10 – Encenando

Edward descolou nossos corpos, mas continuou segurando minha mão. Percebi que havia conseguido bloquear os pensamentos dele até agora, mas parece que a tensão não estava mais me deixando fazer isso. E Edward não parecia conseguir pensar em uma coisa de cada vez.

"Espero que Bella fique calada"

"Carlisle é mesmo um idiota, porque ele tinha que vir até aqui?"

Soltei sua mão antes que acabasse ouvindo algo que não deveria. Edward ainda tentou resistir e apertou minha mão, mas eu soltei a dele e cruzei os braços firmemente sob os seios.

Carlisle continuava nos olhando com uma sobrancelha erguida. Ah, havia tantas coisas que eu queria dizer... Mas se ele queria mesmo saber o que estava acontecendo aqui, eu não iria responder. Nem em um milhão de anos isso seria da conta dele.

― Ainda estou esperando a resposta ― Carlisle disse, olhando para mim. ― Olá, Isabella.

Era muita petulância mesmo dirigir a palavra a mim.

― Olá, Carlisle ― respondi sem vontade.

O silêncio pairou entre nós três. Carlisle deu um passo a frente em nossa direção e eu, instintivamente, recuei dois passos. Ele franziu o cenho. "Falso!" eu estava gritando por dentro.

― Eu e Bella estávamos apenas conversando, Carlise ― Edward respondeu.

― Não sou idiota, Edward ― Ah, não mesmo? ― Vi muito bem o que estava acontecendo aqui.

― Então por que perguntou? ― eu disse, sem consegui me controlar.

Carlisle me olhou de cima a baixo, tentando me intimidar. Foi-se o tempo, querido, foi-se o tempo que eu tinha algum respeito pelo sobrenome "Cullen".

― Esta é uma conversa entre família, Isabella. Ah, quase me esqueci, você também deveria ser da família ― Carlisle respondeu irônico.

― Você me dá nojo ― respondi.

Um grunhido saiu da garganta de Carlisle. Edward instintivamente se colocou entre nós dois. Mas eu não iria brigar. Não iria dar a Carlisle motivos para jogar Edward contra mim. Eu era muito superior a ele para me rebaixar a tal ponto.

Saí de trás de Edward e fui até meu carro, que estava estacionado do outro lado da pista, alguns metros dentro da floresta.

― Nos vemos amanhã, Edward ― eu disse antes de dar a partida e sair cantando pneus, passando a dois centímetros do braço de Carlisle, que me encarava com ódio.

Edward tinha razão: Carlisle era mesmo muito idiota. O que diabos ele queria indo até ali? Alice com certeza deve ter previsto isso. Ela sabia que Edward estaria bem e deveria saber o que iria acontecer entre nós dois. Se Carlisle queria impedir qualquer relacionamento meu com Edward, por que, para começo de conversa, ele o deixou ir se encontrar comigo?

Percebi que eu não estava fazendo muito sentido nem em meus pensamentos. Seria difícil – e extremamente constrangedor – contar isso tudo a James.

Mas eu não precisava ter me preocupado com James, pois, quando cheguei em casa, ele não estava. Procurei por algum bilhete ou mensagem no celular, mas não havia qualquer pista sobre onde ele poderia ter ido.

Estranho demais. James não costumava fazer esse tipo de coisa.

Fui até a varanda do meu quarto. A noite caía escura, o céu estava carregado de nuvens. Era quase possível sentir a chuva chegando.

Pensei em Edward. No jeito como ele agiu com Carlisle. Não era como se ele gostasse do "pai". Era mais como se estivesse disposto a confrontá-lo a qualquer instante.

E o beijo... Não consegui evitar um sorriso ao pensar no beijo. Eu era uma pessoa totalmente diferente com Edward. Mais leve. Mais solta. Mais irresponsável. Poderia arriscar dizer, mais feliz.

Eu sabia que isso era perigoso. Eu não conhecia nada sobre Edward. E já me sentia conectada a ele de alguma forma. O jeito como ele me olhava, nosso estranho "toque quente", a forma como conseguíamos corresponder um ao outro.

E ainda havia Carlisle no meio de tudo. Depois desta noite, tive certeza que Carlisle se oporia a qualquer tipo de relação mais próxima entre eu e Edward.

Minhas roupas estavam um pouco molhadas pelo orvalho da floresta no caminho de volta do penhasco e algumas folhas haviam grudado. Decidi que um banho seria "relaxante" e era necessário agora.

Tirei a roupa no quarto mesmo, largando-as pelo chão, e entrei no banheiro, sem me preocupar em fechar a porta.

