Mary Beth Morrison nascera para ser mãe. Quando tinha seis anos, possuía uma coleção de bonecas que exigiam constante alimentação, troca de roupas e paparico. Algumas andavam, outras falavam, mas o coração da menina também se enternecia por uma boneca de trapo com um braço rasgado.
Ao contrário de outras crianças, nunca se esquivara dos afazeres domésticos que os pais lhe atribuíam. Adorava lavar roupas e encerar o chão. Tinha uma tábua de passar roupa e um fogão em miniatura, além do próprio aparelho de chá. Aos dez anos, saía-se melhor que a mãe na atividade de assar bolos em geral.
Sua maior e verdadeira ambição era ter um lar e uma família formada por ela própria da qual pudesse cuidar. Nos sonhos de Mary Beth não surgia visão alguma de salas de reunião de diretoria nem de pastas de executiva. Ela queria uma cerca de treliça branca e um carrinho de bebê.
Mary Beth era uma crente convicta de que uma pessoa, homem ou mulher, devia exercer o que fazia melhor. A irmã entrara na Ordem dos Advogados e ingressara numa firma jurídica da alta sociedade em Chicago. Mary Beth orgulhava-se dela. Embora admirasse o guarda-roupa da irmã, sua direta defesa da lei e os homens que entravam e saíam aos montes da vida dela, não tinha um único fio de cabelo de inveja no corpo. Recortava cupons e assava brownies para a atividade de levantamento de fundos da Associação de Pais e Mestres e era uma ativista do movimento de igualdade salarial e profissional para homens e mulheres, embora jamais houvesse sido membro de qualquer sociedade por cuja mão de obra lutava.
Aos dezenove anos, casara-se com o namorado de infância, um menino que escolhera quando os dois frequentavam a mesma escola de ensino fundamental. Ele nunca correra qualquer risco. Mary Beth fora atenciosa, paciente, compreensiva e apoiadora. Não por meio de malícia, mas com sinceridade. Apaixonara-se por Harry Morrison no dia em que dois brigões o derrubaram no pátio de recreio e afrouxaram-lhe o dente da frente. Após vinte e cinco anos de amizade, doze de casamento e quatro filhos, ela ainda o adorava.
Seu mundo girava em torno do lar e da família, a ponto de até os interesses externos também circularem de volta a eles. Muitos, inclusive a irmã, consideravam esse mundo bastante limitado. Mary Beth apenas sorria e assava outro bolo. Era feliz e boa, até excelente, no que fazia. Tinha o que para ela representava a maior recompensa: o amor do marido e dos filhos. Não precisava da aprovação da irmã nem a de qualquer outra pessoa.
Mantinha-se em forma para o prazer do marido e o seu próprio. Ao aproximar-se do trigésimo segundo aniversário, continuava uma mulher linda, bem-arrumada, com a pele sem rugas e suaves olhos castanhos. Mary Beth entendia e solidarizava-se com as mulheres que se sentiam aprisionadas no papel de dona de casa. Também se sentiria da mesma maneira trancada num escritório. Quando encontrava tempo, trabalhava na Associação de Pais e Mestres e na Sociedade Protetora dos Animais. Além da família, nutria uma paixão pelos animais. Eles também precisavam de cuidado.
Era uma mãezona e vinha pensando na possibilidade de ter mais um filho antes de dar por encerrada a prole.
O marido a valorizava. Embora ela deixasse a maioria das decisões nas mãos dele, ou assim parecia, Mary Beth não era ingênua. Haviam tido seu quinhão de discussões durante o casamento e, se a questão fosse muito importante, aferrava-se a ela e brigava até conseguir o que queria. A questão da Fantasia era muito importante.
Embora Harry fosse um bom provedor, houvera ocasiões em que Mary Beth assumira empregos de meio período para complementar ou aumentar a renda do marido. Inscrevera-se e recebera licença para cuidar de crianças em creche. Com o dinheiro extra que ganhara, a família tivera condições de fazer uma viagem de férias durante dez dias na Flórida e na Disney World. As fotos dessa excursão encontravam-se guardadas com todo capricho num álbum azul com a etiqueta férias de nossa família.
E, uma vez, vendera revistas pelo telefone. Embora sua voz a ajudasse a aumentar a renda da família, o trabalho não a satisfizera. Como mulher que amadurecera sabendo fazer o orçamento de tempo e dinheiro, achara as recompensas financeiras muito aquém do tempo envolvido.
