CAPÍTULO 11

Meu bem-me-quer mal me quer

Lanísia despertou, sentindo o corpo fatigado, as mãos trêmulas tocando os lençóis.

-O que aconteceu? – perguntou inutilmente, pois não havia ninguém na enfermaria; nem Madame Pomfrey, nem suas amigas, sequer outro paciente, muito menos o bebê...

O bebê...

Seu bebê!

Ela buscou algum sinal da criança, alguma mantinha em que ele pudesse estar enrolado. Havia um emaranhado de lençóis sobre a pia no canto da enfermaria, mas não estavam limpos, estavam amarrotados, manchados de sangue, nenhum ser humano em sã consciência enrolaria um bebê recém-nascido naqueles trapos ensanguentados...

Sangue... seu sangue?

Ficou imóvel, olhando para a ponta do lençol sujo onde o sangue grosso que escorria, pegajoso, formando uma poça no chão com o seu sangue. Claro, só podia ser dela: era a única paciente ali! A única que passara por um procedimento médico: a não ser que contássemos o bebê e... é, talvez o sangue não pertencesse exatamente ao seu corpo, mas fosse do pequeno Ryan.

Uma imagem perpassou a visão de Lanísia...

(Natimorto! Natimorto! Com quem será que ele se parece? Xiii, vamos precisar tirar todo esse sangue para conseguir descobrir!)

que fechou os olhos, como se fosse possível, assim, bloquear a força da imaginação...

(Natimorto!)

Não conseguiu reunir forças para deixar a cama, portanto deixou-se cair contra os travesseiros. Já tinha escutado inúmeros relatos sobre as dores do parto, mas não imaginava que se estendia por tantos pontos do corpo; suas costas estavam doloridas. Ela também sentia pontadas fortes na nuca, que parecia um tanto pegajosa...

Havia um espelhinho na mesa de cabeceira – provavelmente um presentinho deixado por uma das Encalhadas – portanto ela apanhou o artefato e posicionou-o de modo a olhar o que havia de errado com o seu corpo. Surpreendeu-se ao descobrir um curativo atrás do pescoço. Por que havia se machucado bem ali?

Ia baixar o espelho quando percebeu marcas roxas no braço que o segurava. Hematomas feios, alguns meio amarelados, que começaram a doer assim que ela tomou consciência da existência deles. A dor se espraiou para outros pontos do corpo; Lanísia, então, tirou uma perna debaixo do lençol e, erguendo a camisola hospitalar, olhou, abismada, para o joelho inchado.

Será que havia sofrido um acidente grave, batido a cabeça e perdido a memória recente? Seria esse o motivo do seu bebê ter nascido

(Natimorto?)

com aparentes complicações? Ele teria sido levado dali para um

(cemitério)

hospital com melhores condições? Estaria lutando pela sobrevivência nesse exato momento, enquanto ela ficava ali, deitada, repousando tranquilamente?

Não; não podia ficar imóvel, sem saber o que havia acontecido. Ia dar um jeito de deixar aquela cama! Lanísia tomou impulso e, trincando os dentes, tentou rolar suavemente para o chão, mãos espalmadas sobre o piso enquanto guindava o resto do corpo. Os braços doloridos protestaram, ela perdeu o equilíbrio e tronco e pernas desabaram de uma só vez.

Ela gritou, urrou, os olhos encheram-se de lágrimas, a dor aumentando nas centenas de pontos sensíveis e já machucados. Mas precisava continuar, saber se Ryan estava bem; seu menino devia estar sofrendo agora, então ela também merecia passar por esse processo difícil, portanto secou as lágrimas do rosto e usou as mãos úmidas para arrastar-se pelo piso da enfermaria, cujas portas duplas foram escancaradas naquele instante, e ela não estava mais sozinha! Sob seu olhar turvo, distorcido, Lanísia viu as silhuetas de três garotas recortadas contra a luz que vinha do corredor.

-Meninas... – disse Lanísia que, mesmo sem conseguir enxergar claramente os rostos, não tinha a menor dúvida de quem estava ali. Qual outro trio apareceria no momento em que ela mais precisava de ajuda?

-O que está fazendo, amiga?! – indagou Mione.

-Eu... preciso ir atrás dele...

A visão de Lanísia começava a clarear; ela percebeu que as amigas trocaram olhares preocupados.

-Por que estão assim...?

-Não é um bom momento para procura-lo – disse Alone, constrangida, como se temesse continuar.

Lanísia não resistiu; apoiou os braços na cama, ergueu-se de modo claudicante e, dando três passos trôpegos, avançou até as amigas, caindo nos braços de Alone ao tropeçar, sem forças.

-Não me detenham! Eu preciso ir atrás dele!

-Não, você não pode! – gritou Serena. – Ninguém entenderia a sua atitude!

-Por quê?!

-Porque Ryan está morto! – disse Mione, começando a chorar enquanto "esmurrava" a cara dela com aquela verdade aterrorizante.

A mandíbula de Lanísia tremeu; ela queria desaparecer dentro daquele buraco-negro que abriu em seu peito; ou, ainda melhor, que a própria Mione fosse sugada para o interior dele, sumindo com a voz lacrimosa, o pranto sincero, com aquele fato assustador. Mas a amiga reforçou:

-Você perdeu o bebê!

Lanísia perdeu de vez a pouca sustentação que ainda tinha.

Serena ajudou Alone a segurá-la, evitando uma nova queda física.

Na alma, ela já ruíra...


-Meu bebê... não posso ter perdido a única parte do Augusto que ficou comigo...

-É... – disse Serena, suspirando profundamente. A amiga afastou uma mecha do cabelo louro e, quando fitou as garotas, surpreendeu Lanísia com um sorriso de deixar covinhas nas bochechas. – Pelo visto, funcionou!

-Serena... como pode sorrir num momento desses?! – indagou Mione, e Lanísia moveu a cabeça, assentindo ao concordar com a repulsa da amiga. – Me custou um bocado ter de contar uma mentira tão sórdida!

-Ãh? – fez Lanísia, confusa.

-Apesar de todo o papo furado da Alone de que os fins justificam os meios...

-E eu não estava certa, Mione? Precisávamos de uma carga dramática bem intensa para cortar a Fogueira pela raiz! Ou melhor... para apagar a Fogueira! A associação d´Ela com raiz não ficou bacana...

Serena concordou.

-Esperem um instante... vocês... vocês mentiram pra mim?

-Foi necessário, mané! – defendeu-se Alone. – Você estava alucinada pela Fogueira do Carlinhos! Como a reversão do ritual está em mostrar ao enfeitiçado que coisas que ele ama podem ser destruídas, pensamos...

-O que uma mãe pode amar mais do que o próprio filho? – completou Mione. – E a pior coisa que pode acontecer a uma mãe é perder essa criança.

-Perder e jamais ter a chance de recuperá-la. A verdade não seria suficiente – disse Serena.

-Era preciso a carga máxima de dramaticidade – ressaltou Alone com vigor.

-Imaginamos, então, que o amor materno seria suficiente para desencantá-la, e pelo jeito estávamos certas, não é mesmo? Você se arrastava pela enfermaria para buscar o Carlinhos e agora...

-Eu não estava atrás do Carlinhos, Mione! Eu queria procurar o Ryan! Me assustei quando não o encontrei por aqui, e aquele lençol com sangue ali na pia também não era um bom sinal...

-Mas então... você acordou procurando o bebê! – exclamou Serena. – Uau! O amor de mãe é realmente mais forte do que qualquer outro! Você deve ter sido desencantada durante o parto!

-Ou logo após a queda na escada – supôs Alone. – Assim que o subconsciente dela registrou que o bebê estava em risco, o poder da Fogueira se dissipou!

-Eu caí de uma escada? E que história é essa de Fogueira? Me expliquem!

-Não podemos deixar para depois? – disse Mione. – Temos outros probleminhas para resolver agora...

-Que tipo de problema...? – mas Lanísia parou de falar.

Lembrou-se do que as meninas haviam dito há pouco...

"-A pior coisa que pode acontecer a uma mãe é perder essa criança.

-Perder e jamais ter a chance de recuperá-la. A verdade não seria o suficiente".

A verdade não seria o suficiente para desencantá-la – mas, aparentemente, era tão ruim quanto a mentira.

-Meninas... o que realmente aconteceu com o meu bebê? Por que ele não está por aqui?

-Ele... – Serena coçou a nuca. – Ele recebeu uma visitinha do pai e...

-Augusto? Aqui em Hogwarts? Eu posso vê-lo? Ele está bem? Ou... droga, levaram o Augusto para Azkaban? É por isso que estão com essas caras? Digam de uma vez!

-Nós não sabemos onde ele está – respondeu Mione. – Só que ele passou por aqui.

-Ele deixou algum presentinho pro bebê?

-Ele não deixou nada. Pelo contrário: ele levou.

-Levou? O que ele poderia...? – Lanísia mordeu o lábio. – Não pode ser... Não vão me dizer que...

