CAPÍTULO XI
Estava escuro. Rony não tinha idéia das horas, mas isso não o preocupava nem um pouco. Deitados na cama de Hermione, abraçados, sentiam-se aquecidos pela proximidade de seus corpos. Como crianças desleixadas, haviam deixado as roupas caídas no chão da sala. Que gostoso, imaginar que os dois poderiam ficar um dia inteiro no meio daquela desordem, sem horário, podendo cochilar, fazer amor, cochilar outra vez, preparar alguma coisa na cozinha, deixar as roupas esquecidas num canto, fazer amor outra vez... Hum, que sensação de conforto e preguiça...
Ele conhecia tudo sobre ela: as coisas que podiam agradar-lhe, aborrecê-la ou fazê-la rir. Sabia onde Hermione nascera e como crescera. Já ouvira algumas passagens da infância dela, através de conversas com Olívia ou Harry. Sabia que ela quebrara a perna aos nove anos, que trabalhara no jornalzinho do colégio e que, até os sete anos, costumava dormir com um ursinho de pelúcia de uma orelha só.
Coisas que o faziam sorrir, quando imaginava as cenas, embora não estivesse certo de que Hermione aprovaria que lhe houvessem contado.
Por outro lado, ele não lhe contara nada acerca da sua vida, podia lembrar-se da mágoa que lera nos olhos dela, quando se recusara a entrar em detalhes sobre o seu passado. Mesmo assim, sem saber nada a respeito dele, ela o amava e o aceitava.
Hermione se aconchegou mais, olhos abertos, ajustando-se ao corpo dele na escuridão.
— Em que você está pensando?
Rony guardou silêncio um instante e então começou a brincar com uma mecha dos cabelos dela.
— Eu cresci naquele cenário que você viu num dos quadros lá de casa. — Hermione não disse nada. Segurou a mão dele e ficou esperando. — Os velhos não saíam às ruas, durante a noite, as pessoas só andavam em grupos. Muitos becos e ruas com os postes de iluminação quebrados. Policiais fazendo a ronda aos pares, dentro dos carros. Não posso me lembrar de uma só noite em que as sirenes não soassem.
O corpo de Hermione era tão macio, em contato com o dele... No silêncio daquele quarto, Rony se perguntou por que resolvera se abrir com ela. A resposta veio rápida: porque nada daquilo saíra da sua mente, ainda que agora a sua vida fosse outra. Ele amava Hermione e gostaria que ela partilhasse até mesmo os momentos tristes do seu passado.
— Eu trabalhava para um homem que possuía uma banca de jornais. Num verão fomos assaltados seis vezes. Da última vez, ele acabou se enfezando e se envolveu feia com os assaltantes. Ficou dois dias no hospital, mas só voltou a trabalhar dali a duas semanas. Tinha sessenta e quatro anos.
— Ronald... — Pressionou o rosto no ombro dele. — Não precisa me contar, se não quiser.
— Eu quero que você saiba de onde eu vim. — Mas ficou em silêncio por dois longos minutos. — No apartamento onde eu morava, as paredes eram úmidas, o cheiro de mofo, permanente. No inverno, era muito frio, o vento entrava pelas janelas, o chão era gelado. No verão, parecia uma fornalha. Um odor horrível, vindo dos becos imundos, poluía o ambiente. — Fez uma pausa e prosseguiu: — À noite, os meninos andavam com as prostitutas que faziam ponto nas esquinas, sempre de olho nos carros da polícia que rondavam o local. Eu morava com uma tia. Ela cuidou de mim desde que minha mãe morreu e meu pai foi embora. Não precisava ter feito isso, não era obrigação dela. Coitada, sempre tão doente... — Apertou os dedos de Hermione. — Minha tia não sabia o que era o egoísmo. Acho que foi a pessoa mais altruísta que já conheci.
— Ela amava você — Hermione murmurou, agradacendo em silêncio àquela mulher que cuidara de Rony para ela.
— Eu sei. Pena não ter tido oportunidade para tirá-la de lá. Ela morreu pouco antes de nos mudarmos, quando eu já tinha condições de levá-la para um lugar decente.
