A Verdade
Sinceramente?
Azkaban era um lugar nojento.
Tudo bem que fosse cheio de murmúrios e lamentos e de pessoas sofredoras. Você esperava algo diferente de uma prisão?
Tudo bem que fosse cheio de Dementadores para sugar a sua vida...
Mas sujo?
Qual a necessidade disso? Será que alguém não poderia pegar a porcaria da varinha e fazer uma mágica de limpeza?
Outro ponto era: porque não me deixavam usar as minhas roupas? Eu tinha que usar aqueles trapos?
Bem que... Pensar nas minhas roupas, lindas e maravilhosas, ali naquele lugar sujo...
É, talvez fosse melhor assim. Aquela blusa branca de malha imunda e a calça azul marinho que me lembrava aulas de educação física.
Mesmo assim, eu não tinha como ficar feio.
Outra coisa realmente desnecessária naquele cubículo era... A janela.
Ah, realmente, para quê eu ia querer uma janela? Para olhar o tempo lá fora e ver se é melhor sair com um casaco ou guarda-chuva?
Não era como se eu fosse sair!
E aquele sol... Ah, aquele sol... Aquele mistura de amarelo e laranja... O fogo.
Gina Weasley.
E seus cabelos escandalosos de fogo.
Ela não tinha reagido bem à minha revelação. Bom, e como eu poderia querer algo diferente disso?
Porém, a lembrança daqueles olhos arregalados, que eu tanto amava, agora me gerava uma sensação de que algo se quebrava dentro de mim... Como se uma parte interna fosse se dilacerando aos poucos.
" – Não pode ser! – ela disse. – Você é Alex Villard! Não é Draco Malfoy!
Hermione e Rony a seguravam. Se não, ela provavelmente já teria me agarrado e mandado que eu parasse com aquela idiotice. Às vezes, desejo que ela tivesse mesmo feito isso.
- É verdade sim, Gina. – Hermione disse.
- Não, não é! – ela estava ficando vermelha de raiva.
Todos da família tentavam intervir. Mas eu sabia que não adiantaria.
- Sou sim! – eu disse, a voz mais firme, como jamais usei com ela.
Ela parou como uma estátua, e seus olhos se encheram de lágrimas.
Uma parte dentro de mim começou a se partir.
- Como? – ela perguntou, num sussurro.
Como?
Eu não sei se eu poderia explicar isso. Eu também não fazia ideia.
- Eu menti. – afirmei. E vi as lágrimas escorrerem pelo rosto dela.
E mais uma parte de mim se partiu.
- Como assim mentiu?!
- Eu não sou Alex Villard.
Ela apenas chorava. Muito. Os olhos arregalados dilacerando partes de mim.
- Eu sou Draco Malfoy. – eu repeti.
Com o meu consentimento, os policiais me algemaram.
Gina olhava para o nada.
Eles me levaram para fora e tudo o que eu vi, quando virei a cabeça para vê-la uma última vez, foi a Gina correr para longe, esbarrando em tudo a sua volta.
Eu sabia que ela estaria segura. Sua família estava ali."
Mas se o seu coração estava dilacerado como o meu, acho que segurança nenhuma faria diferença.
Nem a de Azkaban.
Dementadores? Há.
Eram fichinha. Como podiam sugar a vida de alguém que não tinha mais vida nenhuma para ser sugada? A minha vida não existia mais.
~~~###~~~
Eu decidi não contar os dias que eu estava ali.
Fazer isso era deprimente.
Não saber era a melhor opção.
Eu provavelmente não sairia dali mesmo.
E, para ser sincero, eu não achava que deveria sair.
Ficar preso era tudo o que eu merecia.
Afinal, eu não era um cara bom.
Mesmo assim, apesar da minha opção pelo esquecimento, eu ainda tinha alguma boa noção do tempo.
E por volta da terceira semana que eu estava ali, recebi uma visita inesperada.
Molly Weasley.
E o filho ex-gêmeo dela.
No início, eu não queria "recebe-los".
