Dino
Ele já estava na terceira xícara de café e até aquele momento não havia escutado nada de importante além de palavrões, reclamações e gruídos. Sua orelha direita estava quente por causa do telefone e sua mão levemente dormente por manter o aparelho naquela mesma posição. Entretanto, Dino permanecia no mesmo lugar, esperando que a pessoa do outro lado da linha continuasse. Era sua função. Era o mínimo que ele poderia fazer em seu papel de amigo.
"Você está me escutando, Haneuma?" A voz do outro lado parecia zangada. Ele está sempre zangado, mas ultimamente o nível aumentou... e muito.
"Sim, eu estou aqui."
"Eu vou desligar!"
"Você ainda não disse por que ligou." O motivo principal da ligação havia sido esquecido, ele sabia. Há meia hora seu telefone havia tocado e logo ao atender ele soube quem era. O homem do outro lado o recebeu com um sonoro "VROOOOOOOOIIIIIII, Haneuma!" e pelos últimos trinta minutos ele ouviu somente reclamações e pouco assunto relevante.
"Eu disse que liguei porque irei para o Sul, você está realmente prestando atenção, maldito?"
"Sim, estou."
Dino estava prestando atenção, embora o assunto principal – e ele sabia disso melhor do que ninguém – não era a tal viagem para o Sul. O louro inclinou um pouco a cadeira e jogou as costas para trás, vislumbrando um pedaço do céu. Ele estava azul e belo e ideal.
"Diga, Squalo. Não acha que deveria falar com Xanxus sobre isso? Eu não sei o quão arriscado é essa sua missão, mas seu Chefe deveria ser informado sobre certas coisas, principalmente aquelas que envolvem certo nível de per–"
A ligação foi cortada e o italiano sorriu triste, pousando o telefone na base. Sua mão permaneceu sobre o aparelho por alguns segundos, cogitando a ideia de retornar a ligação, mas ele sabia melhor do que ninguém quando era preciso não insistir. A menção do nome do Líder da Varia não foi coincidência. O Chefe dos Cavallone tinha vaga noção do que estava acontecendo com seu amigo de infância, e isso lhe foi informado graças a certo espalhafatoso Guardião do Sol, que o telefonou há alguns dias para perguntar se Dino sabia do paradeiro de Squalo. Eu não vou me meter, mas tenho parte nisso. O louro soltou um longo suspiro, espreguiçando-se e levantando-se da cadeira. Eu pensarei em alguma coisa quando voltar.
O terno escuro estava sobre uma das poltronas, e foi com extrema graça e leveza que o italiano o pegou, vestindo-o enquanto caminhava na direção da porta. O corredor estava vazio, assim como o elevador. O estacionamento do hotel era seu destino final e, ao chegar ao local, Romário o esperava com um meio sorriso e o mesmo ar despreocupado de sempre.
"Tem certeza de que não precisa de mais homens, Chefe? Eles estão preocupados."
"Não acontecerá nada, Romário. Eu garanto." O Chefe dos Cavallone sorriu. A porta do veículo foi aberta e ele agradeceu aquele gesto com um menear de cabeça. "Vamos direto ao templo."
O caminho até o templo Namimori era tão conhecido que Dino mal sentiu os minutos que passou dentro do carro, desfrutando a bela paisagem e a frescura do ar condicionado. Foi somente quando o veículo parou, e lhe foi oferecida a visão da longa escadaria, que o louro se deu conta de que o momento havia chegado. Ele havia se preparado para aquilo nos últimos dias e, embora soubesse exatamente o que faria, uma parte do italiano não queria que as coisas tivessem chegado até aquele ponto. Se Kyouya fosse um pouco mais dócil talvez as coisas pudessem ter terminado de uma maneira diferente. O Chefe dos Cavallone checou o relógio em seu pulso esquerdo antes de abrir a porta. "Eu retornarei em uma hora, dê uma volta enquanto isso, está bem?"
"Eu estarei aqui. Boa sorte."
Dino acenou e agradeceu, colocando as mãos nos bolsos conforme subia os degraus. Havia uma longa caminhada pela frente e o louro aproveitou para admirar a paisagem local. A escadaria era feita de pedra batida e cada degrau modelado perfeitamente. Ao redor havia árvores e flores, e ele sabia que no meio de toda aquela beleza havia uma trilha que levava direto até o jardim de Hibari. A ideia de pegar o atalho foi tentadora, mas o italiano se conhecia bem o suficiente para saber que acabaria perdido e infelizmente, naquele dia, não poderia haver lugar para fracasso. Tudo depende do que eu farei agora. O Chefe dos Cavallone checou novamente o relógio, aumentando um pouco o ritmo de seus passos e chegando ao topo da escadaria. Dali até a casa do templo era preciso mais alguma caminhada, mas a parte agradável era que ele não precisaria prosseguir sob o Sol. As altas árvores criavam um excelente e fresco caminho.
