A vinha e o girassol

Capitulo11

A descoberta!

Dois dias depois Rachel teve alta do hospital e levou consigo a filha, Quinn e uma infinidade de recomendações do Doutor Giane. A única que dispensava recomendações era Beatriz, que a cada dia ficava mais esperta e gorduchinha! Quinn, que no período em que ficara no hospital havia sido submetida à fisioterapia intensiva, deveria continuar com o tratamento sem cessar. A perna apresentava uma melhora considerável, andava cada dia menos claudicante e a bengala era usada mais para lhe dar segurança que propriamente apoio.

Kurt voltou para ficar de vez! Seu romance com Carlo estava tomando um rumo bem sério e ele decidiu que ficaria alguns dias na Vinícola, mas depois tentaria se estabelecer em Siena, onde Carlo morava e tinha seu escritório. Pensava em continuar trabalhando na sua área, marketing, mas não sabia como entrar no mercado de trabalho. Até que Quinn propôs contratá-lo para fazer um trabalho direcionado ao mercado sul americano para divulgação e distribuição dos vinhos e espumantes produzidos pela Vinícola. Teria que viajar bastante, mas sua casa seria a Toscana, bem pertinho daqueles que amava.

Com a chegada de Beatriz, a casa e a vida de Quinn pareciam ter sido iluminadas por aquele pequeno anjo de luz. Sua vida encheu-se de alegria e trouxe uma energia que a fez ressuscitar a Quinn de antes do acidente! Ela retomou hábitos há muito deixados de lado, como cavalgar por suas terras acompanhando o plantio e a produção dos vinhos, inteirou-se novamente nos negócios e voltou a estudar novas espécies de vinhas!

O ar parecia ter ocupado novamente os seus pulmões! O coração batia outra vez... forte... feliz!

As mudanças na aparência e no comportamento dela eram não só evidentes, mas também contagiantes! Tudo passou a funcionar melhor tanto na parte produtiva da Vinícola, como na rotina da casa principal! Todos haviam sido contaminados por aquela boa vibração trazida por um ser que nada sabia, que sequer entendia existir... o anjo Beatriz!

À contragosto de Rachel, que ainda estava debilitada, Quinn contratou uma enfermeira para ajudá-la nos cuidados com a filha. Apesar das reclamações, acabou perdendo diante dos fortes argumentos e do poder de convencimento dela.

– Rachel, você ainda precisa de cuidados! Seu parto foi muito difícil e quase a perdemos! Por favor, não seja teimosa, aceite ajuda! Uma criança tão novinha carece de cuidados especiais e a enfermeira só vai estar aqui para te ajudar e não tirar a Bia de nós!

Quinn dizia tudo com um sorriso no rosto, como se falasse com uma criança birrenta!

Rachel estava emburrada dando o peito à filha, mas no fundo adorava todo aquele cuidado e, para não perder a pose, falou com altivez:

– Mas eu só vou aceitar essa tal de enfermeira até me restabelecer completamente! Não preciso de ninguém pajeando a mim e a minha filha, a não ser você, Kurt e Emma!

E por fim sorriu aceitando a vontade de Quinn.

Após quatro dias que haviam chegado do hospital, finalmente Quinn encontra a profissional que procurava. A enfermeira foi cuidadosamente selecionada dentre três profissionais indicadas pelo Dr. Giane. Por fim decidiu por uma que era solteira e sem filhos, pois precisava de alguém que estivesse disponível o tempo que fosse necessário. O salário era bem acima da média para aquele tipo de serviço e a mulher ficou extremamente feliz quando Quinn a chamou e firmou o contrato por três meses.

– Giovanna, você foi muito bem recomendada pelo Dr. Giane, suas qualificações são bem satisfatórias e você parece ter bastante experiência com crianças recém-nascidas.
– Sim, Senhora. Eu trabalhei por dez anos em uma maternidade e unidade neonatal. Decidi sair para trabalhar por conta própria por questões pessoais, me sinto mais feliz profissionalmente estando sempre em lugares diferentes e atendendo famílias que precisem de mim por um tempo específico. Não pretendo mais me fixar a nenhuma clínica ou hospital.

