O ARMÁRIO DE VASSOURAS
Confesso que pensar antes de agir nunca foi o meu ponto forte. Quando entrei no vestiário, vi Cedric terminando de guardar as vassouras em um armário e corri em direção a ele, lágrimas já se formando em meus olhos. Quando percebi, já estava com os braços em volta do pescoço do garoto, que, depois de passado o susto, envolveu os braços em volta do meu corpo. Fui tão brusca em meu movimento que fiz com que nós dois caíssemos meio sentados, meio deitados dentro do armário.
- Por favor, desista desse torneio estúpido – eu chorava – por favor, por favor.
- Por que está dizendo isso? – ele perguntou, surpreso. Eu não respondi e escondi meu rosto em seu peito. O que eu diria, afinal? Que tive um pesadelo e que por isso ele deve desistir de competir? Que eu pressentia que algo de ruim aconteceria? Era ridículo. Desci minhas mãos até a cintura dele e o envolvi com força, enterrando meu rosto mais ainda em seu peito, para que ele não me pudesse ver chorando.
- Amy? – ele perguntou, calmamente – por que está chorando? O que está acontecendo?
Ele parecia ficar cada vez mais preocupado e então afastou-se um pouco de mim, o suficiente para conseguir levar uma de suas mãos até meu queixo e levantar meu rosto.
- O que houve? – ele repetiu a pergunta.
- Você não pode competir – consegui dizer.
- E por que não?
- Por que eu tenho um mau pressentimento, sonhei... não, tive um pesadelo e nele você... você mor... – comecei a chorar descontroladamente e não consegui terminar a frase.
- Shh, shh – ele me abraçou novamente – foi só um sonho ruim, não vai acontecer.
- Não quero que você se machuque – sussurrei – não quero que nada de ruim aconteça.
- E não vai – ele respondeu, suavemente, enquanto tirava carinhosamente os fios de cabelo que caíam sobre o meu rosto – nada de ruim vai acontecer, eu prometo.
Comecei a chorar mais ainda e ele inclinou-se para frente, sem nunca separar seu corpo do meu, e fechou a porta do armário, murmurando um abafiatto e fazendo com que nós dois ficássemos presos lá dentro com nada além da fraca iluminação e uma dúzia de vassouras velhas. Cedric então se escorou na parede do armário e me puxou para o seu colo.
- Não chora, Amy. Parte o meu coração te ver assim, eu não sei o que fazer! – ele confessou desesperado.
- Não participe da segunda tarefa – eu respondi, tentando me recompor.
- Você sabe que eu não vou desistir assim.
Reuni toda a minha força para não recomeçar a chorar. Por que ele tinha que ter sido escolhido? Entre tantos outros alunos, por que justo ele? E por que ele não desistia? Pessoas morreram durante esse torneio, não valia a pena arriscar a própria vida por algumas centenas de galeões. Eu daria todos os meus galeões se ele desistisse de competir e ficasse ali. Vivo. Comigo.
- Então só fique um pouquinho aqui comigo, só até eu me recompor totalmente – pedi, num sussurro.
- O tempo que você quiser – ele respondeu, me aninhando mais ainda em seu colo e beijando o topo de minha cabeça. Eu conseguia ouvir a batida ritmada de seu coração e aquilo me acalmou. Ele respirava pausadamente, enquanto acariciava meu braço com seus dedos, tentando passar-me alguma espécie de paz. Encostei minha testa na curva de seu pescoço e, sem pensar, depositei ali um beijo. Cedric entrelaçou seus dedos nos meus como resposta. Quando percebi o que havia feito, baixei um pouco o rosto e fechei os olhos.
- Por que é tão bom? - ele sussurrou.
- O quê? - eu sussurrei de volta.
- Ficar aqui com você – ele respondeu, apertando mais os braços em volta de mim – eu poderia ficar assim para sempre.
Tranquei a respiração. Uma parte de mim queria dizer que eu também queria ficar a eternidade inteira ali com ele, que o amava. Essa parte queria abraçá-lo, beijá-lo e dizer que eu sempre estaria ali. Porque eu sempre estaria, sabia disso. Porém a outra parte de mim sentia-se magoada, lembrava-me que ele escolhera outra garota para partilhar momentos como aquele. Engoli o bolo que se formava em minha garganta.
- Acho que Chang não gostaria disso – respondi. Ele soltou o ar de seus pulmões num riso baixo, desenhando círculos invisíveis em minhas mãos com seus dedos.
- Acho que não – ele respondeu tristemente – você não gosta mesmo dela.
- Muito observador - respondi ironicamente. Ele sorriu disso e beijou meus cabelos.
- Então – ele começou – vai ao baile com o Weasley?
Eu senti o corpo dele enrijecer contra o meu, como se o assunto lhe deixasse desconfortável. Afastei-me um pouco, sentada lateralmente sobre as pernas de Ced e apoiando minhas costas em uma pilha de caixas onde eram guardadas as bolas de jogo. Ele me encarou com curiosidade.
- Acho que vou, ainda não dei uma resposta a ele – eu respondi – Mas melhor ir com ele do que com Córmaco, não é?
Cedric não sorriu como eu pensei que faria. Ele olhou para cima e encarou o teto por longos minutos. Senti-me desconfortável e resolvi colocar um ponto final naquele assunto.
- E você vai com Cho – não era uma pergunta, eu afirmava aquilo – ela é sua namorada.
Ele voltou a me encarar, mas então baixou o rosto.
- É, acho que sim.
Encarei minhas mãos como se fossem a coisa mais fascinante do mundo. De todas as vezes que eu havia ficado confusa em relação a Cedric, aquela estava sendo a pior. Eu podia sentir o gosto da tensão em minha língua cada vez que puxava o ar para dentro de meus pulmões.
- Podíamos deixar essa história pra lá – eu sussurrei, ainda encarando minhas mãoes.
Ced pousou uma mão em cima da minha e com a outra me puxou pela cintura, até que eu ficasse deitada em seu colo, como estava antes. Recostei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos, percorrendo toda a extensão da gravata de Cedric com os dedos. Ele me apertou mais contra seu corpo e tomou minha mão, impedindo que eu continuasse a traçar uma linha imaginária pelo seu uniforme. Para a minha surpresa, ele levou minha mão até seus lábios e a beijou, entrelaçando seus dedos nos meus logo em seguida. Senti meu corpo relaxar e ficar aquecido, e me aninhei mais contra ele, sentindo minha respiração ficar constante. Em algum momento, ouvi a voz de Cedric em minha cabeça sussurrando eu te amo tanto, tanto. Nunca descobri se essas palavras foram mesmo ditas ou se eram fruto de minha mente, mas ao ouví-las me peguei desejando que aquele momento nunca acabasse. Acabamos adormecendo ali dentro daquele armário, abraçados um ao outro, durante um tempo que nunca descobrimos exatamente.