Queria outro filho, e queria prover um fundo para a universidade dos quatro com que já fora abençoada. O salário do marido no cargo de contramestre numa construtora dava para os gastos, mas não permitia muitos extras. Ela encontrou a Fantasia na contracapa de uma das revistas dele. A ideia de ser paga só para falar fascinou-a.
Foram-lhe necessárias três semanas, mas por meio de conversa transformara a ferrenha oposição de Harry em ceticismo. Mais uma semana, mudara o ceticismo para rancorosa aceitação. Mary Beth tinha jeito com as palavras. Agora convertia esse talento em dólares.
Ela e Harry haviam concordado em dar um ano à Fantasia. Nesse tempo, a meta de Mary Beth era ganhar dez mil dólares. O pé-de-meia suficiente para uma faculdade pequena e talvez, se o casal tivesse sorte, os honorários do obstetra.
Entrava no quarto mês como garota da Fantasia e já chegara à metade da meta projetada. Era uma moça muito popular.
Não a incomodava falar de sexo. Afinal, como explicara ao marido, era difícil ser puritana após doze anos de casamento e quatro filhos. Harry mudara de opinião a ponto de sentir-se divertido com o novo trabalho da mulher. De vez em quando, ele próprio telefonava, na linha pessoal, para dar-lhe a chance de treinar. Dava-se o nome de Stud Brewster e fazia-a rir.
Talvez devido ao instinto maternal dela ou à genuína compreensão dos homens e de seus problemas, a maioria dos telefonemas que recebia tratava menos de sexo que de compaixão. Os clientes que a chamavam assiduamente descobriam que podiam falar com ela das frustrações no emprego ou do desgaste da vida familiar e receber um conselho reconfortante. Mary Beth nunca parecia entediada, como muitas vezes as esposas e amantes pareciam ficar, nunca criticava e, quando a ocasião exigia, ela sabia transmitir o tipo de conselho sensato que poderiam receber se escrevessem a um Correio Sentimental – com o bônus de um prazer sexual.
Era irmã, mãe ou amante, qualquer coisa que o cliente solicitasse. Os clientes ficavam satisfeitos, e Mary Beth começou a pensar a sério em jogar fora a carteia de pílulas anticoncepcionais e partir logo para a última tentativa de engravidar.
Mulher de vontade forte, sem complicações, acreditava que a maioria dos problemas se resolvia com tempo, boas intenções e um prato de brownies com lascas de chocolate derretido. Mas jamais encontrara ninguém como Jerald.
E ele escutava. Noite após noite, esperava para ouvir aquela voz delicada e calmante. À beira de apaixonar-se, ele já se achava quase tão obcecado por ela quanto por Désirée. Roxanne fora esquecida, pois significara pouco mais que um rato de laboratório. Mas uma divindade se desprendia da voz de Mary Beth, uma solidez fora de moda associada ao nome, que ela mantivera, porque se sentia confortável demais com ele para participar de brincadeiras. Qualquer homem acreditaria no que uma mulher como aquela lhe dissesse. As promessas que fazia seriam cumpridas.
Ela era um estilo inteiramente diferente. Jerald acreditava nela e queria conhecê-la. Desejava mostrar-lhe o quanto se sentia agradecido. No início da noite, e também tarde, ele escutava. E planejava.
Lily fartara-se de só topar com becos sem saída e ser paciente.
Mais de uma semana se passara desde o segundo assassinato e, se havia algum progresso na investigação, James não lhe contava. Ela achava que o entendia. Era um homem generoso e compassivo. Mas também um policial que vivia segundo as regras do departamento, e as dele próprio. Embora respeitasse a disciplina, sentia-se frustrada com essa excessiva discrição.
O tempo que passava com ele acalmava-a de certa forma, enquanto o que passava sozinha a deixava sem nada a fazer, além de pensar.
Então também começou a planejar. Marcou encontros. As breves reuniões com o advogado de Petúnia e o detetive que a irmã contratara não esclareceram nada. Não lhe disseram coisa alguma que já não soubesse. De algum modo, esperava conseguir escavar informações que apontassem Válter.
No íntimo, ainda desejava que ele fosse culpado, embora, em suas próprias palavras, soubesse que não fazia sentido. Mas era difícil abrir mão dessa crença. No fim, teve de aceitar que, por mais que ele houvesse sido responsável pelo estado de espírito da irmã nos últimos dias de vida, não o fora por acabar com a vida dela.
Mas Petúnia continuava morta e ainda restavam outras possibilidades a ser exploradas. A mais direta e de fácil análise levou-a a Fantasia. Lily encontrou Eileen na posição habitual atrás da escrivaninha. Quando entrou, a empresária fechou o talão de cheques onde acertava o saldo e sorriu. Um cigarro queimava no cinzeiro junto ao seu cotovelo. Nos últimos dias, abandonara o faz de conta de que deixara de fumar.