Giovanna era uma mulher bastante interessante. Loira, alta, cabelos médios em um corte chanel clássico, corpo longilíneo, olhos claros, pouco mais de 30 anos e um ar sedutor. Não era exatamente a imagem de uma enfermeira tradicional, parecia com aquelas fantasias masculinas das enfermeiras sedutoras! Mas Quinn não via desse jeito, sequer havia notado beleza na mulher à sua frente. Estava com o currículo dela nas mãos e o achou muito bom, o melhor dos três e o fato de não ter marido e filhos que cobrassem seu tempo e sua atenção era um ponto a favor dela.

– Bem, na verdade a mãe da criança também precisa de alguns cuidados, mas ela acha que não precisa mais, então terá que ser paciente e atenciosa! Ela também pensa que pode cuidar da filha sozinha, mas como o estado de saúde dela ainda inspira cuidados, sabemos que ela precisa de ajuda e por isso você está aqui!

A mulher queria muito aquele emprego! Sabia da história de Quinn, do acidente, dos problemas que a acometiam vez ou outra, da sua homossexualidade e todos esses fatores eram por demais interessantes para ela!

Com um sorriso meigo falou demonstrando bastante animação com a nova função...

- Fique tranquila, senhora Quinn, tenho experiência com pessoas arredias e adoro crianças! Acho que farei um ótimo trabalho em sua casa!

Distraída, Quinn não percebia os olhares insinuantes da mulher...

- Então acho que estamos combinadas! A senhorita pode começar quando?
- Imediatamente!
- Que ótimo! Então venha comigo que vou apresentá-la à Rachel e a nossa princesinha!

Rachel estava em seu quarto com Beatriz no colo a fazendo arrotar. Já sentia vontade de sair do quarto, de se movimentar, mas o corte ainda não estava completamente sarado e o corpo ainda exigia cuidados. Sua anemia havia piorado depois da hemorragia sofrida e não podia fazer muito esforço sob risco de sentir os efeitos de uma hora para outra.

Pensava em como sua vida tinha dado uma guinada. Havia saído do egocentrismo absoluto, do individualismo sem remorsos, para uma vida cheia de afetos que jamais pensara um dia sentir e, menos ainda, receber!

Ter a filha em seus braços, cuidar dela, olhar para aqueles olhinhos que a buscavam cheios de reconhecimento, saber que seria responsável por aquele ser por muitos anos e que não se sentiria mais só no mundo como sempre fora, fazia sua alma encher-se de um amor sem medidas! Sentia uma alegria infinita em amar incondicionalmente e saber que também seria amada assim!

Beatriz havia enchido não só sua vida, mas também a de todos naquela casa de um amor sem precedentes, pelo menos para ela e Quinn! Sentia que ela também tinha um amor como o de mãe pela irmã! Costumava passar a manhã trabalhando na Vinícola, mas na hora do almoço voltava para casa e só saia se algo excepcional acontecesse. Quinn parecia querer estar perto delas todo o tempo que tivesse disponível. Sabia que voltar a trabalhar era importante para sua vida e sua autoestima, mas não queria perder nada da rotina e do desenvolvimento de Beatriz.

Além disso, Quinn e Rachel desenvolveram uma convivência extremamente harmoniosa, sentiam-se muito bem ao lado uma da outra! Passavam a tarde conversando e lambendo a cria, faziam todas as refeições juntas e, até mesmo no silêncio, apreciavam estar perto. Não precisavam estar falando, bastavam sentir a presença uma da outra para estarem bem! Apesar de terem personalidades distintas, pareciam se completar em suas diferenças: a impulsividade diante da ponderação, a ansiedade diante da calmaria, a altivez diante da simplicidade, o individualismo diante da generosidade, a carência diante da doação!

Rachel sentia que Quinn era seu contraponto em todos os sentimentos negativos que pudesse ter! Ela definitivamente trazia paz não só ao seu dia, mas ao seu coração!

