Promessas da Paixão pertence a Anna DePalo


CAPÍTULO ONZE

Lily olhou para sua médica em choque.

Era um ensolarado fim de tarde de quinta-feira e ela fora fazer o que presumira ser um exame ginecológico de rotina. Em vez disso, recebera uma granada no colo.

Era paciente de Minerva McGonagall por quase dez anos. A médica era uma mulher enérgica de pouco mais de 50 anos, casada e com dois filhos adolescentes.

Via a boca da dra. McGonagall se mover, mas não conseguia processar as palavras. Estavam afogadas pelo dobre dos sinos que soavam pela morte de sua fertilidade.

— Fibroma uterino...

— .. .esperar para ver...

— ...cirurgia... embolização... possível miomectomia.

Um exame de rotina levara a médica a observar que seu útero estava um pouco crescido.

Fora removida para outra sala de exames, onde a presença dos tumores dentro de seu útero tinha sido confirmada por um ultrassom abdominal.

— Como pôde acontecer sem que eu soubesse? — perguntou. — Não tive dor nenhuma.

— Nem todas as mulheres têm sintomas — disse com gentileza a dra. McGonagall.

— Você não mencionou histerectomia — forçou-se a dizer.

Sentia-se insegura, trêmula. Se removessem seu útero, desapareceria qualquer chance de engravidar.

— Hoje há opções além da histerectomia — disse a dra. McGonagall. — Podemos tentar diminuir os fibromas com radiologia, ou fazer uma miomectomia que, no seu caso, pode ser nossa melhor aposta. Qualquer miomectomia envolveria a remoção dos miomas pela cirurgia, deixando seu útero intacto.

— Mas — persistiu Lily — isto significa que minhas chances de ficar grávida diminuíram muito, não é?

Quase não tinha coragem de enfrentar a verdade crua. Não conseguiria suportar outro golpe. Já fora ruim o bastante saber que seu suprimento de óvulos estava diminuindo depressa. Dia após dia, na verdade.

— Será mais difícil para você conceber, sim — disse com cuidado a dra. McGonagall.

Mais difícil? Ouviu a palavra ecoar em sua mente. Quanto mais difícil, antes que suas chances se tornassem nulas! O casal médio tinha uma chance de apenas vinte por cento de conceber em qualquer mês.

Tornara-se conhecedora de estatísticas de fertilidade desde que soubera da rapidez com que batia seu relógio biológico. Interessara-se pelas estatísticas e pelos fatos.

De repente, teve vontade de chorar.

Mas ouviu sua voz oca dizer:

— Obrigada por me explicar o diagnóstico. Sua mente se voltou para James e lembrou as palavras dele, que a assombravam em retrospecto. Você quer os meus milhões de espermatozoides.

O casamento deles tinha como base um acordo tácito de conceber uma criança.

Agora que a concepção estava mais difícil do que nunca, onde ficava o casamento?

Com súbita e assustadora clareza, compreendeu que, em algum momento ao longo do processo, o objetivo de ter um filho fora substituído pelo sonho de ter o filho de James.

Estava apaixonada pelo marido.

E a compreensão, ao invés de resultar numa explosão de alegria, como teria acontecido uma hora antes, levou-a a sentir pânico.

— Eu a deixarei para se vestir — disse a dra. McGonagall. — Tenho certeza de que conversaremos mais nos próximos dias e semanas.

Quando a médica deixou a sala, Lily desceu da mesa de exames, tirou o avental que usava e começou a se vestir.

Esperava que suas mãos estivessem tremendo, mas o tumulto era todo dentro de si.

As últimas semanas com James tinham sido as melhores de sua vida. Parecia que finalmente vivia com plenitude.

Suas vidas tinham se fundido sem emendas, com menos esforço do que poderia imaginar. Mas enquanto se tornavam à vontade um com o outro, sua vida sexual permanecera em alta velocidade.

Excitou-se com as lembranças. Fizeram sexo em cada posição imaginável e depois em algumas nas quais nem pensara. Mas James pensara.

