02 de junho de 2016 – A Dita Cena

(Quinn)

Rachel não disse nada, mas de acordo com calendário de gravações de Slings and Arrows que eu vi na tela do computador dela, a tal cena seria produzida no decorrer da semana. Ou hoje. A produção da série era uma das mais organizadas nesse sentido. Só não conseguiam gravar por motivo de doença de algum ator, ou por algum problema climático em caso de uma tomada externa, ou por um atraso extraordinário. Não é que o calendário deles tivesse precisão britânica, mas sim, eles eram eficientes.

Não é que espionasse as coisas da minha namorada. Quando Rachel fez a visita surpresa a Nova York com Mike a tiracolo, eu tive a oportunidade de dar uma espiada no arquivo que ela deixou aberto. Mas não antes de levar um esporro de proporções homéricas porque ela se sentiu ofendida por eu ter a ajudado com um problema dando uma solução simples. Eu segui uma linha de raciocínio que considero coerente. Mesmo odiando a idéia do beard, ela, Santana, deus e o mundo já diziam o que deveria ser feito para a carreira. Estava conformada com a idéia de que para Rachel ser bem-sucedida, eu teria de permanecer nas sombras.

Então veio o dia da tal nota com a foto publicada em alguns sites tirada numa saída do restaurante de comida japonesa junto a Rom e a namorada, comigo saindo abraçada a minha namorada. Ninguém disse que Rachel era lésbica por causa disso, mas sim, colocaram alguma malícia. De fato, nossa postura gritava: casal. Rachel surtou, Josh Ripley surtou, Nina surtou, a equipe inteira surtou. Sinceramente? Eu quase me permiti ficar no canto escuro da sala como uma vilã pastiche rindo escandalosamente da desgraça dos mocinhos. Seria uma observação interessante se a mulher que eu amo não estivesse tão angustiada. Tudo que pude fazer foi o de sempre: tentar dar o suporte que podia, uma vez que não tinha capacidade de resolver a situação. Ainda coloquei nas redes sociais mensagens como "maravilhoso encontro com minha melhor amiga e amigos", a pedido de Nina, mas a verdade é que não havia muito que consertar.

De acordo com o plano estratégico de comunicação e imagem de Rachel, era seguro que eu fosse estabelecida e reconhecida publicamente como a amiga. Algo que já acontecia, tal como Santana era reconhecida como a irmã pelos fãs mais fervorosos. Mas faltava uma presença masculina amorosa real. O tal beard. Se isso era mesmo essencial, se Rachel não tinha coragem de procurar por um e se a equipe dela estava disposta a colocá-la sob um contrato, então pensei em agir. Arrumei um beard que fosse um dos nossos melhores amigos (o meu melhor amigo), que eu sabia que não se aproveitaria dela, que estivesse por perto, e que faria esse favor sem necessidades de contratos: Mike.

Eu contaria para Rachel sobre a minha solução caso ela evitasse discutir o assunto comigo nas vezes em que a gente se falava por telefone ou via computador. Se ela ficou com raiva por ter sido pega de surpresa, a culpa é toda dela.

Mas não é o que ela fez parecer. Por uma distorção dos fatos, Rachel se vitimizou, brigou comigo e me fez jurar nunca mais me meter em nenhum assunto dela. Isso é algo que me confunde porque o nosso relacionamento é assunto dela, correto? Então eu não tenho direito de opinar ou de decisão mesmo sendo a outra parte interessada? Porque, ela que me desculpe, só que era algo que eu não poderia atender. Não dessa forma, não quando os meus interesses estavam em jogo. No caso, o meu relacionamento, o meu orgulho. Já não é fácil ver quem você ama grudado em alguém profissionalmente na frente das câmeras ou num palco. Pior ainda é ter isso estendido numa parte da vida que deveria ser privada.

Tive minhas razões e elas são fortes. Apesar de Rachel ter ficado ofendida, faria de novo. Com Mike eu lidaria depois. Duro seria sofrer a distância por causa de Rom. Em algum momento desta semana, provavelmente hoje, o idiota do Rom iria esfregar aquele pinto nojento dele na minha namorada. E eu aqui em Nova York.

