– CAPÍTULO 9 –

IMPRESSÕES

Antes mesmo de abrir os olhos, ela sentiu náuseas. Ginny respirou profundamente, tentando controlar uma nova onda de enjôo, ao mesmo tempo em que mexia lentamente seus braços e pernas para ver se estava inteira. Apenas dor muscular, nada de alarmante ou que significasse que tinha deixado um braço ou uma perna para trás. Piscou duas vezes, mas a claridade ardia em seus olhos. Forçou mais um pouco e distinguiu dois vultos, ambos altos e magros. Fechou os olhos e virou de lado, tentando se apoiar em algo para se levantar, mas ainda estava tonta e desnorteada com a queda. Apoiou-se nos cotovelos, mas se deixou cair mais uma vez.

"Ajudem ele a se levantar", escutou alguém ordenar.

"Obrigado, não precisa", respondeu automaticamente, buscando fôlego. Em seguida, ficou de joelhos e apoiou uma das mãos na árvore.

Então sentiu dois pares de mãos segurarem-na pelos cotovelos, erguendo-a bruscamente. Foi virada e encostada contra a árvore em que antes se apoiava.

"Quem, diabos, você é?", a mesma voz ordenou, dessa vez para ela.

Ginny finalmente encontrou forças para abrir os olhos e fazê-los vencer a claridade. Sua cabeça estava tão fora de sintonia que, no primeiro instante, não tinha percebido que os homens falavam em alemão com ela – e muito menos processou que tinha respondido no mesmo idioma.

"Não faço a mínima idéia, senhor", respondeu, desabando sobre seus próprios joelhos.

"Mas que raios-"

"Miles, calado", Marcus ordenou. Em seguida, fez um gesto para que Draco e Theodore voltassem a erguer o estranho e se aproximou. "Vai falar?" questionou.

"Não sei o que dizer, senhor", continuou dialogando formalmente, lutando para manter as pernas firmes, mas não conseguiu por muito tempo, desabando de novo, mas sendo amparada pelos dois homens, um de cada lado. Ginny tentava pensar rápido, argumentar qualquer coisa que a livrasse de uma morte imediata. Fechou os olhos e baixou a cabeça, fingindo desmaiar.

Marcus levantou o rosto de Ginny e o analisou:

"Se parece com um alemão, fala como um alemão, mas veste trajes do exercido inglês".

"Mais parece uma criança, de tão pequeno que é", Theodore observou. "É fraco para ser alemão".

"Tem rosto de garota", Miles comentou, rindo da própria piada.

Draco encarou o soldado pelo canto dos olhos e percebeu o momento em que os músculos do rosto dele tremeram involuntariamente.

"Certo... Vamos descobrir depois. Antes, precisamos sair daqui. Miles, você vai na frente. Draco e Theodore vocês tomam conta do fracote e eu cubro a retaguarda. Vamos! Vamos!"

A marcha foi muito mais lenta desde então. Miles se adiantava, mas precisava parar para esperar por Draco e Theodore, que encontraram dificuldades para se movimentar carregando Ginny no meio das árvores e raízes.

"Não acha estranha a situação em que o encontramos?", Nott questionou Draco, falando baixo. Ginny se concentrou na conversa, ainda mantendo os olhos fechados.

"Depois falamos sobre isso", o rapaz foi incisivo.

"O que deu em você?", perguntou intrigado, mas Draco permaneceu em silêncio. Apenas fez um gesto com a cabeça, indicando o forasteiro.

O grupo andou por horas, mesmo depois do sol se pôr, procurando se afastar ao máximo do ponto de conflito. Foi Marcus que deu o sinal para que parassem para um descanso, quando se aproximaram de um pequeno córrego onde a água mal alcançava o tornozelo. Certamente ela corria rapidamente para formar um rio, alguns quilômetros à frente.

Amarraram os pés e as mãos de Ginny e a colocaram sentada, encostada em uma árvore. Draco ficou vigiando, enquanto Nott se juntou a Marcus para ajudar com a comida. Miles cuidava de seus ferimentos, um na perna era particularmente feio.

"Draco, reviste o porco. Pode ser que tenha alguma coisa de útil escondida", Marcus ordenou, enquanto abria uma das pesadas mochilas que carregavam nas costas.