Porém essa paz de vez em quando era perturbada por emoções novas e estranhas que sua enteada provocava nela. Já se pegara por várias vezes desejando tocar Quinn de forma diferente... lasciva! Vontade de tocar a pela clara e suave, sentir o cheiro natural dela, levemente almiscarado, emaranhar suas mãos no meio daquela cascata cor de avelã que eram os cabelos sedosos dela. E a boca... ai, aquela boca que tirava seu sono e que por infinitas vezes já imaginara beijar!

"Não... não... não! Tenho que tirar esses pensamentos de mim! Droga... não deveria pensar nela desse jeito! É a irmã da minha filha! Ela não me olha assim, jamais se interessaria por mim! Acho que nunca vai se interessar por quem quer que seja, a tal da Camille levou o coração de Quinn com ela!"

Ainda lutava com seus pensamentos quando a porta do quarto se abre e Quinn entra acompanhada de uma mulher loira e alta vestida com um jaleco branco até quase os joelhos. A mulher ficou parada atrás de Quinn olhando atentamente para Rachel. Com seu jeito sempre calmo e a voz suave, Quinn fez as apresentações...

- Rachel, esta é Giovanna, a enfermeira que contratei para te ajudar a cuidar do nosso anjinho e no que mais você precisar! Ela é muito bem qualificada e Dr. Giane a recomendou com louvor!

Com um belo sorriso e olhar atento, Giovanna falou tentando ser agradável...

- Muito prazer, senhora Fabray! Estarei ao seu dispor para o que for preciso! Quero lhe informar que tenho muita experiência com bebês e gosto muito do que faço, por isso vai ser um prazer cuidar da senhora e de sua filhinha. Posso ver a pequena Beatriz?!

Um tanto esquiva e seca, Rachel responde...

- Ela acabou de mamar e está arrotando... daqui a pouco vai dormir... é bom não agitá-la... vá resolver os detalhes com Quinn e depois te direi como quero que trabalhe!

E olhando com ar impaciente para Quinn falou...

- Depois que terminar com ela, preciso falar contigo... a sós!

Frisou bem a última palavra.

Quinn já a conhecia muito bem para notar que não estava gostando nem um pouco da ideia da enfermeira, mas achava que era necessário, pelo menos nos primeiros três meses de vida de Beatriz! E quando queria, Quinn sabia ser convincente e teimosa também!

Fez um gesto de afirmação com a cabeça e saiu do quarto conduzindo Giovanna pelo ombro, o que não passou despercebido por Rachel!

Algo no jeito e no olhar de Giovanna não combinava com a ideia da enfermeira altruísta!

Quinn mostrou onde a enfermeira dormiria, em um aposento improvisado na saleta junto ao quarto de Beatriz, que por sua vez ficava ao lado do quarto de Rachel e em frente ao dela. Colocou a enfermeira a par dos horários da casa e da rotina básica de cada uma delas. Combinaram uma folga por semana, que poderia ser domingo ou segunda-feira, e Quinn decidiu tranquilizar a mulher diante da forma seca com que Rachel a havia recebido...

- Bem, foi como eu te disse antes... eu tive que convencê-la a aceitar a ajuda de uma enfermeira, ela está um pouco arredia ainda, mas logo se acostuma com você, e quando ela baixar a guarda, verá o quanto é especial!

Giovanna notou o tom mais carinhoso que o normal na voz de sua interlocutora. Isso a preocupou, mas disfarçou bem.

- Pode deixar, dona Quinn, eu saberei lidar com ela!
- Por favor, jamais entre em confronto com ela! Terei que dispensar seus serviços caso isso aconteça! Qualquer problema que venha a surgir, me comunique que saberei como falar com Rachel!
- Está bem!
- Vou deixá-la para que arrume suas coisas! Pode descansar até a hora do jantar. Peço para Emma vir chamá-la mais tarde.
- Obrigada. Acho que vou gostar muito daqui!

Quinn se retirou e Giovanna pensou...

"Desde que essa brasileira não me atrapalhe!"

