CAPÍTULO X

— Que diabos está acontecendo aqui?

Usagi e Motoki foram um para cada lado, como amantes pegos em flagrante. Mais do que tudo apreensiva, ela não pôde deixar de sentir uma pontinha de alegria pela volta inesperada de Mamoru, ape sar da expressão de ódio com que ele avançou em direção à bancada.

Motoki saltou do banco e com as mãos nos bolsos e cara de bravo. Usagi reconheceu a reacção. O ex-namorado nunca levantara uma mão para ela, mas já tinha se envolvido em inúmeras confusões de bar para que Usagi soubesse quando ele se preparava para uma briga.

A consciência de que Motoki levaria a pior contra o homem enor me que o mirava raivoso levou Usagi a se posicionar no meio dos dois.

— Nada está acontecendo aqui, Mamoru — disse Usagi, tentando demonstrar frieza. Ela nunca o tinha visto assim. Nervoso a ponto de matar alguém.

— Você é o tal de Motoki, não é? Bem, se você quiser continuar inteiro, sugiro que você se mande agora da minha casa, antes que eu jogue o que sobrar de você pela janela.

— Tente, meu canalha. — A voz de Motoki soou menos confiante do que as suas palavras. — Eu estava de saída quando você chegou.

— Você o chamou aqui? — Os olhos azuis e brilhantes de Mamoru focaram no rosto branco de Usagi. Ela balançou a cabeça positivamen te. Motoki ainda dava uma impressão convincente de que não se deixa ria enxotar por homem nenhum. — Saia daqui agora. E nem pense em voltar, porque você não vai ser convidado de novo. Não é, Usagi?

Ela se pegou de novo acenando a cabeça, concordando com Mamoru. Motoki partiu, e Mamoru, do outro lado da sala, tinha os olhos inflamados fixos nela. Era vez de Usagi pedir explicações.

— Você tinha que agir como um marginal? — As palavras saíram de forma impulsiva da sua boca, e ele teve uma reação imediata. Em segundos, eles já estavam cara a cara.

— Ele devia agradecer por não lhe ter quebrado o pescoço! — esbravejou Mamoru. — No que diabos você estava pensando para chamar o seu ex-namorado aqui? Quando o gato vai embora os ratos saem para brincar?

Bombardeada com perguntas insultuosas, Usagi, perplexa, per maneceu em silêncio. Terminada a munição, Mamoru desapareceu em direção ao quarto.

Ela o seguiu em passos acelerados e chegou ao quarto no momento em que ele com um movimento se livrava da camisa e se sentava na cama.

— Eu pensei que você não voltaria até quinta-feira — disse Usagi, impressionada com os músculos dos ombros dele.

— Desculpe por desapontá-la, querida.

— Eu sei o que você está pensando, Mamoru.

— Eu sei o que vi. — Ele desafivelou o cinto.

— É por causa disso que não podemos nos casar!

— Por causa disso o quê? Por que você não seria capaz de se afastar do seu ex-amante?

— Porque você é um machista arrogante!

— Eu não considero arrogante esperar que você convide ex-aman tes para o meu apartamento!

— Eu precisava conversar com alguém.

— Você pode conversar comigo! — disse Mamoru. Cada palavra que deixava a sua boca era equivocada. Ele sabia disso, mas não conseguia se controlar.

Mamoru se dirigia para o banheiro, quando parou, virou-se para ela e voltou à carga:

— Fala! Você não quer falar? Fala!

— Não com você neste estado. — Usagi gemeu baixinho e escon deu o rosto com as mãos, mas não a tempo de Mamoru perceber que ela chorava. Deixá-la sozinha agora seria o fim. Ele tinha consciência disso tanto quanto sabia que o fim da relação significaria o fim dele também. Sem alternativas, respirou fundo e se aproximou na expec tativa de que ela o afastaria.