— Ronald...
— Sempre que eu pensava em mim e você, me perguntava como as coisas poderiam dar certo entre nós, algum dia. Temos berços diferentes. Algumas vezes, inclusive, cheguei a pensar que te desejava só por isso.
Hermione levantou a cabeça e olhou para ele.
— Espertinho — murmurou, numa tentativa para descontraí-lo um pouco.
— Você é tão linda, Hermione... — sussurrou. — Eu nunca me esqueci daquela fotografia que um dia Harry levou para o nosso alojamento na universidade.
Surpresa, Hermione tentou falar, mas desistiu. Rony lhe dissera que ela não acreditaria. Era inacreditável mesmo. Apaixonar-se por uma fotografia. E ela que pensava que essas coisas só acontecessem nas novelas.
— Sempre morri de ciúme do que você pudesse sentir pelo Krum— revelou ele.
— Ronald, por favor...
— Não — interrompeu-a com delicadeza—, eu sei que você não está pensando nele agora.
— Ronald, ouça-me. O que eu sinto por Victor é uma coisa bem diferente daquilo que sinto por você. Eu gosto muito dele, mas é você que eu amo. Ponha isso nessa cabeça dura.
Ele riu.
— Eu sei, amor. Agora estou certo disso. Não posso ter ciúme dos seus sonhos de criança. Só o presente me importa. — Fez uma pausa e olhou bem dentro dos olhos dela. — Você quer se casar comigo, Hermione?
Silêncio por um instante.
— Por que demorou tanto para me perguntar? — E abriu os braços para ele, julgando que fosse morrer de tanta felicidade.
Hermione acordou com o sol batendo no rosto e Rony mordiscando o lóbulo da sua orelha. Não precisou abrir os olhos para saber que o dia estava lindo. Em algum momento durante a noite, a chuva caíra e fizera a manhã nascer limpa e fresquinha. Sem abrir os olhos, ela suspirou e espreguiçou-se. Os lábios de Rony estavam agora no seu queixo.
— Eu adoro o modo como você acorda, sabia? — murmurou ele, e escorregou as mãos para os quadris de Hermione, atraindo-a mais para perto.
— Mmmm... Que horas são?
— Quase onze. — Os lábios de Rony finalmente encontraram os dela.
Num movimento cheio de preguiça, Hermione passou os braços em volta do pescoço dele.
— Eu já lhe disse que adoro quando você me beija desse jeito?
— Não. — Inclinando a cabeça, beijou-a novamente. — Por que não diz agora? Sempre é tempo.
— Se eu fizer isso... mmmm... você vai ficar insuportável.
Rindo, Rony pressionou os lábios na curva do ombro dela.
— Estou louco por você, Mione. Quando vamos nos casar?
— Logo — afirmou. — Puxa, quando eu contar à minha avó, ela... — Parou de falar repentinamente e arregalou os olhos. — Meu Deus, o almoço!
— Para ser sincero, não era bem nisso que eu estava pensando. Estou faminto por outra coisa. — E deu-lhe uma mordidinha na orelha.
— Não, você não entendeu. Precisamos correr ou estaremos em sérias dificuldades, —- Tentou empurrá-lo para o lado. Rony, porém, agarrou-a pela cintura, forçando-a a permanecer deitada.
— Se você não ficar exatamente onde está — murmurou de encontro aos lábios dela —Quem vai ficar em dificuldade serei eu.
— Ronald... — Hermione desviou o rosto, mas ele não se incomodou e pôs-se a beijar-lhe o pescoço. — O almoço de domingo é sagrado para minha avó — afirmou, enquanto sentia o corpo acender-se.
— Você sabe cozinhar?
— Hein? Bem, acho que sim, isto é, se o seu estômago não for muito exigente. Ronald, não. — Perdendo o fôlego, ela segurou a mão que vagueava pelo seu corpo.
— Por que não almoçamos por aqui mesmo? Não estou com a menor vontade de sair da cama.