A casa no templo era muito maior do que aparentava. Por trás dos 15 cômodos se escondia uma passagem subterrânea, onde as coisas realmente aconteciam. Naquela manhã Dino utilizaria apenas um dos cômodos, e ele torcia para que aquilo fosse suficiente. Ao pisar no corredor de madeira que servia também como sacada, o estômago do louro girou. A ansiedade o fez apertar as mãos, questionando se conseguiria realmente fazer aquilo. Ele vai me matar. Eu tenho certeza que Kyouya vai me matar! Aquele tipo de pensamento positivo o acompanhou até uma das entradas laterais. Aquela porta em especial dava para o quarto do Guardião da Nuvem, e foi com extrema delicadeza e receio que o italiano bateu duas vezes antes de arrastá-la.
O dono da casa estava no local e não pareceu surpreso em vê-lo. Na realidade, os dois haviam se visto há poucas horas, quando Hibari deixou o hotel e retornou para o templo depois de ter passado a noite com o Chefe dos Cavallone. Ele sempre vai embora antes que eu acorde, pensou Dino ao retirar os sapatos e pisar dentro do quarto.
"Olá, Kyouya." A porta foi arrastada, escurecendo um pouco o cômodo.
"O que você faz aqui?" A voz do moreno saiu afiada. Algo em seus olhos demonstrava que ele estava achando tudo aquilo muito suspeito.
O louro checou o relógio e engoliu seco. Seus lábios tremeram levemente e ele sabia que tinha poucos segundos para se desculpar de antemão, mesmo sabendo que teria de fazer o mesmo quando tudo terminasse. Por favor, não me odeie. Eu estou fazendo isso por você.
"Eu realmente sinto muito, Kyouya, mas nós conversaremos depois, está bem? Eu prometo que explicarei tudo."
O Guardião da Nuvem juntou as sobrancelhas e entreabriu os lábios, mas foi tarde demais. Um agudo barulho oco ecoou pelas paredes de madeira, acompanhado por uma grande quantidade de fumaça. O italiano cobriu os olhos e mexeu as mãos para que a fumaça se dissipasse, mas aquilo não pareceu ajudar.
"K-Kyouya? Você está ai?"
Não houve resposta... verbal. Em um segundo o Chefe dos Cavallone estava ali, em frente ao guarda-roupa e tentando enxergar qualquer coisa além de seu nariz, para no segundo seguinte suas costas baterem com força contra a parede e seus lábios capturados por um beijo tão intenso que o ar lhe faltou no mesmo instante. Porém, havia algo extremamente familiar naqueles lábios e seu corpo se lembrava muito bem a quem eles pertenciam. Suas mãos agarraram a cintura da pessoa à sua frente, puxando-a para perto e tornando nula a distância entre eles. A fumaça se dissipou devagar e pouco a pouco Dino pôde ver a identidade de seu agressor, mesmo que no fundo ele já soubesse.
A altura do homem era a mesma, cerca de poucos centímetros mais baixo. Os cabelos eram negros e curtos, os olhos puxados e desafiantes. E embora soubesse exatamente quem seus lábios beijavam, o louro notou o quão magro Hibari estava por baixo daquele terno. Seus braços conseguiam envolver seu futuro amante com certa facilidade, e ao sentir as mãos pálidas do Guardião da Nuvem em seu peito, o italiano intensificou ainda mais o beijo. Ele reconhecia aquele cheiro e aquele gosto. O beijo se tornou menos afoito e mais intenso. O Chefe dos Cavallone percebeu que Hibari estava mais experiente. Seus movimentos eram mais longos e menos contidos, fazendo-o se sentir levemente intimado. Quando o ar começou a faltar e a carícia terminou, Dino abriu os olhos e sorriu ao ver que o Guardião da Nuvem o olhava.
"Hey, Kyouya." As costas de sua mão tocaram o rosto que o olhava com uma admiração quase cega.
Novamente, não houve resposta... verbal. O moreno encostou-se ao louro e com uma velocidade e uma ousadia sem tamanha uma de suas mãos abriu os botões da calça que o italiano usava, encontrando fácil caminho para seu interior.
"O-Oi, o-oi! Kyouya!" O rosto do Chefe dos Cavallone estava rubro. Ele se sentia violado. "O-O que você está fazendo?"