Sua mente se voltou para um encontro particularmente excitante que tiveram na semana anterior, depois que ele a descobrira praticando balé em um dos quartos sem mobília.

Mais tarde naquela noite, enquanto observava James dormir, seu rosto relaxado e seu peito se erguendo e baixando num ritmo constante, reconheceu que seus sentimentos por ele começavam a se tornar confusos.

Ele brincara sobre ser um doador de esperma, mas a realidade é que estava dominando seus pensamentos.

Perturbada e inquieta, saiu da cama. Tivera a intenção de ir à cozinha tomar um copo de leite, mas em vez disso viu-se parando do lado de fora da porta da biblioteca de James.

Sem realmente saber o que pretendia fazer, entrou e ligou o computador.

Depois de, sem muito interesse, surfar pela Internet por diversos minutos, abriu uma das gavetas da escrivaninha de James.

Viu imediatamente o DVD que havia encontra dois dias antes, quando procurara um bloco para usar durante uma chamada telefônica de um cliente em potencial. O DVD fora marcado com o nome de Amos e seria impossível não vê-lo.

Desta segunda vez, não hesitou. No meio da noite, inserira o DVD no computador de James e assistira.

E não sentiu absolutamente nada.

Agora, olhava fixamente para a parede branca da sala de exames.

James era seu presente.

Seu amante. Seu marido. O homem que amava.

Era difícil pensar em estar casada com ele amando-o com desespero enquanto ele a via como uma conveniência. Era pior, porém, pensar em manter o casamento enquanto tentava em vão, durante anos, ficar grávida.

Com crescente sentimento de medo, compreendeu que teria de contar a James o diagnóstico da médica e desaparecer da vida dele.

Mesmo que isso lhe custasse o coração.


Quando chegou em casa uma hora depois, James estava lá para recebê-la quando entrou.

— Você chegou mais cedo — observou ela.

Esperara ter mais tempo para preparar o que precisava dizer, mas admitiu que provavelmente isso só prolongaria a agonia.

James deu-lhe um beijo rápido nos lábios.

— Estou contente por você estar de volta. — Seus olhos brilharam. — Tive uma revelação no trabalho.

Fez uma pausa, como se esperasse que ela adivinhasse.

Quando ela apenas olhou para ele sem falar, sorriu.

— A dança do ventre — disse James.

Ela o fitou, uma pergunta nos olhos, e seu sorriso se alargou.

— Tive a ideia de você usar suas habilidades na dança numa direção totalmente nova. Sabendo o que o balé faz por nossa vida sexual, apenas imagine o que a dança do ventre poderá fazer.

Olhou-o com malícia e ele afetou uma expressão de fingida solenidade.

— Puramente no interesse de engravidá-la, é claro — disse.

— É claro — ecoou ela.

Sabia que ele estava brincando, mas a lembrança o objetivo de seu casamento fez seu coração doer. James piscou.

— Venha para a cozinha e lhe preparo uma bebida. Alguma coisa sem álcool, no caso de o bebê já estar a caminho.

Seu coração doeu de novo. Ele deu um passo em direção aos fundos casa.

— Conte-me seu dia. Como foi sua visita à médica?

Ela enrijeceu.

— Uma notícia inesperada, na verdade. Há mais uma dificuldade para eu engravidar.

James se voltou para ela e ficou parado.

— Significando?

Ela respirou fundo.

— Quero dizer, tive um diagnóstico de fibroma uterino. Muitas mulheres têm, mas no meu caso parece que uma cirurgia é uma possibilidade, especialmente se quero manter minha fertilidade.

Viu James franzir as sobrancelhas e mordeu o lábio.

— É impossível dizer com que facilidade serei capaz de engravidar depois de qualquer procedimento cirúrgico — disse ela. — E, como sabemos, minhas chances de engravidar já não eram muito boas.

James soltou a respiração.

— Ah, gatinha, sinto muito.

Ela tentou rir.