- Boa tarde. Posso ajudá-la?
- Sou Lily Evans.
Eileen levou um instante para situar o nome. De suéter largo vermelho, calça preta colante e botas de pele de cobra, não mais parecia a irmã enlutada na foto de jornal.
- Sim, Srta. Evans. Todos nós sentimos muito por Petúnia.
- Obrigada. – Lily viu, pela tensão dos dedos da empresária, que ela se preparava para um ataque. Talvez fosse melhor deixar a mulher nervosa e vigilante. Não teve o menor escrúpulo quanto a intensificar a culpa: – Ao que tudo indica, sua empresa foi o catalisador da morte de minha irmã.
- Srta. Evans. – Eileen pegou o cigarro e sorveu uma baforada rápida, agitada. – Eu me sinto mal, muito mal, pelo que aconteceu à Petúnia. Mas não me sinto responsável.
- Não? – A escritora sorriu e sentou-se. – Então suponho que também não se sinta por Mary Grice. Tem café?
- Sim, sim, claro.
Eileen levantou-se e foi à despensa do tamanho de um armário de vassouras atrás da mesa. Não se sentia nada bem, e desejava agora ter embarcado com o marido para aquelas rápidas férias nas Bermudas.
- Tenho certeza de que sabe que estamos cooperando com a polícia de todas as formas possíveis. Todos querem ver esse cara detido.
- Sim, mas entenda, eu também quero que ele pague pelo que fez. Sem creme – acrescentou e esperou a outra trazer uma enorme caneca de cerâmica. – Entende que me sinto um pouco mais próxima de tudo isso do que você, ou a polícia. Preciso encontrar respostas a algumas perguntas.
- Não sei o que posso lhe dizer. – Eileen tornou a sentar-se atrás da escrivaninha. Assim que se instalou, pegou o cigarro. – Eu já disse à polícia absolutamente tudo que podia. Não conhecia bem a sua irmã, você sabe. Só a encontrei quando ela veio pela primeira vez aqui para a entrevista. Tudo o mais era feito pelo telefone.
Não, não conhecera bem Petúnia, pensou Lily. Talvez ninguém tivesse conhecido.
- O telefone – repetiu a escritora, recostando-se na cadeira. – Imagino que o telefone seja a essência de tudo isso. Sei como funciona seu negócio. Petúnia me explicou, portanto não há a menor necessidade de entrar de novo em todos os pormenores. Quero que me diga uma coisa: algum dos homens que usam o serviço já veio aqui?
- Não. – Eileen massageou um pouco acima dos olhos devido a uma dor de cabeça. Não conseguia livrar-se completamente dela desde que lera sobre a morte de Mary Grice nos jornais. – Não damos nosso endereço aos clientes. Claro, seria possível alguém muito determinado conseguir nos encontrar, mas não há motivo algum para isso. Fazemos uma triagem de todas as empregadas em potencial antes de darmos o endereço para a entrevista pessoal. Somos muito cuidadosos, Srta. Evans. Quero que entenda isso.
- Alguém ligou fazendo perguntas sobre Tuny... sobre Désirée?
- Não. E se tivesse ligado, não teria obtido nenhuma resposta. Com licença – ela se apressou a dizer quando o telefone tocou.
Lily tomou um gole do café e prestou atenção com meio ouvido. Por que fora ali? Sabia na verdade que iria obter poucas informações, ou nenhuma, que a polícia já não tivesse. Alguns detalhes que faltavam, alguns fragmentos; ela procurava no escuro. Mas o lugar era aquele. Aquele escritório minúsculo, despretensioso, representava a chave. Bastava descobrir a forma de girá-la.
- Lamento, Sr. Peterson, Jezebel não está em serviço hoje. Gostaria de conversar com outra pessoa? – Enquanto falava, Eileen apertou algumas teclas e depois leu a tela do monitor. – Se o senhor tinha alguma coisa específica em mente... Entendo. Acho que gostará de falar com Magda. Sim, está. Tenho certeza de que ficará satisfeita em ajudá-lo. Tomarei as providências. – Quando desligou, lançou a Lily um olhar nervoso. – Desculpe, isso vai levar alguns minutos.
- Tudo bem. Esperarei até você terminar. Grace
Lily ergueu a caneca de novo. Teve uma nova ideia que pretendia pôr logo em prática. Sorriu para Eileen quando o negócio foi fechado.
- Diga-me, que devo fazer pra conseguir um trabalho aqui?