Em vez disso, Usagi baixou a guarda, rendeu-se ao abraço e, com um suspiro de cansaço, escondeu a cabeça no peito nu de Mamoru. Ela pôde ouvir a emoção do coração dele e espalmou ali a mão para também senti-la.

— Eu não posso suportar a idéia de que você tenha qualquer coisa a ver com aquele homem. — Com os dedos entre os cabelos dela, Mamoru a apertava contra o seu peito.

— Você está com ciúme?

Mamoru forçou uma risada.

— Eu? Ciúme? De alguém como Motoki? Sim, estou.

O coração de Usagi disparou. Quanto custaria para um homem como Mamoru admitir tal fraqueza? Fraqueza para ele, pois ela não via assim. Ela se livrou do abraço para poder olhá-lo nos olhos.

— O que você está tentando me dizer, Mamoru?

— Nada. — Ele virou o rosto, ruborizado de vergonha.

— Ah, tudo bem. Eu tive uma esperança... — Usagi baixou a cabeça e sentou-se na cama.

— Esperança? De quê? — interrompeu Mamoru. — Você está di zendo... — insistiu, até que Usagi o olhasse novamente.

— Eu não amo o Motoki, caso você esteja com medo disso.

Mamoru deu um sorriso . Olhava para ela, olhava para a pare de.

— Claro que não ama — afirmou ele, tão metido que Usagi achou graça.

— Isso não significa que aceite seu comportamento, embora... acho que entenda. Eu não deveria tê-lo convidado. Foi um acto es túpido.

— Ele não deveria ter vindo. — Ela não amava Motoki. Ele sen tia-se como uma criança em uma loja de brinquedos. — Eu suponho que ele tenha ficado sentido quando você falou sobre o nosso filho.

— Pelo contrário. Ele também vai ser pai. — Usagi deitou-se na cama, com o olhar perdido no teto e a cabeça apoiada nas mãos. — Ele estava tendo uma outra relação nos últimos meses que passamos juntos.

— Que canalha! — Como um homem em sã consciência pode ter uma amante quando recebe a bênção de morar com uma mulher fabu losa como aquela?

Agora Mamoru sentava na cama.

— E você ficou furiosa?

— Furiosa? Por que ele me traía? Eu gostaria que ele tivesse tido a coragem de me contar na ocasião, mas não fiquei furiosa.

— Você tem certeza?

Usagi se encostou nos travesseiros na cabeceira da cama, enco lheu as pernas e o olhou com um sorriso.

Ela não aguentava mais aquele jogo. Poderia afugentá-lo, mas as sumiria seus sentimentos em relação a ele, pois agora sabia que Mamoru sentia mais do que desejo. Ele gostava dela. Do contrário, jamais admitiria o ciúme. E gostar poderia evoluir para amar, não é?

— Tem uma coisa que quero dizer para você. — Usagi tinha a voz trêmula. Mamoru estava concentrado, pronto para ouvi-la.

— O quê? — sussurrou Mamoru.

— Quando a gente se conheceu... Quando você me abordou pela primeira vez... Não... Eu não estou dizendo o que quero dizer...

— Você não precisa dizer nada — disse Mamoru. — Apenas... Ape nas case-se comigo. Depois, a gente conversa. — Rebaixar-se a esse nível. Que tipo de homem era ele? Ele deveria exigir o casamento, e não implorar daquele jeito.

— Está certo.

O silêncio assemelhava-se a uma corrente elétrica em volta deles. Antes que Mamoru pudesse quebrá-lo, Usagi levantou a mão. Ela res pirou fundo.

— Não porque você acha que não tenho outra alternativa. Eu te nho. Nós poderíamos ter uma criança, sem nos casarmos. Eu vou me casar com você por que...

— Por que...