Rachel não teria mais a janela da semana passada até o final de junho (e eu sinceramente não sabia como ela ia fazer para ir à minha colação de grau). Estaria ocupadíssima com a produção de um episódio mezzo-musical-alternativo, descrição da minha própria namorada, centrado na relação do personagem dela de Rom e de Luiz. Acho que o alternativo era bondade de Rachel, porque "Slings And Arrows" tinha uma narrativa diferente. Por isso que toda a temporada era escrita antes do começo das filmagens, porque o trabalho de pré-produção dela era grande. Era a mesma razão dos atores receberem os seis primeiros episódios um mês antes das gravações. Rachel soube na primeira semana como a temporada gostava disso porque podia trabalhar no tom certo da personagem. Os outros atores do elenco também elogiavam a postura da equipe de produção.

Havia um bom barulho na imprensa a respeito da especulação para a segunda temporada. O material publicitário que eles iriam soltar a partir de agosto era bom. O personagem de Rachel ganhou muito mais espaço a ponto de ser seguro afirmar que ela era a segunda mais importante entre o elenco feminino. Luis Segal também recebeu essa "promoção!". Sei que o elenco está animado, unido. Rachel está feliz com o ambiente no estúdio. É tanta fraternidade que me assusta. Noutro dia Rachel contou que ela, Rom, Luis e Amanda passaram o dia juntos assistindo a um filme na casa de Rom em L.A. Tenho certeza que aquele idiota ficou fazendo piadinhas de duplo sentido. Talvez tenha até discutido a cena. Talvez ele tenha dito que ia fazer o possível para o pau dele não ficar tão duro!

Eu confio em Rachel. Sei que ela é fiel e leal. Ou quase isso, a não ser que ela esteja dividida e confusa com os sentimentos dela... o que não é o caso e eu preciso não pensar nisso. Eu sou a pessoa que tem a mancha da infidelidade no nosso relacionamento. Tudo bem, como atenuante, digo que estava fora do meu juízo perfeito. Repito esse mantra para mim mesmo todos os dias. Mas como era difícil. O que gostaria mesmo era que Rachel estivesse aqui, mesmo sabendo que ela estava com raiva de mim ou das minhas decisões. Acho que se ela estivesse gravando a série em Nova York, meu coração ainda estaria confuso, porém mais controlado. Rachel era o meu prozac.

Depois de uma corrida pelo parque na orla do Hudson, voltei para o meu apartamento e encontrei Santana tomando café da manhã com Santiago. Juro que aquela era uma das cenas mais surreais que poderia imaginar porque um não ia com a cara do outro. Depois, apesar de Rachel e Santana morarem mais próximas, nenhuma delas foi até a minha casa para tomar café (a não ser Rachel das raras vezes em que dormiu aqui). Por que elas sairiam de uma região nobre para ir à periferia?

"Oi Fabray!" – Santana disse com certa dissimulação.

"O que você está fazendo aqui, Satan?" – a adrenalina ainda corria pelo meu corpo.

"Vim tomar café antes de ir para a faculdade."

"Muita gentileza sua fazer um desvio de rota de meia hora só para tomar café comigo e Santiago."

"Estou de carro" – ela disse ainda tentando soar natural – "Depois desses dias todos tendo Johnny e Rachel em casa, acordei me sentindo deprimida por estar sozinha naquele apartamento gigante. Pensei em vir aqui."

"Na sua casa não tem comida?" – continuei com o tom de voz desconfiado. Santiago tinha postura recolhida. Ele não era um bom mentiroso e parecia que os dois conspiravam antes de eu chegar.

"Agora você está me ofendendo" – ela falou cautelosa – "Nunca uma visita minha foi recebida com tanta desconfiança. É uma ofensa."

Sem dizer uma palavra, fui até o banheiro e lavei o rosto para me refazer melhor do susto. Logo num dia em que eu desejava ardentemente pela Berry-Lopez ao meu lado para acalmar os meus temores, a providência divina me manda a errada. Enxuguei o rosto e respirei fundo. Voltei a cozinha e encontrei minha cunhada terminando de comer ovos mexidos além de leite com café.

"Fiz café para nós três" – Santiago estava com a cara de culpado característico dele estampado no rosto. Com o quê eu ainda não sabia ainda.

"Por que não me avisou?" – encarei Santana.

"Eu avisei, mandei uma mensagem de texto para o seu celular."

Reparei que não tinha levado o meu celular para a minha corrida. Mas Santana não mentiria em algo tão banal. Se ela disse que mandou mensagem de texto, é porque foi isso mesmo e eu nem precisaria pegar o meu celular para confirmar.

"Você não pode tomar café com leite e comer fritura" – me servi com o café e tomei uma golada. Estava bom – "Santiago, você andou estudando aquele livro de culinária básica?"