James não estava no melhor dos humores quando parou na sua garagem. Passara quase o dia todo esperando impaciente a hora de depor na apelação de um caso no qual trabalhara dois anos antes. Nunca duvidara da culpa do réu. Havia as provas, o motivo e a oportunidade para confirmar. Ele e Sirius haviam amarrado as pontas num laço de gravata e entregue ao promotor público.
Embora a imprensa houvesse feito o maior estardalhaço do crime, fora uma investigação muito simples. O homem matara a esposa, mais velha e rica, depois bagunçara tudo para fazer parecer um assalto. O primeiro júri deliberara em menos de seis horas e retornara com o veredicto de culpado. A lei disse que o réu tinha direito a uma apelação, e que a justiça protelasse.
Agora, dois anos depois, retratavam o homem que tirara de propósito a vida da mulher a quem prometera amar, honrar e cuidar como uma vítima das circunstâncias. James sabia que o assassino tinha uma boa chance de ficar impune.
Em dias assim, perguntava-se por que se dava ao trabalho de pegar o distintivo toda manhã. Enfrentava as montanhas de papelada sem se queixar de quase nada. Punha a vida em risco para proteger a sociedade. Passava horas em vigilâncias policiais no pior do inverno ou no auge do verão. Tudo isso fazia parte do trabalho policial. Mas começava a tornar-se cada vez mais difícil aceitar as distorções que encontrava nos tribunais da lei.
Passaria a noite erguendo paredes de gesso cartonado, medindo, cortando e martelando até esquecer que, por mais afinco com que trabalhasse, perderia o mesmo número de vezes que ganharia.
Nuvens formavam-se no oeste, prometendo uma noite chuvosa. As plantas precisavam disso, ali e no pequeno canteiro que ele cultivara num jardim comunitário a uns quatro quilômetros de distância. Esperava ter tempo durante o fim de semana para checar as abobrinhas.
Ao descer do carro, ouviu o constante zumbido de um cortador de grama. Espiou e viu Lily abrindo uma trilha de um lado a outro no gramado do pequeno jardim defronte à casa da irmã. Estava tão bonita.
Toda vez que a via, ele sentia-se contente apenas em olhar. A leve brisa que ajudava a acumular as nuvens soprava-lhe os cabelos e os faziam dançar de forma desordenada ao redor do rosto. Pusera fones de ouvido presos a um walkman que enganchara na cintura da calça jeans.
James pretendera cuidar do gramado para ela, mas agora se alegrava por não ter tido a oportunidade. Dava-lhe a chance de vê-la trabalhar, alheia à presença dele. Permitia-lhe ficar ali parado e imaginar como seria voltar para casa todo dia e encontrá-la à sua espera. O nó apertado de raiva que vinha trazendo consigo se afrouxou. Encaminhou-se em direção à amada.
Com o clássico Chuck Berry tocando estrondoso nos ouvidos, Lily deu um salto quando James lhe tocou o ombro. Segurou o cortador de grama com apenas uma das mãos, levou a outra ao coração, ergueu a cabeça e sorriu-lhe. Viu a boca do detetive mover-se junto com a música Maybelline, que dançava na cabeça dela. O sorriso transformou-se numa expressão radiante. Agradava-a tanto olhá-lo, aqueles olhos meigos, até delicados, no rosto forte.
James daria um perfeito Homem da Montanha, concluiu, morando sozinho, subsistindo da terra. E os índios confiariam nele, porque seus olhos não mentiam. Talvez devesse fazer uma experiência na composição de um faroeste – alguma coisa com um grupo de civis e um xerife de barba negra, bom de montaria e tiro certeiro para manter a ordem na cidade.
Após um momento, James abaixou os fones de ouvido e deixou o aro pendurado no pescoço dela. Lily ergueu o braço para tocar-lhe a barba.
- Oi. Não ouvi uma palavra sequer do que você disse.
- Eu notei. Sabe, não devia tocar essa coisa tão alto assim. Faz mal aos ouvidos.
- Rock só é bom alto. – Ela baixou a mão até o quadril e desligou-o. – Chegou mais cedo hoje?
- Não. – Como os dois gritavam acima do barulho do cortador de grama, ele apertou o interruptor para desativá-lo. – Você não vai conseguir terminar isso antes da chuva.
- Chuva? – Surpresa, ela ergueu os olhos para o céu. – Quando isso aconteceu?
Ele riu e esqueceu as desgastantes horas passadas no tribunal.
- Você sempre fica alheia ao que acontece a seu redor?