— Ronald... — Sacudiu a cabeça, como se quisesse pôr os pensamentos em ordem, e segurou os ombros dele com firmeza. — Já que você vai fazer parte da família, é bom ir se habituando com certas regras. O almoço de domingo — continuou em tom didático, fazendo-o divertir-se com aquilo — é uma tradição. Ai daquele que se atrever a rompê-la, faltando ou simplesmente chegando atrasado.
— Eu sou um iconoclasta.
— Morda a língua, Ronald Weasley— disse ela, achando graça. — Vovó poderá me perdoar, um dia, por eu me casar com um yankee, mas nem por isso vai me deixar escapar dos almoços de domingo, exceto por motivo de viagem. Ela nem ao menos tolera que eu chegue atrasada.
Rony soltou um suspiro desanimado, mas acabou cedendo.
— Está certo. Tudo por Olívia. — E permitiu que Hermione se levantasse.
— Eu vou tomar um banho bem rápido — ela avisou, en quanto se dirigia ao banheiro. — Se nos apressarmos, poderemos evitar a hecatombe.
— Se tomarmos banho juntos, ganharemos tempo — disse ele, alcançando-a na porta.
— Ronald! — Rindo, pousou as mãos no peito dele. — Assim vamos ficar realmente em apuros.
Ele a puxou de encontro ao corpo.
— Não faz mal. Vale a pena arriscar.
— Rony...
— Esqueça. — Levou os lábios até os dela. — Eu sei como acabar com os seus argumentos.
— Oh, Deus, estou perdida! — murmurou, enroscando-se nele.
Estavam atrasados. Bem atrasados.
— Vamos ouvir um sermão — Hermione queixou-se, quando Rony entrou na rua que levava à casa de Olívia.
— Não valeu a pena nos atrasarmos um pouco? — Ele sorriu com malícia.
— Só um favor: tire do rosto esse sorriso de gato que acabou de devorar o canário. Tente se mostrar despretensioso.
— Nós podemos usar a desculpa do pneu furado — sugeriu ele.
— É uma desculpa mais do que esfarrapada.
— Tem razão. Acho melhor procurarmos outra.
— Bem, eu tenho um jeito. Talvez não funcione, mas não temos outra escolha. Atrase o relógio, Ronald.
— O quê?
— Atrase o relógio, depressa — ordenou ela, enquanto estacionavam ao lado do carro de Harry. — Meia hora.
— Calma, o que ela poderá fazer conosco? Queimar-nos vivos numa fogueira?
— Você não está tão longe assim — Hermione retrucou. — Quieto, ela vem vindo. Escute, sei que isso é quase impossível para você, Ronald, mas tente parecer inocente.
— Para falar a verdade, estou pensando em deixá-la aqui e aparecer para apanhá-la mais tarde. Daqui a duas horas, combinado?
— Faça isso e eu lhe quebro o braço! — ameaçou-o, enquanto saía do carro. — Vovó! — Foi ao encontro dela de braços abertos, toda sorrisos. Beijou-lhe as duas faces e fingiu não notar a frieza daqueles olhos verdes. — Você está linda!
— E você atrasada — Olívia retrucou secamente.
— O que é isso... Alguns minutinhos apenas. Olhe, trouxe Rony comigo — desconversou, na esperança de distraí-la.
— Olá, Olívia. — Rony pegou a mão que a mulher lhe oferecia e depositou um beijo nela. — Espero não ser um intruso.
— Vocês estão atrasados — repetiu ela, olhando para os dois com ar de censura.
— Atrasados? Como pode ser isso? — Ele olhou para o relógio. — Ainda não é uma hora.
— Esse truque é mais velho do que eu. — Olívia ergueu o queixo à maneira da neta. — Por que vocês estão atrasados?
Hermione umedeceu os lábios, sem saber o que dizer.
— Sabe o que é, vovó...
— Foi minha culpa, Olívia — Rony interveio, ganhando um olhar agradecido de Hermione. — Eu a fiz perder a noção do tempo durante o banho.
— Ronald! — Hermione exclamou, horrorizada, desejando que o chão se abrisse sob os seus pés.
