História Dez: A Senhora da Justiça

O som morreu rapidamente.

O homem que vinha era alto, forte, com um rosto marcado pelas batalhas. Seu elmo em um de seus braços era sua característica marcante, assim como seus olhos violeta. Ele possuía um rosto em cada lateral. Um rosto feliz maligno e um triste bondoso. Caminhando lentamente, um pouco atrás do homem trajando sua armadura, vinha um ser que possuía um longo manto negro, vários colares e um elmo dourado completo que escondia seu rosto. Por trás da cabeça, um longo cabelo cinza pendia até a metade das costas.

Quando lorde Isaac de Gêmeos se posicionou em seu devido lugar, todos fizeram uma reverencia a presença santa do Grande Mestre. Ele se pôs no lugar vazio no centro do círculo, bem abaixo da maquete. Passando os olhos em todos calmamente, parecia analisar cada um com seu olhar não visível. Ele deu um longo suspiro de cansaço.

- Bem vindos, e agradeço a todos por terem despertado. Sei que foi algo extremamente inconveniente, mas é necessário ficarmos alerta ao que vamos ouvir.

- Algo muito inconveniente sim, Vossa Santidade – falou Aniel exaltado, mas logo baixou o tom de voz ao ser observado pelos companheiros –, mas, da forma como fala, deve ser algo realmente merecedor de nosso sacrifício.

- Sua Santidade, perdoe-me, mas o senhor disse "ao que vamos ouvir"? – falou Delfos – Não será o senhor que irá falar nessa reunião.

- Sim, Delfos, não serei eu. Estou apenas como ouvinte. Se a reunião não fosse tão importante assim, eu a faria acontecer com o tempo certo predeterminado. Mas não foi eu quem a convocou.

- Então, quem foi…

Um raio de sol cruzou a sala, anunciando uma nova manhã que despertava. Juntamente com a luz que agora começava a surgir no horizonte, uma presença pacífica cobriu o ar, todo o ambiente. Era algo tranqüilo, que acalmava os corações mais exaltados, os mais tristes, os mais malignos. Vindo por umas das aberturas laterais, acariciando uma das belas colunas com suas mãos delicadas, uma mulher belíssima, com um longo vestido rico em detalhes, caminhava em direção ao grupo. Todos estavam admirados com tamanha presença ali. Todos, inclusive o Grande Mestre, se puseram de joelhos diante da Senhora da Paz e da Guerra, escolhida como guiadora da humanidade, Atena.

Ela apenas trazia seu cetro na sua mão direita. Seu cabelo castanho encaracolado e com longas mechas estava perfeito, seus olhos azuis claros fariam qualquer um cair aos seus pés, apaixonado. Ela pediu para que todos se levantassem, falava com seus cavaleiros como iguais. Ocupou o lugar vazio de Leão, ainda sem um cavaleiro para vestir a armadura.

Olhou poderosa para todos, tomou ar e falou. Suas palavras soavam como canto de ninfas.

- Bom dia, meus cavaleiros dourados. Desculpem por minha arrogância e pelo atraso momentâneo. Estava conversando com meu Pai. Fui eu que os chamei aqui. – fez uma curta pausa – O assunto é grave. Peço que prestem muita atenção no que direi.

"Há quase vinte anos, Atenas e Esparta vem disputando um conflito de importância humana, ou seja, assuntos que devem ser desconsiderados pelos Deuses. O motivo político dessa disputas todos já sabemos: a questão da soberania Ateniense sobre a Liga de Delos. Esparta não aturou tal fato, e aproveitando da situação crítica ao qual se encontrava, aliou-se com outras Cidades-Estado também inconformadas para destronar Atenas. A Guerra de Peloponeso".

Ninguém se atrevia a falar enquanto a deusa continua-se.

"Isso tudo já é fato de vocês. Durante todos esses anos de guerra, a Grécia vem sofrendo perdas consideráveis. Está tornando-se frágil a ataques estrangeiros, e a desunião entre as Cidades-Estados alcançou proporções desagradáveis. A cada dia sinto a morte de preciosas vidas em um combate desumano. Foi por isso que mandei lorde Rhodes de Câncer para o campo de batalha, mas impedi que ele luta-se. Sua armadura residia aqui, no Santuário, até ele retornar. O conhecimento de Rhodes sobre as guerras e sobre a paz está ajudando a acabar essa guerra mais rapidamente. Tratados de paz estavam em questão, e só precisávamos aguardar respostas boas. Mas agora…".

Ela parou para respirar melhor. Estava nervosa, triste com algo. Sua preocupação era notável.

"Agora não haverá mais paz. Há algum tempo não venho recebendo notícias dos campos de negociação, e de alguma forma a armadura selada de Câncer libertou-se e foi ajudar seu guardião, o que implica em um grande perigo. Por fim, Ares, senhor da Guerra e meu irmão, acredita que sou uma traidora do antigo código dos Deuses".