- Com a maior frequência possível. – Lily conferiu mais uma vez o céu. – Bem, posso terminar o resto amanhã.
- Eu cuido disso pra você. Vou tirar o dia de folga amanhã.
- Obrigada, mas você já tem muito que fazer. É melhor eu guardar essa coisa de volta lá nos fundos.
- Eu dou uma mãozinha.
Como ele parecia disposto, Lily tirou de bom grado a mão do cortador e cedeu.
- Conheci Ida hoje – ela começou, quando saíram com a máquina ruidosa até os fundos da casa.
- Segunda casa adiante?
- Acho que sim. Ela deve ter me visto aqui no quintal; apareceu, com cheiro de gato.
- Não me surpreende.
- De qualquer modo, queria me informar que tinha sentido muito boas vibrações em mim. – Lily pegou uma lona encerada quando ele parou o cortador no canto da casa. – Desejava saber se eu já tinha estado em Shiloh... a batalha.
- E o que você respondeu?
- Não quis decepcionar a velhinha. – Após estender a lona sobre o cortador, Lily flexionou os ombros. – Disse que fui atingida por uma bala ianque na perna. E que até hoje, de vez em quando, manco ao andar. Ela ficou satisfeita. Você tem planos pra esta noite?
Ele aprendia a entrelaçar as ideias com as dela.
- Paredes de gesso cartonado.
- Paredes de gesso? Ah, aquela coisa medonha cinzenta, certo? Posso dar uma mãozinha?
- Se quiser.
- Tem alguma comida de verdade lá?
- É provável que eu possa desenterrar algo.
Lembrando do aspargo, Lily o deteve literalmente:
- Espere um instante. – Saiu correndo até a cozinha, assim que começaram a pingar as primeiras gotas de chuva. Tornou a voltar correndo, com um saco de batata frita. – Rações de emergência. Corra. – Antes que ele pudesse concordar, ela disparou numa corrida contra a morte, divertindo-o pela agilidade com que transpôs a cerca com um salto maneta. James alcançou-a a três metros da porta dos fundos e surpreendeu os dois arrebatando-a nos braços. Rindo, ela beijou-o com força e rapidez. – Você tem os pés rápidos, Potter.
- Eu me exercito perseguindo bandidos.
Enquanto a chuva caía incessantemente, ele colou mais uma vez a boca na dela. Doce, e muito mais doce ao ouvir o suspiro murmurado. Lily tinha o rosto molhado em qualquer lugar que ele tocava com os lábios. Frio e molhado. Parecia não pesar nada, poderia segurá-la ali durante horas. Então ele a sentiu tremer de frio e puxou-a mais para perto.
- Estou ficando encharcado.
Ele lançou-se numa corrida até a porta dos fundos e, logo arrependido, largou-a ao lado para pegar as chaves. Lily entrou e sacudiu-se como o cachorro da família.
- Está quente. Gosto de chuva quente. – Passou as mãos pelos cabelos, que saltaram na indomável desordem que lhe caía tão bem. – Sei que vou estragar o clima, mas esperava que você tivesse mais alguma coisa a me dizer.
Não o estragou, porque era esperado.
- A investigação tem andado devagar, Lily. A única pista que tínhamos era um beco sem saída.
- Tem certeza de que o álibi do filho do senador se sustenta?
- Como uma pedra. – Ele pôs uma chaleira no fogo para o chá. – O garoto estava no meio da primeira fila no Kennedy Center na noite em que Petúnia foi assassinada. Tinha os canhotos do ingresso, a palavra da namorada e mais uma dezena de testemunhas que o viram lá.
- Podia ter escapulido sem ninguém ver.
- Não havia tempo suficiente. No intervalo, às nove horas e quinze, ele tomou um refrigerante no saguão. Sinto muito.
Ela balançou a cabeça. Recostando-se na bancada, pegou um cigarro.
- Sabe o que é terrível? Eu me pegar desejando que esse garoto que nunca vi seja culpado. Não paro de desejar que esse álibi vá desmoronar e ele seja preso. E nem o conheço.
- É humano. Você só espera com ansiedade que chegue ao fim.
- Não sei mais o que espero, – Lily deixou escapar um suspiro. Não gostou do som frágil e queixoso. – Também quis que fosse Válter, porque o conhecia, porque... deixa pra lá – decidiu, ao acender o isqueiro. – Não foi nenhum dos dois.
- Nós vamos encontrá-lo, Lily.
Ela examinou-o quando o vapor começou a disparar pelo bico da chaleira.