"Você." A voz de Hibari tinha o mesmo tom e aquilo era um pouco desconcertante. "Eu quero você."
Em qualquer outro momento Dino teria caminhado nas nuvens ao ouvir aquilo. Por anos ele sonhou com o dia em que o Guardião da Nuvem diria exatamente aquilo, mas jamais imaginou que ouviria aquelas palavras da versão dez anos mais velha de seu amante. Os lábios do louro protestaram por poucos segundos, até serem novamente capturados por outro beijo. O italiano tentou afastar o moreno, mas seu corpo o traia da pior maneira possível. Seus lábios se moviam, retribuindo o beijo, enquanto suas mãos abriam a camisa roxa que o homem em seus braços vestia.
"K-Kyouya, eu só preciso conversar com você." O Chefe dos Cavallone engoliu seco. Hibari havia dado um passo para trás e seus dedos abriam o zíper de sua própria calça. Os olhos cor de mel estavam fixos naquela ação e, honestamente, Dino não se lembrava mais sobre o que eles precisavam realmente conversar.
"Conversaremos depois." O Guardião da Nuvem deixou a calça cair sobre suas pernas, dando um passo para o lado e empurrando-as com o pé para um canto. A camisa roxa desceu por seus ombros e não mais do que de repente ele estava totalmente nu. "Eu quero você, Dino."
Kyouya vai me matar. O pensamento o deixava culpado, mas o louro sabia o que deveria fazer. Seus dedos abriram o restante dos botões de sua própria camisa e ela deslizou para o chão. Seus pés o levaram até o canto do quarto e o italiano jogou um dos futon ao chão, sem se importar se ele havia caído do lado correto ou se seria necessário pegar um lençol. Em sua mente só existia o homem que estava nu e excitado e pedia para ser amado. E como dizer não? O Chefe dos Cavallone abriu a terceira gaveta da cômoda e pegou um dos frascos que estava ao fundo. O moreno havia se ajoelhado no futon, o rosto corado e a respiração descompassada. Seus belos olhos negros fitavam Dino a todo instante, e quando o louro ajoelhou-se à sua frente, Hibari passou os braços ao redor de seu pescoço, beijando-o novamente.
O corpo era o mesmo, mas diferente. Os lábios do italiano beijavam o pescoço do Guardião da Nuvem enquanto uma de suas mãos dava atenção à ereção de seu futuro amante. A voz do moreno ecoava pelo quarto, excitando o Chefe dos Cavallone ainda mais. Aquele Hibari era muito menos contido e mais suscetível ao prazer do que o atual. Em poucos segundos Dino já podia sentir que o homem em seus braços chegaria ao orgasmo e aquilo deixou seu ego nas alturas. Os beijos desceram pelo peitoral do Guardião da Nuvem e ali permaneceram por alguns instantes. O moreno estava bem mais magro, a ponto de suas costelas serem quase visíveis por causa da pele pálida. Dino pensou consigo se Hibari estava se alimentando direito, se dormia direito e todas aquelas dúvidas pareceram impossíveis de serem perguntadas. Tolo. O que você acha?
"D-Dino." A voz baixa do Guardião da Nuvem o fez erguer os olhos.
Ele está com pressa. O louro sorriu triste e levou a mão até o tubo de lubrificante, despejando uma quantia generosa em sua mão. O moreno tremeu ao primeiro toque e o italiano notou o quão difícil foi penetrá-lo com apenas um dedo. Aquilo deveria deixá-lo levemente reconfortável, pois significava que Hibari não havia feito sexo por algum tempo, mas ele não conseguiu se sentir bem. Não se esqueça porque você está aqui, Dino. Sua consciência quase o tirou do momento, mas um gemido do Guardião da Nuvem o trouxe novamente para dentro daquele pequeno quarto. Porém, foram necessários longos minutos até que seus três dedos conseguissem deslizar com facilidade pela entrada do moreno.
"Não. Eu quero vê-lo." A versão futura de seu amante respondeu assim que o italiano fez menção de virá-lo. O Chefe dos Cavallone ficou surpreso, já que a outra posição era a favorita de Hibari, e durante meses ele evitou que os dois se encarassem.
Dino deixou escapar um baixo gemido ao penetrar o Guardião da Nuvem. Havia algo extremamente erótico e proibido em estar naquele tipo de situação, e o louro já não se lembrava de possíveis punições ou assuntos importantes. Quando seu corpo falava, sua noção muitas vezes escapava, dando lugar ao mais básico dos instintos humanos. O Guardião da Nuvem arqueou a cabeça para trás na segunda estocada, e na terceira seus gemidos eram tão altos e sensuais que o italiano sentiu um arrepio de pura excitação. Seus lábios se repuxaram em um largo meio sorriso e a quarta estocada iniciou um ritmo forte e rápido.