"Tão bom assim?" – ele abriu um sorriso farto.

"O que uma namorada extra-carinhosa não faz com um homem..." – Santana soltou uma gargalhada e Tiago ficou vermelho – "Kayla é uma operadora de milagres do comportamento masculino."

"Obrigado pela parte que me toca."

"Ainda assim" – apontei para Santana – "Não deveria estar comendo esse tipo de café da manhã, San."

"Isso só vale quando estou em crise. Meu estômago está bem, muito obrigada!" – ela tentou dar uma de ofendida. Eu a conhecia bem o suficiente para saber que por trás da postura intransigente, Santana gostava desses pequenos cuidados. Da minha parte, acho que ajudar a controlar a alimentação dela tornou-se algo automático.

Peguei algumas coisas da geladeira para complementar minha refeição, já que eu saia de estômago praticamente vazio para correr. Uma bandejinha de presunto, pão de forma e a gelatina que acabei me habituando a comer por ser barata e fazer bem. Alguma coisa saudável os tíquetes de refeição meus e de Tiago tinha de poder pagar.

"Não quero gelatina" – Santana me olhou engraçado.

"Cala a boca e come! Isso te faz bem" – ela me encarou e pude enxergar alguma insolência. No final, pegou uma colher de sobremesa e devorou a porção. Numa coisa Rachel tinha razão a respeito da própria irmã: Santana era um geniozinho com um ótimo senso fashion e um temperamento terrível. Fato. Mas como tal, era terrível para cuidar da própria saúde. Era o tipo da pessoa que sempre precisaria de uma babá – "A cena..." – especulei.

"Que cena?"

"Vai ser gravada hoje, não é mesmo? Rachel sabia que eu ficaria naturalmente ansiosa nesta semana e por isso te mandou para me espionar."

"Eu só precisava verificar se você não tinha mastigado a própria língua ou colocado fogo na casa. Eu, particularmente, meio que esperava que você estivesse babando pela casa depois de ter esfaqueado Santiago. Seria divertido te mandar para o hospício."

"Bitch!" – resmunguei – "Diga a sua irmã que estou bem. Que ela pode gravar a cena dela sem preocupações" – disse entre os dentes.

"Bom, acho que deveria dizer você mesma para a sua namorada. Mas espere... vocês tiveram a indecência de brigar de novo, não é? Enfim, Rachel me ligou ontem e me pediu o favor. Disse que o sexto-sentido dela estava apitando. Eu deveria almoçar, na verdade, mas vou estar presa na Weiz e tenho coisas a decidir para a Rock'n'Pano, então... jantar?"

"Vai pro inferno, Santana Berry-Lopez."

"Jantar então. Eu passo no seu trabalho, a gente sai para beber com alguns amigos. Santiago já disse que vai e eu vou ligar para Johnny. É um bom plano, certo?"

"Qual? Me deixar bêbada para esquecer?"

"Distrair, Fabray. A palavra certa é distrair. E depois você vai ficar bêbada, mas terá a assistência minha e de Johnny."

"Presumo que essa parte do plano não foi de Rachel."

"Não mesmo. As minhas adaptações são bem melhores. Depois, no dia seguinte, você vai poder conversar com sua namorada com uma ressaca monstro e vai estar mansinha, mansinha."

"Você é um monstro."

"Eu sou um gênio!"

"Mas eu concordo com a parte da bebida" – Cristo que me perdoe, mas eu estava precisando de um alento hoje. A idéia de Santana era errada em todos os sentidos. Eu corria o risco de acabar com uma tatuagem indesejada no final da noite ou num clube de strippers, mas eu precisava dessa distração – "Hoje Santiago e eu vamos estar em locação, mas vamos voltar para a produtora no fim da tarde."

"Que tal sete?"

"Passe lá pelas oito."

"Combinado" – Santana pegou as coisas dela, a mochila, e os óculos escuros – "Ah, Quinn... relaxa, ok? Você sabe que Rachel não faria nada que fosse contra os princípios dela. É só uma cena estúpida."

Acenei para Santana e ela foi embora. Era muito fácil falar.

Joguei uma água no corpo e me arrumei para trabalhar. Nós iríamos gravar alguns takes da propaganda da Victoria's Secret em Long Beach. A gente faria alguns ensaios no final da manhã e gravaria depois do almoço. Sabia que estaria de volta a produtora no início da noite, daí a minha segurança em saber que poderia sair depois das oito horas. Meia hora depois, Santiago e eu estávamos pegando o ônibus para ir ao escritório só para pegar a van e descer para Long Beach em seguida.