Havia, por sorte, deixado a banheira cheia. Joguei alguns sais que comprara no Oriente – não que algum odor pudesse fixar em meu corpo morto, mas apenas para que James pudesse sentir o cheiro e perceber que eu estava tomando banho – na água e deitei, fechando os olhos e tentando simplesmente não pensar nos problemas que possivelmente teria arranjado.

Não sei por quanto tempo fiquei ali deitada, mas mudei de posição apenas quando ouvi a porta da frente bater e alguém subir as escadas.

― James? ― chamei.

― Olá. Avise quando terminar o banho ― ele respondeu.

Percebi que a espuma feita pelos sais já havia sumido completamente. Hora de terminar o banho. Enxuguei-me e vesti uma roupa leve de verão. Algo que não seria possível se eu fosse humana com a temperatura que estava fazendo na reserva.

Desci as escadas e encontrei James na sala, sentado no sofá assistindo TV. Antes mesmo que eu pudesse perguntar algo, senti o cheiro diferente em suas roupas. O mesmo cheiro que sentira na última vez que ele saíra sozinho.

― Esteve com Victoria? ― perguntei, sentando-me no sofá ao seu lado.

James me olhou com o cenho franzido antes de responder, provavelmente tentando estudar minha possível reação. Forcei meu rosto a se manter impassível.

― Estive ― ele respondeu, voltando a zapear os canais.

Ficamos em silêncio. Eu queria brigar com ele, mas sabia que não tinha o direito. Perigo por perigo, eu também estava correndo um.

― Encontrei Carlisle hoje ― falei, tentando parecer tranquila.

James virou de lado no sofá para poder me encarar.

― Está brincando! Como isso aconteceu? ― ele perguntou, cheio de interesse e preocupação.

Contei aquele tudo que acontecera – inclusive a conversa no penhasco – omitindo que eu e Edward estávamos nos beijando quando Carlisle nos encontrou. James não precisava saber disso agora. Já havia sido humilhação demais Carlisle nos encontrar.

― Estou orgulhoso de você ― James me surpreendeu dizendo quando eu terminei toda a história.

― E por quê?

― Era de se esperar que você ficasse lá até fazer com que Carlisle partisse para o ataque. Fico feliz que tenha vindo embora ― ele explicou.

Pensei sobre o assunto. Era verdade. Algum tempo atrás, eu nunca sairia do caminho de um Cullen. Não sei o que havia mudado dali para cá, mas suspeitava que tinha algo a ver com Edward.

― Só queria mesmo saber o que Edward quis dizer com "uma surpresa" ― James continuou. ― Sempre gostei de uma boa surpresa...

― Cabeção ― resmunguei, dando um tabefe na cabeça dele. James riu e então eu lembrei de perguntar algo que me incomodava. ― E Victoria? Como foi com ela?

― Tudo bem. Apenas conversamos ― ele respondeu com um sorriso cínico.

― James, vá enganar outra. Sinto o cheiro de sexo em você ― acusei.

― Ah, Bellinha inocente, afinal, sabe qual é o cheiro de sexo ― ele provocou.

― Cala a boca, cabeção ― retruquei e ele riu novamente.

O que algumas horas de sexo não faziam com uma pessoa. Ele estava rindo mais hoje do que em qualquer outro dia desde chegamos aqui.

Ficamos a madrugada inteira em frente à TV, zapeando pelos canais, mas não havia nada interessante, para variar. Eu não trouxera meu estoque de DVDs e James já estava enjoado dos que ele trouxera. Combinamos de ir até Port Angeles abastecer nossa estante.

Na manhã seguinte, eu me encontrava ridiculamente ansiosa por conversar com Edward. Mas apenas porque queria saber como havia sido a conversa dele com Carlisle. Apenas por isso.

― Bom dia, Bella ― ele cumprimentou assim que eu sentei em meu lugar atrás dele na aula de Trigonometria. O sinal tocara há alguns minutos e o professor ainda não estava em sala.

― Bom dia. E então? Como foi ontem com Carlisle? ― perguntei, sem rodeios.

― Normal. Nós nos entendemos muito bem. ― Aquilo não soava verdadeiro nem mesmo para ele, posso apostar.

― Sei. Você sabe que pode me contar a verdade, não é mesmo?

― Claro, apenas a verdade para você ― ele concluiu, sorrindo.

Mas oi? De onde saíra aquilo?

Antes que eu pudesse perguntar mais qualquer coisa, o entrou na sala e começou imediatamente a ditar problemas. Parece que essa semana ele faria isso todos os dias. Talvez ele estivesse com preguiça de dar aula. Ou o romance que ele sempre lia enquanto estávamos em silêncio fazendo os exercícios estava tão bom que ele não conseguia parar. Das duas uma.