Os anos tornariam o ex-Líder do Comitê Disciplinar em um amante que sabia o que queria. Em determinado momento Hibari impôs seus próprios ritmos e movimentos, movendo seu quadril e pedindo coisas que o Chefe dos Cavallone nunca havia ouvido antes. O orgasmo chegou primeiro para o Guardião da Nuvem, pintando seu abdômen e fazendo Dino gemer mais alto por notar que teria de se mover com um pouco mais de força devido aos músculos que comprimiam sua ereção. Seu quadril moveu-se por mais alguns segundos, até o moreno abrir os olhos e lançar um sério olhar, inclinando o corpo para frente e empurrando o louro na direção do futon. O italiano ficou surpreso ao ver Hibari por cima, mas não pestanejou. O Guardião da Nuvem começou a se mover, e não foi preciso muito para que o clímax do Chefe dos Cavallone acontecesse.
O moreno não reclamou, como sempre reclamava, quando Dino não avisou sobre seu orgasmo. O ex-Líder do Comitê Disciplinar inclinou-se um pouco mais para baixo, segurando o rosto do louro e o beijando longamente e sem pressa. Havia muito mais do que desejo naquele pequeno gesto, e o italiano sentiu seu coração bater mais rápido. É Kyouya. Meu Kyouya. Os olhos cor de mel se abriram lentamente e dessa vez foi ele quem inclinou-se para frente. Hibari parecia confortável sentado em seu colo e as mãos em seu rosto ainda estavam ali. Havia um estranho meio sorriso nos lábios do Guardião da Nuvem, mas seus olhos pareciam tristes. A realização do que era preciso ser feito atingiu o Chefe dos Cavallone pouco a pouco. Suas mãos envolveram a cintura de seu futuro amante, trazendo-o mais para perto e tentando deixá-lo mais confortável, retirando-se de dentro do corpo de Hibari e posicionando-o por cima de seu membro.
"Você se tornou um belo homem, Kyouya." Dino sorriu orgulhoso.
"Eu sou mais velho do que você, Cavallone." Havia certo sarcasmo naquelas palavras. As pontas dos dedos do ex-Líder do Comitê Disciplinar tocavam os ombros nus do homem que estava por baixo. "Agora sou eu quem deveria envolvê-lo."
O louro riu baixo.
"Eu não me importaria. Isso é apenas detalhe." Uma de suas mãos subiu pelas costas do Guardião da Nuvem e ele podia sentir a pele por baixo de seus dedos se tornar arrepiada. Seus olhos se ergueram e por mais que ele soubesse que deveria dizer as próximas palavras, havia uma parte do italiano que não queria quebrar aquele momento. Ele nunca teve seu amante tão dócil e honesto como naquele momento, e tudo parecia parte de um sonho. Ele não é seu amante. Meu amante está no futuro... no momento. O Chefe dos Cavallone engoliu seco e desceu a mão pelas costas de Hibari antes de continuar. O que viria em seguida seria difícil. "Como eu morrerei, Kyouya?"
A pergunta não pareceu surpreender o Guardião da Nuvem, que manteve o mesmo olhar triste. Entretanto, como uma reação física, os lábios do moreno se tornaram finos e por um leve momento Dino pensou tê-lo visto tentar se afastar de seus braços. Para evitar isso, suas mãos apertaram um pouco mais o abraço, querendo mostrar que ele não iria a lugar algum.
"Você é envenenado e recebe quatro tiros. O que mata realmente é o veneno."
"Um jeito feio de se morrer." O louro juntou as sobrancelhas tentando se imaginar morrendo daquele jeito. A imagem não foi muito agradável.
O restante das palavras do italiano não foi proferido. Ele tinha muito mais a dizer, na verdade, ele estava ali por aquele único intuito e seus planos originais não envolviam sexo com a versão mais velha de seu amante. Porém, como ele negaria os braços que envolveram seu pescoço em um forte e aconchegante abraço? Como dizer não àquele homem, quando ele estava visivelmente cansado e exausto de toda aquela luta? O Chefe dos Cavallone não podia dar as costas ao amor de sua vida, independente da época. Independente da situação. Então ele se permitiu ser abraçado. Ele deixou que Hibari o envolvesse em seus braços e retribuiu o gesto.
