Capitulo XI

-Então, quem vai chamar para o seu aniversario?

Gregory olhava distraído para a TV do seu apartamento, com Henri encolhido em seus braços de baixo de um cobertor grosso. Haviam voltado das montanhas a quase vinte dias, exatamente quando começara a nevar. Cada lugar da Grande Maçã parecia anunciar o Natal, mas havia um acontecimento antes dele chegar. O aniversario de Henri, no dia seguinte.

-Eu perdi o contato com todo mundo Greg. – murmurou o garoto olhando para o jogo de futebol sem muito interesse. – e não vamos dar uma festa nem nada...ou vamos?

-Pensei em levar você a um restaurante, conhecer uns amigos meus também. Você é oficialmente meu enteado agora, esta morando comigo porque seus pais não podem cuidar de você por enquanto. Mas seria bom se você levasse um amigo também.

O médico se ajeitou no sofá, passando a ignorar o jogo e olhando esperançoso para o mais jovem. Henri parecia feliz ao lado dele, cuidando do apartamento e lhe recebendo muito bem depois de cada turno longo no hospital. Mas não conversava muito com mais ninguém. Tinha medo de sair na rua e ser reconhecido, e vez por outra o médico pegava o pequeno olhando tristonho para a fotografia da família. E Greg não queria que seu pequeno principe, como sempre chamava internamente, fosse um adolescente triste e sem amigos.

-Eu não tinha muitos amigos antes...acho que não tenho nenhum agora...

-Não é possível um jovem de quase dezesseis anos não ter nenhum amigo! Vamos Henri, pense em alguém. Alguém em que você confie.

E Henri pensou. Pensou por vários minutos antes de se lembrar de um rosto sorridente e moreno, em quem com certeza poderia confiar.

-Eu acho que tem alguém sim... – sorriu imaginando a cara do amigo quando ligasse.

Carlos estava acostumado a carros chiques e luxuosos, por causa de seu servissinho noturno, mas nunca tinha entrado em um restaurante tão obviamente caro. Mal acreditara quando ouviu a voz de Henri no telefone, perguntando se queria ir a um jantar no dia seguinte para comemorarem o seu aniversario. Sabia que o antigo colega de classe tinha fugido de casa fazia tempo, e havia perdido as esperanças de reencontra-lo. Ainda mais do jeito como encontrou no dia seguinte.

Henri tinha ido buscar Carlos vestido numa impecável camisa de marca, os cabelos cortados corretamente e penteados, e num carro enorme e preto dirigido por um rico alto e bonitão. Ouviu um resumo da história deles a caminho do restaurante e a cada palavra sorria mais, ao fim não evitando um comentário malicioso.

-E eu achando que você era um santo Grant!

Henri corara até a raiz dos cabelos e coubera a Greg, que simpatizara com o latino, resumir a outra história, a que contariam durante o jantar. Carlos concordara com cada palavra e em ajudar o casal, mas se preocupou em como se comportaria em um lugar tão classudo. Preocupação que aumentou ao entrar no restaurante enorme com musica clássica ambiente e granfinos por todos os cantos. Henri também não parecia confortável.

-Hey, não é tão difícil quanto parece – murmurou o médico divertido ao ver a cara dos dois mais jovens – é só me imitar com os talheres e não se divertir de mais. – disse rindo ao ser levado pelo maitre a mesa reservada.

Estavam começando a tomar suas bebidas quando chegaram os outros convidados. Tim Robb, um colega e amigo de Gregory, um ano mais jovem e com uma aparência meio infantil de garoto levado. E Charles Brock, o administrador da escola para onde Henri iria depois, um quarentão meio austero mas bondoso, que insistira em conhecer o novo aluno. Gregory os apresentou e pediu vinho para os mais velhos, e um refrigerante para os dois mais novos. Carlo pensou em protestar, mas se calou ao ver o olhar de Henri.

-Então, o que quer pedir Henri? Você escolhe, já que é seu aniversario. – Greg sorriu e entregou o cardápio a Henri, que abriu nervoso e descobriu que não sabia muito bem como pronunciar o nome daqueles pratos.

-Ãhn...o que você acha melhor?

-Eu preferia um cachorro quente com bastante mostarda, mas se quer uma opinião sincera o Beef Wellington é bastante digerível – disse Tim com um meio sorriso arrancando risadas de todos.

Henri estranhou o fato de não ter tanta dificuldade com os talheres quando o prato principal chegou, mas estava um pouco nervoso ao responder as perguntas do diretor. Charles, porem, estava encantado. Não só com Henri, mas também com Carlos que era solto e espontâneo e tinha um incrível jogo de cintura. Já imaginava os dois, Henri como um grande engenheiro ou advogado, Carlos como um político de prestigio. E afinal, o garoto era um xará. Estava pensando seriamente em oferecer mais um bolsa de estudos.

-Hey Timy, como vai aquela moça que... – Greg perguntou enquanto deixava Carlos numa discussão divertida com Charles sobre a relação entre políticos e crianças.

-Laura? Me deu um fora.

-Oh...

-Eu não senti muito não, ela era bem fútil. – Tim deu ombros, ao que foi cortado por Henri.

-Não tem muitas moças ricas e sérias por aí...

-Eu honestamente não ligaria de namorar uma empregada doméstica, se ela fosse gentil e não ligasse tanto assim para o estado das próprias unhas.