Porém, eu sabia que devia isso a eles. Seja lá o que fosse acontecer, eu merecia ouvir suas palavras de arrependimento.
E ainda, era uma chance de saber da Gina.
Descobri que, quando visitas chegavam, eu era levado para uma ala de Azkaban muito menos agressiva e suja. Lá não havia Dementadores.
Apenas paredes de pedra, mesas e cadeiras. Ah, e janelas. Aquela incansável lembrança de que havia um mundo do lado de fora.
Assim que entrei na sala, guiado por uma espécie de carcereiro, Molly veio até mim.
- Olá, Draco. – ela disse, para a minha surpresa, e me deu um abraço.
Um abraço?
Eu não queria aquele abraço. Ela não era minha mãe ou coisa assim... E mesmo que fosse, não faria sentido me dar um abraço.
Porém, o abraço aconteceu mesmo assim.
E eu me senti realmente estranho.
Pensei que ela fosse me maltratar, criticar, brigar... Achei que eu estava ali para ouvir que eu era um canalha...
E eu era mesmo.
Quando Molly se afastou, pude ver Jorge abaixar a cabeça, num cumprimento silencioso.
Eu fiz o mesmo.
Então, me sentei.
Molly e Jorge sentaram do outro lado da mesa.
O carcereiro deixou a sala.
- Este lugar é horrível. – Molly comentou. – Você está se alimentando direito? Eles dão alguma coisa decente para vocês comerem aqui?
Que tipo de pergunta era aquela?
Merlin, eu tinha acabado de destroçar a vida da sua filha!
- Dá para sobreviver.
- Foi mal dizer isso, cara, mas você está com olheiras. – Jorge disse.
Cara?
Tínhamos virado parceiros, agora?
- Espero que vocês tenham trazido alguma maquiagem para mim, então. Eu odeio olheiras. – comentei.
Fazer piadas parecia uma saída segura naquele momento.
Jorge riu, mas Molly permaneceu séria, olhando para mim.
- Nós realmente estamos preocupados com você. – ela disse. – Ninguém esperava pela... Prisão.
- Eu esperava. – murmurei e, tirando forças de algum lugar aparentemente inexistente, ergui os olhos. – Mas não esperava que fosse acontecer justo no dia da exposição...
Pude ver os olhos dela brilharem, emocionados.
Então, ela esticou uma das mãos para segurar as minhas.
E eu senti aquele pedaço vazio dentro do peito arder.
Ela não podia fazer isso. Será que aquela mulher não tinha ideia de quem eu era?
De quem eu sou?
Bom, talvez eu devesse deixar isso claro de uma vez.
- Eu sou um Comensal, Sra. Weasley. – eu disse. E então, ergui a blusa para mostrar a marca no meu braço. Ela pareceu assustada diante da imagem. – Eu fiz coisas horríveis com as pessoas. Matei trouxas, torturei animais. Eu realmente não faço ideia de porque vocês estão aqui.
As feições de Molly endureceram, e ela pareceu prestes a me dar uma bofetada ou algo assim.
- Isso não é novidade para mim, Draco. – a sua voz quase fez o teto desabar. – Que você foi um Comensal, disso todos sabemos.
- Então? – perguntei, erguendo uma sobrancelha. – O que estão esperando?
- Eu não sou mulher de esperar nada dos outros. – ela disse. – Eu apenas torço que você se lembre que não é apenas um Comensal. Você não é bom. Nem mal. Nenhum de nós é.
Aquela dor no peito estava realmente se tornando insuportável.
"- Eu não sou quem você pensa que eu sou.
- Eu sei. – os olhos dela estavam brilhando. – Você é muito mais lindo e especial do que eu jamais possa imaginar."
Com vontade de sufocar aquela dor, me levantei rapidamente e fui até a porta.
- A Gina ama você, Draco.
Eu paralisei. Que porcaria de dor é essa?
- Ela não pode. – eu disse, sem olhar para trás.
- Mas ela ama. – Molly continuou. – E tudo isso está doendo muito para ela também.
Eu realmente não quero saber!
- Mande que ela esqueça. – eu disse, e finalmente saí.