Giovanna havia saído do hospital em que trabalhara por dez anos por causa do seu envolvimento com a diretora da unidade. Era inegavelmente uma ótima profissional, mas tinha ambições acima da média para sua vida financeira. Quando percebeu que o caso de mais de dois anos jamais passaria daquilo, ela pressionou a diretora para que pelo menos desse a ela uma posição de destaque no hospital, afinal essa era sua intenção desde que começaram o romance. A mulher não concordou e sem pestanejar, Giovanna partiu para tentar realizar suas ambições de outra forma. Sabia que com sua qualificação conseguiria facilmente trabalhar com as famílias mais ricas da região e isso acabaria por trazer um dia a oportunidade que esperava para se dar bem.

E esse momento poderia estar surgindo agora, ali na Vinícola da família Fabray, a mais importante e rica de Montalcino e adjacências.

Todos na Vila conheciam a triste história de Quinn, assim como sabiam que ela nunca havia se relacionado com homens, exatamente como Giovanna, que viu ali naquele emprego a oportunidade de ouro para tentar conquistar aquela mulher sofrida, carente e muitíssimo rica, que cultivava sua solidão desde a morte da amada! Pensava...

"Se consigo conquistar essa mulher, nunca mais vou ter que limpar xixi e coco de criança nenhuma, nem aturar essas mães chatas que me torram a paciência com suas reclamações! Com o dinheiro que ela tem, vou ter a vida que sempre sonhei! E para melhorar, ela ainda é bem bonitinha, o que não será sacrifício algum, pelo contrário, acho que vou adorar seduzir a viuvinha desconsolada! Só espero que a madrasta não resolva atrapalhar a minha vida por aqui! Vou ter que ser bem cautelosa para não estragar tudo!"

Beatriz já dormia no berço quando Quinn entra no quarto de Rachel. Esta a olha com ar de poucos amigos e começa a falar demonstrando irritação...

- Você acha mesmo que vou deixar Beatriz aos cuidados dessa mulher?

Sem entender, Quinn retruca...

- Ué e porque não?! O que há de errado com ela?!
- Ora, Quinn... ela parece que saiu das páginas da playboy direto pra cá! Você tem certeza da qualificação dessa sujeita? Será que Dr. Giane não a recomendou porque está caidinho por ela?

Quinn balançou a cabeça e riu do comentário que para ela parecia totalmente surreal...

- Meu Deus Rachel, você não sabe nada da vida do Dr. Giane! Ele é completamente apaixonado pela esposa ainda, mesmo depois de mais de 30 anos juntos! Ele não faz o tipo safado que fica arrumando emprego pras amantes! Se ele a recomendou é porque de fato ela é qualificada! Acho que a aparência dela é muito boa e não vi nada demais com isso! Se ela é bonita, bom pra ela né?! Que diferença faz ter uma enfermeira bonita ou feia? Aposto como Bia nem vai notar isso!

Rachel ficou ainda mais irritada - "Ela achou a enfermeira bonita!"

- Eu só acho que ela pode ter outras intenções aqui dentro, não gostei do jeito dela! Tem olhar de ave de rapina, como se estivesse à espreita, querendo algo ou alguém!
- Alguém? Não entendi! Isso aqui é uma casa de mulheres, quem ela poderia querer?

Definitivamente Quinn era totalmente desligada de tudo, principalmente que ainda era uma mulher atraente e extremamente rica, o que poderia atrair muita gente de olho nisso!

- E você por acaso sabe qual é o "bichinho" da preferência dela?
- Hein?!

Impaciente Rachel explica...

- Em que time ela joga... que banda ela toca...
- Do que você tá falando, Rachel?!
- Tá bom, Quinnie, deixa isso pra lá! É viagem da minha cabeça! É que não suporto a ideia de ter uma estranha entre a gente! Tava tão bom aqui só nós... eu, você, Bia, Emma, Kurt... pra quê essa mulher aqui?!

Quinn se aproxima de Rachel e pegando em sua mão diz carinhosamente...

