Capítulo 11 – One Shot

Depois que acordara daquele pesadelo, Katniss pegou o celular e olhou a hora. Passava da meia-noite. Ainda havia alguns minutos para dormir, antes que pudesse se preparar para ir a Los Angeles. Mas seria impossível voltar a dormir. A imagem de Peeta sendo baleado e caindo morto à sua frente estava bastante nítida.

Levantou-se e foi ao banheiro. Abriu a torneira da pia e molhou o rosto. A água gelada a despertou e fez com que as imagens sumissem momentaneamente de sua mente. O nervosismo passou, vindo agora uma sensação de alívio.

Os sequestradores, de fato, haviam ligado para ela no dia anterior, marcando o encontro no Plaza Substation. Essas referências, misturadas a ansiedade para reencontrar com o homem que amava, acabaram causando aquele pesadelo. Mas sabia que nada aconteceria. Seu plano funcionaria.

Voltou para o quarto e se sentou na cama. Mas por prever que ficaria apenas se revirando na cama, ela acabou pegando suas roupas e andou de volta para o banheiro, onde tomou o seu banho e fez toda a sua higiene. Deixou o seu quarto e chamou o elevador.

A estufa artificial estava silenciosa, exceto pela fonte ligada. Estranhou, pois sabia que à noite a bomba desligava. Aproximou-se e viu Finnick Odair sentado na beirada da fonte. Observava a água jorrar, parecendo alheio a tudo ao seu redor.

- Não deveria estar dormindo? – ela questionou.

- Você não deveria estar dormindo também? – ele rebateu a pergunta, arqueando uma das sobrancelhas. Em seguida deu de ombros. – Annie teve problemas e estava tentando acalmá-la um pouco. Mags a levou agora a pouco. Sua vez.

Ela riu e encarou o rapaz ao seu lado.

- Pesadelo. – a moça disse. – Não consigo me livrar da sensação de que algo pode dar errado... Perder Peeta... Não paro de pensar que se algo acontecer a vocês, a culpa será inteiramente minha...

Ele passou o braço pelo ombro dela, trazendo-a mais para perto e a apertando num abraço de lado.

- Kat, fique calma. Vai dar tudo certo. – o rapaz falou. – Nosso plano vai funcionar. Johanna não errará o tiro.

- Além disso, – ela continuou, olhando para as mãos pousadas no colo. – gostaria que Gale estivesse aqui.

- Ele quis assim. Você não teve culpa. Não deveria ter se arrumado ainda. Poderia ter descansado mais alguns minutos. Isso talvez fizesse bem.

Eles se olharam e sorriram. Katniss sentia um vazio, deixado por Gale quando ele pediu demissão e foi embora do Tordo, sumindo com seu Ford Fiesta para algum lugar. Perguntou-se onde ele estaria.

Algum tempo se passou e a dupla ficou em silêncio. A morena havia encostado a cabeça no ombro do amigo, que a apertava em seu abraço para consolá-la.

O silêncio foi quebrado quando Finnick ligou para Johanna, onde a atiradora anunciou que já estava se preparando e sua equipe já estava na garagem arrumando tudo o que precisariam nos carros.

A dupla deixou a estufa e subiu para se juntar à pequena comitiva que iria para o Plaza Substation. A equipe de atiradores preparavam as pistolas em seus cintos e guardavam a munição em suas jaquetas.

As duas Land Rover deixaram o galpão do Tordo antes das quatro da manhã. Fazia frio naquela madrugada, mas isso não impediu de Katniss manter a sua janela aberta. A frieza da noite a acalmava e fazia pensar pouco no encontro que teria em algumas horas.

Los Angeles se fazia visível aproximadamente às seis da manhã. Percebeu que o céu já não estava azul escuro, quase negro. Parecia dois tons mais claros, o que não tardaria para que o sol aparecesse e começasse a pintar o céu com as cores do amanhecer. Não demoraria tanto para alcançarem o Plaza Substation.

E seu sonho veio à tona de novo. Sabia que era loucura, mas, assim como ela planejava matá-los, os sequestradores de Peeta poderiam mandar matá-los. Com esse pensamento, ela mandou que seus atiradores não baixassem a guarda, e tomou nota para não fazê-lo também, mesmo com o loiro seguro em seus braços.

As duas Land Rover estacionaram no Los Angeles Union Station. Johanna mandou que seus homens fossem à frente e verificassem a área até o Plaza. Não demorou para que a atiradora recebesse a informação de que estava tudo limpo. Por um momento, Katniss estranhou, mas percebeu que aquilo era um sinal de que eles não tentariam nada contra a pequena comitiva. Ou era assim que gostaria de pensar.

Gostaria de ter tido um grupo maior para avaliar o quarteirão inteiro e ruas próximas, mas a exigência do desconhecido que lhe enviara as mensagens dizia claramente que ela não poderia ter mais do que seis pessoas em sua comitiva, e se percebessem algo, ele não hesitaria em atirar. E Johanna não permitiria que dispensasse seus homens e deixasse sua proteção tão baixa.