O rapaz resmungou qualquer coisa indecifrável e se abaixou perto do homem desacordado. Ele observou que Marcus estava certo, pois o soldado tinha traços arianos, fortes, mas ao mesmo tempo Theodore tinha razão, porque o homem era baixo demais e visivelmente magrelo, mesmo com as roupas largas. Draco parou de divagar e começou a revistar, tirando as botas e vendo que ele carregava um canivete dentro de um das meias. Jogou o artefato de lado, onde pretendia juntar o que encontrasse nos bolsos. Nas pernas encontrou apenas restos de munição, alguns papéis escritos em inglês e que não adiantava nem tentar ler, pois não sabia uma palavra sequer, e um rolo de ataduras, quase no fim.

Apalpou as coxas, mas pulou estrategicamente partes que não desejava pôr as mãos. Revistou os bolsos laterais e estranhou cintura fina. Nos bolsos da frente encontrou alguns antibióticos, mais ataduras e morfina. Draco se perguntou se aquela criatura era um médico. Continuou procurando e notou certo volume no bolso do peito. Colocou as mãos lá, mas não havia nada. Tirou as mãos rapidamente e olhou para os lados, assustado. Devagar, aproximou suas mãos novamente e apalpou novamente a região, para ter certeza.

"Meu Deus!", exclamou, quase sussurrando, e encarou o rosto do homem. Mais uma vez notou um músculo se mover de forma involuntária. E então, de repente, Miles não pareceu tão idiota ao dizer que o soldado se parecia com uma menina.

"Eu sei que está acordado", Draco falou baixo, fingindo estar distraído, mas era notório que estava nervoso. Ginny continuou calada. "E eu sei que você não é um homem".

Ela suspirou e abriu os olhos, lentamente, encarando Draco, que a fitava de muito perto.

"Quem é você?", questionou, mas Ginny não respondeu. "Não vamos matar você, se é o que está pensando. Já teríamos feito se realmente quiséssemos-"

"Quando descobrirem quem eu sou, não durarei muito. Prefiro manter o mistério, sabe?", interrompeu, malcriada.

Draco riu.

"Eles estão mandando até mulheres para a luta? Que desespero..."

"Ninguém sabia que eu sou mulher".

"O que mostra como são burros. Todos os porcos são burros".

"Você não teria percebido se não tivesse me apalpado".

"Eu não apalpei você, estava revistando".

"Certo, precisava pegar nos meus seios três vezes para revistar os bolsos", comentou, revirando os olhos.

"Foram duas", respondeu desesperado. "E só para ter certeza", completou, justificando-se.

Ficaram em um silêncio incômodo. Até que Marcus falou:

"Encontrou alguma coisa, Draco?"

"Nenhuma arma, só um canivete. Mas encontrei medicamentos e morfina. Nunca é demais", informou.

"Ele acordou?"

"Não, senhor".

"Acorde-o e o faça falar. Pode atirar na perna se achar que ele está fingindo. Só não o mate por enquanto".

"Sim,senhor".

"Draco, pare de me chamar de senhor, estamos apenas nós quatro, muito ferrados para a hierarquia valer alguma coisa", respondeu, divertidamente, levantando-se para pegar água no córrego e abastecer os cantis.

"Vai me matar?", Ginny questionou, quando viu que todos os outros estavam distantes.

"Claro que não, você ouviu as ordens", o rapaz se esquivou.

"Eu sou um perigo constante para vocês. Posso denunciar sua presença, pode matá-los enquanto dormem, manter-me viva não é muito inteligente".

"E você também não parece ser, já que é mulher e está na guerra", tratou de parecer ofensivo. "Não deveria estar em casa, cuidando dos filhos e esperando pelo marido morto?"

"Não sou desse tipo, soldado", rebateu, virando a cara.

"Percebe-se", sussurrou em resposta, olhando ao redor. Depois voltou a encarar Ginny: "Mas só alguém realmente burro para querer se meter em algo assim por vontade própria".

Em seguida Draco se levantou e foi ajudar Miles com os curativos. Ginny apoiou a cabeça na árvore e fechou os olhos, voltando a fingir que estava dormindo e apenas tratando de escutar os sons ao seu redor. "Aquele alemão não sabe de nada", era o que ela pensava, "não sabe nada sobre mim ou sobre minhas motivações". Seus pensamentos foram interrompidos por passos e ela ficou ainda mais imóvel, até que ouviu a voz que já conhecia.

"Sou eu, pode abrir os olhos", ele falou, sentando-se ao seu lado.