— Deveria estar grata porque hoje há outras opções além da histerectomia.

James deu um passo em sua direção, mas ela ergueu a mão para que ele parasse. Se a tocasse, sabia que choraria. Ou pior, imploraria para ficar com ela.

— Não acabei — disse.

— Há mais?

Parecia, pensou Lily, que ele estava se perguntando o que mais seria necessário dizer depois de bater o prego no caixão de sua fertilidade.

— Nós nos casamos por uma razão específica — disse ela. — Naturalmente, agora que a razão desapareceu, não espero que você mantenha nosso acordo.

A expressão preocupada de James desapareceu.

— O que está dizendo? Você mesma falou que não sabe com certeza se será ou não capaz de engravidar.

Ela se forçou a manter a expressão neutra e a voz firme.

— Exatamente. Não sei com certeza, mas sei que as chances são muito ruins. Não há motivos para ficarmos juntos na esperança fútil de que um dia ficarei grávida.

O rosto de James se fechou.

— É isso? Você vai jogar a toalha?

— Nós nos casamos por uma razão específica — repetiu.

— Sim, e agora você está descumprindo nossa acordo.

Ela sentiu a raiva surgir. Estava tratando do fim de seus sonhos de família e casamento, e ele falava sobre ela desistir de um negócio?

— Você quer tanto a transferência de Evans REH? — disse ela, respondendo à altura. — Se é assim, por que não fala com meu pai? Tenho certeza de que pode ser arranjado, mesmo sem mim.

A boca de James se afinou numa linha de raiva.

— Você quer sair, pode sair.

— Ficarei no meu apartamento enquanto acertamos os detalhes — retorquiu.

Ele fez um breve aceno, depois virou-se e caminhou pelo hall. Um momento depois, Lily ouviu uma porta bater. Por sorte, pensou, sentindo-se infeliz, ainda não tinha alugado ou vendido seu apartamento. Agora seria um refúgio bem-vindo enquanto ela tentasse esquecer James.

Se é que algum dia conseguiria esquecê-lo.

Maldição.


James segurou seu conhaque e desejou ter a marca boa de Marcus agora mesmo.

Ouvira Lily deixar a casa uma hora antes, mas ficara quieto na biblioteca.

Não pediria a ela que ficasse.

Mesmo que as últimas semanas tivessem sido as melhores de sua vida. Mesmo que tivesse formado uma ligação com ela mais profunda do que jamais tivera com qualquer outra mulher.

Queria ir embora, podia ir embora.

Ele e seus duzentos milhões de espermatozoides poderiam aguentar isso como homens, pensou com humor mórbido.

Bebeu um pouco mais de conhaque e sentiu um conforto vazio com a passagem quente que a bebida traçou em seu interior.

Deveria ter sabido que seu relacionamento com Lily teria esse tipo de fim.

Tivera uma indicação na semana anterior, quando a surpreendeu vendo a fita de sexo de Amos. Desde então, tentara ignorar o leve tremor de inquietação na orla de sua mente.

Praguejou.

Nada havia acabado entre eles.

Ele a seduziria, se fosse obrigado. Sexo não era tudo que havia no casamento, mas era um bom começo para fazê-la compreender quanto mais havia.

Seria maravilhoso ter filhos com Lily, mas o que realmente queria, não, precisava, era dela.


— Divorciar?

O pai ecoou suas palavras, mas o olhar no rosto de Marcus Evans demonstrava incredulidade total.

Após chegar à mansão de seus pais minutos antes, Lily encontrara-os tomando o café-da-manhã no solário. O pai lia o jornal, ovos e torradas postos diante dele. A mãe tomava chá e olhava a correspondência que descansava ao lado de seu prato.

Ambos pareciam radiantes e alegres, isto é, pensou Lily, até ela soltar a bomba.

Perguntou-se agora como seus pais não tinham percebido que alguma coisa estava errada no minuto em que entrou na sala. Estava exausta, passara duas noites sem dormir.