Em poucos segundos estavam de frente para o Plaza. As paredes vermelhas alaranjado do local decadente eram iguais as do sonho. A sensação de déjà vu tomou conta de si, e por um momento hesitou quando seus homens alcançaram a porta.

- Vai ficar tudo bem Kat. – Finnick disse, pousando a mão sobre o ombro dela.

Os olhos cinza encaram os verdes-mar. Podia ver que ele estava ansioso, talvez, mas ainda procurava exibir confiança em sua líder. Ela assentiu e caminhou à frente, ordenando que abrissem as portas.

O enorme saguão, já visto em seu sonho, se estendia, com parte de sua estrutura caída e espalhada pelo chão. Do outro lado estavam os homens vestidos de preto, cobrindo os cabelos com bonés e óculos escuros. Atrás deles, ela teve o vislumbre de Peeta ajoelhado, com as marcas de tortura visíveis pelo rosto e pela parte do corpo exposta. As roupas estavam em farrapos e sujas com sangue seco. Ela engoliu em seco e evitou olhá-lo por mais tempo, mantendo os olhos no homem que andava a frente.

- Eu vim como combinado. – ela pronunciou em bom tom, a voz reverberando pelo local. – Nenhum atirador lá fora. Uma comitiva apenas com seis pessoas além de mim. E seus cem bilhões de dólares em dinheiro vivo, como prometido. – apontou para Finnick, que trazia a bolsa em suas mãos.

- É bom saber que posso fazer negócios com você, senhorita Everdeen. – ele falou, e não havia nada que distorcesse a sua voz.

A sensação de déjà vu voltou. Ela tinha a impressão de que já ouvira aquela voz em algum lugar. E pensou em todos os homens de Coriolanus Snow que já havia se dirigido a ela. Mas teve a impressão de que não era nenhum deles. Olhou mais atentamente. Os óculos não deixava ver os olhos, mas o formato do rosto lhe era familiar. Onde havia visto aquilo?

- Primeiro – a moça começou, procurando não fazer o tom de voz vacilar, enquanto tentava ganhar tempo para que suas memórias fizessem algum reconhecimento. – eu quero Peeta. Depois o dinheiro.

- Sinto em dizer que não é assim que funciona. – ele falou em escárnio. – Primeiro o dinheiro. Isso, é claro, se quiser tê-lo vivo.

- Acha mesmo que faria isso? – ela questionou arqueando a sobrancelha. – Você deveria me entregá-lo bem, e claramente não é isso o que se passou.

- Oh, achei que havia mencionado no vídeo. – o homem falou. – Prometi que iria entregá-lo vivo, não inteiro. – e riu. – Agora pare de enrolar e dê logo esse dinheiro se quiser Mellark vivo.

Ela ficou em silêncio. Sua tentativa de ganhar tempo não havia dado certo.

- Qual a garantia que tenho de que não tentará nos matar? – a morena quis saber, em sua última tentativa de ganhar tempo, pois sabia que ele poderia ordenar a morte de Peeta a qualquer momento.

- Terá que confiar em mim. – ele deu de ombros. – Mas qual garantia que eu tenho sua de que não tentará nenhuma gracinha?

- Ora, terá que confiar em mim. – ela disse e sorriu em sarcasmo.

O silêncio pairou por alguns segundos. Katniss o encarava, ainda vasculhando em suas memórias, mas sem sucesso. E tentou perceber se tinha algum planejamento de um golpe. Se havia, de fato, o outro não deixou transparecer. Sabia que não adiantaria tentar prolongar mais aquilo.

Espiou sobre o ombro e viu Finnick, ela acenou para ele. Odair se adiantou, com a bolsa em mãos e parou ao lado de sua líder. Jogou a bolsa, que caiu em frente ao homem.

Ele se aproximou e se abaixou, abrindo e olhando o conteúdo dentro do acessório. Havia vários maços e seria impossível saber se havia cem milhões. Mas sabia que Katniss não iria falhar com eles. Ela saberia que haveria retaliação se tentasse enganá-los. Também procurou por localizadores ou explosivos. Não havia nada. Fechou a bolsa. Virou-se para as duas figuras menores que tomavam conta do loiro. Ele assentiu.

Empurraram Peeta e ele se levantou, gemendo de dor. Cambaleou antes de se estabilizar em pé. O loiro caminhou lentamente e Katniss apenas o observava se aproximar de forma impassível. Faltava tão pouco naquele momento que queria esquecer a forte sensação de déjà vu que crescia a cada instante.

Quando Mellark já estava próximo suficiente dela, a morena não se conteve. Em poucos passos, ela o segurou e enlaçou o pescoço dele, abraçando-o e trazendo-o mais para perto. Ele retribuiu o abraço e afundou o rosto na curva do pescoço da mulher em seus braços.

- Senti tanto a sua falta! – ela conseguiu dizer.

Os olhos azuis do rapaz encontraram os olhos cinza dela e ela viu ali culpa. Mas culpa pelo quê, ela não sabia.