-Isso aí. Augusto levou a criança. Augusto sumiu com o Ryan!


Augusto aproximou-se do grupo com que Celine conversava no canto do pátio. O garoto caminhava com grande dificuldade e exaustão para um rapaz de meros vinte anos, e o pensamento o fez fitar o próprio reflexo numa das vidraças das salas. Era realmente a imagem da própria ansiedade – andar apressado, cambaleante, meio curvado para o lado em que segura o cesto, o cesto que sequer deve pesar muito, mas pesa, a alça certamente deixará uma marca na palma de sua mão, e ele se questiona o que provocará esse excesso de peso no cestinho – serão as toneladas de culpa, os quilos de arrependimento, ou simplesmente o medo exercendo uma força gravitacional? Ele não sabe ao certo, mas sente que tudo dará errado e, quando pensa assim, quando está distraído olhando para a própria imagem, tropeça numa pedra e precisa se apoiar na parede para não desabar; fecha os dedos com tanta força em torno da alça do cesto que este sequer ameaça cair, sequer balança de modo brusco – é preciso ser cuidadoso, o feitiço cala, mas não impede os movimentos...

Sua quase-queda chama a atenção de Daphne, que move os cabelos louros na direção dele. Ela o contempla por alguns segundos, emite um suspiro apaixonado, e só então fixa o olhar no cesto. Os colegas continuam conversando enquanto Augusto se aproxima, arfante.

-Onde você se meteu? Te procurei por toda a parte! – e, sem dar tempo do garoto responder. – Está molhadinho de suor! Não é um bom momento para atiçar minha libido...

-Quieta! – ele consegue pedir entre dois haustos para tomar fôlego. – Preciso da sua... ajuda.

Ela arqueia uma das sobrancelhas perfeitamente delineadas e volta-se ao grupo de amigos:

-Queridos, com licença, mas meu namorado precisa do meu ombro amigo agora, então...

-Só um instante, Daphne! – pediu Ethan. – Termine de contar sobre suas férias no México!

-Bom, se for rápido, acho que não tem problema, certo, am...? Ai! – ela esganiça, quando Augusto a puxa para perto de si, agarrando o seu braço com a mesma força que deposita na alça do cesto.

-É urgente! – ele diz entredentes e, para reforçar seu argumento, ergue um pouquinho a tampa do cesto e revela o seu interior.

Daphne curva-se para espiar e, ao olhar para o que repousa lá dentro, envolto em mantas, leva as mãos à boca.

-Esse é... – ela começa, mas Augusto a censura com um novo apertão no braço; ele quer guia-la para um canto afastado, mas nem precisa se esforçar; Daphne segue por conta própria, sem sequer se despedir dos amigos, afoita. – Esse é o bebê da outra?! – finalmente conclui, lançando olhares sobre o ombro.

-Claro! Quantas garotas estavam grávidas em Hogwarts?

-Por que você essa... criatura?

-Isso não vem ao caso agora! Preciso apenas que me ajude a me livrar dele, daqui a pouco vão se dar conta do que aconteceu e vão começar a procurar... – ele olhou rapidamente em torno, apavorado. – Está disposta a se tornar uma fora da lei comigo?

-Por você? Qualquer coisa! Ainda mais algo que fará a bruaca sofrer...

-Não quero que Lanísia jamais ponha os olhos nele outra vez.

Daphne mal podia acreditar no que estava escutando: ofendera Lanísia e sequer fora censurada por isso! Pelo jeito, ela fez algo bem feio para merecer tamanha punição...

-Estou muito nervoso. Não vou conseguir fazer nada desse jeito!

-Deixa comigo! – ela estendeu a mão. – Anda, me passa o cesto.

Augusto hesitou por um ou dois segundos, mas não havia o que fazer; à vista de todos, era a sua namorada querendo pegar um inofensivo cesto de piquenique. Ele passou a ela, fitando-a firmemente, e avisou:

-Não faça nenhuma besteira.

-Claro que não – ela sorriu de modo angelical.

Ficou de costas para Augusto; a sombra de uma das vigas do teto cobriu seu olhar.

Soltou quase todos os dedos da alça; deixou o cesto pendendo apenas do indicador, sacudindo para cá e para lá, feito um pêndulo de relógio, oscilando nos corredores, tão perto do corrimão das escadarias...


Lanísia olhava, atônita, para o Salão Principal. Nada a preparara para aquilo; nem mesmo as entradas das passagens secretas por onde tinham passado, todas seladas por dementadores encapuzados. Os alunos de Hogwarts, calouros e veteranos, agrupavam-se em cinco filas diferentes, substituindo os espaços anteriormente ocupados pelas mesas das Casas – agora recuadas junto às paredes.

Entre as fileiras, inúmeros bruxos que trajavam vestes com o M do Ministério da Magia bordado no peito enfiavam agulhas nas veias dos estudantes, retirando punhados de sangue.

-Estão conferindo se há vestígios de Poção Polissuco – explicou Alone antes que a amiga perguntasse.

-Acham que o Augusto continua no castelo e pensam que ele estava aqui há um bocado de tempo – disse Mione. – O que é compreensível, já que ele soube exatamente o momento de raptar o bebê.

-Então ele estaria...

-Infiltrado entre os alunos – completou Alone.

Lanísia fechou os olhos, tentando identificar quem poderia ser o Augusto disfarçado. Algum colega que a tratou de maneira especial? Que a cortejou?

-Já tentamos adivinhar quem seria e... esquece! – fez Serena. – Qual garoto dessa escola não tentou dar em cima de você?

-Ok, mas eles perderão muito tempo examinando aluno por aluno! – falou Lanísia. – Por que não partem logo para aqueles que possuem o Pleno Poder? Reduziria imensamente o contingente de alunos!

-Acredita que o Augusto também seja Pleno?

-Bom, Alone, ele era o mais Valioso pupilo da Frieda na Antiga Withers, não é mesmo? Estava no topo da lista. Alguém com múltiplos talentos só poderia ser...

-Todos eles – disse Mione, de repente; o susto pela descoberta foi tão intenso que ela espalmou a mão sobre a palma de Lanísia, buscando apoio no batente das portas do Salão. – Mathias...

-O que tem ele? Acha que ele é o Augusto disfarçado?

-Só por que você se sentiu atraída por ele? – debochou Serena.

-Não só por isso – corrigiu Lanísia. – Mas a Mione lembrar do chileno bem agora... ele não está por aqui, está?

-Não, ou eu já teria registrado a presença daquele traseiro assim que chegamos – disse Alone. – Não é algo que passe despercebido, mané!

-O Mathias... quando estávamos na Antiga Withers em detenção... – continuou Hermione – na sala em que encontramos a lista de alunos Valiosos...

-Sim? – disse Lanísia, fitando a amiga sem piscar.

-Ele demonstrou o quanto o Valor era importante para a Frieda. Ela tratava os alunos como produtos que podiam ser ranqueados de acordo com os talentos... e até mesmo o último da lista tinha aptidões fenomenais! Ela sondava alunos talentosos de outras escolas, tentou conseguir até mesmo o Kleiton, lembram? E... e tinha pavor de que os estudantes que não pertencessem à Withers se aproximassem da sala comunal. Frieda considerava-os especiais. Trazendo para outros termos... que distinção especial acabamos de descobrir que os bruxos podem possuir?

-A Plenitude – murmurou Alone.

-Augusto tem grandes possibilidades de ser um Pleno... Kleiton... – Mione mordeu o lábio. – Ah! Sim, a Maldição do Espelho que ele lançou em Celine e que acabou saindo pela culatra! Um encantamento tão ou mais complexo que uma Fogueira das Paixões, tão poderoso que, mesmo quando deu errado, deixou uma marca no olho de Celine! Kleiton também é um Pleno, e Frieda só faltava chorar nas cartas para atraí-lo para Hogwarts...

-As cartas cifradas que eles trocavam... – lembrou Serena. – Talvez Frieda quisesse eliminar tudo o que considerava escória dos corredores de Hogwarts. É provável que ela quisesse, em sua mente doentia, fazer uma limpeza entre os alunos. Não duvido nem um pouco disso. Ela era cruel demais...

-E talvez por esse motivo a Antiga Withers tenha sido cancelada – sugeriu Alone. – Perceberam que Frieda estimulava a discriminação; que tinha propósitos horrendos para selecionar os alunos.

-Por isso o Chapéu Seletor era descartável na seleção para a Antiga Withers – disse Mione. – Para ser um aluno da Withers, não precisava ter caráter ou ser medido de acordo com a personalidade. Para ser um Wither...

-...bastava ser Pleno! – completou Lanísia e, respirando fundo, em seu andar cambaleante, adentrou o salão.

As garotas cercaram-na, confusas.

Verificando pelo canto do olho que as amigas seguiam-na, Lanísia explicou enquanto atraia a atenção dos colegas mais próximos com suas vestes ensanguentadas e sua cabeleira desgrenhada:

-Nem tentem me deter. Se há uma maneira de apanhar o Augusto mais facilmente, é essa, e eu vou fazer de qualquer jeito!

