Capítulo Onze
Estava escuro quando o trem parou e o condutor anunciou que eles tinham chegado na estação do Distrito Quatro.
Gale espreguiçou e levantou. Caminhou pela estação junto com alguns outros passageiros e parou um momento pra olhar ao redor e acordar mais um pouco. Então, ele saiu da estação, virou à esquerda como Finn tinha orientado. A avenida principal estava bem iluminada.
Ele contou o número de quarteirões como o garoto falou. Encontrou o nome da rua: Oak Drive. Ele virou à esquerda novamente e caminhou na rua pouco iluminada. Não deram tanta atenção na iluminação nessa área.
Quase no final da rua, ele viu as luzes indicando a entrada da Vila dos Vitoriosos. Lá a iluminação era bem melhor. Ele contou o número de casas e chegou numa em que a luz da varanda estava ligada, como Finn prometeu.
Enquanto Gale subia os degraus da porta da frente, a porta abriu de repente e ele foi abraçado por um vulto de cabelos castanhos.
"Você veio mesmo!" Finn exclamou.
Ele afagou as costas do menino e disse, "Vim sim. Você explicou muito bem o caminho, Finn."
"Você deve estar cansado. Vem, já preparei o quarto de hóspedes." Ele pegou a mochila de Gale.
"Você ainda não foi dormir, não foi?" Ele perguntou entrando na casa com o menino.
"Não. Eu tentei, mas estava muito ansioso." Eles seguiram até o final do corredor onde dava nos três quartos da casa. "O da esquerda é o quarto da minha mãe." Ele apontou.
Gale podia vê-la deitada no escuro do quarto.
"O da frente é o meu. E o terceiro é o de hóspedes." Ele colocou a mochila de Gale dentro do quarto.
Gale deu uma olhada no quarto da frente e viu o abajur perto da escrivaninha, o quarto todo era pintado de azul celeste. Haviam ondas pintadas em três paredes da metade pra cima no quarto. A quarta parede era pintada com diferentes elementos da vida marinha: várias espécies de peixes nadando em diversas direções, um polvo, algumas estrelas do mar, conchas de todos os tipos, cavalos-marinhos, criaturas que Gale nunca tinha visto antes.
"Peeta pintou o quarto quando eu era bebê." Finn falou quando notou Gale admirando a pintura.
"É muito bonito." Gale falou admirado.
"Meu berço ficava naquele canto."
Ele foi até lá e observou. Havia a pintura de um homem lá, com alguns centímetros de altura. Ele tinha cabelos castanhos, iluminados pelo sol. Segurava um tridente nas mãos. Gale aproximou-se pra ver e inclinou. O homem tinha um sorriso maroto e seus olhos profundamente verdes tinha um ar juvenil.
"É o meu pai." Finn disse, inclinando ao lado dele.
"Foi o que pensei."
"Peeta me contou que ele teve que discutir com minha mãe pra colocar ele aqui. Ela não queria. A gente não tem nenhuma foto dele."
"Nenhuma?"
"Ela levou todas pro sótão. Disse que quando eu ficasse mais velho e saísse de casa podia levar comigo. Mas ela diz que vê muito dele em mim."
Gale levou o braço ao redor dos ombros do menino. "Você parece muito com ele."
"Acho que piora quando ela nota isso. Ela diz que tem dias que fico igual a ele. Mas ela nunca fala o nome dele. É o meu nome também, sabia disso?"
"Eu imaginei."
"É quase como se ela quisesse esquecer. Ela conseguiria se não fosse por mim."
"Não diga isso, Finn. Se não fosse por você…" Gale parou de falar incerto de como continuar.
"Você acha que ela teria morrido?
"Não quero pensar num mundo sem a sua mãe."
"Também não. Só queria que ela ficasse bem mais vezes."
"Eu sei." Impulsivamente, Gale puxou Finn num abraço. "Vá descansar um pouco. Vou checar como sua mãe está e também vou dormir."
O menino o abraçou de volta, apertando forte.
Gale sentiu o garoto soltar um soluço, e de repente Finn tremia quando começou a chorar. Os braços apertaram mais ainda ao redor de Gale.
"Hey, tá tudo bem. Tá tudo bem, garotão." Ele afagou as costas do garoto. "Eu estou aqui e vou fazer meu melhor pra ajudar."
"É como se ela nunca estivesse aqui." Finn sussurrou.
"Ela faz algumas coisas com você também."
"Às vezes." Ele fungou e saiu do abraço. "Ela estava ótma na Capital. Ela nunca esteve tão bem como naqueles dias. Tem dias que ela consegue ficar bem, como quando ela me ensinou a nadar. Mas foi o Dale quem me ensinou a pescar. Ele fez tudo por mim. E mesmo quando ela tem dias bons, ela parece distante. Você entende?"
Ele escovou uma mecha de cabelo do rosto do garoto. "De agora em diante eu vou ajudar no que puder. Tudo bem?"
Ele limpou o nariz e os olhos. "Okay."