- Eu sei. Acho que não aguentaria continuar a fazer as coisas comuns, pensar no que farei amanhã, se não soubesse. – Sorveu uma longa e firme tragada de seu cigarro. Pensava em outra coisa que não podia ser evitada. – Ele não terminou ainda, terminou?
Afastando-se, James mediu o chá.
- É difícil saber.
- Não, não é. Seja franco comigo, James. Não gosto de ser protegida.
Ele queria proteger, não apenas por ser sua vocação, mas por ser Lily. E, por ser ela, não podia proteger.
- Não creio que tenha terminado.
A escritora assentiu com a cabeça e indicou com um gesto a chaleira.
- É melhor você preparar isso antes que a água seque. – Enquanto James pegava as canecas, Lily pensou no que fizera naquele dia. Devia contar-lhe. A pontada na consciência foi aguda e impaciente. Difícil de ignorar. Contaria, lembrou a si mesma. Tão logo fosse tarde demais para ele fazer alguma coisa a fim de impedi-la. Aproximou-se para bisbilhotar a geladeira. – Imagino que não tenha cachorro-quente.
Ele lançou-lhe um olhar de tão genuína preocupação que a fez morder o lábio.
- Você come mesmo isso?
- Não.
Ela fechou a porta e desejou que tivesse manteiga de amendoim.
Trabalharam bem juntos. Lily eliminou a maioria das lascas ao fazer uma experiência com o martelo. Precisara primeiro discutir com James, cuja ideia de deixá-la ajudar fora sentá-la numa cadeira para ela poder olhar. Ele acabou cedendo, mas manteve um olho de lince nela. Não tanto por temer que estragasse, embora fosse em parte isso. Era mais por recear que se machucasse.
Bastou-lhe apenas uma hora para perceber que, tão logo se obstinava num projeto, Lily trabalhava como uma profissional. Talvez tivesse sido meio negligente no acabamento da massa nas juntas, mas ele imaginou que ficaria nivelado com uma lixada. O tempo extra que exigiu não o incomodou. Na certa, era uma tolice, mas só tê-la ali já o fazia trabalhar mais rápido.
- Vai ser um quarto e tanto. – Lily deu uma coçada no queixo com as costas da mão. – Gosto mesmo do jeito como modela isso em forma de um pequeno L. Todo quarto civilizado deve ter uma sala de estar. Ele queria que ela gostasse. Na mente, já conseguia vê-lo concluído, até as cortinas na janela, de voile azul, com largas tiras pregueadas prendendo as laterais fofas puxadas no meio para trás.
- Estou pensando em pôr duas claraboias.
- É mesmo? – Lily foi até a cama, sentou-se e inclinou o pescoço. – Você pode se deitar aqui e olhar as estrelas. Numa noite como esta, a chuva. – Seria gostoso, pensou, ao erguer os olhos para o teto inacabado. Seria adorável dormir ou fazer amor, ou apenas devanear sob o vidro. – Se decidisse levar esse ofício pra Nova York, ganharia uma fortuna reformando sótãos.
- Sente saudades?
Em vez de olhá-la, James ocupou-se com a medição de uma junta.
- De Nova York? Às vezes. – Menos, ela percebeu, do que esperara. – Sabe o que ficaria bem aqui? Um banco sob a moldura da janela. – Empoleirada na cama, apontou uma à direita. – Quando eu era menina, sempre imaginei como seria maravilhoso ter um assento sob a janela, onde pudesse me enroscar e sonhar. – Levantou-se e abriu e fechou os braços. Era estranha a rapidez com que os músculos ociosos ficavam doloridos. – Passava quase o dia todo escondida no sótão e sonhava.
- Sempre quis escrever?
Lily mergulhou a mão mais uma vez no balde de massa.
- Eu gostava de mentir. – Riu e passou a mistura cor de lama sobre a cabeça de um prego. – Não das grandes mentiras, mas das inteligentes. Livrava-me das confusões inventando histórias, e os adultos em geral se divertiam o suficiente pra atenuar o castigo pelas minhas traquinagens. – Calou-se por um instante. Não queria lembrar os tempos difíceis. – Que música é essa?
- Patsy Cline.
Ela escutou por um momento. Não era o tipo de música que teria escolhido, mas a agradava.
- Não fizeram um filme sobre ela? Claro que sim. Morreu num desastre de avião na década de 1960. – Prestou atenção de novo. A música soava tão cheia de vida, tão vital. Não sabia se lhe dava vontade de sorrir ou chorar. – Creio que esse é outro motivo que me fez querer escrever. Deixar alguma coisa. Uma história é como uma música. Sobrevive à gente. Acho que tenho pensado mais nisso ultimamente. Você já pensou alguma vez em deixar uma coisa que dure?
