágrimas por muito mais tempo.

- Não, Apolo...- eu falei fracamente, sentindo o calor da pele dele passar para a minha rapidamente. - Por favor... O que você está fazendo?

Eu não compreendia. Faziam mais de dois meses que não nos víamos e ele era um lobisomem de verdade agora. Eu tinha certeza de que a única coisa que deveria esperar dele era ódio, não só porque eu era uma vampira, mas também pelas palavras maldosas que eu havia dito para ele. E então ele aparecia, como se nada tivesse acontecido, como se tivéssemos nos encontrado ontem. Será que ele havia perdido a sanidade?

- Por que, Juno? Por que você é tão cheirosa? - ele sussurrou para mim, enquanto afundava o rosto no meu cabelo.

Não foi voluntário. Minhas mãos já o envolviam em um abraço antes que eu pudesse perceber. Senti seu coração batendo num ritmo quase insano quando o abracei e escondi meu rosto ao sentir uma lágrima rebelde fugir dos meus olhos. Eu não podia deixá-lo continuar com aquela loucura, eu era a responsável. Recolhi meus braços e ele me segurou com mais força contra o corpo dele, como se nunca fosse me deixar sair dali.

-Apolo. - eu sussurrei o nome dele. - Você não devia fazer isso. É errado.

Ele me puxou mais para perto ainda, me dando um abraço apertado. Minha lágrima manchou a sua camisa branca de vermelho e eu voltei a abraçá-lo, sentindo que não conseguiria me segurar por muito tempo.

- Vamos embora, Juno. – ele sussurrou para mim, sem me soltar, me conduzindo suavemente.

Nós ainda estávamos no meio do restaurante. Eu havia esquecido completamente disso e senti uma vergonha imensa. Todos eles – minha família e a dele – haviam assistido àquilo. Senti uma vergonha surreal, quase como humilhação, porque eu havia sido fraca. Fraca na frente de todos eles.

Aquilo tudo era uma loucura. Eu estava agarrada a um lobisomem, como se minha vida dependesse daquilo. E ele não parecia se importar com isso e me abraçava como se não quisesse me largar. Aonde estava a sanidade em nós dois? Era inexplicável. Lobisomens e vampiros – as coisas não funcionavam daquela forma. Era suportável ficar perto de lobisomens, mas vampiros evitavam o máximo possível. Eu não evitava. Ao contrário, eu não queria me afastar. Nada havia mudado com a transformação dele, ele era Apolo pra mim, não um lobisomem.

Nós caminhamos em silêncio até uma rua deserta do lado de fora do restaurante e ele me encostou na parede suavemente, com as suas mãos na minha cintura. Encostou o rosto no meu ombro, com o nariz apoiado no meu pescoço.

-Juno. - ele sussurrou. - Você é uma deles mesmo? - e a mão dele saiu da minha cintura e roçou suavemente na minha bochecha. O nariz dele subiu um pouco mais encostando no meu queixo. - Você é mesmo uma vampira?

Eu encarei os olhos azuis dele, ciente de que os meus estavam quase pretos. O abracei e abaixei um pouco os olhos, sentindo as malditas lágrimas voltando com força.

- Seria melhor se eu não fosse. – eu o respondi quase num sussurro.

Eu vi alguma emoção desconhecida passar pelos olhos dele e ele passou um dedo pelo desenho dos meus lábios.

- Eu não me importo. Se foi por isso que você disse aquilo pra mim, eu não me importo. Nem se você fosse me matar aqui, agora, eu me importaria. - ele sussurrou, roçando o nariz na minha bochecha. - Não me importa mais o que acontece comigo, porque se eu não estou com você nada tem sentido.

- Apolo... por favor... eu não posso... você... - eu não conseguia pensar nada que fizesse sentido. Senti o calor do sangue que saia dos meus olhos cobrirem minhas bochechas e de repente tudo ficou um pouco avermelhado. Eu estava chorando. Por que tinha que ser assim?