-Lanísia, pense bem! – alertou Mione. – Certamente há um motivo para a Plenitude sequer ser citada nos nossos livros. Nada vira tabu à toa!

-Dane-se! Eu quero o meu bebê! – usou um tom agressivo demais, mas não havia sequer tempo para arrependimento; Lanísia passou feito um furacão em meio à fila de estudantes que aguardavam a vez de ter o sangue colhido e parou ao lado da diretora, arrancando a prancheta das mãos de Minerva.

-Lanísia! – exclamou a diretora. – O que faz aqui fora? Não devia...

Ela arrancou as páginas de pergaminho da prancheta e arremessou-as no chão.

-Todo esse esforço é irrelevante! Não tem porque examinar um por um quando pode muito bem ir até os arquivos da escola para destacar apenas os Plenos!

Minerva estremeceu, olhando de modo perturbado para os estudantes ao redor, como se quisesse que estivessem distraídos para não ouvir as palavras da garota; mas nem que um holofote as iluminasse atrairiam tanta atenção – não era todos os dias que um estudante arrancava uma prancheta das mãos da diretora.

-Lanísia, não sei do que...

-Pleno? – indagou Dino Thomas, a manga da camisa erguida para expor as veias. – O que é um Pleno? – perguntou, olhando para Simas.

-Não adianta perguntar para aqueles que nasceram entre bruxos, Dino! Ser Pleno é algo que todos esses professores sabem, mas que desejam esconder de todos nós!

-Lanísia...

Mas a garota já subia no tampo da mesa da Grifinória, as pernas manchadas de crostas de sangue.

-Não somos iguais! – gritou, gerando um burburinho entre os jovens e crianças. – Há feitiços que alguns colegas conseguirão fazer, mas outros fracassarão amargamente ao tentar. Aquela Fogueira que fracassou ontem à noite é prova viva do que estou dizendo! Alguns bruxos possuem o poder em sua plenitude, mas outros, apesar de bruxos, não têm o mesmo nível.

Ela apontou para o corpo docente.

-Eles acham que esconder isso nos protege. Mas estão errados! Augusto é um pleno. Ele é acusado de matar a ex-mulher e está à solta, agorinha, dentro deste castelo, e quem não é pleno não terá a menor chance de se defender diante dos feitiços e maldições lançados por ele...

-LANÍSIA! – gritou Minerva, agarrando os braços da garota; ela tentou se desvencilhar, um dos pés deslizou sobre o tampo envernizado da mesa e ela tombou de modo doloroso, um joelho coberto de hematomas chocando-se contra a madeira.

A diretora agarrou a nuca de Lanísia.

-Deixe-me continuar. Se é a única maneira de chamar a atenção de todos...

-Vai chamar a atenção da pessoa errada! Não podemos destacar os plenos da escola, não depois do que aconteceu com Afonso e Joyce!

-Joyce? Minha amiga?

-Sim! Você pode acabar facilitando o trabalho do assassino, isso se já não conseguiu... – Minerva olhava em torno, perturbada, enquanto sussurrava.

-Não consigo entender...

-Tenho quase certeza de que tentaram matar a Joyce por conta da plenitude. Consegue entender agora? Está acontecendo um massacre de bruxos plenos nesta escola!


Celine e Augusto percorreram os jardins da escola, o cesto com o bebê ainda na mão da garota. Atravessavam uma ponte quando uma figura assomou do outro lado, um M bordado nas vestes, um quepe de guarda sobre a cabeça, uma varinha apontada para os dois...

-Aonde vão?

-Nós... só queremos fazer um piquenique – respondeu Daphne.

-A essa hora?

-Bom... claro que pode acabar rolando outras coisas. Somos um casal, então... – ela abraçou a cintura de Mathias.

-O que tem dentro desse cesto?

-Sanduíches, pedaços de bolo...

-Quero olhar – o bruxo estendeu a mão.

-Por quê? Não tem nada importante...

-Abra.

Daphne sorriu.

-O que você acha que poderia estar aqui? – ela fez uma pausa para rir – Um bebê? Com todo o respeito, quem em sã consciência esconderia um recém-nascido numa cesta de piquenique?

Mathias mexeu-se inquieto...

-Não temos interesse algum em raptar um bebê.

-Mas poderiam ter. Um casal jovem querendo criar uma criança, fugir para longe. Não seria tão incomum assim.

E Daphne fez algo que gelou o coração de Mathias ainda mais – subiu na grade da ponte.

-Você parece saber bem sobre coisas da vida, não é mesmo? Pois do alto do seu conhecimento, acha que eu faria isso se tivesse um bebê aqui dentro?

Ela esticou o braço com o cesto em direção ao abismo.

Augusto perdeu o fôlego por alguns segundos, certo de que veria o cestinho com seu filho dentro rodopiar e voar no vazio. Suspirou profundamente quando viu que Celine não pretendia lançar o cestinho longe, mas apenas deixa-lo em perigo, oscilando precariamente sobre os seus dedos, livre do abismo por um triz.

Mas podia confiar que ela pararia ali?

Augusto suava, tentado a tirar a garota dali, lembrando tantos discursos de ódio que a ouviu proferir; a vida do filho de Lanísia nas mãos dela – como ele pode deixar a situação chegar a esse ponto? Mas o que ele poderia fazer – se demonstrasse receio, o guarda vasculharia o cesto, encontraria o bebê e descobriria a identidade dos dois; entregaria a criança a Lanísia, deixando-a inteiramente exposta aos perigos da mãe que almejava ocultar qualquer vestígio da Fogueira das Paixões – mesmo que este vestígio tivesse saído de dentro dela, que fosse fruto de um amor tão bonito.

Teria que deixar Daphne prosseguir com seu plano; ao menos assim o bebê teria uma chance de ser conduzido a um lugar seguro, e... não, claro que Daphne não seria louca a ponto de jogar a criança...

Será?

-Já está convencido, amigo? – ela perguntou, e por um momento Augusto pensou que a pergunta era dirigida a ele; chegou a balançar a cabeça de leve, negativamente, até se dar conta de que Daphne olhando desdenhosa para o guarda, a mão livre espalmada contra um pilar.

-Senhorita, ainda assim insisto para que passe o cesto para as minhas mãos.

-Hum... ele precisa de prova maior...

Augusto não se segurou mais; agarrou o ombro de Daphne e avisou com a voz firme:

-Não.

Diante daquela reação, o guarda ergueu a varinha.

-Pelo jeito, não é nada tão irrelevante assim. Andem, me passem o cesto, AGORA!

-Amor, é o único jeito de fazer com que ele acredite na gente. Mostrar que não nos importamos a mínima com o que está aqui dentro... – murmurou Daphne, fitando Augusto, que confiava na imobilidade da garota e em sua própria capacidade de evitar o pior se a insanidade dela ameaçasse provocar uma tragédia, já que não reparara que a garota soltava os dedos da alça, que agora só estava segura por um dedo indicador, dedo que ela inclinava cada vez mais para que o cesto escorregasse...


-O Memoria Ezabatza lançado no Expresso de Hogwarts. A Fogueira das Paixões de Joyce. Grandes demonstrações de poder seguidas por assassinatos – Minerva desviou o olhar da janela e fitou as quatro garotas reunidas na sala. – A história se repete. A Plenitude sempre foi rodeada de homicídios... Quando o assassino se empenhou tanto em pegar a Joyce, e isso pouquíssimo tempo depois que a Fogueira dela foi revelada, não tive mais dúvidas. Como sabem, ter sucesso em um ritual de alta complexidade é um atestado de plenitude. Deixar todos os passageiros de um trem inconscientes e modificar sentimentos à distância não é para qualquer um...

-Por que alguém mataria um pleno? – perguntou Alone.

-Inveja? – sugeriu Serena. – Bom, deve atrair muito recalque de quem nasce sem o dom, não é?

-Não necessariamente inveja – comentou Mione, olhos postos na diretora. – Deve dar um baita medo em quem não tem. Quero dizer, como se defender de alguém que é mil vezes mais poderoso que você?

Minerva assentiu com a cabeça.

-Até a ascensão de Voldemort, pensava-se que era apenas questão de esforço e prática... que todos os bruxos poderiam alcançar o mesmo patamar de poder, desde que se esforçassem para tanto. O poder elevado não tinha, até então, sido considerado um dom. Mas quando o Lorde das Trevas surgiu... dizimando bruxos com aquela facilidade exorbitante... os boatos ganharam força: deveria existir alguma diferença de nível entre bruxos – uma diferença que nem todo o treinamento conseguiria suprir. As lendas ganharam força, mas ninguém conseguia comprovar tal teoria, principalmente porque as escolas, aonde os jovens poderiam ser testados, não se interessavam em descobrir se tal poder existia. Mas, claro, cedo ou tarde alguém faria isso informalmente; alguém que tivesse acesso a jovens bruxos; e foi o que aconteceu aqui, em Hogwarts...