Peeta a beijou. O beijo foi urgente e havia saudades, assim como despedida. Katniss não entendia o que acontecia com ele. O loiro estava vivo e seguro nos braços ela. Johanna e seus atiradores iriam protegê-los.

Quando se separaram, o rapaz sorriu de forma triste.

- Sinto muito Katniss...

E ele deu um passo para trás.

Ela ficou sem entender o que ele queria dizer. Assim como não entendeu o que acontecia naquele momento.

Após o passo de Peeta para trás, as portas do Plaza se abriram com força de maneira repentina.

Johanna foi a primeira que reagiu, e rápido, sacando a própria arma e efetuando o primeiro disparo, da qual atingira o colete a prova de balas do primeiro homem que entrara. E antes que pudesse disparar novamente, atiraram em sua mão, da qual a bala bateu de raspão, fazendo-a soltar o objeto.

Finnick foi até Katniss, como se aquilo fosse protegê-la, mas percebeu que seria inútil contra tantos homens vestidos e armados com os uniformes da equipe tática do FBI. Os atiradores de Johanna não tiveram tempo para reagir após a perda da arma da morena. E ela não se deu ao trabalho de tentar revidar, pois a invasão da equipe foi rápida o suficiente para contê-la, e também pelo fato de estar abalada demais pelo que aconteceram minutos atrás.

Katniss olhou para Peeta, alheia para tudo o que acontecia. Sua mente parecia entrar em um estado de torpor. Ela não queria acreditar em tudo aquilo. Parecia surreal, até mesmo pior que o pesadelo que tivera. A moça despertou de seu estado quando um agente se aproximou e avisou que a área estava limpa. O líder do suposto grupo de sequestradores se aproximou. Agora ela sabia onde havia visto aquele homem. Cato Summers estava atrás do amigo, apenas observando e esperando agir se necessário.

- Peeta... – a morena conseguiu dizer, primeiro num sussurro, depois pronunciando o nome dele mais alto. – O que é tudo isso?

- Katniss Everdeen – ele disse, mostrando o distintivo que trazia o símbolo e o nome FBI estampado. – você está presa por tráfico e confecção de armas e material nuclear em solo americano. Além disso, é culpada de cumplicidade com terroristas.

Aquilo foi como se tivesse levado um tiro. Toda aquela situação era surreal. Poderia facilmente ser um pesadelo. Pior do que o da noite anterior. Em breve acordaria e nada daquilo estaria acontecendo. Estaria segura em seu quarto na sede do Tordo.

Por um momento, ela pensou no amigo. Perguntou-se porque não ouvira Gale de fato. Desde o início, ele havia avisado que negócios com Mellark não era uma boa aposta. E não o ouvira. Foi à frente com toda aquela loucura.

Não havia nada de estranho em clientes com poucas informações sobre si aparecerem. Muitos não gostavam de se expor mais do que o necessário. Mas nenhum deles era um agente federal.

Agora havia posto tudo a perder. Sem sua líder, o Tordo desabaria. Não haveria carregamentos, armas a serem produzidas ou quem pudesse vendê-las. O negócio que seu avô lutara para construir e que o pai morrera para fazê-lo prosperar havia sido destruído em um único dia.

E tudo porque Katniss Everdeen havia se apaixonado por Peeta Mellark.

Por causa daquele amor, Cinna fora assassinado na sua frente e Gale havia a abandonado. Pensou em Johanna e Finnick, que mesmo sendo seus empregados, a moça os considerava como amigos e confiava neles. Agora eles pagariam o preço por segui-la naquela loucura.

- Sabe Peeta... – a moça começou, esboçando um sorriso irônico. – Eu te amei. Eu realmente te amei.

Ele suspirou pesadamente.

- Eu também te amei Katniss. – ele disse com pessar. – Espero que um dia possa me perdoar.

Ela riu.

- Espero que você queime no inferno Mellark.

Os olhos cinza encararam os azuis, que devolveu o olhar na mesma intensidade. Eles não haviam mentido sobre seus sentimentos.

O rapaz desviou o olhar primeiro e se virou para Cato.

- Levem-nos. – falou simplesmente.

Virou-se de costas e saiu andando em direção aos outros supostos sequestradores, que também deviam ser agentes do FBI.

Os agentes se mobilizaram para prender toda a comitiva da morena. Johanna e Finnick se encararam e olharam para uma Katniss derrotada, cuja mente não se encontrava mais ali, por simplesmente ter aceitado tudo aquilo, aceitado em perder o jogo que ela julgava saber jogar tão bem e se desligado do resto em seguida. Então decidiram por não reagir e se deixaram levar.

Afinal, ela havia sido traída. Destruída da pior maneira. Não fez objeção quando Cato se aproximou e a algemou. Deixou-se se levada. Sentiu os empurrões que ele lhe aplicava para que andasse, mas não se importava. A única coisa que importava era a visão de Peeta se afastando, caminhando para fora do Plaza sem se virar para trás.