Já era noite quando Hermione finalmente criou coragem para sair do quarto de Gina. A amiga, que agora tagarelava sem parar pelos cantos com Harry, havia passado o dia todo distante do cômodo, o que deixara a morena com a sensação de certo abandono. De todo modo, aquilo lhe acabara por fazer bem. Tivera tempo de sobra para pensar em como estavam seus pensamentos, seus sentimentos e no que faria a seguir.
Assim, levantou-se da cama sentindo o travesseiro encharcado de lágrimas e o coração mais leve. Estava sem mágoas afinal, por mais que Fred houvesse exagerado em suas acusações. Também, pudera. Hermione conseguia compreender o lado dele. Em quê Fred não era exagerado? Riu dessa idéia ao atravessar a porta do quarto. Além do mais, na cabeça dele o escolhido de Hermione era Ron, seu irmão, e isso parecia soar de modo horrível. Traição do pior tipo.
Ao chegar em frente à porta do quarto dos gêmeos, lembrou-se da sensação que estava em si quando a cruzara pela última vez, horas antes. Agora sentia outras sensações como temor, expectativa. No fundo sentia alegria em pensar que tudo daria certo. Criou coragem com uma tomada de fôlego mais longa e bateu na porta confiante, torcendo para que ele abrisse a porta.
Ali estava um ruivo. Para as outras pessoas era muito difícil definir quando era George ou Fred, mas Hermione sabia fazê-lo com facilidade extrema. Ela conhecia cada mania, cada gesto de Fred e ele era singular, mesmo tendo um irmão gêmeo. Para ela, jamais haveria como confundi-los, algo que até mesmo Molly fazia.
— Hermione! — O garoto berrara com certa alegria. Era George. — Vem, vamos dar uns amassos. — Ele piscara para ela, tomando-lhe a mão com audácia.
— George, eu sei que é você. — Ela riu.
— Droga. — Ele franziu a testa como só ele fazia. O irmão não tinha aquela mania, costumava erguer apenas uma sobrancelha em reprovação. — Sabe como é, Angelina tem me deixado sozinho, meio carente.
— Sei, sei. — Hermione sorrira para ele, lembrando do que estava fazendo ali. — Hm, George, Fred está aí?
— Fred? Não. Ele não voltou aqui durante o dia todo.
— Eu o procurei em todos os lugares possíveis, não sei onde ele pode estar. — A garota fizera cara de choro deixando o ruivo sem saber o que fazer, apavorando-se.
— Escute Hermione, vou fazer isso apenas porque se trata de você e sei o quanto Fred quer que fiquem juntos. — Ele sussurrara checando o corredor. — Nós temos um esconderijo onde escondemos os logros da mamãe, o quarto é muito óbvio, você sabe. Ele fica num pequeno alçapão no final do corredor. A estátua tampa a visão, é perfeito.
— Você acha que ele está lá?
— Você disse que ele não está em nenhum outro lugar, não é? — Ele piscou novamente para ela com o ar maroto.
— Obrigada George! — Ela dissera ao sair andando pelo corredor.
— Aceito recompensas na volta! A proposta ainda está de pé caso Fred não aproveite a pouca luz do alçapão.
Hermione não conseguira evitar o riso ouvindo aquilo, mas ignorara uma resposta. George era assim mesmo, não havia o que ser dito e sabia que no fundo aquilo era apenas brincadeira de um quase-irmão bobo. Logo, estava no lugar indicado e descia devagar as escadas do alçapão mal iluminado. Havia um cheiro peculiar ali, o cheiro de Fred. Ele realmente havia se escondido por lá o dia inteiro, agora ela tinha certeza. Com o barulho da fechadura voltando a cerrar-se atrás de si, o garoto sequer se virara para ela. Imaginava ser o irmão.
— Já disse que não quero ser incomodado, George. — A voz dele ecoou por lá. Estava de costas para a garota e mexia em algo na mesa à sua frente. — Ainda não consegui fazer esses malditos fogos funcionarem como eu queria.
— Talvez você devesse descansar. — Hermione sussurrou o suficiente para que ele ouvisse, fazendo com que Fred congelasse subitamente. — Pretende ficar aqui o resto da noite fugindo de mim?
— Pretendia, mas pelo visto você me achou. — Ele se virou para ela com expressão ignorante.
Aquele não era o Fred. O seu Fred. Era uma versão magoada, amedrontada. Era um garoto que estava tentando entender seus sentimentos por uma garota que sempre fora sua amiga, o adolescente que buscava compreender se ela gostava dele também e por que isso de repente parecia importar tanto. Estava confuso e isso era visível, então parecia normal para ela que o ruivo agisse como uma fera ferida.