-Frieda – resmungou Serena.

-Sim. Frieda começou a testar os alunos durante as aulas e a tomar nota das habilidades de cada um deles. Em pouco tempo, conseguiu separar aqueles que demonstravam grande perícia em magia. Ela apresentou, então, a proposta de uma quinta Casa, em que os estudantes seriam testados antes de ingressarem, dispensando a escolha do Chapéu Seletor.

-Dumbledore deu a permissão? – perguntou Lanísia.

-Para uma experiência. Os alunos daquele ano letivo foram pré-selecionados para a Antiga Withers. Se tudo desse certo, a quinta Casa seria aberta oficialmente.

-E... o que deu errado?

-O poder subiu à cabeça dos plenos, Hermione. O que não era de admirar sendo que a própria professora que os orientava estava sob suspeita...

-Suspeita de quê?

Mas a diretora suspirou e não respondeu:

-Isso não vem ao caso... Só queria que tivessem o bom senso de esconder as possibilidades do Pleno Poder. Não foi à toa que os planos de Frieda permaneceram em segredo; que todos os potenciais plenos daquela época tiveram a memória alterada. A ameaça era tamanha que alunos e professores se uniram para esquecer que o Pleno Poder existia...

-Bom, esqueceram de apagar a memória de alguém, não é? Já que o salão comunal foi reaberto ilegalmente... – comentou Alone.

-Não faço ideia de como isso foi realizado. Deduzimos que a própria Frieda tenha selado o salão antes do projeto Withers ruir. Mas, claro, a própria não sabia mais como reabrir após ter esquecido a existência da Casa para plenos.

-Por que será que ela quis manter a Casa selada?

-Tudo o que sei, Hermione, é que o melhor é mantê-la longe de qualquer bruxo pleno. Coisas permaneceram dentro da Antiga Withers – Minerva coçou a têmpora e completou, distraidamente. – Havia até um livro de feitiços específicos para plenos... imaginem se isso cai em mãos erradas...

Mas as garotas sequer ouviram a ementa; olhavam umas para as outras, assustadas. Todas tinham em mente a mesma imagem: o livro que ensinava a praticar o Memoria Ezabatza.

Então, aquele era um encantamento que só podia ser realizado por um pleno.

Da mesma forma que a Fogueira das Paixões.

Uma delas...

Será?!


Uma fresta de luz sob a porta; o som das ondas batendo contra os rochedos. E isso era tudo.

Kleiton padecia na solitária de Azkaban. O negror da cela incentivava as lembranças; a sensação do corpo de Celine sob o seu, o deslizar suave para dentro dela, seus gemidos de prazer; a atitude de Minerva em permitir que ele fosse preso, mesmo ciente de sua inocência.

Por quê?

Ele escutou movimentos do lado de fora e, de repente, escutou uma vozinha feminina:

-Kleiton! Kleiton! Está aí?

-Joyce?

-Sim, sou eu! – do outro lado, a garota agachou-se, a boca próxima à porta. – O que fez para vir parar na solitária?

-Esmurrei outro preso. De propósito. Queria ficar isolado.

-Eles estavam tentando se aproveitar do seu corpinho?

-Como sabe?

-Fizeram o mesmo comigo na ala feminina.

-E o que você fez para escapar?

-Escapar? – Joyce riu maliciosamente. – De qualquer modo, consegui um passe livre para visitar você. Tenho coisas a contar.

-Como conseguiu tal regalia?

-Você não vai querer saber os detalhes... Agora, preste atenção, Kleiton: encontrei um amigo da Marjorie aqui. Um dos aliados dela, um que todos julgam que esteja morto.

O coração de Kleiton disparou.

-Será que foi por isso que Minerva não se opôs à minha prisão?

-Bom, considerando que ela sabia que Marjorie estava mentindo, ela pode sim ter feito isso. Afinal, se alguém pode falar com Aaron aqui, é você, que está na mesma ala. Ele deve saber muita coisa sobre o grupinho dela, tanto que está se escondendo... forjando a própria morte...

-E Minerva deve saber tudo sobre essa farsa! Preciso falar com esse garoto o quanto antes!

-Sim, e terá que sair da solitária. Sei que dará um trabalhão fugir dos presos taradões, mas não tem jeito!

-E provando que Marjorie é uma criminosa, posso sair daqui e voltar para Hogwarts. É muito importante que eu consiga voltar para a escola, Joyce. Sua mãe está correndo perigo...

-Minha mãe?

-Acho que não tem porque ocultar isso de você... Seus pais estão em Hogwarts. Estudando.

Houve um momento de silêncio do outro lado da porta.

-C-como não percebemos? Eles estão disfarçados?

-Rejuvenescidos desde que deixei o espelho.

-Quem são?

-Mathias Berger e Daphne Marshall.

-Daphne? Isso é impossível, Kleiton, ela... ela tentou me matar!

-E ajudou a me mandar para cá, esqueceu? Há algo muito errado com sua mãe, Joyce, e só eu consigo trazer Celine de volta à consciência. Sem a minha presença em Hogwarts, o que sobra é a Celine perigosa, que atende pelo nome de Daphne Marshall. Apaixonada por Augusto, Daphne é capaz de tudo.


O cesto que abriga o pequeno Ryan parece guardar uma coisa qualquer; Daphne nem olha para o objeto, aparenta não dar a mínima se o cesto cair – qualquer pessoa normal jamais teria tal postura com uma criança ali dentro. Mas aí reside o medo de Augusto – Daphne é insana no ódio que sente por Lanísia, ela é capaz de qualquer coisa, ela pode lançar o bebê para a morte...

E o faria, se um estampido não soasse naquele instante, vindo da orla da Floresta Proibida.

Enquanto feixes vermelhos e pássaros voavam em todas as direções, um grito ecoou o nome dele:

-AUGUSTO!

O guarda se distrai, deixando o casal de lado; enquanto ele olha para a floresta e vê um grupo de bruxos lançando feitiços contra uma comitiva de testrálios agitados, Augusto agarra o braço de Daphne com força, obrigando-a a devolver o cesto.

-Encontraram o desgraçado! – grita o guarda, saindo numa corrida desabalada naquela direção, sem lançar um olhar sequer para o casal adolescente.

-Você ia matá-lo – afirma Augusto, olhando o filho por uma fresta.

-Sabe que nem ficarei ofendida com essa reação? – Daphne flexiona os punhos. – Era o efeito que eu pretendia alcançar. Isso significa que fui bem convincente...

Augusto solta o cesto no chão e agarra a garota pelo pescoço, os dedos se fechando em torno da traqueia; os pés de Daphne afastam-se alguns milímetros do solo, deixando-a à mercê das mãos de Augusto, que a conduz diretamente para a grade da ponte.

-Não... você não é capaz... não é um assassino... – a voz de Daphne sai engrolada, enquanto os olhos enchem-se de lágrimas e a pele começa a arroxear.

-Quem garante isso a você? Hein?! Toda aquela gente ali embaixo está me caçando porque pensa exatamente o contrário! – ele olha por cima do ombro para a movimentação próxima à Floresta. – Aquela é a comitiva que conduzirá o corpo do Lorenzo ao cemitério. Por certo acreditam que troquei de lugar com o cadáver para escapar de Hogwarts. Tinham levado o corpo dele para uma saleta bem ao lado da ala hospitalar... Devem ter se precipitado, os fachos luminosos assustaram os testrálios e a balbúrdia começou... Bom, muito bom...

-Me solta... Mathias... – o corpo de Daphne tremia abaixo dos dedos dele.

-E a sua sorte, não é? Porque se tivesse matado o meu filho, eu te lançaria lá embaixo sem dó. Pode acreditar! Seria preso, sim, mas quando aquele guarda conseguisse me imobilizar eu já teria acabado com você, arrancado seus olhos e pisado em cima deles... – ele solta a garota sobre a ponte, sem qualquer delicadeza, e prudentemente longe do lugar em que o bebê repousava.

Enquanto Daphne retomava o fôlego, arquejando, Augusto apanhou o cesto.

-Foi assim... que você agiu lá... na Antiga Withers? Quando a ninfetinha é ameaçada, você é capaz de se tornar um assassino?

Ele titubeia por alguns segundos; quando volta a falar, não responde – apenas dá um aviso:

-Nunca mais colocará os olhos em Ryan...

E deixou a ponte a caminho dos portões livres de Hogwarts, antes que os guardas percebessem o engano...


Com os encantamentos corretos, Augusto conseguiu encontrar a família perfeita para Ryan: um casal que acabara de perder o próprio filho. Ele sabia que o acolheriam de bom grado mas, ainda assim, lançou feitiços que garantiam que o bebê seria bem tratado e amado.

Antes de despedir-se, olhou bem para o rostinho, o cabelo ralo e escuro; procurou semelhanças consigo e com Lanísia, mas era tão difícil encontrar alguma fisionomia assim, tão cedo.