- Porque você ainda tem que recuperar suas forças, tem que estar forte para amamentar nosso anjinho, não pode fazer muito esforço e nos próximos meses vai perder muito peso devido à amamentação! Então admita que essa ajuda vai ser boa! Pelo menos experimente! Eu a contratei por três meses, mas se antes disso não se adaptar com ela, eu juro que podemos substituí-la quando quiser, tá bem?!

O calor das mãos de Quinn nas suas não a deixava raciocinar direito! Além disso, a voz dela era como um bálsamo entrando em seus ouvidos e relaxando seu corpo! Perdia seu poder de argumentação diante dessas sensações todas!

Foi subindo o olhar das suas mãos para os braços alvos, os ombros delicados, o pescoço elegante, a boca rosada, o nariz reto e parou fixamente nos olhos de mar pré-tempestade!

Com a voz rouca falou...

- Acho que ninguém consegue dizer não pra você, Quinnie! Pode ter o que quiser de quem quer que seja!

Sentiu um leve tremor vindo de Quinn e ela imediatamente puxou as mãos para se livrar do contato tão próximo! Deu alguns passos para trás se afastando e baixou os olhos como se estivesse encabulada! O gesto deixou Rachel desconcertada mais uma vez e tentou disfarçar o mal estar soltando um suspiro de resignação ao comentar...

- Tá bom, prometo não implicar mais com sua enfermeira, vamos dar uma chance a ela e ver como se comporta nessa casa! Vamos aproveitar que Bia dormiu e pedir que Emma nos traga um chá?

Quinn aceitou a sugestão e esqueceu o desconforto que a acometia em algumas ocasiões em que sentia Rachel a olhar de forma diferente e intensa demais!

Não podia alimentar um pensamento como esse, então simplesmente não permitia que ele se instalasse em sua mente!

E mais uma vez tiveram uma tarde agradável de risos e conversa amena!

Um pouco antes de descer para o jantar, Kurt vai ao quarto de Rachel e entra já comentando...

- O que é essa enfermeira hein?!
- Nem me fale! Você viu o tipinho dela?! Essa aí não me engana, Kurt... sinto cheiro de piranha a quilômetros!
- E a Quinn aceitou na boa?!
- Ela não se tocou do tipo da fulana! Ela foi recomendada pelo Dr. Giane e parece que as qualificações são ótimas! Mas ela pode ser o Papa da enfermagem que não vai deixar de ter cara e jeito de piranha! Ela olhou pra mim com cara de sonsa e pra Quinn com olhos de predadora! Saquei logo a dela, quer apostar como vai se chegar na Quinn como quem não quer nada até dar o bote?!
- Que isso, Rachel... você acha mesmo que a mulher teria coragem pra dar em cima dela?!
- Posso apostar contigo que não só teria como veio pra cá com essa intenção!
- Mas você a viu por alguns minutos, como pode desconfiar de uma coisa dessas?

Rachel solta um longo suspiro de impaciência e responde...

- Esqueceu o que eu fui? Uma puta reconhece a outra quase que instantaneamente e se ela for esperta como eu penso que é, também percebeu que não sou nenhuma tonta.
- Ah, mas vai ver que ela tá só querendo fazer o trabalho dela na boa. Dê um crédito pra mulher e nada de se precipitar nos seus julgamentos viu?! Já erraste muito com isso!
- Ta bom, mas vou ficar de olho nela, e você também! Não seja tão crente com certas pessoas. Nem todo mundo é Quinn! Gente assim é a exceção e não a regra, Kurt!

Kurt percebeu que o tom de Rachel havia ficado mais baixo e carinhoso ao falar no nome de Quinn. Ele já havia percebido há muito tempo que a amiga estava se envolvendo com a enteada de uma forma jamais imaginada por ninguém, menos ainda por ela mesma!