― Hey, Bella, por que não senta ao meu lado? ― Edward sussurrou em uma voz que apenas eu poderia ouvir.

― E por que eu faria isso? ― desafiei.

― Acho que temos um jogo a continuar ― ele respondeu, me desarmando totalmente.

Revirei os olhos para o teto, me perguntando onde eu estava com a cabeça quando aceitei fazer qualquer pacto com Edward.

Levantei o mais silenciosamente que pude, evitando os olhares curiosos do restante da sala. Consegui sentar ao lado de Edward sem que ninguém percebesse.

― Então, qual a próxima pergunta? ― Edward murmurou para que somente eu ouvisse.

Pensei um pouco sobre o assunto. Havia tantas coisas que eu queria saber, mas não poderia perguntar muito agora, no meio da aula.

― Por que você não gosta que eu te chame apenas de "Cullen"? ― perguntei, encontrando a questão mais banal que havia em minha mente.

Ele me deu aquele sorriso torto, que eu começava a não achar mais tão irritante, antes de responder.

― Porque eu tenho um nome e meu sobrenome, com certeza, não é Cullen ― ele respondeu simplesmente. Ia começar a perguntar, mas ele continuou a explicação antes que eu pudesse interromper. ― Cullen é o sobrenome de Carlisle, como você bem deve saber, mas o meu é Masen. Eu adquiri o sobrenome dele apenas para manter as aparências entre os humanos.

― E por que você não gosta que eu te chame pelo sobrenome dele? ― perguntei.

― Acho que agora é minha vez de perguntar ― ele rebateu.

Nesse ponto, alteramos um pouco o tom da voz e acabamos chamando a atenção de algumas pessoas perto de nós. Felizmente, não falamos alto o suficiente para perturbar o professor.

― Faça a sua pergunta, então ― sugeri.

Ele pareceu pensar um pouco, mas, como da outra vez, quando ele falou, eu tive a suspeita de que a pergunta já estava pronta.

― Qual a sua relação com James? ― ele pareceu sem jeito e eu não pude deixar de sorrir com aquela timidez quase inexistente. ― Quer dizer, você já me disse que vocês são apenas amigos, mas... Não sei, ele é tão protetor com relação a você.

― Somos muito amigos, Edward ― eu respondi calmamente. ― James sabe de todo o meu passado com Carlisle e ele apenas tem medo que eu faça alguma estupidez com relação a isso e acabe me machucando.

― Mas você não fará nada. ― Não era uma pergunta.

― Não enquanto Carlisle ou qualquer um de vocês não me der algum bom motivo ― assegurei.

Ele me encarou por alguns segundos. O veneno derretia rapidamente a lente e já era possível ver traços de sua íris vermelha aparecendo. Apesar da lente, seus olhos pareciam felizes. Não havia mais entre nós toda aquela tensão dos primeiros encontros. O clima era leve, a companhia era agradável.

O sinal tocou e nos sobressaltamos. Começamos a arrumar nossas coisas, eu rezando para ninguém perceber que eu não estava no meu lugar de costume, mas, pelo visto, aquele era mesmo o professor destinado a estragar meus planos.

― Mudou de lugar, Srta. Swan? ― o Sr. Varner falou, parecendo realmente surpreso.

― Pois é ― tenho certeza que, se pudesse, eu estaria corada até a raiz dos cabelos.

O professor de limitou a sorrir em aprovação, murmurando um "belo casal" que mais ninguém poderia ter ouvido ali, exceto eu e Edward.

Por falar em Edward, este estava rindo abertamente ao meu lado.

― O que houve? ― perguntei enquanto saíamos da sala.

― Nada ― ele se afastou na direção oposta. ― Nos vemos na Educação Física.

Segui para minha aula de Biologia me sentindo quase feliz. Apesar de as vezes detestar a maneira como Edward conduzia as coisas, eu gostava daquele jogo. Me permitia conhecer mais dele, passar mais tempo com ele.

Percebi, não sem algum desespero, que eu era uma pessoa totalmente diferente com Edward. Ele me deixava mais leve, menos durona. Como se eu simplesmente libertasse a minha mente adolescente parada no tempo.

Sorri para mim mesma enquanto o professor, , passava os exercícios de hoje no quadro.

A hora do almoço foi um tanto... Constrangedora, se você quer a minha opinião. Quando James e eu estávamos na fila pegando a comida que não comeríamos, Edward se aproximou de nós dois e, para meu total espanto, não foi comigo que ele falou.

― Hey, cara ― ele cumprimentou, oferecendo uma mão, que James apertou. ― Sou Edward.

― James.

Eu encarava Edward com uma sobrancelha erguida, percebendo, ao mesmo tempo, que James se esforçava para não rir da minha total falta de compreensão do assunto.