- Claro. – Também mais recentemente, pensou, embora por diferentes razões. – Bisnetos.
A resposta a fez rir. Derramou a massa no punho do suéter, mas não se preocupou em limpá-la.
- É bem legal. Acho que pensaria assim, vindo de uma família grande.
- Como sabe que tenho uma família grande?
- Sua mãe comentou. Dois irmãos e uma irmã. Os irmãos são casados, embora Tom e... – ela precisou pensar um instante... – Scott sejam mais moços que você. Tem, deixe-me ver, acho que são três sobrinhos, o que me fez pensar nos trigêmeos do Pato Donald, Huguinho, Zezinho e Luizinho... sem querer ofender.
Ele só pôde balançar a cabeça.
- Você nunca esquece nada?
- Nunca. Sua mãe continua desejando uma neta, mas ninguém tem cooperado. Ainda tem a esperança de você abandonar as ruas e se juntar ao seu tio na construtora.
Pouco à vontade, ele pegou um arremate de quina e começou a martelá-lo.
- Parece que tiveram uma conversa e tanto.
- Ela quis fazer um teste comigo, lembra? – Ele enrubesceu, apenas um pouco, mas o suficiente para fazê-la querer abraçá-lo. – De qualquer modo, as pessoas vivem me contando detalhes íntimos de suas vidas. Eu nunca soube por quê.
- Porque você escuta.
Lily sorriu, considerando isso um dos maiores elogios.
- Então por que não está construindo apartamentos de condomínio com seu tio? Você gosta de construir.
- Isso me relaxa. – Assim como uma música de Merle Haggard que tocava no rádio agora o relaxava. – Se fizesse isso todo dia, ficaria entediado. Ela prendeu a língua entre os dentes enquanto derramava massa numa junção.
- Você está falando com alguém que sabe até que ponto pode ser tedioso o trabalho policial.
- É um quebra-cabeça. Já montou quebra-cabeças quando era garota? Os grandes, de duas mil e quinhentas peças?
- Claro. Após duas horas, trapaceava. Deixava todos loucos quando descobriam que eu havia quebrado a ponta de uma peça para fazê-la se encaixar.
- Eu passava dias num e nunca perdia o interesse. Sempre trabalhava da borda pro centro. Quanto mais peças a gente encaixa, maiores os detalhes; quanto mais detalhes, mais próximo da imagem completa.
Ela parou um instante, porque entendeu.
- Nunca sentiu vontade de ir direto ao centro e mandar os detalhes às favas?
- Não. Se você faz isso, acaba sempre procurando as pontas soltas, aquela peça enganadora que une tudo e torna a coisa certa. – Após martelar o último prego, James recuou para ter certeza de que fizera o trabalho direito. – É uma tremenda satisfação quando a gente encaixa a última peça e vê a imagem completa. Esse cara que procuramos agora... apenas ainda não temos todas as peças. Mas teremos. Assim que tivermos, vamos misturar todas até tudo se encaixar.
- Sempre se encaixam?
Ele olhou-a então. Tinha a maldita mistura manchada no rosto e uma expressão muito séria. Ele esfregou o polegar no rosto dela para tirar a mancha.
- Mais cedo ou mais tarde. – Largou a ferramenta e emoldurou aquele rosto nas mãos. – Confie em mim.
- Eu confio. – Olhos bondosos, mãos fortes. Ela curvou-se mais para perto. Queria mais que conforto, precisava de mais. – James... – As batidas à porta do andar de baixo fizeram-na cerrar os olhos de frustração. – Parece que temos companhia.
- É. Com sorte eu me livro deles em cinco minutos.
Lily arqueou as sobrancelhas. A aspereza na voz dele agradou-a e lisonjeou-a.
- Detetive, este poderia ser seu dia de sorte.
Ela tomou-lhe a mão para descerem juntos. Tão logo James abriu a porta, Sirius empurrou Marlene para dentro.
- Santo Deus, James, não sabe que as pessoas podem sufocar aqui embaixo? Que é que você... – Viu Lily. – Oh. Oi.
- Oi. Relaxe. Estávamos brincando com paredes de gesso. Olá, Marlene. Que bom ver você. Não tive chance de lhe agradecer.
- Não há de quê. – Marlene ergueu-se na ponta dos pés e puxou James para um beijo. – Desculpe, James. Eu disse a Sirius que devíamos ligar antes.
- Não tem problema. Sente-se.
- Claro, pegue um engradado. – Sirius acomodou a esposa numa caixa de mudança e ergueu uma garrafa de vinho. – Você tem taças, não?