Por longos minutos nenhum deles disse palavra alguma. Não era necessário. Ambos sabiam o que cada um sentia e pensava, em um entendimento mútuo e silencioso. Na verdade, as coisas sempre foram assim entre eles. O Guardião da Nuvem era naturalmente recluso e calado. Dino precisou invadir aquela muralha e, embora os anos os tivessem deixado mais comunicativos, a maioria dos entendimentos ainda era feita através de olhares e momentos silenciosos, mas cheios de significados. Quando o moreno ergueu o rosto e o encarou com olhos brilhantes e cheios de arrependimentos, o louro sorriu e levou uma das mãos até os lábios de seu futuro amante, balançando a cabeça em negativo.
"Guarde-as. Eu não quero ouvi-las." O italiano quase se divertiu com a expressão confusa no belo rosto de Hibari. "Eu sei o que aconteceu e foi por isso que eu o chamei aqui. E sim, foi tudo combinado e eu peço desculpas por isso, mas eu precisava falar com você, embora a conversa tenha acontecido um pouco tarde." As bochechas do Chefe dos Cavallone se tornaram rubras. A realização de que ambos estavam nus o deixou levemente incomodado. "Eu o chamei aqui porque quero pedir que desista do seu plano, Kyouya."
De tudo o que foi dito e feito naqueles minutos, aquela foi a única coisa que conseguiu arrancar uma reação imediata do Guardião da Nuvem. A expressão serena transformou-se em uma máscara carregada de ressentimento e dor. Os olhos negros se tornaram pequenos e se Dino não o tivesse segurado, o moreno teria se afastado no mesmo instante. Entretanto, foi preciso muito mais do que boa vontade para impedir Hibari de se distanciar, e o louro precisou utilizar a força física. Seus braços viraram o Guardião da Nuvem, fazendo-o ficar por baixo. A versão dez anos mais velha era forte, e o italiano sabia que teria de tomar medidas drásticas se quisesse falar tudo o que tinha para dizer antes que seu tempo terminasse. "KYOUYA!"
O grito fez o moreno abrir os olhos e parar de lutar por um momento, mas a raiva ainda estava ali.
"Saia de cima de mim, Cavallone. Eu vou mordê-lo até a morte!" Hibari empurrava e chutava o italiano e quanto mais acuado ele se sentia, mais força ele colocava em seus golpes. "Eu não vou desistir de nada. Você está perdendo seu tempo!"
"Ouça, Kyouya. Você não pode continuar com isso." O Chefe dos Cavallone sentia o sangue ferver. Um rápido vislumbre em seu relógio e ele tinha pouco mais de dez minutos antes que o efeito da bazuca de dez anos passasse e então tudo estaria perdido. "Eu não preciso da sua vingança!"
As palavras pareceram acertar Hibari como um tapa. Seus movimentos pararam e naquele exato momento Dino se arrependeu de ter utilizado aquela escolha de palavras. Se a expressão de fúria e ressentimento o havia deixado preocupado, quando os olhos do Guardião da Nuvem se tornaram úmidos com lágrimas e seu rosto mostrou nada além de pura derrota, ele simplesmente não soube o que fazer. Aquela era a primeira vez que o italiano via tal expressão no rosto do arrogante e indiferente moreno.
"Kyouya, eu não tenho tempo para muitas explicações, então peço que me ouça, por favor." A voz do Chefe dos Cavallone soou levemente desesperada. "Eu sinto muito sobre o futuro, mas eu vou dar um jeito nisso. Porém, eu preciso que confie em mim. Você pode fazer isso?"
Hibari não se moveu, mas Dino sabia que ele escutava. Desde o começo a relação entre eles era baseada em confiança. Quando Reborn o enviou para treinar o "teimoso e forte garoto que poderia se tornar o Guardião da Nuvem", a segunda coisa que o louro disse ao vê-lo foi "Você precisa confiar em mim, Kyouya." Quando roubou o primeiro beijo do moreno e, claro, depois de levar uma bela surra, aquelas foram as exatas palavras que o italiano usou ao declarar seus sentimentos. E durante todos aqueles anos não houve um único momento em que o Chefe dos Cavallone duvidasse da confiança de seu amante, então só haveria um jeito de fazer o Guardião da Nuvem acreditar que aquelas palavras eram verdadeiras.
"Eu darei um jeito nisso, então, por favor, não faça nada. Essas mãos..." Dino desistiu de manter o homem que estava por baixo quieto e o soltou, segurando as mãos de Hibari entre as suas. "Eu não quero sangue inocente em suas mãos. Você não é assim, Kyouya. Eu jamais permitirei que você se transforme em outra pessoa. Então, confie em mim. Eu sei que o fazer."