Eu atuaria como câmera e Santiago estava na assistência de arte. Meu amigo foi recém contratado pela Bad Things. Nós dois teríamos de passar o verão no escritório e não havia como argumentar contra. No meu caso, eu poderia tirar 15 dias a partir de setembro, depois de seis meses de casa. Mas aí estaria na rotina dos estúdios de New Rochelle gravando a série.

"Lindo dia, não?" – ele disse casualmente quando começou a dirigir em direção as locações de filmagens.

"Lindo dia para?" – podia imaginar o que se passava numa cabeça safada como a de Santiago.

"Ver um monte de modelos famosas em calcinha e sutiã. O que mais?"

"Você tem namorada. Faça o favor de se comportar."

"Fabray, eu sou um cara de 22 anos que tem uma namorada muito bacana, correto, mas não estou morto... e nem você apesar de você se louca pela Rachel. Isso não te impede de olhar para aquelas belezas e querer cuidar muito bem delas" – às vezes eu odiava ser tratada como um dos caras. Sou gay, mas ainda sou uma garota que gosta de coisas de garota... apesar de alguns engasgos aqui e ali.

"É claro que você cuidaria muito bem de uma se tivesse oportunidade" – disse irônica.

"Você não, Fabray?"

"Eu sou fiel a Rachel."

"Fidelidade não é uma condição física, necessariamente. Eu posso ter um lance com uma garota qualquer e isso não significar nada."

"Mas vai significar para Kayla. Se ela souber, vai ficar muito ferida. Ou você nunca parou para pensar nisso?"

"Ela não precisa saber de algo que nada significa, Fabray."

"Kayla sabe que você vai ver modelos da Victoria's Secret hoje?"

"Não. Rachel sabe?"

"Não... Só acho que você deve ser o mais verdadeiro possível numa relação..."

"Eu concordo. O mais verdadeiro possível. Não quer dizer que eu deva jogar para cima dela coisas que não são nada demais, mas que possam fazê-la sofrer por antecipação. Isso é bobagem. Conto depois o que vale a pena contar. Mas onde você quer levar essa discussão mesmo, Fabray?"

"A nenhum lugar, Tiago."

Eu achava o pensamento de Santiago em relação a traição primitivo, grosseiro e troglodita. Mas ele tinha um ponto sobre em não se ter de contar tudo com o propósito de não trazer stress desnecessário a uma relação. Isso pode funcionar no meu caso, com toda certeza. Por outro lado, existe a cobrança de que gosto de saber tudo que se passa na vida de Rachel. Gosto que ela me conte tudo, tanto que fico chateada quando fico sabendo de notícias importante com atraso. Definitivamente, não conseguia saber o que era pior.

"Você vai mesmo sair para beber comigo e Santana?", perguntei

"Definitivamente!"

Quando chegamos a Long Beach, já havia bastante movimentação da equipe. O pessoal do grip estava terminando de montar os equipamentos e o nosso diretor de fotografia logo reuniu a equipe para passar as instruções e detalhes técnicos. Dei uma lida no roteiro técnico e estudei rapidamente o storyboard. Marc, o meu assistente de câmera, começou a trabalhar depois de eu estalar os dedos algumas vezes. Ele era um estagiário um pouco displicente, mas era sobrinho de Barbra e não seria eu a dar esporro no garoto, embora ele merecesse. O que fazia era relatar tudo ao meu superior e eles que se virassem. Os trailers estavam ali. As tendas estavam armadas e o tempo estava perfeito para gravarmos a partir das três da tarde. As modelos só chegariam depois da hora do almoço, mas a gente tinha algumas tomadas a fazer. A equipe de produção trouxe para nós marmitas e foi mais ou menos nesse período que as modelos chegaram e foram direto para o trailer fazer cabelo e maquiagem. Próximo do horário ideal, com a estrutura toda preparada, o diretor gritou ação.

O bom do meu trabalho é que eu não precisava lidar diretamente com atores, apesar de mirar meu equipamento neles. Só tinha de manter a câmera na calibragem correta e fazer os planos e movimentos determinados. Era mais complexo do que parecia. O bom de trabalhar com modelos, muito mais do que com atores ditos profissionais, era que elas estavam mais habituadas a fotógrafos do que a diretores. Geralmente eram garotas sem muita frescura, por mais incrível que possa parecer. Se tivesse de fazer uma propaganda em roupa íntima coberta de meleca roxa, elas topariam em nome da arte e de um bom cachê. Acredite, todas elas estavam ganhando um bom bocado. Um salário que eu nem sonhava em receber.