— Como? — Olívia perguntou, com a expressão severa.
— Vovó, eu...
— Quieta, menina — ordenou ela, sem desviar os olhos de Rony. E então, inesperadamente, abriu o maior dos sorrisos. — Agora que você me explicou, posso dizer que o motivo foi mais do que justo. Afinal, um simples almoço pode esperar, não é mesmo?
Rony sorriu também, ao passo que Hermione sentia a garganta completamente seca.
— Vocês vão se casar, não é? — Olívia continuou. Não era uma pergunta, mas uma afirmação.
— Mais depressa do que você imagina, Olívia. Não posso ficar um segundo longe da sua neta. — E sorriu, cúmplice, para Hermione, que ainda não se refizera da surpresa.
— Nesse caso, bem-vindo à família, yankee. — Piscando para Hermione, ela estendeu a mão para Rony, permitindo que ele a conduzisse para o interior da casa.
"Minha avó é a criatura mais maravilhosa que eu conheço", Hermione disse consigo, cheia de amor e orgulho, enquanto seguia os dois, subindo os degraus da varanda.
Com o bom humor e a vivacidade de sempre, Olívia dominou a mesa. O filho estava sentado à outra extremidade e, entre eles, a geração mais jovem. De acordo com a tradição dos domingos, o almoço foi servido em baixela de prata. A toalha de linho branco e os copos de cristal eram presenças indispensáveis. A conversa girou em torno de assuntos gerais, todos participando animadamente.
Hermione notou, satisfeita, que Gina parecia outra mulher, mais segura e muito mais bonita. A tristeza não abandonara de todo aqueles olhos castanhos, mas parecia estar sumindo aos poucos. Ela captou, no olhar que a jovem lhe dirigiu, um misto de ternura e confiança, e sentiu-se aquecida por dentro, certa de que uma forte amizade estava nascendo entre elas. Perspicaz como era, Hermione também não poderia deixar de notar a sutil troca de olhares entre Gina e Harry. Feliz pelo irmão, torceu intimamente para que os dois acabassem engrenando um namoro.
Olhou, apaixonada, para Rony. Meu Deus, como era maravilhoso o que estava acontecendo entre eles! Agora acreditava que a felicidade não era apenas um sonho.
— Estive pensando... — Olívia revelou, como quem não quer nada. — O jardim seria um lugar estupendo para uma festa de casamento. O que vocês acham?
— Que tal realizarmos essa festa no próximo fim de semana? — Rony sugeriu, antes de tomar um gole de café.
— Ronald, não dê corda — William advertiu-o. — Minha mãe será capaz de fazer Harry processá-lo por não cumprir a palavra.
— Positivamente certo! — Olívia concordou, dando risada. E, pousando a mão sobre o braço da neta: — Nós o agarramos, Mione. William! Não vai fazer as perguntas de praxe? — William engasgou no meio da risada. — Não precisa ficar nervoso, filho, mais cedo ou mais tarde, você teria que assumir esse papel — zombou ela. — Um pai tem que zelar pelo futuro da filha, especialmente quando esse futuro está nas mãos de um yankee.
— É bom que todos saibam da verdade — Hermione sentenciou, antes que o pai tivesse chance de dizer algo. — Ronald quer se casar comigo para poder morar nesta casa e ficar perto da vovó sem despertar suspeitas.
Risos gerais.
— Estão rindo de quê? — perguntou Olívia, fingindo espanto. — Pois fiquem sabendo que ainda posso dar um banho em muitas mulheres com a metade da minha idade.
— Hermione, Ronald... — William começou, com ar solene, mas parou no meio, sem saber o que dizer. O embaraço dele provocou novas risadas. — Calma, pessoal, desse jeito não posso me concentrar. Bem, não tenho muita prática em situações como esta — prosseguiu —, mas o fato é que nada poderia me deixar tão contente quanto essa notícia.
— Está indo bem, filho, continue — interrompeu-o Olívia. Ele olhou para a mãe e meneou a cabeça, conformado. E, dirigindo-se novamente aos dois:
— A verdade é que isso me pegou de surpresa. Nem desconfiava que vocês gostavam um do outro.