— Não seja ignorante, Fred Weasley! Eu vim saber como você está! — Ela tentara tocá-lo com a ponta dos dedos, mas ele recuara rapidamente. Era um jogador de quadribol, afinal.
— Que tal se preocupar com o Ron? — Ele debatera. Era impressão ou os olhos dele estavam marejados? Devia ser impressão.
— Nunca houve nada entre eu e Ron, não entende? Aquele dia, na Taça Mundial de Quadribol, ele simplesmente começou a devorar tudo pela frente e eu fui ver o lugar. Me perdi, acabei por entrar na parte interna do campo e conheci Viktor Krum. Ele foi muito educado comigo, ao contrário do que você está sendo agora, seu brutamontes!
— Não foi isso que o Rony disse. — Fred cuspiu as palavras como pôde. Estava prestes a chorar de raiva e aquilo parecia ridículo. Lembrou-se então do irmão contando como beijara uma amiga de longa data, só podia ser Hermione, mas por que ela mentia? Aquilo estava doendo muito.
— Então Ronald é um mentiroso! Eu nunca o beijei!
— Então foi o Krum? Entendo... Faz sucesso com as garotas, rico, talentoso, de um lugar distante. Deve ter parecido bem atraente, não é?
— Não seja estúpido, Fred! — Ela se aproximou dele. Seus rostos estavam próximos demais, mas nenhum dos dois havia se dado conta. — Você está agindo como uma criança birrenta e não há motivo. Não houve nada entre eu e Krum.
— Nunca há nada entre você e ninguém, percebeu? Talvez não haja nada entre eu e você também.
Lágrimas passaram a pingar nas mãos desprotegidas de Fred e ele por um momento teve medo de que estivesse chorando sem se dar conta. Como era estúpido! Tocou o rosto de leve se permitindo olhar para Hermione e pôde ver que era ela quem chorava. Ele havia feito a garota chorar.
— Me desculpe. — Ele sussurrou arrependido, abraçando-a.
A cabeça orgulhosa de Hermione dizia para que se afastasse, mas ela não tinha forças para aquilo e o abraço de Fred era tudo o que ela queria naquele momento. Permaneceu ali por um tempo que lhe pareceu infinito, sentindo o garoto acariciando suas costas e vez ou outra beijando-lhe o rosto. Por que tinha que ser tão difícil?
De repente os lábios se tocavam cada vez com mais ardor e ambos sabiam que era aquilo que havia de ser. As mãos de Fred acariciavam a cintura de Hermione enquanto ela se desprendia em carinhos nos cabelos ruivos dele que tanto amava. A raiva que sentiam aos poucos se tornava desejo e eles sequer imaginavam se podiam controlar aquilo de fato, mas não importava.
Ela, sem medo, procurava cada pedacinho do corpo dele que até então havia apenas imaginado nos seus sonhos mais malucos, enquanto ele aproveitava cada uma das curvas que ela possuía. Sentia-se correndo por estradas perigosas ali, aumentando a velocidade a cada minuto. Era insano e delicioso.
Já não eram mais crianças e foi ali, nos braços do amado, com o coração repleto de amor mal demonstrado, que ela se entregou à ele. Não importava se Fred estaria com ela depois ou não, se aquele lugar não era uma lua de mel ou se poderiam ser pegos a qualquer momento. Ela estivera triste imaginando que nunca mais o teria e agora que estava ali, tão próxima, queria tê-lo completamente para si enquanto lhe era possível.
Ele lhe pousara o corpo sob a mesa em que trabalhava jogando ao chão tudo o que estava ali. As mãos ágeis dedicavam-se a retirar a camiseta dela sem pudor algum enquanto ela arfava sentindo o corpo arder em chamas vivas. Não via a hora do garoto roçar os lábios no seu corpo de novo e quando sentiu isso outra vez, a sensação pareceu levá-la ao paraíso.
Conforme a boca dele mordiscava e beijava a área do seu pescoço até o colo, ela enlaçava os dedos envolta do pescoço dele, sussurrando coisas que não faziam sentido nem a si mesma. Como podia estar discutindo com ele há poucos minutos se agora se entregava desse modo tão completo? Não sabia dizer, apenas sentir e tocar.
Quando ele a tomara nos braços com a urgência de tê-la ali, não importava o que tinha ao redor. Era ele e ela, duas pessoas que se amavam e não sabiam como ficar juntas, unindo seus corpos no mais sublime amor. Não havia a Toca, os Weasley, Harry ou Hogwarts quando os dois atingiram o céu. Era apenas o toque macio dos cabelos de Hermione e o cheiro adocicado da pele de Fred, embalando os dois até que surgisse coragem para que se olhassem de verdade. Um sorriso surgiu ali.
Conseqüências sempre existiriam, mas quando as causas eram tão incríveis quanto aquele momento, elas valiam o preço.