Encontrei o carcereiro do lado de fora e fomos direto para a minha cela.
- Eu não quero mais receber visitas. – eu disse a ele.
- As coisas não são como você quer. – ele me respondeu.
Errado. Sempre são.
Depois desse dia, ninguém mais veio.
Pelo menos, até que eu não pudesse mais controlar o tempo.
~~~###~~~
Eu estava na janela, me deliciando com mais uma dose de uísque, quando ela apareceu por trás, colando o corpo em mim:
- Você não acha que já bebeu demais, não? – sussurrou em meu ouvido.
- Não. – eu disse, e bebi mais um pouco. – Você está contando?
- Aham... – ela murmurou.
Assim que me virei, encontrei-a envolvida por apenas uma toalha. Os cabelos vermelhos magníficos caíam como uma cascata sobre o ombro.
Sem nenhuma palavra, observei-a soltar a toalha, que foi parar no chão.
Senti todo o meu corpo reagir diante daquela visão... Seu corpo branco, as sardas nos ombros, os seios claros e empinados, a barriga lisa, o umbigo perfeito... As coxas torneadas...
Observando minha reação, ela sorriu.
Sim, ela podia ver...
Como num passe de mágica, eu também estava nu, e tudo o que fiz foi erguer o seu corpo e penetrá-la com toda força.
- Oh, Draco... – ela arfou, agarrando meus quadris com as pernas.
Ela sabia que era eu.
Fechei os olhos, a beijando com fervor, movimentando-me dentro dela...
- Isso... – ela sussurrou no meu ouvido, e eu continuei com os movimentos. – Está perfeito...
Eu a apertei com mais intensidade.
- É assim que se faz, Draco...
Aquela voz...
Me afastei ligeiramente para constatar que...
Quem eu tinha no colo não era Gina Weasley...
Era Narcisa Malfoy.
E ela sorria. Numa mistura sexy e autoritária...
Senti todos os nervos congelarem, enquanto eu tentava larga-la, mas, de repente, parecia que eu não tinha forças...
- Ei, Malfoy! – ouvi ao longe. – Acorda!
De repente, tudo ficou preto.
- Você tem visita!
Era a voz do carcereiro.
Eu não estava mais com a Gina... Ou com a Narcisa.
Eu estava na minha cela em Azkaban.
Merda de sonho.
Me erguendo da cama, vi que estava pingando de suor.
Abri a bica e coloquei a cabeça em baixo, deixando a água escorrer por toda a nuca.
Quem viria me visitar?
Talvez a Molly... Ela não tinha vindo mais.
Bom, na verdade ela vinha deixar doces para mim. Bolo de cenoura, pudim de leite, tortas de fruta...
Mas não me visitava mais, diante da minha reação nada agradável no último encontro.
Porém, talvez ela quisesse voltar a me visitar.
Mas se achava que doces maravilhosos iam mudar o meu humor, estava enganada...
Quando entrei na sala, porém, a minha surpresa foi grande.
- Weasley? – eu perguntei, incrédulo.
- Eu mesmo. – ele disse.
- E Granger?
Eu revirei os olhos ao ver o sorriso inteligente dela.
- Realmente... É uma visita inesperada. – eu comentei.
- Eu fui forçado. – o Weasley disse.
Eu deixei um sorrisinho sarcástico escapar.
- Posso imaginar o que a Granger faz para te forçar.
Ele apenas fez uma careta.
Então, o carcereiro saiu.
- Podem sentar. – eu comentei, apontando para as cadeiras do outro lado da mesa. – Fiquem a vontade.
Eles se sentaram. Eu também.
- Eles não oferecem um cabelereiro para vocês aqui? – a Granger perguntou.
Eu sabia ao que ela se referia. Meus cabelos já estavam quase alcançando os ombros.
E a minha barba então...
- Eu costumava fazer a barba e cortar o cabelo com magia. Mas eles não deixam que utilizemos magia aqui dentro, sabia? – eu zombei.
Ela apenas deu um sorrisinho idiota.
