Disclaimer: I do not own Relic Hunter – Relic Hunter e suas personagens pertencem a Fireworks Entertainment. Esta fic não possui fins lucrativos.
Summary: Nigel narra a busca de Sidney por uma relíquia que pode mudar o destino, a pedido de um amigo de longa data. O novo rumo dos acontecimentos trazido pela relíquia trará um futuro melhor ou pior para todos?
Caminhos errados
11. O dia do choque
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Dia n. 45: Havíamos chegado ao meu apartamento no meio da noite, após a reveladora visita ao hospital, e minha querida amiga negara-se a sair e deixar-me sozinho. Nós dois não conseguimos dormir, aguardando em silêncio as poucas horas que restavam até o amanhecer.
Passamos o dia seguinte juntos; ela permaneceu sempre ao meu lado enquanto eu realizava a cansativa busca pela segunda opinião que o Dr. Andrew mencionara. Mas ao final desse dia, o que restava era apenas a confirmação do que já sabíamos.
Insisti que ela voltasse para casa, então. Após isso, passei a noite mais solitária de minha vida. E foi estranho como eu consegui dormir, de alguma forma, pensando em minha trajetória até aquele momento e em como sentia falta de meus pais.
Na manhã subsequente, fui trabalhar na busca desesperada de retomar a minha rotina e esquecer por algumas horas de tudo o que aconteceu.
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Dia n. 44: Era quarta-feira. Sydney não tinha aulas, nós aproveitávamos para reorganizar seus projetos e preparar seus planos em dias assim. Era o que eu estava fazendo naquele momento. Minha amiga já havia passado a manhã e a tarde anteriores indo de um consultório para o outro comigo, então decidi fazer desse um dia mais normal possível. O tempo todo eu tentava abafar em minha memória as lembranças as últimas descobertas.
A manhã decorrera relativamente bem. Já havíamos conversado com Karen pelo telefone, e a loira limitara-se a perguntar-me como me sentia de tempos em tempos. Sydney resolvera não tocar no assunto, ajudando-me na tarefa de seguir sem pensar demais no acontecido.
Mas isso tudo durou apenas até o horário do almoço.
Eu estava pálido. A ausência de mangas compridas na camisa verde permitia-me ver a coloração de minhas mãos e braços enquanto lidava com os livros e cadernos na escrivaninha à minha frente. De relance, espiei Sydney em seu gabinete: a pilha de documentos ao seu redor, as informações novas sobre a localização de relíquias, o monte de ligações aguardando retorno permaneciam intocados enquanto a mulher observava quieta, sobre a sua mesa, o chapéu que havíamos trazido da gruta no Monte Olimpo.
Esfreguei os olhos e abaixei a cabeça para os livros que estava consultando para preparar o plano de aula da professora. Lembrei-me do que todos os médicos disseram quando viram meus exames; eu ainda não podia acreditar que estava doente, não da forma horrível como eles haviam falado. Justamente quando havíamos conseguido ajudar Josh recebêramos essa notícia devastadora. Mas as conversas que eu tive com os profissionais diferentes haviam me ajudado a compreender que eu não poderia acovardar-me ou desistir enquanto ainda existissem tratamentos disponíveis.
Olhei no relógio de pulso: onze horas. Respirei fundo afastando aquele pensamento e imaginando o que eu poderia escolher para almoçar; o Dr. Andrew havia pedido que eu me alimentasse adequadamente, preparando-me para o início do tratamento. Eu até sentia-me bem, ao menos enquanto a enxaqueca – que retornava de tempos em tempos – não se manifestasse; ela não tinha a mesma intensidade dos dias em que eu havia desmaiado na caverna e no escritório, contudo.
Era ao pouco de esperança que o Dr. Andrew havia me transmitido que eu estava me segurando; e também ao olhar decidido que Sydney havia me mostrado quando recebêramos o diagnóstico do médico no hospital na segunda-feira. Virei-me novamente para a morena em sua sala, ainda pensando na força que ela me prestava. Mas seus olhos olhavam para mim dizendo outra coisa naquela hora: Como consegue manter-se tão calmo? Tão conformado com tudo isso? Gritavam eles, mirando o fundo de minha alma através da ampla vidraça que dividia o gabinete da professora do restante do escritório. Pegaram-me de surpresa, aqueles olhos. Ainda possuíam a mesma força, mas estavam dominados por revolta.
Senti as palmas das mãos machucando com as unhas. Olhei para baixo e vi meus punhos cerrados sobre a mesa; as juntas dos dedos ainda mais esbranquiçadas pela força. Por que Sydney estava fazendo aquilo? Por que me olhava daquela forma, fazendo com que o inconformismo em mim também se manifestasse? Eu... estava bem até aquele momento, estava conseguindo conter-me, controlar meu desespero.
Mirei novamente o rosto de minha amada amiga, e ao mesmo tempo nos demos conta de que os olhos dela estavam marejados. Sydney apressou-se em secar a umidade com as mãos, mas eu já havia enxergado o que ela não queria que eu visse. Uma delicada gota caíra pelo lado direito de sua face.