Eu definitivamente não era a melhor escolha para ele. Eu era uma vampira, uma imortal, uma amaldiçoada. Que bem eu poderia fazer para ele, mesmo ele sendo um lobisomem, outro tipo de monstro? Ele poderia ser feliz com uma humana ou até com uma de sua espécie, mas estar comigo só traria coisas ruins para ele. E, ainda assim, eu estava indecentemente feliz ao ouvir que ele não se importava com o que eu era. Que sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele.

- Não pode o que? – ele olhou para mim e de repente fez uma cara de espanto.. – Você-Você está sangrando!

Eu solucei e, bem, chorei mais ainda. Não é legal saber que todas as vezes que você chora parece que você está sangrando. Chorar sangue não é nada bonito. É uma imagem bem chocante, literalmente como se fosse sua alma sangrando. Me fazia parecer vulnerável e eu não gostava disso.

Ele me abraçou com força contra o ombro dele e eu funguei, sabendo que estava sujando ainda mais a camisa branca dele. Tentei me acalmar um pouco antes de falar qualquer coisa. Ele parecia preocupado.

- Apolo. – eu sussurrei, com a voz um pouco molhada. – Você quer uma prova maior do monstro que eu sou? Eu choro sangue.

- Por que você está chorando? – ele sussurrou, me abraçando mais forte. – Eu estou aqui com você agora.

Eu solucei, voltando a chorar.

- Você não deveria estar aqui. Apolo! Por favor! Eu não quero destruir a sua vida e você torna tudo mais difícil pra mim.

Ele se afastou um pouco de mim e me encarou, segurando meu queixo para que eu não desviasse os olhos dele. Ele deu um sorriso suave e beijou minhas bochechas, sujando os lábios de sangue.

- Você é tão boba. Ainda não entendeu que eu não me importo? Que não me importo com o que aconteça comigo. Eu quero você e é só isso que me importa. – ele sussurrou para mim. – E você não precisa escolher se vai destruir ou não minha vida. Não é algo que você possa mudar ou eu possa controlar. Eu estarei aqui, você querendo ou não, para cuidar de você, para me sujar de sangue a cada vez que você chorar.

Eu solucei mais uma vez. Eu era outra pessoa ali, só podia ser. Porque a Juno que eu conheço não choraria feito um bebê por tanto tempo. Ele me agarrou com força enquanto eu tentava me acalmar. Agora eu não sabia direito porque estava chorando. Provavelmente de felicidade, mas não era o sentimento apropriado.

- Apolo. – eu gemi. – Apolo.

- Shh, eu não vou para lugar nenhum. Não vou sair de perto de você. – a voz dele era tranqüilizante. Os lábios dele encostaram suavemente nos meus e eu fechei meus olhos, sentindo o gosto das minhas lágrimas nos lábios dele.

De repente, os lábios dele se afastaram dos meus e percorreram minhas bochechas. Senti sua língua quente limpar minhas lágrimas.

- Apolo. – eu sussurrei e ele me beijou novamente.

Senti o gosto do sangue em sua boca e minha sede pulsou pelas minhas veias. Eu não me alimentava faziam mais de duas semanas e ainda havia chorado, o que gastava sangue. Não era seguro. Eu o empurrei suavemente, me afastando dos lábios dele com uma dor quase física.

Ele não faço idéia de como ele se sentiu com essa recusa, mas ele me soltou e se afastou um pouco. Meu corpo parecia implorar para que ele voltasse e eu me abracei, desviando os olhos dele. Mais uma vez, minha condição de monstro se colocava entre nós.

- Eu sempre sou precipitado. Me desculpe. - ele passou uma mão pelos cabelos e virou de costas para mim, parecendo desconcertado.

Eu respirei fundo, controlando meus sinais vitais. Meu coração estava batendo de uma forma enlouquecida e minha respiração estava um pouco ofegante. E a sede parecia mais acentuada ainda agora. Fechei os olhos e torci para que ele não percebesse minhas necessidades.

- Apolo. - eu só consegui dizer isso, depois de me acalmar. Como eu iria explicar tudo para ele? Como iria fazê-lo ganhar consciência do monstro que eu poderia ser? - Apolo.

Ele se virou para mim, com as mãos no bolso. Eu pude sentir um pouco de tristeza nos olhos dele.