Depois de sua conversa com James dois dias atrás, tinha pegado algumas coisas pessoais e seguido para Russian Hill, onde podia chorar livremente na privacidade de seu antigo quarto de dormir.

Seu pai agora empurrou a cadeira para trás e se levantou.

— Você não pode se divorciar! Acabou de se casar, pelo amor de Deus! Ou esqueceu?

— Não esqueci nada.

Sarcasmo geralmente era uma boa indicação do quanto seu pai estava agitado, mas seu cansaço era grande demais para morder a isca. O pai franziu as sobrancelhas.

— Está tentando competir com algumas dessas estrelas de Los Angeles pelo casamento mais curto já registrado? Duas horas, trinta e sete segundos? — rosnou. — Se for assim, quero lhe lembrar que prefiro manter respeitável o nome Evans.

— Oh, Marcus — interrompeu sua mãe levantando-se da cadeira. — Não consegue ver que Lily está transtornada o bastante do jeito como estão as coisas?

Transtornada? — ecoou o pai, a voz vibrante — Isto... — ele bateu um dedo no peito — é como estar transtornado.

Lily olhou sua mãe caminhar para ela e no instante seguinte estava envolvida num abraço confortante.

— Sabia que minha felicidade era grande demais para durar — resmungou o pai e depois baixou as sobrancelhas. — Como pode querer se divorciar de James?

Com relutância, Lily deixou os braços da mãe.

— Estou contente por você ter perguntado.

O pai disse, com uma súbita suspeita:

— Ele não enganou você, enganou?

Não.

— Então o quê?

O que podia dizer? Estou apaixonada por James mas não posso continuar casada com ele.

Era complicado demais para explicar, assim ela suspirou e disse, com cansaço:

— Tem mesmo importância?

— Você não pode se divorciar dele — afirmou o pai com dureza. — Eu lhe ofereci uma parte de Evans REH se ele se casasse com você!

Um silêncio chocado se seguiu às palavras de seu pai.

— O quê? — perguntou ela incrédula. — Não acredito!

— Marcus! — exclamou sua mãe, também parecendo assombrada. — Como foi capaz de fazer uma coisa dessas?

O pai olhou as duas com sagacidade.

— Foram algumas das minhas ações, Audrey. Lily sentiu a raiva subir-lhe à cabeça.

— Como é que aceitar parte da propriedade da Evans REH em troca de se casar comigo faz de James menos caçador de herdeiras do que Amos?

O queixo de Marcus enrijeceu.

— James ganhou uma participação na Evans REH. Ele tem recebido um salário nominal como presidente, mas sua aptidão para investir foi o que pôs a Evans REH na invejável posição em que está hoje.

— Por que apenas não lhe ofereceu parte da propriedade na empresa, então? — perguntou. — Por que vincular ao casamento comigo?

— O nome da companhia é Evans REH por uma boa razão — disse o pai com teimosia — e vai continuar nas mãos de um Evans enquanto eu viver.

Ela comprimiu os lábios.

— Isso é menos provável agora do que nunca.

— É claro que é! Você está pensando em se divorciar de James!

Ela se perguntou o que o pai diria se lhe contasse sobre sua visita à médica, mas percebeu que já tinha lhe causado um choque muito grande.

Como pôde? — exigiu saber. — Como pôde subornar James?

Seu olhar desafiou o do pai, então ela se voltou e saiu da mansão.

Mas em vez de ir para casa ou para o trabalho, entrou no carro e dirigiu para a mansão em Pacific Heights.

James estava acostumado a enfrentar grupos opostos em suas negociações, mas ainda teria que lidar com a ira total de uma Evans.


Mais um capítulo pra vocês.

Me desculpem a demora, a faculdade me tomou muito tempo

Respostas aos reviews do capítulo anterior:

Ninha Souma: Não é pelo DVD que ela quer matar o James agora!

Deby: Espero que tenha gostado da reação da Lily em relação ao DVD.

Até o próximo capítulo, que eu espero que não demore.