"Agora, vai dormir um pouco. A gente conversa mais sobre isso pela manhã." Ele beijou a testa do garoto, e cobriu ele na cama.
Gale foi até o quarto de Annie. Ele ficou ao lado do criado-mudo perto da cama dela. "Annie?" Perguntou baixinho.
Ela não respondeu ou mexeu.
Ele sentou na cama e deslizou um pouco do cabelo que estava no rosto dela.
Ela levou um pequeno susto com o toque dele, então se virou e olhou pra ele na escuridão. "Você veio?"
"Vim sim. Você está doente?"
Ela balançou concordando com a cabeça.
Ele levou a palma da mão na testa dela. "Não está com febre."
Ela simplesmente ficou olhando pra ele.
"Está se sentindo mal?"
Ela balançou a cabeça, e sussurrou, "Mas queria morrer."
"Não fala assim, Annie." Ele franziu a testa. "Não diga isso."
"Você não faz a menor ideia. Faz dez anos que perdi ele. E mesmo antes disso, eu nunca o tive pra mim de verdade. A Capital era dona dele."
"Ele casou com você."
"Só ficamos casados alguns meses."
"Vocês geraram um filho nesses meses."
Lágrimas caíram dos seus olhos e ela virou pro outro lado.
"Você vai levantar da cama amanhã?"
"Não sei."
"Você vai ficar bem?" Gale sentiu o peito apertar, com medo que ela não ficasse. O que ia acontecer com Finn se ela não se recuperasse? O que ia acontecer com ele?
"Eu não sei, Gale." Ela murmurou, apertando o rosto no travesseiro.
Ele levou uma mão nas costas dela. "Estou aqui com você. Vou ficar por aqui alguns dias."
"Okay."
"Finn arrumou o quarto de hóspedes pra mim."
"Eu quem devia ter arrumado. Eu devia fazer mais; eu não consigo. Sou um nada sem ele."
"Annie…"
"É verdade, Gale. Ele foi a única pessoa que segurou minha barra. Finn é apenas uma lembrança que ele se foi." Ela deixou escapar um soluço de choro. "Tá vendo que coisa horrível? Eu odeio meu filho, Gale. Eu sofro por ele existir. Se ele não tivesse nascido eu poderia estar com Finnick agora. Não tenho como esconder. Só estou cuidando dele porque é a coisa certa a fazer."
"Annie, pare com isso. Não fala assim. Finn não tem ninguém, só você. Ele te ama. Ele precisa de você."
"Ele tem você. Fica com ele. Ele gosta de você. Você é muito bom com ele."
"Não diga isso. Além disso, eu moro num Distrito diferente. Ele ama o Quatro. Ele não conhece o Dois. E ele vive bem com você."
"Eu não ligo." Ela sentou na cama, olhando pra ele. "Posso providenciar as coisas. Você pode cuidar dele melhor do que eu. E ele tem quase dez anos, ele já sabe tomar conta de si. Não é como um bebê que tem que ficar olhando o tempo todo—"
Ele a segurou pelos ombros."Ele é seu filho, caramba. É sua carne. Seu sangue. Seu e do Finnick. Eu não tenho direito nenhum sobre ele. Agora, por favor, para de falar desse jeito."
Ela saiu das mãos dele, e virou pro outro lado.
"Annie?"
Ela ficou quieta.
"Vai ficar bem?"
De novo, ela não disse nada.
Ele inclinou e deslizou uma mecha do cabelo dela por trás da orelha.
Ela estava olhando o vazio, sem piscar.
"Annie, eu gosto do seu filho, mas também gosto de você. E acho que vai ser melhor pra ele ficar com você. Se precisar de mim, estarei aqui. Vou ficar por alguns dias. Se precisar conversar, terei o prazer de ouvir."
Ela olhou pra ele um segundo e voltou a olhar pra parede a sua frente.
"Por favor, não faz isso. Não desista."
Ela apertou o rosto no travesseiro, e deixou escapar uma respiração trêmula.
Ele passou a mão nas costas dela suavemente. "Não acho que Finnick gostaria de ver você desse jeito. Ele te amava muito, Annie. Sei que sente falta dele. Mas seu filho, o que você fez com ele, está no outro quarto preocupado com o seu bem-estar. Então, dorme bem esta noite e espero que amanhã esteja melhor. Vou estar no quarto de hóspedes. Fico aqui até a quinta-feira." Ele beijou atrás da cabeça dela e saiu do quarto, voltando pro seu. Gale fechou a porta e acendeu a luz.
Era um quarto simples, pintado em um azul semelhante ao do quarto de Finn. Ele trocou de roupa e deitou na cama. Ele não se incomodou em desligar a luz, mas também não dormiu o resto da noite. Ele pensou nas palavras desesperadas de Annie implorando pra ele cuidar do seu filho.
Gale ficou pensando por quê ficava tão preocupando quando se tratava de Annie? Finn era mais importante. Mas ele pensou no sentimento que crescia por ela. O que ele faria se não pudesse mais ouvir a voz delicada dela pelo telefone? Isso tinha começado a ser a única coisa pela qual valia a pena viver.