Mas ele ia crescer, forte e saudável; pena que o preço para tanto era crescer longe da própria mãe.

Longe de todo o caos; longe de qualquer fagulha da Fogueira das Paixões...

Em seu retorno a Hogwarts, Mathias foi submetido a uma série de perguntas e teve que ceder um pouco do sangue para conferir se havia resquícios de Polissuco dentro dele.

Nada foi encontrado, é claro.


Dois dias se passaram sem que Augusto ou o bebê fossem localizados.

Após o sinal, as Encalhadas deixavam mais uma aula do professor Carlinhos. Lanísia, como de praxe desde a Fogueira feita pelo mestre, simplesmente apanhou o material com a carranca fechada e deixou a sala sem olhar para os lados. As amigas se apressaram para acompanhá-la... com exceção de Alone e Serena, que travavam uma discussão com o último exemplar do Semanário dos Bruxos nas mãos – discussão à qual Mione só prestou atenção depois de observar com curiosidade o rosto constrangido do professor.

-...e é claro que isso é uma besteira! – dizia Alone. – O amor dos pais não faz com que os filhos nasçam mais bonitos. Veja só, os pais da Mione se amam pra caramba e ainda assim ela nasceu desse jeito – e estendeu a mão diante do rosto de Hermione à guisa de explicação.

Mione agarrou o tinteiro de Simas Finnigan, que ainda estava sobre a mesa, e arremessou sem pensar duas vezes. Alone se desviou com agilidade, encolhendo o corpo; o tinteiro girou no ar e bateu com força no nariz de Lanísia, que aguardava as amigas junto à parede do corredor.

-Ai, desculpa, amiga! – gemeu Mione, virando um duplo de Lanísia ao colocar as mãos espalmadas sobre o nariz e a boca. – Era pra ter acertado a imbecil da Alone... Ficou... ficou muito feio?

-Não quero nem olhar – disse Lanísia, temerosa, com resquícios de tinta preta sobre o rosto. – Vamos pro dormitório agora!

No salão comunal da Grifinória, constatou-se que o ferimento não fora grave, apesar da quantidade de sangue.

-Pronto, continuará fazendo sucesso com os garotos! – brincou Alone. – Aliás, não é bem o seu nariz que eles reparam, mané!

-Você devia ter se aproveitado do Carlinhos enquanto é tempo...

-Serena!

-Finge que tá lá só porque continua enfeitiçada pela Fogueira, dá umazinha e depois, puf! Demonstra que foi desencantada. Experimenta o ruivo, e sem nenhum compromisso!

-Não tenho a menor vontade de fazer essas coisas. Primeiro, porque Carlinhos foi muito imprudente ao me encantar...

-Você já fez isso...

-Augusto não estava "grávido", Serena!

-Mas você precisa considerar que talvez o Carlinhos não tenha sequer imaginado a possibilidade de você tentar matar o bebê...

-Ok, Mione, mas de qualquer forma eu quase fiz isso. O que nos leva ao segundo ponto: se estou sem o Ryan em meus braços agora, se não tenho sequer uma recordação do meu filho, é por culpa dele. Augusto deve ter considerado o perigo de manter Ryan perto de mim e simplesmente o levou pra longe, e por que eu fui um perigo para o bebê? Por culpa do Carlinhos!

-Eu o puniria de uma forma melhor... – disse Alone. – Chicotadas, algemas...

-Sadomasoquismo – falou Serena, empolgada.

-Tudo naquele corpaço sem roupa alguma...

-Vocês não levam nada a sério! – desabafou Lanísia, cruzando os braços.

-Ah, ele é gostoso demais para virar as costas pra ele assim! – disse Alone. – A não ser que os dois estejam sem roupa, aí uma viradinha pode ser vantajosa...

-Por que não mudamos de assunto? – pediu Lanísia. – Hum? Algo que inclua todas as Encalhadas, como... as últimas descobertas que fizemos com Minerva, por exemplo! Assim vocês me esquecem um pouco!

Mas, alguns minutos depois...

-A Lanísia teria mais motivos...

-O quê?!

-...sim, para detonar a memória de todo o mundo e esconder quem matou a Rebecca!

-Que no caso, seria eu mesma, então?

-Não é bem assim...

-Acho que o que a Alone está sugerindo é que você tenha desmemoriado a todos por amor ao Augusto...

-Ele não é o assassino, Serena!

-...para esconder o que ele fez!

-Tudo aponta pro seu nome, amiga! A vítima, que você odiava, o assassino, que você amava...

-Eu não fiz...

-Vai, confessa!

-...ISSO!

-Não vou apontar o dedo acusando a Lanísia – aparteou Mione. – Mas provavelmente foi uma Encalhada quem lançou o feitiço, até porque a proporção de plenos é minúscula. Em um grupo de vinte e uma pessoas, nós já formamos cinco plenos, contando a Joyce, claro.

-Hum, ela bem que podia ter lançado o feitiço para proteger o pai...

-Alone, o Augusto não matou a Rebecca!

-Diz aquela que presenciou o assassinato?

Os olhos de Lanísia esconderam-se por baixo das pálpebras quando ela os revirou para cima.

-Você sabe quem foi, amiga? – Serena fitou-a com curiosidade, curvando o corpo sobre o sofá. – Diga! Diga!

-Não estou mentindo, não lancei feitiço nenhum! E... o que me diz de você, Serena? Se eu fiz por amor, por que não você? Lewis estava lá dentro.

-E por que ele ia matar a própria prima?

-Problemas familiares, talvez...

-Por que não nos diz se a Lanísia está certa, Serena?

A garota olhou irritada para Alone.

-Você também é suspeita!

-Eu?!

-Sim, pode ter apagado a nossa memória para proteger...

-Proteger quem?

-A amiga assassina. Desmemoriou até a assassina para evitar que ela enlouquecesse por seu ato infame! Ah! – vibrou Serena, até notar que as amigas ficaram em choque.

Um silêncio pairou entre as garotas.

-Meninas... – Mione engoliu em seco. – Se uma de vocês se recorda... e fez isso para proteger outra Encalhada... vamos, digam a verdade. Pessoas estão morrendo, por mais bem intencionada que tenha sido, algo deu errado.

Novo silêncio.

Mas como confiar em quem dissimulou e escondeu tão bem uma Fogueira das Paixões?

As Encalhadas se davam conta de que atingiram um ponto em que não podiam confiar umas nas outras...

Uma delas podia lembrar muito bem que lançou o Memoria Ezabatza.

Mas qual?

-Talvez a Encalhada que lançou o feitiço não se recorde do que fez.

-Isso é impossível, Mione. Quem lança o Memoria Ezabatza fica imune aos seus efeitos.

-Sim, Lanísia, mas essa Encalhada poderia ter se auto-sabotado – ela fez um movimento com a mão, simulando um encantamento e apontando para a própria têmpora direita. – Puxado a memória e a lançado no ar para esquecer tudo. É o mesmo mecanismo de transferência de lembranças da Penseira, só que, no caso, não se preserva a lembrança em lugar algum. Simplesmente... livra-se dela.

-Parece ter pensado muito no assunto – Alone acusou, perspicaz.

-Era o que você faria, Mione? – indagou Serena.

-Praticamente uma confissão – ajudou Lanísia.

Hermione bufou, revirando os olhos.

-Caso tenham esquecido, eu sou aquela que tem os flashes. Portanto, não posso ter lançado o Memoria Ezabatza...

Um ruído no alto do salão comunal as sobressaltou.

-Parece que veio do nosso dormitório – falou Alone, a mão instintivamente tocando a varinha – e tentando ignorar que as amigas repetiram o seu gesto.

(Para se proteger de quem fizera o ruído lá em cima ou por temer um ataque dela?)

As garotas subiram apressadamente a escadaria circular; estavam no patamar quando a porta do quarto abriu, dando espaço a um guarda-roupa que flutuava para fora.

-O que estão fazendo? – esganiçou-se Serena, reconhecendo o móvel devido aos cartazes dos Esdrúxulos. – Eu voltei para o meu quarto, minha lua-de-mel com Malfoy já terminou!

Um bruxo respondeu no interior do aposento:

-Cumprimos ordens do Ministério da Magia.

-Ministério?!

-Sim. Todos os bens pertencentes a... – ele conferiu um pergaminho amassado. – Serena Bennet Malfoy devem ser confiscados.

-Mas é tudo meu, comprado com meu dinheiro!

-Dinheiro que foi legado por Brian Bennet, que não é o seu pai legítimo.

-C-como sabem disso?

O rosto redondo do funcionário do Ministério apareceu por baixo do móvel flutuante.

-O filho legítimo dele, Lewis Lambert, informou as autoridades... podem dar licença para o guarda-roupa passar? Temos que despachar uma cômoda ainda, além do caldeirão de estanho e do malão.

-Vão levar tudo?! – indagou Serena, saindo do salão comunal atrás dos bruxos.