- Bom, vamos logo ao assunto que nos trouxe aqui. – ela disse e cruzou os dedos como se fosse uma advogada em meio a um caso.
- Eu agradeço. Não aguento olhar muito tempo para esse cabelo horrível do Weasley.
Ele estava prestes a me agradecer pelo elogio quando a Granger segurou o braço dele.
- Não vamos perder tempo com isso, ok? – ela disse, sem paciência. – Olha só, Malfoy: o assunto que nós temos a tratar é do seu total interesse. Então, se você nos ajudar, podemos terminar isso logo, está certo?
Eu apenas movimentei a cabeça.
- Ótimo. – ela disse. – Nós conversamos com um advogado. E ele conseguiu um requerimento de defesa para você.
É o quê?
- Um requerimento de defesa?
- Sim. Faz seis meses que você está preso, Malfoy. – ela começou. – Por ter sido um Comensal, e ter agido a favor de Voldemort em várias ocorrências, você não tinha nenhum direito a defesa.
- Ok. Faz todo sentido. – eu disse.
- Mas não faz. – ela disse.
Será que ela estava ficando maluca de vez?
- Granger, eu sempre soube que você tinha um raciocínio rápido, mas esse está realmente fora do meu alcance.
- Nós sabemos que você agiu contra ele. Nós sabemos que você tem seu direito de defesa.
Tudo bem.
Agora quem estava perdendo a paciência era eu.
- Posso saber com que direito você revela isso para um advogado qualquer? – eu perguntei, elevando a voz.
- Ele é meu amigo, Malfoy!
- Não importa! – eu berrei, sentindo a têmpora latejar. – Se ficam sabendo, estou morto! Por que você se mete nisso?
- Porque você não deveria estar aqui! Será que não entende isso? Você está preso injustamente!
- E o que você me diz de quando eu for assassinado? Vai dizer que foi justo?
- Nós podemos conseguir segurança para você!
- E eu vou ter que viver perseguido? Se não por Comensais, por seguranças?
A Granger cobriu o rosto com as mãos e o Weasley decidiu reagir.
Era só o que me faltava.
- Escuta aqui, Malfoy, nós viemos ajudar. Mas, pelo visto, você não quer porcaria de ajuda nenhuma! Então nós vamos embora.
Os dois se preparam para sair.
Eu estava realmente irritado.
Então, numa última tentativa de manter algum contato com a realidade, perguntei:
- Que dia é hoje?
- O quê? – a Granger ergueu a cabeça.
- Que dia é hoje?
- Dia 27 de abril. Por quê?
- Não sei se você sabe, mas nós não temos calendários aqui.
- E por que você quer saber o dia se não pretende sair?
- Bom, sabe como é, quero saber quanto tempo tenho de vida, quantas noites sem dormir, quantos dias sem sexo...
Ela fez uma careta. Depois, se aproximou novamente.
- Eu sei por que você faz piadas, Malfoy. Elas servem para te manter vivo. Acho que sem elas a sua sanidade já teria te abandonado por completo. Sei que você quer apagar a realidade com elas, mas não dá.
Aquela sujeitinha sangue-ruim sabia falar.
- Por que você se importa? – perguntei. Era quase outra piada, na verdade.
- Porque eu acredito em você, Malfoy. – ela disse antes de sair. – E a Gina também.
Eu a odiava por isso. E a odiava ainda mais por me fazer lembrar a Gina.
Como se eu tivesse a esquecido por algum momento...
Sonhos eróticos?
Eram quase todas as noites.
Sonhos de Comensal... De dois em dois dias, pelo menos.
E a Gina sempre arranjava um jeito de se meter no meio. Fosse para me atacar, fosse para me salvar, ou até mesmo matar ou morrer.
Talvez a Granger estivesse certa. Eu devia mesmo estar perdendo a sanidade.
Tive essa certeza quando, três dias depois, encontrei a Gina na sala de visita.
É, eu devia estar sonhando de novo.
Mas não...
A Gina dos meus sonhos podia ver. Ela enxergava perfeitamente.