"Você é tão concentrada no trabalho" – minha atenção voltou-se para uma das modelos que estava sentada debaixo do toldo enquanto os diretores conferiam as imagens captadas no primeiro e breve intervalo.

"Não só eu" – olhei para a garota – "Taís, certo?" – acho que era a modelo brasileira do grupo. Pelo menos o sotaque era forte.

"Taís Silva" – ela estendeu a mão para me cumprimentar.

"Quinn Fabray" – retribuí ao gesto.

"A gente bem que poderia filmar numa praia mais bonita. Conheço várias bem melhores."

"Vão ser inseridos mais elementos de paisagem misturados às imagens gravadas aqui. E ainda tem o restante dos efeitos gráficos. Poderíamos fazer o Rio de Janeiro aqui se quiséssemos. Só que ficaria um pouco artificial do que filmar na própria locação."

"Por isso que a gente fez tomada em tela verde?" – ergui uma sobrancelha e ela sorriu. Taís era uma morena muito bonita e sabia o que era tela verde. Uma surpresa em vista a imagem que tenho das modelos – "Nessa vida a gente acaba aprendendo um pouco de tudo."

"É, vamos usar as tomadas reais e inserir outras paisagens na tela verde na hora da edição. E ainda tem as gravações de estúdio amanhã, que vai ter mais tela verde do que aqui."

"Isso é feito aqui em Nova York? Digo, a edição?"

"Ah não. A pós-produção é feita toda em Vancouver. A gente só finaliza em Nova York os trabalhos mais simples."

"Por que tão longe?"

"Porque é onde fica o centro de desenvolvimento de tecnologia e artes gráficas digitais para cinema que é conveniado com a Bad Things. Existem centros em Nova York, na Califórnia e em outras grandes cidades, mas o de lá é mais barato e melhor. O estúdio de desenvolvimento da Pixar é vizinho."

"E você vai para o Canadá?" – comecei a ter a impressão de que ela estava querendo flertar comigo, mas por hora, enquanto tudo se encontrava naquele patamar tranqüilo de camaradagem, deixei correr.

"Não é a minha área."

"Oh! Sorte você não precisar viajar para trabalhar e ficar longe de casa por tanto tempo, como eu. Até que gosto de morar em Nova York, mas a minha casa de verdade é em Curitiba, no Brasil. Queria estar lá. Eu tinha um namorado lá. Mas foi melhor terminar por causa da minha carreira."

"É... sorte..." – desconversei. Queria fazer o possível para não pensar em Rachel porque isso significava naquele momento imaginar também ela se esfregando no corpo de Rom. Sentia náuseas só de pensar que aquele pinto poderia, de alguma forma, acabar dentro da vagina de Rachel. Isso me fazia ter vontade de gritar em agonia. Fechei os olhos e sacudi a cabeça para espantar esses pensamentos.

Taís não estava paquerando afinal: só queria uma conversa amigável. Mas a proximidade dela fez Santiago olhar em minha direção e fazer aquele gesto cretino de aprovação. Se a gente estivesse num canto mais reservado, era provável que me diria algo como: parabéns Fabray, coma bem. Fechei a cara para Santiago, mas ele não estava nem aí.

O dia passou tranqüilo. Fizemos mais uma etapa do nosso trabalho. Às vezes prestava atenção nas conversas entre modelos. Falavam muito de fotógrafos, em especial daqueles que dormiam com modelos a rodo. Os mais famosos eram mestres nisso. Parecia até um clichê obrigatório. Não eram raras as relações homossexuais. Por coincidência ou não, depois da breve conversa com Taís, as outras modelos também vieram falar comigo. Acho que pensaram que eu era inofensiva. Pelo menos, enquanto estava trabalhando, minha mente ficou longe da Califórnia.

No final do dia, quando o pessoal estava desarmando o "circo" para o primeiro dia de gravações, meu celular vibra.

"Como está seu dia?" – Rachel

"Acabei de filmar com as modelos da Victoria's Secret. Amanhã tem mais." – eu

Ok, isso foi mesquinho. Mas eu não estava com um espírito leve.

"Que bom que vc tá em boa companhia!" – Rachel

Eu podia ver o rosto dela se contorcendo. Está vendo como é bom sentir ciúmes, Rachel Berry-Lopez?