Todos ficaram incrédulos com a notícia. Ares, senhor da Guerra, acredita que Atena, senhora da Justiça, quebrou um código que ela dá a vida para defender? Como ele se atreve a tanto?

"Ele alega que estou insana, obcecada pela minha causa. Alega que meu querer pela humanidade se tornou algo isolado somente a sociedade ateniense. Diz que não estou orando por TODA a humanidade. Se não fosse isso, teria mandado também alguém para ajudar o lado de Esparta. Ele vê minha atitude como uma ação unilateral, achando que desejo a onipotência de Atenas sobre Esparta, sua cidade guardiã, assim como Atenas é para mim. Com tudo isso, Ares pediu permissão ao nosso Pai para cobrar a devida vingança pelas minhas atitudes incoerentes".

- Isso quer dizer, minha Senhora, que a batalha irá atingir proporções devastadoras? Ares deseja nos combater com seus guerreiros, é isso?

- Sim, Telo de Escorpião. Sim… – sua voz quase sumiu quando terminou de falar.

- Mas isso tudo é um absurdo! – Aniel exaltou-se novamente, ignorando os companheiros – Como um deus se atreve a julgá-la mal, minha Senhora? Logo o seu irmão. Acreditar que a Senhora não é justa para com os humanos é o mesmo que dizer que somente a guerra resolve os problemas.

- Meu Pai concordou com Ares, jovem Aniel. Infelizmente teremos que combater Ares, pois se ele atingir sua meta, além de destruir todo o Santuário e cobrir toda essa terra com sangue, ele será coroado como novo guiador da humanidade. Todos os Deuses sabem que Ares é incontrolável e sedento por guerras. Não é a toa que Esparta é uma cidade guerreira. Enquanto eu vivo pela paz, meu irmão vive pelo conflito. Não cabe a mim decidir as vontades humanas, apenas devo guiá-los para um destino melhor. Meu Pai vos concedeu o livre-arbítrio, são vocês quem devem dizer que caminho seguir. Ares culpa-me por ter influenciado tal decisão diretamente. Dessa forma ele possui o direito de "corrigir o erro" a sua maneira, pois foi quem alertou para o fato. Logicamente ele escolheu o método que o mais agrada para punir-me, criando assim uma Guerra Santa. Agora devo proteger não só os humanos, mas aos meus Cavaleiros também.

- Lutaremos. – Aniel prontificou – Lutaremos ao seu lado, pois esse é o nosso dever.

- Proteger a Senhora e a humanidade é nossa missão – Ícaros apoiou Aniel. – Se nós devemos lutar, que lutemos. Foram os guerreiros de Ares que atacaram o Santuário para dar aquele aviso. Então, todos os Cavaleiros se prontificarão a ajudar no quer for preciso.

- Não! – Atena falou um pouco impaciente. – Não quero que uma guerra aconteça aqui. Já não basta a luta entre Atenas e Esparta pelo domínio da Grécia. Farei o que for necessário para impedir essa luta. Estão proibidos de incitar o espírito de batalha no coração dos outros Cavaleiros!

Todos concordaram, cabisbaixos, exceto Ícaros, que olhou do Grande Mestre para Atena.

- Acho que Sagitário concorda comigo, minha Senhora. – falou o Grande Mestre, observando-a.

- Esse sentimento não mais pode ser contido, minha Senhora. – disse Ícaros sério.

- E por que não? – perguntou a deusa.

- Porque o jovem Orrin de Cão menor foi hoje cedo atacado por um dos guerreiros de Ares. E Serafim de Taças já deve saber de quem se tratava, pois ele é um profundo conhecedor das outras culturas gregas. Além disso, a mensagem deixada pelo Mensageiro da Destruição está sendo lida por todos aqueles que passarem pelo portão destruído. Todos já devem saber que Esparta está reclamando sua vingança contra o Santuário. É só juntar as peças dos acontecimentos noturnos e teremos um Santuário pronto para o combate hoje à tarde.

- Minha Senhora, Ares fez de tudo para que o Santuário por completo soubesse que ele quer uma guerra. – o Grande Mestre falou calmamente – Ele já previa que a Senhora não desejasse tal conflito. Agora, as pessoas do Santuário se prepararão para o pior. Ares implantou o temor e a fúria no coração do Santuário. Confirmo a informação do lorde Ícaros. A guerra agora é inevitável. Mesmo que a Senhora nos proíba de lutar, Esparta nos atacará. Teremos que nos defender, de uma maneira ou de outra.

- Que seja. – disse Atena, agora mais séria – Então vamos nos defender. Enquanto não permitir, ninguém deixará o Santuário. Resolverei isso a minha maneira. Vamos esperar que venham até nós. Estaremos preparados.