Diversas vezes havia observado o modo como Rachel olhava Quinn quando sabia que ela estava distraída: o rubor que preenchia sua face quando era flagrada por Quinn em algumas dessas horas; a tristeza que percebia se formar nos olhos da amiga quando a enteada se afastava e ficava esquiva; a alegria incontida quando ela se aproximava e a tratava afetuosamente; a forma como se referia a ela cheia de ternura na entonação da voz; o ciúme que percebia quando alguém mencionava Camille e, até mesmo agora, com a nova enfermeira!

Sabia que estava acontecendo com Rachel aquilo que ele sempre desejou que acontecesse, só não esperava que fosse numa situação como aquela e logo por alguém que não parecia corresponder aos sentimentos dela! Quinn era um amor de pessoa, mas era assim com todos! Até havia percebido um carinho a mais com Rachel, mas provavelmente por causa do tempo que passavam juntas e por ser ela a mãe de sua irmã. Não queria ver a amiga iludida com algo improvável!

- Amore, já faz algum tempo que queria conversar contigo sobre umas coisinhas que tenho percebido no ar...

Rachel ficou alerta! Conhecia o amigo e pareceu antever o que viria a seguir...

- Tá falando de que?
- Do que você está sentindo por Quinn!

Rachel gelou! De certa forma esperava que Kurt um dia abordasse esse assunto. Ele a conhecia como ninguém e deve ter percebido algo, mas mesmo assim sentiu um choque ao ser confrontada! Não sabia o que dizer... tentou ganhar tempo...

- Como assim o que estou sentindo por Quinn? Eu gosto dela, ela me trata super bem, a minha filha também, o que eu poderia sentir por ela que não fosse um enorme carinho?!
- Paixão! Amor!

Rachel escovava os cabelos em frente ao enorme espelho do seu quarto. Virou-se imediatamente para o amigo com ar de indignação...

- Ta louco, Kurt! Não repita isso nem brincando!
- Porque amiga?! Desculpe, mas ta mais do que na cara sua paixão por ela! Você já quase não consegue mais disfarçar e...
- Cala essa boca, seu maluco! Se alguém ouve um absurdo desses é provável que Quinn nos queira fora dessa casa, já pensou nisso?!

Rachel falava baixo, assustada! Kurt balançou a cabeça constatando o óbvio aos seus olhos...

- Ela não nos colocaria pra fora dessa casa, ainda mais por causa desse motivo. Mas eu entendo seu medo de que ela descubra algo. Infelizmente eu também acho que ela não permitiria esse tipo de sentimento entre vocês.

Rachel intrigou-se. Sabia a resposta, mas queria ouvir a opinião do amigo...

- E porque não?
- Porque ela carrega uma culpa que não a permite viver esse tipo de emoção! Amiga, ela pode até voltar a se envolver com alguém, mas acho difícil ela se permitir viver esse amor pelo simples fato dela achar que não merece! Ela sente uma culpa atroz pela morte do seu grande amor, então ela não vai se achar digna e merecedora de um novo amor pra vida dela. Ela vai querer se punir sempre, não vai aceitar ser feliz e nem fazer ninguém feliz, entende?!

Kurt dizia exatamente tudo o que Rachel sabia ser verdade, era como um ventríloquo de seus pensamentos... e tudo aquilo doía demais nela! Ele, então, arrematou...

- Não quero que justamente na primeira vez em que você se apaixona por alguém, venha sofrer a rejeição desse amor! Eu posso parecer cruel em te dizer isso agora, Rachel, mas não alimente esse sentimento pela Quinnie! Ela não vai te corresponder e se por acaso vier a sentir algo por você, ela vai fugir desse sentimento, ela vai te rejeitar! Não quero que você sofra!

Rachel abaixou a cabeça e sem querer a lágrima que prendia escorreu pelo nariz e morreu no mármore do chão! Kurt a abraçou com força tentando aplacar a angústia que via estampada naquela face e disse acolhedor...

- Eu vou estar aqui com você para o que precisar! Eu sei que tudo isso será muito difícil, inclusive fugir de um sentimento tão intenso! Não sei se vai conseguir, mas pelo menos tente! Tente sublimar, tente abstrair, tente mudar o olhar, o modo como a vê! Você sabe tão bem quanto eu que mesmo que ela sinta algo não vai aceitar, vai fugir! Já vi ela fazer isso com pequenos gestos seus de carinho, imagine se souber o que você de fato sente?!