"Melhor impossível. Todas de calcinha e sutiã... de renda! Uma delas até me paquerou" – eu

Provoquei. Provoquei bonito, tanto que a resposta não veio. Então mandei uma segunda mensagem consecutiva.

"E como está o pau do Rom?" – eu

"Ereto, como o previsto! Rom é bem dotado." – Rachel

Quem começou a bufar fui eu.

"Fique sossegada, Quinn. Ele não entrou na minha vagina ou em outro orifício do meu corpo. O seu pesadelo acabou!" – Rachel

"Se bem que ele não conseguiu evitar o meu clitóris!" – Rachel

"EU TE ODEIO!" – eu

Sabe no que eu odiava mais esse jogo? É que por mais que me esforçasse, eu perderia. É acabou, mas a imagem ficou na minha mente. Voltamos no carro da empresa com mais três colegas da produção até a Bad Things. Agradeci o fato de ter mais gente dentro do carro, pessoas não tão próximas, isso fez com que a conversa fosse rara. Chegamos à produtora era próximo das oito horas da noite. Meia hora depois o meu celular toca.

"Estou aqui embaixo" – Satan

Santiago e eu descemos. Santana estava sozinha na portaria e eu vi que ela ficou preocupada quando viu que estava com cara de poucos amigos.

"Johnny vai nos encontrar no pé-sujo" – Santana avisou – "Ele vai levar um amigo, se não for problema."

"Quanto mais, melhor, não é?" – respondi seca.

"Bom, eu não vou poder me divertir tanto assim porque estou de motorista, mas vou adorar jogar uma sinuca" – Santana falou indiferente – "Pelo menos, todo pé-sujo que se preze tem uma sinuquinha!"

"Estava planejando um táxi, mas não me oponho em economizar" – Santiago sorriu e depois me puxou discretamente para o lado enquanto Santana tirava o carro da baliza apertada – "Está tudo bem, Quinn?"

"Eu não sei, Tiago. Tudo que eu sei é que eu quero encher a cara... e talvez jogar sinuca."

"Você deveria ter comido a modelo que te deu bola."

Chegamos a um pé-sujo, que não era tão sujo assim. Johnny já estava por lá sentado a uma mesa junto com um colega que lembro vagamente ser um tatuador. E tinha uma mesa de sinuca. A primeira coisa que fiz assim que cheguei ao bar foi olhar os drinques que ali eram servidos. Escolhi logo um whisky. Dose dupla. O bom é que Santana não tinha voltado atrás do plano dela em me deixar beber todas. Eu ia beber até fazer xixi nas calças que teria uma protetora.

Não chegou a tanto. Logo estávamos rindo, falando besteiras na mesa enquanto eu continuava a ingerir bons whiskys recomendados por Johnny, que era o verdadeiro entendido no assunto ali. Inclusive ele me acompanhou em algumas rodadas. Eu e Santiago jogamos uma partida de sinuca contra Johnny e o amigo dele, que tive a impressão de estar descaradamente me paquerando. Depois parou. As coisas começaram a ficar confusas na minha cabeça. Talvez Santana tenha advertido ao pobre moço. Eu não estava interessada nele mesmo. Não sei. Eu não conseguia decidir mais. O pior é que eu não me sentia bêbada. Acho que todo aquele whisky não funcionou.

"Eu não gosto de paus!" – disparei – "Experimentei dois e não gostei nenhuma vez! Um até me engravidou... isso é um absurdo... grávida? Piada de mau gosto. Os pés incham e você sente vontade de ir ao banheiro toda hora. Você fica gorda e com dores nas costas."

"Essa é uma das coisas que te faz ser gay, Fabray" – Santiago bateu nas minhas costas – "Mas digo o seguinte: o único pau que eu gosto é o meu!" – e disparou a rir. Não sei porque, mas achei engraçado.

"Você sabe... vaginas são macias, e quentes, e tem um gosto bom... eu também gosto de peitos... é bom colocar a boca neles e sugar que nem um bebê."

"Mais uma vez estou de pleno acordo, Fabray" – e demos um high Five.

"Sabe de uma coisa, Tiago? Eu deveria procurar uma boceta quentinha para mim agora. Talvez aquela modelo me deixe fazer coisas nela..."

"Ok, acho que é hora de irmos" – Santana estava muito imperativa. Ela era mandona e eu detestava gente mandona – "Amanhã é dia de trabalho para todo mundo."