O Guardião da Nuvem permanecia completamente estático. Uma olhada no relógio e o louro soube que seu tempo estava praticamente no fim. Aquilo o deixou triste, uma tristeza tão profunda que ele podia sentir seus olhos se tornarem úmidos com a ideia de deixar aquele homem ir embora sem ele... para retornar a um futuro completamente e totalmente solitário.
"Quando você voltar para o futuro, eu quero que continue vivendo a sua vida. Você vai retornar para uma casa vazia e acordará sozinho por um dia, uma, duas, ou até mesmo três semanas." A voz do italiano saiu mais grossa. O choro estava em sua garganta, mas ele não se permitiria aquele momento. Ele precisava ser a parte forte, o porto seguro daquele homem que não tinha absolutamente nada em que acreditar ou se apegar exceto suas palavras. "Mas um dia você vai acordar e eu estarei lá novamente e então você poderá dizer todas essas palavras que queria me dizer. Eu não as quero, Kyouya, porque eu não as mereço. Eu não sei o que houve no futuro, mas sei que tenho minha parcela de culpa no que aconteceu. Eu nunca o deixaria, Kyouya. Esse tipo de pensamento jamais passou pela minha mente, então, quando eu retornar, você pode me morder até a morte para garantir que eu nunca esqueça disso que acabei de dizer agora. Não existe possibilidade de eu deixar de amá-lo e você sabe disso. Você sempre foi tudo para mim. A minha melhor parte, a peça que sempre faltou." As lágrimas escorreram por seus olhos mesmo a contragosto. "Espere por mim, Kyouya. Por favor, espere por mim."
As palavras foram seguidas por um delicado beijo na testa do Guardião da Nuvem. Seus lábios se repuxaram em um meio sorriso e não havia melhor resposta para aquela sua declaração do que os olhos surpresos e as bochechas coradas de seu futuro amante. O moreno o olhou por alguns segundos, empurrando-o com força, e em seguida ficando em pé como se nada tivesse acontecido. O Chefe dos Cavallone riu, puxando suas roupas e ficando em pé também, passando as costas de suas mãos sobre seus olhos chorosos.
"Eu havia esquecido o quão idiota você era nessa época, Cavallone." Hibari vestia-se com certa pressa. Tudo o que Dino via eram suas costas.
"Eu não acho que mudarei no futuro hehehe."
"Você vai ser mordido até a morte quando eu retornar." O Guardião da Nuvem virou-se e ergueu uma sobrancelha. Seus lábios se repuxaram em um sádico meio sorriso e não havia sinal de ressentimento ou tristeza naquele belo rosto. "Você o traiu."
O italiano arregalou os olhos e entreabriu os lábios para questionar o que havia ouvido, mas tudo o que recebeu foi uma bomba de fumaça em seu rosto que o fez tossir freneticamente. As únicas peças de roupa que ele havia vestido haviam sido a roupa de baixo e a calça social, e na confusão sua camisa havia deslizado por seus dedos. "Ky-Kyouya?"
Não houve resposta... verbal. Em um segundo o Chefe dos Cavallone estava ali, em frente ao guarda-roupa e tentando enxergar qualquer coisa além de seu nariz, para no segundo seguinte suas costas bateram com força no apoio da varanda, atravessando e quebrando a porta de madeira. Os olhos cor de mel se abriram devagar, mas ele pôde ver claramente Hibari parado no meio do quarto com os tonfas em mãos e uma expressão furiosa em seu rosto.
"E-Eu posso explicar, Kyouya!" Dino se pôs em pé no mesmo instante. Daquele ângulo ele pôde ver o futon bagunçado e o tubo de lubrificante em um canto. As últimas palavras da versão futura de seu amante finalmente fizeram sentido. Eu estou morto.
O moreno deu um passo à frente, e foi naquele momento que o louro soube que teria de deixar para ter aquela conversa em outra oportunidade. Seus lábios proferiram outro "Sinto muito", antes que seus pés corressem pelo caminho de madeira, como se sua vida dependesse disso. O Chefe dos Cavallone não sabia se seu amante ainda estava atrás dele, pois suas pernas não pararam até que ele entrasse no carro estacionado no fim da grande escadaria.
"P-Para o hotel, a-agora." O italiano tinha a voz rouca por causa da corrida e somente ao sentar-se no confortável banco do veículo foi que ele se deu conta que havia deixado a camisa e o terno no templo.
"Está realmente quente, não é, Chefe?" Romário ajeitou o retrovisor e deu partida no carro.
