Algo definitivamente havia mudado na relação de Ranma e Akane. Eles falavam pouco, mas um olhava para o outro constantemente e, quando os olhares se fixavam, eram como confrontos em que cada um deles investigava todo aquele estranhamento que surgia entre eles.

Continuavam seguindo o cotidiano normalmente. Escola, treino, dever de casa. Ranma visitava menos a casa de Akane, indo geralmente junto com Genma. Mas por conta de seu desleixo na escola, constantemente precisava da ajuda dela para estudar. Agora riam menos juntos, e não comentavam muito sobre as coisas da escola.

Depois daquele jogo Ranma continuou a participar das rodinhas. Akane por vezes via de longe, mas nunca por muito tempo porque acabava desaparecendo para lanchar com Gosukungi, que nunca estivera mais radiante. Alguns dos garotos comentavam sobre isso, e perguntavam o que Ranma pensava disso. Ele simplesmente dizia que não tinha nada a ver com a vida de Akane. E as meninas presentes na roda sempre defendiam a colega, dizendo que os dois só lanchavam juntos porque eram os únicos que não queriam jogar.

Quando saíam da escola, nem Akane perguntava quais desafios Ranma havia cumprido e nem Ranma perguntara o que ela andara fazendo enquanto ele os cumpria. Mas os dois se questionavam sobre essas coisas.

Outra diferença gritante de atitude era o reconhecimento corporal de ambos, e isso era bem visível no treino. É claro que o corpo dos dois mudava, mas até que reconhecessem mentalmente as formas físicas não possuíam grandes significados. Nessa nova fase, entretanto, os golpes em que um ficava muito perto do outro, envolvendo um contato maior, acentuavam a proximidade dos corpos como nunca antes. Vez por outra causava, inclusive, algum constrangimento.

Com todas essas mudanças de perguntas, respostas e percepções, cada um encontrava uma maneira de se distrair de pensamentos complicados.

Ranma ficava cada vez próximo de outras pessoas e mais distante de Akane, e isso não era agradável. Ele ainda a considerava, de certa forma, uma amiga. Sentia sua falta. Mas para suprir isso ele passava mais tempo com os outros garotos e, como ele era uma pessoa influenciável, passou também a se comportar mais como eles. Mas uma vez inserido nesse mundo repleto de novos sentimentos, percebendo os colegas que começavam a falar de garotas, notou muitas coisas que preferia não ter notado.

Primeiro que boa parte dos garotos admirava muito Akane, e tinham até certa inveja dele pela proximidade que tinha dela. Um dos amigos dele não se interessava por Akane, mas por outra menina, e sempre ficava bravo quando um dos outros falava dela. Isso o fazia pensar sobre seu próprio sentimento de contrariedade quando os outros começavam a elogiar demais Akane, e sobre aquele sentimento estranho que sentira ao vê-la com Gosukungi.

Mas o pior de tudo era começar notar as garotas, notar a garota. Olhar para Akane e ver que ela era mais do que sua amiga de infância e por mais comportada e turrona que ela fosse, ela estava crescendo de uma maneira que ele nunca havia percebido antes. Todas as vezes em que via ela e começava a pensar nisso, balançava a cabeça e tentava pensar em outras coisas. Porém, as conversas dos outros garotos acabava, entre jogos, lutas, filmes e desenhos, acabava uma ou outra o levando a pensar nisso de novo.

Akane lidava com essas coisas de maneira diferente. Estava apenas distante. Conversava com as outras garotas e sempre dava um jeito de escapar quando começavam a falar de garotos porque o assunto a chateava, principalmente por elas perguntarem para ela o tempo todo sobre Ranma ou por que estava evitando ele. Chegaram até perguntar se ela estava tendo algo com Gosukungi. "Eu tenho mais o que fazer do que ficar atrás de garotos." respondia ela. É claro que no caso de seu novo amigo, ela não precisava ir realmente atrás dele. Mas nunca havia se interessado nem um pouco por ele. Só gostava de ter alguém pra conversar, nem que fosse pra responder gaguejando, como ele sempre fazia.

Ela conseguia desviar melhor dos pensamentos ruins, era relativamente boa em ignorar coisas ruins quando tinha algo em que poderia se concentrar ou, pelo menos, descontar suas confusões. Andava treinando muito em casa, e estudando muito também. Passava o tempo todo em que estava em casa treinando ou estudando. Estava se dedicando tanto naqueles dias que Genma ficava cada vez mais surpreso quando a via praticando nas aulas. Ela estava ficando tão rápida quanto Ranma, e isso acirrava muito as coisas entre ela e Shampoo, que geralmente era sua rival mais feroz. Diversas vezes Genma precisava interferir para que não se machucassem. Shampoo nunca gostara de Akane, e era fácil descobrir o porque. Ela sempre gostou de Ranma.

Isso incomodava tanto Akane, que ela precisava quebrar algumas tábuas quando chegava em casa para se livrar da raiva da Shampoo. Por mais irracional que fosse essa raiva, ela nunca passava.

- Por que ainda está treinando? - perguntou Ranma da porta do Dojo. Akane se assustou e quase caiu de cara no chão.

- O que está fazendo aqui essa hora? - exclamou ela ainda respirando rápido. Fazia alguns dias que ele não aparecia na casa dela.

- Kasumi decidiu fazer um prato especial hoje e nos chamou para jantar. - respondeu ele chegando perto dela. - quer companhia?

- Se você não for atrapalhar meu treino.

- Qual é, Akane! Até parece que eu vou atrapalhar. Posso te ajudar, prometo não machucar você. - falou Ranma em tom de superioridade, entrando em posição de combate. Seria menos constrangedor lutar com ela do que ficar olhando só de longe. E todos notariam que havia algo de errado se ele ficasse dentro de casa o tempo todo.

A provocação foi respondida à altura. Imediatamente ela o aceitou como oponente e começaram a lutar. Ela investia pesado nos chutes e socos, como se tentasse de verdade feri-lo, mas ambos preferiam golpes mais distantes, por assim dizer, do que tentar derrubar o outro no chão.

Até um certo momento Ranma apenas tentava desviar e simular alguns contra ataques, mas com o passar do tempo começou a se irritar com a garota, pois notou que ela não estava nem tentando se controlar para não acertá-lo, como deveria fazer em um treinamento. Diversas vezes, não fosse os reflexos rápidos que possuía, teria levado um chute na cara bem feio. Depois de desviar pela quinta vez de um golpe quase certeiro - dessa vez ia ser um soco que acertaria no meio da sua barriga - perdeu a paciência e pulou para cima dela e a imobilizou com um dos braços e com o outro se segurou para não cair em cima dela.

E pela primeira vez depois das novas perguntas eles estavam frente a frente. Incontestavelmente próximos, indiscutivelmente envolvidos, absolutamente necessitados de respostas.