A Gina que estava ali, a minha frente, tinha os olhos desfocados...
- O que você está fazendo aqui? – eu perguntei.
Se fosse um sonho, era melhor que sumisse de vez, antes que tudo desse errado.
Gina ergueu os olhos, assustada, e mal se mexeu.
Não era um sonho... Era ela mesma.
Então, fiquei com medo de ter falado duro demais.
Gina usava uma calça jeans azul escura e um casaco comprido verde, que quase alcançava os joelhos.
Os cabelos estavam maiores, e presos numa trança. Eu nunca a tinha visto de trança.
O meu coração bateu mais forte, ao perceber o quanto era linda. Ainda mais do que eu lembrava. Ainda mais do que em meus sonhos.
Era real.
- Eu vim... – ela hesitou por um instante. – Eu vim conversar com você.
Por que você não veio antes?! Por que tanto tempo depois? O que você quer agora?
Mas eu me controlei.
- Sente-se. – consegui dizer e quase contornei a mesa para puxar a cadeira para ela, mas Gina logo demonstrou que se viraria bem sozinha.
Como sempre.
Ela se sentou.
Eu ainda fiquei de pé por um tempo. Era difícil me mover.
Gina mexeu em sua trança comprida, depois colocou alguns fios soltos para trás da orelha.
Eu consegui, finalmente, me sentar.
- Sobre o que você quer conversar? – perguntei.
- Eu quero fazer um pedido.
Um pedido?
- Que pedido?
- Você não disse se vai aceitar. – ela comentou.
Eu arqueei uma sobrancelha, imaginando o que ela estaria tramando.
Mas a verdade era que o meu coração estava aos pulos por ela estar ali. E eu tinha que fazer uma força enorme para travar meu corpo e minhas reações.
- Você não espera mesmo que eu aceite sem saber o que é, não é? Você me conhece, Gina...
Percebi a emoção em seus olhos assim que a tratei como antes.
Droga. Eu não pude evitar.
Porém, ela pareceu incomodada.
- É... Acho que sim.
Um pouco de silêncio.
Aquela situação não era boa, eu sei. Mas eu não podia evitar a sensação de poder respirar de novo.
- Por que você não faz o seu pedido? – sugeri.
Ela meneou a cabeça.
- Tudo bem. Vou fazer.
- Por favor. – eu disse.
Ela inspirou fundo e suas feições ficaram sérias.
- Eu vim aqui pedir para você aceitar a ajuda de um advogado, admitir o que você fez, e ir a julgamento.
Por um momento, eu tive vontade de trucidar a Granger. No momento seguinte, porém, eu queria abraça-la porque, se não fosse por ela, a Gina não estaria ali...
Mas... Merda. Eu não podia fazer o que ela pedia.
- Eu não posso...
- Por que não?
- A Granger...? Ela te contou tudo?
- Não. – Gina disse. – Ela apenas me disse que você tinha esse direito... Por causa de ações do passado.
- E ela não te disse que ações foram essas?
- Não. – ela respondeu. Eu não estava entendendo muito bem. – Eu pedi que ela não me dissesse. Porque eu queria que você me contasse.
Os olhos dela estavam curiosos e ansiosos por uma resposta.
Tudo o que eu queria era envolvê-la nos braços e sentir o gosto daqueles lábios outra vez.
- Você acha mesmo que eu vou te contar?
Talvez eu pudesse chantageá-la. Uma história interessante em troca de um beijo. O que acha?
Mas eu sabia que seria canalhice demais.
Eu era um canalha. Mas covarde demais para isso.
- Por que não? – ela indagou.
- Você acredita mesmo que eu vá dizer a verdade? – perguntei, incrédulo.
Ela ficou em silêncio por um tempo, a cabeça baixa.
- Você nunca me negou nada. – ela finalmente disse.
E era realmente verdade.
Mas isso não fazia de mim o cara mais confiável do mundo.
Porém, eu estava louco para contar.
Talvez... Por não ter tido a chance de dizer quem eu era... Teoricamente, seria revelar uma realidade péssima: que eu era o Draco Malfoy, e não Alex Villard.