Dino riu baixo e fechou os olhos, respirando fundo e apoiando a nuca no alto do banco. Ele sabia que teria trabalho com Hibari, mas infelizmente aquilo precisaria esperar. No momento ele tinha coisas mais urgentes para resolver, e a partir dali ele teria de agir sozinho. O caminho até o hotel foi feito basicamente em silêncio, e vez ou outra o Braço Direito dos Cavallone lançava um olhar furtivo e cheio de sarcasmo para seu Chefe. O louro subiu de elevador até seu quarto, entrando no exato momento em que o telefone tocava. Aquela cena o fez franzir a testa, lembrando que foi exatamente depois de um telefona que ele se ausentou há pouco mais de uma hora.
"Ciao~"
"Como foram as coisas?" A voz do outro lado parecia incerta e duvidosa. O italiano sorriu sem graça, imaginando o quão falível ele aparentava ser.
"Sim, sim. Podemos passar para a próxima parte do plano."
"Eu estou a caminho do seu hotel para entregar os relatórios de Chrome."
"Eu tomarei um banho, mas peça para subir e fique a vontade, está bem?"
A ligação foi encerrada sem nenhum tipo de despedida e o Chefe dos Cavallone encarou o aparelho antes de pousá-lo na base. O caminho até o banheiro foi curto e, apesar de preocupado com seu precioso Kyouya, Dino sabia que teria de se focar no momento presente ou colocaria tudo a perder. As duas únicas peças de roupas deslizaram por seu corpo e o louro entrou debaixo do chuveiro. A água morna tocou sua face e seus olhos cor de mel se fecharam, e mesmo que o tempo para aquele momento tão pessoal fosse curto, o italiano sabia que precisaria colocar sua mente no lugar. Foi há quatro dias. Até quatro dias eu era completamente ignorante com relação a tudo. A mente do Chefe dos Cavallone retornou ao momento em que ele estava em sua mansão, na Itália, animado com a ideia de ir para Namimori no dia seguinte, quando Romário bateu na porta de seu quarto e comunicou que ele tinha visita. À princípio Dino não achou que fosse importante. Ele havia escutado o barulho de um veículo chegar ao jardim, mas carros entravam e saiam da propriedade com frequência, então aquilo não era nada novo ou inusitado. Porém, a pessoa que o esperava no escritório poderia ser classificada como nova e inusitada... e perigosa.
"VRROOOOOIIIII, Haneuma!"
Squalo largou o livro que tinha nas mãos, deixando com que o objeto caísse sobre uma das poltronas. O Vice-Líder da Varia vestia um conjunto de couro negro, e seus belos e longos cabelos prateados desciam por suas costas como uma cascata de gelo. Há alguns anos ele havia desistido da franja, deixando sua face com uma aparência mais charmosa.
"Olá, Squalo." Havia certa alegria nas palavras do louro. Eram raros os momentos que os dois se encontravam, mas sempre que o via o italiano recordava-se das brincadeiras e dos anos que passaram juntos.
"Ouvi que você vai para Namimori. Deve ser ótimo ter esse tempo livre. É por isso que os Cavallone estão no limbo."
"Os Cavallone não está no limbo." O próprio Chefe respondeu enquanto ria baixo. A Família nunca esteve tão bem quanto naquele momento, mas os comentários sádicos de Squalo sempre existiram.
O homem de cabelos prateados ainda o provocou por alguns minutos até finalmente parar com os gracejos e olhá-los nos olhos. Algo naquele olhar fez Dino se sentir inquieto, e as palavras que vieram em seguida apenas confirmaram o que ele havia sentido.
"Eu preciso dizer algo importante e que está na minha cabeça há algum tempo."
Por cerca de meia hora o louro ouviu a história mais absurda e impossível que seus ouvidos já haviam escutado. O Vice-Líder da Varia falou sobre um antigo funcionário, a morte de seus pais, um filho abandonado e que voltaria, o futuro, conspirações e toda uma sequência de assuntos sem sentido, que o fizeram juntar as sobrancelhas e quase rir. Entretanto, quando a última parte foi dita, o italiano engoliu seco e lembrou-se automaticamente da estranha e inusitada visita que recebera de seu amante há algumas semanas. Hibari nunca disse a que veio, mas de repente tudo aquilo fez sentido.
"Você está me dizendo que eu... morrerei?"
"Eu estou te dizendo que você será morto." Squalo estava estranhamente sério. "Você e a garota do Sawada."
"Kyoko-chan?" As palavras ficaram presas na garganta do Chefe dos Cavallone. Ele conhecia Sasagawa Kyouko, irmã do Guardião do Sol dos Vongola e também o Sol particular de Tsuna. "P-Por quê? Ela é só uma menina."