"Não... estou bem aqui... o bar é legal... onde você achou esse bar, San? Aquela jukebox toca Kevin Costner. Já viu isso? Kevin Costner. É tão legal... eu adoro o Kevin Costner."

"É Quinn" – Johnny estava rindo – "Você tocou mesmo Kevin Costner duas vezes."

"Porque é bom. Música country é subestimada. Principalmente em Nova York."

"Vamos Quinn?" – Santana se levantou e tentou me puxar da mesa. Mas eu não queria ir. Estava me sentindo bem. Santana era uma chata falsa moralista que me fazia beber e quando só estava começando queria que eu parasse?

"Não, aqui está divertido. E a gente nem jogou dardos ainda."

Santana disparou a rir. Eu não sei por que ela estava rindo, mas aparentemente a piada que eu contei a agradou. Eu gostava de ouvir Santana rir. Lembrava a risada de Rachel... aquela para fora, alta. Devia ser coisas de irmãs. Queria saber em que mais elas eram iguais. Johnny me puxou para cima e a gente saiu do bar. Eu não queria, mas não tive escolha. Eles me puxaram. Então entrei num carro. Eu não sabia que carro era, mas foi bom porque fiquei olhando as luzes da cidade. Elas estouravam, sabe? Era engraçado. Talvez fosse porque o vidro estava molhado. Não me lembrava quando começou a chover. Também não lembro como chegamos ao prédio de Rachel e Santana tão rápido. Não me lembro de ter pedido para dormir lá.

Santana me levou até o quarto de Rachel, que deveria ser meu também. Se ela tivesse se casado comigo, aquele seria o meu quarto, e aquele o meu maldito apartamento. Santana estava quente. Era tão confortável. Santana era sempre assim: quente e confortável, como Rachel. Devia ser uma coisa das Berry-Lopez. Brittany beijou Rachel uma vez e disse que as duas eram parecidas nisso. Isso sempre me deixou curiosa. Será que Santana fazia aquele negócio com a língua que eu curtia nos beijos de Rachel? Então a puxei pelo pescoço e a beijei. Os lábios de Santana eram quentes e macios. Nisso eram parecidos com os de Rachel. Tão bom... mas não pude sentir muito mais. Santana me empurrou. A última coisa que senti foi alguma colidindo contra o meu rosto.

...

Acordei sentindo um mal-estar terrível e enjôo. Saí correndo em direção ao banheiro. Vomitei. Mas não era o banheiro. Era um closet. O closet da minha namorada e tinha certeza que ela iria me matar. Outra onda de mal-estar passou pelo meu corpo e eu tive energia para sair correndo em direção a outra porta. Dessa vez era o banheiro mesmo, mas não deu tempo de chegar ao sanitário. Aquilo era patético, eu me sentia a pior o seres humanos e fiquei ali sentada ao lado do meu vômito chorando feito uma idiota. Ouvi passos. Queria tanto que fossem os de Rachel. Não eram. Santana apareceu vestindo um pijama velho. Ela estava com um copo em mãos e fez cara de nojo quando me viu. Encheu o copo na pia e me ofereceu água.

"Isso é repugnante!"

"Eu vou limpar. Prometo."

"Como está se sentindo?" – ela perguntou com a voz branda.

"Horrível!" – eu tinha gosto de fel na boca.

"Isso é bom!" – ela passou a mão no meu rosto como se estivesse me analisando. Era irritante – "Talvez você precise colocar um bife neste olho."

"Você me bateu!" – minhas memórias estavam turvas, mas me lembrei do soco na cara. Ela me bateu porque eu a beijei. Não podia ficar brava com Santana por causa disso. De certa forma, de um jeito bizarro, estava grata pelo soco que me nocauteou.

"Sim. Foi um bom cruzado de esquerda. Estou orgulhosa de mim. Fazia tempo que não tinha chances de te dar um tão bem aplicado contra o seu rostinho bonito."

"Que horas são?"

"São quase quatro da manhã."

"Acho que eu preciso de um banho."

"Ok!" – ela ofereceu a mão e me ajudou a levantar – "vou te fazer um café forte e umas torradas. Pode ser?"

Acenei. Santana saiu do banheiro. Tomei uma chuveirada quente e vi que estava demorando quando ouvi Santana batendo na porta perguntando se eu não estava desmaiada e sangrando por ter caído de cabeça. Como ela era sutil. Saí do chuveiro, e vesti um misto de peças minhas e de Santana para dormir que estavam em cima da cama da minha namorada. As de Rachel costumavam ficar curtas e um pouco apertadas de qualquer maneira, a não ser aquelas folgadas.