Logo em seguida o telefone de Greg e de Tim tocaram quase ao mesmo tempo, e eles se olharam com cara de quem entende algo. Gregory atendeu o dele primeiro, franziu as sobrancelhas, e trocou algumas palavras com a pessoa do outro lado, e desligou com um suspiro. Tim ouvia em silencio, e desligou rapidamente. As feições infantis adquirindo seriedade de repente.

-Loreta... – murmurou se levantando.

-Aham...o que prevíamos. Desculpe garotos, acho que eu temos que ir.

-Não, fique aqui. Eu vou.

Rapidamente o moreno com ex cara de criança deixou algum dinheiro sobre a mesa e partiu, antes que Greg pudesse protestar. Loreta havia se tornado seu principal caso clinico, a garotinha de seis anos e câncer ósseo era praticamente uma filha pra ele. Henri admirava esse tipo de dedicação, Gregory agradecia aos céus por ter deixado o caso nas mãos dele. Não podia ter deixado a ruivinha em melhores mãos.

-Bem... preferia que o Timy estivesse aqui também mas, vamos a sobremesa então? – ele perguntou depois de uns momentos com a mesa em silencio.

-Claro, claro... creme Brulê? – Charles perguntou, pronto para pedir o cardápio, mas Greg o impediu com um sorriso.

-Não amigo, hoje é uma noite especial para o seu futuro troféu do Instituto London. Vamos pedir algo especial.

Henri corou o ouvir o namorado falando assim, e Carlos escondeu um pequeno sorriso numa tosse. O diretor devia ser muito inocente mesmo, até uma criança perceberia que Gregory estava apaixonadíssimo pelo 'enteado'. E isso se provou no instante em que ele fez um gesto para o garçom, que sorriu e chamou outros com a mão. Um deles trazia um pequeno bolo de morangos e glacê branquinho, enquanto o outro tocava num violino um animado 'parabens a você'. Todos na mesa acompanharam a musica, e até algumas pessoas das outras mesas, deixando Henri entre envergonhado e radiante.

-Faça um pedido Henri! – disse Carlos olhando as dezesseis velinhas acesas em cima do bolo.

-Tudo o que eu quero eu já tenho – murmurou o garoto antes de soprar as velinhas e rir junto com todos os outros.

Do outro lado da cidade, as coisas não eram tão bonitas. Jenna apertava com força nas mãos a carta do irmãozinho menor, enquanto gritava com o outro irmão, embriagado como quase todos os dias nos últimos tempos.

-GRAÇAS A VIRGEM QUE ELE NÃO ESQUECEU DA GENTE JONAS, PORQUE VOCÊ ESQUECEU!

-...eu não fugi de casa como um co-covarde...

-NÃO, VOCÊ DECIDIU QUE QUER ACABAR COMO O PAPAI, NÃO É? FRACO!!! Vo...você só atrapalha nessa casa...Henri mandou dinheiro como prometido...e uma carta dizendo que está bem e feliz...e com saudades...mas você não se importa. Não, você só vê a si mesmo...

-EU! NÃO! SOU! FRACO!!! – Jonas reuniu o pouco de sobriedade que tinha e saiu batendo a porta, deixando a irmã com lagrimas nos olhos, e as duas menorzinhas olhando assustadas. Jenna se deixou cair no sofá tentando segurar as lagrimas.

Jonas se sentia uma ruína. Sabia que a irmã estava certa, no fim, mas era teimoso de mais para admitir. Culpava Henri pela desgraça deles, por perder todos os empregos, por deixar de ser um jovem bonito e galante para se transformar num bêbado qualquer. Ele não conseguia... cada vez que via uma garrafa sentia como se o mundo conspira-se para que ele acabasse com ela, de uma vez. Ninguém o queria mais, não conseguia arrumar um emprego. A verdade é que se não fosse o dinheiro que Henri havia mandando eles teriam passado grande dificuldade naquele mês. E hoje...ele se lembrou num estalo, andando a esmo pelas ruas, era aniversario dele. Aniversario do seu irmãozinho...não, aquele bastardo havia fugido, covarde!

A embriagues fazia com que ele caminha-se cada vez para mais longe, alternando períodos de ternura com de puro ódio para o irmão fugido. Deu-se conta que estava num bairro rico quando as pessoas começaram a desviar dele, com nojo.

O jovem encostou-se numa parede e foi escorregando, até o chão, como um pobre mendigo qualquer. Sentia-se sozinho...terrivelmente sozinho. Um restaurante de granfinos fervia do outro lado da rua. Sentia falta de Henri, todos os garotos se pareciam com ele naquela rua. Um homem alourado e alto saiu do restaurante seguido por um mais velho e gorducho e por dois garotos mais ou menos da idade do irmão. Hey, aquele garoto realmente parecia Henri, parecia absurdamente com ele. Exceto que estava sorrindo, e Henri raramente sorria. Com dificuldade, Jonas se levantou tentando olhar o garoto melhor, mas assim que se pôs de pé os garotos e o homem alto entraram dentro de um carro luxuoso e negro. Jonas ficou olhando o carro se afastar, e sem saber o que fazer atravessou a rua. O velho gorducho ainda estava ali, esperando pelo manobrista. Não teve coragem de falar com ele, parecia tão sério! Logo o carro dele chegou, no instante em que seu telefone tocava. O homem gorducho o atendeu enquanto entrava no carro.

-alo?...sim sim, estou voltando querida...conheci-o hoje, o Henri...ótimo garoto... – e então a porta do carro se fechou e Jonas não pode ouvir mais nada.

Ficou plantando onde estava por muito tempo antes de ser enxotado pra outro lugar.