-Sim – respondeu uma voz fria às suas costas; ao olhar, ela se deparou com Lewis, trajado elegantemente como para acentuar a diferença social que agora havia entre os dois. –Inclusive a roupa que está vestindo... poderia tirá-la, por favor?

-Lewis... – ela resmungou, descendo a escadaria de mármore enquanto procurava ignorar o garoto.

-Ah, qual é, "Loirinha" – ele disse, de modo depreciativo, repetindo o apelido usado por Draco. – Não é a primeira vez que vou desnudá-la, não é?

Parando no Saguão de Entrada, mão no corrimão, Serena o fitou, seus móveis deixando o castelo pelas portas escancaradas.

-Por que está fazendo isso?

-Não achou que eu deixaria que você e Malfoy desfrutassem da fortuna de meu pai, achou?

Serena começou a chorar.

-Não fale assim comigo... não aja assim, querendo o meu mal... não você...

Lewis pareceu vacilar por um instante, mas logo se recompôs:

-Vou aguardar lá embaixo, assim poupo meus olhos de contemplarem essa encenação dramática...

-Você quer dizer "seu olho", não é? – zombou Alone.

O rapaz lançou um olhar irritado por sobre o ombro enquanto Mione e Lanísia cumprimentavam Alone pela observação sagaz e maldosa.

Mas Serena seguiu Lewis escada abaixo, seguindo-o pelo salão comunal e depois nos corredores.

-Eu me casei com ele de preto, em luto. Como pode pensar que estou gostando de tudo o que está acontecendo?

-Talvez ele tenha lhe mostrado prazeres desconhecidos durante a lua de mel...

-Lewis...

Ele finalmente ficou de frente para a garota, às portas do Salão Principal, mas não estendeu as mãos para um abraço; usou os dedos para rasgar o vestido de Serena, que começou a gritar.

-É tudo meu... não tenho esse corpo, mas o que ele veste é meu, e faço... o que... bem entender... com cada... peça... – ele fez do vestido meros pedaços de tecido rasgado, tiras espalhadas pelo salão, deixando o corpo esguio e branco de Serena coberto apenas por uma lingerie vermelha.

Ofegante, ele contemplou o corpo perfeito da garota.

-Olhe só, toda sensual, preparada para dar prazer a ele durante a noite...

Serena, que se atrapalhava tentando cobrir-se com as mãos, se defendeu:

-Não preciso me vestir assim para um homem, seu idiota! Gosto de me sentir bonita!

-Comprou pra ele, mas com meu dinheiro também...

-Lewis, não... Já chega...

Ele agarrou Serena e abriu o sutiã; os seios da garota ficaram livres, expostos; enquanto ela tentava escondê-los, Lewis deitou-a à força no chão e puxou a calcinha com movimentos bruscos, deixando marcas vermelhas na pele alva da Encalhada.

-Não...

-Tudo meu... você não tem nada, você e seu maridinho não têm mais nada! – gritou Lewis, rasgando a calcinha nas mãos.

Serena precisou apoiar-se no chão para se levantar, e quando escondia a nudez frontal, expunha a traseira; assovios e comentários maliciosos prorrompiam ao seu redor, mas ela não conseguia discernir os rostos – as lágrimas embaçavam o seu olhar.

-Esqueça a mansão da família também... quando sair da escola, arrume qualquer pocilga para viver com ele uma vida de miséria...

-PARE COM ISSO, LAMBERT!

Lewis encarou Draco.

-Só estou tomando conta daquilo que é meu. O que ficou aqui é seu... Já está possuindo à vontade, não é mesmo? Se bem que... – Lewis voltou a fitar Serena, que escondia os seios com o braço e com uma mão tapava a virilha. – Esse cabelo tão bem tratado e cheiroso em que Draco coloca as narinas nojentas toda a noite...

-Lewis, já chega! – pediu Serena, sem fôlego.

-Também foi cuidado com produtos comprados com meu dinheiro... que tal deixa-lo mais natural, pra ele já ir se acostumando com a nova Serena... – Lewis começou a despenteá-la, entrelaçar os dedos nos fios e puxar... – A Serena miserável...

Até Draco voar sobre ele e afastá-lo de Serena, nocauteando-o com um soco.

Lewis caiu no meio do Saguão de Entrada. Enquanto Hermione chegava ao fim da escadaria de mármore e parava, hipnotizada, diante daquela cena, Malfoy foi até um canto e agarrou uma das estátuas. Enquanto Lewis se recompunha, Draco ergueu a estátua de pedra.

E, sem titubear, golpeou o rosto de Lewis com ela; a cabeça do jovem se torceu num ângulo preocupante, o jorro de sangue voou longe, atingindo o rosto horrorizado de Serena, dentes se espalharam pelo piso; Lewis desabou, sem forças.

-Draco, pare... – gemeu Serena, sem forças.

Mas Draco avançava novamente, agarrando a estátua para dar um golpe na vertical, e Hermione notou que ele ia esmagar o crânio de Lewis, que se não conseguisse de primeira, desceria a estátua repetidamente até abrir um buraco no rosto do garoto, ele seria capaz de fazer isso, havia uma ira assassina no olhar de Malfoy, um ódio que ela conhecia muito bem – era o olhar do Malfoy manipulado por Clarissa, o Malfoy que investira contra a vida de Rony, o Malfoy assassino...

Mione sacou a varinha e, apontando para a estátua, pulverizou-a entre as mãos de Draco, tornando-a inúmeros pedacinhos de pedra que caíram inofensivamente ao redor de Lewis. Aparvalhado, Malfoy procurou quem atrapalhara o seu intento, e quando ele a fitou diretamente, Mione sentiu como se estivesse dentro de um flashback – Clarissa ainda vivia, a Fogueira delas ainda estava ativa e Malfoy queria matar Rony por sua causa...

A sensação se dissipou pouco a pouco; o olhar cinzento de Draco foi saindo de uma espécie de transe. Ele fitou as próprias mãos, afastando os pedacinhos de pedra que ficaram na palma.

Serena, ignorando a própria nudez, se agachou ao lado de Lewis, tocando o rosto do garoto, ajudando-o a levantar. Lewis afastou-a com rispidez, cuspindo sangue, deixando entrever as falhas nos dentes da frente quando resmungou algo incoerente.

Mione tirou a capa e cobriu o corpo de Serena, que a abraçou com força. As manchas de sangue no rosto e nas mãos de Serena, o sangue de Lewis, sujaram a face de Mione quando a garota tocou o rosto dela.

-Eu não reconheço o Lewis... não reconheço o Draco... todos são perigosos, até mesmo nós, Encalhadas... o que está acontecendo? Por que tudo está desse jeito?

-Eu não sei... – Mione beijou o topo da cabeça da amiga. – Não sei... – seu olhar acompanhou Draco, que se afastava do saguão com o olhar esgazeado, sem piscar...


-Quais serão os dons típicos de um pleno? - foi a pergunta que Michel soltou na sala comunal da Withers.

-Hum... metamorfomagia? – arriscou Bruce.

Ethan e Isabella trocaram olhares de preocupação, enquanto a garota se perguntava, com preocupação, se não havia deixado alguma mecha rosada perdida entre os cabelos castanho-escuros...

-Qualquer bruxo que possua um dom raro constitui uma ameaça – disse Melinda. – Vou usar o espaço na rádio para descobrir quais alunos de Hogwarts são plenos. Não deve ser tão difícil identificá-los entre os Veteranos.

-Se você passar a eles que estamos querendo caçar os plenos, jamais vão se prontificar...

-Ethan, Ethan... nós somos a maioria! Os bruxos comuns. Ou, dentro das condições, acho que seria mais adequado chamarmo-nos de normais.

-Acho que devemos ser tolerantes com as diferenças...

-Não passou pela sua cabeça que talvez eles, os plenos, não sejam tão tolerantes assim? – perguntou Bruce. – Eles podem se aproveitar desse poder todo e nos subjugar da maneira que acharem melhor! Vejam a Fogueira das Paixões... Se um pleno sente tesão por você, ele simplesmente arma um ritual e te aprisiona pro resto de sua vida!

-Nem todos os plenos fariam algo assim – comentou Isabella.

-Mas agiriam levianamente por outros meios. É tudo uma questão de fazer os bruxos normais de paspalhos manipuláveis. A metamorfagia, que o Bruce citou... caramba, poder transformar o corpo! Um metamorfomago pode tomar o lugar da esposa ou do marido de alguém e fazer o que bem entender!

-É tão injusto que não possamos fazer a mesma coisa! – desabafou Melinda.

-Mas vamos consertar esses erros – Bruce estapeou a mesa. – Vamos caçar os plenos desta escola e fazer justiça... a nossa justiça!

Uma guerra silenciosa começava a ser desenhada nos corredores de Hogwarts...


Malfoy recordou o modo como foi violento com Lorenzo ao invadir o bar para recuperar o caderno de Clarissa. Augusto demonstrara o receio de que...