— Porque em qualquer casamento, não importa o que você diga, tem de haver amor, e o amo. Em algum momento, você derrubou as minhas barreiras, e me apaixonei. Eu tenho por você amor suficiente que dê para nós dois, e, se vier a me decepcionar, tudo bem. Eu apenas não posso mais continuar lutando contra isso. — Ela enfim dissera. Fechou os olhos, suspirou e jogou a cabeça para trás.

Usagi notou que ele se aproximou, mas tinha muito receio para abrir os olhos e encará-lo.

— Eu compreenderei se você quiser reconsiderar o seu pedido de casamento, depois disso.

— Você pode... Você pode repetir o que você acabou de dizer?

— Eu entenderei se você mudar de opinião.

— Não, não esta parte. A outra parte.

Agora, Usagi abriu os olhos e viu a expressão de contentamento em seu rosto.

— Não é nada engraçado — afirmou ela, recusando-se a acreditar no que o coração lhe dizia. O coração dela não era confiável.

— Sim, é engraçado. É muito engraçado por que... — Ele ainda sorria como um bobo ao tocar sua bochecha apenas com um dedo. — Porque voltei com antecedência a fim de contar-lhe o mais rápido possível a mesma coisa.

Usagi duvidou de que escutara corretamente.

— Você me ama? Amor... Amor, mesmo? Ou apenas gosta muito?

— O sentimento que nunca tive por qualquer mulher que tenha passado pela minha vida. — Mamoru baixou a cabeça e a beijou, um beijo longo, lento, que parecia durar para sempre.

Ele então ajeitou-se na cama para ter uma visão completa de Usagi.

— Quando vi na boate, fervi. Nunca havia sentido um desejo tão forte por uma mulher. Quando você não me respondeu da maneira que esperava, alguma coisa me fez persegui-la.

— Meu pobre Mamoru. Sentir-se impelido a perseguir uma mulher. Deve ter sido um choque.

— Você está gostando disso, não está? — brincou Mamoru. — Você gosta do fato de estar totalmente sob o seu poder?

Usagi fez que sim com a cabeça e riu para ele.

— É uma via de duas mãos — murmurou ela.

— Eu sei disso. — Usagi não tinha nada por baixo vestido de algodão. Mamoru retirou o agasalho dela e acariciou-lhe os seios, como se fosse o seu dono. — Sem sutiã. Ainda bem que não sabia disso quando a encontrei abraçada com o seu ex. Eu o jogaria pela janela.

— E ele não teria merecido isso. — Usagi envolveu seu pescoço com os braços e se empinou um pouco para sentir os seus mamilos contra o peito de Mamoru.

— Você disse a ele que me amava? Que ele não significava nada para você?

— Mais ou menos isso.

— Óptimo. — Com uma das mãos, ele começou a deixar a calça de malha de Usagi. Ela o auxiliou balançando as pernas.

— E você não ficou chateado por causa do bebé?

— Chateado? — Mamoru riu, divertindo-se pelo tanto que ela se equivocara. — Você estava grávida, e isso me dava a desculpa perfei ta para fazê-la casar comigo.

— Eu nem suspeitei disso. Eu pensei que você estava apenas assu mindo as suas responsabilidades e que seria um peso indesejado a despencar na sua vida.

— Bobinha.

Uusagi não saberia precisar quando exatamente eles se despiram completamente. Ela percebeu, sim, quando os dois fizeram amor, um sentimento doce de completa felicidade, acompanhando o conhecido desejo intenso.

Depois, eles retomaram a conversa que haviam interrompido.

— Eu nunca tentei manipulá-la quando consegui o emprego para você — murmurou Mamoru. Tinha uma das mãos repousada, possessi va, sobre os seios de Usagi, e a outra encaixada sob a cabeça dela. — Eu acho que já a amava, eu queria vê-la longe daquela casa, longe daquele homem. Contar sobre o que eu havia feito tornava-se cada vez mais difícil, à medida que ficava cada vez mais envolvido, mais de pendente de você.

— Dependente? — Aquelas palavras eram música para os ouvidos de Usagi.