Dessa vez, foi interrompido por Harry:
— Há muitos anos, Rony ficou fascinado por uma fotografia — disse, sorrindo, lembrando-se de todas as perguntas a que fora obrigado a responder sobre a moça daquela foto. — Desde aquela época, Ronald?
— Pois é, desde aquela época — ele confirmou, voltando o olhar para Hermione.
— Que segredo bem guardado, hein? — admirou-se o pai...— Mas, e quanto a você, minha filha? Se me lembro bem, você tinha um adjetivo especial, quando queria se referir a Rony.
— Insuportável — respondeu ela, sorrindo. — Eu continuo a usá-lo, de vez em quando — brincou, piscando para o futuro marido.
— São essas coisinhas que apimentam um relacionamento — concluiu Olívia, com ar malicioso, e arrastou a cadeira para trás, dando a refeição por encerrada. — Gina, querida, quer fazer um favor para mim?
— Claro, Sra. Grangeer.
— Então vá até o meu quarto e traga-me o medalhão que está nó porta-jóias sobre a penteadeira. É um de ouro e pérolas, não há como se enganar.
Tão logo a moça saiu, Olívia voltou-se para Harry:
— Você vai deixar esse yankee passar-lhe a perna, Harry?
— Como assim, vovó?
— E você ainda pergunta? Ele levou um ano para se decidir. Espero que você aja em menos tempo.
— Mamãe, dê-se por satisfeita com uma vitória — disse William.
— Pois fique sabendo que, depois que eu resolver o caso de Harry, vou me concentrar no seu.
— Ah, Rony— William chamou-o, levantando-se da mesa. — Há algumas coisas que eu gostaria de discutir com você. — E, pousando a mão no ombro do futuro genro, conduziu-o para fora da sala.
— Covarde — Olívia murmurou, meneando a cabeça como quem se vê diante de um caso perdido.
— É este, Sra. Granger? — perguntou Gina, estendendo-lhe um medalhão cravejado de pequeninas pérolas.
— Este mesmo, minha querida. Obrigada. Harry, por que não leva Gina para dar um passeio no jardim? Você gosta de lá, não é, Gina?
— Gosto, sim. — Gina baixou os olhos para as mãos e, em seguida, olhou timidamente para Harry. — Gosto muito — repetiu.
— Não ouviu o que ela disse, Harry? O que está fazendo aí parado? — E, sem fazer pausa, voltou-se para Hermione: — Agora nós duas precisamos ter uma conversinha.
Os outros dois já haviam escapulido para o jardim, quando Hermione abraçou a avó afetuosamente.
— Eu adoro você, sabia?
Olívia sorriu e estudou a neta com atenção.
— Está feliz, Mione?
— Não dá para notar? — Sorriu e jogou os cabelos para trás. — Se você me perguntasse isso há um mês... Bom Deus, há uma semana — consertou, maravilhada —Eu teria dito que... — Parou no meio da frase e sorriu outra vez. — Ê melhor eu não repetir o que teria dito.
— Você esteve fugindo esse tempo todo, não é? Escondendo de si mesma que se sentia atraída por Ronald.
— Você deve reconhecer que eu disfarço muito bem.
— Ah, mas nesse ponto você é igualzinha à sua avó — Olívia disse, toda orgulhosa.
— Esse é o maior elogio que eu poderia receber.
Olívia descansou o medalhão no colo e tomou as mãos de Hermione entre as suas.
— Quando se ama, quando se ama de verdade, isso é tudo o que importa. O amor é o bem maior de toda a humanidade, e, comparado a ele, todo o resto é insignificante. Seu avô ... — Suspirou diante da recordação, a expressão tornando-se subitamente mais jovem. — Deus, como amei aquele homem... Quinze anos na companhia dele foram como uma fração de muito quando ele morreu, muito. Mas a vida tinha que continuar, não é mesmo? Os outros depois dele foram... — Balançou a cabeça e sorriu. — Ora, não foram nada, a não ser divertimento. Eu tive todos os homens que quis, mas só um me teve, e é a ele que devo os momentos mais felizes, mais intensos de toda a minha vida. É o amor, Mione— murmurou. — Você agora compreende isso. E aquele yankee também.