"As lembranças da Fogueira se incorporaram ao seu ser e o transformaram em outra pessoa".

Dissera que o Malfoy psicótico agora estava dentro dele.

-Não... não pode ser... – ele respirou fundo. – Calma, Malfoy... se você virou um psicopata, os meninos deveriam ter se transformado, e isso não aconteceu...

E se as mudanças fossem graduais? E se as suas atitudes precipitadas fossem apenas o começo de um mal que ia crescer gradativamente até levá-lo a cometer um homicídio?

-Não... – gemeu Draco, e viu Harry Potter passando no corredor.

Ele avançou até o garoto e o puxou para um corredor paralelo e escuro.

-Cadê o Augusto? Há uma reunião emergencial entre os Irmãos do Fogo? – Harry engoliu em seco quando Draco o pressionou contra a parede. – O que está fazendo, Malfoy? Por que está assim, tão perto?

-Você disse que continua me achando atraente?

-Eu...

-Então me beije.

Harry engoliu mais saliva, o pomo de adão movendo-se perto do de Draco. Ele via, sob a luminosidade parca do corredor, os fios louros sobre os lábios do garoto – e aquela visão o fez relutar, seu estômago rodopiar, nauseado...

-Não estou a fim...

-Por quê? Já fez isso antes, não fez?

-Claro... mas, no momento...

Um desespero apossou-se de Draco, que recuou, passando as mãos sobre os cabelos, despenteando-os:

-Você também mudou! Augusto estava certo... sou um assassino...

-Do que está falando, Malf...?

Desesperado, Draco saiu em uma corrida desabalada pelo corredor, apoiando-se nas paredes... trombou com uma garota; mesmo enquanto caía, já sabia quem era – quem mais andaria com um turbante durante o dia?

-Está tudo bem, Marjorie... – ele começou a se justificar antes de qualquer pergunta. – Tudo bem...

Ela segurou os braços dele pelos pulsos e examinou as marcas nas mãos.

-Então é verdade que você quase matou o Lewis na frente de todo mundo?

-Não era a minha intenção... eu saí de mim... não via mais nada ao meu redor, só o desejo de fazê-lo pagar muito caro por ter humilhado a... – ele se refreou.

-Continue – instou Marjorie. – A sua esposa, não é? Aquela que você ama.

-Eu não amo...

-Bom, então fico realmente confusa sobre a sua reação. Porque você casou pra usufruir a grana dela. Logo, Lewis estava fazendo um baita favor em humilhá-la – ela riu, olhando para Robbie. – Quem sabe assim ela fica meio deprê e estoura os próprios miolos... A queda da Serena é a nossa vitória, Draquinho. Você tinha entendido isso tão bem... O que será que mudou durante o processo? – ela se aproximou dele, as mãos deslizando pelo corpo do garoto. – Não está segurando os instintos?

-Continuo querendo que ela se exploda...

-MENTIRA! – berrou Marjorie a centímetros do rosto dele. – CHEGA! Você agrediu Lewis só para protegê-la! Eu me pergunto: o que mais faria pra isso? E justo quando preciso de você para mandar essa cadela pra cadeia!

-Marjorie, você precisa confiar em mim...

-Não. Não posso. A Fogueira é a melhor forma que encontrei de ferrar com aquelas piranhas de uma só vez, todas numa tacada só, e você quase estragou tudo! Quero dizer... estragou tudo para os Nêmeses, o grupo a quem você jurou lealdade...

-Mas que não chegou até agora em lugar nenhum!

-Nunca esteve tão perto de ascender – retorquiu Marjorie. – Agora que todos conhecem o Pleno Poder... quando souberem o que temos a oferecer a quem não é pleno... – ela esboçou um sorriso diante da perspectiva. – Mas de nada valerá se essas piranhas ordinárias continuarem à solta! Com elas aprisionadas, Hogwarts terá necessidade de um novo grupo que as substitua à altura. E aí, sim, os Nêmeses revelarão o que podem fazer. Precisamos ajudar um ao outro, Malfoy, não agir desse jeito traiçoeiro com que você vem agindo... Ia estragar tudo para os Nêmeses em um ato puramente egoísta...

-Egoísta?

-Claro! Se você matasse o Lewis, eliminaria o Irmão do Fogo que pode mandar Serena para a cadeia com as amigas, não é mesmo? Poderia ferrar as outras Encalhadas à vontade ao mesmo tempo em que poupava a sua cadela.

-Não...

-...sabe que estou certa, Draco! É por isso que você ainda não restituiu a memória de Lewis, tudo em prol da sua esposinha. Você fica dividido entre mim e as Encalhadas e não sai do lugar! Está atravancando os planos dos Nêmeses, e ouça muito bem o que vou lhe dizer agora: não vou perder o meu melhor lance por conta de um babaca apaixonado! Aliás, nem sei o que tinha na cabeça quando deixei que você conduzisse os Irmãos do Fogo. Como eu fui burra! – ela estapeou a cabeça. – As Encalhadas são sedutoras, têm de ser confrontadas por quem está imune aos encantos delas. Eu, o Robbie...

-Lewis tirou tudo de nós – mandou Draco num golpe só.

-Como?

-É isso. Ele procurou o Ministério da Magia, comprovou que Serena não é filha do Brian. Ela não tem mais nada e, consequentemente, nós também.

-Desgraçado...

-Viu? Tive motivos para perder o controle...

Mas Marjorie sequer tinha ouvidos para isso...

-Quero que ele recorde cada detalhe da morte da mãezinha. Que veja cada lance, como contribuiu para riscar a existência da própria mãe. Que se martirize por isso durante toda a vida – ela voltou-se para Draco.

-Pode deixar comigo.

-Não confio mais em você. Farei isso com minhas próprias mãos – cheia de ódio, Marjorie avançou de forma determinada pelos corredores, seus asseclas seguindo-a.

Encontrou Lewis sentado no jardim, um pano com gelo sobre os ferimentos do rosto, ombros sacudindo em um pranto silencioso.

-Ele nem imagina a dor que está por vir... – prometeu Marjorie, avançando por entre as árvores, erguendo a varinha e apontando para o garoto. – Memoria Xarma!

Um pálido feixe de luz desprendeu-se da varinha, mas tornou-se uma névoa rala antes de atingir Lewis.

-O que aconteceu? – ela encarou Malfoy com furor.

-É um encantamento feito para plenos. Você não pode...

-Tá, não precisa jogar na minha cara. Minha mãe fez isso a vida inteira, me comparando com o meu irmão... Anda, faça você, então!

-Marjorie...

-O que é?.

Quando ela olhou para trás, Lewis estava de pé, varinha em punho, apontando para os arbustos onde o trio se escondia.

-Quem está aí? O que você quer?

Marjorie deu um passo...

-Fique onde está! – gritou o garoto.

-Querido, você sabe que... – ela dizia, andando um pouco mais, o mato estalando sob seus pés.

-Parada! – Lewis lançou um feitiço, mas o jorro avermelhado passou por cima do ombro de Marjorie.

-...não vai conseguir atingir ninguém com todo esse tremor...

Ela tentou conter um tremor quando outro raio luminoso passou ao seu lado.

-Só queremos ajudá-lo... – Marjorie ouviu o ruído do galho atingido se partindo às suas costas. – Podemos parecer os inimigos, mas as Encalhadas é que são as malvadas dessa história.

Lewis pareceu vacilar, mas a varinha continuava em prontidão, trêmula.

-Acho que você já deve estar sabendo disso por experiência própria. E, confie em mim, isso vai além do que você conhece até agora. Elas destruíram várias vidas. Eu tenho a minha cota destruidora, Lewis, mas numa contagem elas devem até ter me superado, sabia? As motivações podem ter sido as melhores possíveis, mas no fim, o que conta são os efeitos, não é mesmo?

-Foi... foi isso que ela me disse... – Lewis finalmente abaixou a varinha. Marjorie notou um movimento às suas costas...

(Draco sacando a varinha para golpeá-lo com um Memoria Xarma)

...e prontamente pediu para que ele parasse com um gesto discreto da mão.

-Ela quem?

-...que, assim como eu, pensava que elas eram suas amigas, mas que, no fim, elas destruíram a vida dela para que pudessem se safar.

Dessa vez, foi Draco quem se surpreendeu – não precisava que Marjorie avisasse para esperar – ele estava imóvel...

Lewis teve contato com quem ele imaginava?

-E que elas já fizeram o mesmo comigo, e que eu devia dar o troco do jeito que eu pudesse, assim eu fiz e deserdei a Serena, mas isso está me doendo tanto, eu não sei se agi da maneira correta, não tive mais como falar com ela, de repente ela saiu às pressas...

-Quem? – Marjorie quase gritou.

-Hermione. Ou melhor... era a Hermione no aspecto, mas eu posso jurar que conversei com a Encalhada morta. Clarissa.

O braço de Draco vacilou, a varinha apontando inofensivamente para o gramado.