Permaneci sentado e virei o rosto para frente; tomei fôlego. Levantei e caminhei vagarosamente para a entrada do gabinete da chefe. Bati de leve na porta, embora já estivesse aberta e Sydney estivesse me fitando desde que eu levantara. "Posso entrar?"
Ela tentou em vão afastar a aflição de sua voz. "Pode."
Andei até a mesa e sentei-me na cadeira que ficava de frente para a professora. Não disse nada, apenas fiquei ali a observando remexer nas abas do chapéu surrado sobre a mesa; um quê de tristeza em seu olhar. Ela secou os olhos mais uma vez e tentou sorrir, mas fracassou totalmente. Levantei da cadeira e ajoelhei-me no chão ao lado dela: "Você anda derramando lágrimas demais." A linda morena permaneceu sentada e cerrou os olhos, então a puxei para mim em um fortíssimo abraço. Sydney enterrou o rosto em meu ombro e começou a soluçar.
"Me desculpe, Nigel! A culpa é minha! É por causa da relíquia que você está doente!"
"Não, Syd. Você ouviu o médico, já estou assim há pelo menos três meses, a culpa não é sua."
"Como pode ter certeza?" Senti as unhas dela se enterrarem em meus braços. "Temos que voltar à Grécia e desfazer o pedido!"
"Não diga bobagens! Já foi suficiente arriscar-se uma vez com aquela relíquia, você salvou Josh e isso é o que importa. Não tente associar o que está acontecendo comigo ao alabastro, Syd. Estou doente e não amaldiçoado."
"Mas..."
Abracei-a mais forte, impedindo-a de falar. "Sshhh." Passei a mão sobre os cabelos da mulher, acalmando-a como a uma criança.
Ela relaxou por alguns segundos. "Não é justo. Você não pode estar doente, eu não aceito isso!" Eu não disse nada, apenas continuei acariciando seus cabelos. Não discordei dela porque no fundo eu também pensava assim. Sydney afastou-se subitamente, segurando-me pelos ombros e encarando bem o meu rosto. "Se eu tivesse esperado um pouco mais, poderia tê-la usado por você!"
"Não funcionaria."
O rosto dela dizia claramente que não tinha argumentos, era o que os registros mostravam, mas isso ia contra sua natureza: "Eu daria um jeito...", murmurou; ambos sabíamos que não era verdade. "Eu encontraria uma forma de fazer você voltar a ficar bem."
"E você sofreria algo terrível por isso. E não teria salvado Josh da maldição. A relíquia não serve para milagres, você mesma disse que foi sorte termos voltado de lá."
"Não, eu..."
"Syd, deixe as coisas serem como têm que ser. A culpa não é sua."
A morena suspirou e segurou meu rosto: "Como pode aceitar isso, Nigel? Como consegue ficar tão conformado?" Ela perguntou, finalmente. Mas não precisou de uma resposta, meus olhos já diziam tudo: estavam iguais aos dela. Sydney passou a mão sobre a lágrima solitária que descia pela fisionomia que deveria estar pálida e cansada.
"Isso não é o fim. Eu vou fazer o tratamento... e vai ficar tudo bem. Tudo vai dar certo, Syd."
Ela fitou novamente o fundo de meus olhos; balançou a cabeça, como se tentasse se convencer daquilo. "Eu quero tanto acreditar nisso, Nige. Eu quero...", e voltou a me abraçar. Nós dois ficamos ali, protestando em silêncio contra o cruel futuro.
Vi, de relance, Karen de pé, depositando alguns papéis sobre a minha mesa e parando à porta de Sydney. A professora esfregou o rosto, e observei-a enquanto lançava um sorriso amargurado para a loira. Mas a expressão triste de Sydney imediatamente se alterou com espanto. Olhei para o lado e enxerguei Greyard; ele deveria ter acabado de entrar no departamento e não havia feito nenhum barulho, parado às costas da secretária de pé na entrada do gabinete, testemunhando também a cena entre nós dois amigos.
Sydney se afastou um pouco de mim. "Josh?"
Ele a encarou por um instante, olhou para mim. A professora me soltou e eu vi o homem pousar os olhos confusos no chapéu sobre a mesa antes de virar as costas e caminhar para a saída, sumindo do escritório tão silenciosamente quanto aparecera. A caçadora levantou-se e foi atrás dele, mas parou na porta do departamento. "Ele... já se foi."
Karen ainda estava no mesmo lugar, e eu caminhei até o seu lado. "Sinto muito, Sydney. Não o vi entrar", desculpou-se a loira.
"Está tudo bem. Eu conversarei com ele durante o almoço." A professora voltou, pousando de leve a mão sobre o meu ombro. "Você está bem?"
"Estou."
Ela assentiu e enlaçou-me mais uma vez, rapidamente. Olhamos para Karen, que ofereceu um sorriso triste, e abraçamos a loira também. Durante aquele contato não havia medo ou desesperança, tudo o que eu sentia era o calor daquelas duas pessoas, que estavam ali me oferecendo apoio e amizade. Minhas queridas amigas estavam prontas para me acompanhar na fase mais dura e difícil de toda a minha vida. E eu precisaria mesmo daquela base forte para me suportar.
•••
Continua
N.A.: Obrigada a todas pelos reviews lindos, minhas meninas! ) Amo vocês!