- Juno?

- Apolo. - eu estendi minha mão para ele e o chamei para perto. Era perturbador ver a mancha de sangue no ombro onde eu havia me apoiado. - O que você sabe sobre mim? Quanto você sabe sobre mim? Aquela garota que você conheceu, a Juno, 17 anos, estudante transferida é só uma das máscaras. Eu sou uma vampira. Eu tenho mais que 50 vezes a sua idade. Eu posso ser qualquer coisa, fingir qualquer coisa. E ainda assim você acha que isso não importa? Você acha que não importa o que eu seja?

- Você poderia ser mais velha que Jesus Cristo e eu não me importaria. - ele falou casualmente, como se encontrasse pessoas de dois mil anos todos os dias e segurou minha mão, suavemente.

- Eu acho que você não está entendendo o ponto. Eu preciso de sangue para sobreviver. Eu mato para sobreviver.

- Eu também mato para sobreviver e nem por isso eu me martirizo.

- Eu mato humanos pra sobreviver. - eu o encarei e ele deu um sorriso, se aproximando e colocando meu cabelo atrás de minha orelha.

- Você não mata humanos há mais de mil anos, eu sei disso. Me contaram. Então não conta. - ele deu de ombros e deu um beijo na minha mão. - Juno, eu não importo.

- Você é um lobisomem, Apolo! - eu larguei a mão dele, colocando minhas mãos na cintura e o encarando.

- Você se importa com isso? - ele levantou uma sobrancelha e deu um meio sorriso.

- Não, mas você... eu não... - eu parei, um pouco confusa.

- Eu queria te procurar antes, mas estava com medo. - ele se aproximou e me abraçou novamente. - Eu estava com medo de odiar você. De odiar seu cheiro. Mas... eu não consigo entender. Você está ainda mais cheirosa. Você está ainda mais bonita. - e ele levantou meu rosto. – E a cada segundo que passa eu tenho mais certeza de que sem você eu não vou conseguir viver.

Meu coração deu um salto. Eu o encarei e fiquei alguns instantes ponderando. Eu poderia ir embora de uma vez e continuar sofrendo, mas pelo menos ele teria uma perspectiva de vida melhor do que a que poderia ter comigo. Ou eu poderia ficar e faze-lo feliz e ser feliz fazendo isso.

A resposta era tão óbvia que eu dei um sorriso com o canto dos meus lábios e balancei a cabeça.

- O que foi, Juno?

- Eu sempre decido o que é mais difícil para mim, é impressionante.

- Quê?

Eu dei um sorriso que pareceu meio insano e fiquei na ponta dos meus pés para alcançá-lo. Encostei meus lábios nos lábios dele, como uma borboleta, sentindo o gosto do meu sangue novamente. Vi os lábios dele se transformarem em um sorriso enquanto as mãos dele passavam pela minha cintura e me pressionavam suavemente contra a parede. Ele aprofundou o beijo, brincando com a minha língua enquanto uma das mãos dele subia pelas minhas costas, até meu ombro, tocando a pele que eu tinha a mostra. Meus dedos deslizaram suavemente pelos braços dele, delineando cada músculo, tocando cada centímetro. Minha língua procurava por cada vestígio das minhas lágrimas dentro da boca dele, guiada pela sede.

Ele me pressionou mais contra a parede, me fazendo soltar um gemido quando os lábios dele se separaram dos meus e foram parar nos meus ombros. Uma das mãos dele tirou o meu bolero do caminho com uma facilidade extraordinária enquanto a outra repousava na minha cintura.

Eu fechei os olhos, sentindo minha pele arrepiar inteira com o toque quente da pele de Apolo. Meu coração estava fora de controle fazia algum tempo e eu podia sentir meu sangue correndo rapidamente nas minhas veias e sendo consumido cada vez mais. Eu soltei um suspiro curto, sentindo um calor invadir minhas veias, vindo de dentro. Não tinha certeza se era a sede de sangue ou o desejo, mas era dolorosamente bom.