― Acho que estou perdendo alguma coisa aqui ― falei, assim que James e eu sentamos à nossa mesa costumeira. Edward estava sozinho hoje, Alice e Jasper não compareceram à aula.

― O quê? ― James retrucou, desembrulhando um talher de um guardanapo de papel. ― Vai comer essa fatia de pizza que está na sua bandeja?

― Óbvio que não ― retruquei, quase caindo da cadeira de espanto quando ele pegou a fatia e colocou na própria bandeja, cortando um pedaço e comendo. ― Pode me dizer o que está acontecendo aqui?

Olhei dele para Edward, que estava atento a tudo que eu havia dito, e de novo para James.

― Não está acontecendo nada, Bella ― James respondeu assim que engoliu a pizza. ― Chame Edward para sentar conosco. Ele está abandonado ali, só esperando você convidá-lo.

― E por que eu faria isso?

― Porque devemos confraternizar com nossos iguais ― James respondeu com uma piscadela.

Eu não estava acreditando. Na verdade, continuei encarando James, esperando que a qualquer momento ele pulasse e dissesse "Hey, Bella, só queríamos fazer você de idiota um pouco". Mas ele não fez isso.

Edward ouviu o que James dissera e, antes mesmo de eu falar qualquer coisa, já estava sentando na cadeira vaga que havia em nossa mesa. Não deixei passar o fato de que todas as cabeças da lanchonete se viraram quando ele se levantou da própria cadeira carregando a bandeja de comida, intocada, para sentar comigo e James.

― Obrigado pelo convite ― Edward soltou, dando uma piscadela para mim.

Não poderia haver cena mais estranha. Edward sentado à mesa, ao lado de James, os dois conversando animados sobre a Liga de Beisebol. Eu estava completamente sobrando ali. Não que não entendesse nada de beisebol, mas estava estupefata demais para conseguir entrar na conversa.

― Edward ― falei de repente, lembrando de algo que o professor dissera durante a aula ―, qual é a surpresa, afinal? O Sr. Mason não quis nos dizer. Disse apenas que olhássemos o mural de aviso ao final das aulas.

― Se ele não quis estragar o suspense, por que eu estragaria? ― ele respondeu, sorrindo safado.

James parecia tão frustrado quanto eu. Nos olhamos e ele apenas deu de ombros, pegando a garrafa de Soda e tomando um longo gole.

Quando o sinal finalmente tocou, os dois se despediram com um breve aperto de mãos e Edward me deu um beijo na bochecha. Ok, o mundo enlouqueceu e esqueceu de me avisar.

― Ok, vocês dois enlouqueceram ― disse a James enquanto íamos para nossas respectivas aulas.

― Qual o problema de eu querer fazer amigos? ― Uma garota morena se aproximou de nós no corredor, sorrindo. ― A propósito ― ele abraçou a garota pelo ombro ―, quero que conheça Angela. Ang, esta é a Bella.

― Muito prazer ― ela estendeu a mão e eu a apertei. ― James falou muito de você.

― É, eu aposto que sim ― concordei, lançando a James meu melhor olhar "nós conversaremos sobre isso depois".

Eu me despedi dos dois – ao que parece, Angela era a parceira de James em Biologia – e fui para a minha próxima aula tentando não pensar em todas as coisas malucas que podem acontecer na mesma manhã.

Enfim, a aula de Educação Física. O professor, novamente, nos fez ficar sentados enquanto ele falava, mas, dessa vez, eu tratei de tomar bastante cuidado para não tocar Edward e tomei o máximo de distância possível dele.

Quando a aula acabou, eu peguei minha mochila e corri para fora do ginásio. Por azar, Edward me alcançou.

― Nossa cota de perguntas ainda não esgotou por hoje ― ele disse, andando ao meu lado em direção ao estacionamento.

― Primeiro você ― eu disse, encostando na lateral do meu carro.

― Por que você veio para Forks? ― ele perguntou, dessa vez sem fazer rodeios ou fingir que estava pensando.

Antes que eu pudesse formular qualquer resposta, senti um cheiro diferente vindo de algum lugar próximo dali. E eu conhecia o cheiro.

― Victoria ― sussurrei, olhando em volta. Encontrei-a parada entre as árvores, há apenas alguns metros de distância de onde eu estava. Ela sorriu para mim e eu fingi uma retribuição.

― Quem é ela? ― Edward perguntou. Pelo visto, ele também sentia o perigo que a presença de Victoria exalava.

― Um caso antigo de James ― respondi. ― E por falar no cabeçudo.