Rachel não conseguiu mais conter o pranto e desabou nos braços do amigo! Seu desespero era angustiante...

- É isso que chamam de amor, Kurt?! Essa dor sufocante?! Esse desespero em saber que não vou tê-la pra mim, que ela nunca vai me querer, que nunca vai me amar como amou Camille?! É isso? Se é, eu odeio sentir! Eu odeio amar assim! Eu não quero isso em mim... não quero! Me ajuda, Kurt... por favor, me ajuda!

Agarrava-se aos ombros do amigo como se dessa forma pudesse expurgar aquela dor, aquele sentimento que havia negado tanto, mas que assaltava sua alma por completo!

Kurt também chorou! Sabia que muito sofrimento ainda viria pela frente! Rachel já a amava e esse caminho era sem volta, pelo menos por um bom tempo!

- Vou estar aqui, meu amor! Sempre que precisar me chame, vou estar aqui pra chorar com você! Não sei se vou conseguir te fazer mudar o que sente por ela, mas pelo menos você vai poder dividir comigo suas dores!

Segura o rosto de Rachel e olha firme nos seus olhos chorosos...

- Você sabe que ninguém torcia mais do que eu para que você um dia se apaixonasse de verdade, mas jamais imaginei que pudesse acontecer dessa forma, justo por alguém que não vai corresponder ao que sente! Vai precisar ser forte e sublimar esse amor! Por você e por Beatriz, até o dia que ele se transformar em outro tipo de amor! Quem sabe você não encontra alguém que te tire dessa confusão toda?! Quando menos esperar um novo amor pode acontecer, amiga! Não se entregue! Não é de sua personalidade se entregar... FORÇA!

Enxugando as lágrimas, Rachel aquiesceu com a cabeça, aceitando as palavras do amigo. Com a voz embargada disse...

- Eu sei que vou sofrer estar perto dela e não poder viver essa paixão fisicamente, mas eu juro que vou tentar mudar o que sinto! Ela não pode saber sobre como me sinto, Kurt... NUNCA! Eu não suportaria se ela se afastasse por causa disso! Posso amargar essa paixão platônica o resto da minha vida, mas não posso viver longe dela! Eu não sabia o que era ser feliz até conviver com ela, ser cuidada por ela! Eu me sinto tão bem, não posso me afastar! Eu prefiro amá-la em silêncio a ficar infeliz o resto da minha vida sem ela!
- Eu te entendo! E vou te ajudar no que for preciso! Tenho certeza que um dia irá encontrar alguém para amar completamente e que te ame também, minha querida!

Rachel abaixou os olhos e respondeu com a triste certeza que seu coração gritava...

- É ela! Se ela nunca me quiser não haverá outro alguém! Posso até me relacionar com outras pessoas sexualmente, mas não amarei ninguém mais! Isso é fato!
- Como eu queria poder fazer algo! Não arrancar esse sentimento de você que é tão precioso, mas fazer Quinn enxergar e aceitar esse amor! Mas não se iluda, ela parece ter enterrado junto com Camille sua capacidade de amar dessa forma!

Rachel respirou fundo, levantou-se e foi ao banheiro lavar o rosto. Voltou refeita e pronta para descer, com o olhar altivo e seguro falou como a convencer a si mesma de suas palavras...

- Ela não vai saber o que sinto! Vou tentar fazer o que disse, sublimar, transformar esse amor em outro tipo! Teremos bastante tempo pra isso, vou ficar aqui por pelo menos dois anos. Até lá muita coisa pode acontecer, até mesmo encontrar alguém interessante para dividir minha cama!
- Isso amiga! É assim que se fala! Confiança e tudo vai dar certo! Você vai superar isso e vou estar aqui pra te ajudar!

Num fio de voz Rachel concluiu...

- Só não sei o que vai ser de mim se não conseguir...