Mas agora eu tinha a chance de contar algo realmente... Legal da minha parte.
Talvez, ela pudesse acreditar que eu não era tão mal assim.
Mas seria idiota se fizesse isso.
- Eu vou contar. – afirmei. – Mas que fique claro que não estou fazendo promessas aqui.
Ela assentiu.
Eu apoiei os cotovelos sobre a mesa, puxei o ar com força, sentindo os pulmões expandirem, e comecei:
- Como você sabe, eu era um Comensal.
- Sim. – ela disse, ante a minha pausa.
- Bem, eu tinha dezessete anos quando fui chamado para a Iniciação. E, posso dizer com toda a certeza, nós não fazíamos coisas boas na Iniciação. Muito menos a partir daí.
Eu travei um pouco, sem saber o quanto revelar.
- Que tipo de coisas? – ela perguntou, ainda curiosa.
- Coisas do tipo que uma garotinha ingênua não gostaria de ouvir.
- Eu não sou uma garotinha ingênua. – ela disse, irritada.
- Eu não disse que você era. – comentei. – Mas acredito que mesmo mulheres maduras como você não gostariam de saber.
Ela se endireitou na cadeira.
- Tudo bem. Pode continuar.
- Nós agíamos fora da lei, cometíamos torturas e assassinatos, para resumir. Os trouxas eram alvos fáceis. Os bruxos, nem tanto. Mesmo assim, continuei a agir ao lado de Voldemort e dos meus pais por mais alguns anos.
- Até a Grande Guerra. – Gina completou.
Será que ela... Saberia?
- Sim, até a Grande Guerra. – esfreguei as mãos, percebendo que estavam suadas. Seria nervosismo? – Bem, eu não posso dizer que eu gostava dessa vida. Na verdade, eu passava mal quase todo dia. Vomitava, desmaiava... Estava começando a parecer um inútil para a maioria dos Comensais... Ainda assim, eu era o filho do Lúcio Malfoy. Eu era o dono da mansão Malfoy, e de uma fortuna incompreensivelmente ostensiva.
- Eles respeitavam você. – Gina concluiu.
- Não. Eles temiam. Temiam a meu pai e a Voldemort. Mas eu, não. Tudo seria melhor do que continuar aquela vida. Morrer? Ser torturado? O que podia ser pior do que passar o resto da vida rastejando atrás de um ser completamente insano e sem... Sentimentos?
Os olhos da Gina brilharam:
- Eu nunca imaginei como você poderia ter sido capaz de tudo isso...
- Nem eu. – murmurei. – Mas eu fui.
Ela não disse nada, então continuei:
- Poucos dias antes da Grande Guerra, fomos avisados do dia da Última Batalha. Nós invadiríamos Hogwarts, acabaríamos com tudo e o mundo seria dominado por nós. Meus pais estavam deslumbrados com essa possibilidade. Eu estava cansado. Cansado de ter que viver comandado, fazendo o que eu não queria, me sentindo mal...
- Então? – ela perguntou, ansiosa demais.
Eu deixei um sorriso escapar.
Em outras situações, eu brincaria com ela. Agora, era melhor continuar:
- Então, decidi que a única maneira de me livrar daquilo seria... Contando aos Aurores sobre a batalha planejada.
Os olhos de Gina se arregalaram.
- Você...?
- Eu arranjei um jeito de falar com a McGonaggal... Pensei que ela estivesse no comando desde a morte de Dumbledore. Eu disse a ela que os Comensais estavam preparados para invadir Hogwarts de muitas formas e contei a ela toda a nossa estratégia de combate. Acredito que não tenha sido suficiente para impedir a Batalha, mas acredito que foi essa escolha que comprou a minha liberdade.
- E salvou a todos nós... – ela murmurou, os olhos ainda arregalados e cheios de... Lágrimas?
- Não a todos.
- Foi o que me salvou.
Meu coração acelerou, e o espaço vazio no peito pareceu diminuir...
- Você ficou cega, depois disso.
- Isso não foi sua culpa.