James saía do prédio da escola exatamente no instante em que Victoria o avistou. Ele estava muitos metros longe dela, então não percebeu sua presença. Mas ela podia vê-lo perfeitamente. E pôde perceber quando ele abraçou Angela e a deu um beijo de despedida. Na boca.

― Merda ― murmurei, olhando diretamente para Victoria, que bufava, ainda escondida entre as árvores. ― Isso não vai prestar.

James olhou ao redor, procurando por mim e sorriu quando me viu. Ele e Angela se separaram e ele veio ao meu encontro. Antes mesmo de chegar até mim, ele sentiu o cheiro.

― Victoria ― ouvi-o murmurar, assim como eu havia feito.

Mas ele não conseguiu encontrá-la. Não que fosse difícil localizar onde o cheiro estava mais forte, mas apenas porque ela foi embora logo depois de ele se despedir de Angela.

― Você fez merda, cara ― Edward disse a ele, assim que James se juntou a nós.

― Percebi. Ela viu tudo? ― James perguntou a mim.

― Viu.

Ele soltou um palavrão alto, passando as mãos nos cabelos.

― Vem, vamos para casa antes que você faça mais alguma besteira ― ordenei, abrindo a porta e entrando no carro. Edward continuava parado no mesmo lugar e eu baixei o vidro quando ele pediu para falar comigo.

― Você esqueceu de verificar a surpresa ― ele disse, sorrindo torto.

― Verdade! ― exclamei, olhando para James sentado ao meu lado.

― Eu vi ― James disse, para meu espanto.

― Está esperando o que para me contar, então? ― briguei.

Ele riu antes de responder.

― Haverá testes para uma peça de teatro ― ele começou. ― Todos os alunos podem participar. E ― seu sorriso aumentou ― para os alunos que entraram este ano na escola, o teste é obrigatório.

― дерьмо¹ ― xinguei.

― O que você disse? ― Edward perguntou, ainda debruçado na janela do carro.

― Nada ― respondi, mal humorada. ― E que peça eles vão encenar?

― Romeu e Julieta ― Edward e James responderam juntos.

Menos mal. Até que eu gostava daquela história. Apesar de os dois, tanto Romeu quanto Julieta, serem meio estúpidos.

― Será que podemos ir? Preciso dar um jeito de consertar a estupidez ― James resmungou ao meu lado.

― Claro ― liguei o carro e esperei Edward se afastar da janela.

Ele acenou e James acenou de volta. Eu estava irritada demais para conseguir ser cordial. E, além do mais, eu tinha certeza que ele estava escondendo algo de mim. Algo sobre essa maldita peça.

No dia seguinte, na escola, tudo sobre o que todos falavam era teatro. Várias meninas queriam "ser Julieta", enquanto poucos meninos se sentiam animados com o fato de interpretarem Romeu.

Edward me surpreendeu, durante a aula de Trigonometria – onde eu mudei, definitivamente, para o lugar ao lado dele – dizendo que faria os testes.

― Se eu conseguir pelo menos o papel de Benvólio², já estarei satisfeito ― ele completou.

Mas algo nos seus modos me dizia que ele sabia muito bem qual o papel que iria conseguir. E eu não duvidava nada que isso fosse possível.

Durante o almoço, Edward sentou com a irmã e o cunhado – graças aos céus. James me assegurou que dessa vez não convidaria Alice e Jasper para sentar conosco. Até porque, aquilo seria o cúmulo do absurdo.

― Sabe, estava pensando em cabular o teste ― James disse, falando baixinho para que só eu ouvisse. ― Posso inventar que fiquei doente no dia ou algo do tipo.

― Só você terá essa idéia, cabeção ― retruquei irônica.

― Escute ― sua voz estava um pouco mais séria, seu tom mais grave ― você acha que Victoria vai me perdoar?

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, Angela chegou e sentou na cadeira vazia que havia à mesa, plantando um selinho rápido nos lábios de James.

Ele havia me explicado que eles não estavam tendo nada sério. Tanto que, assim que chegamos em casa ontem a tarde, a primeira coisa que ele fez foi tentar ligar para Victoria. Mas ela não o atendeu e eu perdi as contas de quantas mensagens ele deixou em sua caixa postal. Ele queria ir atrás dela, mas eu o impedi. Victoria era do tipo que, de cabeça quente, fazia muitas coisas idiotas. Aconselhei que ele desse a ela algum tempo para pensar.

― E então, Bella, vai tentar o papel de Julieta? ― Angela perguntou, enquanto tirava a tampa de seu yogurte light.

― Não sei. Não acho que consiga ― respondi.

Ouvi alguém bufar e não me surpreendi nem um pouco quando percebi que era Edward. Era óbvio que ele já sabia quem conseguiria todos os papéis. Deve ser ótimo ter alguém na família que te diz o que vai acontecer antes mesmo que você consiga ficar apreensivo com isso. Edward era idiota por não gostar disso.