— Inteiramente dependente. De um homem que não suportava a ideia de uma mulher a se meter na sua vida, virei um frustrado porque a mulher para quem eu dissera que queria um relacionamento sem compromissos me tomou ao pé da letra. Eu a queria possessiva, por que eu estava ficando mais e mais possessivo.

— Que bom — reagiu Usagi, extasiada. Ela escorregou a mão pela barriga de músculos definidos de Mamoru mais para baixo, onde a masculinidade dele dizia o quanto estavam atraídos um pelo outro.

Mamoru, a exemplo de Usagi, esticou o braço para senti-la e a acariciou até que ela começasse a tremer.

— Não tem problema para a gente fazer... fazer isso? Fazer amor não vai machucar o bebé, vai...?

— Eu acho que a gente pode fazer amor quantas vezes quiser. — A respiração de Usagi se acelerou em resposta aos dedos dele, e ela gemia em meio ao esforço para manter o fôlego. — Nosso lindo bebé vai nascer em uma casa cheia de amor. O que poderia ser melhor?

Mamoru Júnior Chiba nasceu mesmo em um ambiente de amor, e ele deve ter se dado conta disso, pois foi o mais feliz dos bebés. Cabelos e olhos escuros e brilhantes, ele era a imagem do pai orgu lhoso. Aos oito meses, já engatinhava com energia pelo quarto.

O casamento do casal foi simples, sem pompas. Não foi necessário o tradicional esforço para quebrar o gelo entre os pais do noivo e da noiva, já que o bebé era assunto suficiente para que as famílias se integrassem, assim como o longamente planejado batizado na Gré cia. Motoki e a sua namorada estiveram presentes, com o consenti mento de Mamoru, assim como Tayki e algumas meninas da boate com quem Usagi manteve contato. A casa de campo de Mamoru, onde agora o casal vive com o filho, é grande o bastante para alojar a mãe e o pai de Usagi, quando decidem visitá-los. A visita dos sogros dá a Mamoru a oportunidade de passar um excitante fim de semana a dois com a esposa no seu apartamento em Londres.

E era justamente ali onde agora eles estavam, esparramados no colchão king-size, saciados após uma longa sessão de sexo, que co meçara às 18 horas, quando eles voltaram de um agitado dia de com pras, e somente interrompida pela necessidade de degustar a comida tailandesa que o casal pedira a um restaurante que entregasse em casa.

Nesses ocasionais fins de semana a sós, Usagi se alegrava por ver Mamoru mais ansioso do que ela sobre como estaria Mamoru Juniorr sem eles. Neste instante, ele, com a testa franzida de preocupação, pensa va nos riscos de um acidente por causa dos primeiros movimentos do filho. O bebé não respeitava nada quando saía em exploração.

Usagi concedeu um tempo para o discurso rabugento de pai superprotetor, antes de se encolher junto ao peito de Mamoru com um sorriso.

— E estou aqui — murmurou ela, contornando a boca dele com o dedo. — Eu pensava ser mulher o suficiente para distraí-lo das suas pequenas preocupações...

Mamoru agarrou o dedo dela com a boca, começou a sugá-lo e pre senciou o rosto de Usagi corar de prazer.

— Você sabe do que você precisa, não sabe? — provocou ela.

— É claro que sei, minha bruxinha adorável...

— Uma outra criança... — Usagi esperou que Mamoru processasse a informação. Observava o rosto lindo dele, o rosto que um dia foi tão misterioso, e que agora revelava amor em cada traço.

— Você não está...

— Eu estou. Eu fiz o teste nesta manhã e estava aguardando a melhor hora para contar.

— Um outro bambino.

— Ou bambina. — Usagi riu, divertindo-se com a cara que ele fazia.

— Como a mama. — Ele sorriu, beijou-a na ponta do nariz e pela primeira vez se perguntou o que ele havia feito para alcançar uma felicidade tão perfeita como aquela...

FIM