- Foi sim. Culpa da Guerra. Culpa minha.
Ela não disse mais nada. Sabia que eu estava certo.
O espaço vazio no peito aumentou.
- Por essa informação, - continuei - alguns Aurores me deram passe livre. Ainda assim, eu era um Comensal. E, apesar do que dizem, ainda há Comensais por aí, prontos para matar qualquer traidor. Eu sou um traidor.
- Não. – ela afirmou. – Você não é um traidor, você é um herói.
Ela realmente achava isso?
- Eu traí os Comensais, Gina.
- Você não é um Comensal! Você nunca foi!
Ela estava ficando insana.
- E o que você acha que é isso aqui? – perguntei, erguendo a manga da blusa. Com rapidez, segurei a sua mão e a puxei até o braço para que sentisse. – Posso te garantir que não é uma tatuagem.
Ela respirava rápido.
Sem que eu esperasse, Gina se aproximou de mim, puxando-me pela gola.
- E isso aqui? – ela murmurou, tocando meu peito com a mão. – Seu coração também possui essa marca?
O toque dela, por mínimo que fosse, eletrizou todo o meu corpo.
O cheiro de morango dos seus cabelos inundou todo o ambiente.
Eu só precisava abaixar um pouco a cabeça para tocar sua testa com os lábios.
- Gina, você não pode. – eu murmurei.
Eu queria beija-la, abraça-la... E nunca mais deixar que fosse... E eu sabia que se ficasse ali mais um segundo...
- Por quê?
- Porque não... Você não sabe o que está fazendo. – eu disse, e me afastei.
Ela ficou brava.
- Por que você mentiu para mim? – ela perguntou e eu me assustei com a sua pergunta. – Por que você continua mentindo?
Porque eu tive medo de te perder.
Mas eu não podia dizer. O que eu queria? Que ela ficasse do lado de fora esperando por mim a vida toda? Que levasse doces para mim no fim de semana?
- Gina, eu sou um mentiroso. – afirmei. – Eu gosto de mentir.
- Isso é mentira. – ela disse.
- Está vendo? – eu ri. Mas queria mesmo era chorar.
- Você vai aceitar o meu pedido? – ela perguntou, de supetão.
Eu parei, tentando me lembrar...
- Eu já disse que eu não posso.
- Você me deve isso. Você me deve isso por tudo o que você disse esse tempo todo. Por todos os momentos que passamos juntos. Por todas as noites de amor, Draco Malfoy. Você me deve isso.
Eu a olhei, surpreso.
Draco Malfoy. Era a primeira vez que ela me chamava assim.
Era o meu nome. Por mais babaca que eu fosse, eu era o Draco Malfoy.
E por mais pura que fosse, Gina Weasley era uma mulher insuperável.
E quem poderia negar um pedido desses?
~~~###~~~
N/A: Bom dia!
Escrevi o capítulo em dois dias! Fiz a revisão hoje e postei logo!
Esse capítulo tem um tom mais melancólico, meio depressivo. Escolhi a música Forgive Me, do Evanescence, para entrar no clima. É uma música linda, na verdade. Baixem e escutem!
Não sei se eu comentei, mas música é a minha vida. Eu sou professora de música. E não consigo passar um dia sem ouvir. Na hora de escrever, então, ouço música de todos os tipos... Vou recomendando mais, se quiserem!
Agradecimentos especiais!
Michele: Também fiquei com pena da Gina. Era para ser um dia muito especial. Mas a vida é uma caixinha de surpresas. E a Gina é mais forte do que imaginamos. Obrigada pela sua presença constante em todos os capítulos!
Stephanie: Admito que eu estava ansiosa por uma review sua! Quando apareceu, fiquei muito feliz! Quero mais! Hahahaha...
Vocês, leitores, são meu motivo de escrever e compartilhar. Espero ansiosamente por seus comentários tanto quanto vocês esperam por um capítulo. Penso em vocês enquanto escrevo, fico me perguntando o que vocês acharam...
Não me deixem curiosa! Quero reviews!
Beijos,
Amanda Cunha