― Ah, Bellinha, vamos lá, não seja modesta ― James retrucou. Ele estava com o braço displicentemente jogado por trás da cadeira de Angela e recebia os olhares de quase todas as meninas da lanchonete.

― Você sabe que não sou boa atriz, não estou sendo modesta ― provoquei.

― Aposto que você consegue. É mais bonita que todas nós juntas aqui! ― Angela contrapôs e eu ri.

Decidi que eu gostava dela. Ela não soltava aquelas palavras com ironia ou com algum tom de inveja. Pelo contrário, parecia acreditar mesmo que eu poderia conseguir o papel de Julieta.

― Concordo com ela ― Edward disse, lá da mesa dele.

― Cala a boca ― eu falei, talvez alto demais, pois Angela me olhou assustada. ― Oh, não, estou apenas pensando alto ― expliquei a ela e ouvi a risada baixa de Edward.

Esse garoto ainda vai me matar. De raiva.

Os testes aconteceriam ao final das aulas. Edward passou a aula inteira de Educação Física me provocando, apenas porque eu caí na besteira de perguntar a ele quem seria a Julieta.

― Ah, alguém está curioso por aqui ― ele respondeu. ― Pensei que estivesse irritada por ter que participar dos testes.

― Eu estou irritada ― respondi, minha voz leve contradizendo totalmente o que eu havia dito. ― Mas isso não me impede de querer saber quem será a Julieta.

― Todos aqui terão que esperar para saber, não é mesmo? Contar a você seria trapaça ― Edward disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

― Idiota ― eu resmunguei.

― A Srta. Swan tem algo a acrescentar à nossa aula? ― o professor disse. Não prestava a mínima atenção ao que ele dizia, algo sobre as regras do vôlei, e também não percebi quando falei alto demais para que outros ouvissem.

― Não, senhor, desculpe ― corrigi apressadamente, ouvindo Eward rir baixinho ao meu lado.

Quando a aula acabou, peguei minhas coisas e corri apressada para encontrar James. Os testes para a peça de teatro aconteceriam àquela tarde, logo após as aulas, e eu encontraria James para irmos juntos.

Mas, antes que eu pudesse avistá-lo, antes que pudesse mesmo sair da quadra, alguém me puxou pelo braço. E não foi qualquer pessoa, pois aquele calor magnífico imediatamente se espalhou da ponta de seus dedos por meu braço.

E o mais importante: havia algo dominando em seu pensamento, algo que eu ansiava o dia inteiro por ouvir.

"Claro que eles não poderiam ter escolhido ninguém melhor para ser a Julieta e..."

Antes que eu ouvisse o pensamento inteiro, Edward me largou. Inferno!

― O que você quer de mim, Edward? ― exigi, virando bruscamente de frente para ele.

― Muitas coisas ― ele respondeu, enigmático. ― Por hora, quero apenas que me deixe acompanhá-la até os testes.

― Não sei por que você vai fazer este teste estúpido ― resmunguei, voltando a andar, dessa vez acompanhada por ele. ― Daria tudo para não ser obrigada a fazê-los.

― Não seja tão cabeça dura, Bella. Vai ser bom, afinal de contas, ter algo mais com que se preocupar.

― Nossa, não vejo a hora! ― retruquei, carregando na ironia.

Encontramos James na cafeteria, onde havíamos marcado, e ele não pareceu surpreso em me ver com Edward.

Percebemos que muitas pessoas se dirigiam para lá. Mas, quando entramos no teatro da escola, vimos que, afinal de contas, nem todos iriam fazer os testes. Muitos estavam ali apenas pelo prazer de ver os amigos passarem vexame, outros para dar apoio e outros apenas porque não tinham nada melhor para fazer.

O professor de inglês e uma outra senhora que eu não conhecia estavam encarregados de separar os alunos. Cada um possuía uma prancheta onde anotavam os nomes dos candidatos aos papéis. O professor anotava os nomes dos meninos e a professora os das meninas.

Se eu bem lembrava, havia muito mais papéis masculinos do que femininos na peça. Mas, em comparação, havia muito mais mulheres para fazer o teste do que homens.

Eu, Edward e James inscrevemos nossos nomes e nos sentamos na platéia. Angela se reuniu a nós um pouco depois, sentando ao lado de James. Quase meia hora depois, parecia não haver mais candidatos não inscritos. Os assentos estavam lotados até a metade da capacidade do auditório. A senhora desconhecida – que, Edward me informou depois, era professora de teatro – subiu no palco e começou a explicar o que faríamos.