-Ela estava dentro do corpo da Hermione?

-Pelo visto, sim. Os olhos eram azuis, a voz diferente e o nariz sangrava um bocado... Ela disse que depois voltaria a conversar comigo, e usaria uma Encalhada novamente. Que ela continuava viva dentro delas. Que as havia amaldiçoado.

Quando Marjorie voltou-se para Draco, trazia um olhar triunfante.

-E... que quando eu soubesse a verdade, também ia querer amaldiçoá-las... você sabe que verdade é essa, Marjorie?

-O-oi? – ela voltou a prestar atenção em Lewis. – Eu... acho melhor conversarmos depois, você não está legal... mas... acredite, tudo o que fizer ainda é pouco para puni-las. Clarissa não mentiu. Se não pode confiar em mim, a inimiga declarada das Encalhadas, acho que pode confiar em quem já foi uma amiga, certo?

Ela foi recuando aos poucos; Lewis voltou a sentar-se no gramado, pressionando o gelo nos ferimentos.

Voltando ao castelo, Marjorie comemorou com Draco e Robbie:

-Isso é perfeito! Fabuloso! Clarissa, então, tem muita coisa a contar...

-Mas como faremos pra conversar com ela? – indagou Robbie. – Vamos colar numa Encalhada até ocorrer a possessão?

-Não será necessário. Não quando temos um Stuart em carne e osso para consultar. E se esse garoto se infiltrou na escola às escondidas, é porque sabe de todos os detalhes! Com o que viu ou escutou, ele pode mandar as Encalhadas direto pro xadrez!


-Amuletos de proteção contra bruxos plenos! – anunciava Bruce Talbot, sobretudo carregado de bugigangas que tilintavam enquanto ele percorria o Salão Principal. – Defenda-se dos bruxos plenos! Vai querer um, Jen?

-Por que eu não seria plena, Bruce? Meus feitiços são excelentes!

-Bom, se for essa a forma de classificar o nosso nível de poder, eu não sou pleno – comentou Michel, tirando alguns acordes da guitarra. – Será que é por isso que meus feitiços são tão ruins?

-Ainda bem que não segui os rumores sobre a Fogueira das Paixões; ela ia acabar se voltando contra mim – comentou Melinda.

-No fim das contas, ela se volta até contra quem conseguiu realizá-la – comentou Adam, alto demais.

-O que disse, Parker? – perguntou Bruce, enquanto contava os galeões que conseguiu amealhar.

-Apenas pensando alto sobre... a... a Joyce! Vejam o que aconteceu com ela! Teve sucesso por ser uma plena, mas acabou presa por conta da Fogueira!

Enquanto os demais alunos comentavam acerta da prisão de Joyce e da plenitude da garota, Adam pensava no potencial mágico das cinco Encalhadas. Se os alunos soubessem tudo o que elas fizeram ao lado de Clarissa, isso geraria tanta admiração...

E tanto perigo.

Perigo – adendo que ele acrescentou ao pensamento assim que viu Serena cruzando o Salão com o nariz ensanguentado.

-Eu sabia! – disse para si mesmo, levantando-se.

Deu três passos, pensando sobre as estratégias de Clarissa, o quanto ela preservara as forças apenas para aguardar uma oportunidade como aquela, mas estancou quando Hermione passou diante dele com um risco de sangue sobre os lábios.

Adam coçou os cabelos cacheados; procurou por outra Encalhada e viu Alone subindo um lance de escadas – a garota olhou para trás, um fio vermelho-vivo deslizando em diagonal na bochecha, descendo pelo pescoço...

E ali estava Lanísia, a narina também ferida, o fluxo sanguíneo incontrolável, gotas fartas deixando uma trilha no piso.

As Encalhadas partindo em diferentes direções.

-Vadia – ele murmurou, reconhecendo logo de cara a estratégia de Clarissa, o jogo sujo, e sabendo, com um pavor de gelar o sangue, que ela não se daria a todo esse trabalho à toa.

Precisava evitar que ela fizesse o que pretendia.

Mas qual Encalhada iria seguir?

Como saber qual delas estava possuída por Clarissa? Seguir uma por uma? Escolher uma delas?

O que fazer?


Adam escolheu seguir Lanísia, que entrava no corredor que levava à biblioteca. Segurou-a pelo braço e esperou deparar com os olhos azulados de Clarissa, mas não havia sinal da presença maléfica da garota quando Lanísia o fitou.

-Adam! Algum problema?

-Esse ferimento...

-Ah! Uma bobagem! Mione se irritou com Alone e Serena e arremessou um tinteiro. Quando esbarrei minha unha no corte, ele abriu novamente. Agora estou com o nariz pingando e com a unha que levei um tempão para pintar manchada com uma crosta vermelha... ei! Adam! Volte aqui!

Ele se desviava agilmente dos colegas nos corredores, procurando outra Encalhada. Ao subir a escadaria de mármore, encolhia-se ao ouvir o menor ruído, imaginando que, a qualquer momento, um berro ecoaria nas paredes de pedra, o corpo de uma Encalhada passaria feito um raio ao seu lado, indo se esborrachar no piso do Saguão de Entrada, é claro que aconteceria assim, esse era o padrão de Clarissa, foi isso o que ela fez para tirar a própria vida e ia repetir o gesto, ele já podia visualizar as rachaduras no chão do saguão se espraiando a partir do corpo, e quando olhasse, sequer poderia reconhecer a Encalhada, pois o crânio estaria partido...

Localizou Serena curvada sobre o parapeito do quarto andar e não conteve um grito.

Ela se voltou para ele, assustada.

-Você está bem? – ele tocou o rosto da garota.

-S-sim. Mas você... acho que não, Adam, está tão pálido...

Ofegante, ele continuou a sua busca... Agora, faltavam duas... Hermione e Alone... fosse qual fosse o propósito de Clarissa com a possessão, as chances de impedi-la diminuíam a cada fracasso...


Marjorie e os meninos se aproximavam do salão comunal da Withers quando tiveram o caminho bloqueado por uma Encalhada de cabelos escuros.

-Estão procurando o meu primo? – disse Alone numa voz debochada que não era a sua.

Marjorie abriu um sorriso, reconhecendo a possessão assim que pôs os olhos na garota.

-Clarissa?

-A própria. Agora que todos estão temendo o Pleno Poder, não há melhor momento para revelar a Fogueira das Paixões que as piranhas fizeram. Estou aqui para ajudá-los, mas não tenho muito tempo...

Uma lâmina enorme atravessou a barriga da Encalhada, sobressaltando os Nêmeses.

A garota gemeu, a boca aberta num esgar, virando-se para encarar quem a havia golpeado. Adam a fitava sem piedade no olhar, acompanhando com deleite enquanto o sangue empapava a roupa da Encalhada.

-Por que fez isso? Idiota! – gritou a voz de Clarissa.

Adam não respondeu; torceu o nariz diante do odor nauseante e apodrecido do sangue contaminado; os olhos azuis da garota começaram a mudar de tom, até que Alone retornou por completo ao corpo que lhe pertencia, torcendo-se de dor.

-Alone, foi necessário... eu sinto muito, mas Clarissa ia contar a eles toda a verdade sobre a Fogueira...

-C-como você... sabe sobre... a Fogueira? – gemia Alone.

-Ora, eu te contei há alguns dias. É necessário esvair o sangue podre dela, assim você jamais será possuída novamente, portanto aguente firme! Tenho Ditamno aqui, você ficará bem novamente...

-Acha mesmo que isso adiantou, Adam? – perguntou Marjorie. – Você vai nos contar, tintim por tintim, tudo o que a sua prima lhe disse.

-NÃO!

-Ah, qual é, você teve que seduzir essazinha aí para ajudar sua prima, não foi? Claro, um homem bonito e hétero jamais se interessaria pela Encalhada bruta e masculinizada...

-Do que ela está falando, Adam? – ofegou Alone.

-Você vai nos ajudar, ou te imobilizaremos e o levaremos ao Ministério. Será preso por tentativa de homicídio, Adam, isso se não o impedirmos de ajudar Alone, pois daqui a pouco ela esgota o sangue pútrido da Clarissa e começa a perder o próprio... podemos deixar que ela sangre até a morte e, aí, você será preso por assassinato. A escolha é sua.

Marjorie avançou para perto dele, o couro cabeludo queimado parcialmente revelado pelo turbante, Draco e Robbie com as varinhas apontando para Adam.

-É a sua chance de destruir as Encalhadas. Honre a sua linhagem, Adam Stuart Parker!

Com a visão embaçada, Alone encarou bem o par de olhos azulados de Adam, finalmente localizando a familiaridade, entendendo o que estava escrito no cartão que ele derrubara na Floreios e Borrões, aquele que o vácuo em sua memória apagara, claro, só podia ser isso, o sobrenome proibido...

Stuart.

Adam era um Stuart.


N/A: Aguardo as reviews! Até o próximo capítulo! =D