— É verdade — Hermione sussurrou, emocionada, piscando por causa das lágrimas. — Ah, vovó, como eu gosto de você!
— E você é minha única neta, a minha neta muito querida. Por isso quero que fique com este medalhão. Ele agora é seu. — Permaneceu alguns instantes segurando a jóia com as duas mãos, como se quisesse passar-lhe calor. — Foi um presente do seu avô, quando ficamos noivos. Significa muito para mim e você vai me fazer muito feliz se o usar no dia do seu casamento.
— Mas é lindo! — Hermione recebeu a jóia e contemplou-a, embevecida. — Por que nunca vi você com ele?
— Porque ele esteve guardado desde que seu avô morreu. Agora é o momento para entrar em uso novamente, completando o seu traje de noiva.
Hermione deu-lhe um beijo e voltou a admirar aquele presente tão bonito e tão significativo. Ele ficaria lindo num vestido de renda, bem romântico e.. .
Meu Deus! A lembrança surgiu repentinamente, como um raio, fazendo a sua testa latejar.
— Hermione? O que foi, querida?
— Hã? Não, não foi nada. — Sorriu distraidamente. — É que eu acabo de me lembrar que preciso dar um telefonema — desculpou-se, deixando a mesa.
Chegando ao telefone, discou para Heritage Oak. Estranho o modo como a memória desperta de uma hora para outra, refletiu, com os olhos no medalhão da avó e a mente no medalhão que Rony encontrara no pântano.
— Alô? — Atenderam do outro lado.
— Françoise? Aqui é Hermione. — Silêncio. — Por favor, Françoise, eu sei que está zangada comigo, depois de tantas perguntas. Sinto muito, muito mesmo, mas preciso de você mais uma vez.
— Não tenho o direito de ficar zangada com você, Hermione— a caseira retrucou secamente. — Como também não tenho a obrigação de responder sobre coisas que não me dizem respeito.
— Por favor, é só uma coisinha! Prometo não tornar a aborrecê-la com perguntas. — Nem esperou que a outra falasse e prosseguiu: — É sobre um medalhão, o medalhão que Victor deu a Elise antes que eles se casassem. Ela o usou no dia do casamento e, se me lembro bem, esteve sempre com ele desde então. Você se recorda? Era de ouro, todo trabalhado...
— Eu me lembro, sim.
Hermione sentiu as pernas fraquejarem.
— Ela o usava sempre, não é? — insistiu, arrasada. — Tanto para sair quanto para ficar em casa.
— De fato, era hábito da Sra. Krum estar sempre com ele.
Hermione engoliu duas vezes, antes de voltar a falar:
— Elise tinha medo do pântano, Françoise? — Ela sabia de antemão a resposta, mas precisava da confirmação, não importava quão dolorosa fosse.
— Já faz muito tempo, Hermione.
— Por favor, Françoise, responda.
— Ela não gostava de lá — admitiu com relutância. — Sabia das lendas que cercavam o local.
— Mas, algumas vezes, ela se arriscou a entrar, não é?
— Poucas vezes, sempre acompanhada do Sr. Krum.
— Sim, eu sei. — Hermione deixou escapar um longo suspiro.— Apenas na companhia dele. Está bem, obrigada, Françoise. Era só isso.
Desligou e olhou fixamente para o medalhão. Guardou-o no bolso do vestido e saiu à procura de Rony.
Ele a avistou no momento em que ela atravessava o gramado. Trocou algumas palavras rápidas com William e foi ao encontro dela. Mesmo a distância, reconheceu o brilho diferente naqueles olhos que buscavam os seus.
— O que foi, Hermione?
Ela o abraçou e recostou a cabeça no peito dele. Por um momento, era só daquilo que necessitava, da força, do calor e da segurança daqueles braços. Sentia-se como se lhe houvessem arrancado um pedaço do coração. Que fora feito do Victor que ela amara na infância? Em que espécie de monstro ele se transformara?