No geral, pelo menos para mim, o teste seria bem simples. O casal principal seria escolhido primeiro. Para tanto, teríamos que nos dividir em duplas – em casais, para ser mais exata – e subir ao palco juntos para encenar algo improvisado. Eles nos dariam apenas uma hora para decidir o que fazer e ensaiar.

James decidiu rapidamente que ele não ia tentar o papel de Romeu e Angela o seguiu, dizendo que não tinha timbre para Julieta. Edward, pelo contrário, disse que eu e ele deveríamos formar dupla para tentar o casal principal.

― Por que não? ― ele perguntou, quando eu prontamente recusei.

― Não vou fazer dupla com você. Provavelmente acabaríamos nos matando antes mesmo do desfecho da peça ― expliquei.

― Seja razoável, Bella. ― Ele estava rindo. ― Vamos lá, não tenha medo.

― Não estou com medo.

― Então venha comigo, vamos nos inscrever.

Dei um olhar seco para ele enquanto pensava. Bem, não seria má idéia tentar o papel principal. Eu não sabia apenas se conseguiria aturar muita convivência com Edward. Instantaneamente, as lembranças de nosso ultimo beijo vieram à minha mente e eu tive a minha resposta: eu, definitivamente, agüentaria essa.

― Okay, você me convenceu ― respondi, levantando e indo até onde o professor de inglês anotava o nome das duplas.

Depois que todos os pares estavam formados – bem, não todos. Aparentemente, ninguém queria fazer par com Tyler. Senti pena dele, mas achei que Mike poderia se vestir de Julieta e fazer par com o amigo. – finalmente, nos foi dado o tempo para improvisar algo a ser encenado.

― Alguma idéia em mente? ― perguntei a Edward. Antes mesmo que ele pudesse responder, eu mesma o fiz. ― Óbvio que você tem uma idéia. Você sabe o que nós vamos fazer.

Ele riu antes de responder. Estávamos sentados na última fileira da platéia, esperando não ser ouvidos.

― Tudo bem, eu sei. Nós vamos encenar uma própria cena da tragédia ― ele respondeu, simplesmente.

― Que criativo ― ele riu. Não estava entendendo o motivo de toda aquela felicidade. ― Qual cena, exatamente?

― O primeiro beijo de Romeu e Julieta.

― Ah, e você acha que eu vou acreditar nessa? ― gritei. Algumas pessoas olharam, mas tomaram aquilo como uma parte da possível cena que estaríamos ensaiando. ― Não sou boba, Edward.

― Não vou discutir isso com você. Mas, bem, essa é a cena que nós acabaremos encenando, de qualquer forma.

Bufei de raiva, cruzando os braços sobre os seios. Algo me dizia, lá no fundo da minha cabeça, que Edward estava tentando se aproveitar da situação. Mas, o outro lado da minha mente dizia que essa era, realmente, uma das melhores cenas que poderíamos interpretar se quiséssemos ganhar os papéis principais.

― Tudo bem ― Seja porque soubesse que eu acabaria aceitando, ou porque soubesse de algo mais que eu não sabia, Edward abriu um sorriso de tirar o fôlego. ― Mas espero que você saiba as falas de cabeça.

Ele revirou os olhos e eu tomei aquilo como um sim.

Levando em consideração que eu nasci e cresci em uma sociedade um tanto antiga, a linguagem da peça não era algo tão inusitado para mim. Edward, apesar de, com certeza, não ser tão velho quanto eu, também não parecia ter problemas.

Quando a hora finalmente passou, o teste começou e, a medida que os nomes eram chamados, as duplas subiam ao palco. Vi, uma a uma, as pessoas se enrolarem, lendo papeis quando achavam que ninguém estava vendo. Muitos haviam optado, assim como eu e Edward, por encenar partes da própria peça, mas eles, ao contrário, estavam tendo dificuldades com as falas.

Por fim, depois de uma representação esdrúxula de Jessica e Mike, eu e Edward fomos chamados. Subimos ao palco e eu quase pude sentir todos os corpos ali se retesarem, como se ansiassem por aquele momento.

Nos posicionamos no palco e eu, por alguns instantes, tentei esquecer os outros e me concentrar apenas em mim e em Edward. Era tão fácil fazer isso.

― "Se minha mão profana o relicário, em remissão aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência" ― Edward proclamou, a primeira fala de Romeu.

― "Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos paga o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente." ― falei, a primeira fala de Julieta.

― "Os santos e os devotos não têm boca?" ― Edward-Romeu perguntou.

― "Sim, peregrino, só para orações" ― eu-Julieta respondi.

― "Deixai, então, ó santa, que esta boca mostre o caminho certo aos corações".