Minhas mãos deslizaram pelas costas dele e depois pelos seus ombros, chegando nos botões de sua camisa. Os lábios dele voltaram para os meus e eu o puxei mais para perto de mim, o abraçando com uma das minhas pernas.

- Apolo. - eu sussurrei, ainda no beijo. - Você sabe o que vai acontecer agora?

- Eu não temo pelo meu destino. - ele sussurrou no meu ouvido e eu sorri, ao reconhecer a linha do poema de e.e. cummings¹. - Você é meu destino, minha preciosa. Eu não quero o mundo por mais belo que seja. - os lábios dele deslizaram para o meu pescoço, e ele ainda continuava citando, enquanto uma das mãos dele subia pela minha coxa. - Você é meu mundo, minha verdade. Eis o grande segredo que ninguém sabe.

- Aqui está a raiz da raiz, o broto do broto e o céu do céu de uma árvore chamada vida. - eu sussurrei de volta, com um sorriso, fazendo-o levantar o rosto e encostando meus lábios no dele. - Que cresce mais que a alma pode esperar ou a mente pode esconder. - eu beijei o queixo dele, descendo para o seu pescoço. - E esse é o pródigo que mantém as estrelas á distancia.

-Eu carrego seu coração comigo. Eu o carrego no meu coração. - nós falamos juntos, quase sincronizadamente e ele me apertou num abraço.

- Senti sua falta, ruiva. - ele sussurrou. - Da próxima vez que você decidir ir embora, eu vou ter que te colocar de castigo.

E eu puxei a sua camisa para trás, beijando o seu ombro nu enquanto sentia os lábios dele brincando no meu pescoço. Eu sabia que agora não teria mais volta. Eu não conseguiria deixá-lo novamente.

- Eu te amo. – eu sussurrei. – E não importa o que aconteça, Apolo, nem o que eu diga. Eu te amo.

- Agora que eu não deixo você ir embora mesmo. – ele falou, rindo e eu ri também, brincando com os meus dedos no cabelo dele.

Eu também não o deixaria ir embora.


Notas de Autora:

1- e. – assim mesmo, sem letras maiúsculas. É um poeta norte americano que brinca com a pontuação e tudo o mais. Ele normalmente não usa maiúsculas e coloca umas pontuações esdrúxulas, mas é lindo! Adoro os poemas dele. Enfim, eu descaracterizei um pouco o formato do poema, mas porque ele foi recitado. =X

A tradução foi feita por mim, da forma que achei mais apropriada. Algumas traduções não levam em consideração o estilo do poeta e a escolha de palavras não é a mais legal, então eu geralmente prefiro traduzi eu mesma ;***

Aí está, o reencontro. Eu gosto bastante desse capítulo e do 10^^

O semestre está acabando! OBA! Isso quer dizer que eu tenho mais tempo depois do final de Novembro porque... são 3 meses de FÉRIAS! Legal, né?? E aí eu vou ter tempo de sobra pra ver Supernatural, ler livros e ESCREVER!! Finalmente cheguei no capítulo 16 e ele está na minha cabeça. Se eu parar e escrever, já chego no 17.

Enfim, fizeram uma comunidade pra história. O link ta no meu profile.

Hoje é um dia meio atípico porque eu estou correndo um pouco para atualizar. Eu sei, eu sei, a Thá me mandou esse capítulo no DOMINGO passado, mas essa sexta ta bem corrida pra mim. Não vou responder as reviews hoje. Então semana que vem eu respondo as do capítulo oito e as do capítulo 9 =D

74 Reviews \o/

Sabe qual é a meta agora!?

90. 90 reviews ò.ó Estou pensando grande, né? Só que dessa vez não é de graça não...

Imagine só, eu pedindo 15 reviews em um capítulo (XD) por nada!?

Não, vocês mal sabem... existe um extra relacionado ao capítulo 10... BUAHAUHAU! E eu só vou postar ele se eu conseguir 15 ou mais reviews até semana que vem. Se eu conseguir até quarta, eu posto o capítulo 10 e o extra na sexta. Se eu conseguir entre quinta e sexta, posto o extra no domingo.

Boa sorte, criançada!

E desculpem por não ter resposta de review dessa vez^^'