"Eu não sei, por isso estou comunicando. Eu mesmo soube disse através dos Guardiões do Décimo Vongola, eles receberam informações do futuro e estão pensando em um plano para evitar que isso aconteça." O homem de cabelos prateados recostou-se à mesa do escritório e cruzou os braços. "Eles disseram que Hibari Kyouya pretende matar o garoto."
E foi naquele momento que a história de Squalo conquistou Dino, ou melhor, o obrigou a aceitar que havia algo realmente errado e sério acontecendo. O Vice-Líder contou tudo o que sabia, de sua investigação particular ao paradeiro do rapaz, e que aparentemente a antiga Família que serviu os Cavallone estava ressurgindo. Quando o amigo de infância deixou a mansão, a animação do louro havia diminuído e sua mente estava cheia de dúvidas. Eu pedi para participar do plano. Eu jamais deixaria Kyouya fazer uma coisa dessas. O chuveiro foi desligado e o italiano pegou uma das toalhas que estavam penduradas, enxugando-se e abaixando-se, esboçando um meio sorriso ao ver uma troca de roupas limpas dentro do pequeno armário do banheiro. Romário sempre deixava uma troca de roupas à mão em casos de emergência.
O Chefe dos Cavallone deixou o banheiro e sua companhia já o esperava, sentado em uma das poltronas. Gokudera Hayato ergueu os olhos verdes, ficando em pé e fazendo uma polida reverência com a cabeça. Um pouco atrás estava o Guardião da Chuva dos Vongola, que parecia estranhamente sério.
"Desejam tomar alguma coisa? Posso pedir qualquer coisa. Talvez chá ou café?"
"Não, obrigado. Estamos de saída." O Guardião da Tempestade esticou a mão e ofereceu um envelope pardo que foi aceito no mesmo instante. "Todas as informações estão dentro desse envelope. Diga o que precisamos fazer agora."
Dino encarou o que tinha nas mãos e esboçou um meio sorriso, pousando o envelope sobre a mesa que utilizava para trabalhar.
"Nada. A partir de agora é comigo." A voz do louro saiu brincalhona, mas o olhar do Braço Direito de Tsuna parecia tudo, menos gracioso. "Eu precisarei de alguns dias, talvez semanas para dar meu próximo passo e infelizmente é algo que somente eu posso fazer."
"Nós não podemos perder tempo, Haneuma." Gokudera Hayato parecia irritado. Ele está preocupado com Tsuna, o italiano abaixou os olhos cor de mel. Ele sabia que o Décimo tinha conhecimento sobre o assunto, mas, desde que chegou, Tsuna estava incomunicável.
"Acredite, o final feliz muito me interessa." O Chefe dos Cavallone riu irônico. "Mas pedirei que tenham paciência. Quando o momento chegar eu os avisarei."
Aquela resposta não era exatamente o que o homem de cabelos prateados esperava, e sua contrariedade estava estampada em seu rosto. O Guardião da Tempestade fez novamente a mesma reverência com a cabeça e pediu licença, dando meia volta e caminhando na direção da porta do quarto. Yamamoto Takeshi, que havia permanecido quieto e em um canto durante o tempo todo, apenas o olhou e deu de ombros, como se pedisse desculpas pelo amigo. Quando suas visitas se retiraram, Dino suspirou e caminhou até o outro lado do quarto, jogando-se na cama e ali permanecendo. Seu rosto estava afundado no meio dos macios travesseiros e o cheiro da roupa de cama o deixou triste. A camareira ainda não havia passado em seu quarto, então tudo ali tinha um pouco do cheiro de Hibari. Os olhos cor de mel se fecharam e por um breve momento o louro lembrou-se da hora que passou no templo e, apesar de ter aproveitado o momento, uma parte do italiano havia visto o gesto mais como uma caridade do que outra coisa. Ele amava o Guardião da Nuvem, não importava de qual época, mas era o Kyouya do presente que lhe era insubstituível. Eu não consigo imaginar que tipo de vida o outro Kyouya teve nesses meses. É desumano até mesmo pensar. O corpo magro, os olhos cheios de tristeza e o ar carregado de rancor levaram um arrepio incomodo através da espinha do Chefe dos Cavallone. Não era aquilo que ele queria para seu amante. Desde o começo ele prometeu somente alegrias, sorrisos e momentos felizes, e no fim havia transformado a pessoa mais importante de sua vida em uma espécie de zumbi. Eu mudarei isso, Dino rolou na cama, o suficiente para que seus olhos cor de mel pudessem encarar o teto branco do quarto de hotel, eu mudarei o presente e devolverei o seu futuro, Kyouya.
Continua...