Mesmo assim, Ginny preferiu continuar de olhos fechados, mas respondeu ao soldado alemão:

"Você não sabe das minhas motivações para estar aqui. Não me critique".

"Eu não critiquei, apenas chamei você de burra e isso é verdade. Não é uma crítica, apenas um fato", sussurrou pelo canto da boca.

Ginny abriu os olhos e o encarou, furiosa.

"Eu vim para ajudar! Vim para lutar pelo meu país, para ajudar a acabar com essa guerra, proteger as pessoas que eu amo", murmurou entre os dentes.

"Ah...", ele suspirou e encarou seus olhos. "E o que você conseguiu com isso?", questionou, mas ele próprio respondeu: "Nada, menina. Apenas se machucar e deixar quem ficou para trás preocupado. Aqui você apenas veio para condenar sua alma ao inferno", informou, cheio de rancor.

"Ah, claro que suas motivações são incríveis e explicam perfeitamente seus motivos", desdenhou.

"Eu não estou aqui por que quero", confessou sem ao menos saber por quê. Ou na verdade sabia e queria apenas provar para aquela mulher que acreditava ser um soldado que mudaria o mundo que ela era uma tola, sem juízo.

"Claro que não está. Quase todos são convocados contra a vontade e isso não é motivo para me chamar de burra ou que não tenho motivos suficientes. Você foi convocado e tem a oportunidade de lutar pelo seu país, pelo seu ideal, por tudo aquilo em que acredita e-"

"Eu estou aqui por minha família. Apenas por isso. Meu pai está desaparecido e eu estou procurando por ele. Minha mãe ficou sozinha, escondida em algum porão escuro e frio, enquanto eu estou aqui. Se eu não viesse iriam matá-la! Se eu não viesse, meu pai não teria chances de sobreviver... Agora ele tem uma chance, porque eu vou achá-lo e não venha me dizer que você tomou uma atitude inteligente, porque não foi". Draco fez uma pausa para respirar, enquanto encarava uma garota que havia perdido toda a cor em sua face: "Você é burra. Muito, muito burra".

Ginny engoliu a resposta malcriada que pretendia dar. Contra o que o alemão tinha falado não havia argumentos. Ela estava ali apenas por orgulho, que fora ferido por acharem que ela não era capaz de ajudar na guerra. Ela entrou naquele inferno porque quis, enquanto ele fora atirado sem escolhas e a vida da sua família dependia desesperadamente do seu sucesso.

"Todos os meus irmãos estão na guerra também", murmurou, tentando ser solidária. "Quero dizer... Menos meu irmão mais velho, que foi gravemente ferido em uma das primeiras batalhas e ficou impossibilitado de servir. Seus irmãos também estão lutando?", questionou.

"Não. Eu sou filho único", bufou, levantando-se. Draco se afastou e a deixou sozinha, no escuro.

E então Ginny encarou as costas do soldado que se afastava e percebeu naquela guerra não havia mocinhos e bandidos. Em cada um dos lados existia uma história de dor e sofrimento, e aquele rapaz era a prova daquilo. Ela sabia que, em sua casa, sua mãe estaria preocupada com cada um dos seus filhos e seria como perder um pedaço de si caso algum dos seus filhos perdesse a vida nos campos... Mas não quis nem pensar em como seria para a mãe daquele rapaz de olhos cinzentos perder o seu único filho que estava na guerra procurando pelo pai.

Ela viera para guerra acreditando que o lado rival era composto por monstros sem alma, mas aquele grupo de soldados não parecia desumano. Estavam apenas lutando para sobreviver. Ela ouvira falar dos campos de concentração e do horror que era o exército composto por eles, mas não pensou na dor das famílias que era destroçadas assim como as do seu próprio país.

Fechou os olhos e murmurou a única coisa que poderia resumir aquilo tudo:

"Scheiße!"


N/A.: Mais um "capitulinhum". AGORA as coisas começam a surgir e finalmente teremos interação DG. Se encontraram \o/ Sejam AMOR comigo e deixem um comentário, por favor, por favor, por favor! Juro que me esforço para escrever mais rápido, até porque quando você sabe que tem gente esperando por você, acaba que a responsabilidade aumenta. Quero ter MUITAS RESPONSABILIDADES! *carinha amorzinho pidona feliz*

Obrigada, Diana Prallon, por ter betado este capítulo.