Edward falava tão sério, tão centrado no personagem, tão natural, que era quase como se ele mesmo fosse o Romeu real. Nossos olhos estavam totalmente um no outro.

Ele se aproximou de mim.

― "Sem se mexer, o santo exalça³ o voto" ― pronunciei a resposta de Julieta.

Edward se aproximou ainda mais. Seus olhos, escuros, estavam totalmente me hipnotizando. Ele pegou em minha mão e havia apenas a próxima fala de Romeu em seu pensamento.

― "Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados"

E ele, me tomando gentilmente em seus braços, como Romeu teria feito, colou seus lábios aos meus. O beijo, eu percebi, durou mais do que seria necessário.

Percebi a reação disso na platéia apenas quando Edward me soltou e eu abri os olhos, encarando os olhos curiosos. Todos aplaudiam e os professores nos olhavam sorrindo, tomando nota de alguma coisa em suas pranchetas.

Devo ressaltar que, até agora, nenhuma dupla havia sido aplaudida. E era a primeira vez que os professores se sentiam realmente satisfeitos com algo que haviam visto.

Descemos do palco, sorrindo abertamente, voltando aos nossos lugares perto de James e Angela.

― Uau, Bella, o que foi aquilo? ― Angela admirou-se, parecendo realmente feliz. ― Você é a Julieta perfeita. E vocês dois foram perfeitos juntos.

― Mais uma vez, eu concordo com ela ― Edward retrucou, sentando ao meu lado direito.

Meu mau humor com essa peça, afinal, havia passado. Eu queria ser modesta, mas os casais que vieram antes não provocaram outra reação na platéia que não fosse sono. E os que vieram depois até que foram bons, mas arrancaram muito menos aplausos que eu e Edward.

Depois que todas as duplas se apresentaram, os professores pediram apenas que esperássemos meia hora e teríamos os nomes do casal principal. Os outros papéis seriam escolhidos no dia seguinte.

Edward sorria tanto que eu não tive como não saber a resposta do teste antes mesmo que ela fosse anunciada. Sei que poderia parecer idiota agora, mas eu estava tão feliz quanto ele. Mesmo assim, esperei que os nomes fossem anunciados para que pudesse comemorar algo.

Todos conversavam na platéia quando o professor de Inglês subiu no palco e, com um microfone, começou a falar.

― Queremos, primeiramente, agradecer a todos por estarem aqui e terem se inscrito. É bom ver quantos alunos se interessam por teatro. Pena que não tenhamos papel de Romeu e Julieta para todos, pois todos se saíram muito bem no teste. ― Achei que ele estava falando aquilo apenas para ser cordial e não ferir os sentimentos de ninguém ali. ― Mas, após uma escolha bem difícil, finalmente temos o nosso casal escolhido.

Ele ficou algum tempo em silêncio, remexendo em papeis na prancheta, fazendo com que algumas pessoas da platéia começassem a gritar "Fala logo!" ou "Anda logo com isso!". Ele sorriu e eu percebi que aquele silêncio era apenas para criar expectativa.

― Os escolhidos são: ― Por incrível que pareça, eu estava nervosa. ― para o papel de Romeu temos Edward Cullen. ― Vários aplausos e nenhuma surpresa do rosto de Edward. ― E, para o papel de Julieta... ― Senti algumas meninas prenderem a respiração na platéia. Eu mesma percebi que estava prendendo a minha. ― Isabella Swan.

É. Eu consegui.

Olhei para Edward sentado ao meu lado e ele piscou para mim, sorrindo.

― Conseguimos ― ele comemorou.

― É, conseguimos ― respondi, não conseguindo deixar de sorrir.

― Então, que venham os ensaios! ― ele comemorou, fazendo James rir audivelmente.

É. Que venham os ensaios.

1 – Merda, em russo.

2 – Para quem não sabe (ou não lembra), Benvólio é o amigo do Romeu.

3 – Segundo o dicionário virtual, o mesmo que 'exalta'.

(N/A: Aêeeeeeee, finalmente o capítulo saiu. *enxuga o suor*.

Minhas humildes desculpas por ter demorado tanto, amores. Eu sei que parei numa parte tensa *corando*.

Maaas, espero que depois desse capítulo mega, super, blaster gigante – o maior da fic – tenha valido a pena a espera.

Reviews fazem a força, viram? No capítulo anterior, eu recebi mais reviews do que em todos os outros capítulos. Resultado: me empolguei e fiz um capítulo enorme agora. :D

Tá, isso pareceu chantagem, mas não, não é. É verdade, babys.

Pretendo escrever o capítulo seguinte o mais rápido possível. Sério mesmo. Daqui a pouco voltam as aulas e tudo ficará mais difícil. Mimimi.

Beijos, amores. o/)