James pegou a garrafa e ergueu as duas sobrancelhas.
- Qual é a ocasião? Você em geral traz uma embalagem de cerveja Moosehead e bebe tudo sozinho.
- Isso que é gratidão, parceiro, sobretudo agora que o tornamos padrinho. – Sirius tomou a mão de Marlene e ergueu-a nas dele. – Em sete meses, uma semana e três dias. Mais ou menos.
- Um bebê? Vocês, caras, vão ter um bebê? – James passou o braço em volta de Sirius e apertou-o. – Belo início de partida, parceiro. – Pegou a mão livre de Marlene quase como se fosse medir-lhe o pulso. – Você está bem?
- Ótima. Sirius quase sofreu um colapso, mas eu me sinto ótima.
- Não sofri quase um colapso. Talvez tenha balbuciado durante uns dois minutos, mas não desabei. Vou pegar as taças. Cuide pra que ela fique sentada, sim? – ele pediu a James.
- Eu o ajudo. – Lily pegou o vinho de James e seguiu Sirius até a cozinha. – Você deve estar se sentindo no topo do mundo.
- Acho que ainda não assimilei. Uma família. – Sirius começou a inspecionar os armários, enquanto Lily achou um saca-rolha. – Nunca pensei em ter uma família. Então, de repente, lá estava Lene. Tudo mudou.
Lily fitou a garrafa e começou a retirar a rolha.
- É engraçado como a família pode manter tudo coeso.
- É. – Após arrumar as taças, Sirius pôs a mão no ombro dela. – Como tem se aguentado?
- Melhor, na maior parte do tempo, melhor. O mais difícil é acreditar que ela se foi e não vou vê-la nunca mais.
- Eu sei como você se sente. Sei mesmo – ele disse ao sentir o instantâneo retraimento dela. – Perdi meu irmão.
Após arrancar a rolha, Lily obrigou-se a olhá-lo. Também viu bondade em seus olhos. Embora ele fosse mais intenso que James, mais agitado e cheio de energia, a bondade achava-se presente.
- Como lidou com isso?
- Muito mal. Tudo na vida caía aos pés de meu irmão, e eu era louco por ele. Não vivíamos de acordo em relação a muitas coisas, mas éramos muito unidos. Ele embarcou direto pro Vietnã ao sair do ensino médio.
- Sinto muito. Deve ser horrível perder na guerra alguém que a gente ama.
- Ele não morreu no Vietnã, apenas as melhores partes desapareceram. – Sirius pegou a garrafa e começou a servir o vinho. Era estranho; mesmo após tantos anos, lembrava-se bem demais. – Voltou uma pessoa diferente, retraído, ressentido, perdido. Recorreu às drogas pra apagar tudo, obscurecer tudo da mente, mas não ajudou. – Percebeu que ela pensava na irmã e nos frascos de tranquilizantes estocados em toda a casa. – É difícil não culpá-los por escolherem um caminho fácil.
- É, é sim. Que aconteceu com ele?
- No fim, não conseguiu suportar mais. Então optou por cair
- Sinto muito. Sinto muito mesmo. – As lágrimas mais uma vez afloraram, as que ela conseguira reprimir durante dias. – Eu não quero essa saída.
- Não. – Ele também entendia. – Mas às vezes é melhor depois que se faz.
- Todo mundo diz que entende, mas não entende. – Quando Sirius a abraçou, ela se manteve ali. – Só sabemos o que é perder uma parte de nós depois que acontece. Não podemos fazer nada que nos prepare pra isso, sabe? Nem depois, depois de cuidar de todos os detalhes. É o pior não conseguir fazer nada. Quanto tempo... quanto tempo você levou pra dar a volta por cima?
- Eu lhe digo quando isso acontecer.
Ela concordou e apoiou a cabeça no ombro dele por mais um instante.
- Só se pode seguir em frente?
- Isso mesmo. Depois de algum tempo, a gente deixa de pensar nisso todo dia. Então acontece uma coisa como Lene em minha vida. Você consegue seguir em frente. Não consegue esquecer, mas consegue seguir em frente.
Lily afastou-se para enxugar as lágrimas nas faces com as mãos.
- Obrigada.
- Você vai ficar bem?
- Mais cedo ou mais tarde. – Ela fungou uma vez e conseguiu dar um sorriso. – Mais cedo, espero. Vamos levar isso de volta. Esta noite temos de comemorar a vida.
N/A: Olá, aqui está mais um capítulo. Espero que estejam gostando da adaptação, um obrigada pra todos que leem, e principalmente para os que comentam! Até a próxima.