Saí do quarto, atravessei o foyer e entrei na cozinha. Estava tão acostumada com estilos de cozinhas americanas em apartamentos, emendadas com a sala, que achava estranho ver uma como a da casa da minha mãe em Lima. Encontrei Santana por lá checando o celular enquanto comia uma torrada. O que possivelmente havia para se olhar no celular às quatro horas da madrugada?

"Obrigada!" – sentei-me a mesa e tomei o café. Ela não brincou. Estava mesmo forte. Mas fui bebendo o líquido amargo enquanto mordiscava a torrada morna – "A cena foi gravada..."

"Eu sei!"

"Eu briguei com Rachel pelo celular."

"Isso eu também sei."

"Existe alguma coisa que ela não conta a você?" – aquela relação de cumplicidade delas às vezes era irritante.

"Existem várias coisas que ela não conta e que prefiro nem saber" – ela deu aquele sorriso cínico que lhe era característico – "Se te ajuda, Rachel não fez besteira depois da briga. Você que é especialista nisso."

"Não me faça de vilã, San. Você me induziu a beber desta vez."

"Verdade. Mas você não recusou em momento algum. Bom, isso não importa mais."

"É que doeu, sabe? Doeu saber antes e doeu saber depois. Sei que faz parte da profissão dela, mas ainda assim é complicado..."

"Você não acha que está passando da hora de você procurar ajuda para amenizar esses problemas."

"O papo de psicólogo de novo? Estou sem estômago agora!" – reclamei.

"É sério Quinn. Existe todo um complicador da sua relação com a minha irmã, mas penso que se você conversasse com um psicólogo seria bom para você mesmo, independente disso. Tem um que faz tai chi chuan na Weiz três vezes por semana. Você não imagina o quanto isso é bom para um bando de executivos e funcionários estressados. A sala fica sempre cheia, e depois podemos marcar uma hora para conversarmos se tivermos vontade. Eu fui uma vez durante um período de aperto com a Weiz e a Columbia. Rachel estava fora e Johnny é um adepto da psicologia de botequim. Não adianta. Foi bom falar uma vez com esse cara, sabe? Acho que você deveria experimentar."

"E um psicólogo vai mesmo ajudar?" – disse descrente.

"Se não ajudar, ao menos você sabe que procurou um meio. O que não dá é cruzar os braços e achar que o álcool é a solução para as suas frustrações. Você ficou bêbada por causa da cena, bêbada por causa de Beth, bêbada por estar com saudades da minha irmã... e a lista segue. Você não acha que é melhor procurar ajuda antes que isso se transforme em algo sério?"

"Não sou alcoólatra, San. Eu não bebo todos os dias, eu não sou a minha mãe."

"Mas há de concordar que precisa se fortalecer emocionalmente" – ela disse com apelo na voz.

"Eu... eu vou pensar..." – pelo jeito que Santana falou, acho que deveria começar a dar crédito a ela.

"É tudo que peço" – ela me encarou – "Posso dar milhares de socos na sua cara, Fabray, mas eu me importo contigo. Independente do seu relacionamento com a minha irmã, eu te considero família e só quero o seu bem."

Santana se levantou.

"Aonde vai?"

"Tentar cochilar mais um pouco."

"No seu quarto?"

"Onde mais?"

"Mas e eu?"

"Você tem a cama da minha irmã e o quarto dela que deixou cheirando a vômito."

"Eu não quero ficar sozinha..." – ela me encarou como se tomasse a decisão mais importante do mundo e suspirou.

"Tá... você pode dormir comigo no meu quarto. Mas se tentar qualquer gracinha, Fabray, o seu outro olho vai ficar igualmente roxo."

Tinha perdido o sono, mas o meu corpo estava cansado, como se o incômodo no meu olho tivesse contagiado todo o resto. A única certeza que tinha era de que precisava deitar e dormir um pouco. Santana pegou uma manta extra no pequeno closet do quarto dela e atirou em minha direção. Esperei ela deixar o espaço na cama para mim e só então me deitei. Estava um calor infernal em Nova York, mas Santana dormia com o ar condicionado ligado, daí a necessidade da manta. Suspirei e fechei os olhos. Talvez Santana tivesse razão. Talvez precise procurar mesmo algum terapeuta. Talvez um pouco de ajuda profissional não fizesse mal.