— Ronald, onde está aquele pedaço de metal que nós encontramos no pântano?
— Eu o levei para o laboratório da polícia. Eles estão fazendo alguns testes. — Separou-se alguns centímetros dela, apenas o suficiente para enxergar-lhe os olhos. — Por quê?
Hermione deixou escapar um suspiro.
— Então eles vão descobrir que a poeira que está envolvendo o ouro foi acumulada durante dez longos anos.
— Dez anos? — Um clarão atravessou-lhe a mente e num segundo ele compreendeu tudo. — Ele pertencia a Elise, não é?
— Eu afinal me lembrei de onde o havia visto. Acabo de telefonar para Heritage Oak e Françoise confirmou tudo o que eu já sabia. Claro que o medalhão ficou gravado na minha mente, Elise não se separava dele.
Ela estava tão pálida, tão abatida, que Rony, por amá-la demais, acabou fazendo o papel de advogado do diabo.
— Calma, isso não prova nada. Ela pode simplesmente tê-lo deixado cair numa das suas andanças pelo pântano.
— Talvez isso não seja uma prova concreta — concordou Hermione—, mas eu não creio que Elise tenha simplesmente perdido o medalhão. Em primeiro lugar, porque era um objeto muito importante para ela. Em segundo lugar, porque ela não costumava ir ao pântano com freqüência. Não era tão medrosa quanto Anne, mas tinha respeito pelas lendas e superstições. Nas poucas vezes em que se atreveu a ir até lá, estava na companhia de Victor. A caseira acabou de confirmar tudo isso.
Rony podia ler a emoção e a angústia naquele semblante tão querido. Dessa vez, entretanto, não sentiu ciúmes. Gentilmente, segurou o rosto dela entre as mãos.
— Sinto muito, Hermione. De verdade. — Ela lhe segurou os pulsos com força.
— Eu também. Deus, como Victorteve coragem...
— É melhor não contarmos nada a Gina, por enquanto.
— Tem razão. Já temos indícios suficientes para pedirmos que retomem as investigações sobre a morte de Anne. Vamos esperar pelo relatório da polícia antes de colocarmos Gina a par dos fatos.
— Podemos também exigir uma investigação acerca do paradeiro de Charles e Elise.
— Ronald, se tudo isso for verdade... se Victor... — Não conseguiu terminar. — Ele deve estar muito doente.
— Eu sei. — Traduziu em voz alta os pensamentos dela:
— Ele matou Charles e Elise num acesso de fúria, ao surpreendê-los juntos. Durante dez anos, ficou acumulando toda a carga de sentimentos negativos, consumindo-se em ódio, rancor e amargura. Foi então que conheceu Anne, cuja semelhança física com a primeira esposa era de fato espantosa. — Deu de ombros.
— Não adianta tentarmos uma explicação racional para esse último assassinato. Quem pode saber o que se passa numa mente perturbada?
— Rony, Victor precisa de ajuda. Você pode imaginar o inferno em que ele está vivendo?
— Ele terá ajuda, Hermione. — Segurou-a pelos ombros e olhou fixamente para ela. — Isso vai ser doloroso para você, amor.
— Eu sei — concordou ela. — Mas precisamos fazer o que é necessário. — Olhando bem para ROny, Hermione pôde perceber que uma idéia tomava forma na mente dele. — Está pensando em quê, Ronald?
— Qual seria a reação de Victor, se nos lhe mostrássemos o pedaço de medalhão que encontramos?
— Não sei... Acho que ele sofreria um impacto.
— E, sentindo-se acuado, ele seria bem capaz de confessar tudo. É uma possibilidade. — Entreolharam-se em silêncio por alguns instantes e, quando Rony voltou a falar, Hermione já sabia o que ele tinha a dizer. — Vamos fazer outra viagem a Heritage Oak, amanhã.
O próximo capítulo será o último, infelizmente não terá epílogo.
Gente estou me sentindo muito insegura com minhas fics e preciso de comentários entao or favor comentem!
Até a próxima.
